PADRE CÍCERO AD AETERNITATEM - Autora: Maria Hilma Arraes
PADRE CÍCERO AD AETERNITATEM
Dedicatória
A minhas filhas e netos, todo meu afeto.
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A meus pais e irmãos, in memorian.
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Às memórias de Luís Gonzaga,
do Padre João Câncio de Oliveira
e de Patativa do Assaré, o grande menestrel
que enternecia o sertão ao som
da viola, no seu cantar elegíaco.
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À memória de três Arraes, para mim inesquecíveis:
Abigail, minha primeira Professora -
com ela, aprendi a soletrar.
Meu tio Enéas, símbolo de decência.
E Miguel, por seu exílio imerecido.
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APRESENTAÇÃO
Foram anos de leitura e
pesquisa de interpretação de uma história misteriosa, obscura, conflitante, e
até hoje uma incógnita, que teve grande repercussão no Nordeste, causando
impacto no clero da época. Fato ocorrido na Capela de Nossa Senhora das Dores
na povoação do antigo Joaseiro, no ano de 1889, ficando conhecida como o fenômeno da hóstia ensanguentada,
passando à História como “Milagre do Juazeiro”. Desde muito jovem, essa
história despertou em mim muita curiosidade e desejo de um dia escrevê-la. Li
tudo que sobre ela se escreveu, desde o aparecimento do fenômeno no século
passado, até o presente momento. Não sou uma historiadora, na acepção do termo,
nem tenho a pretensão de ofuscar autores que dela já se ocuparam. Pretendo aqui tão somente relembrar algumas
passagens que foram distorcidas da sua realidade e evocar personagens que deram
sustentação à história mística, resgatando alguns personagens nela envolvidos,
sobretudo a beata Maria de Araújo, protagonista do milagre da conversão da
hóstia
Seu desaparecimento, em 1934, não
o fez esquecido. Padre Cícero permanece indelével na lembrança do nordestino,
que o teve presente por quase um século de existência, quase todo passado no
Joaseiro primitivo, quando lá chegou como Cura da minúscula e obscura povoação.
Prova-o a grande peregrinação do dia 2 de novembro, atestado eloquente
de que ele continua presente em suas memórias, quando uma imensa multidão toma
conta das suas ruas, das suas igrejas, num vai e vem frenético, reverenciando-o
com cânticos, queima de fogos e missas durante todo o dia. Talvez não seja a
única no país, mas certamente a maior.
Portador de extraordinário
carisma acompanhado de uma mística sagrada, a todos envolvia. Assim viveu toda sua
vida, a transmitir esse halo de fé, bondade e altruísmo, passando à História. Sua
personalidade envolvente, sedutora, e porque não dizer, misteriosa causava
comoção a quem dele se aproximava, o que o fez inesquecível. Ele marcou uma
Era. A Era Padre Cícero. Sua
história é transcendental. Condutor de uma imensa massa de esquecidos e
desprezados, restaurou-lhes socialmente, dando-lhes cidadania. Para os
nordestinos, ele era um Deus, Profeta e Oráculo, e a eles dedico este
livro, para eles, escrevi. Romeiros de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, primeiros
a chegarem ao antigo Joaseiro, atraídos pelo milagre da hóstia em sangue no ano
de 1889, lá ficando para sempre, hoje representados por seus descendentes. É
também dos repentistas do Cordel, que o canonizaram, sublimando-o com
seus versos barrocos e hiperbólicos, eternizando-o. O Jesuíta e poeta Aires de
Montalvo o evocou dizendo:
“O Padre Cícero foi o maior líder natural que
já deu o nosso povo.”
O carisma acompanhado de mistério
envolvia a todos, e lendas se criavam em torno de sua pessoa, como a de que, ao
contato de suas mãos, dos seus dedos saía um fluido divino, para outros,
magnético, fazendo parar o relógio de bolso que trazia consigo. E os casos
aconteceram, impressionando os ânimos. O aparecimento do fenômeno da
transformação da hóstia em sangue no ano de 1889, do qual foi protagonista a
célebre beata Maria de Araújo, redundou numa polêmica com o clero, causando-lhe
grandes sofrimentos, que teve a duração de 45 anos. O Bispo Dom Joaquim José
Vieira, titular da Diocese do Ceará à época desse fato, jamais aceitou como
sendo de ordem sobrenatural, e dizia: tudo era apenas um fenômeno de efeito
puramente natural. Eis o epicentro da divergência entre ele e o Bispo, um fato
que abalou a Igreja e o clero do século XIX, no Ceará, e no Brasil.
Cristalizado em convicção popular como milagre, o Padre Cícero sublimou, como
divino, e para ele, e os que o acompanharam, um dogma.
O memorável acontecimento, até
hoje uma incógnita, é a parte principal desta história contida nestas páginas,
que ora entrego ao público do Nordeste. Escrita e reescrita tantas vezes, o
que vale dizer, ela não é nova. Ao Bispo Dom Joaquim José Vieira coube a
investigação do inusitado caso, que culminou com suspensão de todas as suas
ordens e seu banimento para sempre do clero. Foi chamado à Roma, para se
explicar ao Sacro Colégio, instância máxima, lá recebendo a mesma sentença,
ratificando assim o que lhe havia dado o bispo do Ceará, morrendo suspenso de
ordens. A lista dos seus sofrimentos é longa e impressionante. Este livro é um
pequeno contributo à história religiosa do Padre Cícero, injuriado e difamado
pelo clero da época, que o julgou herético e paranóico. Lembrando aos leitores
que não sou uma especialista em hermenêutica, pretendi aqui, embora tarde (a
mim me parece), um resgate de uma história de crueldade e perseguições que o
tempo não esqueceu: refiro-me especialmente ao caso da beata Maria de Araújo e
o comovente desfecho de sua história.
Apesar da complexidade do
assunto, tentei interpretar o fenômeno religioso do Juazeiro por outro ângulo
que não o da farsa, como dizia o clero. Por isso esperei bastante tempo para
que pudesse dar vida, através de documentos não só escritos, mas também da
memória coletiva, fonte da verdade. Este livro que ora entrego ao público, e
que julgo imparcial, é de minha inteira responsabilidade. Ele começa pelo
Joaseiro primitivo, fechando com os últimos instantes do Padre Cícero, à frente
da cidade que construiu com dedicação. A lista de personagens que fizeram parte
desta história grandiosa e conflitante é extensa: muitos padres, bispos,
políticos de nomeada, gente do povo, leigos, beatos e beatas, num total de
quase cem, são aqui citados. Três se destacaram entre os demais: o teólogo da
conturbada e confusa história do Milagre, José Marrocos, classificado pelo
clero como o impostor da fraude. Adiante destacarei o papel desempenhado por
ele, em todo o percurso da longa e intrincada história. José Joaquim de Maria
Lobo, personagem curioso e célebre no seu tempo, por ter fundado a Legião da
Cruz e ter ido três vezes a Roma, sendo que, da última vez, foi recebido pelo
Papa Leão XIII. O terceiro deles, Floro Bartolomeu da Costa, autor intelectual
e moral da Revolução de 1913-14 do Juazeiro. Sem esquecer a importância das
beatas, pelo papel expressivo e relevante que desempenharam em todo decurso
dessa história conflitante e misteriosa. Destacando entre dezenas delas, a
beata Maria de Araújo, protagonista do milagre da hóstia ensanguentada, com sua
história de humilhação e martírio, Joana Tertuliana de Jesus (Beata Mocinha),
governanta e gerenciadora das finanças da casa do Padre Cícero e da Igreja por
54 anos, e Hermínia Marques de Gouveia, uma figura emblemática, de mistério e
romance, no cenário religioso do Juazeiro.
A todos que me ajudaram na
realização desta obra, e para os quais tenho uma dívida de gratidão, e foram
muitos, uns na obtenção de documentos, outros pelas narrativas da memória, meus
agradecimentos. Sem eles, seria impossível construí-la. Um agradecimento
especial à Biblioteca Nacional do Rio, à Casa do Saber, e aos que lá trabalham
com paciência beneditina e elegância, e que me aturaram por anos e anos
seguidos, na procura de documentos. Meu afeto especial à cidade do Rio,
imponente e bela, que me inspirou em todos esses anos de trabalho na construção
deste livro.
Cidade do Rio de Janeiro, outono/inverno de
2008.
A autora.
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SUMÁRIO
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO 1 - JOASEIRO E SUA GÊNESE
CAPÍTULO 2 - NASCIMENTO E BATISMO DO PADRE CÍCERO
CAPÍTULO 3 - A CONSTRUÇÃO DA SEGUNDA CAPELA PELO PADRE CÍCERO
CAPÍTULO 4 - A GRANDE PEREGRINAÇÃO
CAPÍTULO 5 - O PIMEIRO INQUÉRITO
CAPÍTULO 6 - O SEGUNDO INQUÉRITO SOB A PRESIDÊNCIA DO PADRE ANTONIO ALEXANDRINO DE ALENCAR
CAPÍTULO 7 - O CETICISMO DO BISPO DOM JOAQUIM JOSÉ VIEIRA
CAPÍTULO 8 - A DEFESA DE MARROCOS E A DECISÃO DE ROMA COM SUAS IMPLICAÇÕES
CAPÍTULO 9 - ESTADA EM ROMA
CAPÍTULO 10 - MARIA DE ARAÚJO, A PROTAGONISTA DO MILAGRE: VIDENTE E ESTIGMATIZADA
CAPÍTULO 11 - JOSÉ JOAQUIM TELES MARROCOS, O TEÓLOGO DA FÉ
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO 12 - A METAMORFOSE DO PADRE CÍCERO: MUTATIS MUTANDIS
CAPÍTULO 13 - ANOS DE 1907 A 1911
CAPÍTULO 14 - PADRE CÍCERO E OS GOVERNOS DE ANTÔNIO ACCIOLI E FRANCO RABELO
CAPÍTULO 15 - A GUERRA E SEUS EFEITOS NOCIVOS
CAPÍTULO 16 - PADRE CÍCERO, LÍDER DA MEDIAÇÃO E DO CONSENSO
CAPÍTULO 17 - JOSÉ JOAQUIM DE MARIA LOBO, FUNDADOR DA LEGIÃO DA CRUZ
CAPÍTULO 18 - DOM QUINTINO, O SUCEDÂNEO DE DOM JOAQUIM JOSÉ VIEIRA
CAPÍTULO 19 - FLORO BARTOLOMEU: UMA LIDERANÇA NACIONAL
CAPÍTULO 20 - A BEATA MOCINHA
CAPÍTULO 21 - O OCASO POLÍTICO DO PADRE CÍCERO APÓS A MORTE DE FLORO BARTOLOMEU
CAPÍTULO 22 - ÚLTIMOS PASSOS DO PADRE CÍCERO NA POLÍTICA BRASILEIRA E SEU MANIFESTO AOS NORDESTINOS
CAPÍTULO 23 - FIM DE UMA ERA
CAPÍTULO 21 - OBSERVAÇÕES FINAIS SOBRE O JUAZEIRO E SUA ÉPPOCA
NOTAS
BIBLIOGRAFIA
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO 1
Este livro, por ser um livro de etapas, tem uma cronologia, e portanto um começo, por dar vida ao sítio Joaseiro, matriz das páginas que o compõem. Joaseiro era a ortografia usada por seus moradores no princípio dos seus primórdios, e encontrada em registro, no Cartório de Notas e Ofícios da Cidade do Crato, no ano de 1815.
Nesse antigo sítio está hoje
edificada a atual cidade de Juazeiro do Norte. O documento citava o Padre Pedro
Ribeiro da Silva como morador e seu proprietário. Apesar de ser um descendente
direto do latifundiário e detentor de título de nobreza — Brigadeiro —, Leandro
Bezerra de Menezes, seu avô, seu sobrenome, Ribeiro da Silva, surpreende, por
destoar do sobrenome dos seus familiares, proprietários de terras, gado e
também de títulos de nobreza. Azarias Sobreira, autor do livro O Patriarca do Juazeiro, disse: seu
verdadeiro nome era Pedro Ribeiro de Carvalho.
O sítio Joaseiro que, segundo
consta, era de sua propriedade, porque herdeiro de sua mãe, Luísa Joana Bezerra
de Menezes, filha legítima de Leandro Bezerra. O eminente historiador Padre
Antônio Gomes de Araújo, aliás, autor de uma ligeira biografia sobre o sacerdote Pedro Ribeiro da Silva, ou
Monteiro, assinala que ele viveu toda sua vida no Joaseiro, onde nasceu. Sua
única ausência foi quando passou a estudar no Seminário de Olinda (PE), por volta de 1790.
Ordenado sacerdote, para lá voltou, permanecendo até sua morte. No seu regresso
do Seminário, já como sacerdote, junto com seus tios, fundou uma modesta
capelinha, para evitar que se deslocasse até o Crato, ou Missão Velha, para
cumprir seus deveres religiosos, por não gozar de boa saúde.
A singela capelinha foi criada
sob a égide de Nossa Senhora das Dores, cuja imagem veio de Portugal, ainda
hoje existente na Igreja Matriz do Juazeiro. Daí o emérito historiador dá ao
sacerdote citado o título de fundador do Juazeiro, considerando que sua
construção configurava-se como os alicerces de uma futura cidade, fato que,
segundo ele, ficou no esquecimento por mais de cem anos, quando o trouxe à
tona.
Os antigos descreveram o sítio e
seus arredores como de majestosa beleza, encravado entre as centenárias Missão
Velha e Barbalha, de vegetação espessa e banhada pelo Rio Salgadinho, hoje nome de um subúrbio do atual Juazeiro.
Amália Xavier, autora do livro O Padre Cícero Que Eu Conheci, escreveu:
“O sacerdote Pedro Ribeiro ao
nascer no sítio Joaseiro, já existia a Casa Grande de propriedade de seu avô,
Brigadeiro Leandro Bezerra de Menezes proprietário da grande extensão de
terras, que começava nos arredores do Crato, espraiando-se em direção à Serra
de São Pedro, terminando na Fazenda Taboleiro Grande”.
Com tanta terra e outros bens
elevados, ele dominava tudo e todos, naturalmente. Na longa história que
absorve o período da estrada vicinal, ou seja, quando era apenas caminho de
tropeiros, até chegar à moradia com seu primeiro morador fixo, o magnata de
terras — Brigadeiro — Leandro Bezerra Monteiro, título nobiliárquico. Ali ele
fundou um núcleo, construiu uma família, deixou uma grande
descendência até hoje existente. Também foi ali que nasceram cinco dos seus
filhos, de um total de oito, três dos quais nascidos em Sergipe, de onde era
originária sua família, Bezerra de Menezes. Sua primogênita, Luísa
Joana Bezerra de Menezes, era mãe do sacerdote Pedro Ribeiro, seu pai era o
Sargento-mor, Sebastião Carvalho de Andrade, pernambucano. Seus tios maternos,
e que o ajudaram na construção da singela capelinha, tinham títulos de nobreza:
eram Capitães de Cavalaria, Tenentes-Coronéis, Cavalheiros e professos da
Ordem de Cristo, da Ordem da Rosa (essa, uma das mais altas comendas do
Império) e da ordem do Cruzeiro, títulos concedidos pelo Imperador.
Fica evidente, nessa exposição,
que o primitivo Joaseiro foi fundado sob o signo da aristocracia rural, porque
senhores de terras, gado e proprietários de engenho. Para se ter uma ideia do
quanto eram poderosos, o rico Leandro Bezerra Menezes, que também era Monteiro,
insurgiu-se contra os Revolucionários de 1817, do Crato, denunciando-os para o
Imperador. Daí a prisão de Dona Bárbara de Alencar e seus filhos, o Padre José
Martiniano de Alencar, cabeça da Revolução no Cariri, e seu tio Leonel Pereira
de Alencar Rego. Padre José Martiniano de Alencar era o pai do escritor José de
Alencar, nascido do seu romance com sua prima legítima, Ana Josefina de Alencar,
filha legítima de Leonel Pereira de Alencar Rego. Em 1824, seu irmão Tristão
Gonçalves de Alencar Araripe foi morto e decapitado, por conta da Revolução do
Equador. Algemada, Dona Bárbara foi levada para Fortaleza, de lá, para os
calabouços do Recife e de Salvador, onde sofreu os piores martírios.
Conseguindo indulto imperial (perdão), retornou à sua cidade do Crato,
refugiando-se na sua fazenda Touro, município de Campos Sales, falecendo no ano
de 1832. Foi sepultada em Poço da Pedra, hoje Itaguá, mesmo município de Campos
Sales. No ano de 1960, os intelectuais do Crato, nas figuras do presidente da
Revista Ytaytera, Dr. José de Figueiredo Filho, do Padre Antônio Gomes de
Araújo, do jornalista João Lindemberg de Aquino, acompanhados pela autora desta modesta obra,
assinalaram com uma lápide o local onde foi sepultada, na centenária Igreja de
Poço da Pedra. A lousa mortuária faz referência ao seu patriotismo e lembra seu
martírio pela liberdade, contra o jugo português. Por seu arrojo e destemor,
numa época tão remota para sonhar-se com liberdade, ela de fato foi notável,
sendo aclamada heroína por Arruda Câmara, que a imortalizou dando-lhe o título
de Heroína Cearense, primeira mulher a receber esse título no Brasil.
Padre Gomes foi o maior estudioso
da nobre família Alencar do Crato. E nas suas pesquisas me firmo, para traçar
um ligeiro histórico sobre a chegada dos Alencares ao Crato. Vindos de
Portugal, ligaram-se à Casa da Torre de Garcia D´Ávilla, também recém-chegados
aqui. Lá permaneceram por algum tempo, depois se transferindo para Pernambuco
(Cabrobó), mais precisamente no Riacho da Brígida, de onde é natural Dona
Bárbara e seus irmãos, quando se transferem definitivamente para o Crato. Bárbara de Alencar era casada com o português
João Gonçalves, comerciante no Crato.
Retorno ao Padre Pedro Ribeiro. Realmente,
ele foi o construtor da singela capelinha e que merece o título de benfeitor.
Sua atuação no seu sítio Joaseiro: além das obrigações religiosas, também
administrava o seu patrimônio, com grande criatório de gado e animais, engenho
de rapadura, melaço e aguardente. Possuía muitos escravos, e alforriando-os,
recebeu deles demonstrações de afeto. Telúrico, vivia isolado no seu sítio,
dali só se afastando para visitar os parentes no Crato, ou para assistir às
solenidades da festa da Padroeira Nossa Senhora da Penha, cuja data, 1º de
setembro, é celebrada até hoje, quando tomava parte na Procissão na Ala da
Irmandade do Santíssimo Sacramento, da qual era sócio perpétuo (in Pe Gomes,
doc. cit.).
Um registro deve aqui ser feito:
muito antes da aristocrata família Bezerra de Menezes, porque portadores de
títulos de nobreza, como vimos, o referido lugar já havia pertencido a
legatários de Manoel Rodrigues Ariosa, primeiro ocupante de sesmarias naquelas
paragens. Entretanto, nada edificou que aqui mereça registro (in João Brígido).
Por muitos anos, o lugar foi apenas caminho de aventureiros, almocreves, que
cortavam os sertões conduzindo boiadas e fazendo trocas de mercadorias. Quando
foi registrado em cartório como Sítio Joaseiro, já era de propriedade de
Leandro Bezerra Monteiro, e constava apenas, como já dito, da Casa Grande e ao
seu redor, a senzala. Os documentos da época de
Além de latifundiários, eles
foram representantes do protetorado e do clã Caririense, que dominaram e
continuam a dominar o Cariri pelas posições de relevo que ocupam na política,
no comércio, nas letras, nas artes, os Bezerra de Menezes, que formaram uma
grande e quase única família, dado o entrelaçamento pelo casamento com outras
famílias de posição social do Cariri, como: os Teles, os Pinheiros, os
Gonçalves, os Sobreiras, estes cofundadores do lugar, os Correia de Macedo, os
Esmeraldos e os Alencares, destacando-se
a personalidade inconfundível do Capitão Domingos Gonçalves Martins, bisavô
paterno do eminente Padre Manoel Macedo, e tantas outras. Ainda de acordo com o
historiador e genealogista Padre Antônio Gomes, que esquadrinhava os escaninhos
poeirentos do passado, o Padre Pedro Monteiro de Carvalho, ou Ribeiro da Silva,
foi ordenado por volta de 1813, porque, em 1815, sua assinatura já constava no
Livro de Registros da Matriz do Crato, dando conta da sua atuação como membro
perpétuo da Irmandade do Santíssimo Sacramento do Crato. O
cálculo aproximado do historiador é que ele tenha sido ordenado aos 22 ou 23
anos de idade.
Seu sítio Juazeiro, como já
escrito, era um cartão postal de beleza, por sua exuberância, com uma vegetação
que cobria toda a extensão do quadrante de sua propriedade, onde nasceu e viveu
toda sua vida. Nesse paraíso de tranquilidade e beleza, faleceu aos 54 anos,
rodeado por seus familiares e escravos. Com a edificação da Casa Grande de
Leandro Bezerra de Menezes, antes de existir o sítio propriamente dito, era
caminho limítrofe para outros estados, tornando-se então num ponto de encontro
de boiadeiros e tropeiros, partindo naturalmente do Piauí, com suas boiadas, onde,
segundo a autoridade de Therbérge, existia grande criatório de gado, decorrente da
Bandeira de Garcia D’Ávilla, fundador da Casa da Torre (BA), e que, arrostando
toda sorte de intempéries, rasgaram os sertões, partindo da Bahia, margeando o rio São Francisco via rio das Velhas até o alto sertão pernambucano de Cabrobó.
De lá, tomavam o caminho do Piauí, chegando a Oeiras, muitos anos depois,
primeira capital do Piauí.
Garcia D’Ávilla foi o maior
latifundiário do Brasil. Suas terras começavam na Bahia, onde fundou a casa da
Torre, chegando até o Piauí (Oeiras), num raio de 1200 km. Conduzindo boiadas,
ou tropas de burros, os almocreves, ou cargueiros, foram os comerciantes dessa
remota era, praticando o escambo - a troca da moeda por gêneros diversificados,
rapadura, farinha, carne seca, azeite para candeeiros. Sombra, brisa fresca e
água perene de suas fontes eram um convite à parada para a sesta do meio-dia,
dada a inclemência do tempo, verdadeira fornalha, ou em noites amenas de
inverno, frescas e enluaradas, tendo como fundo a contornar esse cartão postal
a altaneira Serra do Araripe.
Esse painel deslumbrante da
outrora Serra do Araripe, de natureza exuberante, terminou por se constituir
num ponto de encontro, pelo conforto das sombras de suas frondosas árvores, com
destaque para os Juazeiros sempre verdes, e da água de suas fontes perenes.
Parada obrigatória desses viajantes solitários que por lá transitavam,
tornou-se num ponto de referência para esses encontros, diz Amália Xavier (op.cit.) Desse intercâmbio mais tarde
surgiram as feiras, pelo ajuntamento de pessoas que se criaram em torno delas.
A troca de mercadorias e de animais eram os principais produtos encontrados. Em
escala ascendente, elas foram se tornando fixas, desenvolvendo-se, permanecendo
até hoje, apesar da evolução do mundo, com seus shoppings luxuosos, televisão,
cinema e outros entretenimentos da era moderna, mesmo assim elas conseguiram
sobreviver. Para o interiorano, as feiras eram de grande valia, porque além de
lhes oferecer negócios, proporcionavam talvez o mais importante de tudo: o
congraçamento das famílias, pelo encontro sentimental que se realizava entre
parentes e amigos que moravam distantes um do outro. Atraídos não só pelas
compras, mas também pelo saudosismo, na esperança do reencontro com o parente,
o compadre, o amigo. A conversa entre os saudosistas não mudava, eram sempre as
mesmas:
a ausência chorada do parente que se mudou, o reencontro com o compadre que
esbanjava alegria por rever o amigo, a notícia do nascimento do neto, e o
casamento do filho, que não deu certo; o desaparecimento de entes queridos às vezes de
maneira trágica, a saúde da família; os bois que se extraviaram, os animais
roubados, a perseguição do dono da terra. A arruaça dos bebedores de aguardente,
a história do lobisomem, entidade fictícia; e não tão distante, o medo de
Lampião e seu bando, com suas histórias aterrorizantes. Enfim, a temática
principal para fechar o tão sonhado encontro — a seca. Raras vezes, o inverno.
As feiras ganharam enorme
dimensão em todo o Nordeste. Solidificadas, ficaram famosas e conhecidas
nacionalmente, como as de Caruaru, Campina Grande, Crato e do hoje Juazeiro,
pela variedade que elas oferecem ao visitante, com suas comidas típicas e
artesanatos primorosos; folhagens para chás, indicados para achaques e banhos,
vulgarmente conhecidos por banho-de-cheiro, que se espalhou Brasil afora, até
mesmo para os grandes centros. A literatura do cordel se faz presente em
pequenos folhetos, onde ficção e realidade se misturam. Apesar de todo o avanço
da modernidade e do aparato tecnológico do presente, ela permanece na cadência
dos seus versos lúgubres, ou alegres, que o nordestino herdou dos
provençais da Península Ibérica, conseguindo preservar o rico filão
popular, que encanta. Gerações e gerações fazem parte da rica literatura. Na
Paraíba, ficou a lembrança indelével de Inácio da Catingueira, no começo do fim de
século XX, numa peleja que durou 70 horas, para uns, outros chegam ao exagero
de dizer 15 dias.
Fechando este Capítulo dos
primórdios do Joaseiro antigo, volto ao Padre Pedro Ribeiro. Tudo leva a crer
que era mesmo um gregário e acomodado, chegando quase à apatia. Traçando seu
perfil, o Padre Gomes diz: “ele era um desprendido. Nunca optou por ser o capelão da
localidade, o que certamente teria sido, dado o prestígio do seu avô, o citado
Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro”. Ainda de acordo com Amália Xavier (op.cit.), o Brigadeiro Leandro Bezerra
era descendente direto de Caramuru e Catarina Paraguassú, décima geração. No
entanto, nos escritos do Padre Gomes, o maior genealogista e estudioso da
heráldica no Ceará, nada consta.
Padre Pedro Ribeiro, ou Monteiro
de Carvalho, ao morrer a 9 de setembro de 1833, deixou uma
imensa fortuna em gado, terras e prataria, além de doze escravos. Seu sítio
Joaseiro foi avaliado em 2:800$00 contos de réis, verdadeira fortuna para a
época. A metade de seus bens, ele doou em testamento à Padroeira Nossa Senhora
das Dores. Seus restos mortais estão sepultados no solo da antiga capelinha por
ele edificada, mesmo local onde hoje se ergue a imponente Igreja Matriz. Com
sua morte, sucederam-lhe cinco capelães, conforme registros das Igrejas de
Missão Velha e Crato. Destes, um se destacou entre os demais, pelo lado da
cultura e do civismo: o Padre Antônio de Almeida, que além de primeiro
professor da localidade, deixou escrito do seu próprio punho um Manual de Lições Elementares de Lógica para
o Primeiro Ensino, e também por ter sido um dos participantes da Guerra do
Paraguai, como voluntário, prestando relevantes serviços ao País, quando
financiou do seu próprio bolso o pelotão do Cariri, que tomou parte na guerra.
Esse sacerdote era natural de Tauá (CE). De acordo com as crônicas locais, não
houve arbitrariedade na formação do batalhão, como por exemplo, o do
alistamento forçado. De regresso ao Ceará, não chegaria mais ao Juazeiro,
falecendo no Estado do Maranhão.
Com a retirada do Padre Pedro
Ferreira de Melo, quinto capelão da localidade, estando vaga a capelania, foi
convidado para assumi-la o Padre Cícero Romão Batista, e é dele que me ocuparei
d’ora em diante.
****
CAPÍTULO 2
Nasceu no Crato aos 24 de
março do ano de 1844. Era filho legítimo de Joaquim Romão Batista e Dona
Joaquina Vicência Romana, mais conhecida pela alcunha de Dona Quinô. Grande foi
o contentamento dos pais, por ter nascido um varão, escreveu o autor de Mito e Realidade, Otacílio Anselmo e
Silva. Eles, que já tinham duas filhas, Maria Angélica Romana (Mariquinha) e
Angélica Maria Romana. Batizou-se na Igreja de Nossa Senhora da Penha, aos 8 dias do mês de
abril, portanto, quinze dias depois do seu nascimento. Tendo por padrinho seu
avô paterno, o Capitão de Cavalaria Romão José Batista, representante da
nobreza cratense, e sua tia materna, Antônia Ferreira Castão. Os
ancestrais do futuro Padre Cícero, via paterna, não eram ricos, mas tinham nobilus ortus, isto é linhagem, que
segundo a autoridade do medievalista George Duby, nos séculos XVIII, XIX,
contava mais do que riqueza ou poder (1980, pag. 59).
Foi oficiante do ato o vigário da
Freguesia, Manoel Joaquim Aires do Nascimento, que, conforme a tradição da
época, solenizou-a, porque cheia de circunstância: usando uma pomposa “capa de
asperge”, levando o recém-batizado até a residência de seus pais, fato inédito
para a época. O recém-nascido era alvo, de cabelos louros e olhos azuis. Mais
tarde, esses olhos azuis e penetrantes tornaram-se parte integrante da sua
personalidade envolvente e fascinante. Suas duas irmãs, Maria Angélica e
Angélica Maria Romana, morreram adultas e solteiras, portanto, não há
descendência em linha direta do Padre Cícero. Nascido numa família de origem
portuguesa, pelo lado paterno, extremamente religiosa e de bons costumes. Sua
mãe, segundo dizia, tinha ancestrais indígenas. Restritas são as informações de
sua vida dos cinco aos 16 anos de idade. O que restou foram pequenos fragmentos
que a tradição oral guardou, passada ao público por seus familiares, sua mãe e
a ex-escrava Teresa de Jesus. Sabe-se que ele foi matriculado na escola do
professor Rufino de Alcântara Montezuma, aos seis anos de idade, caso de
precocidade para a época, como também sua primeira comunhão aos sete anos.
Embora, na época, não fosse permitido a menores de 10 anos receber a comunhão, de
acordo com a Bula do Papa Pio IX.
Os sucessores do seu primeiro
professor, os irmãos Jesuíno e Laurênio Brizênio da Silva Garrido, o tinham
como um menino precoce, de rara inteligência. Azarias Sobreira comenta: “nessa
escola, ele deu de chegar atrasado, o que fez o mestre-escola levar ao
conhecimento de seus pais, que surpreenderam-se com o fato, admirando-se, pois
todos os dias ele obedecia rigorosamente ao mesmo horário de saída de casa”.
Trataram então de averiguar. Foi quando descobriram que ele se deixava ficar
por horas a fio na Igreja Matriz, de altar em altar, a contemplar os santos.
Outras vezes era visto na botica de Benedito da Silva
Garrido, a ouvir as conversas dos intelectuais da terra. Essas farmácias,
também chamadas de boticas, reuniam a fina flor da sociedade local. Lá se
discutia os fatos da política brasileira, não sem atraso, pois a notícia só
chegava através dos vendedores ambulantes. Mas o grosso da conversa girava
mesmo era em torno dos fatos gloriosos do Cariri. Daí, o seu gosto pela
História, e, complementa o autor de O
Patriarca do Juazeiro: “Mas ele era apenas um ouvinte, já que aquela época
não era permitido a crianças tomarem parte na conversação de adultos.”
Sua última escola no Crato foi a
do Padre João Marrocos Teles, exímio latinista. Em seguida, foi estudar em
Cajazeiras (PB) no ano de 1860 no Colégio do Padre Rolim, educandário de
tradição por onde passaram dezenas de pessoas que mais tarde se notabilizaram.
Memória privilegiada, desse período nada esqueceu: será que já se sentia um
predestinado, um ser diferente, ou coisa que o valha? Confiando na memória,
tudo registrou. Mais tarde, elas serviram de tema para suas longas palestras, e
também para sua primeira biografia, escrita após sua morte, pelo Dr. Manoel
Diniz (Mistérios do Joazeiro, ano de
1935), considerado o biógrafo oficial do Padre Cícero.
No educandário em Cajazeiras,
teve como colega Joaquim Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque, que depois seria
o primeiro Cardeal da América Latina. Quando ainda era aluno do Padre Rolim,
falece seu pai, Joaquim Romão Batista, no ano de 1862, vitimado pelo
cólera-morbus, que assolou o Cariri de ponta a ponta. Ele próprio uma vítima do
mal, detalhe que jamais esqueceu e sempre estava a recordar, em palestras com
amigos. O contágio se espalhava rapidamente, fazendo óbitos, causando pavor; os
próprios familiares das vítimas não mantinham contato com o doente, o medo
dominava todos. As pessoas vitimadas pelo mal, em poucos dias ficavam reduzidas
a esqueleto, porque suas carnes corroídas pelo mal grangrenavam (morte do
tecido) transformando-se em água. Vinte e quatro horas era tudo de que
dispunham para não morrer, conforme relatos da época. No Crato, foi construído
às pressas um cemitério só para sepultamento dessas vítimas do mal, a fim de
evitar a proliferação, escreveu Tomaz Pompeu de Souza Brasil, em O Ceará na Independência do Brasil.
Órfão aos 18 anos, o trauma o
marcou, pois além da perda física do pai, ficou sem condição financeira de voltar
aos estudos em Cajazeiras (PB). Joaquim Romão Batista era um médio comerciante. Ao falecer
repentinamente, deixou dívidas, nas praças do Recife e Fortaleza, ficando
para a família o ter que honrar essas dívidas. Cabendo ao jovem rapazito – expressão
usada por Azarias Sobreira – cuidar da mãe, das irmãs e da ex-escrava Teresa de
Jesus, para quem ele era o seu “Sinhozinho”, escreveu Edmar Morel, em Padre Cícero, o Santo do Juazeiro. Dona
Quinô, mulher simples, voltada para os afazeres domésticos, de pouco estudo, ou
nenhum, segundo muitos autores, mas equilibrada o suficiente para comandar os
filhos com retidão e dignidade, dando-lhes uma boa educação doméstica, que se
traduz na pessoa do Padre Cícero.
O desaparecimento inesperado de
seu pai, além de o deixar amargurado, trouxe-lhe apreensão e dúvida quanto ao
seu destino, por tornar impraticável seu retorno aos estudos em Cajazeiras (PB).
Abatido e triste por ver-se sem recursos para enfrentar as despesas do colégio,
o que o deixava amargurado, preocupava-o ter que responder pelas dívidas,
que eram grandes para a época, e de finanças nada entendia. Nesse impasse de
desilusão e dúvida, uma noite, depois de muito rezar e pedir a Deus que o
ajudasse naquela emergência, segundo dizia, sonhou com seu falecido pai, cujo
sonho, mais visão que propriamente sonho, foi registrado por Manoel Diniz, já aqui
citado. Eis o que dizia:
“Uma noite, já estando deitado
e entre cochilando e acordado, ouvi passos vindo em minha direção. Erguendo-me
da rede onde me encontrava, vi acercar-se de mim a figura de meu pai, que assim
falou-me: ‘Cícero, não abandones teus livros, continua a estudar e Deus dará um
jeito para prosseguires nos teus estudos’. Em seguida, a sombra desapareceu,
deixando-me em estado de perplexidade. Sua imagem, no entanto, permanecia em
minha retina, e não mais consegui conciliar o sono, naquela noite. Ao levantar-
me pela manhã procurei minha mãe, que já se encontrava de pé, e contei-lhe o
ocorrido. Ela me ouviu, dizendo-me para não me preocupar porque tudo seria
resolvido a partir dali. E assim foi. No mesmo dia, procurou meu padrinho de
crisma, Coronel Antônio Luís, Intendente do Crato, relatando o fato. Ele,
ciente do meu abatimento, prometeu que dali para frente tomaria para si o
encargo de responsabilizar-se por meus estudos, e fez. Só assim pude retornar a
Cajazeiras, reiniciando os estudos interrompidos durante quase um ano. Pouco
depois, fui para Fortaleza, onde, com sua ajuda e por mercê de Deus, depois de
seis anos de seminário, fui feito sacerdote”.
O Seminário, fundado por Dom Luís
Antônio dos Santos, primeiro Bispo do Ceará, com o auxílio do Barão de
Aratanha, que colaborou com numerário para sua conclusão, foi inaugurado em 1865,
quando teve início seu funcionamento, de acordo com os escritos do Monsenhor
Quinderé, na sua História Eclesiástica do
Ceará. Portanto, Padre Cícero foi aluno da primeira turma do notável
estabelecimento, matriculado sob o nº 55. Dela fazia parte pessoas que depois
se notabilizaram pelo saber e pelo caráter, como: Agapito dos Santos, José
Lourenço da Costa Aguiar, mais tarde Bispo do Pará, o imortal Capistrano de
Abreu, e seu primo e grande amigo, José Teles Marrocos, cuja amizade foi
decisiva para sua personalidade religiosa, marcada pelos acontecimentos de
1889, no Juazeiro. Durante sua estada no Seminário, fatos estranhos lhe
aconteceram, escreveu seu biógrafo, Azarias Sobreira. Muitas vezes, era visto
dormindo nos corredores da Casa depois de noites acordado, no afã da leitura.
Certa vez, a turma foi a um banho de mar; num mergulho ele submerge e não volta
à tona. Os colegas já o davam por morto. Depois de 10 minutos de espera e
aflição, quando já se preparavam para deixar o local e levar a notícia ao Reitor, ele reaparece, causando espanto. Nascia ali o mito. Mito que o
acompanhou por toda sua vida. A notícia correu veloz entre os internos,
chegando ao Reitor Chevalier, que já o vinha observando por suas posições,
contrárias à teologia dos padres lazaristas, professores do seminário, sobre
aparecimento de sangue em hóstias consagradas. Numa aula de teologia os ânimos
se acirraram, tendo o reitor levado o caso ao bispo, dizendo que, se ordenado,
ele iria trazer graves consequências ao clero, por suas ideias confusas. A citação é do autor de Mito e Realidade (op.cit), que escreveu: “sua ordenação foi retardada por dois anos,
e só com a interferência do seu padrinho de crisma, o já citado Antônio Luís,
grande amigo do Bispo, Dom Luís Antônio dos Santos, foi ordenado aos 30 de
novembro de
Ordenado, retornou à sua cidade
natal, o Crato, para celebrar sua primeira missa na Igreja-Matriz de Nossa
Senhora da Penha, lotada por parentes e amigos, com repique de sino e com a
presença ainda do Vigário que o batizara, Manoel Joaquim Aires do Nascimento.
Por esse relato, pode-se deduzir da alegria de sua família, por contar com um
sacerdote no seu seio – à época, o sacerdócio abria caminho para a ascensão
social da família, e o clérigo passava a ter autoridade não só religiosa,
também política. Sua permanência no Crato foi rápida, retornando outra vez à
Fortaleza, quando foi nomeado para assumir sua primeira missão como vigário de
Trairi, atualmente Paracatu. Aí também sua passagem foi efêmera, retornando
outra vez ao Crato.
Fixando residência na sua terra
natal, passou a lecionar latim no Colégio Venerável Ibiapina, fundado e
dirigido pelo ex-seminarista José Marrocos, desligado do Seminário já diácono,
por sustentar os mesmos pontos de vista do seu primo e grande amigo, o
seminarista Cícero. Inseparáveis, os dois caminhariam juntos por toda vida.
Marrocos foi, de fato, seu braço direito, na tumultuada Questão Religiosa do
Juazeiro, tomando a si o encargo de discutir teologicamente o inusitado e
confuso caso do sangue nas hóstias recebidas pela beata Maria de Araújo.
Teólogo da causa, e peça-chave da intricada questão, até hoje um mistério nunca
desvendado, ele foi sem dúvida o principal personagem dessa rica história de
mistério, de dúvida, de afirmativa, de controvérsia. Profundamente místico, sua
ardente fé no Milagre da Hóstia ensanguentada envolvia a
todos. Dele voltarei a falar nos capítulos seguintes.
Em 1871, não existindo Capelão no
povoado do Joazeiro, o Padre Cícero foi convidado pelos irmãos mestres-escola,
Simeão Correia de Macedo e Pedro Correia, a celebrar o Natal daquele ano. Este
Natal marcaria para ele o desdobramento de toda sua vida, por espaço de 64 anos
consecutivos. Passado o clima festivo da grande noite, os moradores insistem
para que lá fosse morar. Convite recusado, seu desejo era voltar à Fortaleza,
na esperança de ser professor do Seminário da Prainha, cargo que exercera
quando seminarista. Mas não os desanima, e aos domingos e dias santificados, lá
voltava para celebrar, atendendo à solicitação dos moradores, alguns
aparentados com ele, como o próprio mestre-escola. E foi numa dessas suas
estadas por lá, que depois de um dia cansativo de confissões, missas e orações,
principalmente a do Rosário – era um rezador compulsivo, asseguram os que com
ele conviveram, como também tinha por hábito dormir viajando a cavalo, ou
conversando, e até celebrando missa, disse o Padre Quintino depois Bispo –, naquele dia, sentindo-se
cansado, preferiu pernoitar na localidade, como sempre fazia, hospedando-se na
casa que servia de escola, e que lhe era emprestada durante sua estada ali.
Naquela noite, exausto pelo
número de fiéis que ouvira em confissão, entre cochilando e acordado, segundo
suas próprias palavras, teve uma visão. Tudo leva a crer que o Padre Cícero era
dado a visões e sonhos cósmicos: o citado Manoel Diniz registra em sua
biografia que ele experimentava do processo de ubiquidade, isto é, estando em
vários lugares ao mesmo tempo, detalhe que seus íntimos sabiam. A visão daquela
noite, ele guardou para sempre, jamais a esquecendo, e sempre mencionada em
suas palestras com visitantes e amigos. Manoel Diniz foi o primeiro a registrar
essa passagem de sua vida, porque autor de sua primeira biografia escrita após
sua morte. Seguiram-se outros copistas e aqui reproduzida mais uma vez. Eis o
que dizia:
“Naquela noite, como de
costume recolhi-me muito cedo, embora não conseguisse conciliar o sono, talvez
pelo cansaço que se apoderava de mim. De repente fui arrebatado por uma visão,
que se desdobrava aos meus olhos, deixando-me como que dominado. Na sala
contígua ao quarto em que me encontrava, vi entrar uma comitiva de pessoas que a
princípio não reconheci; adentrando a sala, vão tomando assento ao redor da
mesa do Mestre-escola. Em meio a eles, um se destacava dos demais, ficando de
pé, quando teve início um diálogo, numa língua que também não compreendia.
Estranhando aquilo tudo, instantes depois reconheci serem os doze Apóstolos,
acompanhados do Coração de Jesus, que continuava de pé. Terminado o diálogo com
os companheiros, este que permanecia de pé, e tinha certeza ser o Coração de
Jesus, volta-se para mim e profere as seguintes palavras, num tom apocalíptico:
‘— Eu estou muito magoado com que os homens me têm feito. Se não se corrigirem,
acabarei o mundo. Quanto a ti, toma conta destes’, apontando o dedo em direção
ao pátio da capelinha que ficava a poucos metros dali. Num estado de
perplexidade e êxtase, quando parecia estar em outra dimensão, vi, no pátio da
capelinha, uma multidão das mais diversas pessoas em estado de miséria, à
semelhança de retirantes das secas em trajes rotos, esfarrapados e pés
descalços”.
Esse sonho, ele tinha como uma
revelação do Alto, uma ordem divina para que tomasse conta daquele povo. Eis aí
o processo de bilocação, comentada por Manoel Diniz (op.cit). Jamais o esquecendo, sempre fazia alusão em palestras com
amigos e jornalistas, descrevendo o cenário numa visão comovedora, interpretando
como o anúncio de sua designação para capelão do Juazeiro. E foi pensando assim
que pouco tempo depois lá chegou, para definitivamente fixar residência,
acompanhado dos seus familiares, sua mãe, duas irmãs e a ex-escrava Teresa de
Jesus, aos 11 de abril de 1872.
Crendo definitivamente nesse
sonho, ou visão, o Padre Cícero se julgava um predestinado, ou, como Santo
Agostinho, baseava seu pensamento na onipotência divina? Seria reflexo do seu
espírito eminentemente místico, produto da atmosfera mística na qual nasceu,
viveu e morreu? Daí as sequências das suas visões, dos seus sonhos? O Coração
de Jesus, que durante toda sua vida dizia ter visto naquele sonho, tornou-se
para ele um símbolo, como símbolo também era o seu olhar, que a todos
encantava. Numa quase obsessão, a presença do Coração de Jesus estava, para
ele, em todos os lugares, tanto que, em várias passagens do seu depoimento ao Bispo Dom Joaquim na rumorosa Questão Religiosa do Juazeiro, ele cita diálogos
que tivera com o Cristo, e dizia: na hóstia ensanguentada, ela tomava
proporções diferentes, formando um coração sangrando, cujo fato foi presenciado
por milhares de pessoas, como atestam os documentos da época. A devoção ao
Coração de Jesus, ele trazia visceralmente entranhada, desde os tempos de
seminarista, pela fé dos padres lazaristas, que disseminaram por aqui a
devoção, já conhecida em outros países da Europa, como França, Espanha e
Portugal, depois de ter sido ratificada pelo Papa Pio IX no ano de 1850,
segundo a autoridade do insigne medievalista Jacques Le Goff, em História e Memória.
Ao chegar ao primitivo Joaseiro
quase nada existia, segundo Azarias Sobreira e Amália Xavier (idem), que
registraram
O tempestuoso e turbulento caso
trouxe infinito sofrimento ao Padre Cícero, que amargou um processo vexatório,
culminando com sua suspensão de ordens, e à beata, humilhação e martírio. À
época, o Padre Cícero era portador de um grande desprendimento do mundo, que o
caracterizava como um místico, catequista, praticante de jejum. Implantou,
naquele meio rústico, a devoção à reza do Rosário, sendo ele o pioneiro no
Cariri, especialmente no Juazeiro, a disseminar a devoção. Todos os seus
moradores e, mais tarde, os que lá chegaram atraídos pelo fenômeno, passaram a
usar no pescoço o rosário, de contas azuis e brancas, costume passado de
geração a geração.
Ao chegar ao Juazeiro tinha
apenas 28 anos de idade. Inteligente e elegante, aventurou-se a viver ali quando
nada existia, senão a beleza paradisíaca do lugar, por todos tão decantada.
Viajantes ilustres que por lá passavam eram tocados por sua bela paisagem, e
referiam-se a ela como obra de Deus. George Gardner, naturalista inglês de
passagem para a Amazônia, traçou um perfil de sua beleza natural, encantado com
sua vegetação, com seus pássaros, para ele exóticos, suas nascentes de águas
puras e cristalinas. Entretanto, não deixou de observar o espírito de
beligerância dos seus moradores, que a bela paisagem em nada os sensibilizava,
por guerrearem-se entre si.
Em 1862, Souza Brasil, deslumbrado
com a magnífica paisagem escreveu: “O Vale do Cariri é um verdadeiro oásis,
como aquele da Líbia, para onde acorrem os árabes do deserto”. Essa
deslumbrante paisagem também mereceu do Monsenhor Monteiro grandes elogios. Numa
carta endereçada a um seu colega de São Paulo, descreveu o Vale como recanto
abençoado e divino, onde se fica mais perto de Deus. Parecia o Monsenhor ter a
visão do paraíso ao descrevê-lo. Classificando-o de paraíso celestial,
terminava numa exaltação em Ode ao
Juazeiro.
A descrição do Monsenhor Monteiro
leva o destaque de ter sido, tempos depois, o lugar escolhido para o
acontecimento grandioso e sem par na história cearense, em cujo seio se
processou o fenômeno sócio-religioso. Altruísmo, espírito de religiosidade
coadjuvado pelo alto grau de misticismo justifica, sem dúvida alguma, a missão
do Padre Cícero no Juazeiro. Em lá chegando, ele inicia o seu apostolado pelo
ensino do Catecismo, pela leitura dos Evangelhos, pela reza do Rosário.
O escritor Irineu Pinheiro, in Efemérides do Cariri, retratou
matematicamente seus primeiros dias no lugar, dizendo:
“O Padre Cícero dá início ao
seu apostolado em Juazeiro; extenuado, vivia sob duro jejum, alimentava-se mal
e em horas incertas, atendia aos fiéis a qualquer hora do dia ou da noite aonde
quer que o chamassem. Não aceitava dinheiro pelos serviços religiosos,
mantinha-se com donativos ofertados pelos fiéis, ficava no confessionário, até
altas horas, só o deixando depois de ouvir o último penitente.”
Aí o perfil dos seus primeiros
anos no pequeno povoado. Mais tarde, deixaria de ser um asceta,
mudando radicalmente, quando foi levado de roldão pelos acontecimentos
extraordinários da conversão da hóstia em sangue, recebida pela beata Maria de
Araújo, fato que convulsionou todo o Nordeste, causando comoção e impacto no
clero do Ceará. Fugindo à regra da época, não fazia sermões exaltados,
limitava-se a uma conversa objetiva, recheada de conselhos paternais e amoráveis,
num linguajar popular, numa perfeita catequese adequada ao meio, ao grau de
compreensão daquele rústico auditório que o ouvia, e que ele tão bem sabia
dominar e empolgar. Eram verdadeiros códigos de ética, dominados pela lei do
amor, ensinados por Jesus. Cumpria assim, à risca, o Cristianismo primitivo,
baseado na essência do amor.
Ociosidade, jogatina e bebedeira
faziam parte do cenário da primitiva povoação. Nos finais de semana, o cenário
era contagiante, com a batucada nos terreiros ao som da concertina e reco-reco.
Quase sempre, a festança terminava em briga e morte pelos bandos rivais, que se
digladiavam. Informado destes acontecimentos sangrentos, resolveu ver de perto
a animação que se prolongava noite a dentro. Com um grande chapéu de palha à
cabeça e o seu inseparável cajado, ele adentra a noite em direção ao Beco Novo,
tradicional reduto de bebedores e sambistas. Ao chegar sozinho ali, de
surpresa, e para surpresa de todos, encontra bêbada a mundana Francisca
Belmira, piauiense de Oeiras, filha de portugueses radicada no então Joaseiro.
É possível que Francisca Belmira tenha chegado ao povoado com os boiadeiros em
trânsito. Bastante
conhecida no meio por sua beleza e sua vida devassa, seus atributos de exímia
dançarina tornaram-na figura de destaque. Naquela noite, ela cantava e bailava
ao som do ritmo alegre da concertina e do pandeiro, em requebros lascivos, a sextilha
que a tornaria famosa:
São quatro menina
São quatro fulô
São quatro umbigada
Bonita que dou
Quando eu quero, quero,
Quando eu quero é já.
Ao ver o Padre, a dançarina
emudeceu. Acercando-se dela, ele perguntou-lhe: “O que queres mulher?”. Ela,
fixando-o, e em prantos, respondeu-lhe: “Quero me confessar!”. E ali mesmo
ajoelhou-se aos pés do sacerdote, prometendo regenerar-se.
Edmar Morel, comentando o fato no
seu livro Padre Cícero, O Santo do
Juazeiro, escreveu: “Regenerada, e cercada pelo respeito público, faleceu
aos 85 anos de idade”. Francisca Belmira dançava a umbigada ou o lundu, danças
que escandalizaram os estrangeiros que passaram por Salvador em 1840, definindo
como uma prefixação do sexo. Essa dança foi implantada na Bahia por negros
bantos trazidos da África, espalhandando-se pelo Nordeste (Antonio Risério
Marcado de profunda religiosidade,
admirador de São Francisco de Assis, de São Malaquias, que foi Bispo da Irlanda
no século XII, e faziam parte das suas meditações, escreveu Azarias Sobreira (op.cit.) Diz ainda o mesmo autor que ele
saíra do Seminário profundamente impressionado com as leituras que lá se fazia
da vida do Padre João Maria Vianey, o Cura d’Ars.
São Francisco de Salles foi
modelo para ele. Aos 12 anos de idade, fez voto de castidade, virtude que
considerava sagrada e que firme levou até seus últimos dias terrenos.
Impregnado de tanta fé e religiosidade, ele prossegue no seu apostolado, ao
mesmo tempo em que vai imprimindo uma nova feição ao lugarejo, abrindo ruas e
numerando-as, inaugurando escola de alfabetização, incentivando o plantio, já
que os moradores do Juazeiro eram rurais, sem esquecer de ensinar-lhes o ofício
da carpintaria e o de pedreiro.
Estimulando o desenvolvimento do
ser humano, por ser um verdadeiro humanista, acreditava na capacidade de
desenvolvimento daqueles a cuja guarda se dedicou com amor. Despertava para o
camponês inculto e subserviente uma outra visão de vida, qual fosse, de
liberdade de pensamento e de ação. Inaugurava-se então, no pequeno e obscuro
Juazeiro, o direito de cidadania pelo Padre Cícero Romão Batista,
que construiu naquele isolacionismo uma sociedade unida e fraterna que se impôs
e marcou uma Era. Daí a admiração e
amizade que a outrora comunidade subserviente aos senhores de terras passou a
devotar ao padre simples, que ensinava respeito e direitos de ação. Ouvindo-os
atentamente, sentiam-se alguém, publicamente diziam jamais por lá ter passado
um padre igual a ele. Sua forte tendência ao misticismo era uma realidade, mas
quem, no Cariri daquela época, não o era? A herança era atávica, deixada pelos
frades itinerantes, os chamados Barbadinhos, pregadores de Missões, que com os
seus sermões apocalípticos, exageravam na doutrina da escatologia, do niilismo,
pregando a condenação eterna pelo pecado cometido, desenhando um Deus colérico
e vingativo, incapaz de perdoar, no qual a massa acreditava fervorosamente. As
profecias de Frei Vittal de Frascarolo jamais foram esquecidas, bem assim as do
Padre Mestre, Frei Ibiapina. Suas vidas austeras serviam de parâmetro para
aquela sociedade, lembranças que persistiam na memória religiosa do Vale do
Cariri através dos escritos do professor José Marrocos, que fundou o
Jornal denominado A Voz da Religião,
nele exaltando os feitos do Padre Ibiapina, sua vida de asceta e sua misteriosa
conversão, depois de ter renunciado à cadeira de Deputado Provincial e também à
banca de advogado bem sucedido.
Além da religiosidade do Frei
Ibiapina, eram divulgadas também no referido jornal suas realizações, quase
impossíveis, porque sozinho e sem auxílio do Governo Imperial. Ele percorreu a pé
todo o Nordeste, construindo escolas, igrejas, cemitérios, barragens e açudes,
numa região castigada pelas secas, a fim de fixar o sertanejo ao seu meio,
evitando assim a emigração. Foi o fundador das célebres Casas de Caridade, que
abrigavam moças que quisessem ser freiras, onde recebiam hábito, cortavam os
cabelos e usavam véu. Mantinha ainda a clausura, seguindo a ordem dos
conventos. Por isso, o Cariri foi pródigo em beatas, como veremos no decorrer
deste livro. Frei Ibiapina nunca recebeu o apoio do Bispo Dom Luís Antônio dos
Santos, que impôs sua retirada da Diocese por ver, nos seus atos, total
rebeldia e desobediência à sua autoridade. Retirando-se do norte do estado,
seguiu para a Paraíba, Rio Grande do Norte e outros estados castigados pela
seca. Prosseguindo no seu Apostolado, fundou Casas de Caridade em cinco estados
do Nordeste, e continuou a conceder às moças o hábito, ditando as regras da clausura. O Bispo reagiu, e suspendeu-o de ordens, excomungando-o. A citação é
de Ralph de La Cave (Mistério em Joaseiro).
No Cariri, sul do Ceará, ele
chegou a convite do Padre Aurélio Arnaud Formiga, Vigário colado de Missão
Velha. O povo o via como um virtuoso, pelos exemplos edificantes de pureza e
castidade. Daí surgirem lendas a seu respeito, de santidade, pelas construções
de igrejas e cemitérios, feitas em tempo recorde. Por exemplo, a igreja e o
cemitério de Pio IX, no Piauí, construídos em apenas oito dias. Chamavam-no de
Padre-Mestre, porque se dedicava a alfabetizar o rústico. Na sua abnegação em
construir açudes, barragens e cisternas, ele pretendia fixar o homem à terra,
salvando-o da fome e sede, evitando o êxodo. O patrimônio religioso que
construiu foi inigualável para a época: 18 Casas de Caridade, nos Estados do
Nordeste, principalmente em Pernambuco, Ceará e Paraíba. Por tudo isso, fez jus
ao merecido título de “O Apóstolo do Nordeste”.
A vida do Frei Ibiapina serviu de
parâmetro para o Padre Cícero? Talvez. Já trazendo consigo lições de fé e
devoção, recebidas no Seminário dos padres lazaristas, e a lembrança dos
missionários itinerantes, de sermões assustadores, que tinham como base o Apocalipse.
Tudo isso plasmou-se na sua alma sensível. Daí o seu apostolado no Juazeiro sob
o prisma do misticismo e da fé no sobrenatural, sempre e em contínua
progressão, até desaguar na grave crise religiosa que passou à história com o
nome de “Milagre do Juazeiro”, como mostrarão os próximos capítulos, tema
central desta obra.
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A CONSTRUÇÃO
DA SEGUNDA CAPELA PELO PADRE CÍCERO
Parece haver imponderáveis reservas de energias dispersas na
humanidade, reservas que, de onde em onde, se condensam numa só pessoa e dão lugar ao aparecimento de seres
extraordinários, que
mudam o curso dos
acontecimentos, e marcam as Eras.
Estevão Zweig.
Três anos eram passados
desde sua chegada ao Juazeiro. A população crescera, e a antiga
capelinha do Padre Pedro Ribeiro dos idos de 1827 tornara-se pequena para
acomodar o crescente número de fiéis que a procuravam. Já de todo integrado ao
meio, admirado e respeitado, ele convoca o povo a ajudá-lo na construção de uma
nova capela, com maior espaço físico, no que foi atendido. A essa convocação
aderiram todos os moradores, conforme escreveu Amália Xavier: “Havia os que
cortavam madeira, os que faziam tijolos e telhas, os que carregavam pedras, até
ao pé da obra”. Assim, em sistema de mutirão, dizemos hoje, vai sendo
construída a nova capela. A moeda circulava escassamente e o pagamento aos que
lá trabalhavam era feito em doações de gêneros alimentícios.
Persistente, uma das suas
características, e apesar da seca que o Ceará atravessava, ele não desiste e
prossegue na sua obra meritória. Dos moradores aquinhoados do lugar, ele e seus
familiares recebiam doações de alimentos, depõe sua escrava Tereza de Jesus,
dizendo: “nada faltava, na dispensa da casa” (Amália Xavier, op.cit.). Pobres, a pequena herança
deixada pelo pai tinha acabado, daí o cumprimento da palavra empenhada pelos
proprietários da povoação. Azarias Sobreira comenta: “Batina, chapéus, calçados
lhe ofertava o Vigário do Crato, o Padre Fernandes Távora”. Até aí, levava
mesmo uma vida de pobreza, de ascetismo. Depois, foi levado de roldão pelo lusco-fusco
do Milagre de 6 de Março de 1889, que mudou radicalmente sua vida, com tanta
gente a assediá-lo. E foi numa dessas concentrações de devotos que ocorreu o
seguinte episódio, descrito pelo anteriormente citado Azarias Sobreira: “Numa
tarde, por ocasião da sua célebre bênção aos romeiros em frente à Igreja, uma
multidão enchia a praça; do meio dela surgiu alguém que lhe fez uma oferta, um
pacote embrulhado em papel trançado por grosso cordão de barbante”.
Era praxe, diz o escritor e seu
biógrafo, ele não agradecer as dádivas recebidas. Nessa manhã-tarde, ao receber
a oferta, como de costume guardou-a no bolso externo da batina. Instantes
depois, mãos suplicantes erguem-se-lhes a implorar uma esmola, ele então retira
do bolso o pacote recebido há pouco e entrega ao suplicante, que dali mesmo
partiu para as compras. Ao fazer o pagamento, uma grande surpresa para o
comerciante, porque pago em moedas de ouro. Admirado e surpreso com tantas
moedas valiosas, num total de dezoito, o comerciante pergunta-lhe como
conseguiu toda aquela pequena fortuna. Respondeu: “Meu Padim Ciço me deu”. O
comerciante manda avisar à Beata Mocinha, governanta respeitável daquele mundo
complicado da Casa do Padre Cícero. Num piscar de olhos, o novo rico foi
localizado. Chegando, ela perguntou-lhe onde tinha conseguido aquela dinheirama
toda. Ele confirma o que dissera ao dono do estabelecimento comercial: “Padim
Ciço me deu”. A beata e mordoma, sem coação, exigiu
que lhe devolvesse as libras, o que foi feito. Aborrecida com o incidente, se
dirije ao Padre Cícero, num tom de altivez e crítica, dizendo: “Onde iremos
parar, Padre Cícero, o senhor dando moedas de ouro, como se fossem vinténs?”.
Sem se alterar, respondeu-lhe: “Basta, Joana, já dei está dado”. Jamais soube
ele que as libras esterlinas recebidas horas antes tinham voltado às mãos de
sua governanta.
Retomo ao que vinha comentando
sobre os trabalhos da construção da nova capela, quando sobreveio a seca de
1877, trazendo no seu bojo um cortejo de misérias. Ela passou à História como a
maior e mais dolorosa de todos os tempos, ficando conhecida pela seca “dos dois
sete”. A devastação que fez foi a de um furacão, destruindo e levando de roldão
como se fosse mesmo o fim de um tempo apocalíptico, deixando um rastro de
tristeza e destruição indescritível, pelo número de mortes e um flagelo sem
precedentes. Os historiadores do passado a descreveram como um fenômeno sem
parâmetro, em toda história do Ceará. Nessa quadra de tanta aflição e pavor, o
Padre Cícero muito deu de si. Pragmático, tomou a iniciativa de conduzir os
flagelados ao campo, ensinando-lhes como converter a macambira e a mucunã em
alimento, a fim de salvá-los da morte.As raízes teriam que ser lavadas e
secadas nove vezes. Desse modo, estariam prontas para serem consumidas, após
serem transformadas em farináceos para a fabricação de beijus e mingaus. A
citação é de Manoel Diniz (op. cit.), cuja informação foi dada pelo
próprio Padre Cícero, em intermináveis palestras com ele, rememorando o fato
que fixou-se para sempre em sua retina, do qual nunca conseguiu libertar-se: o
dantesco painel, presenciado por ele, quando viu dezenas de pessoas sucumbirem
pela fome e pela sede, num rastro avassalador de desespero. O processo das
sementes era rude, mas eficaz, salvando muitas vidas, observou Edmar Morel (op. cit.).
Em Fortaleza, as crônicas dão
conta de que, nas ruas, os flagelados tombavam de fome, os sepultamentos eram
contínuos; muitos tentavam resistir e partiam em direção à Serra da Ibiapaba,
mas não chegavam a concluir a caminhada – exaustos pela fome e sede, sucumbiam.
O número de cruzes à beira da estrada multiplicava-se, marcando, assim, o
inexorável fim – a morte pela fome e pela sede.
Joaquim Alves, Tomaz Pompeu de
Souza Brasil, Rodolfo Teófilo, Raimundo Girão são nomes conhecidos, que
escreveram sobre o fenômeno da grande seca de 77. No Cariri, os sacerdotes
foram os grandes baluartes do doloroso momento. Em Missão Velha, o Padre
Aurélio Arnaud Formiga foi de uma solidariedade extrema: descendente de família
rica, doou metade do seu patrimônio para a Igreja e o restante repartiu com os
pobres, por isso deram-lhe o título de “Cavaleiro da Caridade”. Padre Cícero,
não dispondo de recursos para ajudar os flagelados, tomou a si o encargo de
seguir com eles para o campo, e ajudá-los a usar a maniçoba, a mucunã e outras
raízes, conseguindo por essa forma salvá-los da morte. O episódio traumatizou-o
por toda sua vida. A Seca sempre foi uma das pautas das suas preocupações, pela
falta de recursos hídricos, no Ceará, quiçá em todo o Nordeste. Depois, quando
já Prefeito do Juazeiro (1910), ele tornou obrigatórias a abertura de poços
artesianos e a construção de cisternas em todas as residências. Se o indivíduo
não podia arcar com as despesas do material, ele o fazia, contanto que o
problema da água fosse solucionado (Amália Xavier, op.cit.).
O consolo da presença caridosa do
Padre Cícero, no seu papel de guia e pai amoroso, era para todos que lá
chegavam um lenitivo. Parecia que ele estava a “olhar por todo o mundo” na
feliz expressão de David Hume. Por isso, teve garantida a sua imortalidade.
Usando de meios os mais engenhosos possíveis, como os acima citados, a fim de
salvar vidas, é fato de todos sabido. Além dessa alternativa, tomou a iniciativa
de, juntamente com o Intendente do Crato, dirigir-se ao Imperador, solicitando
ajuda. Embora tenha demorado, o auxílio veio, só que insuficiente para atender
a enorme leva de mendigos, que ultrapassava em muito o enviado pelo Imperador,
porque metade do dinheiro remetido ficou com os mais espertos, conforme citação
de Amália Xavier (op. cit.), que
escreveu: “O dinheiro não foi usado para o fim principal, que era o de salvar
vidas, por ter sido desviado em mais da metade”.
O episódio ocorrido há mais de um
século mostra, em toda sua plenitude, o que hoje virou uma rotina: o desvio de
verbas públicas, sem o menor respeito pelo momento que atravessava o povo
cearense, com a seca a devastar vidas humanas, quando tombavam exauridos pela
fome e sede. O quadro dantesco não foi suficiente para sensibilizar os que
foram responsáveis pelo desvio do dinheiro e alimentos para socorrer os
flagelados, que, num gesto de benevolência do Imperador, tinha a finalidade de
salvar vidas humanas. Fica nítido nesse episódio que o expediente do desvio de
verbas públicas, já vindo de longe, arraigou-se de tal forma que é difícil
extirpá-lo, continuando vivíssimo até o presente. Não havendo interrupção
saneadora, com uma fiscalização idônea, o erário público é saqueado afrontosamente.
No momento em que escrevo, virou epidemia em todo o País. Os desfalques, em
todas as esferas da administração pública, são astronômicos. A distância do
Poder Central, segundo autores antigos, ajudava para que reinasse a impunidade,
e hoje, o que dizer, se estamos cercados pela globalização e pelo instantâneo
da notícia? Mesmo assim, os desfalques continuam, enquanto o povo tomba nas
ruas de doença e fome, em pleno Século XXI, e nada, absolutamente, acontece aos
corruptos do dinheiro do povo. Falar de CPIs é ilusão – a maioria tem como
destino as gavetas. Esse o sistema reinante no país, dos donos do Poder,
verdadeiros magnatas, quando as estatísticas mostram um elevado percentual de
milhões de famintos e marginalizados (ano de 2006).
Interrompido o fio da narrativa
da construção da nova capela, a ela volto. Com os serviços paralisados, ante o
quadro desolador da seca, finalmente depois do doloroso período, a construção
recomeçou sem mais interrupção. E a 20 de agosto de 1884 foi inaugurada por Dom
Joaquim José Vieira,1 segundo bispo do Ceará, que veio
ao Cariri em missão diocesana. Sob a égide de Nossa Senhora das Dores,
escolhida desde a fundação da rústica capelinha do Padre Pedro Ribeiro de
Carvalho, e de seu avô, Leandro Bezerra de Menezes, ela continuou como
padroeira do Juazeiro, até os dias de hoje. A solenidade foi de grande
magnitude, pela presença de um significativo número de padres, que acompanhavam
o bispo. Presentes ao ato, figuras tradicionais do Vale do Cariri, o que fez da
solenidade uma grande festa, quase excedendo as proporções do modesto e
acanhado lugar. A construção, considerada de grandes proporções para a época,
arrancou elogios do bispo dom Joaquim, exaltando o feito, e num discurso
emocionado, disse:
“— A capela do
Joazeiro, começada no princípio de 1875, pelo Padre Cícero Romão Batista,
sacerdote inteligente, modesto e virtuoso, é um monumento que atesta eloquentemente
o poder da fé e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, pois é admirável
que um sacerdote pobre tenha podido construir um templo vasto e arquitetônico,
em tempos anormais, quais aqueles, que atravessava esta Diocese, assolada pela
fome, seca e peste.” (Irineu Pinheiro, op. cit.).
O elogio espontâneo do bispo dom Joaquim despertou inveja por parte
de alguns colegas de sacerdócio; depois, os mesmos encarregaram-se de indispô-lo
com o Padre Cícero, quando do aparecimento do fenômeno da Hóstia Ensanguentada.
Fato de grande repercussão, que abalou os alicerces da Igreja Católica no
Brasil no século XIX, chegando até Roma, e aqui o tema principal desta obra,
porque marcou uma Era: A ERA PADRE CÍCERO.
O bispo Joaquim, no seu discurso
laudatório, fez alusão às virtudes do Padre Cícero. Terminou dizendo: “A virtude do Padre Cícero enche todo o Vale
do Cariri”. Não só o elogio ao Padre Cícero, de reconhecimento pelo feito, à
magnitude do evento, foi relevante, mas contou também com a presença de nove
sacerdotes. Foram eles:
Belarmino José de Souza
(Secretário da Comissão Episcopal)
Antônio Fernandes Távora (Vigário
do Crato)
Antônio Alexandrino de Alencar
(Vigário de Assaré)
Cícero Romão Batista
Félix Aurélio Arnaud Formiga
(Vigário de Missão Velha)
José Silvino Ferreira Lima
Bernardino Gomes Leitão
Manoel Rodrigues Lima
Francisco Rodrigues Monteiro
(Reitor do Seminário do Crato)
Joaquim Soter de Alencar
(professor do mesmo Seminário)
João Francisco da Costa Nogueira
considerado um virtuoso (Irineu Pinheiro, op cit.).
Vale lembrar que o Padre Cícero,
quando chegou ao ainda Joaseiro, o lugar era um simples povoado, dando início
aos seus trabalhos apostólicos pelo ensino do Catecismo, fundando pequena e
modesta escola de alfabetização, ler e contar, era tudo que podia lhes
oferecer. Azarias Sobreira descreve a povoação como insignificante: metade da
população era de analfabetos, retardatários e paupérrimos.
Ele não ficou insensível a esses
detalhes. Sabia que ali estava para cumprir uma missão, e, segundo afirmava,
divina. Diferente dos outros capelães que por lá tinham passado, abriu um canal
de comunicação com os descritos por seu biógrafo como incapazes. O resultado
foi surpreendente, fecundou, consubstanciou-se. O ponto de partida para essa
transformação foi o de dar-lhes cidadania, eles viram surgir à sua frente um
novo horizonte, deixando para trás o servilismo a que viviam submetidos, sem
nenhuma perspectiva. Deu-lhes lição de deveres e direitos. Usando de
pragmatismo para seus ensinamentos, de forma adequada passava-os à massa
analfabeta, servindo de fio condutor para suas ações, aliás, o bastante para
uma grande transformação no obscuro povoado. Dispensava-lhes atenção,
compreensão, solidariedade e amor, porque amor é cuidar, aí está a explicação
para que alcançasse os degraus de uma permanência eterna, iniciada na metade do
século XIX e continuada até a metade do século XX, em todo o Nordeste
brasileiro, num raio de mais de
Sua dedicação aos infortunados
chamava a atenção dos viajantes que pelo Joaseiro passavam, assim foi se
espalhando a notícia de suas virtudes, e em pouco tempo sua população cresceu além
do esperado. Ele parecia se inspirar na doutrina do Humanismo, que tem por
objetivo o desenvolvimento das qualidades e potencialidades do homem,
atribuindo-lhe importância fundamental. Nascia no Joaseiro primitivo a
Cidadania do Humanismo. O pequeno povoado foi se transformando num centro de
convergência, pelos que lá chegavam à sua procura, para eles, um Padre
diferente dos demais que por lá tinham passado. Atraídos por suas virtudes,
pelos conselhos que os dava, que corrigia quando necessário, terminou por
aglutinar todos em torno de si, acompanhado do magnetismo que carregava,
garantindo sua imortalidade.
Tornou-se um mito, volto a dizer.
Admirado por todos, despertava o orgulho do seu rebanho, que se sentia
protegido diante da sua atuação. E o comparam a um profeta da antiguidade, por
suas visões, por seus sonhos, por suas profecias. Em pouco tempo, já era tido
como um ente sobrenatural, um enviado de Deus. O coadjuvante havia: voz solene,
olhar azul profundo e penetrante. Voz e Olhar – eis o mistério. Esses dois
pormenores passaram a fazer parte de sua enigmática personalidade: todos que o viam
jamais esqueciam o detalhe, nem mesmo seus mais ferrenhos detratores ousaram
negar. O próprio bispo Joaquim, já indisposto com ele, não omite o detalhe. A
todos causava impacto e admiração. Se com pessoas de nível intelectual elevado
assim acontecia, que diremos da massa, a maioria analfabeta e predisposta à
auto-sugestão?
Seu humanismo vai tomando
consistência, extrapola os limites do microcosmo do Juazeiro. À medida em que
ali iam chegando pessoas de outros lugares, atraídas por suas virtudes, e isto
bem antes do Milagre de 6 de Março de 1889, não demorou
muito e eis que desperta desconfiança, por suas ações de benemerência para com
o povo pobre, dos coronéis do latifúndio da área geográfica do Cariri, como foi
o caso do fazendeiro José Joaquim da Rocha, administrador de terras e Coronel
da Guarda Nacional, que disse, segundo as crônicas locais: “O
Padre Cícero começou como missionário, breve será milionário, mais tarde
revolucionário”. O fraseado passou à História, dando lugar a que, mais tarde,
outros donos de terras o vissem como uma ameaça.
As constantes secas fizeram com que
ele fizesse o assentamento de flagelados que congestionava o Juazeiro nas
terras devolutas da Serra do Araripe e Caririaçu. A seca, uma pauta constante
em sua vida; assentando-os nessas terras devolutas que pertenciam e pertencem à
Nação, ele se viu sob fogo cruzado dos que se diziam proprietários, enxotando
os que lá chegavam na esperança da sobrevivência, um problema até hoje sem
solução e que já vem desde a colonização. Documentos antigos, como o do
historiador Dr. Pedro Thérbege, alemão que residia no Icó, onde praticava
medicina terapêutica, em 1840, o primeiro a escrever sobre o assunto, sem
esquecer João Brígido, no seu notável Ceará:
Homens e Fatos.
A narrativa do Dr. Thérberger é
autêntica, exercendo sobre o leitor uma grande curiosidade, quando descreve em
pormenores a grande contenda, que durou um século, entre duas das mais poderosas
famílias
do Ceará: Montes e Feitosas. A causa do sanguinolento combate, no qual tomaram
parte tribos indígenas, foi a demarcação de terras. Os dois milionários
ocupavam os Inhamuns. Senhores poderosos, porque riquíssimos, se digladiaram
por quase um século, só deixando a luta quando já envelhecidos; retiraram-se do
campo de batalha, embora ela continuasse com os descendentes que iam chegando
depois. Não só as tribos indígenas se engajaram nessa luta, mas parte da
Província do Estado do Ceará também se envolveu. Metade das tribos, as mais
poderosas, foi dizimada, como comenta o autor de Esboço Histórico da Província do Ceará. Após já terem guerreado por
mais de 50 anos, houve a intervenção da Coroa. Os dois principais chefes dos
clãs, Coronel Lourenço Alves Feitosa e o lendário Capitão-mor Geraldo, ou
Francisco, do Monte e Silva (há dúvidas sobre seu exato nome), depois de
combaterem por longos e longos anos, se retiraram do campo de luta já
envelhecidos, embora ostentando grandes poderes.
Lourenço Alves Feitosa, que tinha
patente de Comissário, era originário de Pernambuco, e foi um dos desbravadores
da Província do Ceará. Sua descendência permanece até hoje. Geraldo ou
Francisco do Monte era natural de Penedo (Alagoas), e lá chegou com grande
séquito, senhor de imensa fortuna em ouro, terras e gado. Considerado também um
desbravador, suas fazendas de criar excediam as proporções da época. Lourenço
Feitosa, pernambucano e fundador da grande e tradicional família Feitosa, e
Geraldo do Monte eram tão ricos, que as histórias de suas fortunas mais parecem
contos de fadas, quase inacreditáveis, dignas de admiração e assombro. O
próprio Dr. Théberge, ao narrar embevecido, parece achar fora do natural das
coisas. A sanguinolenta batalha foi um épico de sangue, como registram os anais
do Ceará. A Coroa intercedeu para que cessasse a luta. Entretanto, anos depois
recrudesce um novo embate, desta vez com um ramo da mencionada família Feitosa:
os Ferros. O principal cabeça da contenda era o também rico português José
Pereira Lima, senhor de engenho e proprietário de imensas glebas de terra no
Cariri. Os ânimos se acirraram, desembocando em luta violenta, com perdas de ambos
os lados. José Pereira Lima acrescentou a seu prenome a palavra Aço, em
contraposição ao do seu opositor Manoel Ferreira Ferro (Théberge, obra citada).
Vemos, nessa rápida exposição, que a luta pelo poder da terra é contínua, e
será ad infinitum, porque arraigada
desde o princípio da colonização.
Retomo a história do Joaseiro de
1889, que continuava com a mesma grafia de 1815. Até essa data, pouca coisa tinha mudado: um
lugar esquecido, um recanto singelo, que só contava com a exuberância de sua
paisagem, emoldurada pela Serra do Araripe e de São Pedro do Crato, atualmente
Caririaçu. Caminhando, como as demais localidades ao seu redor, na lentidão
própria da vida rural, a tranquilidade era sua característica. Nesse ano, o
Padre Cícero fundou várias associações pias, dentre elas, uma se destacaria
entre as demais: a Associação do Sagrado Coração de Jesus, ou Apostolado da
Oração, muito bem organizada, tendo ele como Presidente. Secretaria e
Tesouraria, foi confiado a um grupo de zeladoras, num total de 13 membros,
entre senhoras casadas e solteiras do escol social do Juazeiro, escreveu Amália
Xavier (op.cit.). Conhecido por sua
memória fenomenal, conforme já escrito, nada esquecia. Dessa vez, optou pela
escrita. Intuição ou simples acaso? Sabemos que nada deixou escrito sobre a
grave Questão Religiosa na qual se envolveu e que foi sua figura principal. Mas
suas cartas,
escritas de Roma para seus amigos e familiares, se reunidas, acrescente-se, às
escritas ao bispo Joaquim, ao vigário do Crato, são suficientes para que se
tenha ideia do que pensava em torno da transformação da Hóstia em Sangue, que ele
sublimou, eternizando para sempre.
Apesar de uma personalidade
indecifrável, segundo a observação do Padre Azarias Sobreira, que escreveu:
“Defini-lo é tarefa difícil, sobre-humana. Ele foi um verdadeiro ponto de
interrogação” (op. cit).
Além da Associação do Apostolado
da Oração, tinha a de São Vicente de Paula, a das Almas, fundada por José
Marrocos e por José Joaquim de Maria Lobo, a da Legião da Cruz, que irá merecer
um capítulo à parte, pelo tumulto que causou com a forte oposição do bispo
Joaquim, excomungando-a, e também ao seu fundador. José Maria Lobo foi de
indiscutível força e influência no movimento religioso do Juazeiro; o bispo
tinha por ele grande desprezo. Na lentidão dos seus dias, a povoação pouco se
desenvolvia, exceto no tocante ao religioso, que avançava com suas associações,
suas festas litúrgicas, de inegável valor social. Chegou o ano de 1889, já
tumultuado pelos horrores da seca que já vinha castigando desde o ano anterior.
Foi exatamente nesse ano que o Juazeiro deixaria para trás o anonimato, movido
pelo impacto do fenômeno religioso, com o aparecimento de sangue nas hóstias
recebidas pela beata Maria de Araújo, fenômeno que ultrapassou os limites do
Juazeiro, chegando a todo o Nordeste, causando sensação. Mais tarde chegaria ao
estrangeiro, à Roma principalmente, onde seria julgado pelo Sacro Colégio. Um
fato histórico que a memória guardou e que teve a participação do grande
público, criando raízes, se eternizando para sempre.
Naquele ano, a expectativa era
sombria, desenhava-se um painel de uma grande e terrível seca, com suas consequências,
quando lembravam a de 77, passada à História como um flagelo sem precedentes.
Preocupados,
ele e os demais vigários da redondeza recorriam às orações, suplicando por
chuva; movimentavam-se em procissões, faziam promessas, vias-sacras, aguardando
ansiosos o tradicional dia de São José, Padroeiro do Ceará e fiel depositário
das esperanças do cearense. Se a chuva cai no seu dia, é sinal que teremos bom
inverno; se a previsão falha, segue o horror da migração e todas as sequelas
que a seca traz no seu bojo. As crônicas registram a apreensão do Padre Cícero,
e ele tinha razão, quando presenciou in-loco a morte de dezenas de pessoas por
fome e sede, detalhe que o traumatizou por toda sua vida.
No calendário, constava a
primeira sexta-feira do mês, dia 6, consagrado ao Apostolado da Oração,
reverenciado com missas, confissões e comunhões. A noite daquela quinta-feira,
num exagero de religiosidade atrelado ao misticismo, ele a passara em claro,
confessando e em vigília ao Ssmo Sacramento; dezenas de fiéis lotavam a capela
de Nossa Senhora das Dores. Alguns, já exaustos, ao amanhecer do dia retiraram-se
para suas casas. Mais da metade, segundo a crônica oral, lá permaneceu.
O relógio marcava 5 horas; ele
deixa o confessionário e dá início à celebração da missa. Ao administrar a
comunhão à Maria
de Araújo, ela entra em êxtase e a Hóstia se transforma em sangue, fato que foi
presenciado por dezenas de pessoas que lá estavam. Por ter sido público, não
foi possível escondê-lo: a notícia correu veloz, difundida pela propagação
oral, esse veículo poderoso que atravessa fronteiras, ganha o mundo, e chegou
até o bispo que, informado do episódio, não se pronunciou de imediato. Autores
que escreveram sobre o movimento religioso do Juazeiro consideraram um erro do
bispo, em demorar a averiguar o fenômeno, expresso na pessoa da beata Maria de
Araújo. Ao tomar tal decisão, já era tarde. O movimento já tinha se alastrado
sertão afora, chegando aos mais remotos lugarejos. O caso tomou outra
conotação, após as afirmativas do Monsenhor Monteiro, de que o fenômeno era de
ordem divina. Começava a grande polêmica em torno do fato, e a peregrinação
teve início, transformando o obscuro lugarejo na Meca Caririense. Nascia aí a história
impressionante de um Milagre, que tantos sofrimentos causaram ao Padre Cícero.
O sertão ficou convulsionado pela
novidade, causando comoção e admiração. O sertanejo, na sua crendice arraigada,
vinda de tempos atrás, segue em direção ao Juazeiro, para constatar in-loco o
grande milagre da transformação da hóstia em sangue. Entusiasmados, celebravam
o memorável acontecimento e entoavam louvores a Deus. O fenômeno se repetiu,
durante toda a quaresma daquele ano, e sempre às quartas e sextas-feiras, de
acordo com documentos da época. A partir daí, o Padre Cícero enfrentaria uma
situação confusa, cheia de percalços. Tem início a grande romaria que, até hoje,
passados 119 anos do episódio, continua viva, e a cada ano mais cresce.
Pela leitura dos documentos,
vê-se que o movimento parecia ser um movimento interno, limitado somente ao
ainda Joaseiro. Num segundo momento, numa dinâmica ilimitada, ganharia o Mundo
na velocidade de um raio, após as declarações do Monsenhor Monteiro em
peregrinação até lá, quando arrastou uma multidão de mais de três mil pessoas
da vizinha cidade do Crato. O dia para celebração desse evento foi 7 de Julho, dia
consagrado, na liturgia da Igreja Católica, ao Precioso Sangue de Cristo. Monsenhor
Monteiro sobe ao púlpito e, num sermão carregado de fé, piedade e eloquência,
declara que o sangue nas hóstias recebidas pela Beata Maria de Araújo era mesmo
o sangue de Cristo, do Divino Redentor. Segundo a tradição oral, o povo caiu
O efeito sobre a massa foi
surpreendente, e o Nordeste, alvoroçado, partiu rumo ao Juazeiro. Todos queriam
chegar ao mesmo tempo, na ânsia de constatar o assombroso Milagre, abarrotando
o lugar, congestionando-o. Em lá chegando, os peregrinos tinham dois objetivos:
primeiro, ver de perto o Padre e a Beata, portadora de sacrossantos dons;
segundo, prestar reverências aos paninhos manchados de sangue, das comunhões
ditas miraculosas de Maria de Araújo, paninhos que, na liturgia católica, são
chamados de sanguinhos. Guardados numa urna de vidro, eram expostos à adoração
dos fiéis, cuja urna ficava no centro da capela-mor, e bem à vista dos
presentes. Candelabros com velas acesas rodeavam-na; turíbulos incensavam o
ambiente, e o aroma enchia toda a capela com o seu odor característico,
transformando-se em fumaça, subindo em espirais, dando um aspecto de imponência
e respeito, numa atmosfera de fé e religiosidade, tudo dentro dos cânones da
Igreja Católica Romana. Embora o bispo Joaquim e a corrente do clero que ficou
a seu lado insinuassem que os rituais na Igreja do Juazeiro eram de outra ordem
que não a católica. Por isso, precisa aqui ser lembrado mais uma vez, para
refutar certos equívocos. E assim o milagre ia sendo implantado na alma do povo
simples, que acreditava piamente. Aliás, não só este, significativa parcela de
pessoas cultas e de expressão social também acreditava.
A imprensa agita-se, e publica os
fatos nos dois maiores Jornais do país: o Diário de Pernambuco e o Jornal do
Comércio do Rio (edições de 19 e 29 de agosto de 1891). O caso ganhava
repercussão nacional; em breve, seria manchete na Europa, nas cidades de Viseu
e Porto (Portugal), pouco depois no Gionarlli de Roma, atesta o bispo Joaquim,2 indignado com a repercussão do fato. A ele caberia, dali
para frente, tomar a si o encargo de averiguar o estranho caso. Os artigos
provinham da pena erudita do professor José Marrocos, denominado teólogo da
Questão Religiosa do Juazeiro. O fato também foi publicado no Jornal Estrela da
Aparecida,
de São Paulo, cujo artigo era de autoria do Monsenhor Monteiro.
Amplamente divulgado, o fenômeno
despertava interesse e, no imaginário popular, criava-se a lenda em torno do
mistério, enquanto a romaria para a povoação tornava-se gigantesca, com
peregrinos vindos de todos os quadrantes do Nordeste. Há de se notar, nesse
pormenor de deslocamento das multidões, o fenômeno do instantâneo da notícia,
para uma época tão remota, quando não havia a comunicação de massas, e os
jornais, além de serem restritos às capitais, só chegavam ao sertão com grande
atraso, trazidos por cargueiros, os chamados ambulantes, viajantes daquela
época, que traziam e levavam notícias, admite o historiador Valdemar Barbosa em
História de Minas.
Ficando consignado ao boca-a-boca
poderoso, como até hoje, o outrora obscuro lugarejo transformou-se rapidamente
na Meca caririense. Em lá chegando, eles espalhavam-se pelos becos e ruelas
próximas à Igreja, para poderem participar ativamente do movimento religioso.
Cinco missas por dia eram celebradas, e nunca menos de seis sacerdotes lá se
encontravam diariamente, afirmava o Padre Antônio Fernandes Távora, Vigário do
Crato à época, em carta ao bispo dom Joaquim, datada de 7 de março de 1891.
Nessa Carta, ele traça o perfil do movimento na povoação, dando uma ideia
visível do que seria o seu desenrolar. Em meio a uma série de explanações
carregadas de críticas e desdém, escreveu: “O
Juazeiro ou há de acabar como o mais célebre santuário do mundo, onde se
formará um só rebanho e um só pastor, ou então acabará muito mal, dando muito
trabalho ao Governo, ou à própria Igreja”.
Esta carta foi o primeiro torpedo,
partido de um membro do clero, abrindo caminho para a grave crise religiosa. A
partir daí, originou-se todo o mal-entendido entre o bispo e o Padre Cícero. O
teor da carta é claramente um incitamento à luta religiosa, que na realidade
teve aí seu nascedouro, além de logicamente ter criado uma cisão entre as irmãs
geminadas, Crato e Juazeiro, sobrevindo uma rivalidade entre as duas que durou
anos e anos, com evidente prejuízo para ambas. O Padre Fernandes Távora não só
conseguiu o desdobramento religioso, dividindo o clero, como deu lugar à rixa
que se formou entre os adeptos e não adeptos do milagre, desaguando mais tarde
na guerra civil de 1914, porque ela teve conotações atreladas ao movimento
eucarístico do Juazeiro – é um fato inequívoco. Observe-se que, no último
parágrafo da carta, ele preconiza a interferência do Governo, tal qual
aconteceu depois.
Ao receber a carta do Padre
Fernandes Távora, o bispo Joaquim, contrariado com as notícias procedentes do
Juazeiro e com a explosão de peregrinos que cada dia mais aumentava, remete ao
Padre Cícero uma carta de caráter confidencial, cuja transcrição é a que se
segue:
“Confidencial. Padre Cícero, é escusado dizer que sou seu amigo e que venero suas
virtudes; por isso, deve V. Revmª fazer justiça às minhas intenções com relação
à Maria de Araújo e ao seu caso, ao qual ligo máxima importância. Há de V.
Revmª lembrar-se que em 1886, no Quixará, contou-me alguns fatos
extraordinários sucedidos com Maria de Araújo, havendo eu lhe recomendado muito
critério, muito cuidado em ordem a evitar-se qualquer ilusão. V. Revmª foi fiel
às minhas recomendações, guardou silêncio criterioso. Monsenhor Monteiro,
entretanto, pratica nova imprudência, e V. Revma começa a dar
culto público a uns paninhos manchados de sangue etc. Abalou-se o Ceará, excitou-se
a curiosidade pública, a imprensa levou aos quatro ventos a notícia. Tenho
tido certos interrogatórios acerca do assunto. Nestas condições,bem compreende
V. Revma o meu dever de bispo, averiguar os fatos para que
possa dizer: Digitus Dei est hic. Ora, ficando Maria de Araújo em sua
companhia, eu não poderei atingir aquele fim; eis porque meu padre, eu exigi, e
continuo a exigir a entrada de Maria de Araújo para a Casa de Caridade do
Crato. Ali haverá testemunhas de qualquer maravilha, de modo que os fatos
ficarão mais firmados. Ademais disso, não faltarão os cuidados necessários a
Maria de Araújo, quer da parte espiritual, quer da parte temporal. Se a Beata
vier a morrer porque me obedece, dará mais uma prova de suas virtudes, a Santa
Obediência. E numa palavra, Padre Cícero, não desisto de minha exigência, pois
trata-se de coisa muito séria. Dou-lhe cinquenta dias, a contar da data da recepção desta,
para V. Revma dispor o espírito da moça a ir para o Crato. Não obrigo
inteiramente a V. Revma, mas se me obedecer, me firmarei no conceito que formo
de sua pessoa; se não me obedecer nada farei, mas ficarei triste e...
desconfiado. Eu bem sei que o contrario com esta resolução, mas não tenho outro
alvitre a tomar. E repito: é grande inconveniente que Maria de Araújo more em
sua companhia pois assim nunca se poderá verificar coisa alguma.
Espero Padre Cícero,
que V. Revma, refletindo melhor, me auxiliará nesta empresa, em que só
tenho em vista firmar a verdade.
Nosso Senhor o
inspire e o dirija na sua afanosa tarefa.
Seu humilde servo e
amigo.
Joaquim Bispo Diocesano”
Cheia de advertências severas, a Carta também mostra, em certos trechos,
que o bispo até aí ainda demonstrava certo apreço ao Padre Cícero, fazendo
menção às suas virtudes. Com o andar do tempo, a transição no seu pensamento
foi de uma verdadeira metamorfose, pela posição da ala conservadora do clero,
que o pressionava, e de leigos, embora mínima. E o que poderia ter sido um
grande movimento de fé, unindo o povo, redundou na guerra civil do Juazeiro,
que não deixou de ter conotação com o movimento religioso, embora muito tempo
depois.
A perseguição ao Padre Cícero
começou em 1890, continuando até sua morte, arrastando-se dessa forma por 45
anos ininterruptos. É o que veremos nas páginas seguintes, quando
sentimentos de fraternidade e perdão foram esquecidos pela ala conservadora do
clero brasileiro.
****
CAPÍTULO 4
A GRANDE PEREGRINAÇÃO
O
grande
contingente humano que chegava ao Juazeiro, para constatar o fenômeno, era
incalculável e constava de um público variado. Ainda com a grafia de Joaseiro e
ostentando resquícios dos seus primórdios, virou uma babel. Doutores,
fazendeiros, comerciantes, padres e pessoas comuns lá chegavam diariamente, e
todos tinham uma só finalidade: constatar in-loco o fenômeno. A população
crescia a uma velocidade tal que, no ano de 1891, sua população já atingira a
cifra de mais de cinco mil habitantes fixos, tendo como causa o milagre, que
arrastava uma multidão dos mais longínquos recantos do Nordeste. Muitos não
retornavam às suas terras de origem, ficavam por lá. Desta forma, o Juazeiro
tornou-se um amálgama de culturas. As famílias foram se entrelaçando pelos
laços do matrimônio entre nativos e adventícios, dando lugar ao nascimento de
uma cidade heterogênea com um tipo interessante de pessoas, que formam a
espinha dorsal de sua sociedade, produto de uma herança histórico-religiosa.
Com o aglomerado humano que foi se formando, veio o desenvolvimento comercial,
lojas foram se abrindo: tecidos, miudezas, armarinhos e casas especializadas na
venda de santos. Os artesãos chegaram trazendo diversas especialidades: na
fabricação de velas, de jóias, na arte da fotografia e da pirotecnia, com seus
magníficos fogos de artifícios, muito elogiados, e que foram passando de
geração a geração. Mais tarde, imperaria a tipografia.
É fato notório que foram essas
pessoas simples que fizeram o progresso do Juazeiro antigo, colaborando
ativamente para o desenvolvimento da povoação. Com a grande densidade
demográfica e a pressa que tinham em construir, o lugar foi perdendo sua
característica primitiva: ruas iam se abrindo em desalinho, tortuosas, becos e
vielas confundiam-se; casas eram construídas da noite para o dia, a maioria de
taipa e cobertas de palha de carnaúba; outras se destacavam naquele mosaico
confuso, eram de alvenaria, cobertas de telhas com piso em tijolos de ladrilho.
O pequeno detalhe denotava o poder aquisitivo dos seus proprietários.
Subdividido, o Juazeiro ia perdendo seu aspecto de paraíso natural, o que era
uma pena. Documentos da época dão conta de que no dia 26 de março de 1890, por
ocasião de solene missa com a participação de oito sacerdotes, a capela de
Nossa Senhora das Dores abrigou para mais de mil pessoas. Neste dia,
realizou-se mais um milagre e a notícia espalhou-se com a velocidade de um
raio, dominando os espíritos, com o cenário da povoação a transmitir uma aura
de mistério.
Nesse mesmo dia 26 de março, o Dr. Marcos Rodrigues
Madeira, notável médico, na expressão do Bispo Joaquim, formado
e doutorado pela antiga Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, culto e
íntegro, em férias no Crato, sua cidade natal, foi convidado pelo Padre Cícero
a dar seu parecer sobre o fenômeno. Depois de verificar com atenção, segundo o
que disse em seu documento-memória, emitiu sua opinião através de um atestado,
tornando o fato cognoscivo, e mais que isto, transformou-o num monumento
histórico,
porque reconhecido em Cartório, rubricado, datado e assinado por seu próprio
punho e sob juramento do seu grau de doutor. Na íntegra, o que escreveu:
“Atesto
que, sendo chamado para observar a beata Maria de Araújo poucos minutos depois
dela ter comungado, no dia 26 do corrente, quinta-feira Santa no povoado de
Juazeiro, onde me encontrava, observei o seguinte: encontrei-a de joelhos,
cercada pelo Revmº Padre Cícero Romão Batista, outros sacerdotes e muitos
cidadãos distintos desta e de outras localidades, os quais me convidaram para
verificar a transformação da hóstia em sangue, fato este que, segundo me
referiu o mesmo Reverendo Padre Cícero, tem se reproduzido mais de uma vez na
mesma pessoa. De fato, examinando nesta ocasião a língua da beata, verifiquei
com os meus olhos que a partícula estava quase toda transformada em uma pasta
sanguínea, menos na parte central, na qual se divulgava ainda uma pequena parte
da partícula com sua cor natural. Em seguida a mim, continuaram a examinar o
referido fato grande número de cidadãos de reputação insuspeita; e desejando
continuar a examinar o fato, pedi ao Revmº Padre Cícero que fizesse remover
grande parte do povo que nos cercava, a fim de que houvesse bastante luz para
prosseguir no meu exame, o que fiz com a mais acurada atenção. Nessa ocasião,
observei que a partícula estava completamente transformada em sangue vivo,
rubro, que podia ser visto a olho nu, por qualquer pessoa, mesmo que não fosse
um profissional. Este sangue assim descrito tomara a forma de um coração. Observava-se
uma úlcera na parte anterior a média da língua, cujos bordos eram salientes e
se elevavam bastante, de modo ser este fato também verificado por mim e um
grande número de cavalheiros da primeira sociedade. Minutos depois, quando
tornei a aproximar-me para proceder a novos exames na referida beata, já não
encontrei nada do que antes havia observado com bastante atenção. O sangue
tinha desaparecido completamente, e bem assim a úlcera ou chaga, como chamaram
as outras pessoas que comigo foram testemunhas do fato, não ficando
absolutamente na língua o menor vestígio dos fenômenos que acabavam de
operar-se. Continuando ainda o meu exame, não descobri a menor ferida, úlcera
ou ferimento de natureza alguma na língua, gengivas, laringe, enfim, em toda a
cavidade bucal, sendo de notar-se que a língua estava completamente limpa e sem
a menor rachadura. Outro fato digno de menção é que esse sangue completamente
rubro não sofreu a menor alteração na sua cor, durante todo o tempo em que foi
observado na língua por espaço de duas horas mais ou menos, apesar da ação do
ar atmosférico que com ele estava em contato. Para mim, trata-se de um fato
sobrenatural, para o qual não me foi possível encontrar explicação científica.
Pouco se me dá que os incrédulos não dêem a este atestado o valor que ele deve
ter. Desde que o que atesto acima é expressão da verdade, e o juro em fé do meu
grau, tantas vezes quantas me forem pedidas. Declaro outrossim, que já dei no mesmo sentido um atestado igual com a
minha própria letra, o qual vai seguir com o das pessoas que também assistiram
ao fato, para o Exmº Bispo do Ceará, e por ser este pedido, mandei passá-lo, e
nele me assino.
Cidade do Crato, 28 de março de 1891
Dr Marcos Rodrigues Madeira”
O médico também contou com a
participação de diversas testemunhas oculares. Seu atestado deu sustentação ao
milagre e fez o Padre Cícero crescer no conceito de todos. Posteriormente, reunido
aos testemunhos do eminente médico Dr. Idelfonso Correia Lima, do farmacêutico
Joaquim Secundo Chaves, do Monsenhor Monteiro, dos Padres Manoel Martins de
Jesus (de Salgueiro, PE), Ferreira Düetts (Triunfo-PE), de Quintino Rodrigues
(depois Bispo
do Crato), e de muitos outros. Com esses testemunhos, em especial dos
sacerdotes, nasceu a grande tensão entre o Bispo, o Padre Cícero e demais
autoridades eclesiásticas que acompanharam o Diocesano. Nascia o grande
conflito religioso, culminando com a suspensão de suas ordens, depois
ratificada por Roma.
O médico Dr. Inácio de Souza Dias,
da cidade do Icó, atraído pelo fenômeno, emitiu seu testemunho, reconhecendo o
milagre, embora mais tarde retirasse o que disse, e numa Carta ao Bispo pediu desculpas
e também ao público. Espantado ante o fato misterioso, dizia: “estamos em presença
de um mistério o qual não podemos compreender, por mais privilegiada que seja a
mente humana”. Posteriormente, diria em carta ao Bispo Dom Joaquim, o
que pensava em relação aos fatos, mas é assunto para depois. O poder dos
atestados dos dois médicos, Marcos Madeira e Idelfonso Lima, tiveram enorme
peso, com repercussão em todo o Juazeiro e vizinhança. O bispo e seu segmento,
no entanto, fizeram objeção a esse testemunhos, alegando que o horário das nove
horas da noite era impreciso, quando tudo ao nosso redor tende a se embaralhar,
por ser o orgão visual suscetível de receber impressões.
Cético quanto ao milagre, o Bispo rejeita a tese
do médico que atestava a sobrenaturalidade do fato. Mas de nada adiantou
ter contestado. O testemunho do médico Idelfonso Lima, apesar da recusa de Dom
Joaquim em não aceitá-lo, passou a ser parte integrante da intrincada Questão
Religiosa do Juazeiro, sendo decisivo no aperfeiçoamento da concepção do milagre,
cuja história repercutiu ao longo do tempo, e até hoje, passados 118 anos,
ainda gera controvérsias. Após ser divulgado pela imprensa o atestado do Dr.
Marcos Madeira, também foi lançado um Boletim, assinado por José Estrela Cabral
Júnior, impresso na Tipografia Cratense, com a assinatura de 27 pessoas da
elite local, que diziam ter visto a Sagrada Hóstia se transformar em sangue e
tomar a forma de um coração humano. Anexo a esse Boletim, um artigo do Padre
Manoel Martins de Jesus, cujo título era “Uma Santa”. O artigo corria mundo,
publicado pelo Jornal Católico Era Nova do Recife (Mito e Realidade, op. cit.). Seguindo-se a esse, artigo do Padre Cícero
Torres, da cidade de Água Branca (PB), expresso num folheto denominado “Graça Concedida por
Deus”.
O folheto
existe.3 Era o auge da fé
religiosa, que serviu de objeto para uma crítica sarcástica do sociólogo Jader
de Carvalho ao analisar o movimento religioso do Juazeiro, no prefácio do livro
Mito e Realidade.
Retomo ao que vinha narrando
sobre os testemunhos: para todo um público, o milagre era uma realidade. E não
só para as pessoas simples, tendentes a acreditar no maravilhoso, no fantástico.
Havia também, no meio intelectual, os que acreditavam ser de ordem divina.
Assim sendo, nenhuma dúvida mais pairava sobre os fenômenos, nem mesmo a reação
fulminante do Bispo, contestando-o, influíram no pensamento religioso da
massa. Ao contrário, a adesão foi inevitável, sobrevindo daí a grave crise
religiosa, que teve seu desdobramento, formando-se duas correntes: uma, fiel ao
Bispo; a outra, que acreditava piamente no milagre – todos eles de notável
saber, como o Padre Ferreira Düetts (era poeta), o venerando Joaquim Sóter de
Alencar, de caráter inquestionável, considerado a pérola do clero, e Monsenhor
Monteiro, culto e grande orador sacro. Tenho que registrar que, à época, era um
clero culto. O conceito de Milagre não só era creditado aos sacerdotes daqui,
mas outros sacerdotes de Dioceses distantes acreditavam no fenômeno como sendo
de ordem divina, como por exemplo, o Padre Carloto Távora, à época na Diocese do
Maranhão, depois foi Bispo de Caratinga (MG). Nesse oceano de dúvidas e
concepções diversas, vale aqui lembrar Michel Foulcaut, que escreveu: “Os
problemas da História podem resumir-se numa só palavra: o questionar dos
documentos”.
Dom Joaquim continuava
inflexível, contestando veementemente, convicto de que não havia milagre algum
nas comunhões da beata. O atestado do Dr. Marcos Madeira, escrito de próprio
punho, invocando o juramento de médico, passou a ser documento oficial, e a
reação de Dom Joaquim foi de decepção. A proposição do Padre Cícero de que o
sangue aparecido nas hóstias era de origem divina, numa palavra, de Cristo,
contrariava a posição do Bispo, que dizia ser essa
concepção avançada e grave, e recriminava-o, perguntando: “A Igreja lhe
autorizou a pregar essa novidade?”. E foi o enunciado dessa proposição,
sustentando a tese de que era o sangue de Cristo, que marcou o movimento
teológico-ideológico da chamada Questão Religiosa do Juazeiro.
A publicação dos atestados
médicos pela imprensa trouxe apreensão e preocupação não só ao Bispo, mas a todo o
clero. Até aquele momento, sua intervenção na trajetória dos fenômenos
consistira em longas cartas para o Padre Cícero e o Monsenhor Monteiro. A
partir daí, ele reagiu, cobrado pela imprensa, pela ala do clero descrente do
milagre, e por um segmento que até hoje se desconhece, mas citado em suas
Pastorais – para muitos autores, a Maçonaria, já aqui presente com grande
poder. Entretanto, nada de oficial consta nos anais de toda essa longa
história, que o comprove. O Bispo, demonstrando ceticismo, deixa evidente que
absolutamente não aprovava os fatos, e tentava se eximir de responsabilidades.
Decidiu então que seria feito uma averiguação minuciosa, ordenando que o Padre
Cícero comparecesse ao Palácio Episcopal para se explicar. Cumprindo ordens, e
demonstrando irrestrita obediência, ele seguiu para Fortaleza, e no dia 17 de
julho de 1891, depois de prestar o juramento de fé com a mão direita sobre um
dos livros do Evangelho, prestou seu depoimento, prometendo dizer a verdade do
que soubesse e lhe fosse perguntado. Testemunharam essa acareação os sacerdotes
Monsenhor Hipólito Gomes Brasil, Secretário do Bispado, e o insigne Padre
Clicério da Costa Lobo, convidado do bispo como Secretário ad-hoc. Seu depoimento foi chamado de “Auto de Perguntas”,
reminiscência do antigo e horrendo “Auto de Fé” da Suprema Inquisição.
Após ser ouvido, o Padre Cícero
apresentou um documento para ser incluído ao Auto de Perguntas, escrito por ele
sobre a vida espiritual da Beata, que constou de nove itens, aos quais deu os
seguintes títulos: “Disposições e
Provações de Maria de Araujo; Visões; Dom de Vocação; Colóquios; Espírito de
Penitência; Fatos extraordinários; Êxtases; Estigmas; e Como Nisso Procedi”, resumindo com um adendo:
“Quanto ao que possa ter aqui omitido, e para o que não sobrou tempo, refiro-me
aos diversos atestados médicos, que, o quanto me cabe, confirmo e julgo
autênticos. Eis, Exmº Sr. Bispo, quanto ocorre-me agora, certo de que só a
obediência, a maior honra e glória de Deus, e a edificação a isso me obrigam,
isto é, a fazer públicos todos esses fatos” (Amália Xavier, ibid, p. 77).
Depois do seu depoimento, o Bispo o recebeu em
audiência privada, quando mais uma vez reiterou sua desaprovação aos fenômenos,
sempre defendendo a tese de que o sangue aparecido nas hóstias recebidas pela
beata não era o sangue de Cristo: não é nem pode ser, segundo os dogmas da
Teologia Católica. Na sequência, de uma só canetada, o Bispo baixou duas
portarias: a primeira, dirigida ao clero, sobre sua posição a respeito do fato
dito milagroso, que relegava a plano secundário; a segunda, nomeando a
Comissão de Inquérito para a apuração do caso.
Apesar de avisado do que ocorria
no Juazeiro, parecia o Bispo não ter uma visão precisa do
tamanho do movimento e da crença, que se alastrava com uma velocidade
impressionante, já sedimentada na mente das pessoas, desde as afirmativas do
Monsenhor Monteiro. Acreditou que, com as medidas exaradas na Primeira
Portaria, conseguisse extirpar do seio da massa a crença, que já havia se
alastrado Nordeste afora. O Padre Clicério, após as declarações do Padre Cícero
e da sua nomeação para investigar o caso, fez críticas contundentes ao movimento,
dizendo que iria extirpar do seio da coletividade tamanha heresia. Azarias
Sobreira (idem) confirma as palavras do notável sacerdote.
A ordem dada pelo Bispo era a de agir
com rigor. Fazia comentários alusivos à passagem do Padre Cícero pelo Seminário
e sua ideia obsessiva a respeito de hóstias ensanguentadas. Vê-se, nesse
detalhe, que a Comissão Episcopal estava afinada com o Bispo. Os documentos
referentes ao caso mostram evidentemente que o Bispo tinha plena convicção de que
o caso iria lhe trazer, como trouxe, problemas de ordem religiosa e moral. As
visões da beata já eram algo do seu conhecimento desde o ano de 1886, quando o
próprio Padre Cícero o fez ciente, num encontro na Vila de Quixará, estando Dom Joaquim em missão
episcopal. Discorrendo sobre a beata, assegurou ser ela portadora de
“dom” especial: “tinha visões, era ascética, fazia jejuns diariamente, e
mortificações; ao sair desse estado de prostração momentânea, profetizava,
ouvia frequentemente vozes a lhe dizer que grandes acontecimentos iriam
acontecer no Juazeiro, e que essa voz era a do Cristo, pois ele lhe revelara”. O Bispo o ouviu em
silêncio, mas, empolgado, chamou os fatos de — extraordinários —. Entretanto,
advertiu-o a não fazer nenhum comentário, e que guardasse silêncio total. Essa
confidência ao Bispo selou seu destino: pouco depois, o clero interpretou
como ilusão.
Com a primeira Portaria, Ddom Joaquim pensou
que o movimento cessasse um pouco, sobretudo a vinda de peregrinos ao Juazeiro,
mas foi um engano terrível – a Portaria em nada contribuiu para impedir que a
romaria e a crença no milagre sofressem abalo. Ao contrário, ela cresceu,
alastrando-se assustadoramente, despertando no povo mais exacerbação e maior
reverência ao milagre. Autoritariamente, o Bispo impunha ao povo não ouvir o
Padre Cícero, e o obedecer como Pastor da Diocese, numa concepção vazada no
poder medieval da ortodoxia romana, mas tudo foi inútil. O que de fato ocorreu
foi a insubmissão do povo às suas ordens, e mais crença no milagre.
Na segunda Portaria, nomeava a
Comissão de Inquérito para apurar in loco
o fenômeno. O documento diocesano, constante da primeira Portaria, enumera
três itens que deveriam ser obedecidos rigorosamente, por serem decisões
eclesiásticas: 1º) Proibia expressamente qualquer culto aos
panos ensanguentados encerrados na caixa de vidro, os quais deveriam ser
retirados da capela e guardados em lugar seguro, até que chegasse ao Juazeiro a
Comissão de Investigação, que teria a guarda dos mesmos. 2º) Ordenava ao Padre
Cícero se desdizer publicamente da proposição que avançou, afirmando que o
sangue aparecido nas sagradas partículas é o sangue de Cristo, pois não é, nem
pode ser, segundo os dogmas católicos. 3º) Ordenava que, dentro de oito dias
impreterivelmente, após a chegada da Comissão Episcopal, a beata Maria de
Araújo deixasse o Juazeiro e fosse recolhida à Casa de Caridade do Crato, onde
deveria permanecer por seis meses.
Aí fica claro que o relatório de
nove itens, apresentados pelo Padre Cícero a respeito da vida espiritual da beata,
e que a seu ver eram provas eloquentes da veracidade dos fatos, o Bispo
menosprezou. Queria provas rigorosas, concretas, deixando claro que o argumento
espiritualista apresentado pelo Padre Cícero não valia nada. E rapidamente
abriu Inquérito para apuração dos fatos, classificando de injuriosos e uma
blasfêmia à Igreja. Àquela altura, já era evidente
A imprensa publica as duas
portarias, que também foram afixadas na porta da capela do Juazeiro e da Igreja
Matriz do Crato, por ordem do Diocesano. Seguiu-se então a guerra de pontos de
vista, quando o milagre era por todos aceito como sendo divino. Ao nomear a
Comissão de Inquérito, o Bispo escolheu o que de mais
ilustre havia no clero cearense, além da confiança que depositava nos dois. O Padre
Clicério Lobo e o Monsenhor Doutor Francisco Ferreira Antero, teólogo pela
Escola Latino-Americana de Roma. Ambos de credenciais reconhecidas pelo clero.
Retornando ao Juazeiro triste e
abatido pela imposição que o Bispo lhe fizera, isto é, a de se
desdizer publicamente de que os fatos não eram de origem divina, conforme o
item 2º da Portaria episcopal, o Padre Cícero reagiu, remetendo para a Santa Sé
uma apelação, condicionada ao Concílio de Trento (1545-1563). O Documento,
saído do punho de Marrocos, continha assinatura dos seguintes sacerdotes: Padre
Cícero Romão Batista, Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, Joaquim Sóter de
Alencar, Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, Vigário Felix Aurélio Arnaud,
Nazario de Souza Rolim, Manoel Rodrigues Lima, Vigário Manoel Furtado de
Figueiredo, Padre Manoel Antônio Martins de Jesus, Vigário de Salgueiro (PE). E
de 52 leigos do Cariri, Crato e Juazeiro, todos de posição social elevada,
inclusive de mulheres, as beatas, testemunhas dos fatos. Era um texto vazado na
teologia, extremamente erudito, cujo cabeçalho é o que se segue:
Exmo
e Revmo. Sr. Dom Joaquim José Vieira.
Non solum quilibet,
contra quem lata sententia est, appelare
poteste, sed etiam omnes quorum interest
sententiam revocari.
(Júris Canonice)
“Nós
abaixo assinados, Sacerdote e Fiéis da Santa Igreja Católica Apostólica Romana,
cientes da decisão interlocutória contra nós proferida na causa do Precioso
Sangue, que corre no foro eclesiástico desta Diocese, queremos, com o devido
respeito, e por obediência ao preceito legal do Sacrossanto Concílio Tridentino
(Sess.13, e 1, et Sess 24 e 20 do ref.), apelar
da dita interlocutória para Santa Sé, porque ela fere de morte a mesma causa,
antes que ela fosse preparada, instruída e provada, com documentos que
interessem profundamente à sua própria essência. Não se pode Exmo e Revmo Sr,
juntar-se nenhum desses documentos. Consultas de Bispos veneráveis, por sua
autoridade, sua ciência, sua virtude, respostas de Teólogos distintos, e fatos
autênticos, juridicamente provados, e outras peças de suma importância — tudo
reclama contra a interlocutória e pede sua inserção no corpo do Processo. Pelo
que, venerando Senhor, pedimos, filial e humildemente, a V. Excia Revma, que
dentro do prazo legal, em que nos achamos, se digne, pois, tomar nossa
apelação, e faça seguir os trâmites legais, em termos.
Pela justiça,
Orabimus ad Dominum Juazeiro Cidade do Crato,
Diocese do
Ceará. 28 de Julho de 1891”.
Por esse documento, Marrocos
consolidou sua posição de teólogo, prestando um real serviço à causa pela qual
se empenhou. Uma via do documento, foi remetida ao Bispo que o criticou, se dizendo
decepcionado e surpreso, devolvendo o documento por ser extemporâneo,
recriminando o Padre Cícero mais uma vez, dizendo:
“— Não
metam mulheres no meio, elas entendem de teologia ao ponto de discutirem com o Bispo da
Diocese? Todavia podem recorrer para a Santa Sé, terão ampla liberdade de o fazer,
de acordo com o Tridentino. Não digo isso por amor de mim, mas pelo princípio
que represento”.
Este foi o último documento
remetido ao Padre Cícero, porque a partir daí fechou-se a porta ao diálogo. Qualquer que seja o julgamento que se tenha do Bispo e das regras que
invocou para invalidar a assinatura das beatas, não teve efeito. Tudo leva a
crer que ele as tinha como analfabetas ou de poucas letras, quando na realidade
eram talentosas; interpretavam corretamente as escrituras, a espiritualidade e
até mesmo a teologia, ensinamentos transmitidos a elas por José Marrocos, o
teólogo da questão religiosa do Juazeiro. Também eram hagiógrafas,
conhecimentos que Marrocos lhes transmitia, porque era um hagiógrafo. Muitos
anos antes, ele já havia fundado no Crato, sua terra natal, o Jornal A Voz da
Religião, disseminando conhecimento religioso sobre a vida dos mártires e
santos. Influenciadas por ele, a leitura das Escrituras era imprescindível;
dedicadas, aventuravam-se a traduzir pequenas passagens em latim, como foi o
depoimento da beata Jael da Franca Cabral, que veremos na sequência.
Chega ao Juazeiro a Comissão Episcopal.
Hospitaleiro e cordial, o Padre Cícero hospedou-os em sua casa. Ao tomar
conhecimento, o Bispo reprovou. Era tarde.
No domingo, dia 9, por ocasião
da Missa Conventual, o Monsenhor Antero leu a Portaria supra. A capela estava
lotada como sempre, e o anúncio da investigação causou viva sensação e
interesse em alguns; outros, viam a presença dos Padres da Comissão Episcopal
com cautela e certo desprezo, e diziam que o Bispo estava pondo em dúvida a
palavra do Padre Cícero e de toda a comunidade que havia presenciado os fatos.
Após a leitura da Portaria, o Padre Cícero, do seu próprio punho escreveu:
“—Certifico ter sido publicada hoje a estação da Missa Conventual, a
Portaria retro-Ita-in verbo Sacerdotis”. Datou e assinou. Começavam, a
partir daquele dia, sua jornada de amargura e o seu calvário de opressão, que
duraram toda sua vida.
****
CAPÍTULO 5
O PRIMEIRO
INQUÉRITO
As
investigações duraram 30 dias, num longo e tumultuado processo de averiguação,
com o Bispo
a impor seu ponto de vista, expedindo ordens a seus enviados para agir com a
máxima eficiência, a fim de elucidar o caso. O esclarecimento da Verdade e só
da Verdade, era tudo que ele exigia, como sempre argumentou em suas Pastorais.
Entretanto, suas advertências foram infrutíferas. Após 30 dias de investigação,
o Padre Clicério Lobo, na qualidade de Presidente, já tinha formado seu ponto
de vista do que havia presenciado, deixando o Bispo e o clero constrangidos, não
só por sua conversão em acreditar no milagre, mas também pela posição do
Monsenhor Antero, teólogo de nomeada, atestando o fato como sobrenatural. A
posição dos dois padres tornava o episódio mais conflituoso, que por si só já
era conflitante. A partir daí, o caso tomou uma conotação impressionante, pela dimensão.
Juazeiro era uma babel de opiniões, com suas implicações.
No dia 9 de setembro,
quarta-feira, tem início as investigações. A beata Maria de Araújo, a primeira
a ser ouvida, quando afirmou vigorosa e categoricamente o fato, dando os
seguintes esclarecimentos: disse chamar-se Maria Madalena do Espírito Santo de
Araújo, filha legítima de Antônio da Silva Araújo (falecido) e Ana Josefa do
Sacramento, natural do Juazeiro, nascida aos 24 de maio de 1863, tinha, à
época, 26 anos de idade. Por incrível que pareça, nada ocultou no seu
depoimento, nem mesmo a história de que era portadora de ataques de origem
nervosa, que, para alguns médicos, era tão somente sintoma de epilepsia. Já
para Azarias Sobreira (ibidem), simples espasmos. Referiu-se aos escarros com
sangue que lhe apareciam frequentemente, dizendo serem provenientes de uma
queda que tomara aos 10 anos de idade; fez alusões às suas visões, que se deram
a partir dos nove anos de idade, acrescentando que, desde o ano de 1885, o Cristo
e a Virgem dirigiam-na pessoalmente. Sobre seus colóquios com Deus, assegurou
serem verdadeiros, bem como as chagas em suas mãos, serem as chagas do Cristo, Ele
lh’o revelara, estando ela em estado de êxtase. Confirmou o que dissera o Padre
Cícero, no tocante às hóstias se transformarem em sangue, e ser esse sangue o
de Cristo. Ele também o havia lhe revelado.
No dia subsequente foi submetida
à primeira verificação. Estavam presentes, além dos Padres da Comissão, os dois
médicos: Drs. Marcos Madeira e Inácio de Souza Dias. O público lotava a capela.
Todas as precauções foram tomadas, lavagem da boca, verificação da laringe,
gengivas e garganta. A vigilância foi redobrada, os padres atentos aos mínimos
detalhes, limitando o mais que possível a intervenção de fatores aleatórios,
para não comprometer o valor da averiguação, com a finalidade de esclarecer o
misterioso fato. Era exigência precípua de Dom Joaquim descobrir aquela
potência misteriosa que ultrapassava o conhecimento de todos dali, inclusive da
Ciência, representada por três médicos e um farmacêutico idôneo, Joaquim
Secundo Chaves de Melo. O Padre Clicério ordena ao Padre Cícero administrar a
comunhão à beata. Em fração de segundos, ela entra em êxtase, enquanto a hóstia
ia lentamente se transformando em sangue, impregnando os sanguinhos, se
avolumando, tomando a forma de um coração, segundo os autos. Passados alguns
instantes, e refeita dos êxtases, uma segunda comunhão lhe foi administrada,
quando outra vez ocorreu o mesmo fenômeno. E aí outro fato teve lugar:
horas depois a beata entra em estado de crucifixão, apresentando os estigmas da
Paixão de Cristo, com pés e mãos sangrando. A terceira verificação realizou-se
no dia 11, operando-se mais uma vez os fenômenos na presença de vários
sacerdotes, do médico Marcos Madeira e de um elevado número de populares e
interessados da causa. Maria de Araújo era uma hipnótica, tinha dom especial,
ou simulava? Atestava o Bispo e seu segmento. São respostas
até hoje sem explicação, como veremos no decorrer dessa história.
No dia 12 foi aberta a urna com
panos ensanguentados, e constou do seguinte arrolamento: 60 sanguinhos
manchados de sangue, 55 deles continham partículas ensanguentadas; 13
corporais, 4 toalhas, idem, o véu e a murça, objetos pessoais da beata, usados
durante as comunhões. Cujos objetos foram motivo de polêmica, depois.
No dia 14, depõe o Padre Cícero,
quando mais uma vez reafirmou o que já dissera em seu depoimento anterior, no
Palácio Episcopal, acrescido apenas de um diálogo
que, segundo ele, tivera com Jesus Cristo. Quando muito abalado e preocupado
após sua volta de Fortaleza, pedira a Deus que lhe desse um sinal de que todos
aqueles fatos eram verdadeiros, e em reposta ao seu aflito pedido teria ouvido
o seguinte:
“Ego sum Jesus, hóstia santa, hóstia pura, hóstia
imaculata; et vivificavi sanguinem Cordis ad pecatoris.Vide ne feceris, Conservus
tuus frutuorum habentium testemonium sanguinis-mei, et Spiritu prophecie. Ego
sum vitis vera, hóstia santa, hóstia pura, hóstia imaculata.”
Essa passagem convenceu-o da
veracidade do fato. Portanto, tornava-se difícil para ele uma retratação
pública dos fenômenos, como exigia o Bispo, acrescentando que uma ordem
religiosa seria fundada no Juazeiro, com aprovação da Santa Sé. Ele aí não só
atestou o milagre, como também fez profecia. E prosseguem os depoimentos. Nesse
dia, foram ouvidas as beatas, todas elas partícipes dos fenômenos. A primeira a
ser ouvida foi a beata Jael da Franca Cabral, tida como teóloga pela
interpretação que dava às Escrituras. Usando o latim, seu depoimento foi
rebuscado, além de profético, está nos autos. Seguindo-se em ordem cronológica
as beatas: Maria Leopoldina da Soledade Melo, Ana Leopoldina de Aguiar Melo
(eram parentas), Angela Merícia do Nascimento, Raquel Sisnando Lima, Antônia
Maria da Conceição e Maria das Dores do Coração de Jesus, natural de Missão
Velha, que confirmou ser testemunha dos fenômenos sanguíneos de Maria de
Araújo. O depoimento da beata Maria Leopoldina Ferreira de Melo foi vazado no
latim, tal qual o da beata Jael da Franca Cabral. Eis os principais trechos: Estoli parati quia tempus est breve,
accendit lampadam tuam et vigilate. E prossegue, citando frases em latim,
semelhantes às ouvidas pelo Padre Cícero. Incrível!
Observação importante: todas
essas beatas não tinham chegado aos 30 anos de idade, pertenciam ao grupo de
beatas formado pelo Padre Cícero, que lhes concedeu o hábito com todas as
formalidades inerentes à vida espiritual; eram do Juazeiro, filhas de
adventícios que lá tinham chegado, atraídos pelas virtudes do Padre Cícero. As
beatas Ferreira de Melo eram do escol social do antigo Juazeiro, e de boa
condição financeira. A exceção parece ser da beata Antônia Maria da Conceição,
pertencente ao grupo formado pelo Padre Manoel Felix de Moura (Missão Velha).
Algumas da Casa de Caridade de Barbalha. Como se vê, um cinturão fechando o
Vale do Cariri. No Inquérito, não consta a beata Josefa Maria do Espírito
Santo, vulgo Bichinha, como depoente; nada que confirme ter sido ouvida. De
reconhecida notoriedade, por ter feito muitos anos depois a entrega dos panos
ensanguentados ao vigário do Juazeiro, e também por ter sido uma das beatas
presentes aos últimos instantes do Padre Cícero.
Inexplicável, para muitos
escritores, é a ausência da principal beata do Juazeiro, em ordem cronológica,
Joana Tertuliana de Jesus (beata Mocinha), não ter sido ouvida.
No dia seguinte, foram ouvidos os
Padres Manoel Felix de Moura, Manoel Rodrigues Lima, Manoel Antonio Martins de
Jesus (da paróquia de Salgueiro, PE), Felix Aurélio Arnaud Forrmiga, Manoel
Furtado de Figueiredo, Nazário de Souza Rolim, Quintino de Oliveira e Silva e
Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, todos afirmando ser o fenômeno de
origem divina.
Concluído os depoimentos no
Juazeiro, a beata foi conduzida para a Casa de Caridade do Crato, seguindo as
diretrizes traçadas pelo Bispo, que insistia na sua retirada do Juazeiro. Na
sua concepção, a presença do Padre Cícero, como seu diretor espiritual, influía
no seu ânimo, concorrendo para o aparecimento do fenômeno. Assim, era difícil
saber-se (são palavras suas) com exatidão o que ocorria de fato no Juazeiro. O
bispo deixava claro que a influência do Padre Cícero dava lugar ao aparecimento
do sangue, porque tudo nada mais era do que autossugestão. Para o Bispo e o clero, o
Padre Cícero usava do método de sugestionar, caso contrário, segundo ele, como
conceber-se a graça de transformar hóstias em sangue? Daí todo seu empenho em
dar por terra o tenebroso caso.
Anos depois, num sermão repleto
de emoção, o Padre Cícero se defendia, dizendo não entender de magia nem de
ciências ocultas. Ao se referir ao estado de saúde da beata, o Bispo enfatizava ser
ela de compleição frágil e doentia, dando lugar a esses transtornos, por ser na
realidade uma sugestionável. Tudo leva a crer que o Bispo, levado por
reminiscências da passagem do Padre Cícero pelo Seminário, baseava seu
pensamento nos informes do Reitor Padre Chevalier, que
acusava de ser o Padre Cícero um adepto das Teorias de Mesmer (Dr. Francois
Antoine Mesmer, nascido em Well, em 1734 na Alemanha, autor de Memórias Sobre a descoberta do Magnetismo, e
de um processo de curar enfermos por meio de imãs, e depois pelas mãos) e do dominicano
Giordano Bruno (1548-1600), teórico das ciências ocultistas da memória,
perseguido, excomungado e executado pela Igreja (informações do Monsenhor
Francisco Silvano de Souza, de Barbalha, ao Padre Gomes, transmitidas pelo
mesmo à autora, na cidade do Crato, em 1975). O autor, Dr. Manoel Diniz,
refere-se no seu livro a essas curas, afirmando que o Padre Cícero obtinha
somente usando as mãos. Veremos à frente.
Dentro dessa concepção, ficava
evidente que o Bispo dava aos fenômenos uma classificação específica, qual
fosse: a da atuação do ânimo pela ordem da palavra,
que desencadeava no cérebro da beata o fenômeno da auto-sugestão, segundo a
Escola de Nancy, muito estudada e acreditada em várias partes do estrangeiro e
em Paris, então em choque com a de Salpêtriére, como admitiu o
cientista Julio César da Fonseca, no seu parecer sobre o fenômeno. Nas suas
quatro Cartas Pastorais, o Bispo sustenta seu repúdio ao
milagre, fulminando-o, pressionado pela alta cúpula do clero, que pedia
resultados satisfatórios para sepultar de vez todo esse movimento, que, segundo
diziam, já tinha ido muito além. Foi então que ele, premido e cobrado pela alta
esfera do clero, apelou para a sugestão hipnótica ou para o efeito
demoníaco, como declarou numa das suas Pastorais, com uma ressalva: “se é que o
demônio tem poderes para operar milagres”. Por isso, a comparação. Na era
medieval, o clero daquela época admitia a influência diabólica dentro da
própria Igreja. O escritor Padre Azarias Sobreira foi o único a admitir que, no
Juazeiro, houve interferência do demônio para dar por terra um projeto
espiritual ao qual o Padre Cícero tinha se proposto (op.cit.).
No oceano de discussões e
pareceres, o milagre já estava sedimentado na alma do povo, pelo testemunho do
Monsenhor Monteiro, dos eminentes médicos, Marcos Madeira e Ildefonso Correia
Lima, e dos dois Padres da Primeira Comissão de Inquérito. A repercussão foi
estrondosa, sobretudo por Monsenhor Antero, um teólogo com estudos em Roma, o
que evidentemente lhe dava credenciais. Se até aí existiam dúvidas, elas se
dissiparam após as declarações dos dois, e a crença no milagre ganhou
proporções astronômicas.
Cumprindo a ordem do Bispo, a beata foi
levada para a Casa de Caridade do Crato, quando seria mais uma vez interrogada.
Os padres
da Comissão Episcopal levam também a urna de vidro, onde estavam guardados os
paninhos das suas comunhões ditas miraculosas. Pela manhã, o Padre Clicério
celebra a missa das sete horas com a capela lotada por curiosos e crentes.
Presentes, um bom número de sacerdotes, os três médicos por ele convidados.
Entre os padres presentes naquela manhã, estava o probo Joaquim Sóther de
Alencar. Várias beatas da tradicional Casa de Caridade davam um toque solene ao
ato. O número de fiéis presentes era de mil, segundo a matemática de Joaquim
Secundo Chaves, em seu documento chamado de Memorial
de Outubro. De acordo com os documentos da época, a calma da beata
impressionava, chamando a atenção de todos os presentes. De joelhos, aguardava
em silêncio lhe fosse dada a comunhão. Ao receber a partícula, ela se
transforma em sangue. O teste da água entra em cena: sem ingerir o líquido,
lança-o fora, isso efetuado à luz do dia, constatando-se que nenhum vestígio de
sangue havia; outra comunhão lhe foi dada, ocorrendo o mesmo fenômeno.
Portanto, a tese do Bispo de que o cenário do Juazeiro e a presença do Padre
Cícero influíam no ânimo da beata caiu por terra, não tinha a menor validade,
pelo menos até aí.
Na tarde desse mesmo dia,
seguiu-se mais um fenômeno. Dos seus pés e mãos, corria sangue, causando viva
comoção à multidão que se espremia no acanhado recinto da Casa de Caridade para
constatar o fenômeno, cujo fenômeno foi testemunhado pelo médico Inácio de
Souza Dias, que não assinou o ocorrido. Em decorrência desses fatos
inexplicáveis pela ciência e pela teologia, a Comissão de Inquérito fez uma
pausa nas investigações, e aí ocorreu um fato atípico – a caixa de vidro, onde
estavam recolhidos os paninhos ensanguentados, sumiu misteriosamente do
sacrário da Matriz do Crato. Como em todos os grandes movimentos, quer sejam de
ordem política ou religiosa, há sempre um suspeito. Nesse caso, como não podia
deixar de ser, apontam Marrocos como autor material do furto. Os contrários ao
milagre asseguravam que ele, era de fato, o autor do sumiço dos paninhos, por
se opor a que fossem levados a exame científico, como preconizara Dom Joaquim. O clero
tinha convicção de que Marrocos era o autor material do furto. Três dias depois
do ocorrido, prosseguiram as investigações sob o crivo do Revmo Glicério Lobo,
que, aliás, não menciona, em passagem alguma dos seus depoimentos, o rapto da
caixa. Para muitos autores, foi um lapso inconcebível silenciar ante um fato de
tamanha gravidade. Os paninhos eram incontestavelmente a prova material da
verdade ou inverdade, pela repercussão que causara no Episcopado brasileiro
pelo seu inusitado. A omissão do Padre Clicério foi censurada pelo
clero de imediato. Depois dessa falha propositada ou não, o incensado padre
começou a cair em abandono pela hierarquia, culminando com seu afastamento do
clero por suas declarações ao fechar o Processo, como detalharei adiante.
Antecipando um pouco as datas, pois estávamos em 1892, passo para 1910, por ser
de transcendente significado na história dos Milagres.
O furto dos paninhos ensanguentados
permaneceram no limbo por 19 anos consecutivos, quando subitamente morre no
Juazeiro o teólogo José Marrocos. Com sua morte repentina, veio à tona o sumiço
dos paninhos ensanguentados, por muitos já esquecidos. Uma infeliz ironia do
destino fez com que eles fossem parar, de modo transverso, nas mãos do Juiz da
Comarca do Crato, Dr. Raul de Souza Carvalho, que teve como causa um pequeno
desentendimento entre o Juiz e emissários do Padre Cícero, quando estes foram
ao Crato buscar os pertences de Marrocos, que, dois anos antes, já havia feito
do Padre Cícero, em documento assinado de próprio punho, seu único herdeiro,
porque solteiro e sem descendentes. O Juiz, informado de que os emissários
haviam entrado na casa sem permissão jurídica, entendeu que eles violaram a
lei, e barra a entrada dos cargueiros, que estavam na calçada aguardando a
retirada dos pertences do morto para conduzir ao Juazeiro.
O Juiz ampliou o episódio,
transformando-o num grande escândalo. Não admitindo que se retirasse nada do
Sobrado, propriedade de Marrocos, interditou-o. A alegativa para essa resolução
era de que o documento apresentado era falho, por não ser registrado em
Cartório, e desautoriza a entrada dos emissários na Casa, alegando condição
sine-qua non, isto é: exigia as formalidades legais da lei. Depois de
devidamente legalizado, aí sim, ele faria a devida entrega do espólio. Para os
observadores da História Religiosa do Juazeiro, o Juiz talvez suspeitasse da
existência dos paninhos lá guardados, ou foi uma infeliz coincidência? Escorado
na lei, e com a segurança que a mesma lhe facultava, interditou o sobrado onde nasceu e
viveu por toda sua vida o teólogo Marrocos, herança de seu pai, o Padre João
Marrocos Teles. Portas lacradas, somente ele, Juiz, ou pessoa em sintonia com
ele, tinha acesso, e foi justo por essa porta transversa que, guardião do
espólio e garantido pela lei, revirando toda a casa do morto, encontra a caixa
onde estavam guardados os paninhos manchados de sangue das comunhões
miraculosas de Maria de Araújo. Acomodado numa caixa com tampa de madrepérola,
estava ali o segredo que tanto reboliço causara ao clero, como suspensão de
ordens, excomunhão e até óbito. Marrocos os guardava trancados à chave no seu
oratório privado. Uma espécie de altar de alguns centímetros de largura dava
apoio ao oratório, que lembrava o altar do Ssmo Sacramento. Em torno dele,
velas acesas, incenso e flores frescas, numa expressiva demonstração de fé, uma
impressionante e tocante cerimônia. Nesse detalhe está cristalizado o poder da
fé que o fazia acreditar piamente que aqueles paninhos manchados de sangue
encerravam um milagre, uma relíquia sagrada. Daí todo o seu zelo. Portador de
uma fé contagiante, quem sabe, até capaz de por ela se imolar.
Para esse achado, há duas
conclusões a se tirar do episódio: ou Marrocos era de fato um crente confiante
do Milagre, ou os escondia para evitar profanação, como depois aconteceu com os
restos mortais da beata Maria de Araújo. Detalharei à frente. Os que
contestavam seu gesto de fé, e eram muitos, diziam: ele os escondia para que
não viesse à tona o segredo da falsificação do milagre que ele engendrara. Seja
como for, ele passou à História como o teólogo da Fé. Ausentando-se do Crato,
essa guarda era confiada a uma parenta que morava em sua casa e era da sua mais
alta confiança, pelos anos de convivência.
O achado foi de fundamental
importância não só para o Juiz, mas para os que contestavam o milagre, e em
especial para o clero, sob a guarda de Dom Joaquim. Encontrando-os,
estava configurado o rapto atribuído a ele, quando misteriosamente sumiram do
Sacrário da Matriz do Crato, em pleno processo de investigação. O achado foi
uma grande infelicidade para os crentes dos milagres, porque novas insinuações
surgiram no caso do Milagre da hóstia ensanguentada, aceito por muitos,
desacreditado por uma pequena parcela. O Juiz Raul Carvalho, numa entrevista ao
Jornal Unitário de Fortaleza, Ano de 1910, se dizia pasmo e incrédulo, ante o
fato gravíssimo, e declara: “chamei a atenção dos que me acompanhavam para
constatar a cena insólita que se desenrolava ante meus olhos, que não queriam
crer no que viam”. Entre os que estavam com ele, encontrava-se o Intendente do
Crato, o conservador e aristocrático Coronel Antônio Luís Alves Pequeno, um
homem representativo do seu tempo, e demais pessoas da sociedade local.
Continuando a busca, o Juiz foi até o sótão onde ficava a Biblioteca de
Marrocos, e, para mais espanto, encontra um livro, para ele suspeito: ali
estava toda a realidade da história do milagre, uma fraude, um embuste, sendo
Marrocos o impostor de tamanha farsa (palavras do Juiz). O livro era escrito em
francês e tinha como tema central o Sangue. Em meio a outros livros, havia um
precioso acervo. Apontamentos para a História
do Cariri em manuscrito, e Quem Fez
Pretensos os Milagres do Juazeiro, A Vida do Padre Mestre Ibiapina, a Summa Teológica, de São Tomaz de
Aquino, comentários de textos bíblicos, e o Augustinius,
livro baseado no Jansenismo, doutrina da qual Marrocos era um cultor confesso.
Um precioso acervo.
Com esses achados, principalmente
do livro sobre o sangue, a polêmica acirrou-se, indo parar na imprensa, para
gaúdio do clero, que ganhou mais um reforço para desacreditar o milagre. Depois
de dias de polêmica entre o ir e vir de emissários, e até do Padre Cícero, ao
Crato, quando se desentendeu com o Juiz que, inflexível, não queria fazer-lhe a
entrega do espólio, dizendo não estar devidamente registrado em Cartório,
embora fosse escrito pelo próprio punho de Marrocos, o que fez dois anos antes
de sua morte. O Juiz não considerava o documento apócrifo, mas imperfeito
perante a lei. Enquanto não houvesse as formalidades legais, o espólio ficaria
sub júdice.
Sua intransigência, não permitindo a entrega do espólio, quando invocava os
trâmites da lei, ofendeu o Padre Cícero, que interpretou como um desacato a
ele, ofendido em seu brio de líder e chefe religioso, revoltado com o que
julgava uma ofensa à sua dignidade. Para ele, o Juiz tinha posto em dúvida a
transmissão dos citados bens feita pelo falecido Marrocos. Uma afronta à sua
pessoa, naturalmente. Sentindo-se ferido no seu amor-próprio, invoca a
autoridade do Juiz iniciante e sua idade, chamando-o de “um menino que me
desacata publicamente”. Impassível e inflexível, o Juiz Raul Carvalho não se
abalou.
O episódio mostra que não era a
interpretação da lei que o Juiz quis passar naquele momento, e sim uma desforra,
quando ainda bastante ressentido pelas ofensas de que fora vítima por parte do
Padre Alencar Peixoto, nos artigos de O
Rebate, Jornal do Juazeiro, que será comentado mais à frente. Finalmente,
depois das formalidades exigidas por ele, foram entregues os pertences, que
seguiram para o Juazeiro, exceto os paninhos, que foram parar nas mãos do
Intendente do Crato, o já citado Coronel Antônio Luís, que, de posse deles,
usaria como arma para pressionar o Padre Cícero, no decorrer da campanha pela
emancipação do Juazeiro, por ser contra ela. Essa é a versão mais corrente,
embora desmentida pelo Padre Azarias Sobreira, que sustenta jamais ter ocorrido
tal episódio – a entrega dos paninhos manchados de sangue ao Intendente do Crato. Afirma categórico: “não
houve essa entrega, tudo não passa de uma inverdade, uma invenção do citado
Juiz” (op.cit.).
Os célebres paninhos manchados de
sangue foram de grande importância na história do milagre que, nos anos 55-60,
voltaram à tona, quando o já ancião Raul de Souza Carvalho voltou à imprensa,
rememorando o fato e corroborando com o Padre Antônio Gomes, que acabara de
lançar um opúsculo denominado Apostolado
do Embuste, uma contradição sistemática, demolidora e confusa dos milagres,
e principalmente da teologia de José Marrocos, que acoplava Cristianismo ao
Jansenismo, incriminando-o totalmente pelo episódio sanguíneo. O Juiz
questionava implacavelmente a autenticidade do Milagre, dando Marrocos como
autor material da fraude: tentando denegrir sua imagem, o acusava de ser o químico
do milagre. O sangue impresso nos paninhos era, para muitos, objeto de
indagações, sobre porque foram incinerados, não obstante, os testemunhos de
dezenas de pessoas da mais conhecida respeitabilidade, incluindo o médico
Madeira, sob juramento. Mas o poder de Roma, condenando o milagre e as pessoas
nele envolvidas, prevaleceu sobre todos os documentos testemunhais. O clero
brasileiro acatou in-totum a decisão. Falou a voz dos séculos. Roma locuta est
causa finit est. Roma falou, acabou a questão.
Com os dois sacerdotes se
digladiando pela imprensa, houve a interferência do Bispo do Crato à
época, Dom
Vicente Matos, dando por finda a azeda polêmica, pois o tão aqui citado Azarias
Sobreira (op.cit.) retrucou com
veemência os escritos do Padre Gomes, através da imprensa.
Por esse opúsculo, Padre Gomes
foi ameaçado de morte por parte de alguns fanáticos, ficando confinado a um
quarto no Colégio Diocesano do Crato, onde era professor de História, lá
morando até sua morte. Fazendo-me essas confidências já agora, fins de 74-75,
não denotava nenhum arrependimento pelo que escrevera. Ouvia-o, embora dele
discordasse em certas passagens. É assim que funciona a História, tornando-a
atraente e sedutora. Os célebres paninhos ficaram ocultos por quase duas
dezenas de anos, quando foram parar às mãos do Bispo Dom Francisco de Assis
Pires, por intermédio da beata Josefa Maria do Espírito Santo (vulgo Bichinha),
que os entregou ao vigário do Juazeiro, Monsenhor Joviniano Barreto, depois do
falecimento da beata, a primeira na hierarquia, Joana Tertuliana de Jesus
(Beata Mocinha), que, com toda segurança, os guardava.
A propósito dessa entrega, a escritora
Amália Xavier dá outra versão para o caso, recorrendo ao livro do Dr. Irineu
Pinheiro, Efemérides do Cariri, que
registrou: O Bispo Quintino, numa Portaria datada de 28 de Junho de 1917,
exigia do Padre Cícero esclarecimentos sobre o paradeiro dos paninhos
ensanguentados e outros objetos condenados pela Suprema Congregação do Santo
Ofício no ano de 1894. Sua resposta foi a de que não tinha conhecimento do
paradeiro dos paninhos; sabia, sim, do boato de que Marrocos os tinha em seu
poder, embora nunca o tenha perguntado. Tinha conhecimento de que, após sua
morte, eles tinham sido entregues às autoridades policiais e judiciárias do
Crato para serem entregues ao Bispo Dom Joaquim. Aí mais um
ponto de controvérsia na longa história dos paninhos rubros de sangue. Uma
observação: a beata Bichinha era a única, entre dezenas delas, que não merecia
críticas do Padre Gomes, que a chamava de “velhinha cândida e de alma pura”.
Retomo ao que vinha descrevendo
sobre a entrega dos paninhos ao Monsenhor Joviniano Barreto, que deles fez
entrega ao Bispo Dom Francisco de Assis Pires,
acatando a ordem de Roma de 55 anos atrás, quando foram incinerados no pátio do
Seminário do Crato, com a presença de três padres. O já citado Monsenhor
Joviniano Barreto, o Padre Francisco Limeira e Antônio Vieira, autor do livro O Jumento Nosso Irmão, de grande
circulação, e também professor, à época, do Colégio Diocesano do Crato. O dia
para a queima foi adredemente preparado, por ser aniversário de ordenação do
Padre Cícero, 30 de novembro de 1949. O fato, entretanto, teve um resultado
sinistro: 36 dias depois tombava, no Juazeiro, Monsenhor Joviniano, assassinado
a faca por um fanático no paroxismo da loucura, na ocasião em que era lançada a
pedra fundamental do Seminário dos Franciscanos, com a presença do Bispo do Crato e de
vários sacerdotes. Abruptamente, o maníaco irrompe por entre a massa ali
aglomerada, e consumou seu gesto criminoso, surpreendendo o sacerdote, que não
teve chance de defesa, pois, paramentado, dava sequência ao ato do benzimento
do local. Tumulto e comoção seguiram-se, e a solenidade foi suspensa. O pânico
foi geral; as pessoas, apressadas e desoladas, deixavam o local. Apesar de
classificado como louco, o maníaco denotava algum reflexo. Quando interrogado
pelas autoridades porque agira assim, respondia: “Ele era inimigo dos milagres
do Juazeiro”. Está no processo.
Um ligeiro histórico mostra que o
curto paroquiato do Monsenhor Joviniano no Juazeiro não chegou a ser profícuo,
ao contrário, reavivou velhas questões, disseminando a desunião, quando
abertamente profligava o passado religioso do Juazeiro, despertando rancor, e o
vulgo, com suas crendices arraigadas, o tinha como inimigo da memória do Padre
Cícero. Pensando combater exageros, criou mais confusão, no tocante à devoção a
Cristo Rei, que se generalizou entre a massa, numa concepção esdrúxula.
Até mesmo entre os padres salesianos, herdeiros do Padre Cícero, houve
confusão, dando lugar à retirada às pressas do Juazeiro do salesiano Davino
Ferreira, que de lá saiu humilhado e ofendido, conforme depoimento do próprio
ao escritor Edmar Morel (op. cit.). Está evidente por
esses relatos que Monsenhor Joviniano subestimava ostensivamente a população do
Juazeiro, tentando implantar ideias fora dos seus princípios subjetivos,
pretendendo dessa forma subjugá-los. Daí a reação do insano Manoel Pedro da
Silva, assassinando-o. A população do Juazeiro, chocada com o trágico
acontecimento, prestou as devidas homenagens póstumas, levando seu corpo a pé
até a cidade do Crato, onde foi sepultado4.
Depois dessa longa
retrospectiva, volto ao capítulo das investigações das quais falava, sob a
presidência do Padre Clicério Lobo, quando foi ouvido o Padre Quintino
Rodrigues de Oliveira e Silva, à época, professor do Seminário do Crato. Ele
não só atestou categoricamente os fatos, como assinou seu testemunho,
assegurando os prodígios de Maria de Araújo. Prosseguindo, no dia 5 de outubro
foi ouvida pela segunda vez a beata Jael da Franca Cabral (a teóloga), que,
firme e altiva, confirmou seu primeiro depoimento, fazendo profecia, dizendo da
vinda para o Juazeiro dos frades franciscanos, e da fundação de um Seminário.
Seu vaticínio se confirmou, embora trágico, como vimos. O grande defensor dos
milagres, o farmacêutico Joaquim Secundo Chaves, fez nesse mesmo dia a entrega
do seu famoso Memorial de Outubro,
que passou à História. Resumia-se numa coletânea dos fatos ditos
milagrosos, e constava de 59 assinaturas de devotos da causa, representando a
elite do Cariri. Por fim, nesse dia 5 de outubro, foi realizada a última
verificação na beata, cujo cenário era a capela do Seminário São José, para
onde fora levada e onde estavam hospedados os padres da Comissão Episcopal.
No dia subsequente, foi ouvido o
médico Ildefonso Correia Lima5, que confirmou os milagres por escrito. Esse médico foi
ouvido duas vezes.“Os estigmas se revelam
na Beata quando ela está em estado transcendental, medita profundamente na
Paixão de Cristo, ocasionando êxtases, arrebatamentos e alheamentos, vendo-se
nesses momentos, em suas mãos e pés, as Chagas de Cristo”, acrescentando
que as hóstias ensanguentadas apareciam quando o Padre Cícero, exclamava:
“
—Para honra e Glória de Deus, apareça a hóstia!”
No penúltimo dia dos
interrogatórios, o professor e teólogo, José Teles Marrocos, fez a entrega ao
comissário do seu testemunho por escrito. Uma erudita exposição de fé nos
milagres, porque ele, um verdadeiro e confesso apaixonado da causa milagrosa,
da qual fez proselitismo.
No dia 13 de outubro, o Padre Clicério
Lobo fecha o inquérito com a seguinte declaração escrita: “Ou negamos os fatos, ou
admitimos um agente inteligente e oculto, que apresente a causa”. E complementou:
“Em abono da verdade, sou obrigado a declarar aqui,
querendo cumprir o juramento que prestei de ser fiel à missão que me foi
confiada, que todo aquele que estudar o espírito de Maria de Araújo e o de
Antônia Maria da Conceição, como procuramos fazê-lo, já ouvindo seus diretores
espirituais, já ouvindo as pessoas que as conhecem de perto, excluirá toda a ideia
de artimanha e embuste nessas comunhões e partículas. São elas ditas beatas
como tantas outras, levadas à vida unitiva, à vida de contemplação, o que bem
pouco se conhece e pratica entre nós”.
A interpretação do Padre Clicério,
baseada na hipótese do divino, para o Bispo, refletia tão somente a
influência perniciosa de Marrocos com uma convivência por quase um mês no
Juazeiro, na companhia do Padre Cícero, do Monsenhor Monteiro e da protagonista
do milagre, Maria de Araújo.
Ao finalizar o texto dessa
maneira, o Padre Clicério torna flagrante sua crença no Milagre e seu
entusiasmo pelas beatas, dentre estas, a já mencionada Antônia Maria da
Conceição. Externando-se assim, ele falara contra sua consciência? Pelo que se
sabe da sua história de padre virtuoso e probo, tanto que fora escolhido pelo
próprio Bispo para abrir sindicância sobre os milagres, impossível pensar-se
que ele tenha falsificado o caso. Seu documento reflete, em toda a extensão,
sua posição de circunspecção e honestidade. Era um místico; tomado por esse
sentimento, deu um tom de divino ao fato, um fato obscuro, ensombrado pelo
mistério que o cercava.
Seu testemunho causou impacto no
clero. O Bispo,
indignado, desaprovou abertamente o ter passado à imprensa, desautorizando-o a
se manisfestar dali em diante. A grita no clero fiel ao Bispo foi de
indignação e desaprovação; a partir daí, ele perderia seu conceito de formador
de opinião e de figura de relevo no bispado.
Afastado da cúpula do clero do
Ceará, foi decretada sua retirada da Diocese, por ordem de Dom Joaquim, e ainda
considerado heresiarca, recaindo sobre ele uma somatória de
injúrias, injustiças, incompreensão e falsificação do seu pensar, numa odiosa
guerra religiosa, é o que atestam as denúncias do Vigário de Jaguaruana (Baixo
Jaguaribe), Monsenhor José Agostinho Santiago. Em carta ao Bispo, ele dizia que o
Padre Clicério, ali chegando após sua saída do Juazeiro, tentou dar
continuidade aos fatos, com o aparecimento de hóstias ensanguentadas e sermões
em tom apocalíptico, cujo tema principal era o do próximo fim do mundo,
exemplificado com os fatos milagrosos do Juazeiro. Acompanhava-o nessa nova
empreitada (expressão usada pelo Monsenhor), a beata Maria Caminha, da cidade
de Aracati, a mesma cidade do Padre Clicério, vinda do Juazeiro. Desligado da
Diocese do Ceará, abrigou-se na Diocese do Rio Grande do Norte. Ele, que
outrora, fora amigo, conselheiro e formador de opinião do Palácio Episcopal,
jogaram-no ao ostracismo, porque passou a acreditar que os fatos do Juazeiro
transcendiam ao natural. Ao testemunhar in-loco, converteu-se, tendo ainda a
coragem de tornar público o seu pensar. Desencantado e faltando o elo de
ligação entre antigos colegas, depois de algum tempo no Rio Grande do Norte,
retornou ao Ceará, refugiando-se em sua terra natal Aracati, onde de tristeza e
depressão morreria. A bondade, piedade, do Padre Clicério Lobo impressionava a
quem o conheceu. “Pobre e desiludido
faleceu na praia de Melancias, seu torrão natal, onde se lhe veneram os restos mortais”,
escreveu Azarias Sobreira (op. cit.).
O escritor Leonardo Mota, chocado
e impressionado ante o desprezo que o clero do Ceará lhe infligiu, o evoca de
modo comovente, e escreveu:
“Padre Clicério era portador de grande cultura e
integridade. Foi um dos expoentes máximos do clero brasileiro. Ordenado pela
Bahia, depois de um Seminário brilhante, ocupou o cargo de professor e
colaborador ativo do recém-fundado Seminário da Prainha, em 1862, ao lado do
aureolado Bispo Dom Luís Antônio dos Santos. No Rio, ocupou o cargo de Capelão
do Asilo Santa Leopoldina em Niteroi, no Hospital da Gamboa, e em Cascadura,
respectivamente, onde deixou um nome impoluto. No Ceará, em 1886, promoveu o
Sínodo dos Bispos, e foi cotado pela hierarquia para Arcebispo e Primaz da Bahia,
convite que recusou por motivo de saúde.
Termina o historiador e
pesquisador cearense dizendo: “Ninguém o
superou em terras alencarinas6 em saber e critério,
além das virtudes de que era portador”.
O testemunho do Padre Clicério
ganhou receptividade entre os devotos de todo o Nordeste e alhures, além de
sedimentar mais uma vez na alma do povo, que via o caso como milagroso, já
antes atestado pelo Monsenhor Monteiro, é bom lembrar.
Após as conclusões da Comissão
Episcopal, a romaria para o Juazeiro chegaria ao ápice. A imprensa levou a
notícia aos quatro ventos (expressão de Dom Joaquim).
A propagação do milagre era tão estrondosa que
o escritor Otacílio Anselmo registra no seu livro, Mito e Realidade (op.cit.), que, de uma só
tirada numa tipografia do Rio Grande do Norte, foram impressos mais de cem mil
folhetos, uma coletânea dos milagres distribuída em todo o País. No Juazeiro, a
beata Maria de Araújo tornava-se grandiosa, despertando admiração, tornando-se
na mais célebre mulher do Juazeiro e quiçá do Nordeste, suscitando
interpretações de teólogos e médicos, com os Jornais noticiando o fato, e
adorada como Santa pelos fiéis.
O impacto causado em Dom Joaquim e na alta
esfera do clero da aceitação do divino, pelos dois padres da Primeira Comissão,
foi de decepção e indignação. Instigado pela ala conservadora e por leigos –
como os juízes da Barbalha e do Crato, que pela imprensa, através do Jornal A
República (1891), pediam a supressão da heresia –, foi instalado o Segundo
Inquérito. Apesar das provas irrefutáveis, para o clero não passava de uma
fraude muito bem montada, tendo Marrocos como o impostor. De fato, para todo o
episcopado, ele era o responsável pela farsa, palavras do clero. Nesse
emaranhado de contradições, foi instituída a Segunda Investigação, e nomeado
para presidi-la, o vigário do Crato, Padre Antônio Alexandrino de Alencar, e como
seus auxiliares, os Padres: Miguel Coelho de Sá Barreto, de Barbalha, e Manoel
Cândido dos Santos, de Saboeiro (CE). Tinha início a segunda investigação. Descreverei,
penso, modestamente, o que foram as atrocidades cometidas durante essa segunda investigação, que teve
nuances de prepotência, abalando a população do Juazeiro, de certa forma já
esmagada por tantas humilhações. Foi grande a decepção não só para o Padre
Cícero e seus seguidores, mas principalmente para a beata, que foi martirizada
e coagida publicamente. Sem esquecer das conclusões recheadas de pareceres
injuriosos, tendenciosos e desumanos. Acompanhemos seu desfecho trágico.
****
CAPÍTULO 6
O SEGUNDO
INQUÉRITO SOB A PRESIDÊNCIA DO PADRE ANTONIO ALEXANDRINO DE ALENCAR
Pela segunda vez, a beata Maria de Araújo
é reconduzida à Casa de Caridade, quando a trouxeram, a pé e sob coação, do
Juazeiro ao Crato. Na memória dos mais velhos, e que foi passando de geração à
geração, ela teria sido acorrentada pelos pés, enfrentando um percurso de duas
ou mais léguas. Como não encontrei registros autênticos, fica a dúvida. Embora
na imaginação da autora se desenhe esse quadro, dado o que ocorreu naquele dia
fatídico da última investigação. Essa foi uma ligeira amostra do que viria,
depois da sua última comunhão, de resultado negativo, avaliado pelo Presidente
da Segunda Investigação. Antes, ele teria dito, iria fazer uma reparação
pública pelo ultraje feito à Igreja de uma farsa que contaminou até sacerdotes
de reconhecida notoriedade, como os dois padres da primeira investigação. E o fez: o Padre
Alexandrino, subserviente ao Bispo Joaquim, agiu
inquisitorialmente. Considerado um sacerdote íntegro e um expoente do clero,
afirmam remanescentes de sua família, exaltando sua história religiosa e também
política (foi deputado provincial), como se conceber ele agir como agiu? Fica a
dúvida. Mas a verdade é que agiu, e impiedosamente, passando à História como um fato
desumano, desabonador, que assombrou a quem testemunhou. Frágil e doente, a
beata fez todo o percurso calada e sob coação dos que a estavam levando
para ser julgada e condenada, numa averiguação grotesca e cruel, quando lhe foi
oferecido um cálice amargo, que ela bebeu até a última gota. Mesclada de ódio e
rancores, a segunda investigação teve um fim dramático, porque transformada num
cenário de violência e crueldade. O Vigário Alexandrino exorbitou de
suas funções; chamá-lo de cruel não basta, ele foi de fato um inquisidor.
Acompanhemos.
Era 20 de abril de 1892. Esta
seria a última vez que Maria de Araújo se defrontaria com os representantes do
clero, nomeados pelo Bispo. A capela era exígua para comportar a massa que lá
se encontrava, extrapolando os números anteriores, quando muitos tiveram que
ficar no pátio externo. Em meio à massa simplória, como classificada pelo
clero, uma plateia da elite, formada por ilustres: os três médicos, Drs. Marcos
Madeira, Ildefonso Correia Lima e Inácio de Souza Dias, o bacharel Aarão
Madeira, irmão do citado Dr. Marcos Madeira, o Juiz da Comarca, Dr. Francisco
Praxedes, o Coronel e farmacêutico, Joaquim Secundo Chaves, vários padres,
muitos de estados próximos, Pernambuco e Paraíba, especialmente. Dois
sacerdotes da extrema confiança do Presidente da Investigação, com a missão de
ficarem atentos aos menores movimentos da Beata, numa vigilância intensiva e
martirizante, dando um tom de angústia ao momento que passou à História como desumano
e trágico. Investido de poderes inquisitoriais, ressalte-se, ele extrapolou a
acareação, como veremos adiante.
Às sete horas da manhã, a beata
Maria de Araújo foi levada da cela que ocupava na Casa de Caridade, ladeada por
dois padres, e também por outras beatas lá residentes, para o anexo da Capela,
com lugar já reservado para ela; na capela-mor ficou a elite.
O público que lá se encontrava
enchia os corredores laterais, amontoando-se uns aos outros, dificultando a
passagem para aqueles que lá foram à procura de ver mais um milagre. Ajoelhada
e despojada de todos os seus pertences, como o véu que cobria sua cabeça, e um
lenço vermelho que sempre trazia consigo, por ordem do presidente da Comissão.
Para os representantes do clero, esses objetos eram nebulosos e comprometedores.
A suspeita era a de que eles serviam como escudo, quando ela, driblando a
vigilância, controlava o recebimento das hóstias por ocasião da comunhão,
sutilmente e na ligeireza do escamoteador, ostentava sobre a língua hóstias
tintas de sangue, esse o truque usado dizia o clero. Ela, que vinha sendo
coagida por várias intimações, repreensões, respondendo a inquéritos, humilhada
e com a saúde abalada pelos martírios que lhe infligia o clero, levando-a à
exaustão. A pergunta é: onde ela iria buscar tanta energia para agir da forma
como diziam? Os responsáveis por essa segunda investigação não só
desacreditaram médicos e padres que atestaram o milagre, mas mancharam suas
reputações, comprometendo leigos de caráter irrepreensível, como o respeitável
Coronel e farmacêutico Secundo Chaves de Melo, e de centenas de pessoas que
constataram a olho nu o milagre.
É de todo impossível dizer-se que
não houve coação. O excesso de autoridade do presidente da segunda investigação
é notório. Ele extrapolou os princípios da ética e da moral cristã. Mas vamos
aos fatos: de cabeça baixa e olhar incomensuravelmente triste, a beata dominava
a cena. Apesar de todo esse aparato humilhante, parecia haver, em torno dela,
uma aura, fazendo com que o povo dali não arredasse pé. Inicia-se a Santa Missa;
chega o momento solene da comunhão. Somente ela a receberia, fato sistematizado
desde a primeira investigação e continuado nessa segunda. O Padre Alexandrino,
portando o cálice que continha a partícula, aproxima-se dela, num ritual
exótico, e ordena-a abrir a boca. Em seguida, ordenou-a que fechasse e
reabrisse, mostrando a língua, por intensos minutos. Foram momentos cruciais.
Depois desse ritual exótico, num imenso aparato de cautelas, que teria sido
justo, evidentemente, se não beirasse o exagero, chegando quase ao limite da
resistência humana, termina por dar-lhe a comunhão, para em seguida continuar o
mesmo ritual de abrir e fechar a boca. Passados alguns
instantes, o espanto para a gigantesca plateia ali presente: ao extrair a
hóstia da boca da beata, ele, num acesso de despotismo, convida as autoridades que
lá estavam a se aproximarem e, num gesto grotesco, como quem comemorava,
apresenta-lhes a hóstia, que se mantinha intacta e branca como a neve. “Por
fim, foi dada a ordem para que ela ingerisse a partícula, o que ela fez, sem
dificuldade” (Otacílio Anselmo, op. cit.).
Nos dias 21 e 22, repetiram-se os
mesmos testes, os mesmos estrambóticos rituais, o local o mesmo, o da capela da
Casa de Caridade, que virou um palco, dado que fizeram da investigação teatro,
por isso seu desfecho foi dramático. Em meio às testemunhas especialmente
convidadas, uma chamou a atenção dos presentes pela discrição e circunspecção
do seu porte e da sua indumentária. De terno preto, camisa branca com colarinho
à batina de padre, cenho fechado e, nas mãos, o objeto de sua devoção, o livro A Imitação de Cristo, leitura
obrigatória para ele, dizem os que o conheceram de perto. Era o teólogo
Marrocos, que ali estava a convite da Comissão Episcopal. Este dia ficaria
marcado como o dia do último martírio da beata. Pela última vez, ela foi levada
à presença dos sacerdotes. O povo, ansioso, aguardava a reprodução do Milagre,
expressando-se nos olhares que se entrecruzavam, convergindo diretamente para a
agraciada Maria de Araújo.
A capelinha da Casa de Caridade
era o palco daquele drama comovente e reacionário. Os padres sempre atentos,
numa precisa e rigorosa vigilância, aparato igual a certos órgãos repressores
de um recente passado, aqui no Brasil. Inicia-se a santa missa, em seguida a
comunhão. Outra vez o Padre Alexandrino usa do mesmo ritual do dia anterior:
abrir e fechar a boca, por intensos minutos, no que ela obedece humildemente,
demonstrando por essa forma que a humildade é uma virtude cristã por
excelência. Visivelmente debilitada, mesmo assim, foi pressionada até a
exaustão. Imóvel e serena, olhos fechados, alheia às circunstâncias daquele
momento trágico, parecia não estar ali, e sim em outra dimensão, como se a este
mundo não pertencesse, atestam comovidos os que testemunharam o fato. O Vigário
lhe fez uma pergunta; ela não responde, o que causou nele irritação.
Virando-se para o público, ele lança
um olhar à multidão, que se comprimia à espera do milagre, e convida para junto
de si a nobreza ali presente, de juízes, doutores e padres ilustres. Aí foi o
incrível! O que parecia uma inverdade era tão somente a verdade, ou
inverdade? Outra vez, a partícula recebida por ela minutos antes estava
intacta e na sua brancura imaculada. Deus quis provar o Padre Cícero — Sua Mão
Divina ocultou o Milagre. O sangue não tingiu a hóstia, foi o amargo. Se fosse
dado ver à distância, com certeza ver-se-ia o coração do Padre Cícero lá no
Juazeiro a sangrar.
Naquele conturbado e triste
momento, a beata Maria de Araújo deve ter empalidecido, tremido e cambaleado
aos pés do sacerdote. Terminava ali o ciclo dos milagres. Foi um momento de
perplexidade e confusão, para tristeza dos devotos. Atônitos e decepcionados,
retiraram-se do recinto sem nada dizer, mas convictos de que algo de errado
tinha acontecido, pela oposição sistemática da segunda Comissão de Inquérito,
que agia de modo reacionário: desprezo e desdém à causa. Para eles, uma
infelicidade. Os partidários do clero, opostos ao milagre, aclamavam o ocorrido
e diziam: tudo era mesmo uma fraude, um embuste, e davam Marrocos como o autor
material e moral do nefasto e devastador caso. A única pessoa, exceto a beata,
que se manteve imperturbável, e cujo fato não causou nenhum desapontamento, foi
justamente ele, Marrocos. Sua indescritível calma em meio àquela tempestade não
passou despercebida aos presentes. Para os psicólogos, esse estado de espírito
reflete em toda extensão a calma do fanático. Passados alguns instantes,
retirou-se do local, sem assinar o termo da ocorrência, mantendo-se silencioso.
Parecia ter a convicção de que prevalecera o império da vontade clerical, pelo
modo com que foi conduzida a investigação. Que alterações se produziram no
ânimo da beata? São respostas até hoje envoltas em mistério, mistério
insondável, inexplicado, obscuro. De volta à cela que ocupava na Casa de
Caridade, um fato sinistro ocorreu, totalmente fora do convencional da
investigação dos fatos, sublinho, para que não esqueçamos. Não foi nenhum caso
de transcendência sobrenatural, e sim um comentário ingênuo, se é que houve,
encerraria aquele dia trágico. O fato atípico dá uma visão do contrário aos
seus procedimentos de discrição e humildade.
De acordo com algumas beatas da
Casa de Caridade, Maria de Araújo teria dito que o Milagre não se realizara porque
os padres da Comissão não estavam em estado de graça. Para quem a conhecia de
perto, ela jamais seria capaz de externar esse ponto de vista, mesmo porque,
nessa fatídica manhã-tarde, ela tinha chegado a um total estado de exaustão;
impassível, demonstrava grande contrariedade, e chorava. Esse o retrato traçado
por outras beatas, residentes na Casa de Caridade, contrariando o que disseram
as informantes do Padre Alexandrino. Deitada, de olhos fechados e suando
bastante, nada dizia, quando de repente abre-se a porta. Era o Padre
Alexandrino, que, sem lhe pedir nenhuma explicação, munido de poderes supremos,
se dizendo ultrajado e ofendido, numa atitude de superioridade, aos brados
(reza a memória coletiva que falava muito alto, podendo ser ouvido à grande
distância), identifica-a como uma farsante, insignificante, que tinha usado de
persuasão para convencer o público, médicos, padres, e até mesmo o Padre
Cícero, de um milagre que não existia. “Mentirosa, devia ser presa”, declarou. Sem
demonstrar a mínima compaixão pelo estado de prostração e alheamento em que ela
se encontrava, sem nenhum respeito pela integridade física da beata, na
brutalidade extravagante e completa indiferença por qualquer sorte de
felicidade humana, retira do bolso externo da batina uma palmatória. Ordenando-lhe
que fique de pé, “cheio de ira santa”, aplica doze bolos de palmatória em suas
descarnadas mãos, e ordena sua retirada imediata da Casa de Caridade para o
Juazeiro. Ao tentar se desvencilhar do padre cruel sem um mínimo de sensibilidade
religiosa, ela cambaleou, quase caindo, sendo amparada por outras beatas ali
presentes.
Quem testemunhou a brutal cena, o
que viram foram suas lágrimas a lhe rolar pelas faces. Nesse momento, chega seu
irmão. Visivelmente transtornado e blasfemando contra o Vigário Alexandrino,
queria tomar satisfação, mas foi aconselhado a não procurá-lo. Cumprindo a
determinção do Vigário, improvisam imediatamente sua retirada da Casa numa
rede, por não ter ela a menor condição de voltar a pé para o seu Juazeiro, como
sempre fazia de regresso do Crato. Dizer-se que o Padre Antônio Alexandrino era
benigno, não tem lugar. Seus atos de submissão ao clero e à pessoa do Bispo são evidentes.
Destacou-se como um perfeito inquisidor, por isso esse retrato, para mostrar o
excesso das práticas tirânicas e repressivas do clero, sob o domínio de Dom Joaquim.
Esse registro que ora faço ficará
como lembrança do que foi a história religiosa do Juazeiro, que, longe de ser
uma ficção, foi sim a realidade de um clero medieval, que terminava por fazer
adeptos. Refiro-me às declarações da ex Superiora da Casa de Caridade à época
desses fatos, Delmina Silveira de Jesus. Essa religiosa, num ímpeto de desamor
ao próximo, ou de irresponsabilidade, ou para dar uma satisfação ao clero, contrária
aos fatos, pronunciou-se, dando declarações impactantes, chocando alguns
membros do próprio clero e o público, desafiando os adeptos dos milagres. Foram
declarações absurdas, grosseiras e esmagadoras sobre Maria de Araújo e o Revmo
Monsenhor Monteiro, nome de expressão dentro do clero brasileiro. À época
desses fatos, ele era reitor do Seminário do Crato. A ex Superiora e beata
Delmina Silveira de Jesus, sem se aperceber do grande mal que trariam suas
declarações, num momento agudo de suspeições e falsos testemunhos,
incoerentemente disse o que se segue:
“Acusava Monsenhor Monteiro de
ser conivente com a farsa de Maria de Araújo, e que, contrariando o regulamento
da instituição, ela saía à noite para o Seminário, onde se reunia com os padres
para conferenciar com eles sobre os exames a que tinha sido submetida, e que os
comissários da investigação tranquilizavam-na. Acrescentou que Monsenhor
Monteiro passava horas e horas em colóquio com ela, como se realmente fosse uma
santa, e que seus fingidos êxtases davam-se após ingerir bons goles de cachaça”.
Espantosas as declarações da
beata e ex Superiora da Casa de Caridade, Delmina Silveira de Jesus! O clero
ficou estarrecido ante tais declarações. Caindo de sua posição e desacreditado,
Monsenhor Monteiro, injuriado e difamado, era um dos membros do clero
reconhecidos por sua vida imaculada. A partir daí, Dom Joaquim jogou-o ao
ostracismo e, na sequência dos acontecimentos, dois anos depois era suspenso de
todas as suas ordens e ameaçado de excomunhão. Foram tão graves as declarações
da beata Delmina Silveira de Jesus, que o Padre João Augusto da Frota Aguiar,
de grande conceito na Diocese e um dos fiéis amigos do bispo Joaquim, exigiu
retratação, de público, da ex Superiora, dizendo que ela havia enxovalhado o clero,
assim sendo era necessária uma reparação pública do que dissera.
O fato chamado de Milagre do
Juazeiro trouxe consequências gravíssimas ao Padre Cícero e à ala do clero que
ficou a seu lado, bem como a todo o povo do Juazeiro.
Depois de 20 anos de estudo desse
tenebroso passado, o que dizer do clero da época, senão que era um clero
medieval e que agia de modo inquisitorial, exemplificado com os casos aqui
descritos? Estou particularmente inclinada a acreditar que, ainda hoje, ressoem
nas paredes da secular Casa de Caridade do Crato (fundada pelo inovidável Padre
Ibiapina em 1862 com outra finalidade, e não para ser palco de tortura e
ameaças) o som macabro da palmatória. Quem sabe, o fantasma espectral de Maria
de Araújo lá não esteja, estática, submissa, com o seu rosário de contas azuis
e brancas, ajoelhada, invocando aos céus perdão para o Padre Antônio
Alexandrino, e inclusive para o implacável Dom Joaquim José Vieira, seu
algoz, para a ex Superiora da Casa de Caridade, Delmina Silveira de Jesus, e
para o Padre Manoel Felix de Moura, primeiro a fazer declarações semelhantes às
da ex-Superiora.
A ira do Padre Alexandrino
extrapolou, exorbitando das suas funções. E a esse ato extremo, que abalou
estruturas, o clero fez vista grossa, mas o povo, indignado, reagiu ao gesto
extremado do Vigário, protestando contra tamanha violência. O episódio é
de todos conhecido. Apesar de não haver registro, a memória coletiva
guardou-o, atravessando o tempo, chegando até os dias de hoje. Estava implícito,
no gesto do Vigário, o poder incomensurável da Igreja de Roma. Os padres e bispos, recebendo
ordens de instâncias superiores, acatavam-nas obedientemente. O receio era de
que fossem suspensos de ordens, ou excomungados, ficando assim banidos da
comunidade eclesiástica, tudo dentro dos cânones da Igreja Católica Apostólica
Romana. E o exemplo de perdão, amor e humildade, que tanto ensinou Jesus, foi
esquecido no decorrer dos fenômenos do Juazeiro. Para os padres da Segunda
Comissão de Inquérito uma só coisa era verdade: a beata Maria de Araújo tinha
sido apanhada em flagrante delito de falsidade, pois o fato ressaltava à mais
pura evidência. Para eles, tudo era uma burla, e aí prevaleceu uma ignominiosa
guerra de desprezo, poderes e exaltação, seguindo a linha da bula intitulada Summis Desiderantes Affectibus, do Santo Ofício, nome que substituiu a Inquisição.
Dom Joaquim insistia na sua tese
de que o sangue nas hóstias era da beata, pois os últimos testes mostraram
claramente a evidência da falsificada história dos milagres. Cético, daí em
diante seu ceticismo foi às alturas, e a perseguição ao Padre Cícero chegou ao
auge. O que prevaleceu foi a bula de Inocêncio VIII, de que fatos como os do
Juazeiro teriam que ser sepultados, numa palavra: varridos de órbita. Apesar de
proclamarem o fim da Inquisição, o caso do Juazeiro soa como velada Inquisição.
Os fatos aqui descritos procedem
das mais idôneas fontes, vistos e testemunhados por todo um povo, e os
documentos citados estão guardados na Cúria Diocesana do Crato, como símbolo de
um passado que o clero queria sepultar, para que as gerações vindouras dele se
esquecessem. Mas a História reagiu ao tempo, guardando-o para sempre. Dali em
diante, nada mais houve de verdadeiramente importante a registrar sobre a beata,
que, reclusa à sua casa, ficou confinada a um álgido silêncio, imposto por
Roma, proibida também de apresentar-se em público.
Muitos anos se passaram desses
fatos dolorosos. Aquela que fizera do Juazeiro a Cidade Sagrada, chegava ao
fim, morria paupérrima e esquecida de todos, por tuberculose. Até mesmo o Padre
Cícero não a procurava, impedido por Roma de com ela manter contato. Era mesmo
o fim de uma história. É sabido que, diariamente, saía de sua casa a refeição
para ela. Ao falecer a beata, ele deu-lhe enterro condigno, não só por sua
presença, mas homenageando-a com funerais e luto. O caixão para seu
sepultamento foi fabricado na marcenaria de Antônio Pereira; era de cor de nogueira
escura, envernizado por dentro e por fora e trancado à chave, por ordem do
Padre Cícero, escreveu Irineu Pinheiro, presente ao sepultamento (op.cit.). A mortalha era de cor marrom,
semelhante ao hábito das Franciscanas. Mesmo desprezada pelo público, que a
tinha esquecido, ela ofereceu o seu resto de vida para salvar outras vidas, e
agonizou ao som dos estampidos dos tiros que cortavam os céus do Juazeiro de
ponta a ponta. Era a guerra de Floro Bartolomeu.
O Padre Azarias Sobreira (op.cit.) reconheceu o desprezo dado por
seus conterrâneos à beata, que morreu abandonada num miserável casebre, sem
nenhum conforto, onde tudo lhe faltava. “Apenas duas ou três famílias,
compadecidas de sua miséria, lhe levavam de vez em quando um pouco de consolo
espiritual e material. Não resistindo à tuberculose que a corróia há anos,
faleceu a 17 de Janeiro de 1914, em plena guerra do Juazeiro”, escreveu ele. Terminava
aí a história de humilhação e martírio da beata Maria de Araújo.
De acordo com o Padre Gomes, que
registrou, nas páginas da Revista Ytaytera (Crato), ela foi sepultada de pé,
por ordem do Padre Cícero. Para ele, esse ato confirmava eloquentemente que o
Padre Cícero a tinha na conta de Santa, e que, sepultada de pé, significava que
ela continuaria viva. A antropóloga Rose Ribeiro, professora da Universidade
Federal do Piauí, especialista em rituais funerários, afirma desconhecer povos
que exijam o enterro
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CAPÍTULO 7
O CETICISMO DO BISPO DOM JOAQUIM JOSÉ VIEIRA
Eximindo-se do desfecho da
segunda e desumana investigação que manchou o clero, o Bispo se defendia,
dizendo estar pressionado por forças poderosas, sem citar quais. Aliás, no
Juazeiro daqueles dias, generalizou-se entre o público que ele era simpático à
maçonaria, e uma avalancha de suposições grosseiras foi desferida contra ele. Talvez
fosse uma forma de extravasar o ódio que o povo sentia pelos sofrimentos
infligidos ao Padre Cícero e à toda comunidade. Decepcionado com a primeira
investigação e descrente quanto ao fato milagroso, ele dá início a novas
investigações, dessa vez ouvindo leigos. Questionado sobre o caso de Sena e
Oviedo na Espanha, idêntico ao do Juazeiro (sangue nas hóstias), não
negou, mas fazia ressalvas. O clero sob seu comando rejeitava abertamente o
milagre, apesar das provas testemunhais e documentos oficiais, como o do
célebre médico Madeira. Para muitos, o que contava para tanta rejeição era a
ascendência sem linhagem alguma de Maria de Araújo. Seria um desafio para a
história da Igreja. Por isso, foram ouvidos personagens que, além de não crerem
nos fatos como divinos, depreciavam-no, num tom de desdém. Eram eles os juízes do Crato e
Barbalha, que pela imprensa emitem um arrazoado de inverdades e injustiça,
dando por terra o milagre. Pesou também, para a ala descrente do clero, as
insinuações do comerciante e fazendeiro Juvenal de Alcântara Pedroso,
reconhecido pela urbe cratense como respeitável e digno. Para esclarecer suas
dúvidas quanto ao milagre ser de origem divina, ele usou de um método tosco.
Vejamos o que disse:
“Certo dia fui à casa do Padre
Cícero. Ao chegar lá, encontrei a sala de visitas repleta de pessoas de posição
social elevada, médicos, padres, comerciantes, e outras pessoas de bem do
lugar, inclusive o médico Marcos Madeira. No centro da sala, rodeada por esses
ilustres personagens, estava a beata Maria de Araújo. Impressionado com o caso
do sangue nas hóstias recebidas por ela, embora descrente de que fosse um fato
sobrenatural, pedi-lhe que escarrase no ladrilho da sala onde se encontravam
todos. Sem demonstrar nenhum constrangimento, não se fez de rogada, e qual não
foi minha surpresa, e talvez de todos que lá estavam: o escarro veio com bolhas
de sangue”, o que comprovava, segundo ele, toda fraude montada. “Naquele
escarro estava a explicação do inexplicado caso das hóstias ensanguentadas”.
Os juízes das Comarcas do Crato e
Barbalha, coerentes com o Coronel Pedroso, insitiam na supressão, para eles, da
heresia. Emitem uma nota pelo Jornal A República (ano de 1891), de cunho
fascista, desprovida do principal: embasamento teológico. Abelardo Montenegro,
em seu livro História do Fanatismo Religioso
do Ceará, transcreve trechos do referido artigo. O Juiz de Barbalha,
Siqueira Cavalcanti, na sua entrevista ao Jornal, disse: “certo dia,
estando no Juazeiro, fui à missa conventual das 11h30min, chamada Missa dos
Romeiros, celebrada pelo Padre Cícero, quando, num sermão exaltado, ele fazia
apologia ao Milagre e previsões assustadoras, deixando o povaréu aflito; muitos,
comovidos, choravam”. Com essa insinuação, o Juiz, para todos os efeitos, quis
dizer que o Padre Cícero, ideologicamente, controlava a massa, colocando desse
modo mais lenha na fogueira não só do clero, mas também das autoridades do
Estado. Pesou também, para o Bispo, uma extensiva Carta de Idelfonso Gurgel
Nogueira, enviada de Russas (região do alto Jaguaribe), quando fazia veemente
crítica ao milagre, depois de ter ido ao Juazeiro, lá ficando por alguns dias,
para ele, o suficiente para tirar suas conclusões de que tudo não passava mesmo
de uma fraude. O cidadão citado não tinha conhecimento de teologia, nem da
Ciência subjetiva do inconsciente, simplesmente seu ponto de vista era
aleatório e inconsistente.
Todavia, foi acolhido pelo Bispo
como verdadeiro. Na sua Carta Pastoral, ele faz referência a essa Carta como
verdade suprema, sem citar o nome do missivista. Um paradoxo inexplicável,
quando dos padres da primeira investigação ele não se cansava de exigir rigor
nas acareações, numa exegese extrema. Entretanto, deixou-se levar por esses
testemunhos menores, desprovidos de conhecimento teológico, e que foram
anexados aos autos do segundo inquérito e remetidos sem demora para Roma, onde
correria de fato o Processo Canônico sob a égide do Sacro Colégio.
A carta do Padre Quintino,
onde se desdizia do que afirmara antes, bem como a do médico Inácio de Souza
Dias, deu sustentação ao Bispo. Foi a gota d’água que faltava, pois já
considerado por ele e sua ala como um embuste, uma farsa muito bem montada por
Marrocos, e o recriminava, dizendo que ele estava fazendo teologia a seu modo,
quando nenhuma autoridade canônica tinha para isso. As investigações acopladas à
sua dúvida não paravam de chegar às suas mãos. Premido pelas cobranças do clero
conservador e pela dúvida que o atormentava, envia os documentos para Roma.
Para o Bispo,
o resultado do segundo inquérito era a prova indefectível da fraude montada por
Marrocos, a quem incriminava, chamando-o de maligno. Tudo fora provado,
argumentava.
Para o Padre Cícero, com sua
visão do milagre, acompanhado dos médicos e padres que atestavam sob juramento,
o milagre era incontestável. Como desacreditar de teólogos da estatura do Revmo
Monsenhor Antero e do virtuoso Clicério Lobo, que emitiram laudos afirmando ser
o fenômeno de ordem sobrenatural? Que dizer-se do documento histórico do Dr.
Marcos Madeira, que atestou sob juramento? A pergunta sempre existirá pelos
tempos afora: qual o objetivo do Dr. Marcos Madeira, ao passar esse atestado
para os pósteros? Fica mais uma vez a alusão à queima dos paninhos ensanguentados
e a inevitável pergunta: por que o bispo do Crato, à época, Dom Francisco de
Assis Pires, não mandou ditos paninhos para serem examinados pela ciência, já
que os tinha como embuste? Era
Os testemunhos dos juízes de
Barbalha e Crato, e do fazendeiro e comerciante, Juvenal de Alcântara Pedroso,
que faziam parte da elite cratense, tiveram enorme peso. Apesar
de tendenciosos, foram reunidos aos Autos do Primeiro e Segundo Inquéritos e
enviados para Roma. Nas suas Cartas Pastorais, o Bispo faz alusão a esses
testemunhos, para ele, relevantes e verdadeiros.
As medidas danosas e caústicas do
Bispo,
considerado por muitos um Inquisidor, eram constantes. As pastorais tornavam-se
públicas, porque afixadas nas portas das Igrejas do Nordeste. O restante dos
sacerdotes que ainda acreditava nos milagres, sem mais alternativa, acatou a
decisão do Diocesano e da alta esfera do clero. Sem se afastar um milímetro
sequer da sua posição contrária ao milagre do sangue na hóstia ser de origem
divina, a tese do Bispo era a de que o sangue impresso nos paninhos era mesmo
da beata, cuja posição ele levou até seus últimos dias à frente da Diocese do
Ceará. Para ele, o caso já estava devidamente esclarecido pela coleta de fatos
da segunda investigação; a culpabilidade da beata tinha sido provada de maneira
inequívoca. Travou-se então uma guerra de concepções as mais exóticas,
mescladas de infâmias, inverdades, rancores, de perseguições as mais crueis. Nesse clima de
incertezas e radicalismo, o Padre Alexandrino, estribado no suporte desses
testemunhos, foi além, e solicitou ao diocesano que pedisse ao Governo do
Estado a remoção da “crescente população do Juazeiro para campos isolados de
internamento além das fronteiras do Ceará”. A solicitação do Vigário Alexandrino de
Alencar, na concepção do sociólogo Ralph Della Cave, é configurada como campos
de concentração (Mistério em Joaseiro).
Com esse procedimento, ele antecipou-se a quase meio século do que seriam os
campos de concentração da Alemanha nazista, ou lembrou-se da Sibéria? A Sibéria,
de que tanto falou Dostoievski na sua monumental literatura.
A partir daí, foi montado um
processo vexatório e opressivo de vigilância eclesiástica sobre o Padre Cícero,
e a tempestade de descrédito do clero inegavelmente pesou, sem impedir que a
romaria e a crença
no milagre sofressem nenhum abalo. O Bispo, firme e coerente com seus
princípios, além de consultar oito teólogos de nomeada no estrangeiro (segundo
escreveu na sua 2ª Carta Pastoral), usando de todos os meios para que o caso
fosse devidamente esclarecido, convoca o eminente médico Dr. Júlio César da
Fonseca Filho, reconhecido como cientista. Erudito, foi um dos fundadores do
Jornal A República e pioneiro na fundação de bibliotecas no Ceará. Foi Deputado
Provincial por sua cidade natal, Aracati (in 10001
Cearenses Ilustres). Atendendo à solicitação do Bispo, o
médico-cientista deu os esclarecimentos que se seguem, de acordo com o seu
ponto de vista. Não fugindo à realidade dos fatos, e descartando a hipótese do
milagre, também da impostura, da simulação, começa o seu parecer invocando a
tese do Padre Dr. Debreyne, um médico e religioso de Trapa, que classificava
fenômenos dessa ordem como simplesmente patológicos. Falou sobre o fenômeno da
histeria, discorreu sobre o hipnotismo de acordo com o professor Charcot, da célebre Escola da
Salpétriere, dizendo: “aqui o invoco nas suas minudências, pelas circunstâncias
dominantes do momento em Juazeiro”.
“— Se Maria de Araújo não é
puramente uma histérica, como suponho, com bons fundamentos, depois de estudar
sua história, é sem dúvida uma neurastênica de temperamento hemofílico. Tem
hemorragias espontâneas, provocadas pela psicose do ascetismo exagerado, por
disposições morais concentrativas, que a levam irresistivelmente à contemplação
íntima das visões celestiais, devota prática como é. Portanto, Maria de Araújo não é uma mística, nem
tão pouco uma mistificadora. É uma doente”.
E continua seu parecer dizendo:
“Uma mulher histérica e
impressionável, dominada pela superexcitação nervosa, é um mundo de problemas. A
inquietação que se apodera de Maria de Araújo imediatamente após a comunhão, os
movimentos espasmódicos de que é vítima na ocasião, não podendo projetar para
fora a língua, assomo de glossoplégia, desaparecendo por injunção do seu diretor espiritual,
faz-me crer, cada vez mais, que se trata de uma histérica sem ataques. Repito.
Maria de Araújo não é uma mística no sentido teológico da palavra; é
simplesmente uma doente. O fenômeno que nela se opera, com a ‘mise en scene’ dos grandes espetáculos
que age fortemente sobre a imaginação, não tem sua origem na corte celestial, e
sim no córtex cerebral, no substratum anatômico dos fenômenos psíquicos”.
Sempre mencionando os grandes
cientistas das Escolas da Salpêtriére e Nancy (Paris), que à época eram acatadas
e estudadas pelo mundo europeu, onde o maior destaque era seu criador, o
Professor Charcot, pioneiro nos estudos da histeria. Já a Escola de Nancy
seguia a linha da autossugestão. O médico foi cauteloso e prudente, mas suas
observações foram pautadas na hipnose. Criticou abertamente pela imprensa o
atestado do médico Marcos Madeira, dizendo ter havido precipitação, e concluiu
dizendo:
“O sangue aparecido nas
hóstias recebidas por Maria de Araújo provém de hemorragias espontâneas,
provocadas pela psicose do ascetismo exagerado, por disposições morais
concentrativas. Maria de Araújo não é uma mística, no sentido teológico da
palavra. É simplesmente uma doente”.
O atestado do ilustre médico Dr.
Júlio César da Fonseca Filho simplesmente descontruiu o mito que se formou em
torno do fenômeno chamado de Milagre, dando como causa a Sugestão, nada mais.
Sua tese provocou mais polêmica entre religiosos e no meio médico do Ceará.
Enquanto ocorria esse vendaval de depoimentos, com a imprensa agitando, Dom Joaquim, mesmo
sabendo do ponto de vista do Monsenhor Antero (Secretário da Primeira Comissão
de Inquérito), solicitou-lhe desse uma definição franca, sincera, do que
deduzira das suas investigações, e exaltava seu saber teológico. De porte
corajoso e firme, contava 36 anos de idade. À época, era vigário da sua terra
natal,
Icó. Sem usar de artifícios complicados, dispensou o recurso da elaboração
filosófica; menos místico, mais teológico, numa altiva defesa do milagre,
esclareceu a questão do sangue nas hóstias da seguinte maneira:
“O sangue aparecido nas
hóstias não é de Maria de Araújo. V. Excia poderá fazer uma experiência,
deitando uma partícula em líquido colorido e espesso como o sangue humano, que
em dois ou três minutos esta partícula não se transformará naquele líquido,
ficará umedecida, desfeita um pouco, porém nunca a ponto de não poder
distinguir-se e separar-se, experiência que fiz. Ora, muitas vezes observei
que, em poucos minutos, a partícula se transformava completamente, a ponto de
não se distinguir nada, como em poucos minutos aumentou de volume
consideravelmente, como tive oportunidade de notar e admirar.
Por conseguinte: ou devemos
dizer que o sangue não é de Maria de Araújo, ou admitir um outro milagre sui
generis: atribuir ao sangue de Maria de Araújo a propriedade de transformar
instantaneamente uma substância em outra”
(Amália Xavier, op. cit., p. 88).
Sua tese contrariava a do clero
conservador e agitou o meio eclesiástico do Ceará, causando mais polêmica. No
Juazeiro, os sermões eram carregados de fé e emoção no milagre, quando diziam
que o sangue aparecido na hóstia era uma revelação de Deus para expiação dos
pecados. Evocando o Apocalipse, falavam de fim de mundo; o próprio Padre
Clicério estava imbuído desse pensamento quando explicitamente diz no seu
parecer. Ele vislumbrava nos fatos o prenúncio de uma Nova Era.
Como já citado, Dom Joaquim, antes de
se tornar um inflexível, chegou a admitir o aparecimento de sangue em hóstias,
só que descartava a possibilidade do divino e admitia que todo o objetivo do
Padre Cícero nesta questão era o de converter almas a Deus, cujo
trecho lê-se numa de suas Cartas dirigida a ele, quando ainda o tinha na conta
de um bom padre e filho da Igreja. Apesar de rígido em seus dizeres e
ácido nas suas sentenças, sempre o considerou incapaz de embuste. Mas isso
foi bem antes de ser tão pressionado não só pela hierarquia, como também por
forças outras que despontavam no Ceará, vale lembrar, a maçonaria, o
positivismo, o republicanismo, que o bispo e o clero chamavam de doutrinas
esdrúxulas. No trecho de uma de suas cartas no ano de 1886, para o Padre
Cícero, lamentando a falta de fé no Brasil, permeado por novas doutrinas, em
tom de tristeza dizia: “Acautelemo-nos dessas doutrinas
malsãs e salvemos o nosso Brasil, ainda há fé para isso”.
O Bispo jamais esqueceu os
sofrimentos dos bispos de Pernambuco e do Pará, presos e condenados pela
maçonaria. O Padre Cícero, diz o escritor Azarias Sobreira (op. cit.) “não perdia ensejo de, no
púlpito ou nas rodas de amigos, profligar a fraqueza do governo imperial; e
formava assim a opinião pública em defesa dos dois nobres confessores da fé.
Lia e fazia ler, comovido, as pastorais de Dom Vital, que reputava um
verdadeiro santo digno dos altares”, completa
o escritor.
Nesse tempo, considerado pelo Bispo
um virtuoso, coloca-se no lugar de um mensageiro da fé, de uma obsessiva fé,
manifestada em todos os seus atos de vida, como: sonhos, visões, e até no
aparecimento de sangue nas hóstias ser de origem divina, pensamento que já
trazia arraigado desde os tempos de seminarista, quando, numa aula de teologia,
discordou veementemente do Reitor, Padre Chevalier, o
que fez sua ordenação ser retardada por dois anos, pois o Reitor levou o caso
ao Bispo Dom Luís Antônio dos Santos, dizendo que, se ordenado, ele iria trazer
confusão ao clero, por suas ideias tendentes à heresia.
Nesse emaranhado de depoimentos e
suspeições, eis que vem à tona o Bispo Joaquim Arcoverde, figura proeminente da
Igreja Católica, totalmente contra os fatos, para eles grotescos e
supersticiosos. Ríspido, decretou que os padres crentes dos milagres fossem
suspensos de ordens e proibidos terminantemente de fazer apologia dos milagres
como divinos, imposição extensiva também aos leigos. Caso insistissem, seriam
punidos com a excomunhão. Ordenou ao bispo do Ceará mandasse recolher os sanguinhos
no Juazeiro, e que fossem queimados, como já decretado pelo Vaticano, e
concluía dizendo: “tudo não passa de uma fraude” (Ralph Della Cave, op. cit.).
O Bispo Arcoverde, figura
destacada da Igreja Católica, num assomo de indignação matizado de grande
injustiça, esqueceu seu antigo colega de outrora, do Colégio do Padre
Rolim em Cajazeiras (PB), e rotulava os fenômenos de escabrosos e uma
degradação do dogma religioso. Para ele, o Padre Cícero estava enganado, evidentemente,
e dizia que essa história de Milagre era injuriosa e uma infâmia para a Igreja.
Sendo um dos mais respeitáveis nomes do clero brasileiro à época, ele nem
sequer formulou uma tese capaz de convencer, não consta em nenhuma passagem dos
seus pronunciamentos uma tese sólida sobre o fato, senão a de ser uma burla.
Ele, que seria depois o primeiro Cardeal da América Latina, ateve-se a detalhes
menores, e não a uma teologia convincente, já que demonstrava ser um exegeta e
contestava os fatos. Entretanto, suas declarações surtiram efeito, calando no
ânimo do aqui tão citado Padre Antônio Alexandrino que, estribado nos seus
pronunciamentos, passou a pressionar as beatas depoentes, ameaçando-as da perda
do hábito e de residência (Casa de Caridade do Crato).
A princípio elas não se intimidaram, nem se importaram com a ameaça de
excomunhão. Os padres adeptos dos milagres contestaram a posição de ordem do
Padre Alexandrino de Alencar como um grande retrocesso eclesiástico, causando
mal estar e grande comoção ao público, que recriminava o clero. Mas dada a
grande pressão, elas não tiveram alternativa, senão desdizer-se do que
afirmaram, dizendo serem falsas suas declarações. Evidentemente coagidas
religiosa e moralmente, renderam-se de maneira humilhante e passaram ao
ostracismo. Foram elas: Maria da Conceição, Maria das Dores do Coração de
Jesus, Raquel Sisnando Lima, Maria Joana de Jesus, Jael Cabral (teóloga), e
outras de menor expressão.
Na esteira desses acontecimentos
e de opiniões várias, o médico Inácio de Souza Dias, que sempre esteve presente
em todo decorrer desses fatos, rompe seu silêncio dias antes de deixar o
Juazeiro. Na dúvida de que o milagre fosse de origem divina, deu uma declaração
espontânea para a imprensa na cidade do Crato, dizendo: o que
havia no Juazeiro, era simplesmente sugestão. Baseou seu ponto de vista nas
afirmações do célebre Padre Faria (português), de que o essencial, no
aparecimento desses fenômenos, era Sugestão. Recorreu também à Escola de Nancy
(Paris), de que o ato pelo qual se faz aceitar pelo cérebro uma ideia qualquer,
termina em sugestão. “E a beata Maria de Araújo era sugestionável e histérica,
isso posso admitir, depois de apreciar por muitas vezes o fenômeno”. Essa
declaração bombástica do médico provocou confusão entre padres, leigos e
autoridades. Segundo ele, foi forçado a
deixar o Juazeiro de imediato.
Ao retonar à sua cidade natal
Icó, remeteu uma Carta ao Bispo, que a classificou de a
expressão da verdade. Eis algum dos
trechos da citada Carta, bastante longa.
Exmo e Revmo Sr. Dom
Joaquim José Vieira.
“Observando atentamente o fenômeno expresso na pessoa da beata Maria de
Araújo, esclareço que não cheguei como desejaria a uma conclusão satisfatória; se
antes dei testemunho, afirmando o milagre, o fiz sem os necessários dados.
Porque, cercado que estava por um povo que transluzia fanatismo em todos seus
atos, exigindo desse meu testemunho. Assim premido pelas circunstâncias do
momento, emiti meu parecer sem a devida certeza. Hoje, distante 100 léguas do
palco dos acontecimentos, sinto-me à vontade para dizer o que pude
constatar em 40 dias de observação.
Lá não
há nada de sobrenatural, e sim: que a beata é portadora de um grau elevado de
autossugestão
acoplada ao histerismo, que fazem vir a ela os sintomas como reconhecidos pelo
cientista Julio César da Fonseca Filho. Portanto, esclarecendo o fato a V. Excia
e ao clero, peço perdão pelo meu ato injustificado, assegurando mais uma vez
que o fiz premido pelas circunstâncias”.
De V. Excia amigo e confidente.
Dr. Inácio de Souza Dias.
A carta do médico soou no meio
eclesiástico e fora dele como um vendaval. Foi um verdadeiro estouro. Encorajada
pelas declarações do médico, houve a rendição de vários sacerdotes (observação:
os quatro médicos que deram seus pareceres eram formados pela Escola de
Medicina do Rio de Janeiro, e o Dr. Idelfonso Correia Lima e Júlio
César da Fonseca Filho foram deputados provinciais).
No dia 16 de agosto de 1892, o
bispo baixava mais uma Portaria, suspendendo o Padre Cícero de pregar e
confessar no Juazeiro. Aí a luta teve seu apogeu, seguiu-se a exaltação de lado
a lado, enquanto o povo persistia na crença do milagre e a romaria chegava ao
ápice.
****
CAPÍTULO 8
A DEFESA DE
MARROCOS E A DECISÃO DE ROMA COM SUAS IMPLICAÇÕES
O
teólogo José Marrocos assumiu daí em diante a defesa do Padre Cícero e
dos milagres, consultando teólogos do estrangeiro (Funchal e Porto, Portugal) o
Bispo
do Maranhão e seu ex-colega de seminário em Fortaleza, o Bispo do Pará, Dom
José Lourenço da Costa Aguiar. Nesse cipoal confuso, que tornava os fatos
um verdadeiro labirinto de contradições, contrariado, Dom Joaquim ameaçava
punir os seguidores dos milagres com a pena de excomunhão. Receavam o Bispo e o
segmento que o acompanhava que se formasse um cisma, o que jamais aconteceria,
pois o Padre Cícero nunca se afastou das regras canônicas, e seria incapaz de
tentar uma defecção no seio do clero.
Depois de debruçar-se sobre os
tratados teológicos por meses a fio, como afirmou, o Bispo Joaquim lança sua
primeira Carta Pastoral, com data de 25 de março de 1893, condenando os fatos e
exortando os fiéis a não darem crédito aos fenômenos, pois eram contrários ao
ensino da Igreja. Fazia mais uma vez alusão ao testemunho do médico Ildefonso
Correia Lima, classificando de puro engano e concluiu dizendo:“O fenômeno do sangue nas hóstias é mero
efeito de causas puramente naturais”.
Anexa à Carta Pastoral, a
ratificação da suspensão do Padre Cícero de celebrar e confessar, não só no
Juazeiro, mas em toda a Diocese. Proibiu-o de fazer uso da palavra em público,
como também não lhe era mais permitido receber visitantes e peregrinos. O fato
tomou uma dimensão enorme, abalando todo o Juazeiro. Proibir que os peregrinos
e visitantes que lá chegavam para visitar-lhe não fossem recebidos por ele, em
sua casa, nem dele se aproximar? Era o auge da força episcopal. Marrocos
contestou a ordem, não reconhecendo no Bispo autoridade para decretar tal
sentença. Para ele, o Bispo exorbitou de suas funções, e escreveu: “Razão ou absurdo?”, desafiando-o e às autoridades
episcopais, invocando trechos do cânone eclesiástico. Aí o seu destacado papel como
defensor do Padre Cícero e dos milagres, tornando-se, sim, no personagem
arquétipo da Questão Religiosa do Juazeiro.
Padre Gomes, aqui tão citado, por
ser o maior estudioso do movimento religioso do Juazeiro, embora contestando,
fato de todos sabido, analisando a defesa de Marrocos, acreditava que todo esse
seu empenho em defender o milagre, e consequentemente o Padre Cícero,
centrava-se num só ponto: desafiar o clero. Pois nunca esquecera de ter sido
desligado do Seminário já diácono, fato que o magoou profundamente. Surge então
o caso da hóstia ensanguentada, contestado pelo clero. Ele então toma para si a
defesa do Padre Cícero e entra em confronto não só com o Bispo do Ceará, mas
também de outras Dioceses, desmitificando as bulas que expediam. Fazendo-se
uma leitura imparcial da sua defesa nesse caso, o que se deduz é que ele foi corajoso, por
não temer sentenças drásticas, que por muito pouco não sofreu, como prisão ou
mesmo desterro. Excomungado foi. A Inquisição agia na sombra, sutilmente,
apesar de extinta há mais de 150 anos. São fatos que até hoje impressionam a
quem se dedica a pesquisar e estudar o passado religioso do Juazeiro. Mas o
Padre Cícero não se abalou com a ordem caústica do Bispo, e rapidamente
(leia-se Marrocos) concebeu um meio de ficar perto do seu público que lá
chegava de tão longe para ouvi-lo. A solenidade era chamada pelos romeiros
—Prática ou Consagração—.
Não precisou de púlpito para que
o ouvissem. Usou apenas uma das janelas de sua casa para falar à massa, em tom
solene e moderado, sempre ao cair da noite. O ritual impressionava não só pelo
tom de sua voz modulada, que fascinava, mas, pela sublimidade do momento, que
tinha para a massa um efeito mágico. De frente para o povo, que se mantinha em
silêncio solene, ele tinha, às suas costas, o reflexo da luz mortiça de um candeeiro
a gás, que proporcionava um efeito impressionante, pelo contorno que dava à sua
silhueta pequena e magra. O clarão da luz tênue do candeeiro, acoplado à sombra
da noite, projetava-se sobre sua figura num contraste evidente, quando parecia
agigantar-se. O momento era de grande sublimação. Sua voz pausada e suave dava
um aspecto solene ao ato. O efeito teatral produzido pelo reflexo do candeeiro
a gás sugeria ao espectador a visão de um ente sobrenatural — um Deus. Nesse
instante mágico, ele então, com ares de um verdadeiro profeta bíblico,
arrebatava as massas ali postadas, com sua palavra suave ungida de mistério.
Mas o ponto alto da solenidade era mesmo quando erguia as mãos para traçar o
sinal da cruz. Na unção piedosa desse gesto, a massa acreditava fluir dos seus
dedos um fluxo divino e aí, prosternardos, levantavam os rosários para serem
bentos, muitos não resistiam, choravam. Ainda hoje, revendo essas passagens de
sua vida, pergunta-se: o que trazia aquela multidão a prosternar-se a seus pés?
Como já escrito, suas palavras eram de uma simplicidade indescritível.
De Fortaleza, o Bispo Joaquim
arremetia, e verberava ataques à sua pessoa, dizendo ser, o Padre Cícero,
pregador de seitas grosseiras e supersticiosas. Equivocava-se, pois não há
registro de tais fatos. Chamava-o de recalcitrante, de inovador de doutrinas
esdrúxulas, nunca se cansando do seu indefectível argumento: “A Igreja lhe
autorizou a pregar essa novidade?”. Mas que doutrina inovadora era
essa que tanto despertava a ira do Bispo? A do Padre Cícero, de admitir os fenômenos
e dizer que o fim estava próximo e falar numa segunda redenção? Esta, fora da
conceituação tomista de Dom Joaquim? E assegurar que os fatos eram de origem
divina, conforme revelação ouvida do próprio Cristo, segundo afirmava? Sem
acesso à Igreja, e a oficiar qualquer ato, desejando resgatar sua reputação,
devidamente abalada, deu início à construção de uma Igreja encravada na colina
do Horto, lugar vulgarmente conhecido por Serra do Catolé, de deslumbrante
paisagem. Do alto da colina tem-se a visão panorâmica de todo o Vale do Cariri,
circundado e bafejado pelo sopro benéfico e perfumado da Serra do Araripe.
Dr. Irineu Pinheiro (op.cit.), considerado o escritor da
Revolução do Juazeiro, numa invocação solene, faz referência à beleza e
grandiosidade da Serra do Araripe, quiçá da Serra do Horto, em imagens ufanísticas,
num momento de grande emoção após a Revolução do Juazeiro, quando afirma seu amor
pelo Vale do Cariri. Vejamos:
“Visitando hoje trechos da
Serra do Araripe, onde foram feitos valados, porque se dizia que o Governador
de Pernambuco, Dantas Barreto, mandaria um contingente em socorro ao Presidente
Franco Rabelo, contemplava o Vale que se desenrrolava deslumbrantemente a meus
pés. Tudo dourado pelo sol. Manchas claras dos canaviais, destacando-se dos
matos mais escuros que as envolvia; mais próxima ao Juazeiro, ao seu lado, à
maneira de atalaia, a Serra do Catolé, e nela, o perfil dos muros inacabados da
Igreja do Horto, um sonho do Padre Cícero, que a oposição do Bispo Dom Joaquim
José Vieira impediu se concretizasse em monumento secular. Em meio a toda essa
poesia impossível de descrever, os homens lá embaixo não se entendiam”,
finalizou.
A construção da Igreja, afirmava o Padre
Cícero, era em cumprimento a uma promessa que havia feito ao Coração de Jesus,
juntamente com o Padre Antônio Fernandes Távora, à época, Vigário do Crato,
Monsenhor Monteiro, e o Padre Manoel Felix de Moura, para que cessasse a
estiagem que castigava o Ceará, no ano de 1888-89, por coincidência o ano do
milagre. Sua construção era um sonho que acalentava de há muito. Fixada no
elevado da colina, surpreendia pelo arrojado de sua construção de terreno
acidentado. Os alicerces tinham a profundidade de
Ao tomar conhecimento da
construção, o Bispo Joaquim baixou uma Portaria, paralisando a obra e qualquer
ato religioso no Juazeiro, mesmo por qualquer outro sacerdote, além de
interditar a Igreja de Nossa Senhora das Dores. Mais uma derrota significativa,
pelo fato de a comunidade ficar sem direito de cumprir suas obrigações
religiosas. Era 14 de abril de 1896. Naquele momento angustiante, como
angustiante foram outros de sua vida, certamente deve ter evocado as palavras
do Apóstolo Paulo: “Já o mistério da injustiça opera” (Tessalonicenses, 2:7). Com essas medidas inusitadas e drásticas, padres
e leigos ficaram confusos. Alguns, não interpretando bem a Portaria, não
cumpriam a rigor a ordem que lhes fora dada. Tomando conhecimento do fato, Dom
Joaquim sentiu-se injuriado e contrariado nas suas determinações, e ameaçou-os
de penas canônicas, suspensão de ordens e excomunhão. Era a prevalência de sua
ordem sobre os fatos, aos quais não admitia transigências.
As medidas foram danosas e
destrutivas e deixaram sequelas difíceis de cicatrizar. Mas o tempo, que tudo
ameniza, encarregou-se de um parcial esquecimento. A interdição da Igreja do
Juazeiro durou exatamente 26 anos, deixando uma população inteirinha,
eminentemente religiosa, sem o conforto espiritual, e o clero jamais se
comoveu, diante dessa imposição, que suprimia o direito dos fiéis praticantes
da religião católica no Juazeiro de cumprirem suas obrigações religiosas.
Acuados e humilhados, jamais apelaram para outra linha de conduta religiosa.
Vale dizer que já despontavam no Ceará algumas igrejas, como a luterana ou
Assembleia de Deus, e a Batista, respectivamente. Vivendo um
verdadeiro ostracismo, obrigado ao silêncio, à retração, seu único consolo
consistia na bênção dada aos romeiros da janela de sua casa, nascida justamente
pelo interdito da Igreja. Mas a devastadora perseguição não convenceu o povo,
que jamais dele se afastou, nem mesmo os decretos romanos surtiram efeito.
Ricos e pobres, letrados e analfabetos, grandes e humildes se concentravam em
torno de sua pessoa para ouvir dele sua palavra simples, mas convincente de fé
nas Escrituras, na Igreja primitiva dos Apóstolos (“O justo viverá da fé”. Romanos, 1.17.)
A aplicação da força pelas
autoridades episcopais teve resultados opostos. Entendia o Bispo que estava
usando de força. Não era, era apenas crueldade. As medidas expressas nas suas
pastorais despertavam na massa mais reverência ao Milagre, e a romaria chegava
ao auge. Num assomo de lealdade peculiar ao sertanejo, os fiéis ostentavam em
suas casas retratos do Padre Cícero e da beata Maria de Araújo, ao lado dos
santos tradicionais da Igreja Católica, e em volta
da estampa, flores, rosários e velas acesas. Nascia no Juazeiro, segundo a
visão de Ralph Della Cava, uma religião popular (op. cit.). Foi por esse tempo que surgiram as medalhas cunhadas com
a efígie do Padre Cícero. Medalhas que foram concebidas por um judeu morador do
Recife, as primeiras fundidas lá mesmo. Depois elas vieram aos milheiros,
fundidas no estrangeiro, como declara em sua Pastoral ob Bispo Dom Joaquim, escandalizado e
indignado. De um lado, a efígie do Padre Cícero em atitude de serenidade; na
outra face, a da beata Maria de Araújo vestida com um hábito, tendo em volta da
cabeça uma aureóla que, segundo o bispo, nem à imagem dos beatificados era permitida
pela Igreja. Censurava o Padre Cícero por não reprovar tal desatino, ordenando
fossem retiradas de circulação imediatamente. A maioria das medalhas era em
alumínio, outras em ouro, disputadas e vendidas a preços astronômicos.
Incontinente, o clero levantou-se, tachando de alta superstição e declarando-as
ridículas, e excomungando quem as portasse.
Para o clero, o uso dessas
medalhas só iria fomentar cada vez mais a ignorância e o fanatismo. Com as
medalhas, também surgiu o fenômeno social: todas as crianças levadas à pia
batismal recebiam o nome de Cícero, em sua homenagem. Num pequeno intervalo, o
clero reagiu, e houve casos de crianças não receberem o batismo. A esta ordem
do Diocesano do Ceará aderiu o Bispo da Diocese de Pernambuco. Foi quando
passaram a chamá-lo de “meu padrinho”, ou Padim Ciço, numa demonstração de
respeito ao líder religioso que admiravam, num sentimento de apreço. Fica claro,
nesse detalhe, a grande liderança que alcançou e até hoje ninguém conseguiu
suplantar em terras brasileiras. Passados
74 anos de sua morte, a veneração a ele, de santo e operador de milagres,
continua. Na Igreja de Nossa Senhora das Dores existe um recanto destinado aos
ex-votos, graças alcançadas por intercessão do Padre Cícero. São milheiros e
milheiros, renovados todos os anos na grande peregrinação de 2 de novembro.
Para todo um público, ele era uma pessoa diferente — um Ser sublime, enviado de
Deus, e o viam como imortal. O que pensaria ele de toda essa avalancha de
admiração? Quem sabe, não se sentisse lisonjeado com todo esse tratamento
dispensado a ele, esse homem de fato incompreensível, insondável, enigmático. O
clero, achando tudo isso um exagero, procurava extirpar a crença de um Deus. Além
de criticar duramente, responsabilizava-o por todo esse estado de fanatismo a
que o povo do Juazeiro, quiçá do Nordeste, tinha chegado.
Dentro dessa sequência
ininterrupta de fatos, Dom Joaquim lançava sua 2ª Carta Pastoral, uma decisão
cruel e opressiva, a qual reflete os desígnios de um clero medieval ainda com
resquícios deixados pelo poder grandioso da Suprema Inquisição Romana. Anexa à
Carta Pastoral, a decisão de Roma, que tem a data de 4 de abril de 1894,
quarta-feira, dia destinado pelo Sacro Colégio para tais finalidades. O decreto
romano continha os seguintes dizeres escritos em italiano, que foram traduzidos
para o português:
— Discutidos os fatos que se sucederam no
Juazeiro, Diocese do Ceará, os Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais
Inquisidores Gerais responderam e decretaram o seguinte:
“Que os pretensos milagres e quejandas coisas sobrenaturais
que se divulgam de Maria de Araújo são prodígios vãos e supersticiosos, e
implicam gravíssima e detestável irreverência e ímpio abuso à Santíssima
Eucaristia, por isso, o Juízo Apostólico os reprova, e todos devem reprová-los,
e como reprovados e condenados cumpre serem havidos. Mas, para se dar cabo de
tais excessos, a um só tempo e se evitarem maiores males que deles possam
nascer.
“1º) O Ordinário de Fortaleza, e os outros do Brasil,
proíbam por todos os meios e alcances o concurso de peregrinos e visitantes, o
acesso à Maria de Araújo e às outras mulheres incursas na culpabilidade da
mesma causa.
“2º) Quaisquer livros, escritos, opúsculos publicados em
defesas dessas pessoas e desses fatos, tenham-se por condenados e proibidos, e
sejam quanto antes recolhidos e queimados.
“3º) Tanto aos sacerdotes como aos leigos seja-lhes defeso
tratar por palavras ou por escrito dos pretensos milagres supracitados.
“4º) Os panos ensanguentados, as hóstias e outras coisas
conservadas, de que se falou o Bispo, as tome e as queime.
“ (a) Rv. Cardeal Monaco”.
O Bispo expede mais uma de suas
famosas Circulares, fazendo alusões aos fatos do Juazeiro, onde deixa clara
toda sua angústia, síntese pura e simples da sua decepção. E escreveu: “Suma-se
para sempre o cúmulo que anuviou por algum tempo o céu azul claro da Diocese do
Ceará, caiam em eterno esquecimento os desvios oriundos de um conceito formado
sem madureza de reflexão”.
O feito produzido pelo decreto romano, enxertado de autoritarismo
milenar, pesou para a ala do clero adepta do milagre. Houve um retraimento, e o
silêncio, norma constante de Roma, prevaleceu. Em outra Circular, expedida em
caráter de urgência, o Bispo convocava os três sacerdotes
principais envolvidos na questão para uma conferência no Palácio Episcopal.
Referindo-se de preferência ao Padre Cícero, disse-lhe que estava na hora de
terminar com todo esse movimento, e que dali em diante ele ficava
terminantemente proibido de falar sobre o caso, bem como recorrer para Roma,
como já havia feito por duas vezes. A sentença já lhe fora dada. Aos dois
outros sacerdotes, Monsenhores Antero e Monteiro, seguiram-se as mesmas
advertências de que, se não cumprissem o que estava determinando, seriam
excomungados, e alertava-os: recorrer da sentença para Roma não adiantava, ela
já fora dada. A possibilidade de uma revogação era de todo impossível, pois o
Sacro Colégio, depois de ter estudado por um ano o Processo, já havia dado seu
veredicto, a sentença era irreversível, os Cardeais não voltariam atrás nas
suas decisões. “Roma locuta est causa
finita est. Roma falou acabou a questão”. Impondo-lhes silêncio total e
absoluto sobre os fatos, finalizou, dizendo: se quisessem continuar como
sacerdotes da Igreja Católica, teriam que sepultar os fatos, olvidá-los para
sempre.
Presunçoso e cheio de orgulho,
dirigiu-se ao Padre Cícero, exigindo retratação por escrito e de público, e que,
após chegar ao Juazeiro, fizesse, do púlpito, esse pronunciamento. Aí fez um
paralelo entre ele e o Conselheiro, Antônio Mendes Maciel, que, tanto quanto
aquele, estava a pregar doutrinas esdrúxulas, arrebanhando ignaros, crentes de
doutrinas inexistentes. Contundente, criticou os padres adeptos da causa e o
povo do Juazeiro, chamando-o de massa amorfa, ignorante, e ao sangue nas
hóstias ele classificava de corrupto e corruptível. Usando das prerrogativas do
“infalível romano”, o Bispo extrapolou, violentou o princípio humanístico do
perdão, tão observados pelo Cristo. Obedecendo a Roma, e decepcionado por não
ter conseguido suplantar o caso que tanto o incomodava, agia de maneira cruel.
Da sua parte, não houve conciliação, seus escritos mostram os cristais de sua
posição ante os fatos. Sem retrucar, os três sacerdotes silenciaram, e,
submissos, acataram suas ordens. O momento era crítico, a ordem da Santa Sé, uma imposição
grandiosa. A
expectativa daquele momento era realmente a de que eles se curvassem ante a
autoridade de Roma, que continuava com reflexos da Sagrada Inquisição Romana.
Os três padres não tiveram escolha, submeteram-se às ordens do Sacro Colégio.
Analisando essa passagem do rumoroso caso, Lourenço Filho escreveu:“O
Padre Cícero foi um subserviente, não escreveu nada, não defendeu seu
ponto de vista, simplesmente silenciou, o que mostra sua incapacidade literária para defender-se, em suma: de
enfrentar Roma, por isso, seu caso tornou-se uma luta inócua” (op.cit.).
Silenciando, o Padre Cícero
deixava claro dois princípios primordiais que pautaram toda sua vida — paz e
conciliação —, essência dos seus ensinamentos. Sua submissão às ordens de
Roma reflete de sua parte uma realidade emblemática: o emblema da amizade que o
unia ao seu povo. Silenciou, embora jamais tenha deixado de crer no caso como
milagroso, e dizia: “Ser Deus o único
Juiz entre ele e o Bispo, na momentosa questão”.
Depois da decisão romana e desse
encontro, onde prevaleceu a ameaça de excomunhão, a incredulidade entre o clero
foi quase total. O milagre era fé ilusória, e o Padre Cícero, para a ala
radical e conservadora, um heresiarca, um visionário. Aí então, seguiu-se o
esperado: a ala dos padres adeptos dos milagres retratou-se de maneira
vergonhosa, o número dos que o fizeram foi significativo. Está explícito nesse
gesto o medo de Roma. Essa passagem deixa claro o unilateral da famosa Questão
Religiosa do Juazeiro, quando um poder avassalador somente falava. Os
sacerdotes que se renderam ao Bispo foram: Quintino Rodrigues de
Oliveira e Silva (depois Bispo do Crato), Laurindo Justiniano Ferreira Düetts
(PE),
Manoel Antônio Martins de Jesus (PE), Jacintho Ramos (PE), Davi de Souza
Rolim (PB)
Joaquim de Siqueira Torres (PE), João Carlos Augusto (Lavras da Mangabeira CE), Monsenhor
Francisco Rodrigues Monteiro (Crato) – a grande surpresa para o clero e para o público, por ter
atestado o fato, e na efervescência dos acontecimentos, teria dito: “se um dia negar o que vi, que ceguem os meus
olhos”. Meses depois, sem apresentar nenhum sintoma ocular, subitamente
Monsenhor Monteiro perdia a visão. O vulgo atribuía sua cegueira à sua
negativa. Ainda, os Padres Manoel Rodrigues Lima (Missão Velha) e Clicério da
Costa Lobo, o Mártir, que, pressionado pelo clero por suas declarações escritas
à imprensa, causou não só constrangimento à cúpula do alto clero, mas um
verdadeiro escândalo, por ser ele uma referência dentro do próprio clero. Humilhado
e submisso, retratou-se, embora de nada tenha adiantado, pois foi banido da Diocese do Ceará, como
mostrarão as páginas seguintes. Monsenhor Antero, único a não se retratar, teve
sua suspensão completa. Mesmo suspenso, diz a tradição oral que celebrava a
portas fechadas em sua casa no Icó, registrou Amália Xavier (op. cit.).
As retratações dos seus colegas
de batina não causaram mágoa ao Padre Cícero, que compreendeu, naturalmente,
que forças poderosas obrigaram-nos a agir por essa forma. Sem demonstrar
sentimento de pesar, conformou-se a uma resignação religiosa, e o silêncio foi
sua resposta. Daí para frente, poucos foram os que ficaram ao seu lado.
O medo de Roma prevaleceu.
Permaneceu apenas o povo bom, simples, leal e amigo do sertão, ou seja, as massas
rurais. Ele viu-se a sós. Dom José Delgado, ex Arcebispo de Fortaleza,
escrevendo sobre o fato, traçou um painel do que foi a brutal solidão e
ostracismo no qual foi jogado, e escreveu:
“A cruel solidão eclesiástica
em que se viu foi sustentada por sua fé e confiança em Deus. Com medo de Roma,
seus melhores amigos o abandonaram, seu único arrimo foi o povo bom do sertão,
mas ingênuo e incapaz de ajudá-lo como convinha. Apesar de tudo, nunca se
desviou da fidelidade do Evangelho. Guardou e fez guardar o patrimônio da
doutrina cristã. Ser-nos-á preciso descobrir quanta purificação no sofrimento
da alma, nas cruzes da contradição sistemática, nas suspeitas levantadas contra
sua pessoa e espalhadas pelo Brasil inteiro. Foram dezenas de anos de heroísmo silencioso
que muito deve pesar na balança de Deus, e só Deus tem a última palavra em
assunto de tamanha importância” (Jornal da Diocese do CE).
Não obstante a insistência do Bispo de que o Padre Cícero não
devia mais recorrer a Roma diante da sentença que lhe fora dada, ele reagiu, e,
pela terceira vez, apelou. Calmo, ficou aguardando o pronunciamento da Santa Sé.
Após meses de espera, eis que lhe chega um decreto do Santo Ofício. Um
decreto cruel e opressivo, dando-lhe um prazo de 10 dias para retirar-se do
Juazeiro, sob pena de excomunhão latae
sententiae, extensiva ao Monsenhor Antero, suspensão a divinis, isto é, reservada ao Papa. O decreto pontifício
ordenava-lhe que deixasse o Juazeiro no prazo de 10 dias e seguisse para Roma,
para explicar, perante o Sacro Colégio representante do Vaticano, suas
convicções a respeito dos fatos por ele considerados de ordem divina, portanto
sobrenaturais. Ao receber a notificação através do Vigário do Crato, Padre
Alexandrino de Alencar, o abalo, acompanhado de uma grande comoção, foi geral
em todo o Juazeiro e adjacências. O povo, comovido, chorou nas ruas: sua sorte
estava lançada. A partir daquele dia, ele teria apenas 10 dias para deixar sua
amada capela, seu Juazeiro querido, a terra que construíra com dedicação e zelo.
Quando lá chegou, em 1872, existia apenas um modesto alicerce. Neste ano de
1897, havia uma população de milhares de almas bem formadas, de cidadania pelas
escolas que abrira, pelo incentivo ao trabalho, pela transformação que
conseguiu, com aqueles dantes marginalizados, em seres valiosos para seus
familiares.
Importa aqui, mais uma vez,
deixar registrado que o Padre Cícero foi realmente o precussor de cidadania em
terras brasileiras, além de valorizar a mulher, dando-lhe posição de destaque
até em assinaturas de papéis eclesiásticos, como os referidos acima. Juazeiro
silenciou ante a ameaça de excomunhão partida do Vaticano. Era a grande crise
religiosa que chegava ao auge. O chamado para apresentar-se em Roma consistia
em ter que explicar perante o Sacro Colégio, e impreterivelmente ao Papa, suas
doutrinas, suas convicções, seu ponto de vista movido pela fé, fé que constitui
perigo. Abatido, deve ter entendido que forças poderosas estavam contra ele.
Certamente, houve temor ante a tempestade que o ameaçava, e que importava em
coragem e grande confiança na Divina Providência, na qual ele tanto confiava e
se apegava com tanta crença. Não demonstrando arrependimento algum do que
sempre afirmara, continuou firme no seu ponto de vista do milagre, sem olvidar
as palavras do Divino Mestre, quando disse há mais de dois milênios: “Qualquer
um que me negar diante dos homens, eu o negarei diante de Meu Pai que está nos
Céus” (Mateus,10:33.)
A força onisciente sempre
presente a iluminar seus passos — Álguém —, infinitamente superior àqueles que
o chamavam, trazia-lhe paz e serenidade nessas horas amargas da sua agitada
existência. A ordem que bania o filho da sua própria terra, sem cometimento
grave de faltas, excitou consternação e apreensão a todo um povo. Aquela ordem,
vinda de tão longínquas terras (um fim de mundo, na expressão de Edmar Morel),
era extremamente drástica. Sua piedosa mãe, Dona Quinô, viúva e pobre, de tanto
chorar os sofrimentos do filho querido, foi vítima de paralisia e cegueira. Era
o grande poder da Supremacia Romana, representada no Ceará pelo Bispo da Diocese, Dom Joaquim José
Vieira, fiel representante do clero brasileiro. O alto episcopado acompanhava
atento o desenrolar dos acontecimentos em Roma.
Com a dignidade cristã que o
caracterizava, à boca da noite, horário de sua fala, agindo com prudência, como
sempre foi a norma dominante dos seus atos, possuído de domínio próprio,
explicou ao povo que o aclamava lá fora o motivo da ordem vinda de Roma, quando
teria que deixar o Juazeiro.
“A exposição das tuas
palavras dá luz, dá entendimento aos símplices” (Salmo 19 130).
Falando sobre a gravidade do
momento, pedia calma, união e orações. Era mais um ciclone a vencer. Ele teria
que esclarecer perante a autoridade máxima da Igreja Romana sua atitude de fé
nos milagres. Diante de tamanha aflição, talvez tenha se lembrado das palavras
do salmista: “—Tu contaste as minhas vagueações; põe as minhas lágrimas no teu
odre, não estão elas no teu livro?” (Salmo 56:8).
Com a ordem expedida de Roma para
que deixasse o Juazeiro no prazo de 10 dias, retirou-se antes mesmo de expirar
o prazo que lhe deram. Cumprindo as determinações de Roma, seguiu para
Salgueiro, onde aguardaria as decisões do Sacro Colégio. De lá, telegrafou ao
Arcebispo e Primaz da Bahia, fazendo-o ciente de sua presença
O governador de Pernambuco,
aliado à elite pernambucana, representada pelo Diário de Pernambuco, e apoiada pelo clero, os Bispos Joaquim
Arcoverde e Dom Luís, Bispo de Olinda, engrossam fileira na bem
articulada campanha de infâmia contra o Padre Cícero. A interferência dos dois
não causou surpresa, porque desde o princípio eles já se declararam contrários
ao fenômeno do Juazeiro, e a ordem era dá por terra o movimento. Houve troca de
telegramas entre as autoridades da capital e as autoridades da Vila de
Salgueiro, representados pelo Juiz da Comarca, Lima Barros.
O Governador Joaquim Correia de
Araújo decreta a prisão do Padre Cícero (in Floro Bartolomeu, Juazeiro do Padre Cícero). O Governador
receava que a presença do Padre Cícero em Salgueiro fosse para ajudar o
Conselheiro, daí a ordem de prendê-lo. As autoridades de Salgueiro reagiram à
tresloucada ordem, e informam ao Governador que o Padre Cícero lá se encontrava
cumprindo determinação de Roma: ausentar-se do Juazeiro. Joaquim Correia,
o primeiro a exigir sua retirada ou sua prisão imediata, dizia em telegrama
urgente o seguinte:
“Juiz de Direito Delegado de
Polícia Salgueiro.
Constando Padre Cícero deixou Juazeiro do Crato, procurando
Canudos para auxiliar Antônio Conselheiro vindo por Água Branca, peço,
informeis máxima urgência que há de verdade, bem como distância entre Crato e
Rio São Francisco.
Assinado:
Joaquim Correia – Governador”
A resposta do Juiz foi imediata:
“Afirmamos ser absolutamente falsa notícia Padre Cícero
deixar Crato procurando Canudos auxiliar Conselheiro. Em obediência ao Bispo
ausentar-se em 10 dias 40 léguas daquela localidade, retirou-se para esta Vila,
não tendo passado Água Branca 90 léguas Juazeiro. Daqui telegrafou Papa
comunicando residência provisória, e aguarda ordens seguir para Roma. Podemos
garantir ser ele virtuoso sacerdote completamente hostil movimento sedicioso
Canudos. Incapaz tentar contra ordem e tranquilidade pública. Do Crato a São
Francisco 40 léguas.
Saudações - Lima Barros.
Juiz de Direito”
Outros telegramas entre as
autoridades do Recife e de Salgueiro, e a manifestação do clero pernambucano,
Dom Luís, Bispo de Olinda e Recife, que, na certa influenciado pelo Bispo
Arcoverde, sugeria ao Vigário de Salgueiro, Padre João Carlos Augusto, a
imediata retirada do Padre Cícero, em termos categóricos dizia:
“Respondo telegrama ontem. Salgueiro mal escolhido,
vizinhança Juazeiro Bahia, sofismado Padre Cícero continuará aí, perturbador
consciências, animará surperstições pequenos. Povo ignorante. Obedecer Decreto,
é deixar Juazeiro grande distância Fortaleza ou Recife, sujeito ordens
diocesanas não trato política. Cabe outro poder. Responsabilizo V. Revma. qualquer
coisa.
Assinado: Bispo de Olinda e Recife”
O teor do telegrama feriu
suscetibilidades e suscitou a pronta reação do Vigário Padre João Carlos
Augusto, que rebateu o Bispo Dom Luís, numa resposta precisa,
dizendo:
“Salgueiro, 17 de agosto de 1897.
Exmº Sr. Bispo Olinda e Recife.
Com a devida vênia uma vez mais pondero V. Excia, Decreto
Congregação Romana prescreve Pe. Cícero ausentar-se Juazeiro e limites. Estando
Salgueiro 40 léguas daquela circunscrição, vê-se claramente não haver sofismas
sentença cujos efeitos pendem recursos Sumo Pontífice. Garantido Leis país
plenitude de Direitos Civis, não é possível vedar-lhe locomoção. Não receie V.
Excia, perturbação consciência povo, produzindo agitação sua índole pacífica,
humilde de caridade, são seguras garantias contra tais sentimentos. Admirador
suas virtudes não me excuso responsabilizar-me seus atos, sempre inspirados no
acriso lado amor a Santa Religião. Deus suportando verdadeiros sacrifícios em
bem da humanidade.
Assinado Vigário.
Padre
João Carlos Augusto”
(Padre João Carlos Augusto foi
Vigário de Assaré por anos, e pertencia à Família Augusto, de Lavras da
Mangabeira.)
Com esta corajosa e contundente
resposta, repleta de especial carinho para com o Padre Cícero, encerrou-se a
troca de telegramas entre autoridades estaduais e episcopais. E pensar-se que
todo este mal-entendido proveio tão-somente de uma interpretação medíocre do
paralelo usado por Dom Joaquim nos idos de 1894, e ratificado na sua 3ª Carta Pastoral (1897), quando o
comparou ao Conselheiro, cuja Pastoral foi afixada nas portas de todas as
Matrizes do Nordeste. O delegado de Ouricuri, lendo-a de viés, assimilou a
comparação a uma linguagem revolucionária e, de acordo com sua pobreza mental,
detonou a notícia para as autoridades do Recife, despertando a exacerbação dos
ânimos. Vexame e estrago foram feitos. Apesar do episódio que o incriminava
como auxiliar do Conselheiro, em nenhum momento, de acordo com as crônicas, o
Padre Cícero se deixou abater, nem tampouco perdeu a calma. Não obstante a ordem
de prisão, suprema humilhação, pelo muito que representava para todo um povo, e
que a bem da verdade uma ordem tirânica de força e poderio da autoridade do
Governador de Pernambuco. A calúnia ficou registrada para sempre nos anais da
história, porque o escritor-poeta de Canudos, Euclides da Cunha, a fixou no seu
imortal Os Sertões. Usando das
prerrogativas de correspondente da Guerra de Canudos e a serviço do Governo da
República, expôs o Padre Cícero ao ridículo da mentirosa calúnia, afirmando a
tresloucada notícia, dizendo: “No Ceará, um eclesiástico funesto, o Padre
Cícero Romão, conglobava multidões em prol do Conselheiro”. Bem ao contrário do que foi noticiado, o que o Padre Cícero fez
ali foi apagar um incêndio centenário com infinito número de mortes entre duas
poderosas famílias da região — Farias e Maurícios —, que se digladiavam de
geração em geração pela posse da terra e do poder político. Ele, com o seu
espírito eminentemente pacificador e de conciliação, pôs fim à luta armada,
solucionando uma guerra de quase um século entre as duas poderosas famílias. “Nada
podemos contra a verdade, senão pela verdade” (Corintios, 13:8).
Num momento de extrema gravidade
para a Nação, quando milhares de seres humanos estavam sendo dizimados pela
sanha sanguinolenta do latifúndio, com o apoio do grande poder político do Governador da Bahia,
Luís Viana, que por lhe faltar aptidão política, terminou no grande e
inominável massacre de Canudos. As versões disparatadas a respeito do
Conselheiro e sua comunidade enchiam as páginas dos jornais, como a de que
ele tentava restaurar a Monarquia contando com forças externas. Apesar da sua
pregação pela volta da Monarquia, não há nada que indique um entrosamento entre
forças estrangeiras. Antônio Mendes Maciel tinha uma visão aguçada das coisas,
estudou no Seminário da sua terra natal (Baturité, CE), era inteligente o
suficiente, mas não para uma aventura dessa natureza. Depois de peregrinar pelo
Nordeste inteiro, fixou-se na Bahia, já demonstrando sinais de uma parcial
loucura (informações que me foram passadas por Antônio Vilanova, um dos últimos
remanescentes de Canudos, na cidade de Assaré, de onde era natural).
O que existia em Chorrochó, onde
fundou sua Comunidade, era um respeito ao velho monge, por parte dos seus seguidores,
que o chamavam de Bom Jesus. Suas pregações eram exaltadas, como registra a
história, mas havia paz e trabalho. E para que houvesse essa paz, existiam dois
fatores essenciais: a abstinência ao álcool, terminantemente proibido, e a
disciplina religiosa. Numa visão do coletivo, implantou, à beira do Vaza
Barris, várias plantações, não existindo na Comunidade o problema secular da
fome. Criou uma cooperativa rural, que o braço forte do latifúndio não deixou
que prosseguisse, dando por terra. Abatido e desiludido, foi sacrificado junto
com seus seguidores. Era o Brasil de ontem, aliás, o mesmo de hoje. Pouco ou
quase nada mudou.
O grande massacre de Canudos
mostrou, de forma cristalina, a nascente força da recém criada República; não
aquela República tão sonhada e idealizada pelo gênio imortal de Castro Alves,
nem tampouco dos intelectuais pernambucanos e cearenses que com ela também
sonharam em 1817-1824 e foram martirizados, e seus principais líderes
executados, como o Padre Miguelinho (Rio Grande do Norte), Joaquim do Amor
Divino Caneca (Frei Caneca, PE), o Padre Mororó, os irmãos Alencares Padre José
Martiniano de Alencar e Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, este
decapitado, por conta da Revolução do Equador.
A calúnia sobre o Padre Cícero,
divulgada equivocadamente por um erro de leitura, quase termina num desfecho de
imprevisíveis consequências, dado a ordem de prisão para ele. À guisa de
ilustração, sabe-se que, nas guerras, usa-se de todo expediente, desde a
mentira, a contrainformação, o dinheiro, a intimidação. E o escritor Euclides
da Cunha, numa informação confusa, registrou para a posteridade a controvertida, infâmia difundida
pela imprensa que, segundo o escritor Otacílio Anselmo (op. cit.), partiu do delegado da Vila de Ouricuri (PE).
Passado o vendaval, o Padre
Cícero retornou ao Juazeiro para despedir-se do seu povo e seguir para Roma,
onde permaneceria por quase um ano, enquanto corria no Sacro Colégio o processo
sobre o fenômeno religioso do Juazeiro.
****
CAPÍTULO 9
ESTADA EM ROMA
“Muito pode a calúnia
feita e
movida com audácia”.
Padre Cícero Romão
Obedecendo ao chamado de Roma,
no dia 13 de janeiro de 1898, ele deixava Juazeiro e seguia para o Recife. Lá,
tomaria o vapor que o levaria a Roma, para ser ouvido e julgado pelo Sacro
Colégio de Cardeais. Enfrentando em lombo de animal a agressividade do sertão
na adversidade de sua paisagem, ora de chão rachado e de céu cinzento, ora de
várzeas verdes e riachos perenes, num verdadeiro contraste. Seu Juazeiro ia
ficando para trás. Em procissão, o povo o levava de uma Vila a outra. “Seguia-o
uma grande multidão” (Marcos 3:78).
Era o grande sinal de respeito e
admiração que o sertanejo devotava ao líder que ali estava; sua presença
despertava entusiasmo, criava fé e emoção. Para eles, o Padre Cícero, era um
enviado do Altíssimo, um ser sobrenatural, um Deus. Acompanhava-o nessa jornada
seu grande e devotado amigo João David, romeiro chegado ao Juazeiro no ciclo
dos milagres. O testemunho do Dr. Ulysses Lins de Albuquerque
expressa com eloquência o momento da sua chegada à sua cidade natal, Alagoa de
Baixo (PE), deixando nele, menino de apenas nove anos de idade, uma impressão
duradoura, que depois seria lembrada no seu antológico livro de memórias:
“De passagem para o Recife, de
onde deveria seguir para Roma, o Padre Cícero chegou à minha cidade natal,
Alagoa de Baixo, acompanhado de uma grande multidão. Dirigindo-se à praça
principal da Vila, falou ao povo, que, ajoelhado e emocionado, o aplaudia
calorosamente. Não podendo aproximar-me dele, pela multidão que o cercava, ali
mesmo da calçada do Grupo, ajoelhei-me e pedi-lhe a benção, derramado em
lágrimas; ao terminar a recepção improvisada, dirigiu-se à casa do Coronel Neco
Pereira para um breve descanso. À tarde do mesmo dia, seguiu em direção ao
Recife, sempre acompanhado por uma grande multidão”.
E assim, de cidade em cidade, de
vila em vila, ele chegou ao Recife, à época, a Metropóle do Nordeste, onde
permaneceria por alguns dias, preparando os últimos detalhes para a longa
viagem à Cidade Eterna, o centro das decisões romanas, quando o Processo sobre
o fenômeno já estava sendo estudado pelos Cardeais, que o aguardavam para uma
explicação. Seu secretário particular e companheiro de viagem João David, diz: “sua
preocupação era visível: mesmo assim, visitou os lugares históricos, as pontes
que cortam a bela cidade, os marcos da colonização holandesa, as ricas e
majestosas igrejas de altares
A Cidade Eterna o acolheu
fraternalmente. Edmar Morel escreveu: “naquele grande centro do saber e do
Catolicismo, quão diferente foi o tratamento por ele recebido, excedendo suas
expectativas. O tratamento recebido em Roma foi diferente do recebido aqui, dos
seus colegas brasileiros” (op.cit.).
Hospedou-se no Albergo Dell Orso,
Via Monte Bianzo, nº 94. Até regressar ao Brasil, ocupou uma das dependências
da Igreja de São Carlos Al Corso, a convite do Revmo Padre Vicenzo Bucceri, da
ordem dos Salesianos.
Ali,
naquele recanto da milenar cidade, vivendo a realidade estrangeira, onde até o
ar era diferente do da sua terra natal, num misto de apreensão e incerteza,
movido pela grande saudade da família, aquele padre perseguido e humilhado
aguardava a decisão da Suprema Congregação do Santo Ofício, já por ela
condenado. Foram dias de amarga tristeza para ele, longe dos seus, da sua terra,
da sua amada Igreja, aguardando sua convocação para ser ouvido pelos dirigentes
do Sacro Colégio, que poderiam lhe dar uma sentença favorável ou extrema.
Mergulhado em oração, certamente refletia sobre todo o passado daquela manhã de
um milagre, que o clero nunca reconheceu. Recolhido a um modesto quarto, estava
abalado e triste, era de grande sensibilidade, conforme atestam seus médicos, e
especialmente seu assistente por muitos e muitos anos, o médico Irineu Pinheiro
(in Efemérides do Cariri, op. cit.).
Aparentemente calmo, mas abatido,
obedecendo às regras do silêncio, aguardava ser chamado para depor naquele meio
estranho, um fim de mundo, onde o Papa é o Poder maior, um verdadeiro fascínio,
e para muitos — a Porta do Céu—. Admirador das artes e para dar vazão à
angústia que o dominava, conforme diz em suas bem escritas cartas de amor e
saudade, fazia passeios intermináveis, visitando os lugares milenares, como o
Coliseu, as Catacumbas, o Circo de Alexandre Severo, a Via Ápia, o Arco de
Drusa. Descrevia os símbolos da cidade com suas estátuas, suas fontes, e
principalmente as igrejas seculares e velhos conventos. De tudo dava conta por
carta a seus familiares e ao grande amigo Secundo Chaves de Melo, com detalhes
dignos de um autêntico narrador das artes. Seus olhos se encantavam ao
contemplar as igrejas milenares, de construções magníficas, com seus altares
ricamente trabalhados, dando ênfase para a Capela Sistina, onde assistiu à
sagração do Bispo de Nápoles, Cardeal Prisco, numa cerimônia imponente na
grande Catedral de São Pedro, ao som dos afinados órgãos e coro de vozes do
canto – gregoriano – que tanto nos comove e enleva, porque na realidade ele é
inexcedível, impressiona a mente, e todos nós nos curvamos e
mergulhamos em respeito e reverência.
No esplendor da grande cidade,
jamais esqueceu seu povo. Suas cartas para a família e amigos são verdadeiras
relíquias, documentos precisos de sua situação, as quais retratam sua alma tão
sofrida e seu espírito de resignação e perdão. Com certeza, evocava todo o
polêmico passado daquela manhã de 6 de março de 1889, cujo episódio o levara
até ali, para justificar seu ponto de vista. Numa carta ao seu grande amigo
Secundo Chaves, ele faz referência à má vontade com que certos colegas de
sacerdócio o tratavam, e terminava dizendo, sem esquecer de avivar o essencial,
que era o da perseguição:
“Se não fosse o meu povo, que não tem outro arrimo a não
ser eu mesmo, jamais voltaria ao nosso Brasil; não porque não o ame muito, mas
porque receio, e tenho medo que, ao chegar aí, novas tempestades desabem sobre
mim, porque sei e vejo o espírito de perseguição com que me tratam”.
Ratificava mais uma vez a opressão
que lhe faziam sem temor nem piedade. E escreveu: “parece que só me vendo morto
ficariam descansados. Mas sei perdoar e não guardo rancor, apenas sinto medo,
já tão cansado como estou de tantas amarguras”.
A carta espelha todo o seu
sofrimento; comovente, deixa entrever nitidamente o que sentia naquele momento,
sozinho em terra estrangeira. O último parágrafo é de assombrar, porque se
referiu à sua morte. Quando comecei a dar vida a essa história conflitante e
trágica dos fatos do Juazeiro, prometi a mim mesma que tudo seria explicado,
porque é dever de quem escreve História a responsabilidade de nada ocultar.
Portanto, aqui os registros dos sofrimentos que lhe infligiu o clero
brasileiro, com raras exceções. Padre Cícero era um telúrico, acostumado
diariamente a receber centenas de pessoas vindas de todos os quadrantes do Nordeste,
ficando sem tempo para nada, até mesmo para recolher-se e orar, como acentua o
Padre Azarias Sobreira. Por isso, acostumou-se a rezar em presença de
visitantes, parece, sem se aperceber do que fazia (op. cit.). Também era costume dormir celebrando missa, ou mesmo
viajando a cavalo, depõe o Padre Quintino, depois Bispo, antes de se
tornar seu adversário. Levando vida sedentária, raramente ia até o Crato para
logo retornar.
Em outra carta, desta vez para
sua mãe, Dona Quinô, deixa claro sua conhecida solidariedade e fraternidade. Preocupado
em saber que o Ceará enfrentava um novo período de grande seca, ele lhe passa
as seguintes recomendações: procurar Mestre José, pessoa de sua inteira
confiança, ordenando que colhesse na Serra de São Pedro umas mandiocas, para
serem transformada em goma e farinha, e que fizesse a distribuição entre os
carentes, pois as tinha guardado, prevendo esse tempo de horror. Em seguida,
fala com alegria de sua absolvição por Roma, dizendo perdoar a todos que lhe
tinham feito tanto mal. Dizia estar muito feliz por retornar ao seio do seu
querido povo, depois de quase um ano de exílio forçado, para o qual não havia cometido nenhum crime (grifo da
autora).
Lembrava agradecido o ato de
generosidade do Vigário de Belo Jardim (PE), Padre Pedro, que, junto com o Juiz
da Comarca, através de uma subscrição pública, lhe enviara a quantia de 930
liras, o equivalente a um conto de réis na moeda brasileira da época,
trazendo-lhe um grande alívio, pois, havendo contraído dívidas, não tinha
como saldá-las, deixando-o amargurado. E continuava com um recado para o mesmo
Mestre José: construir um pequeno altar nas dependências de sua casa, uma
espécie de oratório privado para celebrar para sua mãe, presa a uma cama pela
paralisia e cegueira; advertia-o para que fizesse tudo sem celeuma, sem
comentários, e lembrava: as coisas de Deus vão devagar, nada de precipitação.
Essa pequena benesse eclesiástica, concedida pelos Cardeais por um rescrito,
era uma deferência especial ao estado de saúde de sua mãe, já incapaz de se
locomover. Mas o Bispo Joaquim jamais lhe concedeu a faculdade de celebrar,
mesmo em oratório privado, apesar do rescrito, ignorando a ordem de Roma,
toldando mais uma vez o céu azul do Padre Cícero, tornando-o cinzento.
É de todo impossível não citar
todos esses revezes pelos quais passou, oferecidos pelo clero, sob a força
tirânica do Bispo Dom Joaquim, porque esse livro ficaria desestruturado.
Reiterando o que disse o Arcebispo Dom Delgado: “era preciso muita contrição e
acentuada fé, para não apostatar”. Mas, imbuído de um grande amor a seu povo,
amor que se sobrepunha a todas essas mesquinharias, escreveu. “Estou feliz em voltar para casa, para o seio
dos meus, pois é aí que está o meu coração e a minha alma; aqui, eu ando somente
em espírito, o de mais caro aí está”. Sem esquecer as recomendações de
sempre para a criadagem: Maria Joaquina, Maria das Malvas, sua cozinheira e que
também cuidava de suas roupas; sem esquecer em nenhum momento da ex escrava
Tereza de Jesus (a Terezinha). Lembrava as irmãs do canto, Maria e Isabel
Montezuma da Luz, e da suave e angelical beata Giluca, pessoa de sua alta
estima, dela falarei em capítulo especial. Para todas elas, ele tinha palavras
de consolo, de resignação, de conselhos repletos de amor e diretrizes,
animando-as a não se deixar vencer pelas adversidades da vida.
Enfrentando toda espécie de
acasos, depois de meses de espera, surgiu a boa nova: o veredicto lhe foi dado.
Os Cardeais o absolveram. Deus olhou para ele, com compadecida ternura. Aquele
que outrora dissera: “Não temas, eu sou teu escudo” (Gênesis, 15:1) estendeu
Sua Mão, e protegeu Seu servo. Ele foi absolvido, o impossível aconteceu. E lá
na distante Roma, ainda no auge dos banimentos, das excomunhões, o milagre
aconteceu. “Milagre” sem contestação, sem polêmica, sem controvérsia, quando
seus adversários o davam como mais um excomungado por Roma. O próprio Bispo Dom Joaquim e o clero
surpreenderam-se. Na sua 4ª e última Carta Pastoral, ele insinua nas
entrelinhas que o Presidente da Legião da Cruz, para ele, o famigerado José
Joaquim de Maria Lobo, havia tentado subornar o Santo Ofício com enorme soma
de dinheiro, arrecadado da pobre massa campesina (expressão do Bispo),
para favorecer o Padre Cícero e seus milagres. A Carta Episcopal Romana,
absolvendo-o de culpas e censuras segundo o Direito Canônico, tinha a data de 5
de setembro de 1898, embora as medidas drásticas continuassem em toda sua
extensão.
No último dia da reunião com os
Cardeais, e que também seria seu último dia em Roma, por pouco, o processo não
tomou outro destino. Já ciente de sua absolvição, não compareceu à última
audiência que, segundo as normas do Vaticano, era imprescindível. O Sacro
Colégio, dentro da sua estrutura rígida, suspendeu a Carta denominada “Carta de
Perdão”, porque a bem da verdade nada mudou em relação às decisões anteriores,
prevalecendo as resoluções do ano de 1892. Continuava o dilema do Padre Cícero,
e consequentemente da Questão Religiosa do Juazeiro. Para muitos analistas do
caso religioso do Juazeiro, o Padre Cícero, em Roma, oscilava em dois tempos:
ou sustentava que o milagre da transformação da hóstia em sangue era
sobrenatural, ou se desdizia, e voltava às graças da Igreja de Roma. Ao Sacro
Colégio, segundo ele, fez juramento de que dali em diante o caso estava
sepultado. Observemos: -- sepultado --. Não disse que abominaria; não existe
documento comprobatório de que se desdissesse do que afirmara – ser aquele
sangue de procedência divina. Discretamente, conseguiu que o fim moral de toda
essa história não empanasse seu brilho e majestade de chefe religioso,
tornando-o imortal. E foi o que aconteceu. Intimamente, tinha a convicção de
que aquele sangue era de ordem sobrenatural. E isto é uma realidade. Mais tarde,
iremos ver o que disse o Padre Azarias Sobreira, no capítulo referente ao Bispo Quintino em
1916.
Quanto ao episódio de não ter
comparecido à última audiência, o Sacro Colégio deu ciência por carta ao Bispo
Joaquim. Tomando conhecimento do desastre, Monsenhor Távora e Monsenhor
Bessa, que lá se encontravam em estudos de Direito Canônico, saem à sua procura.
Encontrando-o já em momento de partir, levam-no de volta, à presença dos
Cardeais Inquisidores, antes que tudo fosse perdido. Apresentando-se aos
Cardeais, outra Carta foi passada, onde é comentado o fato, e prevalecendo o
que já havia sido decidido, isto é: todas as disposições anteriores de
desaprovação aos fenômenos, desde o ano de l889. Uma cláusula se destacava
entre as demais – sua imediata retirada do Juazeiro, e que o Bispo enviasse com
urgência para lá padres e frades para pregações missionárias, quando devia ser
exposta a doutrina romana na sua verdade, porque só assim seria varrido o tufão
de fanatismo (expressão do Bispo Joaquim) que ameaçava
alastrar-se por todo o país.
E a lei do silêncio imposta por
Roma prevaleceu em todo seu rigor, com todas suas consequências. Seguindo à
risca a imposição do Sacro Colégio, nunca mais falou sobre os fatos ditos
milagrosos, embora intimamente neles acreditasse. Quanto à audiência que tivera
com Leão XIII, e naturalmente a sentença que este lhe dera, nunca a ela se
referiu em momento algum de sua vida. Exceto, quem sabe, o teólogo da causa,
seu inolvidável amigo e mentor religioso, o soubesse. Excessivamente discreto e
moderado, Marrocos levou consigo para o túmulo o grande segredo, como muitos
outros. E assim permanece sem resposta para todo um público o que foi aquela
audiência de 20 minutos com a maior Autoridade religiosa da terra — o Papa — e
o humilde capelão da minúscula povoação do Juazeiro. Sabe-se que ele chegou ao
Vaticano acompanhado do Padre Salesiano Vicente Bucceri, o mesmo
que tão regiamente o hospedou, e também do prestigioso Monsenhor Cagiano de
Azevedo, que o apresentou à Sua Santidade, o Papa Leão XIII, intitulado Imortal
pelas grandes reformas que fez, sobretudo por sua Encíclica Rerum Novarum, de cunho eminentemente social, e que foi
objeto no passado de leitura de intelectuais de esquerda do mundo inteiro.
Nesse encontro de 20 minutos, o Padre Cícero lhe fez uma oferta de um Rosário
em ouro maciço, obra dos seus artesãos, recebendo, segundo o próprio Bispo Joaquim,
deferências especiais.
Floro Bartolomeu (op. cit.) escreveu:
“Depois desse encontro com o
Papa, os jornais de Roma deram destaque a esse encontro. No seu retorno ao
Juazeiro, há várias contradições: alguns autores citam o seu desembarque pelo
Recife, outros insistem em que ele desembarcou em Fortaleza, apresentando-se ao
Bispo para dar conta da sua
estada em Roma, e das últimas deliberações do Sacro Colégio. Seja como tenha
sido, e como era de se esperar, o Bispo radical lhe fez severas recriminações,
dando-lhe um prazo de poucos dias para retirar-se do Juazeiro, sob pena de
excomunhão, ratificando assim a ordem de Roma”.
Sua chegada ao Juazeiro fez uma
imensa multidão sair às ruas da pequena povoação, que estavam enfeitadas de
folhas de palmeira, bandeirolas, e banda de música, sob a batuta de Pelúsio
Macedo. Sua alegria pelo retorno era visível, embora as medidas drásticas que
lhes foram dadas desde o ano de l894 continuassem em toda sua extensão. As
exigências impostas por Roma seguiram a mesma linha das já impostas pelo Bispo do Ceará, quando
se antecipou à Roma, mas era um direito garantido a ele, como Bispo da Diocese. E
foi a partir daí que teve início a grande polêmica com o teólogo Marrocos, que
sustentava o Bispo passar nas suas Cartas Episcopais um ar de
infalibilidade, além, claro, de caústicas e humilhantes.
As imposições eram de tal ordem,
que se embaralhavam na mente dos que com elas teriam que conviver, ácidas e
absurdas, como a de não administar os sacramentos, mesmo em caso de morte, como
o batismo, ou a extremunção. Com essas medidas draconianas, várias pessoas
morreram sem receberem os sacramentos de hora de morte. Se por acaso o Padre
Cícero, ante a iminência da morte, administrasse os sacramentos, o clero logo
se levantava e tachava-o de recalcitrante pirrônico e desobediente às Leis de
Roma. Mas o item que mais causou tristeza e até mesmo indignação entre o povo
era o que ordenava sua retirada imediata do Juazeiro, cuja ordem o Bispo
Joaquim exigia fosse cumprida, ou melhor, obedecida em tempo recorde. O povo,
não aceitando essa decisão, protestou: José Marrocos, mais uma vez, incansável
na sua luta, ergue sua voz altissonante através da imprensa contra a medida
danosa e cruel. Reagindo a essa imposição, o povo nordestino levantou-se contra
a medida; nunca aceitou a ideia de que ele deveria dali se retirar. Guia e
protetor do seu povo, a ordem de deixar o Juazeiro era para eles inconcebível,
e reagiram contra a desumana ordem.
E lá ele ficou por toda sua vida.
Sentimental, afeiçoado à terra que construíra com desvelo e carinho, um
telúrico, optou por ficar, condicionando sua permanência ali à vontade divina, recordando o sonho
misterioso que não esquecia, quando, segundo ele, recebera uma ordem divina
para cuidar daquele povo esquecido. Contrariando até mesmo suas convicções mais
arraigadas,
que eram
o sacerdócio, preferiu permanecer no Juazeiro, mesmo suspenso de ordens, na
posição de acéfalo. Importante, para ele, era lá permanecer, para dar
continidade à sua obra máxima, que era a de cuidar do povo e dar cidadania aos
excluídos. Ademais, como poderia de lá sair, se em sua companhia viviam 25
pessoas, todas suas dependendentes?, escreveu Azarias Sobreira (ibidem), sem
contar sua única irmã, já bastante envelhecida, e sua mãe, doente e presa ao
leito por cegueira e paralisia, sequelas dos sofrimentos que a tinham deixado
inválida. Como, diz o escritor, sair assim, ao Deus-dará, tendo em vista que,
aonde chegasse, sua fama já o precedia, de heresiarca, desobediente às leis
romanas e infringidor dessas mesmas leis?
Optando por ficar, lá permaneceu
até sua morte. Destituído de ordens, com a Igreja interditada, consolava-se com
a reza do Rosário e a bênção que dava aos seus romeiros, que continuavam a
chegar de muito longe para ouvir seus conselhos; ou em intermináveis palestras,
com visitantes e amigos, para ele um passatempo agradável. Dispondo de uma
capacidade extraordinária de prender o ouvinte com suas histórias, apesar de
prolixas, às vezes antecipava-se ao interlocutor, quando lhe fazia uma
pergunta, rompendo a ética. Sentindo o deslize, desculpava-se pelo incidente. O
silêncio que Roma lhe impôs, obedeceu, embora jamais tenha deixado de acreditar
nos milagres e tê-los como sobrenaturais. Numa carta dirigida ao então Vigário
do Crato, o supra citado Antônio Alexandrino de Alencar que, em restrita
obediência ao Bispo Dom Joaquim, insistia para que ele se retirasse do
Juazeiro com a máxima urgência, ele expõe de modo franco e sincero o que sentia, e escreveu (veja-se
que o Padre Cícero continuava a acreditar no milagre, apesar da imposição de
Roma, que o silenciou e jogou-o ao ostracismo religioso):
“Não posso negar o que vi, e
seriam verdadeiros esses fatos (do Joaseiro) porque a sagrada Congregação
(Santo Ofício) não poderá provar um erro; mas pode condenar uma verdade, por
não estar bem provada? Adulteraram o primeiro processo, o segundo correu ao
sabor da segunda comissão, mesclada de ódio e interesses, como poderia Roma
agir, senão condenando?”.
Bastou essa explicação para que o
clero o averbasse de desobediente, insubordinado e desrespeitador das leis de
Roma.
Transcorridos 119 anos desses
fatos, todos os descendentes dos que participaram da história de fé num milagre
permanecem firmes na plataforma da verdade religiosa do Padre Cícero e de sua
influência benéfica. Juazeiro desenvolveu-se, e hoje ostenta o títublo de segunda maior cidade do
Estado, com um comércio diversificado e um complexo educacional excelente, que
teve a participação e o incentivo do Padre Cícero, um idealista, ou até mesmo
um visionário, de ideias utópicas, como querem outros.
Visionário ou utópico, ele esteve
à frente do seu tempo. Seu olhar ultrapassou os muros paroquiais, quando em
telegrama dirigiu-se a dois líderes mundiais: o Imperador Francisco José, da Áustria, e o Czar da Rússia,
na Guerra de 1918, rogando pela paz. Esse gesto de humanidade suscitou diversas
interpretações. Alguns consideraram uma ingenuidade; mas teve também os
detratores gratuitos, como o Professor Lourenço Filho e o Deputado Moraes e
Barros (São Paulo), que viram no episódio simplesmente um exibicionismo
exagerado, e taxaram-no de megalômano.
Escolhido por Cristo, como sempre
afirmou, para cumprir uma missão divina, invocando aquele sonho, ele cumpriu à
risca. Conduziu o Juazeiro no cumprimento da religião, do dever do trabalho e
da harmonia. E foram justamente esses fundamentos que fizeram de um lugarejo
esquecido, nos confins do Brasil, um novo lugar, onde todos desejavam viver
para sempre, e quando lhes era de todo impossível lá fixar residência,
contentavam-se em ir fazer-lhe uma visita anual. Costume que até hoje subsiste.
Por tudo que aqui foi dito, ele realmente foi o Arauto de uma NOVA ERA. O carisma de que era portador
o tornava numa pessoa fascinante e sedutora.
Os personagens que fizeram parte
dessa monumental história do milagre têm também seu destaque, concorrendo
para que o fenômeno da Hóstia Ensanguentada tivesse
vida e fascínio, e envolto nesse fascínio, o glamour. Os nomes dos médicos
Marcos Madeira, Ildefonso Correia Lima, Inácio de Souza Dias (apesar dos seus
desmentidos depois), Júlio César da Fonseca Filho, os Padres Clicério da Costa
Lobo (o Mártir), Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, Monsenhor Dr.
Francisco Ferreira Antero, Teólogo José Joaquim Teles Marrocos, farmacêutico
Joaquim Secundo Chaves e José Joaquim de Maria Lobo. Por fim, a beata
protagonista de toda essa história, Maria de Araújo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Já amplamente comentado, gostaria
de destacar aqui duas conclusões da história religiosa do Juazeiro, quando dois
poderes correram paralelos. Em primeiro lugar, o poder da Igreja, imensurável,
grandiosíssimo. Segundo: o poder do povo, representado pelos atestados médicos
e pela palavra de representantes do clero, que acreditavam no milagre da Hóstia
Ensanguentada, inculcando no ânimo da massa a realidade do sobrenatural. Apesar
do grande poder da Igreja de Roma e das decisões rigorosas do Bispo Joaquim, os fiéis
não deixaram de crer no milagre, e nem se sujeitaram aos vereditos impostos
pela hierarquia. A crença deitou raízes profundas na mente da massa, e o que
houve foi a desobediência total às ordens do Bispo, e consequentemente de Roma.
O poder do povo ficou evidenciado em todo decorrer do ruidoso caso, no qual
jamais deixaram de dar todo apoio ao Padre Cícero. Apenas uma ínfima parte da
sociedade, especialmente das cidades de Barbalha e Brejo Santo, o Coronel
Basílio Gomes (avô do Padre Gomes) era um dos
que descartavam o milagre, fazendo críticas contundentes e sarcásticas. Não
convenceu ninguém. Eram fatos isolados ante a avalancha de seguidores da
crença, seguindo-se pelos tempos afora, perdurando até hoje. E foi exatamente
com eles que o Padre Cícero contou para a derrubada do Presidente do
Estado, Coronel Franco Rabelo. Uma luta sem precedentes em terras do Ceará,
como veremos nos próximos capítulos.
O venerando Leão XIII, o Papa na
época, tudo indica não ter deixado se levar pela soma incalculável de
documentos, alguns até apócrifos, dando-lhe uma sentença branda, imparcial, e
não como queria o clero brasileiro, que seria o da sua
excomunhão e banimento por completo da Igreja. O próprio Bispo Dom Joaquim
surpreendeu-se. Seu desapontamento está espelhado na sua Quarta e última
Carta Pastoral. Entretanto, o que os adversários da causa tanto desejavam, a
excomunhão, só veio a acontecer após a revolução de 1914, quando o clero
considerou-o culpado pela guerra. Aí então, o implacável Bispo da Diocese do Cariri, Dom
Quintino, em conexão com figuras do alto episcopado brasileiro, pediu ao Papa
sua excomunhão, como veremos na segunda parte desta obra. Todavia, fica claro
que, no papado de Leão XIII, considerado o homem mais importante do século
XIX, a resistência de fé do povo do Juazeiro e do povo nordestino pesou na
decisão de Roma, inexoravelmente.
O movimento religioso do Juazeiro
diferiu em muitos aspectos do movimento messiânico de Canudos e de outros
movimentos, como os do Condado, dos Mucheres (beatos) em São Leopoldo, Rio
Grande do Sul (1872), que teve como protagonistas Jacobina Maurer e o Jesuíta
Ambrósio Schup. Os fanáticos acreditavam que ela era santa, por inculcar no
ânimo da massa a surperstição de que seria capaz de repetir todos os milagres
do Cristo. Casada com um curandeiro, despudoramente deixa o marido e foge com
um dos crentes. Seus romances são novelescos, cada um mais agitado que o outro.
No último combate com a tropa imperial, degola o filho de peito, para que o
choro não denunciasse seu esconderijo. Imitando Herodes, decreta o massacre de
todas as crianças de cinco anos de idade. Em 1874, um cabo, de ordem do Capitão
Dantas, vara o corpo de Jacobina. Tinha fim aí a horrenda história de sua
maldita vida, passando à História como a Catarina do Rio
Grande do Sul.
No Juazeiro, essa loucura não
teve vez. O movimento religioso sobressaiu-se pelo avanço e posição de
progresso do Padre Cícero, num verdadeiro leque de realizações sociais e
políticas, quando houve efetivamente sua transição do plano religioso para o
político — Mutatis mutandis. Na
verdade, houve exageros no decorrer do processo, fato comum nos movimentos de
ordem religiosa ou política. Ademais, no Juazeiro, havia a circunstância de ser
um movimento que diziam divino, que tomou conotações
astronômicas, tornando-se endêmico, na expressão do tão citado médico Dr. Marcos Madeira, que,
segundo o escritor Otacílio Anselmo (op.cit.), tempos depois, já
não mais acreditando no milagre, teria dito. O escritor citado foi o único a
registrar tal afirmativa, levado pelos informes de Alencar Peixoto,
naturalmente. Mesmo porque, após todo esse vendaval, o Dr. Madeira deixou o
Ceará, fixando residência em Manaus, onde faleceu no exercício de sua
profissão.
Exageros houve de todos os lados,
e em especial numa ala de beatas fanáticas, quando algumas se insinuavam de
videntes, proferiam palavras inintelígiveis, procurando imitar a agraciada
Maria de Araújo. O pormenor suscitou de imediato a reação do clero, pois era injúria,
mesclada de fanatismo. Dignas ainda de reflexão são as seguintes considerações:
mais atrás, vimos que o Padre Cícero queixava-se de como tinha sido dirigido o
segundo processo para Roma, onde na verdade prevaleceu o ponto de vista de Dom Joaquim e do clero
do Ceará. E aí tem que se levar em consideração que o propósito da maior parte
da hierarquia era o de expô-lo e à sua doutrina ao ridículo e à execração
pública, recorrendo ao argumento de uma visível paranoia, nascida do incidente
ainda quando do tempo de seminarista, como já foi devidamente focalizado. Daí,
os Padres Clicério Lobo e Francisco Ferreira Antero responsabilizarem o Reitor, Padre Pedro
Chevalier, pelas desavenças surgidas no âmbito do clero, no decorrer do
processo canônico do Juazeiro. Criticaram suas pretensões de teólogo, e diziam
que ele adulterou, falsificou e caluniou o Milagre do Juazeiro. Efetivamente, o
Padre Chevalier, com toda sua arrogância, foi, sem sombra de dúvida, o
precussor e autor intelectual dos sofrimentos que encheram de desgosto a vida
do Padre Cícero. Daquele antecedente histórico, nascido de uma discordância de
pontos de vista teológicos, nasceria toda essa confusão, para sua via crucis,
na qual o clero, como já dito, se apoiaria para condená-lo.
A arrogância e prepotência do Reitor Chevallier
chegou ao limite do inimaginável, quando provocou uma rebelião no interior do
Seminário da Prainha, entre o corpo docente e discente. De tão grave, foi
preciso a autoridade do Bispo Joaquim para por fim ao incidente. A causa da
rebelião: o festejo de 13 de maio, quando, no Ceará daquele tempo, era
comemorada a abolição da escravatura. A atitude dos padres franceses contra o
feriado redundou em grande tumulto, e só com a interferência direta do Bispo, que não teve
outra saída a não ser fechar o seminário por tempo indeterminado, e exonerá-lo
das funções que ocupava por espaço de um quarto de século, como assegura o inolvidável
Monsenhor Quinderé, na sua História
Eclesiástica do Ceará (op. cit.)
Enfim, como bem disse o grande orador sacro, o insígne Jesuíta Padre
Antônio Vieira, no seu Sermão da Terceira Dominga do Advento —“O que fazeis,
isso sois, nada mais”.
****
CAPÍTULO 10
MARIA DE
ARAÚJO, A PROTAGONISTA DO MILAGRE:
VIDENTE E ESTIGMATIZADA
A beata Maria de Araújo tinha
26 anos à época dos fenômenos que nela se operaram. Moça simples e obscura, não pertencia à
linhagem de nobreza rural das famílias do Cariri. Sua pele era escura o
bastante para a ela ser creditado parentesco próximo dos ex-escravos do Padre
Pedro Ribeiro de Carvalho, conforme acentua o escritor Padre Gomes (op. cit.). De traços vulgares, cabelos
cortados rentes, voz inaudível, olhar sereno e triste. Exteriormente, nada de
extraordinário que despertasse a atenção de alguém, a não ser pela pureza de
sua vida casta e de sua profunda religiosidade, tendo como alicerce supremo a
infalibilidade das Escrituras Sagradas, com a qual era familiarizada. Vestia-se
com discrição, seguindo a linha das beatas do Padre Ibiapina; vestido preto de
corte monástico na altura dos tornozelos, sapatos fechados de cor preta, véu
também preto, cobrindo toda sua cabeça com debruns em branco, e no pescoço,
suspenso por um cordão grosseiro de algodão, o crucifixo, símbolo da paixão e
da piedade. De magreza acentuada pelos jejuns e abstinências, era praticante
assídua da ascese. Os sintomas que nela se operaram, e que comoveram todo o Nordeste, começaram
desde o ano de 1883, segundo o Padre Cícero. Ela foi o pivô da grave crise
religiosa que abalou o clero brasileiro, estendendo-se até Roma, e questionada
seria pelos tempos afora, se o fenômeno que nela se operara era uma realidade,
ou simplesmente um embuste.
Qual o agente oculto para a
explicação do fato? Azarias Sobreira, aqui tão mencionado, comenta: “tudo indica que o
fenômeno parecia ter sua nascente no Padre Cícero”. Fala em reversão de papéis e em
uma “mística sui generis”, deixando
entrever que, na verdade, era tão somente o Padre Cícero o detentor do
portentoso milagre. A escritora Amália Xavier, se referindo ao fenômeno, diz: “tudo provinha do
Padre Cícero”, e complementa: “antes do milagre se tornar
público, por diversas vezes foi visto na ocasião da consagração, que ele, ao levantar a
hóstia, ela se transformava em sangue, fato testemunhado por pessoas simples do
povo, velhos de personalidade idônea, e que guardaram segredo absoluto, a
pedido do próprio Padre Cícero. Depois eles viriam à tona, porque testemunhados
por uma capela completamente lotada” (op. cit.). Já o Padre Clicério
Lobo dá a seguinte explicação: um agente oculto – nesse caso, Deus
– operava o milagre; a beata, por ser portadora de carismas extraordinários,
manifestava-se nela o prodígio. Nascia no Juazeiro uma nova Era de fé e
piedade, para fortalecimento da religião, hoje tão devastada por conceitos
estranhos à fé católica. “Evocando o Apocalípse, escreveu: o fim do mundo
aproxima-se”.
Fenômeno constatado por todos, e
que foi visto à luz do dia, ocorrido na singela capela de Nossa Senhora
das Dores, conforme documentos da época, a beata Maria de Araújo, personagem
central do rumoroso caso, não usou de artifícios ou farsa, segundo declarações
dos médicos que a examinaram e do teólogo da primeira comissão de inquérito, o
competente Monsenhor Antero. O atestado do Dr. Marcos Madeira deu forma
cognitiva ao milagre, quando, sob juramento, invocando sua
condição de médico, atestou para o Bispo e Roma a evidência do caso. Registrado
em Cartório, passou à História, tornando-se num monumento de uma história
impressionante, inexplicável, da qual o Padre Cícero jamais deixou de crer que
o sangue que fluía das hóstias era de ordem sobrenatural, para redenção e
sublimação de todos dali. Lembrando uma vez mais que o cientista, Dr. Julio
César da Fonseca Filho, descartou publicamente em documento oficial a hipótese de
milagre, mas também da farsa, dizendo: “não há indício de simulação ou farsa, o fenômeno em questão
provém apenas do ascetismo exagerado que leva a beata irresistivelmente à
contemplação íntima das visões celestiais, devota prática como é”. Seu atestado teve
grande repercussão; o clero não se manifestou. A beata Maria de Araújo parece
ter tido uma visão providencial dos acontecimentos através da intervenção do
sobrenatural. Sobrenatural que o brilhante medievalista Jacques Le Goff
assim define: “Já vindo da Idade Média, atravessou os séculos, chegando
até aqui”.
Para ele, três são os principais fundamentos do sobrenatural, por ele
classificados:
(1) Mirabilis. O
maravilhoso com suas origens pré-cristãs.
(2) Magicus: a intervenção de
pessoas com poderes excepcionais, muitos até satânicos.
(3) Miraculosus: a interferência da
divindade, ou o maravilhoso cristão, que tem grande importância na narrativa da
Demanda do Santo Graal.
Nos nossos tempos, causou
repercursão o livro intitulado Apostolado
do Embuste, da autoria do Padre Antônio Gomes de Araújo, já citado, que
outro propósito não teve, senão o de pretender anular os fatos e denegrir o
místico Marrocos. Apesar de conhecedor da História e genealogista de peso,
ele dá aos fatos uma versão contraditória e vulgar. Para ele, não houve
milagre, e diz: “tudo foi uma fraude engendrada por José Marrocos, o químico
do Milagre do Juazeiro”. Nem sequer referiu-se à auto-sugestão ou coisa
idêntica, limitou-se a contestar o óbvio, fulminando de vez o argumento da espiritualidade,
do livre arbítrio e da fé, no qual se baseava Marrocos.
Portadora de virtudes, ascética e
profundamente mística, Maria de Araújo apresentava sinais da paixão de Cristo:
chagas nos pés e na mão direita, êxtases, estigmas, suores e alheamento se
sucediam dia após dia. Constatada a evidência do fenômeno por todos que o presenciavam, não
havia argumento que os arredasse de que não fosse um milagre, enquanto o clero
resistia,
opondo-se,
tentando por
um ponto final na história, que já havia chegado à Roma. Descartando a hipótese do
divino, vieram as investigações, num processo doloroso e
vexatório, como já escrito. E as duas santas do êxtase — Teresinha de Jesus e
Tereza de Ávila — eram lembradas por muitos, numa comparação ao
caso de Maria de Araújo, estas, reconhecidas por Roma e elevadas à glória dos altares, porque tinham
nobreza. Maria de Araújo era humilde e sem linhagem alguma. Aqui no Brasil,
afora o caso excepcional de Maria de Aráujo, o da freira Amália de Jesus, flagelada da cidade
de Campinas (SP), no ano de 1928. Falou-se em êxtases, estigmas, com o Bispo da Diocese a
fazer proselitismo. Mas o fato foi prontamente soterrado pelo alto episcopado,
e não se falou mais dele (Otacílio Anselmo op.cit.).
No livro intitulado Humanismos e Anti-Humanismos, de Della
Nogare, lê-se a seguinte observação, cuja autoria é creditada ao
filósofo Max Scheler: “Todo cristão
pode contar com o poder da graça sobrenatural, dependendo das condições de
disposição de fé e amor em que se encontre o indivíduo, não dependendo em absoluto
da nossa vontade tão somente”. Maria de Araújo não poderia
também ser uma agraciada por Deus? O que pesou? Quando do princípio da longa e
ruidosa história, o Bispo considerou os fatos como extraordinários, e, cheio de precauções,
sugeriu discrição e silêncio, mas logo, advertido pela alta esfera do
episcopado, ou por forças superiores, como as do próprio Estado,
mudou de posição, tomando medidas amargas e radicais. Pensasse talvez fosse uma
posição de força, mas não era, era apenas crueldade contra o Padre Cícero e todo
o povo do Juazeiro, declarada pública e impiedosamente, através de suas Cartas
Pastorais. Depois se decepcionaria até mesmo com Roma, por ter o Papa Leão XIII
dispensado alguns benefícios eclesiásticos ao Padre Cícero, e desafia Roma,
quando não concede a permissão que a ele lhe fora dada, para celebrar em
oratório privado para sua mãe, cega e paralítica. Nas entrelinhas, caluniou o
Presidente da Legião da Cruz, José Maria Lobo, e ainda
implicou Roma na questão do numerário ofertado pelo referido José Lobo, lê-se
tudo isto na sua Quarta e última Carta Pastoral.
A beata Maria de Araújo era
excepcionalmente mística. Impressionada, talvez, pelos sermões dos
frades itinerantes, todos eles de mentalidade apocalíptica, que
obtinham com esses sermões verdadeiras conversões. Criada num ambiente místico
favorável à espiritualidade, ela respirava o ar invisível do misticismo; muito cedo, fora preparada, tendo como seus mentores o próprio Padre
Cícero e o
Monsenhor Monteiro; ascética, só isso já era fator de um grande sustentáculo à
sua espiritualidade, daí advindo as exudações, os êxtases e estigmas, conforme
constatado por todo um povo. E para um povo tão cheio de fé, ela era uma santa, e o milagre era a
plena realização da vontade divina. Para o Bispo Joaquim, era apenas
contrafação do verdadeiro milagre, operada por espíritos inferiores, embora
abrisse um parêntese, dizendo: “se é que o demônio tem poder para
influir diretamente”. Sobre espiritualidade, recorro a um tópico do livro do
teólogo Frei Beto, que tem por título Mística
e Espiritualidade. Às páginas 39-41, diz ele: “O êxtase é capaz de nos levar neste mundo a
uma proximidade com a experiência do divino, do transcendente, da Trindade. A teologia
não se articula pela lógica dos anjos, e sim pela lógica das pessoas, porque
são tributárias da cultura, na qual nasceram e respiram”.
O Padre Clicério reconheceu a
predisposição ao sobrenatural da beata, por suas virtudes, estigmas e visões. Naquele tempo, a Igreja muito
ajudava com seus rituais impressionantes, levando os fiéis a um mundo de
contemplações, quando muitos não resistiam, derramando-se em lágrimas ao som do
cântico solene do Tantum-ergo, do Kirie, do Deus in adjuntorium meum in tende, das ladainhas de harmonias
celestiais, do magnificat, que
sensibilizavam os fiéis mesmo cantadas em Latim, ao som magistral dos
harmonius. As semanas santas eram carregadas de piedade e fé; o encontro de
Maria, com Jesus, a descida da cruz, eram por si só impressionantes,
irresistíveis,
pelo sublime, e muito mais pela piedade de que se revestiam, vistos por uma
imensa multidão vinda de pontos distantes da cidade onde se realizava o evento,
que tinha início na quarta-feira de trevas, com gran-finale no Domingo da
Páscoa. As Igrejas durante a semana vestiam-se de roxo ou preto, que também
eram as cores oficiais dos paramentos dos sacerdotes, e que representavam luto
pela grande tragédia do Calvário. No sábado de Aleluia, o repicar festivo dos
sinos e matracas, logo ao amanhecer do dia, anunciava a ressureição, e o
Domingo era de aleluias e glórias, com missas concelebradas, e os padres, nas
suas vestes litúrgicas em verde ou carmim, entoavam ao som magistral dos órgãos
louvores ao Deus ressuscitado. Era assim o Cariri daquele tempo, região mística
por excelência. Os padres eram piedosos e tementes a Deus, muitos se
autoflagelavam não só com demorados jejuns, mas também se açoitavam à plena luz do dia,
como os
Padres
Manoel Felix de Moura e Aurélio Arnaud Formiga, o “Cavaleiro da Caridade,”
ambos de Missão Velha, ao som de Pequei,
Senhor, Misericórdia, escreveu Irineu Pinheiro (op. cit.). Como não aparecer uma Maria de Araújo e o seu tão
discutido milagre? Condenada por Roma, foi obrigada a silenciar e proibida de
aparecer
Apesar de todo esse confinamento, ainda viveu ou
sobreviveu por anos a fio, como se não mais viva fosse, comenta Azarias
Sobreira (ibidem). Numa verdadeira retração, confinada a um álgido silêncio, morreu de
tuberculose aos 17 de Janeiro de 1914, em plena revolução do Juazeiro. A
memória coletiva assegura: ela ofereceu sua vida para que cessasse a luta.
Mesmo depois de morta, não dormiu em paz. Como já acentuado, seus ossos foram exumados depois de 16
anos do seu falecimento. Esta foi uma das últimas confusões, e gravissíma. O
clero,
na pessoa do Monsenhor Lima, violou seu túmulo na calada da noite e, vale dizer, sem
respaldo jurídico que justificasse o ato, dando-lhe sepultura em lugar
ignorado. Com esse ato de iniquidade, o clero dava sequência ao
Concílio de Constância (1414-16), que, segundo a escritora e teóloga
Ellen White, no seu magnífico livro O Grande Conflito, era a chamada perseguição além-túmulo: os mortos podiam ser
julgados, condenados e seus cadáveres, queimados, isso em casos considerados
heréticos por Roma.
Dessa forma, para o clero
brasileiro, a beata Maria de Araújo se enquadrava nesse item. Padre Cícero, já fragilizado pela doença – era o ano de 1930 –, rebateu o hediondo
ato, através de uma nota em Cartório. O ato arbitrário do Vigário excitou
indignação e desolação. Depois de decorridos tantos anos daqueles fatos, aos 86
anos de idade, bastante fragilizado, ele passa por mais esse dissabor que lhe
ofereceu o clero. Mas seu ocaso era visível sob diversos aspectos: lá não mais
existiam os dois homens que deram dimensão e estrutura à história do Juazeiro,
aliás, diferenciados, como da água para o vinho. O teólogo José Marrocos teria
feito uso da sua brilhante pena, mostrando ao mundo o procedimento de
quem se dizia seguidor de Cristo, quando as principais virtudes lhe faltavam: perdão e amor, tão
ensinadas por Jesus. Floro Bartolomeu, na sua conhecida intrepidez e desassombro,
não faria por menos; usaria do seu verbo fluente, pois sempre desprezou a
hierarquia, a ela jamais foi subserviente; diria aos quatro ventos e clamaria
contra tamanho abuso de autoridade religiosa. A única explicação dada depois
pelo clero do Crato, justificando a atitude arbitrária de um dos seus membros,
foi a de que assim agira para evitar
recrudescimento de fanatismo. Ora, a fé é ato voluntário. E se o
povo tinha a beata na conta de santa, não seria cometendo esse ato de
profanação e iniquidade que ele deixaria de crer no milagre, como continua
até hoje. O clero brasileiro, apesar da abertura do Grande Leão XIII e em pleno
papado de Eugênio Paccelli – Papa Pio XII, cognominado o Papa
Aristocrata – continuava impermeável a mudanças.
****
CAPÍTULO 11
JOSÉ JOAQUIM
TELES MARROCOS, O TEÓLOGO DA FÉ
Latinista e teólogo, José Marrocos foi o
grande intérprete do movimento religioso do Juazeiro. Seu papel de defensor do
milagre tornou-o o protótipo do caso religioso. Portador de uma
fé extrema, devoto da doutrina da Predestinação que, naquela época, era tida como um
dogma essencial da Igreja. Através dos seus escritos, concorreu para que o
caso da Hóstia Ensanguentada fosse conhecido em todo o País, e ainda no
estrangeiro, para onde enviava artigos. Portugal, Espanha, e Roma
principalmente, onde circulou uma coletânea de fatos referentes aos milagres,
denominada
“Quem fez pretenso os Milagres do Juazeiro,” que o Bispo dizia ter sido
espalhada
pelos quatro cantos da Cidade Eterna, à época em que lá se encontrava o
Padre Cícero. O referido tratado, alusão direta e objetiva à Questão Religiosa do
Juazeiro, além de sustentar os milagres, fazia veemente crítica ao clero, por
seu posicionamento na condenação e repulsa aos fatos. Considerado o homem chave
da rumorosa questão, Marrocos foi o cérebro do movimento religioso do Juazeiro;
acreditava que a beata Maria de Araújo tinha “o dom” de converter hóstia em
sangue,
porque uma predestinada.
O Padre Gomes, que contestava sua
teologia,
sustentava que Marrocos era um Jansenista confesso, com recusa à eucaristia. Doutrina
condenada pelo Papa Urbano VIII (1642), mas que resistiu por muito tempo
até chegar ao século XIX. Na França, os Jansenistas sofriam processos movidos
pelos Jesuítas, que os acusavam de ensinar uma doutrina subjetivista, na qual a fé
bastaria ao crente, mesmo desacompanhada das obras externas e dos rituais
públicos de fé (in: Lelo Universal). A doutrina do
Jansenismo baseava-se em três transcendentais: graça, livre arbítrio e predestinação,
virtudes que se alinhavam ao pensamento de Santo Agostinho. Por isso, o livro encontrado
em seus pertences (Augustinius),
escorado nele, fazia sua profissão de Fé. O Bispo, a par de tudo isso, o execrava,
e nos seus escritos dizia ele não ter autoridade canônica para passar ao povo
tamanho ponto de vista, temendo, ao que tudo indica, viesse a
criar um cisma dentro da Igreja. Daí a luta entre os dois.
José Marrocos nasceu na cidade do
Crato a 26 de novembro de 1842, era parente do Padre Cícero e descendia de uma
das principais famílias do Cariri, os Teles. Era filho legítimo do latinista e
também professor por nomeação imperial, Padre João Marrocos Teles.
Dedicado e fidelíssimo amigo do Padre Cícero, foi seu mentor religioso, sempre
esteve ao seu lado, desde o Educandário notável do Padre Rolim em Cajazeiras (PB) até o seminário da
Prainha, em Fortaleza, quando, já Diácono, foi dispensado da
casa religiosa, por sustentar pontos de vista contrários aos do Reitor Chevalier,
um seguidor da teoria Tomista.
Ex-jornalista com passagem na
imprensa carioca, ao lado de José do Patrocínio e Joaquim Nabuco, batalhou pela
libertação dos escravos. Antes, em Fortaleza, ao lado de
Justiniano de Serpa, fundou o jornal O Libertador, conseguindo adeptos em prol
da causa. Um grande humanista, na visão dos que com ele conviveram. Na grande
seca de 1877, que assolou o Ceará, o pouco que ganhava em Fortaleza, como professor,
repartia entre os flagelados, e certa vez chegou a desmaiar de inanição,
escreveu Amália Xavier (op.
cit.).
No Rio, ao lado de Carlos de Laet e José do Patrocínio, colaborou na criação e
divulgação da Gazeta de Notícias. Decepcionado com o rumo que o movimento tomou
após a libertação, retornou à sua terra natal, o Crato. Aí se
refugiando, funda o Colégio São José e o jornal A Voz da Religião, onde divulgava a
História e os fatos do Cariri de então. Marrocos era culto, pedagogo, dominava
quatro idiomas, era um poliglota. De porte ascético, polido nas palavras,
trajava-se com elegância, dando um toque de discrição ao seu trajar, usando
ternos em cor sempre escura, de preferência pretos, camisas brancas com
colarinho à batina de padre, de mangas compridas, com abotoaduras
Conhecedor profundo da teologia
romana, estudioso das Sagradas Escrituras, escreveu, contestou, guerreou e
traduziu os fenômenos na pessoa da beata Maria de Araújo. Devotado à causa dos humildes,
em 1878 fundou em Fortaleza, em parceria com outros católicos, a Igreja de São
Benedito (o santo pretinho), para que os negros pudessem aí fazer suas orações
sem serem importunados, pois à época eram discriminados pelo
clero, dado o autêntico preconceito de classes nas agremiações religiosas, por exemplo: a
Irmandade do Ssmo Sacramento, da qual só fazia parte a fina flor da sociedade.
Tradição e linhagem de família contavam, como também a posição social,
isto é, a financeira. A Irmandade das Almas seguia a mesma linha das suas
congêneres, aliás, até pior, pois não era permitido o ingresso de negros em
suas fileiras. Para esses, o clero designara a Irmandade do Rosário, que teve
seu apogeu no século XIX. Na Bahia e em Pernambuco, por exemplo, o culto
a Nossa Senhora do Rosário era o preferido, imposto pelo clero, constituído
exclusivamente de pretos, escreveu Alfredo Bosi,
Como já escrito, o teólogo José Marrocos
era um místico. Sempre sobraçando o seu breviário, era visto em passadas
largas cruzando as ruas do Crato, do Juazeiro e de Barbalha, onde dava aulas.
Dedicou toda sua vida ao ensino e à religião. Não mediu esforços em
traduzir do português para o italiano o primeiro Inquérito Episcopal sobre os
fenômenos do Juazeiro, com a colaboração do Monsenhor Antero, secretário da
primeira comissão de investigação. Poliglota, dominava o francês, latim e italiano, daí sua
participação ativa na tradução do primeiro inquérito. Padre Gomes escreveu: “além de ser um
Jansenista confesso, recusava-se a receber a eucaristia”, e lhe faz acusações
graves,
ao assegurar que ele usava de uma química à semelhança de sangue, que poderia ser
anilina, para tingir as hóstias recebidas pela beata Maria de Araújo. “Ele foi sem nenhuma dúvida o
cérebro químico do Milagre”.
Essa posição radical do Padre
Gomes a respeito de Marrocos e do Milagre lhe rendeu inimigos rancorosos no
Juazeiro, que nunca o perdoaram. Mas um pormenor ele deixava claro: reconhecia
que Marrocos foi de fato um grande educador, muito contribuiu para a
educação no Vale do Cariri, como também foi um grande defensor na luta pela
liberdade dos negros. Entretanto, para ele, tudo ficou anulado, em face de suas
posições ante os fatos do Juazeiro. Acusado pelo clero no sumiço dos paninhos
das comunhões miraculosas de Maria de Araújo, encontrados depois em sua casa,
quando ficou caracterizado ter sido ele, de fato, o autor material do
referido sumiço. Diziam ainda que o livro escrito em francês, encontrado em
seus pertences, era significativo, como a insinuarem a hipótese de uma burla. A
ideia
mais provável, entretanto, é a de que tenha mandado vir da Europa, para estudos
aprofundados do fenômeno, já que o livro tratava de aparecimento de sangue, e
não para manipulações grosseiras, pela probidade do seu caráter,
ligado à
moral cristã, escreveu Azarias Sobreira (idem). Combativo, Marrocos era
realmente um adepto da causa e um crente fervoroso dos milagres. Por crer no
fenômeno como sendo divino, procurou salvá-los, guardando-os em sua casa. Com
receio,
quem sabe,
que viessem a desaparecer e fossem profanados, como a adivinhar o que mais
tarde aconteceria com o cadáver de Maria de Araújo. Por isso guardava-os
trancados à chave num oratório privado de sua casa, sob a luz de velas acesas. Para ele, ali estava a prova evidente do
milagre, daí a sacrossanta devoção que mantinha e que uma fé avassaladora o
contagiava. Por esse excesso de fé e religiosidade, foi criticado, de maneira rude
e impiedosa, pelo escritor Nertan Macedo, no seu livro O Padre e a Beata.
Um erudito, tinha por norma a
arte da palavra escrita, seus escritos o atestam. Pedagogo, pelo seu crivo
passaram personalidades da vida brasileira, como o Senador Fernandes Távora
e tantos outros, que seria enfadonho listá-los. “Não era dado a oratória”, assegura Azarias
Sobreira (op. cit.), “mas, na arte da escrita e da
conversação, seu linguajar era elevado à altura da sua distinta personalidade”. Suas aulas de
português eram brilhantes, dificilmente o aluno esqueceria, escreveu Irineu
Pinheiro (op.cit.). José Marrocos
destacou-se na sua luta em prol dos milagres e contra os bispos, principalmente
o Bispo
Dom
Joaquim José Vieira, por não aceitar princípios que ele considerava fora das
normas da teologia. Censurava a tomada de posição que este tomara antes que
Roma se pronunciasse sobre a questão, suspendendo o Padre Cícero de
celebrar e confessar, silenciando-o, emudecendo-o. Por fim, Marrocos não reconhece a
autoridade do Bispo Joaquim, ao decretar que o Padre Cícero estava
proibido de receber, em sua casa, visitantes e romeiros. Para ele, o Bispo extrapolou, e
escreveu: “Razão ou absurdo?”.
Os bispos de Pernambuco também foram alvos
dos seus escritos, principalmente o Bispo Joaquim Arcoverde, que, segundo ele, também
passava um ar de infalibilidade no julgamento da grave questão religiosa do
Juazeiro, e também o Bispo de Olinda e do Recife, Dom Luís, que, aderindo às
concepções do Bispo do Ceará, proibiu que fossem batizados em sua Diocese crianças que
portassem o nome de Cícero. Para o Bispo do Ceará, José Marrocos
simbolizava o mal. Nunca pronunciando seu nome, só o chamava de “mal inspirado paredro”. Não procurava
disfarçar sua ojeriza e desprezo, e afirmava categórico que todos os seus
escritos a respeito dos fatos do Juazeiro não passavam de sofismas,
sub-reptício.
Apesar de tão criticado e
contestado, Marrocos era um moderado, e reagia a todas essas injúrias através
de sua pena brilhante. No auge da crise religiosa, ele escrevia ao Padre João
Augusto da Frota, seu correspondente em Fortaleza, o seguinte:
— Pronunciei-me contra a
interlocutória, porque parti de um princípio certo, incontestável, e dogmático;
a publicação mesmo do meu Memorial não teve outro fim, senão responder a alguma
das objeções feitas pelo Sr. Bispo, como também as razões morais de resistência a que
se refere, no concernente à assinatura de mulheres em alguns papéis. Como
também é de minha inteira responsabilidade, a ideia de consultar bispos e teólogos
do estrangeiro. (Cf. Irineu Pinheiro, Efemérides
do Cariri, p. 480-482).
O ex-abolicionista tem o seu
lugar merecido na História do Brasil. Apesar de não constar nos livros oficiais, na verdade, ele foi um defensor
incansável da nobre causa. Culto e grande memorialista, seja qual for o
conceito que se faça dele, só concorreu para que o Cariri preservasse sua
história,
porque ele o amava. Se não fora ele, pouco existiria da grandiosa história de
fé nos milagres do Juazeiro, perpetuada através dos seus memoráveis e cultos escritos, quando veementemente
contestava o clero, porque a eles interessava que fossem apagados da memória,
como sempre quis a alta esfera, que optava pelo sepultamento dos fatos. Por sua
cultura e dignidade, ele foi um nobre. Tornado no homem símbolo da Questão
Religiosa do Juazeiro, o arquétipo de toda essa história traumática, o teólogo
da fé, a própria alma da célebre questão. Desprendido de bens, um idealista na
acepção do termo, morreu pobre, como pobre morrem todos os idealistas. Nada
deixou, senão a lembrança da luminosidade do seu saber. Promotor de eventos
religiosos no Juazeiro, como Semanas Santas dramatizadas, mantinha, entre
outras atividades, encontros literários, com declamações e leituras
interpretadas. O canto também tinha seu destaque: fundou o Coro da Igreja, que
chegou a ser um dos melhores do Estado àquele tempo. Preparava uma destas
magníficas festas, chamada de “Noite das Estrelas”, quando foi
surpreendido pela morte, na véspera da Assunção de Nossa
Senhora, no dia 14 de agosto de 1910, deixando um vácuo na História do Ceará e
principalmente do Juazeiro.
Apagava-se, com o seu
desaparecimento, o clarão místico e lírico, e, engastado neste clarão, a
história de um mistério, sedutor mistério, do qual ele foi a figura central, por
seus escritos. O vácuo deixado não só se restringiu à cultura, deixando triste
também seu grande amigo, o Padre Cícero, para o qual José
Marrocos era o primus inter-pares, na
linha dos mais fiéis amigos, e ele o foi na realidade, até a medula. Seu nome
está imortalizado numa das ruas centrais da histórica e nobre cidade do Crato,
e seu sobrado, onde viveu toda a vida, até poucos anos atrás lá estava de pé,
como a dizer: aqui nasceu e viveu um homem de vasta erudição e coragem, pois
guerreou contra uma hierarquia potente, o clero.
No Juazeiro, também foi
homenageado com nome de rua e de um pequeno distrito, nos arredores da hoje
grande cidade. Mais do que justa a homenagem ao modesto homem de letras que foi
José Joaquim Teles Marrocos.
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO 12
A METAMORFOSE DO PADRE CÍCERO: MUTATIS MUTANDIS
Padre
Cícero
contraditório? Para muitos ele o foi. José Maria Logendio, que escreveu sobre
Savonarola, disse serem as contradições a essência da alma humana. No seu
retorno de Roma, ele daria nova feição ao seu apostolado em Juazeiro, como por
exemplo no recebimento das espórtulas que os fiéis faziam em pagamento de
promessas feitas à Padroeira Nossa Senhora das Dores. As espórtulas tornaram-se
em ponto de contenda, um calcanhar-de-Aquiles para o clero, nascendo daí uma
nova luta religiosa entre o Padre Cícero e o clero, que durou até sua
morte.
O clero alegava que, por ele estar
suspenso de ordens, em hipótese alguma não poderia receber as dádivas, e nem
delas fazer uso a seu modo, objetava o Bispo Dom Joaquim, altamente
irritado. O destino que dava a essas espórtulas, na verdade, a maioria delas
pertencia à
Padroeira, nada solicitava dos fiéis, entretanto o povo prosternado
ante ele fazia suas oblações, deixando a seu critério resolvê-las como quisesse,
pois tinham a certeza que o caminho que lhes dava beneficiava a todos. Mas o clero não pensava assim. As doações, do ponto de vista da
cúpula,
teriam que serem repassadas à Diocese, como não eram,
desaguava na grande divergência. Eis o epicentro de toda questão. Sendo princípio canônico de
que,
se o público doa, para ele deve voltar, era justo o que acontecia no Juazeiro.
Ao receber as ofertas que, de ordinário, eram envoltas num
simples papel de embrulho e atadas por um cordão barbante, empoeirado pela
longa e estafante caminhada de estradas de terra, ali mesmo eram repassadas aos
suplicantes que lhe imploravam a caridade, escreveu Azarias
Sobreira, sobre o caso das libras esterlinas (idem).
As doações foram um ponto de contenda
na espiral de confusões da agitada Questão Religiosa do Juazeiro. Como
já escrito,
ao retornar da Cidade Eterna, ele daria outro destino à recepção dos
donativos, quem sabe, talvez impressionado com o que presenciara em Roma, o
montante de dinheiro que o Vaticano recebia, e que até hoje continua. Então
achou por bem não abrir mão das ofertas, umas feitas a ele, por pessoas
abastadas, outras destinadas à Padroeira, em pagamento de
promessas. Essas, ele as transformava em obras assistenciais, uma casa
funcionava como um pequeno hospital, que socorria os doentes não só do
Juazeiro, mas de outras partes que lá chegavam à procura de saúde.
A partir do ano de 1900, uma nova
visão com novas realizações, que se seguiriam pelos tempos afora. Em 1926 construiu um dos maiores
marcos do seu apostolado, o Orfanato Jesus Maria José, que
beneficiou não só o Juazeiro, mas todo o Cariri. Inegavelmente, este foi um dos seus maiores
empreendimentos. O Orfanato, que além do ensino
elementar tinha como base amparar meninas órfãs, era dirigido por professoras
competentes que, com dedicação, esmeravam-se na arte do ensino e
de trabalhos manuais da costura, do bordado, aproveitando a tendência natural
de nossa gente para os ricos bordados à mão ou à máquina. De lá, saíam preparadas e aptas
para enfrentar a vida lá fora com dignidade, comenta Amália Xavier (op.cit.).
Seu regresso de Roma, no
princípio do século XX, foi mesmo de contentamento para seu povo. Absolvido
pelo Sacro Colégio de “Ofensas à Religião”, como rezava o
documento romano, se é que as medidas drásticas, que já vinham desde 1892, podiam
ser consideradas perdão, por conter as mesmas medidas impostas pelo Bispo da Diocese
do Ceará e ratificadas por Roma. A única diferença consistia numa só palavra:
perdão, palavra esta que jamais foi pronunciada por Dom Joaquim, seu
algoz.
1900, o Ceará gemia sob o peso de
mais uma grande seca que veio acompanhada de grande sequela – a varíola, assolando
contundente todo o Vale do Cariri, e especialmente o Juazeiro, pelo acúmulo de
pessoas que lá chegavam diariamente à procura da caridade do Padre
Cícero. Nessa quadra difícil, ele desempenhou o papel de
médico e enfermeiro, auxiliando o farmacêutico prático Ernesto Rabelo na
vacinação em massa, quando exortava o povo a que se vacinasse e ensinava
medidas de profilaxia a fim de debelar o mal, que se expandia de maneira
vertiginosa, disse Amália Xavier (op.
cit.). Aliando religião à medicina, no intuito de salvar
vidas, de lutar contra doenças, contra a morte, ele incute no seu povo o
sentimento da fraternidade, numa compaixão inusitada pelos sofrimentos dos
deserdados da sorte. Sua solidariedade transpunha a barreira do inacreditável.
Ele foi o Moisés em terras do Ceará, salvando, ensinando, administrando,
conduzindo seu povo com retidão e acerto.
Tentando resolver o problema da
fome, causada pela terrificante seca desse ano, lança mão mais uma vez das raízes de maniçoba e
mucunã, preponderantes nessas situações de emergências das muitas secas que
presenciou, e as quais seu nome estará sempre ligado. Elas tornaram-se uma
pauta constante de suas preocupações, por não existir meios de resolver o
problema, da falta dágua, pela falta dos recursos hídricos, em todo o Nordeste. Continuou a
fazer uso das raízes brabas para delas extrair os farináceos, usados na feitura de
beijus e mingaus, e assim salva muitas vidas, observou Edmar Morel (op.cit.). Herança indígena, que o Padre
Cícero soube dela tirar proveito; por ser um pragmático, usou-as com grande
êxito,
salvando vidas. Mesmo conseguindo salvar vidas, foi bastante criticado, por considerarem a
mucunã causadora de mortes e altamente tóxica. O escritor Rodolfo Teófilo, um
dos pioneiros da imprensa no Ceará, impressionado com tantas mortes, desde a
monstruosa seca de 77, passou a pesquisar e estudar o problema das raízes, sem
chegar a uma conclusão satisfatória. Junto com Tomaz Pompeu, grande estudioso das
secas no Nordeste,
apelam ao Museu Nacional do Rio, solicitando um estudo que detectasse se
realmente ditas raízes eram mortíferas, isto no ano de l888-89. Jamais
obtiveram resposta, apesar do grande prestígio do primeiro por ocupar uma
cadeira de senador do Império.
Em l946, o Professor Josué de
Castro, baseado no estudo de Rodolfo Teófilo, solicitou ao Instituto de
Nutrição do Rio que fizesse um estudo das raízes, pois até aquele ano, elas
ainda geravam controvérsias, como sendo tóxicas. Dessa vez foi feito o exame
das raízes e o resultado fornecido pelo Instituto de Nutrição é o que se segue:
“O uso pelos retirantes das
secas dos farináceos da maniçoba e da mucunã não oferece risco de
envenenamento, são alimentos de teor de amido próximos dos da mandioca, mas bem
superior a esta, pelo teor protéico três vezes maior, aproximando-se dos da farinha
de mandioca, e bem superior a esta, pelo teor protéico três vezes maior, igual ao da farinha de arroz
e milho. Quanto aos efeitos, como referem as crônicas locais, de perturbação da digestão, com diarreias e cólicas intestinais, causando
mortes, atestamos que não procedem dessas massas, mas sim, de carências
múltiplas, já em estado bastante adiantado pela falta de alimentos, exteriorizada nos sintomas de
carência total, de vitamina B e de proteínas.” (Extraído do Documentário do Nordeste, pp.164-68)
Empenhado pela melhoria de vida
para o povo nordestino, o Professor Josué de Castro estudou, escreveu, pesquisou
durante anos, ergueu a voz no Parlamento, quando dizia ser “o latifúndio mais
forte que suas metas e propostas”. Seus discursos na Câmara foram
antológicos e causadores de polêmica, eis um dos trechos dos muitos que
pronunciou sobre o assunto:
— Pior que a seca, era a escravidão do homem pelo homem,
e que só a chuva não resolveria o drama da miséria da região do Nordeste,
daquelas áreas subdesenvolvidas deste país subdesenvolvido.
E clamava pelo desenvolvimento
econômico e social para a região (Documento cit).
Tempos depois, o Padre
Cícero usaria de um método até então inédito em terras do Ceará, fazendo o
assentamento dos flagelados, nas terras devolutas da Serra do Araripe e de São
Pedro. Fornecia-lhes sementes e ferramentas, para uso da terra, incentivava-os
a não desperdiçarem tempo, fossem para o campo, quando caíssem as primeiras
chuvas. Desse modo integrava o homem à terra, evitando assim a
emigração, mas logo foi rechaçado, como comenta o jornalista Figueiredo Brito,
nas páginas da Revista Ytaiytera,
órgão oficial do Instituto Cultural do Cariri, da cidade do Crato (ano de l956):
“O assentamento dos romeiros,
na Serra do Araripe, foi tão
bem sucedido com a introdução em larga escala do plantio da mandioca, que os
grandes latifundiários passaram a invadir as áreas recém-cultivadas, onde
antigamente nada existia, alegando serem suas. De lá expulsaram os novos
moradores, que antes viviam submetidos a esses mesmos proprietários”.
Passados tantos anos, o brado de alerta do
Professor Josué de Castro continua atual: como no passado, a luta pela
posse da terra continua. Assim foi em Canudos, e depois no Caldeirão, onde distorções de
pensamentos religiosos atrelados ao latifúndio muito concorreram para a grande
chacina do Caldeirão, região serrana do Crato, totalmente destruído no ano de
l937. Um dos mais bárbaros e chocantes acontecimentos da ditadura Vargas, sob o
comando do Chefe de Polícia do Ceará, em conexão com o Ministro da Guerra, General Eurico
Dutra.
Relembrando: Caldeirão era uma
comunidade encravada na Serra do Araripe; o lugar era assim chamado porque
lá existia uma grande rocha em formato de um Caldeirão que acumulava água,
vindas das nascentes da Serra do Araripe. O beato Zé Lourenço, expulso de outra
gleba, na mesma Serra do Araripe, por fazendeiros que resistiam à presença dos
romeiros na área, lá se refugiou. Caldeirão dos Jesuítas, assim conhecido por
ter abrigado no passado distante dois jesuítas fugidos da perseguição do Marquês
de Pombal, no ano de 1757 .
Recanto de grande beleza,
encravado na
Serra
do Araripe, com um pequeno resevatório natural de água, mas ínfimo para suprir
a necessidade da comunidade de mais de 400 pessoas. O beato, num esforço ingente, reverte o quadro: de
estéril passa a fértil, com a abertura de poços artesianos feitos por ele e seus
seguidores. Habilidoso e cheio de vontade e esperança, fez com que o Caldeirão, dantes um deserto,
se tornasse
um oásis, pela abertura de poços artesianos, disse José Alves de Figueiredo, o Zuza
da Botica,
que o chamava Iluminado, pela proeza de dar vida ao lugar, antes um
deserto. Ainda de acordo com o jornalista e poeta Alves de Figueiredo, José
Lourenço, com pouco estudo, tinha aguçada visão. Era
inteligente, pacífico e de muito pulso, conseguindo dominar sua
comunidade somente pelo uso da palavra. As Escrituras e o respeito à ordem eram o ponto principal de
sua pregação aos seus seguidores.
O beato Lourenço notabilizou-se
pelo caso do Boi Mansinho. De acordo com a crônica oral e
escrita, era ordeiro e trabalhador. Seu nome tornou-se uma legenda, enchendo todo o
sertão pela força do cordel. Sua comunidade chamava atenção pela organização e
disciplina, fornecia 400 refeições ao dia, verdade que uma só vez, mas era uma
refeição generosa, já que de tudo lá existia: criação de suínos, carneiros,
bodes, patos, galinhas. A venda da produção de cereais e animais não era permitida, uma vez que tudo
era para o consumo interno, regra estabelecida pelo beato.
Lembrando que foi ele o pioneiro, no Cariri, da criação de
Cooperativas, nos moldes da do Conselheiro. Com a abertura dos poços
artesianos, fazendo jorrar água abundante, o pomar e o jardim chamavam a atenção dos
visitantes, pela imensa variedade de flores, frutas, legumes e raízes, vale
lembrar que o cará tinha para mais de dez espécies (Alves de Figueiredo, op. cit.). O lugar, que antes era impraticável para
morar,
pela falta d’ água, ele conseguiu mudar o quadro, tornando-o num lugar aprazível, onde não mais
existiam
a falta d´água e o fantasma crônico da fome, graças ao trabalho hercúleo dos
que o seguiam, disse em artigo antológico o citado jornalista José Alves de
Figueiredo, indignado com o massacre do Caldeirão. Seus artigos e poemas referindo-se
ao hediondo crime foram registrados pelos jornais da época,
agitando os meios literários do Ceará, passando à História.
O beato Zé Lourenço seguia o
princípio primitivo do Cristianismo, baseado nos Apóstolos, que tinha como meta
a partilha de bens. Mas o clero do Crato não via suas atitudes como
verdadeiras, e sim uma forma de conquistar adeptos para sua seita, considerada por eles, e também por leigos,
grosseira e surpersticiosa, além das uniões ilícitas, adoração ao Boi Mansinho,
numa reminiscência do Boi Ápis. Maximizando, os fatos terminaram por criar um
clima de suspeição e hostilidade ao beato e a seus seguidores. Na realidade, José Lourenço foi
tido como contraventor de ideias perniciosas e um fora da lei,
tudo o que
ele não era. Estava aberto o caminho para que as autoridades estaduais
entendessem como uma ameaça à ordem pública e, pior, sugeriram que ele
era um adepto do comunismo.
No ano de 37-38 o Governo Vargas
detonou uma caça aos comunistas, prendendo-os e exilando-os, e aí chegam ao
beato Lourenço. Não houve diálogo, nenhuma explicação, agiram à Rússia, dos Czares,
ou de Stalin, tanto faz, a mesma coisa; não o prendem, ao
contrário:
de cima,
em aviões do Exército, bombardeam o Caldeirão e seus
habitantes,
que não tiveram tempo de fugir. Tudo muito rápido. Em fração de segundos, a
comunidade do Caldeirão foi reduzida a escombros pelas bombas
atiradas do alto: os corpos carbonizados pediam clemência, e a majestosa e
secular Serra
do Araripe, atemorizada com o estrondo das bombas mortíferas, era só desolação.
Humildes serranos, que residiam do outro lado da Serra, procuravam
esconder-se nas suas choupanas, apavorados com o horror, sem
nada entenderem. Uma atrocidade gigantesca, poucos os que escaparam, dentre estes, o
beato Lourenço, que conseguiu fugir, embora muito ferido. Mulheres, homens, crianças
foram mortos pela sanha cruel da Ditadura Vargas, com o aval do Presidente do
Estado do Ceará, Menezes Pimentel, e do Ministro da Guerra, General Eurico
Gaspar Dutra.
Tinha fim desse modo violento e
trágico a cruenta perseguição a uma comunidade, tal qual aconteceu em Canudos.
Pregador da paz, motivada apenas no intuito de fazer o bem, o Beato, conforme
relato do jornalista
e político Ademar Távora, revoltado com a destruição do Caldeirão, era um homem
de bem. Depois de anos de luta, ele conseguiu fazer do lugar, outrora um deserto,
uma vivenda aprazível, onde fincou um marco, que em poucos
minutos foi destruída pela sanha sanguinolenta da ditadura Vargas e da
perseguição do clero à sua pessoa, simplesmente por ser um
seguidor do Padre Cícero, atestam os que escreveram sobre a monstruosa chacina.
Dando ao Beato o título de “Gigante”, o deputado Ademar Távora chama-o
de um homem excelente e de bem, inteligente e cumpridor dos seus
deveres, pacifista, além de criador de uma notável obra social. Depois de tudo
ter sido reduzido a pó e nada restando, o deputado entrou com um processo de
indenização de vida e bens contra o Estado, não obtendo nenhum retorno quanto à indenização por ele
cobrada. Foi para o rol do esquecimento, prevalecendo apenas os fatos cruéis
que a ditadura
Vargas perpetrou. O nome de José Lourenço e a destruição do Caldeirão
permanecerão
para sempre nos anais da História do Ceará. As centenas de corpos carbonizados
não mereceram
do clero nenhuma palavra de repúdio ao monstruoso ato, e nem sequer um ligeiro
comentário no Órgão Oficial da Diocese do Crato. Silenciaram.
****
CAPÍTULO 13
ANOS DE
1907 A 1911
Nesse ano começa uma nova
etapa de transformação na vida política do Juazeiro, que até esse tempo vivia
unicamente do seu passado religioso. Foi nessa época que o Padre Cícero
transpôs os umbrais do religioso, para se fixar definitivamente na política —
Mutatis mutandis. Talvez as
circunstâncias o tenham levado a tornar-se um político ativista, levado pelos muitos
reveses,
como: a pressão persistente do clero à sua pessoa, humilhação de
subserviência ao Crato, de quem o Juazeiro dependia política e religiosamente,
a demasiada perseguição ao seu povo, e até mesmo uma tentativa de assassinato à sua pessoa, no ano
de 1906, justificam certamente o novo caminho que tomou. Aliás, a decisão de
abraçar a política, revertendo seu papel de missionário para ser um braço
dela, não foi um fato inusitado, porque desde que chegou ao Juazeiro seus atos
já deixavam entrever traços políticos, pelas escolas do ensino
elementar que fundou, pelas ruas que abriu, nomeadas e numeradas, enfim, procurou dar
cidadania aos dantes marginalizados, implantando no pequeno povoado
a pedagogia do aprendizado e do trabalho. Embalado pelo sonho de ver o Juazeiro
emancipado,
começou a dar forma ao sonho, empenhando-se com afinco. Antes dele, o Major Joaquim
Bezerra de Menezes deu início a um projeto para criação do município, só que
nem chegou a tomar forma – o embrião morreu ao ser
concebido, porque barrado pelo arrogante e histórico chefe do Crato, Coronel Antônio Luís
Alves Pequeno, que criava empecilhos a todo o projeto de emancipação do
lugar,
sepultando-os.
No ano de 1909, o Padre Cícero
voltou a dar vida ao ideal, que terminou se concretizando. Por esse tempo, Juazeiro tinha
várias escolas, públicas e particulares, de muito bom nível. Os
professores das escolas particulares eram exímios conhecedores da gramática,
latim e francês, como o Professor José Marrocos e o Dr. Manoel Diniz, muito depois. Sua população
era de 30.000 habitantes fixos, dispondo ainda de um florescente comércio, Correios e
Telégrafos, e uma Banda de Música a cargo do maestro Pelúsio Correia de Macedo,
vulgarmente conhecido por Mestre Pelúsio, pai do eminente Monsenhor Macedo. Os instrumentos para a
formação da banda foram comprados pelo Padre Cícero, na sua estada em
Roma. Mestre Pelúsio era figura insígne em sua terra natal, mecânico,
fabricante de relógios e sinos para torres de Igreja e praças, que o tornaram
numa legenda. Até hoje, seus sinos e relógios permanecem, como a desafiar o
próprio tempo.
Por esse rápido demonstrativo
vê-se que o lugar tinha credenciais para ser elevado a Vila, tudo era apenas
questão política, e o motivo sabiam todos: o chefe cratense não queria
abrir mão de sua renda, que ultrapassava a do Crato e de outras cidades, graças ao
fluxo de peregrinos, que, nesse ano de 1900, dobrou pelo
retorno do Padre Cícero de Roma, quando foi recebido pelo Papa Leão XIII.
Naquela época, ver o Papa era quase impossível, pelo elevado custo da
viagem e pela distância, que também contava. Ver o Papa
constituía-se
num acontecimento da mais alta relevância, como até hoje. Era um grande feito,
porque muitos o tinham como um Ser inacessível, intocável, abstrato, que fazia
parte do imaginário popular, tendo como reforço a concepção dominante de ser
infalível, escolhido por Deus como seu
representante aqui na terra, conforme decretou o Concílio Vaticano em 1870.
A distância de Roma, as poucas notícias
pela divulgação tênue da imprensa, vê-lo em carne e osso tornava-se um
acontecimento notável, quando só estampas em livros religiosos o mostravam. No
caso do Padre Cícero, apesar do chamado impositivo do Sacro Colégio, foi um
acontecimento de grande relevância, que muito repercutiu. Ele ia, como de fato foi,
ver o Papa. Roma, aos olhos daquele povo, era um fim de mundo, o Vaticano,
um mistério impenetrável, como até hoje. O fato de ser um simples capelão de
uma pequena e obscura povoação, esquecida nos confins do Ceará, deu-lhe enorme dimensão,
enchendo de orgulho seu povo, enquanto mais crescia a romaria, deixando um saldo
razoável de numerário, pela vinda de peregrinos ao Juazeiro e, é bom dizer, não só os romeiros,
também pessoas de alto nível intelectual e político. Dessa forma, o numerário cresceu
assustadoramente pelos que lá desembocavam, despertando a cobiça do Intendente
do Crato, enquanto o povo do Juazeiro, numa reinvidicação mais que
justa, desejava sua emancipação, para tornar-se independente do Crato, de quem
dependiam, há 100 anos. Partiram para a luta, dispostos a não perderem, com
total apoio do Padre Cícero.
Nesse tempo, dominava o Ceará a
oligarquia Acciolina, representada pelo Comendador Dr. Antônio Nogueira
Accioli, cujo pensamento predominante era o mesmo dos seus antepassados:
perpetuar-se
no poder. Ele mesmo havia herdado o bastão do seu sogro, o Senador Tomaz
Pompeu, um hábito arraigado, já vindo desde a colonização,
por motivos os mais diversos: poder do latifúndio, distância
do Governo Central, e muitos outros fatores. Dessa forma, o expediente
deletério da oligarquia tornou-se num poder ad-infinitum, exercendo
esse poder pelo tempo que lhes conviesse, e que até aqui continua, agora com
uma nova geração dos seus descendentes.
No ano de 1907-1908, chegaram ao Juazeiro
três personagens distintos entre si, e que, apesar de diferentes em concepção,
foram decisivos às pretensões políticas do Padre Cícero. Eram eles: o Padre Joaquim de
Alencar Peixoto, conhecido nos meios literários do Ceará como Alencar Peixoto,
altamente explosivo e revolucionário; o mentor religioso do Padre Cícero, José Marrocos, que
deixava sua cidade-natal, o Crato, para fixar residência no Juazeiro; e o médico baiano
Dr. Floro Bartolomeu da Costa, vindo do interior da Bahia, dos Lençóis Diamantinos,
Capim Grosso, Jacobina e Patumaté, onde se dedicava à extração de minérios e
também praticava a medicina. Lá, ele chegou acompanhado de Adolfo
van den Brulle, estrangeiro, que também se dedicava à extração de
minérios. O engenheiro de minas, Adolfo van den Brulle, fazia parte de um sindicato francês que
tinha ramificações no Nordeste, nos Estados de Pernambuco e Bahia, cujo
sindicato tinha interesses nas referidas minas do Coxá.
Ao chegarem ao Juazeiro, foram
informados de que o Padre Cícero também detinha uma parte de terra nas
minas, foi então que o procuraram, e não como pensaram os próprios habitantes
do Juazeiro e a imprensa do Ceará (embora logo corrigido), de que lá foram
atraídos pelos milagres. A verdade é que não era “milagre” o que procuravam, e sim
fortuna, o que também não deixa de ser o maior dos milagres. Hospitaleiro e afável,
Padre Cícero deu-lhes as boas-vindas, e que se sentissem
O cavalheiro Adolfo van den
Brulle se dizia portador do título de Conde, por herança de família, título
este que mais tarde seria questionado pelo Deputado paulista Morais e
Barros e pelo Professor Lourênço Filho. Mas, enfim, Juazeiro hospedava um
nobre, de descendência francesa. O médico Floro Bartolomeu era um receptivo e
sedutor. Mestiço baiano,
adaptou-se facilmente à vida simples do lugar, talvez extasiado pela beleza
natural da paisagem verde que ostentava todo o Vale, ou pela aura de misticismo
que o Juazeiro transmitia até mesmo ao mais descrente dos homens fortes e de
posições arrojadas, como eram as suas. O fato é que, poucos dias após sua
chegada ao lugar, endinheirado, fez aquisição de uma fazenda em
Missão Velha, onde passou a residir, mas por pouco tempo, porque logo voltou
ao Juazeiro, passando a morar na casa do Padre Cícero. Em seguida, comprou boa e
confortável casa, onde viveu enquanto lá permaneceu. Mais tarde, ele desempenhou um
importante papel político no Juazeiro. Já com residência fixa, abriu consultório
médico, e,
ao lado,
uma farmácia. Solícito, não media sacrifício, atendia a todos que
o procuravam a qualquer hora, assim ia conquistando de mansinho a admiração dos
habitantes,
notadamente do Padre Cícero, tornando-se seu médico assistente (Amália Xavier, idem). Sentindo-se
realmente em casa, calmamente aguardou que os acontecimentos se desenrrolassem
a seu favor. Efetivamente, não demorou. Aderindo ao
movimento da emancipação em artigos no jornal O Rebate, despertando
admiração por sua dialética e pelos modos cavalheirescos, que se refletiam na
admiração de toda a povoação.
O jornal O Rebate, fundado em
1909, era de propriedade do Padre Alencar Peixoto e funcionava à Rua Padre Cícero, numa das suas casas
cedidas por ele, a de nº 343. Alencar Peixoto, além de dono do jornal, era seu Redator-Chefe. Inaugurado no
mês de Julho em meio a festividades, o jornal estampou na sua primeira
página uma fotografia do Padre Cícero, em tamanho grande. Não faltaram
colaboradores: o Professor José Marrocos, discretamente (detestava
política,
decepcionado pelo rumo que a emancipação dos escravos tomou e que não foi o
sonhado pelos abolicionistas, e o jornal do Padre Peixoto era
visivelmente político); Dr. Floro, o advogado rábula, José
Ferreira de Menezes Longe, Dr. Manoel Diniz, Antônio Esmeraldo
da Silva, farmacêutico, Coronel José Joaquim de Maria Lobo, e muitos outros,
que faziam parte do corpo literário do jornal. Mas o que prendia mesmo a
atenção do leitor era a lavagem de roupa suja nos artigos biliosos de Alencar
Peixoto, brigado com o Intendente do Crato, Coronel Antônio Luís, por motivos
políticos,
o que lhe valeu a saída da sua terra, o Crato.
Os achincalhes grosseiros não
eram só desferidos contra o chefe da comuna cratense, também
atacavam
o Vigário
Padre Quintino, que na certa tinha influído na suspensão de suas ordens. E não
só o Vigário
Quintino, mas também contra o Padre Tabosa (depois Monsenhor Tabosa) e a
comitiva episcopal, que tinham vindo ao Crato em missão diocesana, cumprindo
ordens expressas de Roma, lembremo-nos. Num sermão repleto
de desprezo e injúrias, chamavam a atenção para o caso do Juazeiro, dizendo ser uma
seita grosseira e infundada, criticando acerbamente os romeiros (alguns lá
tinham ido,
como o beato Manoel Cego, que acompanhou o Padre Cícero na
visita ao Bispo Manoel). Padre Tabosa, numa crítica desastrada, exigiu do beato que
fizesse um milagre para todos ali verem, já que o Juazeiro era palco de grandes
milagres,
só assim eles passariam a crer nos tais milagres. O beato, ingênuo e humilhado, respondeu
incontinenti: não, não sei fazer. Mas, sentado no meio-fio da calçada, riscou na areia a
palavra “milague”. O Padre Tabosa
retrucou: “está
errado”.
Sua resposta foi contundente: “Só quem sabe fazer perfeitim
mesmo, é meu padim Ciço”. Os sacerdotes presentes à cena grosseira e
estúpida caíram na gargalhada, aplaudindo o beato.
O Padre Alencar Peixoto, tomando
conhecimento do infeliz incidente, indignado, como todo o povo do
Juazeiro, cheio de razão, convenhamos, se sentiu ofendido,
despertando ódio e desejo de vingança. Ele então partiu para o ataque à comitiva,
particularmente ao Padre Tabosa, pela cena degradante, impondo
uma humilhação sem tamanho ao ingênuo beato, bem como a todo o povo do Juazeiro
e de além. Numa linguagem radical e contundente, anarquizou o clero. Foram tão
graves os insultos de parte a parte, que o Bispo Manoel, Bispo de Thale, Coadjutor do Ceará,
o chamou urgentemente ao Crato, onde se encontrava, para uma
conferência. Ele mesmo deu ciência a todo o povo do Cariri, através do seu jornal
O Rebate. Apelou, dizendo-se disposto a enfrentar tudo, com a
finalidade de limpar seu nome e o do povo do Juazeiro, que a
Comitiva Episcopal tinha manchado, caluniando, ridicularizando, difamando. Tudo
está estampado no O Rebate, ao qual tive acesso aqui no Rio, na Biblioteca
Nacional. Aliás, O Rebate me chamou a atenção pelo seu conteúdo, com notícias de Nova
York, da França e de outras capitais da Europa. Um artigo de página todo em
francês, que creio ser de autoria do Conde Adolfo, porque o jornal não apresenta
mais um bom estado físico, tornando-se difícil a leitura. Algumas receitas
culinárias, como a de um creme de aspargos de excelente qualidade. Hoje, a culinária chegou a
um ponto alto. Só se fala nela, há programas especiais de TV, revistinhas em bancas
de jornal,
restaurantes especializados em pratos, etc. O mundo parece ter aderido à arte da gastronomia. Saber cozinhar, hoje, virou status;
no Cariri de 1909, ela já existia; o que mostra um Vale desenvolvido e o bom
gosto dos seus habitantes na arte da mesa. Voltarei ao assunto em breve.
Alencar Peixoto, usando da
ironia, uma das suas armas prediletas, atacava brutalmente o Coronel Antônio
Luís, chamando-o de ladrão, arrogante, chefe e protetor de jagunços a seu
serviço e dos seus asseclas. Lendo-os, seus artigos nos lembram as Cartas Chilenas, em todos os detalhes,
não só pelas denúncias que fazia, mas pela ironia da sua crítica mordaz. O
Coronel Antônio Luís, na realidade, era o alvo dos seus inflamados
artigos. Ele foi o Tomaz Gonzaga do Cariri. A contestação aos seus inflamados
artigos ficou a cargo do Juiz da Comarca, Raul de Souza Carvalho, e de
José de Figueiredo, o Zuza da Botica. Aí a coisa se complicou, porque o Juiz
enveredou por outros caminhos, e voltou a falar do caso religioso do Juazeiro, acusando abertamente o
teólogo Marrocos, figura querida dos juazeirenses, e que tinha falecido
há menos de um ano, de ser o autor do sumiço dos paninhos ensanguentados e de todo o
burlesco dos fenômenos, chamando de puro embuste.
Aliás, a morte rápida e
impressionante de José Marrocos deixou no ar uma pergunta: a rapidez que se
seguiu,
após ter sido medicado pelo Dr. Floro, que Alencar Peixoto,
meses depois rompido com o Padre Cícero, insinuava ter sido o professor e
teólogo envenenado pelo médico Floro Bartolomeu, após este ter-lhe prescrito
umas cápsulas para debelar a pneumonia que o tinha acometido. Segundo o
testemunho da beata Isabel da Luz, professora e maestrina, que
dirigia junto com sua irmã Maria da Luz, em parceria com Marrocos, os eventos
religiosos do Juazeiro, na manhã daquele dia, ele parecia bem disposto, apresentando uma
sensível melhora. “Foi até a sacristia e procurou-me, para dar-me as
instruções para a execução do evento, a ser comemorado no dia seguinte, 15 de agosto, quando
seria encenado o quadro litúrgico da Anunciação da Virgem, já bastante ensaiado”. Que, após a reza do Terço,
comunicasse ao público a realização da magna data, batizada por ele de “Noite
das Estrelas”, que desejava fosse brilhante. Depois de lhe ter passado
essas recomendações, que julgou satisfatórias, retirou-se para o quarto onde
ocupava na casa do Padre Cícero, para repousar, e duas horas depois desse encontro,
após ser medicado, ele entra em agonia, falecendo em seguida, causando
estupefacção à beata, que, poucas horas antes, com ele
havia se entendido. Daí a suspeita do Padre Alencar Peixoto, sobre as cápsulas
medicadas pelo Dr Floro.
Para ele, a ascendência de
Marrocos sobre o Padre Cícero o incomodava. Vendo-se livre dele, seu caminho estaria
livre às
suas pretensões políticas, mesmo porque Marrocos nunca aprovou a ideia do Padre Cícero tornar-se político, ele, um desencantado
pelos rumos que a Abolição tomou, quando foi um dos seus
principais baluartes. Evidentemente, a influência do Dr. Floro sobre o Padre
Cícero tornou-se de tal forma que, com o andar do tempo, um não
podia prescindir do outro. A hipótese do envenenamento, levantada por
Alencar Peixoto, para uma parte da população do Juazeiro, refletia apenas seu
desapontamento por ter sido preterido ao cargo de Intendente. Inteligente, sentiu a ascensão
rápida do Dr. Floro, na caminhada da emancipação, quando fez admiradores
e adeptos consagrados. Suplantado seu ideal de tornar-se
Intendente do Juazeiro, seu ódio aflorou, e só lhe restou fazer denúncias, como o livro que
escreveu contra o Padre Cícero e todo o Juazeiro. Já para a ala anti-Floro, a
suspeita de Alencar Peixoto, ao levantar a ideia de
envenenamento, procede. O lugar que Marrocos ocupava na hierarquia e no
coração do Padre Cícero, Dr. Floro passou a ocupar, após sua
morte. Chegaremos
lá.
Volto a falar dos dois
recém-chegados, Conde Adolfo e Floro Bartolomeu. De estilos diferentes, o que
os ligava eram interesses comerciais nas minas de cobre do Coxá. O engenheiro Adolfo
Van-den-Brule, apolítico; o médico Floro Bartolomeu, a perfeita representação
do sertanejo, no seu modus-vivendis,
apesar de doutor e soteropolitano. Mesmo exercendo a profissão de médico no
interior, também garimpava nos sertões da Bahia, vivendo em contato com o homem
do campo, e esse contato deu-lhe um aprendizado adequado e preciso para os
embates que depois travaria no Juazeiro, impondo e dando um formato que atingiu
dimensões surpreendentes e inimagináveis.
Sua primeira aparição pública
para o povo do Cariri deu-se por ocasião da demarcação das minas do Coxá, quando, usando da palavra já como defensor do Padre
Cícero, em admirável retórica, demonstrando profundo conhecimento do Direito,
chamou a atenção dos presentes que lotavam aquela audiência tumultuada, porque
debaixo de um chuveiro de balas. Sem se intimidar, muito menos demonstrar medo, ele prosseguiu no
seu discurso. O conhecimento que tinha das leis provinha, segundo o escritor
Otacílio Anselmo, dos muitos anos em que ele fora escrevente de
Cartório em Salvador, e quando já universitário colaborou na imprensa baiana,
daí, diz o escritor, sua habilidade nessas pugnas (op. cit.). Essa audiência, que por tanto tempo
já vinha sendo desmarcada pelo poder político que ostentavam os seus muitos
donos,
como os Santos e Leites de Aurora, os Taveiras, os Fernandes, acrecente-se,
também,
o poder político dos magistrados. A situação vigente da política era a que
contava para tanta protelação, os supostos ou donos de fato das minas,
dependiam,
como se diz lá no Ceará, da política do momento. Às vezes, aquela facção estava
de cima, outra vez de baixo, e isso contava para os magistrados, que obedeciam
literalmente ao Presidente do Estado que estivesse no poder, que por sua vez
aceitava a imposição da oligarquia dos coronéis do latifúndio, conforme
constatações de Gustavo Barroso e Rui Facó.
Assim corria o tempo, com a demarcação
sempre protelada. Finalmente, com a chegada dos dois, Conde
Adolfo e
Dr.
Floro, ambos atrelados ao sindicato francês, que tinha interesses nas minas,
conseguiram a realização da audiência, embora feita sob intenso tiroteio,
depredações e incêndios, com a duração de 12 horas, deixando um saldo razoável
de mortos
e feridos. Um reforço da polícia foi chamado para dar
sustentação à sessão que tinha sido suspensa, mas de nada valeu, pois o tumulto
continuou, com a entrada em cena do caudilho Major José Inácio do Barro e sua
trupe de cangaceiros de mais de 50 homens. A sessão continuou depois de
paralisada. Nesse detalhe, a força do poder dos coronéis do
latifúndio. A
lei era o que menos importava a eles, era um meio anárquico, na expressão de
Gustavo Barroso.
O latifúndio herdado da
colonização só foi crescendo, aumentando o poder consolidado
pela industrialização da cana de açúcar, dando ascensão social e
política aos donos de terras, senhores do latifúndio. Daí surgiu a figura
curiosa do Senhor de Engenho, que os estudiosos do assunto dizem ser a versão
do antigo barão do feudalismo europeu. Confiantes de sua posição, usavam prerrogativas
de autoridade, baseados no princípio da lei e da ordem, que eles mesmos decretavam.
A distância
fazia o esquecimento do Governo Central, quando agiam seguindo seus próprios
princípios de autoridade. Segundo a memória coletiva, fonte da verdade, o
número de cangaceiros excedeu às expectativas, chegando a um total de quase 300
homens
Assim foi a estreia do médico Floro
Bartolomeu num cenário violento, entremeado por mortes e incêndios, numa
demonstração de força dos coronéis, na plenitude da fúria do que era o sertão
na sua realidade cruel. Certamente, o episódio não deve ter-lhe
surpreendido,
pois vindo de uma região de conflito, Lençóis e Jacobina, região baiana
de constante guerra pelas minas de ouro e diamante, e também de terras. Dono de
uma personalidade corajosa, forte e indomável, não deve ter se abalado. Adiante, veremos sua
trajetória política no Juazeiro, quando passou a dar ordens, segundo o Padre
Manoel Macedo, e ai de quem não as obedecesse. Continuo a falar das minas do
Coxá. O
poder pela posse delas era tão complexo, que, ainda em l960, a imprensa de
Fortaleza dava conta de que a luta, iniciada há l00
anos, continuava ininterrupta, já tendo passado ao Supremo Tribunal Federal,
que havia dado ganho de causa ao senhor Antônio Fernandes, mas que as outras
partes tinham entrado com novo recurso, a fim de obstar o ganho da
causa. Segundo a imprensa, a demanda deveria continuar, acrescida agora da
família Macambira, que tinha comprado dos Padres Salesianos a parte que
pertencera ao Padre Cícero, e cada um pedia cifra astronômica de Cr$ 30
milhões de cruzeiros de indenização.
No jornal O Rebate, Dr. Floro, num extenso artigo
sobre as minas do Coxá, faz alusão ao Coronel Alves Teixeira de Milagres, a
respeito das tais minas, que talvez o tenha incomodado.
Continuação
dos Anos — 1908 a 1914
Realmente, com a chegada ao
Juazeiro dos três personagens, José Marrocos, Padre Alencar Peixoto e Floro
Bartolomeu, o desejo do Padre Cícero de emancipar o Juazeiro tornar-se-ia realidade. Foi
fundado o jornal
O Rebate, que deu sustentação ao movimento, chamando a atenção dos seus
moradores para o fato. Eram páginas inteiras, aliás,
muito bem escritas, influenciando, calando no ânimo da massa o
desejo de libertar-se do jugo do Crato e do poder hegemônico do Coronel Antônio
Luís.
Apesar das investidas agressivas
de Alencar Peixoto, é nele que vamos encontrar extenso relato sobre a sociedade
da época,
dos nove aos doze, quando deixou o Juazeiro. Apesar de toda sua fraqueza, sua
confusão, seus relatos são caricaturas que adquirem vida. Veremos à frente.
Compondo essa tríade de dispostos
a se libertarem do jugo cratense, o advogado rábula José Ferreira
de Menezes Longe, o moço Paulo Maia, que teve papel decisivo pela propaganda
oral que irradiava nos quatro cantos do Juazeiro, e também o próprio Padre
Cícero, com seu grande poder de atração.
O movimento tomava vulto,
especialmente pelos artigos do Padre Alencar Peixoto. O jornal do Crato, Gazeta
do Cariri, rebatia seus artigos
inflamados, pela pena do Juiz Raul de Souza Carvalho, e do já aqui citado José
Alves de Figueiredo. Nesse clima de acusações, de vilipêndios, o movimento
crescia com a adesão da população. Dr. Floro, de simples espectador a
princípio, passaria a defensor entusiasmado da causa. Já adaptado ao meio e ao
convívio da gente simples, mas também de uma sociedade que lá encontrara,
letrada e cordial. Entusiasmado, o Padre Cícero mandou fazer um
censo da então povoação, que a essa altura já tinha uma população fixa de quase
20 mil habitantes, um desenvolvido comércio, com uma renda de 30 contos de
réis, deixados pela população flutuante, que lá ia enchendo suas ruas. Essa, uma das causas que
fazia o Chefe do Crato não abrir mão do domínio do Juazeiro, quando toda essa
renda era enviada para os cofres do Crato, de quem dependia politicamente.
Com os dados do recenseamento que
mandara fazer em mãos, levou-os ao Intendente Coronel Antônio Luís, mas sua
reação foi imediata: resistência ao projeto da emancipação. Para ele, a independência do
Juazeiro soaria como dar poderes aos seus inimigos de Missão Velha, Barbalha e
Milagres, todos seus desafetos, e também ao Sr. Joaquim Bezerra de
Menezes, este já desacatado anteriormente pelo caudilho, em sua própria casa no
Juazeiro, por nenhum motivo, simplesmente para barrar a emancipação.
Diante da resposta contundente e rude do arrogante Chefe do Crato, o Padre
Cícero, um obstinado, não desiste. Escreve ao Presidente Accioli, e a
resposta também foi incisiva: não. Embora prometesse que
iria estudar o assunto, talvez para o ano fosse mais conveniente, disse o
inoperante e ausente Presidente. Frustrado ante as negativas, nada mais tinha a
fazer,
senão empenhar-se com afinco junto ao povo, que o obedecia literalmente, e fazer a desejada
emancipação. E foi o que aconteceu.
Um bloco de resistência formou-se
com a finalidade de não mais pagar os impostos ao Crato, ordenado pelo Padre Cícero. Pagamento
de impostos, somente os estaduais e federal. Ao tomar conhecimento
dessa ordem, inconformado, o Coronel Antônio Luís ameaçou invadir o Juazeiro
para receber os impostos devidos, e avisava: contava com mil homens
Os dois primeiros itens diziam: “1) Não pagar mais
impostos ao Crato, pagar somente os estaduais e federal. 2)
Caso sejamos invadidos, como ameaçados estamos, usar das armas, e morrer ou
vencer, pela liberdade do Juazeiro”. Essa era a palavra de ordem que
encontrava eco na população do Juazeiro de ponta a ponta.
O pagamento dos impostos ao
Crato, quantia elevada para o tempo, foi suspenso, por ordem do Padre
Cícero. O
povo só via nesse seu gesto um ato de coragem, injetando incríveis esperanças
de uma próxima liberdade. A marcha de civismo continuava, com a adesão das
pessoas, em passeata ordeira, acompanhada pela Banda de Música do Mestre
Pelúsio, ao som do Hino da Independência do Juazeiro, quando também já o tinham
batizado de “Juazeiro do Padre Cícero”, e pelas ruas acanhadas tremulava
a bandeira do novo município. Um curioso pormenor terá que ser registrado.
Juazeiro tem mesmo uma história singular dentro da História cearense, a começar
desde o caso do milagre da hóstia ensanguentada, quando enfrentou
todo o episcopado brasileiro, ultrapassando os muros paroquiais, chegando à Roma, ganhando
notoriedade. Em seguida, fez sua emancipação, contra a
firmeza e o endurecimento do Chefe cratense, Coronel Antônio Luís. Em sequência, veio a Revolução de
1914, culminando na deposição do Presidente Franco Rabelo.
No clima de otimismo que estavam
vivendo, afigurava-se-lhes uma próxima liberdade, mas de repente chega um
telegrama do Presidente Accioli para o Padre Cícero, no qual exigia que
imediatamente fosse feito o pagamento dos impostos ao Crato, já em atraso, e afirmava
categórico não ser possível atender ao pedido de independência do município,
não nesse ano. O telegrama foi lido para o público e transcrito no jornal O
Rebate. Mas o povo inconformado reagiu à ordem do Presidente,
e proclamava que não pagaria os impostos exigidos pelo velho dono do poder
cearense. O Padre Cícero, confiante na disposição unânime da massa em lutar por
sua emancipação, telegrafa ao Presidente nos seguintes termos:
“Presidente Accioli - Fortaleza. O povo exige sua emancipação, e reage a
pagar os impostos ao Crato: digo a V. Excia retirar-me-ei
do Juazeiro, caso seja efetuada a ordem de invasão para recebimento dos mesmos
a fim de não assistir às cenas de violência e sangue. O povo está pronto a reagir.
Minha retirada do Juazeiro servirá de protesto perante a Nação e o Clero,
contra tamanha barbaridade. Assinado: Padre Cicero Romão Batista.”
Ao receber o telegrama de uma
verdade absoluta, porque seria isso mesmo que aconteceria, caso o Juazeiro
fosse invadido pelas armas, a mando do intendente do Crato, naturalmente o
Presidente Accioli fez com que o Coronel Antônio Luís, que era seu parente e
correligionário, desistisse da ideia de invasão.
Esbanjando civismo, patriotismo e
força, síntese do que sempre foi o Juazeiro, no dia 7 de setembro de 1910 foi
dado o grito de liberdade, ao som dos hinos patrióticos e dos foguetes que vararam os céus do Juazeiro. Paulo
Maia, um ardente entusiasta da causa, terminou por dar vida ao ideal, erguendo
num gesto de elegância a bandeira que conduzia acima das
cabeças ali presentes. Cheio de ardor, deu o grito que ecoou por toda a praça:
“Viva a independência do Juazeiro”, ao que o povo em uníssono
respondeu: “Viva a nossa independência”. Os laços de subserviência ao
Crato partiram-se. Naquele instante, Juazeiro ganhava sua liberdade, depois de 100 anos de
jugo.
Os discursos romperam por todo o dia, quando, altamente inflamado,
Alencar Peixoto usou da palavra, fazendo a apologia do povo juazeirense, numa
retórica imponente para, em pouco tempo, reverter o
quadro, anarquizando-os. Usando da palavra o Dr. Floro, por fim, dentre outros, o
Padre Cícero, agradecendo ao povo a confiança e solidariedade. Vale dizer que a
emancipação do Juazeiro foi feita sem tumulto, sem derramamento de sangue (o
comum daquela época), sem nenhum tiro, exceto o dos rojões que cobriam de
fumaça o céu azul do Juazeiro, em frenéticos agradecimentos. Em passeata
ordeira, a multidão, concentrada na Praça da Liberdade, levou o Padre Cícero e
os demais líderes do movimento até sua residência, ao som do hino do município. O
Presidente Accioli, premido pelas circunstâncias, reconhece o feito, e a 22 de
Julho de 1911 era ratificado e reconhecido o novo município, com solene festa
para todos, por todos, princípio implantado desde que o Padre Cícero chegou ao
pequeno povoado, nos idos de 1872. Lá não havia exclusão nem social, nem
religiosa, nem de etnia. Dessa forma, ele cumpria à risca a fidelidade
ao princípio da democracia. Ele foi sem dúvida o precursor da cidadania, em
terras brasileiras; dizer o contrário é falsear a história do Juazeiro,
mutilando-a, descumprindo o verdadeiro papel de registrar para a posteridade a
realidade histórica.
No dia 4 de Outubro de 1911, de fato foi
confirmada a criação da Vila, com festas em todo o Juazeiro. Um banquete na
residência do Padre Cícero para 300 pessoas foi mais um dos acontecimentos
daquele dia festivo pela maciça presença dos 18 Intendentes dos municípios
vizinhos. Sendo que o maior destaque era o Coronel Antônio Luís, não só por
render-se incondicionalmente à liderança do Padre Cícero, que a
partir daquele dia, tornar-se-ia o maior líder político de todo o Vale do
Cariri, com reflexos depois em todo o Ceará,
Exibindo cordialidade,
cumprimentava a todos sem exclusão, acoplada a gestos refinados, ele dava o tom
de elegância ao grande evento. Usando um terno bem cortado, feito nas melhores
alfaiatarias da capital, com colete à moda da época, fina camisa de
seda, com abotoaduras em ouro, relógio de algibeira também em ouro, atestando
seu poder de posse, herdeiro que era de terras e comércio. Confirmando assim o
título que lhe davam de “o Princípe do Cariri”. De invejável
porte atlético, sedutor, despertava admiração. Acompanhado da esposa, cumprimentava a todos, num paradoxo,
quando,
meses atrás, era só insulto e agressão pelos jornais. Segundo as crônicas
locais,
sua presença na solenidade não foi um ato de humilhação, nem de grandeza. Como
político experimentado que era, não podia ignorar que, ali, o Padre Cícero
ascendia a um degrau tão alto na esfera política do Vale, que era melhor tê-lo ao seu lado, e ao seu testa de ferro, Dr .Floro. E não deu
outra: anos depois, marchariam juntos na derrubada do Presidente do Ceará, o Coronel Franco
Rabelo. Embora a amizade ao Padre Cícero fosse eterna, pois não podemos
esquecer que era afilhado de crisma de seu pai, o segundo na hierarquia dos
Antônios Luíses, que custeou todos seus estudos no Seminário, até vê-lo
sacerdote. Sua presença na solenidade da emancipação do Juazeiro só consolidou
os laços de amizade e de aliança política. Mesmo assim, parecia dizer “aqui está o Chefe de
todo o Vale, meu poder é eterno”. Na sua mente, quem sabe, se julgasse o Cesar
Caririense, daí suas reações de arbitrariedades e de incoerência, marca dos
caudilhos e do poder autocrático, por ser
o terceiro na hierarquia de domínio no Crato.
Ficaria essa narrativa inconclusa
e desfigurada, se não descrevesse o que foi a
grande festa da vitória da emancipação do Juazeiro, que teve o crivo direto de
Floro Bartolomeu, escreveu Amália Xavier (op. cit.), analisando o momento.
De acordo com o que escreveu, conclui-se que foi o fino; o
esmero referente à gastronomia foi impecável. Feito com rigor sob o olhar
atento do médico baiano, com a supervisão da governanta firme e discreta, Joana Tertuliana de
Jesus (Beata Mocinha), coadjuvado pela elegância da mestra da socialização,
professora Isabel da Luz, a Mestra amada dos Juazeirenses, na expressão da
mesma escritora (op. cit.). As
crônicas do histórico dia dão conta do que foi o banquete de 300 talheres,
quando,
sentados às
mesas, personagens não só da política da região, mas políticos de outros estados
próximos, solidarizando-se com o Padre Cícero, que tinha ascendido
a uma grande posição de poder político na região.
As moças que serviram o banquete
estavam vestidas à caráter, invenção do Dr. Floro, inovando,
dando um tom de modernidade, de cosmopolitismo, ao Juazeiro. Esse
parece ser o sentimento que queria passar naquele momento: as mesas, simetricamente
dispostas,
formavam as iniciais do Padre Cícero, ornamentadas com flores naturais, do qual
o Cariri é pródigo, cobertas por toalhas finas, com bordados feitos à mão. Jogos de pratos
em porcelana fina, copos de cristal e reluzentes talheres; ao lado, o tradicional
guardanapo de linho branco, personalizado com o monograma
bordado em alto relevo do dono da casa (PCRB) - Padre Cícero Romão Batista. As cadeiras
em cor nogueira, de espaldar alto e assento de palhinha trançada, davam um aspecto de
nobreza e requinte. Era assim o mobiliário da residência do Padre Cícero, num tom de
modernidade e beleza, mas discreto. Todo esse aparato de louças de porcelanas e
cristais finos veio das Praças de Fortaleza e do Recife principalmente, pois àquele tempo,
considerado “célula-mater” do Nordeste.
O menu saboroso feito com
esmero, ponto alto do cardápio requintado, segundo a memorialista Albuína
Figueiredo, em longas palestras comigo nas tardes mornas do Juazeiro, das quais
guardo perenes recordações. As informações que ora se seguem, ela as obteve dos
seus antepassados, evocando-as, numa narrativa solene e quase elegíaca, com
detalhes minuciosos, dando a impressão que o fato que narrava tivesse
acontecido no dia anterior, e não há cerca de mais de cinco
décadas. Jamais as esqueci. Longe estava ela de supor que um dia daria vida aos
momentos por ela tão bem detalhados. Registrando, guardei-os, e hoje são as
impressões da notável memorialista e minha amiga que ajudaram a dar vida a esta
história de época, da vivência dos seus habitantes, dos seus hábitos culinários, das suas festas, da
política cheia de altos e baixos, enfim e mui especialmente, das lições sábias do
Padre Cícero. A ela, rendo aqui minha homenagem póstuma de eterno
agradecimento. O esmero do banquete farto, requintado, daquele dia memorável
para eles, porque livres do jugo do Crato, constava do seguinte: carne de
vitela, costela de carneiro assada, peru, carne de sol, pernil de porco,
farofa, arroz, e finalizando, a célebre galinha ao molho pardo, uma especialidade do
Ceará.
A sobremesa, o fino, pela riqueza
dos seus doces de acentuado sabor, como o doce de laranja limão, de Barbalha, de sabor inigulável,
inimitável; o tradicional doce de leite, o de Buriti, de um amarelo vibrante
que nos conduz impreterivelmente ao pecado da gula. Que dizermos da deliciosa
rapadura macia, que chamamos de batida. Temperada com cravo e erva-doce, perfumada, ela satisfaz a
qualquer paladar. Sem esquecer dos finos e delicados bom-bocados,
translúcidos, os sequilhos macios, finos, gostosos, confeccionados pelas
mãos de exímias artesãs que faziam parte da criadagem da casa do Padre Cícero.
O Cariri é notável pela riqueza da sua culinária. Assim foi a festa da emancipação
do Juazeiro, de todos, e para todos. O papel relevante do Dr. Floro, não só nessa
ocasião, mas nos anos que se seguiram, é inegável. Ele trouxe, como bem disse o
Padre Gomes, certa modernidade ao Juazeiro, passando por cima do fanatismo
exagerado. Apesar de todo seu empenho na transição do Juazeiro à Vila, foi
considerado depois um déspota.
Sua festa da liberdade, com o seu
banquete de menu requintado, saboroso, bem como as formalidades que o
acompanharam, deixando transparecer tons de elegância e de civilidade, não
poderá ser esquecida. À época, Juazeiro já tinha o seu jornal,
fundado pelo Padre Alencar Peixoto, e o Padre Cícero mantinha contato com
países da Europa, na remessa de dinheiro para conventos, para a Ordem dos Mendicantes da Terra
Santa. Para não deixar de registrar e correr o risco de cair em esquecimento,
minha saudosa amiga Albuína Figueiredo acrescentou que o mar de comida daquele
dia histórico foi extensivo à boa parte da população. E outro
detalhe: a colaboração de todos os Intendentes da região para a grandiosa festa
do “Para Todos”, com remessa de carnes nobres de boa qualidade. Data desse
tempo, segundo informações do Dr. Belém de Figueiredo, destacado médico e
figura de relevo do Juazeiro, que conheci no tempo em que lá morei. Disse-me
ele: a mesa farta e requintada da casa do Padre Cícero tornou-se também
histórica, pois apreciada e elogiada por altos políticos que o procuravam à caça de votos, e
também jornalistas, escritores e Comissões que lá iam, como a Missão Rondon. Apesar de toda essa
hospitalidade e do requinte de sua farta mesa, enfim, de todas as demonstrações
de hospitalidade, houve os que sem nenhum motivo plausível, caso do Professor
Lourenço Filho e do Deputado paulista Moraes e Barros, que intencionalmente ou
por um prazer mórbido de reduzirem-no a nada, escreveram contra ele e o
Juazeiro,
numa explícita demonstração de desprezo.
Ainda falando da grande festa da
emancipação, ela não se circunscreveu somente ao grande banquete, fato observado
por muitos autores. Os festejos foram além. Um baile surpreendeu os presentes,
pela distinção e ornamento do salão, quando seu assoalho estava luzidio e
escorregadio, pelo uso da grande e quase exagerada carga de cera
esparmacete ali usada, são palavras da citada Amália Xavier, que escreveu: “Os
casais de dançarinos levitavam, fluíam ao som de maravilhosas valsas, do fox
trote e velhas polcas”(op. cit.). Em meio a tantos
acontecimentos e alegrias desse dia histórico, uma surpresa: à noite, Juazeiro estava
iluminada à
luz de acetileno. Era o começo da modernidade, que Floro Bartolomeu, o verdadeiro
arquiteto da política juazeirense, imprimiria ao lugar dali para frente.
Criado o novo município, com a
investidura no cargo do seu primeiro Intendente, sob o crivo do Juiz da Comarca
de Barbalha, Dr. Arnulfo Lins e Silva, depois de assinada a ata, pelo
Secretário da mesa e convidados especiais, foi lavrada a nomeação do Padre
Cícero, escolhido por consenso, depois de uma prévia consulta ao povo, que o
via como o real conhecedor da psicologia de toda aquela gente que lá morava.
Portanto, com pulso forte para comandá-los. Jornalistas do passado, e mesmo
escritores contemporâneos, caso de Otacílio Anselmo versus Padre Gomes (idem), afirmam ter o
Padre Cícero se autonomeado Intendente, detalhe nascido das afirmações de
Alencar Peixoto, em seus ácidos artigos. Entretanto, a verdade é que, sendo ele um cultor
da democracia, houve uma prévia, quando a população foi deveras
consultada. Escolhido por antecipação, e por verem nele as qualidades
necessárias para comandar uma população de mais de 20.000 habitantes fixos,
fora a população flutuante que diariamente lá chegava. Ele seria o único capaz
de conduzir a massa, porque conhecedor da sua psicologia, com uma convivência
de mais de 36 anos batidos. Assumindo a prefeitura, não fugiu à regra do tempo,
dominou o Juazeiro por longos 12 anos.
Para muitos, o ponto alto da
grande festa teve como centro de atenção um documento de alta valia, pelo seu
conteúdo para uma época conturbada, de grande tensão. O documento era um apelo à paz. Mesmo assim, foi criticado por
jornalistas e escritores, quando interpretaram o documento
como dando poderes inigualáveis para os chefes da região, todos beligerantes e
protetores dos fora da lei. O Padre Cícero, já aí com poderes políticos
assegurados, juntamente com o Juiz que presidiu a histórica sessão, Arnulfo
Lins e Silva, idealizou esse instrumento de paz. E o que poderia ser eficiente,
dadas as circunstâncias do meio, tornar-se-ia inexequível, pois o seu
próprio criador logo depois sofreria as consequências. O documento, que foi batizado de
“Pacto de Paz”, ou “Artigo de Fé Política”, continha nove
itens, dois dos quais referiam-se ao apelo pela paz, e pedia com
insistência que, capturados os fora da lei, fossem de fato entregues à
Justiça. Apelavam para que os Chefes não os dessem guarida e apoio,
entregando-os à Justiça. Os grandes cangaceiros daquela época tinham o
apoio dos coronéis das terras, eram raros os casos, o de Antônio Silvino e
Senhor Pereira, por exemplo, este para vingar a morte de um irmão. Na
verdade, era a grande problemática dos sertões daqueles tempos. Conforme depoimentos
antigos,
era a sanha dos coronéis do latifúndio, inconciliáveis entre si, pelo poder
das terras. Apesar da boa vontade dos criadores do “Pacto da Paz”, ele jamais
poderia subsistir realmente ao meio anárquico, onde o que contava era mesmo o
poder dos chefes que tivessem maior número de bandoleiros, que a um simples
toque de berrante, reunia centenas deles.
Por tudo isso, o documento da Paz
foi efêmero, e como efêmero, tornar-se-ia inócuo e relegado, passaria ao
esquecimento. Por ironia do destino, seu próprio criador seria vítima do seu
ideal, e sofreria as consequências do seu ato, como comenta o
autor de Beatos e Cangaceiros, Antônio Xavier.
Segundo o escritor, o Juiz Arnulfo Lins e Silva, por não concordar com um dos
Chefes de Barbalha, recebeu o prazo de 24 horas para deixar a cidade, ou então
seria “moído
à
cacete.” Como sempre, o Padre Cícero
interveio, evitando tamanho desatino e desmoralização para o Judiciário. Em
telegrama urgente, solicitou ao Presidente Accioli um prazo maior para que o
magistrado dali saísse com a dignidade que o cargo lhe outorgava. Homologado o
município e seu Intendente já nomeado, as decepções já haviam irrompido.
O Padre Alencar Peixoto,
pretendente ao cargo, fechou seu jornal O Rebate, que tanta
sustentação dera ao movimento da emancipação, não só, é bom lembrar, ao
movimento político, mas fez também um momento social do Juazeiro. Retirando-se
de lá,
seguiu para o Acre - o Acre de tantos outros cearenses lá levados pela seca, ou
atraídos pelo embalo onírico da borracha.
O Padre Alencar Peixoto nunca foi
subserviente ao clero, desprezava as regras eclesiásticas, fumava e bebia
socialmente, tinha cabelos longos, e isso, na época, era considerado pela
Igreja um acinte. Talvez por isso, estivesse suspenso de ordens. A memória não
registra se teve amores. Se os teve, foram tão sutis, que
jamais vieram a público. Depois do rompimento político com o Juazeiro, numa literatura
bizarra, anárquica e exótica, como era do seu feítio, ele exumava os
personagens mitológicos, e numa sátira cruel fazia
alusões irônicas com pessoas ligadas ao Padre Cícero, de preferência. Mas não
foi só ele o único a romper politicamente. O cidadão José André, que também fora
preterido desde o começo do movimento da emancipação, criou uma dissidência, e
uma nova ordem ele quis implantar no recém emancipado Juazeiro, com a nomeação do
Tenente José do Vale para Delegado, logo exonerado da função.
O Coronel Joaquim Bezerra de
Menezes, também preterido na fase embrionária do projeto de emancipação, formou ao lado dos
dissidentes do Padre Cícero, embora discretamente. Essa dissidência
terminou por influir, e marcar, o grave momento da vida do
Juazeiro que esbarrou na Revolução de 1914, como veremos na sequência dos próximos
capítulos.
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CAPÍTULO 14
PADRE CÍCERO E OS GOVERNOS ANTÔNIO ACCIOLI
E FRANCO RABELO
A emancipação política do Juazeiro
lhe confere poder, acelera seu desenvolvimento, seu comércio florescia, gerando renda, suplantando muitas
cidades ao seu redor. Antes de 1911, lá já existiam duas fábricas de descaroçar
algodão; uma de propriedade do Padre Cícero, a outra, da família Bezerra de Menezes,
cujo algodão, já prensado e em plumas, era enviado para Fortaleza, de
lá seguindo para a Europa e Estados Unidos. Seu progresso era evidente, atraindo pessoas das
mais variadas regiões e condições financeiras. O maior contingente humano era
de Alagoas, seguido por Pernambuco e Paraíba, daí sua etnia mesclada (de acordo com vários
autores, existia no Juazeiro de então até remanescentes de Canudos, cujos
personagens foram decisivos na sedição de 1914). Efetivamente, o grande contingente
humano extrapolou, Juazeiro virou um formigueiro humano. Na leva de migrantes
vieram pessoas das mais diferentes categorias: comerciantes, fogueteiros,
santeiros, ferreiros com suas forjas, e artesãos, que fizeram do Juazeiro o
maior polo de artesanato do Nordeste, e misturados a essa leva de
aventureiros, também os fora da lei.
A beleza dos fogos de artifício
dos fogueteiros que lá chegaram era surpreendente para a época, tornando-se
conhecida Brasil afora. Os santeiros, idem, pelo esculpido das
lindas imagens de grande perfeição. Mais tarde, sobressaiu-se na arte do entalhe
Mestre Nosa, premiado na França por seus trabalhos
O braço humano fez o sustentáculo, com a plantação, na Serra do Araripe, da mandioca, do
algodão, milho, e diversas outras leguminosas, que fizeram do Cariri um
apreciável celeiro. A prosperidade era visível. Após esse momento
surpreendentemente transformador, o Juazeiro ganhou vitalidade e
um progresso crescente. Já não era mais o lugar sombrio e lúgubre descrito por
Otacílio Anselmo, em crítica contundente (op. cit.) O fluxo de pessoas
lá chegando para se estabelecer comercialmente era contínuo, enquanto a romaria
chegava ao auge. Toda essa efervescência de pessoas no lugar deixava um saldo
razoável de numerário, e justamente foi esse setor que fez na verdade o
desenvolvimento financeiro do Juazeiro. Observemos que lá não existia mão de
obra qualificada, ela veio com os adventícios, naturalmente.
O jornal O Rebate registra a chegada
dessas pessoas ao Juazeiro. Nele, está inserida propaganda da Casa
Comercial de tecidos e miudezas, de Manoel Vitorino da Silva, originário de
Garanhuns (PE), que fixou-se no Juazeiro para sempre. Era compadre e amigo
do Padre Cícero, tornou-se figura de destaque política e socialmente. Bem como
a de João Batista de Siqueira Cavalcanti, também pernambucano. Não só ele
se destacou comercialmente, muitos outros da Paraíba, e
principalmente de Alagoas.
A situação religiosa do Padre
Cícero continuava inalterada, despido de ordens e com a Igreja interditada, pormenores que não
mais o abalavam, acostumara-se a conviver com as medidas draconianas do Bispo Dom Joaquim. A
peregrinação, porém, continuava ininterrupta, aos romeiros nunca interessaram
as medidas diocesanas, a eles sim, interessava-lhes ver e ouvir seu guia e
pagarem suas promessas à Padroeira, mesmo sem ter acesso
ao recinto sagrado da casa de Deus, porque as portas estavam lacradas. Ao
chegarem à
Meca,
ali mesmo,
no adro, iniciavam o ritual do acendimento das velas, entremeado de canto
de louvor e agradecimentos, cujo ritual é o mesmo até hoje. O interdito da
Igreja causava desolação, espalhando um ar sombrio ao lugar, mas nunca de
desânimo, que logo era quebrado pelo espoucar dos foguetes, costume que até
hoje subsiste.
A ordem drástica do Bispo extrapolava o
limite do compreensível, por subtrair do povo do Juazeiro, de católicos convictos,
o sagrado direito de ir à Casa de Deus. Para os peregrinos, o pior, após dias de
uma caminhada extenuante, sob a inclemência de um sol impiedoso, ou em noites
chuvosas dormidas ao relento à beira das estradas, enfrentando
perigos os mais diversos. Chegar ao seu destino, e encontrar
as portas da Igreja lacradas, era uma lástima. A ordem caústica do Bispo até hoje provoca
espanto,
lendo-se os documentos da época, concernentes à história do milagre, que o clero
transformou numa triste história.
Difícil é lembrar que tudo isso
partia da hierarquia, sob o comando de Dom Joaquim, com o apoio evidente
do alto Episcopado. Talvez, lá do alto do seu nicho, a linda Santa
soluçasse de dor ante o quadro tão desolador. Apesar de todo esse clima, o
Padre Cícero de fato ia acumulando uma enorme soma de poderes: Intendente, com
o apoio de todo o Juazeiro, 3º Vice Presidente do Estado, anos mais tarde, Deputado Federal,
embora jamais tenha assumido nenhum desses cargos, exceto a Prefeitura. Como já
escrito,
nessa época, dominava o cenário político do País o Partido Republicano
Conservador, sob a égide do Senador Pinheiro Machado, ao qual era filiado o
Presidente crônico do Ceará, Dr. Antônio Accioli. A
maioria dos membros do Partido eram pessoas de poder monetário e conservadoras. Dele, fazia parte o Padre
Cícero, que se tornou uma figura de grande prestígio, quando foi
transformado em Conselheiro político, não só do Estado, mas também de outros Estados do Nordeste, incluindo aí o
Presidente João Pessoa, Presidente da Paraíba, e outros.
Com a emancipação do Juazeiro, ele adquirira
prestígio político incalculável. O Velho Presidente, expressão cunhada
pelos jornais,
vivia alheio às condições de miséria em que se debatia o povo, com seu governo
inoperante, símbolo do atraso, da inércia e da opressão, de uma política
anacrônica. O abandono do Estado era visível, principalmente no sertão, onde
pontificava o arbítrio, imperando o braço forte do fazendeiro, e paralelo a esse
poder,
o jagunço,
uma figura curiosa, que de salteador de estrada, transformou-se em bandoleiro,
depois em cangaceiro a serviço dos coronéis do latifúndio, escreveu Rui Facó.
Fortaleza não se desenvolveu, o marasmo era uma realidade incontestável, como
atestam os registros da época. O povo cansou, e representado pelo mundo
intelectual da Faculdade de Direito, que não compartilhava com esse estado de
coisas, formalizou uma frente de oposição ao inócuo Presidente.
Fazia parte desse grupo de
intelectuais da Faculdade de Direito pessoas de brilho, como Joaquim Pimenta, mais tarde convertido
ao marxismo, Boanerges Facó, Florêncio e Francisco de Alencar, Júlio Maciel,
Caetano Estelita, Hermenegildo Porto, João Mendes de Carvalho, Agapito dos
Santos, Valdemiro Cavalcanti, Gustavo Barroso e o jornalista João Brígido, que, com sua inteligência
brilhante, comandava o jornal Unitário, fazendo críticas ao Governo, e conquistava adeptos.
Polêmico, tinha seu segmento, apesar de posições contraditórias na maioria das
vezes, de acordo com o momento. Era tido por alguns como um panfletário, mas
era ouvido e sua voz, acatada. Fluminense que fez história no Ceará, política e
cultural, fundando jornais numa era remota, como O Araripe, na cidade do Crato, no
ano de 1854,
além do acervo histórico que deixou, sobre a História do Ceará, até hoje
consultada. Sob a égide dessa plêiade de estudantes de Direito, a frente foi
formalizada, conseguindo sensibilizar o povo, que amargava o Governo do
Presidente Accioli, e que desde 1904 já insistia por sua saída do Governo. Até
que numa tarde, por ocasião de um comício na Praça do Ferreira, de fato
sua saída foi consumada, o povo aos brados de “Fora Accioli”, quando de repente
a polícia ocupa a Praça, atirando a esmo, fazendo muitos feridos, porque também
houve revide, terminando com um fim trágico: a vítima, uma menina de apenas
dez anos de idade, que acompanhava seus pais.
O povo enfurecido e indignado
seguiu rumo ao Palácio da Luz, antiga residência dos Governantes
da época. Revoltados, tentavam invadir o
Palácio, exigindo sua imediata retirada, para o bem do povo cearense.
Os jornais Unitário e Correio
do Ceará, depois do trágico acontecimento, deslancham uma oposição cerrada ao
seu governo, avolumando-se uma onda de revolta em toda Capital, e derrubam-no
do poder. Aliás, em 1908, já o tinham tirado da Presidência, só que depois ele
voltou pela força da oligarquia reinante, com destaque para o interior, onde as
eleições eram feitas a bico de pena ou sob a mira do rifle. Nesse fim de 1911,
com a aproximação da eleição de 1912, o povo, que é mestre sábio, como disse o
eminente Afrânio Peixoto, entendeu a manobra do velho Presidente, que insistia em
continuar no poder, e a tempo reagiu, formalizando um bloco, barrando seu desejo
de novamente concorrer à eleição que se aproximava. A
frente amplia-se, ganhando a adesão do Sindicato dos Marítimos e a
participação de alguns coronéis do interior. A essa altura, seu desprestígio era
enorme. O
humor engraçado do cearense para apelidos batizou-o de Velho Babaquara. Com
certeza,
na História Política do Ceará, tenha sido o governante que mais empregou
parentes na administração pública. O nepotismo rolou solto, polícia truculenta,
e principalmente desgoverno, marcou o longo período do Governo Accioli, que
havia herdado o bastão do poder do seu sogro, o Senador Tomaz
Pompeu. Comícios, boletins, artigos em jornais contra sua permanência no
poder era a tônica dominante durante meses, para terminar com um motim de
várias horas, quando outra vez a polícia enfurecida atira contra a multidão reunida na Praça do
Ferreira, por ocasião de uma passeata, onde o refrão, o mesmo - sua renúncia.
Dessa vez o povo reagiu, e houve
conflito, com incêndios, mortes e prisões, varando noite adentro, só terminando
com sua rendição pela madrugada. Consolidava-se nesse momento a vitória do povo, que venceu mais uma
vez. Naquela madrugada morna, como morna são todas as madrugadas de Fortaleza,
caía
uma das maiores oligarquias que o Ceará já vira. Mesmo com sua rendição, o povo
continuou o dia em frente ao Palácio da Luz, exigindo sua retirada de lá. Caso não se retirasse, o invadiriam pelas
armas. Sem forças para reagir, obedeceu aos apelos do povo, que, unido, sempre vence. Deixou o governo, abrigando-se num
navio que o levaria ao Rio, deixando como reféns seu filho, Dr. José Accioli, e o
genro,
Graco Cardoso. Mas não terminaria ali sua história, o trágico o
acompanharia. No litoral da costa do Rio Grande do Norte, abruptamente irrompe
no seu camarim Antônio Clementino de Oliveira, ex-redator do jornal Correio do
Ceará, e desfecha sobre o ex-Presidente vários tiros, que não
o atingem,
e sim, a seu filho caçula que com ele viajava. Socorrido, entretanto, não
reagiu,
falecendo a bordo, sendo sepultado em Salvador.
Na mesma ocasião, o autor dos disparos
foi executado à queima roupa pelo Capitão Alfredo Nunes Weyne, que fazia
sua guarda pessoal. Durante e depois de todo esse movimento que terminou com a
deposição do Dr. Accioli, o Padre Cícero, como Intendente do Juazeiro, e
como amigo particular que era do Presidente, esquivou-se. Não há oficialmente
nada que conste nos Arquivos Públicos do Estado, em apoio ao deposto Presidente
Accioli, fato censurado por muitos escritores. Vago o cargo, surge um nome
surpresa no cenário político do Ceará. Como candidato, um personagem
desconhecido da maioria dos cearenses. Servindo na 3º e 4º
Região Militar do Exército sediada no Recife, engenheiro militar, Franco Rabelo era o
nome de peso, proclamavam os contrários à política Acciolina, ou ao
Partido Republicano Conservador que dominava o país há mais de meio século. A
concepção do cearense era a de que o Coronel Marcos Franco Rabelo daria outro
rumo ao Estado,
que amargava um verdadeiro ostracismo. Para os políticos conservadores, e
os tradicionalmente conhecidos como carreiristas, o Coronel Rabelo, a essa altura já
candidato, passou a ser visto como a redenção do povo cearense.
Jovem, com curso superior, não
constava fosse um militante da política da continuidade, e tinha a
credibilidade do Exército, que àquele tempo merecia respeito e
elevada consideração. Um candidato para lá de excelente. Era genro do General
Clarimundo Queiroz, imposto Presidente do Ceará pela oligarquia dominante, depois deposto por
ela. Eis o perfil do candidato, retrato que lhe traçavam seus adeptos e admiradores.
Com todas essas credenciais, era mesmo um candidato imbatível
e motivo de orgulho para o cearense que, ressabiado, descartava
candidatos da continuidade. O sentimento de mudança da política arcaica era de
todo o Estado, sentimento que marca o cearense, até nossos tempos. Há pouco
mais de três décadas, destronaram do poder os que teimavam pela volta do velho
comando político. Por incrível que pareça, mesmo tendo arrastado por anos a
fio a política de conchavos e oligárquica, o Ceará sobressaiu-se dentre
os demais estados da federação pela dinâmica política, ou seja: a mutação de
valores. O
cearense se impôs e rechaçou dos seus quadros o velho
mandonismo anacrônico, de 40 anos para cá, quando o quadro deixou de ser
predominante.
Mas passemos aos fatos da década
de 1913-14,
que marcaram a era do Governo intempestivo e breve do Coronel Franco Rabelo, o qual teve como seu
opositor outro militar, Coronel José Freire Bezerril. Apregoavam os defensores
da sua candidatura que, se eleito, seria o único capaz de tirar o Ceará do estado
lastimável de miséria, já tornada endêmica, que caminhava junta e de mãos dadas
com o banditismo reinante. E foi nessa curva ascendente que ambos, miséria e
banditismo, caminharam até chegar ao estado em que hoje nos encontramos. Não
houve solução para as duas grandes causas. Com a costumeira louvação sempre
dirigida a candidatos que pleiteiam postos, ou na outra face da moeda, quando
lhe atiram injúrias as mais deploráveis, caminharam os dois candidatos, e a
vitória veio sem grandes esforços.
O chamado “Candidato da
Redenção”,
Franco Rabelo, cantado em prosa e verso, dizem os escritos do Monsenhor
Quinderé, seu grande admirador, e também Frota Pessoa, no seu livro A Realidade Brasileira, que lhe traça um
perfil principesco, erguendo-lhe um panteão de glórias que jamais existiu. O
candidato da Ala Acciolina foi rechaçado, mas o Partido não se
extinguiu de todo. Apesar de cambaleante, se impôs, lançando um
candidato que foi derrotado. Naquele tempo, prevalecia um álibi que
encontrava proteção na Constituição vigente, o do reconhecimento pela Assembleia Legislativa do
Estado. Era o maior blefe impingido ao povo, pois sempre o eleito era o
escolhido da situação vigente, em escala nacional, ou seja,
pelo poder central, o que nos faz lembrar Montesquieu, quando disse: “O Estado exerce um
poder monstruoso, e isto, democraticamente”. E foi por
esse poder democrático que o Coronel Franco Rabelo se tornou Presidente do
Estado,
apesar da inexpressiva soma de apenas 14 votos, dados pela Assembleia
Legislativa, quando o certo seriam 16 votos. Mas como era de direito e
reconhecido pela Constituição do Estado, fica claro que ele não infringiu a
lei, herança vinda desde o século XIX, portanto sacramentada, que garantia a
permanência no poder. A mecânica favorecia o escolhido, indicado por conchavos
políticos, mas escolhido pelo voto popular, cuja teoria até hoje subsiste:
pouca coisa mudou, falhas e imperfeições continuam, como há mais de um
século
atrás.
Assumindo o Governo, Franco
Rabelo promete grandes mudanças, conforme sua plataforma política
no decorrer da campanha, que seriam: a extinção do banditismo, melhoria de vida
para os pobres, a erradicação do analfabetismo que os outros governantes haviam
esquecido por completo, sem esquecer de acentuar que no seu mandato não haveria
nepotismo, que tanto indignava o cearense. Mal assumiu o Governo, surgiram os
descontentamentos de praxe da política. Sem consultar a ala que o ajudou a
elegê-lo, sentindo-se à margem das confabulações, veio o
racha, motivado pela nomeação do capitalista Dr. Paula Rodrigues para o cargo de
confiança na chefia do Governo. O Partido que o apresentou também rachou
parcialmente. Daí a primeira manifestação de descontentamento, seguindo-se o
rompimento, que só foi se acentuando à medida que passavam os dias, com novos fatos
surgindo, ficando visível a derrocada iminente do seu Governo. Dr. Paula Rodrigues, para os do racha,
era um cidadão unicamente voltado para seus negócios; dominava o comércio de exportação
de peles e algodão, sem nenhuma ressonância política, eis a alegativa. Contra
tal nomeação não só estavam os membros da Assembleia estadual, mas boa parte da
Bancada Federal, formando um Bloco que só ia crescendo à medida que surgiam
novos fatos.
Nessa altura dos acontecimentos,
os jornais Unitário e Correio do Ceará abriram uma frente de oposição ao
Governo. Os
artigos eram transcritos no Rio, ficando inteirado de tudo o Presidente Hermes,
que mandou fazer uma sindicância, a cargo do General Torres Homem. O General, que era amigo do
Presidente Franco Rabelo, desmentia as versões dos
acontecimentos, como: a queima do jornal Unitário de João Brígido, e
os incêndios das Casas de Tecidos dos Montenegros e dos Acciolis. Nesse clima
se arrastava seu Governo, já visto por muitos como agonizante. Agravando o quadro, rompeu com o Coronel
Antônio Luís, Intendente do Crato, e com o Padre Cícero, um líder
político em todo o Estado. O escritor Irineu Pinheiro, no seu livro sobre a
guerra do Juazeiro, assegura terem sido esses dois fatores decisivos
para sua queda do governo. O quadro era de confronto, delineando-se sua
deposição, e consequentemente um levante, que veio sem muitos esforços.
A frente de oposição a seu
governo amplia-se, com a adesão de personagens de renome na política, como o
Senador Francisco Sá, Dr. Floro, o Coronel Tomaz
Cavalcanti, o todo-poderoso Chefe do Crato, Coronel Antônio Luís, e também o
Coronel Chefe de Araripe, Pedro Silvino de Alencar, e ainda o homem forte de Lavras
da Mangabeira, Coronel Ildefonso Correia Lima e Aurélio de Lavor, do Iguatú, e
outros, de menor projeção política. Nessa época, o Dr. Floro e Aurélio de Lavor
eram deputados
estaduais. Não consta oficialmente que Gustavo Barroso, à época no Rio,
fizesse parte desse bloco de conjurados, na expressão de vários autores. O
discurso convincente do Dr. Floro, pela força da sua persuassão, transmitia, segundo a leitura de
documentos, um ar de vitória, como se tudo já estivesse
resolvido. Portador de forte carisma, despertava admiração a quem dele se
acercasse, com um detalhe que o caracterizava: sua voz anasalada marcava de
fato sua inconfundível e inesquecível personalidade. Poder de argumentação,
carisma, seja lá o que for, o fato é que ficou a seu cargo a
dificílima tarefa de articulação no Rio, para onde seguiu juntamente com o
jornalista João Brígido e Aurélio de Lavor. No Rio depois de meses, retornou já
com tudo agendado para a deposição do Presidente Rabelo. As
cartas
que trouxera para o Padre Cícero e o Coronel Pedro Silvino de Alencar confirmam
o acerto no Rio. No interior do Estado,
o acirramento de ânimos era um fato, prisões, mortes e perseguições descabidas
com o aval do Presidente Rabelo, que governou todo o tempo em
clima de autoritarismo e perseguição, escreveu Irineu Pinheiro (op.cit).
Nesse estado de incerteza e
decepção caminhava o Governo Rabelo, visto por muitos já como findo. A pretexto de combater
o cangaço reinante no Cariri, ele nomeou o Comandante do Batalhão sediado no
Crato, aliás, ponto estratégico das tropas militares da futura sedição do
Juazeiro, o Tenente Ladislau Lourenço Gomes da Silva, que ao invés de reprimir
o banditismo tomou partido, detonando uma perseguição cruel
e desumana contra os romeiros do Padre Cícero, pessoas simplórias, que
mantinham suas plantações na Serra do Araripe, e de quem não consta fossem
refratários à ordem pública. Sem reagir, eram brutalmente espancados e
mortos, numa barbaridade sem tamanho. Os fatos tinham uma só finalidade:
desmoralizar os dois chefes do Juazeiro, Dr. Floro e o Padre Cícero. O segundo
motivo: o assentamento de romeiros na Serra do Araripe, questionado
pelos donos de terras, que se diziam proprietários, expulsando-os de lá. Desta
forma, ele partidarizou sua função de comandante de um Batalhão, e desfechou
seu poder de fogo contra o povo do Juazeiro, para ele, um bando
de fanáticos
de primeira ordem, e depreciativamente rotulava-os de “jagunços do Padre
Cícero”, criando e acirrando mais hostilidades entre as duas localidades, já
rivais, estigmatizando, abrindo feridas não cicatrizadas, deixando sequelas profundas.
Estudando-se imparcialmente o
período,
não se pode negar que no Juazeiro de então não existisse jagunços. Os havia e muitos, detalhe que não
só era uma primazia do Ceará, ou do Nordeste, e sim de todo o País, como continua até hoje.
Lá eles chegavam, a maioria infiltrada entre os peregrinos pagadores de
promessas, mas levados pela palavra de fé e ordem do Padre Cícero, acrescido,
diga-se, das condições que lhes dava, com sua pedagogia do trabalho, do
aprendizado, terminava por restaurar-lhes socialmente, fazendo-os voltar ao
convívio da sociedade. Por conta disso, ele foi censurado, até mesmo quando
aconselhou Lampião a deixar o cangaço e retirar-se para bem longe, Goiás ou Mato
Grosso, àqueles
tempos, um fim de mundo. Quem o criticava, não entendia o método humanístico
que regia seus ensinamentos. Mas até o próprio Cristo foi censurado pelos judeus,
por não purificar-se antes de sentar-se à mesa, e por andar em companhia de
pessoas impuras (Mateus 15).
Agravando o quadro, o Presidente
Rabelo demite o Padre Cícero das funções de Intendente do Juazeiro, e nomeia o
Tenente José do Vale para delegado. Chegando lá, seu primeiro ato foi o de dar
uma busca, a pretexto de apreensão de armas, incluindo nessa incursão a
residência de verão do Padre Cícero, situada na colina do Horto. O ato ofendeu
a comunidade, causando indignação e revolta, suscitando reação.
Pressionado, o Governo o chama de volta à capital e o demite do cargo de
delegado, por pressão do povo do Juazeiro. O ato desastrado do Presidente
Rabelo, como escreveu Irineu Pinheiro, foi a gota dágua. Soou como um toque de clarim numa festiva
madrugada. Para a cúpula
dissidente em Fortaleza, estava aberto o caminho para a deposição do
Presidente Rabelo. Já não mais contando com a Assembleia Legislativa, porque a maioria, pressentindo o
desfecho iminente da sua deposição,
alegava a ilegalidade do seu reconhecimento de apenas 13 votos. Esses,
os chamados “Vira-Casaca”, anteviram nos fatos a queda do Governo.
Por esse tempo, o Presidente
Rabelo sofria enorme desprestígio por parte do Presidente da República e do
Senador Pinheiro Machado, este efetivamente o expoente máximo da Nação. Portanto, estava fadado a
desaparecer do cenário político do Ceará. Seu desprestígio perante o Governo
Central era em represália ao fato de não ter apoiado a candidatura do Dr. Venceslau
Braz à
Presidência da República, para ele uma imposição do Catete. Somado todo esse
pantanal de problemas, com a oposição a dizer que o Ceará estava desgovernado,
que o Presidente Rabelo agia arbitrariamente, com os que não o apoiavam
tendo-os como inimigos rancorosos, dentre estes, citavam o Padre Cícero, Dr. Floro, inclusive o
chefe do Crato, Coronel Antônio Luís Alves Pequeno. Impossível que continuasse
por mais tempo no cargo. O cenário era de uma futura guerra, tal qual aconteceu,
porque se julgando forte e sem parecer se dar conta de que seu governo
caminhava para a sublevação da ordem, já sublevada, é fato notório, com prisões e
mortes.
Na esteira dos indesejáveis
acontecimentos, um novo partido surge no cenário
conflitante da capital: o Coronel Tomaz Cavalcanti fundou um partido denominado
Marreta, onde se abrigaram os dissidentes, os descontentes, e toda a gama que a política
sem ideologia oferece no bojo das suas atividades ambiciosas. A grande estrela
do recém-criado partido era o Senador Francisco Sá, rompido
com o Presidente Rabelo e toda a cúpula do Palácio da Luz. Tomaz Cavalcancati
não era um líder, mas conseguiu fazer adeptos, aglutinando em torno do seu partido figuras da
maior expressão, como o jornalista João Brígido, descontente e rompido com o
governo, e vários chefes do interior, sendo que o principal deles era o
hegemônico Coronel Antônio Luís, seguido pelo Dr. Floro, Gustavo Correia Lima,
Aurélio de Lavor, dentre outros.
Dr. Floro, a essa altura, já um
líder, sob as bênçãos do Padre Cícero, era ouvido e acatado. Sua retórica
fluente e convincente conferia-lhe crédito, e acoplada aos predicados de persuassão e convencimento,
muito o ajudou na sua conversa no Rio, para a derrubada do Presidente Rabelo, e
consequentemente
da Revolução. Ele foi sem sombra de dúvida o baluarte de todo esse movimento,
já previamente acertado em Fortaleza. A ele, e só a ele, coube a
primazia da deposição de Franco Rabelo, e consequentemente da Revolução do
Juazeiro. O mecanismo funcionou, quando de fato foi derrubado do Governo o
Presidente Franco Rabelo, aliás, o Ceará registra razoável histórico sobre o
assunto. A missão dada ao Dr. Floro, ele a cumpriu de
maneira brilhante, fazendo história política noutra gleba que não a sua. Ali
abriram-se-lhe as portas da grande caminhada de vitórias, que lhe deu o
Juazeiro, pelas mãos do Padre Cícero. Estava armado o audacioso plano, e ele seria seu
expoente máximo. De inteligência acentuada, o fato é que aplicou uma tacada
de mestre, num arremesso impecável. Sem esquecermos que toda essa projeção que
ia galgando tivesse o apoio integral do Padre Cícero, já a essa altura
altamente prestigiado pelos políticos do Estado. Sem o seu apoio, talvez suas
pretensões políticas não passassem de meras abstrações.
Acordo firmado no Rio e
sacramentado, Dr. Floro empenhou-se em passar um ar de liderança, o bastante para
impressionar a alta cúpula: Presidente Hermes e o Senador Pinheiro Machado. Habilidoso, ia conquistando de
fato a admiração de todos. Mas o que mais chama a atenção na trama da deposição
do Presidente Rabelo é que, nessa época, Dr. Floro era apenas um
deputado estadual eleito pela primeira vez, portanto, desconhecido do
meio oficial do País. Com o apoio da bancada cearense na Câmara e a confiança
que despertou nos dois maiores homens do país, sua missão no Rio foi de fato um
sucesso. Deram-lhe carta-branca para agir, deflagrando o movimento revolucionário.
Estava a caminho a revolução que meses depois estalaria, conforme acertado no
Rio, e teria que ser pelo Juazeiro, dado que por Fortaleza seria inviável, por
contar o Presidente Rabelo com a maioria do povo, incluindo os sindicatos dos
marítimos, dos ferroviários e também do clero, à frente o famoso Bispo Dom Joaquim José
Vieira, e de um pequeno segmento da imprensa, representado pelo escritor e
jornalista Rodolfo Teófilo.
Regressando ao Juazeiro, Dr. F1oro veio munido de
cartas e documentos valiosos, como as cartas do Senador Francisco Sá para o
Padre Cícero e para o Coronel Pedro Silvino de Alencar, este, Chefe da Vila de
Araripe, e que foi figura de proa do movimento sedicioso. Assegurado o apoio do
Presidente Hermes ao ato, iníquo para muitos autores, da
derrubada do Presidente Rabelo, o Senador Francisco Sá, entre outras coisas, informava ao Padre
Cícero o que fora acertado no Rio, inclusive que o movimento revolucionário
teria que começar pelo Juazeiro, em virtude do apoio da capital ao Presidente,
no que se tornaria muito difícil. Assegurava ter o Dr. Floro recebido
in-totum o apoio da bancada cearense, inclusive do Presidente Hermes,
as credenciais para deflagrar o movimento que culminaria na deposição do
Presidente Rabelo. Pedindo seu apoio ao movimento sedicioso, esperava que não o
obstasse, pois era imprescindível a saída de Franco Rabelo do Governo.
Despedindo-se, assegurava ser seu amigo particular, e que nele muito
confiava. Junto a essa carta para o Padre Cícero, uma dirigida ao Chefe do Araripe,
Coronel Pedro Silvino de Alencar, seu correligionário e amigo, de teor idêntico
à
do Padre Cícero, com adesão irrestrita ao movimento que estalaria dentro de
pouco tempo. Essa carta foi de importância decisiva na resolução do Padre
Cícero ao levante, sem dúvida alguma.
No Crato, os chefes da situação
tomavam precauções em caso de um levante armado. Foi o caso do ex-Intendente
Coronel Francisco José de Brito, narrado magistralmente por Otacílio Anselmo e
Silva (op. cit.). Ipsis literis o que escreveu:
“Um dia, estando em palácio em
visita ao Presidente Rabelo, perguntou-lhe este o que deveria ser feito para
sufocar e calar o Juazeiro. O Coronel Brito, sem pestanejar e bem ao modo sertanejo,
apresentou-lhe o seguinte esquema: que determinado dia, fossem bloqueada todas
as estradas que dessem acesso ao Juazeiro, e então com centenas de homens em
armas, tomariam a Vila, prendendo-os todos, inclusive o Padre Cícero e o Dr.
Floro, ao que finda a operação, tudo estaria terminado”.
E conclui o escritor, dizendo: “o Presidente a tudo
ouviu sem interferir, mas não levou adiante o sugerido plano”. Se
posto em prática, seria o esfacelamento total do Crato, pela possível reação
dos habitantes do Juazeiro, como meses depois mostraram resistência e
fortaleza, diante das forças de um Estado policial. No entanto, o Presidente Rabelo
mandou reforçar o Batalhão de Polícia no Crato, e abriu um alistamento de
voluntários, que chegou a 200 homens, sob a chefia do Coronel Torres de Melo, a
maioria deles homicidas, retirados da cadeia pública do Crato, fato de todos
sabido. No entanto, o escritor caririense mais à frente se contradiz, e escreveu: “O
Presidente Rabelo não tinha nenhum plano de atacar o Cariri e sufocar o movimento
que a olhos vistos se desenrolava entre os Marretas”.
Mas a prova está em que ele, o Presidente, estava
inteirado do movimento com a finalidade de depô-lo, tanto que, como vimos, abriu o alistamento, reforçando o
Batalhão de Polícia do Crato, e expediu uma ordem de prisão para o Dr. Floro, no seu
regresso do Rio. Tomando conhecimento da ordem de sua prisão, através do Padre
Cícero, optou por desembarcar em Cabedelo, na Paraíba, de lá seguindo até a
fronteira dos dois Estados, acompanhado do colega de Assembleia, José de Borba
Vasconcelos, que aderira ao movimento revolucionário. Driblando as polícias dos dois Estados, já estacionadas em
toda a fronteira de Pernambuco versus
Paraíba, o Padre Cícero, informado do esquema, mandou pessoas
de sua confiança acompanhá-lo até o Juazeiro. Dessa forma, Dr. Floro escapou de ser
preso, porque os homens rastreadores, conhecedores profundos das estradas
vicinais, levaram-no até o reduto do célebre e folclórico Major José Inácio, que os acolheu, numa deferência
especial ao Padre Cícero, de quem se dizia amigo e o respeitava, apesar de ser
o Major José Inácio um rabelista convicto. Ali, o Dr. Floro e seu
acompanhante, Dr. José de Borba Vasconcelos,
estavam a salvo de tudo, quem ousaria tocá-los? E fez mais: escolheu a dedo,
entre seus cabras de extrema confiança, para dar-lhes cobertura até o Juazeiro,
aonde chegaram sãos e salvos. Essa passagem é de grande relevância na história
da Revolução do Juazeiro, pois se não fora a interferência do Major Zé Inácio,
dando guarida ao Dr. Floro no seu reduto impenetrável, o movimento subversivo,
que culminou com a deposição do Presidente Rabelo, teria abortado, não se concretizando, pela prisão do Dr.
Floro, ou sua
morte,
como apregoavam. No governo, o pedido de morte para o Dr. Floro, era uma
constante. Era este o cenário em Fortaleza, dos adeptos do governo. Está tudo
estampado no jornal O Rebate, são páginas inteiras contra o Dr. Floro, insistindo por sua
morte.
Voltando ao caudilho Zé Inácio, que era rabelista
declarado, mas que a amizade com o Padre Cícero se sobrepunha à sua simpatia
política, prestou um relevante serviço à sedição, sem pegar em armas e
sequer disparar um tiro. Esse Major Zé Inácio era tão sagaz que, se preso algumas
vezes para responder a processos pelos crimes que mandava praticar, misteriosamente
fugia da cadeia, atropelando o carcereiro, registram as crônicas do Cariri
daquela época.
Com tão grande turbulência, o
Padre Cícero de tudo faz ciente ao Presidente Hermes. Preocupado e
apreensivo, ele prevê o esfacelamento da ordem. Nesse telegrama, levantava a
hipótese de uma invasão iminente ao Juazeiro, pelo número de policiais nas cidades
satélites do Crato e Barbalha. Sentimento que não era só dele, mas de toda a
população, nascido de duas conjunções: 1º) o batalhão policial sob o Comando do
major Ladislau Lourenço, um sanguinário, como veremos à frente; 2º) o
acirramento dos ânimos entre as duas localidades, Crato e Juazeiro,
completamente hostis.
Ao chegar ao Juazeiro, Dr. Floro
convoca várias reuniões, e convence os indecisos a se aliarem à causa para deposição do
Presidente Rabelo, já que ele resistia a renunciar, como pretendido
pelos dissidentes. Com o instrumento da sua persuasão, conquista os
indecisos para a causa. A essa altura, animado por altas
pretensões, nos seus discursos e abordagens a vários chefes ainda indecisos,
assegurava que o movimento revolucionário contava com o apoio do Presidente da
República, por conseguinte legal. Na tentativa de convencer indecisos, estava o
Padre Cícero, que supunha estourado o levante para que o Presidente Rabelo renunciasse.
Pedia calma ao Dr. Floro, inútil. Ele persistia na sua meta: deposição pelas
armas,
da qual jamais se afastou, levando-a até o fim. Portador de
uma personalidade forte e indomável, jamais se curvou a alguém. Interpretaram
alguns historiadores que o Dr. Floro tenha ludibriado o Padre
Cícero, pois é improvável que ele tivesse total conhecimento de todo o esquema
montado para a deposição do Presidente Rabelo, apesar da carta do Senador
Francisco Sá. Eis a incógnita. Passar a documento esse momento da vida do Padre
Cícero é difícil, pelo enigmático que era. A interrogação persiste, em muitos do que
escreveram sobre a chamada sedição do Juazeiro, com destaque para o jornalista
Rodolfo Teófilo, que disse: “era o Padre Cícero tão ingênuo, a
ponto de se deixar iludir, acreditando que, iniciado o levante, o Governo
renunciasse?”. Segundo o aqui tão citado Azarias Sobreira, “ele
tinha predisposição psíquica para dar crédito à retidão de intenções
de todo o mundo”. Apoiando ou não seu
protegido, a realidade é que a Revolução aconteceu, e consequentemente a deposição
do Presidente Rabelo.
O médico revolucionário desprezou
a autoridade do Padre Cícero? Ou o submeteu a mais uma das suas imposições,
como disse o Padre Manoel Macedo, depois em livro, quando
escreveu: “Dr. Floro, árbitro absoluto da
vontade do Padre Cícero”. Aliás, Irineu Pinheiro (op.cit.) deixa claro, no seu livro sobre a Revolução,
que o Padre Cícero não se omitiu, e a guerra aconteceu em toda sua plenitude.
Naquele momento de extrema gravidade para todo o Ceará, e em especial para o
Juazeiro, onde prevalecia a ameaça de destruição partida do Governo, na
perspectiva de vê-lo tornar-se em escombros como Canudos, e diante daquele a
quem o Padre Cícero dispensava apreço e um afeto filial, sua alma entristecida
deve ter implorado: “—Pai, passa de mim esse cálice” (Marcos,
14-15).
O dardo fora lançado. Persuasivo e
extremamente hábil, não só em palavras, também em ação, aliás, no papel da
persuasão ninguém o superou em terras do Ceará, Dr. Floro faz eclodir o
movimento revolucionário, já contando com a participação direta de quase todos
os chefes
do Cariri, com destaque para os Coronéis Pedro Silvino de Alencar e Antônio Luís, do Crato, este
principalmente pelo renome, liderança absoluta, e também pelo número
incalculável de homens à sua disposição. Cartas e ofícios para Fortaleza
sucediam-se numa velocidade frenética, todos em código, isso, aliás, desde sua
estada no Rio. Com o passar dos dias, não mais confiando no serviço postal,
enviava as correspondências através de um Positivo. Inteirado de todo esse
movimento pré-revolução, Franco Rabelo telegrafa ao Padre Cícero, dizendo:
“Chegam-me
avisos do Cariri de que aí se prepara um movimento sedicioso, no intuito de
derrubar-me do Governo; mas o Estado está aparelhado para sufocar qualquer movimento dessa
natureza. Espero V. Revma empregará esforços em bem da paz que esta região
tanto necessita.
“Saudações. Franco Rabelo —
Presidente do Estado”.
O Padre
Cícero responde ao telegrama supra, com as seguintes observações:
“Presidente Franco Rabelo —
Fortaleza.”
“Aqui não há preparo levantamento
sedicioso, pois bem sabeis Juazeiro sempre esteve em defesa. O que percebo,
permita-me dizer como amigo particularmente, é que políticos vosso governo o
pôs em uma situação de sérias dificuldades. Talvez V. Excia não acate o que vos
digo agora, mas em tempo oportuno percebereis. Segue carta explicativa.
Saudações — Padre Cícero.”
O Presidente insiste, e diz: “Estranhei V. Revma
falar em atitude defesa. Daqui jamais partirá algo contra a massa de
trabalhadores aí sediados, e asseguro mais uma vez, nenhuma animosidade há da
parte do governo”.
Foram dezenas de telegramas que
precederam ao levante, entre o Presidente e o Padre Cícero, e ele sempre a
omitir que houvessem preparativos para uma sedição. Pressupõe-se nesse seu
gesto a finalidade de simplesmente amainar o ânimo do Governo, evitando a
irrupção de uma luta fratricida, o que terminou por ocorrer.
A Associação Comercial toma
partido. Prevendo
prejuízos ao comércio em todo o Estado, pede ao Padre Cícero interferir para a
não eclosão do movimento. Os telegramas da Associação
Comercial eram cartas, porque extensos, fazendo
ponderações do que poderia se tornar um desastre, não só pela vida humana, mas
também pela queda do comércio. No último, o responsabilizam pela guerra.
Prosseguia a troca de
correspondência entre os amotinados do Juazeiro e de Fortaleza, e foi num
desses retornos do Positivo da capital, que foram sabotadas as correspondências
do jornalista João Brígido para o Dr. Floro, um descuido do Positivo Manoel
Cardoso da Mota, vulgo Lolô. Numa das paradas de trem, em
Sussuarana, deixou-se furtar por agentes disfarçados do governo. O alarme foi
dado, o plano da sedição fora descoberto, porque já em mãos do governo. Urgia
pressa. O
episódio fez com que imediatamente fosse deflagrado o movimento revolucionário.
Numa ação rápida, e audaz, Dr. Floro detona a
revolução às cinco horas da tarde do dia 8 de dezembro de 1913. Otacílio
Anselmo e Silva (op. cit.) comenta o
fato,
às paginas 396-397 do seu Mito e Realidade:
“Um grupo de doze indivíduos
portando armas curtas e sob as ordens de um Capitão da Guarda Nacional, de nome
João Evangelista de Santana, invadiu de surpresa o quartel do destacamento
local, recolheu os soldados ao xadrez, tomando-lhe as armas, já tendo antes
fugido o seu chefe, Comandante Tenente Raimundo de Oliveira”.
Dando sequência ao ato, Dr. Floro, se
auto-nomeia Comandante-em-Chefe da Revolução, Presidente da Assembleia Revolucionária e
Presidente do Estado. Transfere a capital de Fortaleza para
o Juazeiro, e de tudo deu ciência às duas Casas do Congresso, ao Presidente da
República, nos seguintes termos:
“Exmº Sr. Presidente da República
— Rio.
“A Assembleia Legislativa do
Estado do Ceará tem a honra de comunicar a V. Excia. que, de
acordo com o parágrafo único, artigo 42, da Constituição do Estado, o
Presidente da mesma Assembleia assume a Presidência do Estado, visto não
estarem legalmente reconhecidos o atual presidente, nem os respectivos
vice-presidentes.
“Respeitosas saudações. Dr. Floro
Bartolomeu da Costa — Presidente. Dr
José de Borba Vasconcelos, Primeiro Secretário, Coronel Antônio Luís Alves
Pequeno, Segundo Secretário”.
Estava dado o golpe pelo poder da
força, caía o governo do Presidente Franco Rabelo. Já que não renunciou, forçaram-no
dali para frente, pela imposição das armas, a deixar o governo. A guerra já
era uma realidade, todavia, o Presidente resistia e inflexível dizia: “em hipótese alguma
renunciarei”, posição que manteve até o seu último dia à frente do governo
do Ceará. Apressado, faz ciente ao Padre Cícero, por
telegrama, que sufocaria a todo custo o movimento subversivo, e o
responsabilizava pelos acontecimentos. Custou caro ao Padre Cícero seu gesto de
complacência para com os revolucionários, particularmente para com o Dr. Floro.
Outra vez, ele subia os degraus do Pelourinho, questionado, até hoje, sobre ser o autor da
Revolução,
principalmente pelo clero. Daí para frente, dois grupos marchariam — “Marretas
e Rabelistas”. Juazeiro era palco de uma revolução armada. Resistiria? No
passado, conseguiu resistir ao poder hierárquico de Roma. Reagiria agora, ao
poder militar de fogo? Naquele momento, a comunidade estava exarcebada, com o massacre de
Cerca de Pedras, dias antes, onde foram sacrificadas doze pessoas, inclusive
crianças, que desciam a Serra do Araripe vindas de suas lavouras, e seguiam em
direção ao Juazeiro para se refugiarem. Um crime bárbaro, dada a crueldade com
o qual foi cometido, verdadeira execução, demasiado dilacerante para ser
descrito.
A monstruosa carnificina foi
praticada pelos soldados do governo, a mando do seu Comandante Ladislau
Lourenço Gomes da Silva, a essa altura, já investido nas funções de Capitão.
Padre Cícero, num telegrama urgente ao Presidente da República, o fez ciente do
hediondo massacre. Lamentando, pede garantias de vida para seu povo. Dessa
forma, ficava descartada a hipótese de que o governo Rabelo fosse um céu azul
de paz e harmonia. O ato de selvageria do seu Comandante desmitifica a lendária
figura de Marcos Franco Rabelo, de Homem da Paz. E não só por esse grande
massacre, mas também pela ordem que nunca cessou de dar: destruir o Juazeiro,
não ficar pedra sobre pedra. Tudo isso perfaz uma tela gigantesca, num
acumulado de situações humilhantes iniciadas pelo clero no ano de l889, ano dos
milagres, quando a vida simples e pacata do Juazeiro foi quebrada. Depois, o
episódio de Salgueiro, quando o Padre Cícero foi confundido como auxiliar de
Antônio Conselheiro e simpatizante da Monarquia, numa afirmação dos
Governadores da Bahia e de Pernambuco. Na visão dos dois, um conspirador da
República recém-criada. Daí, o episódio da decretação de sua prisão pelas
autoridades do Recife, que se transformou num caso político, pela reação que
despertou em vários Estados nordestinos, principalmente em Alagoas e interior de
Pernambuco. E pensar-se que tudo isso proveio tão somente de um sentimento de
protesto do Bispo Dom Joaquim, com a adesão de altos membros do
Episcopado Brasileiro, causando estragos irreparáveis até hoje, porque o mesmo
clero,
baseado em hipóteses, imputou-lhe responsabilidades pelo movimento
revolucionário, e pediu a Roma a sua excomunhão (Azarias Sobreira
e Otacílio Anselmo, ibidem).
Iniciada a luta pelo poder de
Floro Bartolomeu, árbitro da vontade do Padre Cícero, o Juazeiro inteirinho
aderiu à
luta. Silencioso, confinado aos seus aposentos, ele certamente refletia o que
seria aquela luta nos seus domínios, e qual seria o seu desfecho, talvez
prevendo e convicto de que seu nome seria envolvido no litígio, do qual não teve
tanta participação. Para atestar o fato, os documentos escritos do seu próprio
punho, como por exemplo, seu testamento, quando afirma: “não fiz Revolução,
nela não tomei parte, e nem para ela concorri com sugestão alguma”.
Muitos autores se perguntam: como
imaginar-se o Dr. Floro desdenhando da sua autoridade, uma vez que, no Juazeiro, nada se
fazia sem o seu aval, disse Amália Xavier. Essa passagem é de alta relevância, considerando-se as
palavras da escritora (op.cit). Se
pensarmos com imparcialidade, veremos que, sendo o Padre Cícero de boa
índole e esta o levou a magnanimidade, movido por consciência religiosa,
jamais aprovaria a guerra fratricida; mormente porque o Juazeiro, antes de tudo, era a —Meca Sagrada
— para os que o procuravam, pelo seu passado de religiosidade. De
resto, nada mais havia a fazer, senão unir seu povo para evitar dispersão em
massa, já com a revolução instalada, o que talvez não dependesse da sua
vontade, e sim, dos grupos de interesse, legalizando o feito, com a finalidade
de atingir objetivos, praxe da política e que continua até o presente momento.
Ao fazer sua prédica ao cair da
noite, acompanhada da bênção aos romeiros postados em frente à sua casa, ele, com a
voz embargada pela emoção, pedia calma e a união de todos, chamando-lhes a atenção para a
gravidade do momento. Após essas recomendações, a multidão entoava o bendito “Maria, valei-nos” e o “Ofício de Nossa
Senhora”, escreveu Irineu Pinheiro (op.
cit.). E
foi assim, entre rezas e pânico, que teve início a guerra do Juazeiro, já pelos
romeiros batizada de “Guerra Santa”, na qual demonstraram extrema fidelidade ao
seu “Padim
Ciço”, resistindo heroicamente às forças do governo. Por isso, chamados de –
heróis.
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CAPÍTULO 15
A GUERRA E SEUS EFEITOS NOCIVOS
Com a guerra já instalada, milhares de romeiros se deslocavam
para o Juazeiro – a Meca Sagrada –, já agora transformado num campo
de guerra. Armados e municiados com as mais diferentes armas, desde a ingênua
espingarda de caçar passarinhos a armamento mais pesado, como rifles e fuzis.
O escritor e médico Irineu
Pinheiro,
lá refugiado, acompanhado da família do Coronel Antônio Luís, no seu
livro A Revolução do Juazeiro (1914),
chama a atenção
para “o ardor guerreiro do romeiro e da fé no Padre Cícero, quando se entregavam
ao sacrifício como se fossem a um simples passeio”. Mas faltava um Comandante
para dirigir a massa, já que o Dr. Floro tinha se nomeado Presidente do Estado e
Chefe da Revolução. A ele caberia outro papel, o de cimentar laços de solidariedade
entre correligionários e convocar reuniões. Ao seu lado, a tríade que
comporia o seu Estado Maior: Coronel Antônio Luís, de notório
poder, Dr. José de Borba Vasconcelos e o Coronel Pedro Silvino de Alencar. Os
três,
na verdade,
deram sustentação ao movimento, no qual o Dr. Floro fincou-se e garantiu a
grande epopeia caririense. Como já escrito, o movimento sedicioso tinha
realmente o apoio dos maiores líderes do País, inclusive do Presidente Hermes
da Fonseca. Entre os que escreveram sobre os fatos, não há unanimidade
de que o Padre Cícero tenha se oposto ao movimento revolucionário, como também
não há de que tenha sido favorável à causa. Embora seus inimigos o
dêem a paternidade do levante, caso de muitos autores, como Otacílio Anselmo e
Rodolfo Teófilo, este último, o primeiro a escrever sobre o assunto, que veementes,
sustentam sua participação direta no movimento (idem). Talvez seu pensamento
fosse que, deflagrado o levante, o Presidente Rabelo renunciasse, e que o
movimento sedicioso não ultrapassasse os limites do
Juazeiro, pois os romeiros, nos primeiros momentos da
guerra, estavam na defensiva, protegidos pelo cinturão
intransponível que era o dos Valados.
De acordo com o já citado escritor
Irineu Pinheiro (op. cit.) testemunha ocular
do movimento, o quadro no Juazeiro, 24 horas antes de desencadear o
levante,
era o seguinte:
“Ninguém que chegasse ali
naqueles primeiros momentos que antecederam a eclosão do movimento sedicioso,
acreditaria que dentro de poucas horas o lugar se transformaria num campo de batalha,
a começar pelo chefe da revolta, Dr. Floro, que aparentava um absoluto ar de
tranquilidade e calma extraordinária. Quem o visse aquele instante, jamais poderia supor que ali
estava o chefe de uma revolução. Além da sua aparente calma, os trajes em que
se encontrava: de mangas de camisa e chinelos, o que contrastava visivelmente com o seu
modo de vestir-se. Ocupando um quarto numa das dependências da casa do Padre
Cícero, onde instalaria seu Quartel General e de lá daria todas as ordens daí
em diante”.
Tudo preparado, nada mais restava ao
Padre Cícero senão unir seu povo por meio da palavra, em breves discursos e
sempre ao cair da tarde, detalhe citado pelo escritor acima mencionado, que
disse: “o tom moderado e calmo com que falava era o suficiente para mais
comoção,
principalmente quando apelava para que não houvesse dispersão”. Sob o impacto do
fato,
agora uma realidade, a ele só restou mesmo ficar restrito aos seus aposentos e
continuar rezando seu rosário numa média de quatro horas ao dia, escreveu Azarias
Sobreira (idem).
Apesar de tudo organizado, faltava entanto
alguém com capacidade de comando, com poder de resolução, de liderança, de
conhecimento de guerra, capaz de barrar o avanço da tropa do governo, que já se
deslocava para o Juazeiro. É quando entra em cena Antônio Vilanova, ex-guerrilheiro de
Canudos, residente na cidade de Assaré. Um
homem de confiança foi buscá-lo, levando uma carta do Padre Cícero, de quem era amigo e
visitante assíduo. E chega ao Juazeiro o herói de Canudos.
Naquele primeiro momento, segundo testemunhos
dos que lá se encontravam, e eram muitos, deputados, chefes
de interior, jornalistas, etc., Dr. Floro foi o primeiro
a se manifestar, para expor porque o convidara a vir ao Juazeiro, e tenta convencê-lo com o seu discurso
persuasivo, conquistá-lo, para assumir o comando dos rebelados. (Esse é um dos
pontos esclarecedores quanto ao convite ao ex-guerrilheiro de Canudos de
pessoas presentes àquela reunião, como o citado Irineu Pinheiro).
Vilanova mantinha-se calado, a
tudo ouviu sem interferir no discurso do médico, já agora transformado em
comandante chefe da rebelião. Depois de todo o exposto e da loquacidade do seu
apelo, o experimentado guerrilheiro de Canudos, que até então se mantivera
calado,
ao usar da palavra declinou do convite, pois tinha feito uma jura de jamais
tomar parte em movimentos revolucionários, e principalmente contra o governo. O que tinha
sofrido em Canudos era o bastante para não desistir do seu ponto de vista e do
juramento que fizera. Acrescentou: “por milagre de Nossa Senhora das
Dores, que também é a Padroeira do Assaré, hoje aqui me encontro”.
Dr. Floro não desiste ante a
resistência de Vilanova, e tenta por todos os meios atraí-lo para sua guerra,
argumentando que o movimento tinha todo o respaldo do Presidente da República e
do Senador Pinheiro Machado, além dos principais membros da Câmara e do Senado.
Mas,
dessa vez, seus argumentos não surtiram efeito. O ex guerrilheiro de Canudos deve
ter acreditado na veracidade das suas afirmações, entretanto, como uma rocha, manteve-se firme na
sua resolução, e um “não” selou aquele encontro. Vendo o
cipoal em que colocaram o Padre Cícero e sua gente, pôs em prática os seus
conhecimentos de luta armada e estratégia guerreira. Ali mesmo, na sala de
jantar, na presença de várias autoridades refugiadas no Juazeiro sob a
proteção do Padre Cícero, sentados ao redor de uma grande mesa, cheia de
papéis, lápis, caneta, tinteiro, croquis de mapas, o guerrilheiro de Canudos,
numa grande inspiração, projetou o que seriam os famosos Valados. Portanto, foi
do cérebro privilegiado de Vilanova que o Juazeiro se impôs e conquistou sua
vitória diante das forças do governo, que culminou com a
deposição do Presidente Franco Rabelo.
Os Valados consistiam num
cinturão circundando toda a Vila, do Horto até as Malvas, numa extensão de
nove quilômetros, com oito metros de largura por cinco de profundidade. De
dois em dois metros, uma parede de areia sustentada por tijolos de adobe
coberta de telhas, com orifício onde podiam livremente atirar sem serem
vistos pelo inimigo. Com esse cinturão intransponível, estava pronta a cidadela
para a luta que se desenrolava aceleradamente.
“Homens, mulheres e até crianças
empenharam-se na construção da grande obra”, escreveu Amália Xavier (op. cit.). A construção foi executada em
tempo recorde e com os mais rudimentares instrumentos, lembra ela. Eram
pás, picaretas, enxadecos, latas e baldes para o transporte de água. O
envolvimento de crianças na construção da obra é um fato notório, quando sustentando
nas
mãos lamparinas de querosene, para iluminar a noite escura, apressavam o
andamento da obra, que dentro de cinco dias estava concluída. Foi o mutirão
da solidariedade, organizado voluntariamente, formando um grupo único, de acordo com o
código juazeirense. No
princípio dessa história, ressaltei a união que norteava todos ali, e ela mais
se acentuou com a revolução, quando em conjunto, sem nenhuma dispersão, jogaram
suas vidas em defesa do Padre Cícero, numa verdadeira ideologia – a ideologia da solidariedade
e do amor.
O sistema defensivo dos Valados
foi crismado pelos romeiros com o pomposo nome de “Círculo da Mãe de
Deus”.
A contribuição de Antônio Vilanova foi notável, e foi o seu gênio de grande
estrategista que salvou o Juazeiro de ser arrasado pelas tropas do governo,
detalhe reconhecido por todos os autores que escreveram sobre a sedição. Protegidos pela
grande fortificação, os romeiros ficaram aguardando a tropa militar, que já
estava a caminho do Juazeiro sublevado. Enquanto isso, Dr. Floro visitava as
trincheiras; chapéu de couro à cabeça, lenço vermelho preso ao pescoço, alpercata de
currelepe16 aos pés, como todos
os outros. Por onde passava, ia lançando palavras de ânimo e ideologia do
movimento subversivo. Realmente, ele era um personagem
surpreendente e singular, pelo papel que desempenhava de verdadeiro
ator. Às
vezes, palaciano, com ares de nobreza; outras vezes, não passava de um
homem rude do sertão, que beirava ao simplório, amoldando-se ao sertanejo
inculto, ao seu linguajar estropiado, por vezes ininteligível. Floro Bartolomeu, para a autora, é um personagem
arquetípico.
Como esperado, no dia 19 de dezembro, chegou ao Crato o “Batalhão da
Legalidade”, que se compunha de 241 homens, todos armados de fuzis e
com um estoque impressionante de balas e bombas de dinamite, comandados pelo
Coronel do Exército, Alípio Lima de Barros.
No Juazeiro, as notícias
circulavam em duplicatas, infundindo medo aos participantes do movimento, caso
do Dr. Aurélio de Lavor e do Coronel Gustavo Correia Lima, que, atemorizados,
abandonaram o Juazeiro, na noite de 14 de dezembro (entrevista do Dr.
Floro ao Jornal Unitário, edição de
16/07/1915). A crônica registra que o batalhão foi recebido
pelos rabelistas do Crato com foguetes e músicas, além de discursos políticos
apaixonados. O comandante sentiu-se lisonjeado com tamanhas demonstrações de
apreço. E, apesar do cansaço da tropa após uma marcha de trem até o Iguatu, ponto
terminal da linha férrea, e daí para o Crato, em lombo de animal, cansados e
estropiados, o comandante da tropa determinou que, no dia seguinte, logo ao
amanhecer,
sem o menor conhecimento da região, a tropa marcharia para o Juazeiro para
sufocar a rebelião.
Nessa mesma noite, telegrafou ao
Padre Cícero, dando-lhe um ultimato de 12 horas, quando deixava claro que
marcharia sobre a Vila rebelada logo ao amanhecer, o que realmente aconteceu, e
acrescentava no seu telegrama: “desarme os cangaceiros”, referindo-se aos
romeiros, “à noitinha estarei aí quando o movimento já estará sob o
nosso controle e sufocado”. Responsabilizava-o pelo movimento armado, com a
subversão da ordem. O telegrama para o Dr. Floro era jocoso, debochado, quando
expressava o desejo de jantar galinha assada ao forno, a fim de comemorar
melhor a vitória. Autoridades do Crato, como o íntegro Juiz Livino de Carvalho,
achou precipitada a decisão do comandante de marchar sobre o Juazeiro, sem
nenhum conhecimento do terreno, e objetou-lhe que não devia fazê-lo, sem antes
uma verificação da praça, ao que ele respondeu: “Aquilo não vale nada, ao
primeiro sinal, estabelece-se a confusão, ao segundo, a debandada será geral,
então poremos querosene e tocaremos fogo no covil”.
De efeito bombástico, a frase do Coronel
Alípio passou à história. Ele usou frase de efeito, é verdade, mas a ordem
da destruição do lugar era do seu superior, o Presidente Rabelo, tanto que a segunda expedição
trouxe um canhão, para dinamitar o
Juazeiro. O Presidente, durante todo o período da guerra, jamais afastou a ideia de destruir o
Juazeiro,
tirá-lo do mapa. Mesmo assim, seus adeptos teimavam em classificá-lo de ordeiro
e legal, à frente, o escritor da revolução, Rodolfo Teófilo, e por último, já
agora em nossos tempos, o escritor Otacílio Anselmo (idem). Subestimava o
Coronel Alípio o valor guerreiro do sertanejo, sua tática, sua habilidade e sua
estratégia, exemplificada por Lampião, que assombrou cinco estados do Nordeste,
só encontrando resistência no Rio Grande do Norte, na cidade de Mossoró, onde o
seu bando foi rechaçado, tendo por epílogo a morte de Jararaca, onde está
sepultado. Esgotado o prazo dado pelo Coronel Alípio, ele marchou rumo ao
Juazeiro, para passar talvez o maior vexame de sua carreira militar, um
verdadeiro fiasco. Ipsis literis, o
que escreveu o cronista da expedição, Dr. Joaquim Holanda, que traçou o
seguinte quadro:
“Manhã de 20 de dezembro, 833 homens marcham em direção ao
Juazeiro. Ao avistarem as primeiras casas da localidade, abriram fogo,
secundados pela 1ª, 2ª, 3ª e 4ª Companhias. Sempre avançando, a tropa desfecha uma
compacta fuzilaria, para logo mais ficar detida diante do que via. A Vila
estava fortificada por um imenso cinturão intransponível, deixando o batalhão exposto ao fogo de
adversários ocultos”.
O imprevisto aconteceu: foram
rechaçados no primeiro combate de forma humilhante. Foi a primeira vitória dos
romeiros pela logística dos Valados. Juazeiro estava inexpugnável, não havia
como lá penetrar. Desapontados ante a derrota, retornaram ao Crato. O Comandante Alípio dá
ciência ao Presidente Rabelo do desastre: a derrota de quase mil homens em
armas. Imediatamente foram despachados mais reforços, e um contingente composto
pela Guarda Cívica, cujo comando era do seu ajudante de ordens, Tenente Mário
Gomes, acompanhado do Chefe de Polícia, Dr. Martins de Freitas.
Esse segundo contingente conduzia um canhão fabricado por Alfredo Mamede, e
estava sob a guarda do Coronel Emílio Sá. A peça, um trambolho, dias depois já
estava ancorada no quintal da casa do Padre Cícero, capturada em lances geniais
e audazes dos romeiros. A ridícula peça de artilharia, na qual os soldados
rabelistas depositavam máxima confiança para demolir as fortificações do
Juazeiro e dinamitá-lo, foi experimentada à plena luz do dia. Ao ser disparado
o primeiro tiro, desfez-se em pedaços e, pior, virou a boca para a retaguarda,
divertindo a romeirada que, segundo a escritora Amália Xavier (op. cit.) dizia: “Xô, maldito”.
Além do célebre canhão, trouxeram
com eles um enorme carregamento de armas e munições, cedidas pelo General
Torres Homem, que, sem motivo, tornou-se, inimigo declarado do
Padre Cícero, como mostra o telegrama dirigido ao Presidente Rabelo, no qual desejava a
vitória do “Governo pelas armas
legais e a expulsão do Padre Cícero do território cearense, a bem da paz e do
progresso”. Mas esse assomo de
imposição do General Torres Homem durou pouco, foi destituído pelo Presidente
da República, Mal. Hermes, da chefia da 3ª e 4ª Regiões Militares, sediadas no Recife. Intranquilo
e angustiado, o Padre Cícero rezava continuamente, mesmo em presença de alguém,
disse o escritor Irineu Pinheiro (idem).
As deserções no Batalhão Militar
eram contínuas, o quadro era de pânico e medo. Foi nesse clima de desespero que
chegou ao Juazeiro um enviado do Gal. Torres Homem, para observar o
campo de guerra, depois de solicitar por telegrama ao Padre Cícero autorização
para entrar na cidadela rebelada, no que foi atendido. Dr. Floro não gostou da
presença do Tenente Armando de Oliveira e, num gesto de força,
superioridade e impetuosidade, bem ao seu estilo, improvisou uma passeata com mais
de quatro mil homens em armas, cantando hinos guerreiros e benditos, e dando
vivas ao Padre Cícero e desejando a morte do Presidente Rabelo (Amália Xavier, op.cit.).
O enviado do General Torres
Homem, uma mistura de espião e diplomata, o Tenente do Exército, Armando de
Oliveira, ficou estarrecido diante do que vira. A disposição para a luta e para
a morte,
dissera. E mais impressionado ficou, quando ouviu do Padre Cícero que tudo
aquilo tinha o aval do Presidente da República, e que, a um sinal deste, seus
romeiros deporiam as armas (a citação é de Rodolfo Teófilo). Segundo
Edmar Morel (op.cit.), Dr. Floro tinha sob suas ordens
3.345 homens, 600 rifles, 2.500 espingardas de caça, 200 bacamartes, 80
reiúnas, 15 fuzis e pistolas automáticas, cedidas pelo Catete e remetidas via Fortaleza em navio e, de lá, em trem especial
para o Juazeiro. O escritor Azarias Sobreira (idem) calcula em 4.000 homens, e
mais armas.
De regresso ao Crato, o Tenente
Armando de Oliveira, em telegrama, expôs toda situação do que vira
ao Presidente Rabelo, deixando o Coronel Alípio de Melo preocupado diante do
que ouvira. Mesmo
assim, ele ainda ensaiou um novo ataque à Vila. Sem nenhuma concentração de objetividade, que
consubstanciasse num bom resultado, baseou esse novo ataque em uma promessa
feita pelos chefes rabelistas de enviarem mil homens para reforçar o
contingente policial, mas só apareceram no Crato 50 homens, enviados pelo chefe
de Assaré. Outra decepção, deixando o Coronel Alípio
desesperado. Pressionado pelo governo, que lhe pedia mais ação, faz a terceira
tentativa, e parte com os seus comandados para o campo de guerra. Desvanecido e
decepcionado pela promessa dos chefes rabelistas do interior, no não
cumprimento do acordo, o Coronel Alípio não tinha mais dúvida quanto à derrota da
fracassada tropa sob seu comando. Decepcionado com o primeiro lance da
derrota fragorosa, e ainda com o acordo mentiroso dos chefes rabelistas do
Cariri, e as declarações do Tenente Armando de Oliveira, ele só teve uma saída:
comunicar ao governo o agravamento da situação, usando de sinceridade e
franqueza. Fato raro em tais situações. Por telegrama, ao Presidente dizia ser
de todo impossível esmagar a sedição, por ela contar com o apoio do Presidente
da República e do Senador Pinheiro Machado. Essa explicação, dada por
telegrama, era a confissão da derrota perante o batalhão que comandava. Depois
da comunicação, que evidenciava um fracasso total, Franco Rabelo não teve
alternativa, senão chamá-lo às pressas à capital. O chamado
urgente do governo implicava simplesmente a sua demissão do comando do
batalhão,
por inabilidade estratégica e militar.
A guerra não podia parar – a substituição teria que ser
imediata. Por
isso,
foi nomeado Lourenço Ladislau, logo promovido a Major. Com a retirada
do Coronel Alípio do campo de guerra, seguiram com ele os seguintes
oficiais: Tenente-coronel Francisco Batista Torres de Melo, Capitão César de
Andrade, Coronel Guilherme Bezerril Fontenele, Coronel-médico do batalhão Dr.
César Cals, e alguns subordinados. Ao desembarcar na capital, foi vaiado pelo
público que o esperava na Estação Central. Retornando ao Rio (era Coronel do Exército), dá uma entrevista ao
jornal
Imparcial, em que critica o Presidente
Rabelo, culpando-o pelo número de mortes, e atesta a vitória dos romeiros.
SEGUNDA ETAPA DA GUERRA
A primeira expedição não
convenceu,
foi um fracasso; a segunda, um desastre, entregue que foi ao
Major Ladislau Lourenço, que nem a si próprio comandava, dado seu eterno estado
de embriaguês – era um barril de aguardente itinerante. Pressionado
para novos ataques à Vila rebelada, o Major Ladislau tenta chegar ao ponto
nevrálgico, que eram os Valados, ou trincheiras, travando-se um cerrado
tiroteio, com baixas dos dois lados. No dia 14 de janeiro, ao clarear do dia,
eles desfecham novo ataque: tentavam desbloquear a Vila, numa pesada fuzilaria,
que culminou com a morte do beato Ricardo. Aí então a resistência, o ardor
guerreiro dos romeiros redobrou, e o grito de ordem era: aniquilar toda a tropa
do governo. Amedrontados e em pânico sob o comando medíocre do Major Ladislau
Lourenço,
retrocedem rumo à Barbalha, mas era apenas uma estratégia do Comandante: dia seguinte, muito
cedo, voltariam, desta vez com mais superioridade, reforçados pela presença
de 28
sentenciados de alta periculosidade, retirados da cadeia do Crato, onde
cumpriam pena por homicídio seguido de roubo.
À essa altura, era unanimidade
entre a tropa do governo reconhecer a superioridade guerreira dos romeiros, que
destemidos enfrentavam de peito aberto o inimigo; era a luta pela sobrevivência
do mais capaz, do mais apto, como disse Darwin. O comandante Ladislau Lourenço,
debochando de si próprio e naturalmente dos seus subordinados, compunha versos
ao tilintar do som de garrafas de aguardente, e cantarolava a quadra:
“Deus é grande, mas o Padre Cícero
é maior,
E o mato maior que os dois.
Maneira o pau, maneira o pau,
Meu
Padim Ciço é quem ganha.”
E no balanço cadenciado da rede,
fazia com as mãos gestos obscenos em direção à Fortaleza, dizendo: “essa aí é para o
merda do Rabelo”.
Eis, em breves linhas, a performance do segundo comandante do
batalhão militar. Realmente, não era de se esperar que vencessem, mas que ao
menos salvassem a honra da corporação. Pedir a cessão da luta aos rebelados do
Juazeiro, foi só o que faltou ao Major Ladislau, que por um triz não o fez.
Convictos da superioridade dos romeiros, em vista dos dados apresentados pelo
cronista da expedição, Dr. Joaquim Holanda, é fácil constatar a
enorme diferença entre o “batalhão da legalidade” e os rebelados do Juazeiro, uma
massa compacta, coesa, sem discrepância, por mínima que fosse. Em face de tal
panorama, o batalhão militar só tinha uma opção, a qual foi posta em prática: o
sítio.
Encurralados, na ótica do Comandante Ladislau, eles venceriam pela fome,
pois estavam cientes de que o abastecimento no Juazeiro se tornara crítico, o
estoque chegara praticamente ao fim. Ensaiam então um novo ataque. E no dia 15
consumou-se o cerco ameaçado pelas tropas do governo,
estacionando nas saídas de Santa Rosa, São João e Malvas, quando foram
destroçadas. Nas Malvas, por exemplo, estava estacionado o bravo Quintino
Feitosa e seu grupo, que espartanamente impediram que invadissem a Vila, apoderando-se das
trincheiras. Considerado destaque da Revolução, resistiu valorosamente, impedindo o cerco.
Por isso o título que lhe deram, de herói da Revolução. Nessa
conjuntura difícil, Dr. Floro deu ordens para que os combatentes invadissem os
sítios abandonados ao redor da Vila, que estavam com os seus paióis abarrotados
de víveres, como comenta o escritor Irineu Pinheiro (op. cit.).
Ao tomar conhecimento dessa
ordem, o Padre Cícero se opôs terminantemente. Para ele, era um furto disfarçado
em nome de uma situação periclitante, portanto não consentiria. Sua gente não
poderia usar de tais métodos, contrariando seus ensinamentos. Mas Dr. Floro
resistia,
dizendo ser o único meio, em vista da falta de víveres, a população estava à mercê desse detalhe.
Sempre ponderando e com voz calma e modulada, o Padre Cícero insistia na sua
tese do furto, contrariando as ordens já expedidas pelo chefe da revolução, e dizia: “vamos pensar noutro
meio”. “Qual?”,
perguntava-lhe o Dr. Floro. Sem se afastar do que lhe
parecia ser legal – o que era, dada a situação premente da escassez
de alimento –, com o ânimo já bastante exaltado pela discussão, ele
perdeu a linha, e num rompante cruel e áspero, em presença de políticos,
sentados à
grande mesa da sala de jantar, de 40 lugares, que participavam de uma
conferência, Dr. Floro levantou-se, e dedo em riste, apontado para o
Padre Cícero, disse: “ou deixa-me agir a meu modo, ou
vou-me embora já, deixando-o nesse cipoal”. Um frio gélido tomou conta dos
presentes. Ninguém
se atreveu a uma intervenção, paralisaram com a ameaça. O
Padre Cícero silenciou. A ordem foi executada, assegura o escritor da Revolução, Irineu Pinheiro (op.cit.). Esse é o único atrito de que se
tem notícia entre os dois, pelo menos em público.
Vale aqui lembrar que avulta
nessa passagem a grosseria do Dr. Floro, e que não fazia parte do seu
perfil, até essa data, porque depois houve uma grande reviravolta na sua
personalidade. Talvez levado pela doença que o matou precocemente, ou pelas
situações críticas que teve que enfrentar no campo da política, quando
realmente tornou-se o dono absoluto do Juazeiro. Naquele momento, ele estava
comprometido até a medula com as mais destacadas figuras do cenário político
nacional, e perder a guerra não estava nos seus cálculos; seria sem dúvida sua derrota
política. Para isso se empenhou, apostando no sucesso, daí esse gesto de
indelicadeza. Era uma guerra, e na guerra é assim, não tem escapatória, triunfa
o mais forte, o de maior poder. É a lei de Darwin.
O batalhão do governo faz uma
manobra cautelosa, retirando-se para Barbalha, após o incidente das Malvas, mas
foi apenas uma estratégia, porque no dia 17 voltaram a atacar furiosamente,
disparando uma grande fuzilaria em frente aos Valados, sendo rechaçados mais
uma vez. Não conseguindo realizar seu objetivo, retrocediam, quando
inesperadamente são surpreendidos por uma bateria de bombardeio pesado, um
explosivo feito de pólvora, cacos de vidro, pimenta moída, pregos, pedaços de
ferro, chumbo derretido, tudo dentro de garrafas, que tinha
como detonador um estopim feito de cordel. Era o coquetel molotov. Ao
pressentirem que a tropa se aproximava das trincheiras, de dentro dos Valados,
a salvo das balas inimigas, detonaram o engenho com precisão matemática, porque
todos ao mesmo tempo, milhares de garrafas atiradas, produziram uma fuzilaria
que assombrou o sertão, ecoando por todo o recôncavo.
A precariedade do comando do
Major Ladislau Lourenço era visível, dando lugar a um retraimento que tomava
conta da tropa. A única saída que encontraram foi a de
retroceder, outra vez rumo a Barbalha, levando muitos feridos, e houve óbito
dos dois lados, com um agravante: a deserção em massa na tropa do
governo, apesar
de também ter havido feridos e mortes entre os romeiros. Mas seu contingente
era tão grande e eles eram tantos, que logo eram substituídos, ao
contrário da tropa do governo, que desertava diariamente, e o
lugar ficava em aberto, ficando desse modo inferior em número. Nesse dia, as
deserções chegaram a um avultado número, escreveu Joaquim Holanda (op. cit.), e pior, o medo
minou toda a tropa, por uma questão psicológica que já tomava conta da tropa,
dando lugar à superstição, atribuídas a forças ocultas, e que se resume
no seguinte: nas poucas vezes que se defrontaram cara a cara com os
sublevados,
estes,
como miragens, se embrenhavam matagal a dentro, antes que os soldados do
governo deles se aproximassem, sem deixar rastro, para reaparecerem noutro
lugar,
numa rapidez impressionante. E para mais afetá-los, durante o cerrado tiroteio, eles divisaram num
dos parapeitos da torre da igreja o beato Vicente, o lenhador outrora pacífico
da casa do Padre Cícero, que lá estava com o seu bacamarte de sete tiros, de
sete certeiras quedas, a defender seu Padim. Na sua concepção, com certeza tudo
muito natural. O Juazeiro é que não poderia ser destruído, por isso ele ali
estava a fim de defendê-lo. O pânico dominou a todos, do oficial ao recruta,
esmorecidos, subalimentados, pois a carne que lhes chegava já estava passada, e alguns até
adoeciam ao servirem-se dela. Com os uniformes em péssimo estado, e uma neblina
intermitente a encharcar-lhes o corpo, o que mais lhes restava? Escreveu
Joaquim Holanda (op.cit).
Assim, levados pela
sugestividade, iam abandonando o campo de luta. Por outro lado, temiam o Major
Ladislau, depois de assistirem a um ritual em pleno campo de guerra, quando
brutalmente aplicou uma surra num dos seus soldados que ali mesmo faleceu.
Nesse mesmo dia 17 de janeiro, em meio a tanta mortandade, a tanto desespero,
falece a beata Maria de Araújo, que agonizou ao som dos estampidos dos tiros. Era a guerra de Floro
Bartolomeu. Tendo enterro condigno, acompanhado pelo Padre Cícero e autoridades
políticas, refugiadas no Juazeiro. Sepultada na pequena Igreja do Perpétuo
Socorro, em caixão de cedro, envernizado por dentro e por fora e trancado a chave
por ordem do Padre Cícero (Irineu Pinheiro, op.
cit.).
Depois desta ofensiva, e que
terminou com a vitória mais uma vez do Juazeiro, o Major Ladislau chegou por
fim a um reflexo mais que racional: manobrou a tropa outra vez em
direção à
Barbalha, para instantes depois impor uma parada para um breve discurso, no
qual, com voz embargada, disse: “Cada qual procure o seu rumo,
não me considero mais o Comandante da tropa”. A essa altura, ele tinha feito
refém o deputado Antônio Pinto, de Barbalha, quando se dizia estar garantido. E
ameaçava: se tentar fugir, esmigalho sua cabeça com o meu sabre afiado. Ato
contínuo,
arrancou do boné e dos punhos seus galões, à maneira do Coronel Alípio de Lima, e
às pressas deixou o batalhão entregue aos seus oficiais. Foi um momento
dramático, escreveu Joaquim Holanda (op.
cit.). A
confusão tomou conta da tropa, e tanto o Estado Maior quanto os soldados
atropelavam-se uns aos outros. Sem rumo, deixavam o local. Armas,
uniformes e munições, e até mesmo a bandeira nacional foram jogados ao chão e
pisoteados, comenta Otacílio Anselmo (op.
cit.).
Ainda de acordo com o cronuista
da expedição, o citado Joaquim Holanda, o Dr. Martins de Freitas tomou a
iniciativa de conduzir a tropa, salvando a honra da corporação. Desacreditado
perante todo um batalhão, o Major Ladislau seguiu em direção ao Crato, para em
seguida retroceder e tomar a estrada do Iguatu. É que, a meio caminho, foi
avisado de que Floro Bartolomeu ordenara para o outro dia o ataque ao Crato.
Era 22 de janeiro. Realmente, no dia seguinte confirmou-se a ordem de ataque, e três grupos de 250
homens cada seguiram destemerosos rumo a mais uma jornada. Eram comandados por
Manoel Chiquinha, Zé Pedro e Zé Terto. Antes de partirem, porém, ouvem
atentamente às proposições do Padre Cícero, que passou à história, e se encerram no seguinte: 1º) Não beber álcool,
não furtar, dar condição ao adversário de deixar a cidade, respeitar as
famílias, dar proteção à Dona Maria de Secundo (viúva do
seu inovidável amigo Joaquim Secundo), respeitar as autoridades, o Juiz, o
vigário, Padre Quintino, o Seminário, e que deixassem abertas as estradas do
Lameiro e do Seminário 18,
para quem quisesse sair.
Depois dessas recomendações, e
dada a sua bênção, a exaltação espiritual chegava ao ápice, entremeada por benditos
e hinos guerreiros. Às três horas da tarde, tomaram de assalto uma das trincheiras do
governo,
nas imediações do cemitério do cólera, quando foi travado um grande tiroteio, e
houve baixas de ambos os lados. A força militar estava bem municiada, enquanto
rareou a munição no pelotão do Juazeiro. Se não fosse um desconhecido
simpatizante da causa, de nome Américo Alves, a coisa teria se complicado. Ele foi o salvador do
dramático momento, fornecendo munição. Em pouco tempo chegaria um grande
reforço de munição, enviado por Dona Federalina Augusto, de Lavras da Mangabeira, mulher varonil, política
atuante ao lado do marido, que enviou cinco mil cartuchos, e telegrafou ao
Padre Cícero e ao Dr. Floro, desejando a vitória dos romeiros, enquanto Aurélio
de Lavor e Gustavo Lima enviavam 3.750 cartuchos (entrevista do Dr.
Floro ao jornal
Unitário,
com data de 17/07/1915). Com todo esse reforço, o ânimo
foi recobrado e também redobrado o poder de fogo. Sem grande resistência pelo
lado das tropas do governo, os combatentes do Juazeiro ultimam a conquista e,
às 6 horas da manhã do dia 24 de janeiro, eles entram na histórica cidade do
Crato (Irineu Pinheiro, op. cit.).
A 6 horas da tarde, tudo estava
consumado:
os romeiros apoderavam-se da nobre cidade, consolidava-se a vitória. Simultaneamente caía
Barbalha, ficando sob as ordens do Comandante-em-Chefe, Dr. Floro Bartolomeu.
Com a queda das duas cidades, a notícia correu velocíssima. Decepção e frustração tomaram
conta do governo e seus aliados. A euforia explodia em Fortaleza, no meio dos
Marretas. Exaltado, o jornalista João Brígido fazia a apologia dos romeiros,
chamando-os de libertadores do Ceará (Rodolfo Teófilo, op. cit.). No Juazeiro, intranquilo e sob forte
emoção, o Padre Cícero orava em voz alta e traçava com o crucifixo cruzes na direção do Crato.
Era atávico nele esse gesto de fazer cruzes com a cabeça ou orar em voz alta,
mesmo em presença de alguém, diz o Padre Azarias Sobreira (op. cit.).
Consolidada a tomada do Crato, no
outro dia lá chegava o Dr. Floro e seu Estado Maior: Coronel Antônio Luís Alves
Pequeno, até então refugiado no Juazeiro, Pedro Silvino
de Alencar, seu braço direito em toda essa luta, e o Dr. José
de Borba Vasconcelos. Em casa de Dona Tidinha Alencar, tia de Pedro Silvino, foi servido um lauto
jantar
de confraternização pela vitória, recebendo Dr. Floro visitas de amigos e
autoridades, como o Juiz em exercício, Dr. Livino de Carvalho, que deixou
um documento à posteridade do comportamento do romeiro, após a queda do
Crato. A citação é de Irineu Pinheiro (idem). Dia seguinte à vitória dos
romeiros e a consequente queda do Crato, foi reempossado no cargo de Intendente
do Crato, o Coronel Antônio Luís. O documento, no que diz respeito
ao comportamento do romeiro, tem outro enfoque, diferente do
construído por escritores parciais. Um tanto prolixo, dele tirei os trechos
principais, documento solicitado pelo Dr. Floro (in O Rebate.)
“Os combatentes eram
numerosos, estavam visivelmente famintos, a maioria em andrajos, pés descalços. Arrombaram algumas casas, que estavam vazias pela fuga
dos seus proprietários, procuravam alimentos. Achando-os, devoravam com ansiedade. Era
a fome que grassava entre eles, e esse é o sentimento próprio das guerras, dos
vencedores, que muitas vezes abusam da sua condição de vencedores, e
extrapolam, cometendo estupros, incêndios, destruição. No Crato, porém, tal não aconteceu. Eles queriam e levaram apenas
armas, alimentos e munições. Nesse instante, as portas da minha casa foram
arrombadas a golpes de machado, aí apresentei-me como autoridade, exigindo
respeito, no que fui atendido. Em seguida eles deixaram o local, e só aí
respirei aliviado”.
É esse o depoimento insuspeito do
Juiz Livino de Carvalho, testemunha ocular do momento, ficando descartado o que
disseram os adeptos do rabelismo, e que muitos escritores tomaram por
verdadeiro:
dos romeiros terem espalhado o terror, e os saques chegando a ultrapassar
expectativas. Digno de nota foi o que escreveu
Amália Xavier (op. cit.):
“Muitos, que não eram das hostes
juazeirenses, aproveitaram
o momento confuso, e baixaram a mão em tudo que puderam, de preferência, em casas de tecidos e armazéns de alimentos. Estes ficaram
conhecidos pelos da ‘Retaguarda’, que nunca deram sequer um tiro. Aproveitando a ocasião, sentimento
inerente aos aproveitadores de situação, de uma hora para outra ficaram muito
bem de vida”,
finaliza a escritora.
Com a queda das duas cidades, o
esperado era a renúncia do Presidente Rabelo, mas não foi o que
aconteceu. O movimento recrudesceu de intensidade, quando convocou a
terceira expedição, nomeando para chefiá-la o Capitão do Exército, José Alves da Penha,
também conhecido por Jota da Penha, filho do Rio Grande do Norte, radicado no Ceará, onde fora
eleito deputado estadual. Tanto quanto as duas outras expedições, ele vinha
munido de ordens para aniquilar o Juazeiro. Dispondo de muito prestígio e
autoridade, pois era um militar íntegro e valente, tão valente que se dispôs ao
sacrifício de comandar o 3º Batalhão de uma luta inglória e antecipadamente
perdida. Talvez o soubesse, mas cumpriu a missão para a qual fora designado, e
pagou por essa missão, com sua vida. A narrativa que se segue é do último
quadro da guerra.
— ÚLTIMO QUADRO DA GUERRA—
O Capitão Jota da Penha seguiu
para o campo de batalha com um contingente de 240 homens, que juntou aos
remanescentes do batalhão do Major Ladislau, estacionados na cidade de Iguatu e imediações, a fim
de barrar a passagem dos romeiros em direção à Fortaleza. A revolução do
Juazeiro ultrapassara o Cariri, ganhava manchetes nos jornais do país,
despertava admiração e impunha humilhação ao adversário. Prestigiado com
poderes e garantias, dadas pelo Presidente Rabelo, que apostava nessa última
cartada sob o comando de Jota da Penha, seu comando dava segurança à tropa, não só por
sua indiscutível personalidade, mas pela estratégia que apresentou com tudo
muito bem planejado. Linha de ataque, pessoal de
enfermaria, fortificação de trincheiras ao longo de todo o leito da linha
férrea,
que foi cercada por arame farpado, desde a saída da cidade de Iguatu a Miguel
Calmon, lembrava Antônio Guilherme, um dos sobreviventes da guerra,
em conversa com meu pai, e que, observando-o, guardei para sempre. Ele pertenceu ao batalhão sob o comando
de Pedro Silvino de Alencar. São relatos preciosos. Retirando-se anos
depois do Juazeiro, foi morar em nossa cidade de Campos Sales, e era muito amigo de
meu pai. Lembro de vê-lo em nossa casa a conversar sobre a guerra do Juazeiro, que lhe tinha
deixado sequelas: só tinha o antebraço, metade havia perdido nessa luta.
(Confesso: o defeito me causava medo e certa repugnância, meu pai reagia a essa
minha encenação - coisa de criança, talvez).
Depois de tomar todas essas
providências, o Capitão Penha fez uma reunião para acertar os últimos detalhes da
operação. Repleto de otimismo, contando com o apoio de vários coronéis do
latifúndio,
como os irmãos Magalhães e outros adeptos do
rabelismo, disse no seu breve discurso do compromisso que assumira com o
governo para rechaçar o Juazeiro e seu povo, e que o momento era de luta e
sacrifício. Convocava todos ali a cerrar fileiras, quem não quisesse, estava
desobrigado, e desse um passo à frente. Alguns oficiais perfilaram-se, devolvendo
as armas. Em meio a esses, encontrava-se a quintessência da covardia, o tão
citado Major Ladislau Lourenço, que a passos apressados deixava o recinto em
direção à
Estação Ferroviária e embarcava rumo à capital, deixando à mercê do
novo batalhão seu refém, deputado Antônio Pinto.
Depois de uma espera de 20 dias, a 22 de
fevereiro foi desfechado o ataque, que partiu dos combatentes do Juazeiro pela
traição de um camponês, que deixou-os em frente à tropa militar. A
posição de comando militar era excepcional, sobretudo no conhecimento do
terreno, já com uma vivência de longos dias. Encurralados, os romeiros partiram
para o ataque. Antes, Zé Terto trucidou o camponês que os havia traído, segundo os
relatos oficiais. Aí então desdobrou-se a fuzilaria, que ecoava sertão
adentro, assombrando. Foi a luta mais duradoura e
encarniçada da guerra, que teve a duração de 12 horas seguidas. As duas partes
sofreram revezes, mas terminou com a vitória dos romeiros sobre o batalhão do
Capitão José da Penha, morto na ocasião, marcando o fim da guerra e malogrando
assim seu plano de aniquilar o Juazeiro.
O Capitão Penha, aos primeiros disparos,
saiu a trotes largos no seu cavalo, empunhando uma pistola de grosso calibre
das Forças Armadas. Destemido, partiu sozinho em direção às trincheiras. A
fuzilaria tinha a rapidez do relâmpago, diz a memória coletiva. As balas
cruzavam o céu azul-cinza daquelas paragens ressequidas. Em meio ao fogo
cruzado,
num delírio guerreiro e patriótico, o Capitão Penha passa pelo telégrafo e transmite
sua última mensagem ao governo dizendo: “Estamos sendo atacados e
revidando. Viva a República!”. Esse foi o seu último ato em
vida. Daí a instantes, caía o último baluarte da insensata
resistência do Coronel Franco Rabelo, a última esperança de um governo
incoerente e inflexível. O repelente Zé Pinheiro foi o autor da façanha. Homicida terrível, que
poucos dias antes estava recluso na cadeia do Crato, onde cumpria pena. Ele
tinha por hábito dizer. “Eu me danando, troco
tiro até com Nosso Senhor”.
Cessado o tiroteio, médicos e
enfermeiros se revezavam no atendimento aos feridos, enquanto outros eram
sepultados. Vale dizer que, de uma só vez, foram sepultados na mesma cova 14 cadáveres, segundo o
testemunho de Frei Marcelino de Milão, capelão dos romeiros. Esse tremendo
combate deu-se em Miguel Calmon, que os romeiros batizaram de São Bento – a alusão ao nome é
desconhecida. Refluindo para seus acampamentos,
levam consigo grande número de feridos. Em meio a estes, gravemente ferido, Manoel Calixto, figura
ímpar da revolução, por sua coragem guerreira. Mortalmente atingido, reage com
espantosa fúria sobre o inimigo, quando tomba, desfalecido.
Ali terminava a guerra, tinha fim
o genocídio. Recolhidos os feridos e moribundos, lá estava o saldo trágico de 74
dias de sangrenta luta entre irmãos, uma história sem precedentes em terras do
Ceará. A tropa do governo estava inquieta, preocupada com o desaparecimento do
Capitão Penha há quase oito horas. Depois de muitas buscas infrutíferas,
resolveram usar o apito prolongado da sirene das locomotivas, numa cadência
lúgubre, até esgotar. Não restava mais nenhuma dúvida, o Capitão Penha estava
morto. Ao amanhecer do dia, encontram seu cadáver em um matagal não tão
distante das trincheiras: jazia desfigurado, frio e inerte,
em decúbito ventral, o herói da 3ª Expedição, despojado de todos os seus
pertences. Junto a ele, o cadáver do seu cavalo. Sua arma havia sumido, bem como
sua carteira
de identidade
e sua aliança de casamento, que Zé Pinheiro ostentava com
orgulho para os companheiros, dizendo-se, autor da morte do
bravo Capitão Penha, regozindo-se do feito. Outra vez o pânico tomou conta da
tropa. Espremidos, queriam todos ao mesmo tempo embarcar no vagão que
conduziria o corpo do inditoso capitão para Fortaleza. Foi preciso calma e
habilidade para contê-los (Joaquim Holanda, op.cit.).
Expostos a céu aberto, muitos
sobreviventes da chacina ali permaneciam e, com todo o horror que as guerras
oferecem, tenentes e sargentos, indignados com a morte do seu
comandante, dão cabo deles a coice de perneira, num requinte
de perversidade, esmigalhando o crânio de fuzil, chutando os cadáveres. Um
vagão especial foi destinado para transportar o corpo do bravo Capitão Jota da
Penha, coberto com a bandeira nacional. Por onde passava, recebia a homenagem
do povo simples e fiel do sertão, num tributo ao grande herói sacrificado no
campo de guerra. A tristeza, acoplada a um misto de decepção e ódio, tomou
conta dos rabelistas aquinhoados do governo. Decepcionados e enfurecidos pela
morte do Capitão José da Penha, responsabilizam Pinheiro Machado pela perda do
Exército. Houve tumulto e quebra-quebra em Fortaleza, com ameaças de
incêndio. Apareceu
entretanto alguém sensato, e o motim foi contido, seguindo-se o enterro do
bravo capitão, com todas as honras merecidas, escreveu Rodolfo Teófilo (op.cit.).
A morte do Capitão Jota da Penha
virou lenda. Os cancioneiros anônimos, numa canção de gesta, exaltam seus
feitos e narram, em versos lúgubres, sua morte e a de seu cavalo. Seu
sacrifício,
como o dos romeiros vencedores, tornou-se num épico, o grande épico cearense: a canção de melodia
triste exaltava a figura de J. da Penha e do seu cavalo. Nascida
e criada no sertão, sempre ouvi essa melancólica história da
guerra,
com tantas implicações de ordem política e moral, de heroísmo e covardia, e
também de crueldade. No lugar onde tombou o Capitão José da Penha, foi erguido
um monumento à sua bravura.
A revolução que ultrapassou o
Juazeiro chegava agora à capital. E lá eles chegaram, dando vivas ao Padre
Cícero e à
Nossa Senhora das Dores, se impondo, orgulhosos do seu feito. Era o triunfo
épico de anônimos combatentes que ganhavam as manchetes dos jornais, e com suas
armas equilibradas aos ombros, em reluzentes animais, lá chegaram como
verdadeiros heróis, trazendo como símbolo um lenço vermelho ao pescoço, e na
cabeça o chapéu de couro, onde figurava, presa à borda, a medalha com a
efígie do Padre Cícero. Exaltado, o jornalista João Brígido
chamava-os de “heróis libertadores do Ceará”, pela audácia de enfrentar um governo constituído. E
pensar-se que eles não eram heróis aristocráticos, mas simples homens retirados
da massa camponesa. De emergentes, insignificantes até, eles
passaram a heróis, eufemismo criado pelo citado jornalista, que muito se empenhou
pela derrubada do Presidente Rabelo.
O ato de rebeldia ofendeu os
fortalezenses, e principalmente o Exército, que, junto à polícia do Rabelo, criaram uma
confusão, nascendo um ciclo de brigas na capital. Os romeiros, ao serem
chamados de jagunços, partiam para a briga, e regiam a espingardas e punhais, na maioria das vezes.
A ciranda do imaginário alastrou-se em toda a capital, chamando-os de
brutamontes, assassinos frios e um sem número de adjetivos, causando mais
pânico, imprimindo grande medo. Misturada fantasia à realidade, ia
tomando consistência, na mente de cada um, ao ponto das próprias freiras da
Imaculada Conceição, o grande colégio tradicional e de elite,
endereçarem um apelo ao Senador Rui Barbosa, e também ao Cônsul da França,
pedindo garantias para as meninas internas e para elas, freiras do
estabelecimento, a maioria francesas. E fazem mais: ameaçam hastear a bandeira
da França na porta principal do colégio. Rui Barbosa lança um
manifesto de repúdio ao movimento revolucionário do Juazeiro, e do alto da
Tribuna, através de sua pena brilhante, ataca violentamente o Padre Cícero, e o
chama de “figura
sinistra, samarra ensanguentada”.
Esse contundente discurso nada
mais era que a resposta presa há anos e nunca perdoada, pelo fato do Padre Cícero
não o ter apoiado na sua candidatura civilista para a Presidência da República,
apesar das rogativas dos quatro cantos do país, de altos políticos e da própria
Igreja, como os bispos do Piauí e do Maranhão, e de seus fiéis adeptos
de Alagoas, quando apoiou a candidatura Hermes da Fonseca, que foi vitoriosa. Diante de um novo quadro que
surgia delineando novas cores, foi decretado o Estado de Sítio no Rio,
estendendo-se do Distrito Federal ao Ceará.
Horas depois, seria nomeado
interinamente para o governo do Estado o Coronel do Exército, Fernando
Setembrino de Carvalho, já cupando as funções da 4ª Região Militar. De
acordo com o artigo 6º, nº 2, da Constituição Federal, pelo Ministro de
Interior e Justiça, ele assumiu o governo do Ceará. Ficando
assim confirmada a deposição do cargo de Presidente do Estado do Coronel Franco
Rabelo que, quando comunicado da intervenção, ainda esboçou um ato de
resistência, por sinal o último da sombria história do seu governo,
insistindo em permanecer no cargo através de um ofício, que aqui vai transcrito
ipsis literis:
“Em resposta ao Ofício de V.
Excia. datado de hoje, tenho a comunicar que, em obediência aos deveres e atribuições que me confiou o Estado
do Ceará, não devo passivamente,
submeter-me à intimação do dito Ofício de V. Excia, e do Governo Federal - contestando os fundamentos
do decreto do Exmº Sr. Presidente da República de ontem, em que
resolveu interferir neste Estado, nos termos do artigo 6º 2 da Constituição da
República. Declaro público e peremptoriamente que mantenho em toda plenitude e
integridade o exercício das funções de Presidente deste Estado, das quais
poderá V. Excia. se
apoderar quando quiser e como entender, na certeza de que, cedendo eu ao ato
injusto e violento do Exmº Sr. Presidente da República, pugnarei em todo o tempo e
oportunidade pelo direito que me assiste, de Presidente do Ceará legitimamente
eleito e legalmente reconhecido pela Assemnbleia Legislativa deste Estado, e
pelos poderes da União.
“Marcos Franco Rabelo
– Presidente do Ceará”
Este documento seria o último que
levaria sua assinatura como Presidente do Ceará, quando enfim retirou-se do
Palácio da Luz para a residência de seus familiares. Fortaleza estava de luto,
não pelas perdas de tantas vidas – para os maiorais da situação, isso
é banal, sem nenhuma importância. Mas sim pela perda de cargos e posições de
mando, e o banimento de forma humilhante do seu Presidente — o Coronel Marcos
Franco Rabelo. Terminava assim de forma violenta e
melancólica o malfadado “Governo da Salvação”. Apoiado e querido
da sociedade tradicional e conservadora de Fortaleza, recebeu uma
verdadeira consagração em vida, com Te
Deum, discursos laudatórios e inflamados, e foi aclamado numa
procissão ruidosa de protesto ao ato impatriótico do governo da nação. A
citação é de Rodolfo Teófilo (op. cit.). Recolhendo-se à casa de sua filha,
Alba Rabelo, para em seguida refugiar-se a bordo do Navio Tupi, ancorado no porto de Fortaleza,
quando seguiu em direção ao Rio, no navio São
Paulo, deixando atrás de si um rastro de sangue, que tingiu as alvas terras
do sertão cearense, enlutadoo, pelo número incontável de mortos e mutilados.
****
CAPÍTULO 16
PADRE
CÍCERO, LÍDER DA MEDIAÇÃO E DO CONSENSO
O Padre Cícero foi o maior líder
natural
que já deu o nosso povo.
(Jesuíta e poeta
Aires de Montalvo)
A
epígrafe acima atesta, de fato, a liderança do Padre
Cícero em todo o Nordeste. A vitória do movimento subversivo
ganhou ampla repercussão, ultrapassando fronteiras. Uma torrente de alegria
inundou o Juazeiro: centenas de telegramas lhe eram endereçados de todos os
quadrantes do País, em regozijo pela vitória. Em meio a centenas de telegramas, os do Presidente da
República,
Marechal Hermes da Fonseca, do Senador Pinheiro Machado, e da Câmara e Senado. O texto, um só: “o restabelecimento da
ordem pública”. Dali em diante, Juazeiro tornar-se-ia uma meca política, com
trânsito dos mais eminentes políticos, das mais diferentes ideologias. O previsto por todos
aconteceu:
Dr.
Floro ganhou um prestígio incontestável, atingindo o zênite da sua carreira
política,
como citam os documentos da época.
Quanto ao Padre Cícero, consolidou-se
politicamente, alçado à posição de líder, conselheiro político, mediador e fiel da
balança da política cearense. Para observadores atentos dos fatos do Juazeiro,
quer de ordem religiosa, quer política, foram fatos inusitados e
surpreendentes, começando por sua emancipação política, com o povo a
manifestar-se em praça pública, expressando sua vontade, quando
os movimentos políticos eram restritos somente a um grupo que dirigia e falava
em nome de todos, o que não deixa de ser significativo. Aliás, a livre
manifestação do seu povo já vinha desde os milagres, quando a maioria da
comunidade se manifestou para Roma, em documento oficial, com assinatura até
mesmo de mulheres, deixando o Bispo escandalizado e indignado,
reprovando e classificando de ousadia. Com efeito, daquele
ano até 1930 todos os escritores são unânimes em afirmar o prestígio político
do Padre Cícero, no âmbito da política cearense, como Conselheiro, daí seu prestígio
para a alta cúpula da política do País.
Enquanto ia acumulando uma enorme
soma de poder político, o Juazeiro transformava-se numa espécie de meca
política. Lá chegavam polítícos das mais variadas tendências, a sós ou em
comitiva, para visitá-lo e implorar-lhe o milagre pela continuidade de suas
carreiras,
algumas já em franco declínio. Tornaram-no num oráculo, além de carregar aos
ombros a enorme e gigantesca massa humana, caso único no Nordeste. Estava
implicitamente estabelecida, a partir de
“O Padre Cícero foi, no seu tempo, o homem mais
prestigiado do País, esperava-se até que mais fizesse pela educação, dado o prestígio que logrou,
entretanto a intervenção diabólica de Floro Bartolomeu não permitia, a ele não
interessava que se abrissem aos broncos a luz do saber; interessava sim a treva
mental dos romeiros para poder dirigi-los a seu modo”.
Era o malogro político do velho
contra o novo que surgia, deixando clara a ogeriza política da velha ala conservadora
e empedernida contra o Dr. Floro, ao construir uma
história política, de lances corajosos, multifacetada, autoritária; para muitos, violenta. Para os
velhos políticos oligárquicos, Dr. Floro era um intruso
na política cearense, desde que galgou projeção elevada após a guerra do
Juazeiro. Quanto ao alto conceito político no País que adquiriu o Padre Cícero,
eis o que disse Edmar Morel (op. cit.):
“O Padre Cícero galgou um degrau
tão alto na política do País, que poucos foram os que atingiram esse degrau. Ele foi de fato o
homem mais prestigiado daquela época. Cabe-lhe ainda o mérito de ter sido o
criador de uma política de cunho populista, até então inexistente. Dela
aproveitou-se mais tarde o Presidente Getulio Vargas, para implantar a sua tão
discutida política populista”.
E acrescenta:
“Ele teve poderes para fazer do
Juazeiro um núcleo cultural de grande expressão, não fez. Era de se esperar que, convivendo com o mundo
letrado de Roma, durante quase um ano ao retornar, viesse imbuído de novas ideias para fazer do Juazeiro um
polo de cultura. Tinha prestígio bastante para fazer, depois de se ter tornado um
líder político”.
O autor deixou-se levar por
informações que não refletem a realidade dos fatos, pois só o ter querido
fundar no Juazeiro a Diocese do Cariri, e com ela um Seminário, no longínquo ano de
1898, fica claro nesse detalhe seus esforços para tirar o Juazeiro do atraso, e isto foi uma
constante em sua vida.
Na realidade, o autor não exagerou
ao falar do seu prestígio político e social. A simples leitura de sua
correspondência pessoal fala por si só: dezenas de cartas que trocava com
políticos de nomeada das mais diversas tendências. Despertou admiração em intelectuais como
Gilberto Amado, que se solidarizou com ele pelo discurso na Câmara Alta, em
1923, quando Dr. Floro o defendeu de acusações que não condiziam com a
realidade do Juazeiro.
Cartas de eminentes políticos, que faziam o fino
intelectual da Câmara e do Senado de então, como o Senador Epitácio
Pessoa, Cincinato Braga, o Presidente da Paraíba, João Pessoa, Flores da Cunha,
Ramalho Ortigão, Artur Bernardes, depois Presidente da República, o também
Presidente Hermes da Fonseca, Pinheiro Machado, Dr. Antônio Accioli, Juarez
Távora, Tavares Cavalcanti, dentre tantos outros, que seria
impossível listá-los O engenheiro Arrojado Lisboa era um dos seus
admiradores, como também os engenheiros ingleses e norte-americanos, que vieram
ao Ceará a serviço da construção da linha férrea. Sua performance
impressionava-os e, fascinados, saem de lá tecendo elogios do
conhecimento que ele tinha da História Natural. A Fundação Rockefeler lá também
fora, recebendo todo seu apoio no combate à febre amarela. Assim o Juazeiro se movimentava a todo vapor,
metamorfoseando-se numa cidade cosmopolita, não é demais dizer-se. Sentindo
toda essa força, o Padre Cícero se sentiria mesmo um predestinado? A senha para
lá chegar conferia atestado de status:
ser recebido pelo Padre Cícero dava realce, imprimia grandeza.
O que trazia essa leva de pessoas
a querer vê-lo
e ouvi-lo? Lá chegavam pessoas da maior projeção social, como o grande
latifundiário alagoano, Coronel Manoel Fernandes da Costa, que, de dois em dois
anos, fazia o percurso com uma comitiva de 100 pessoas, acompanhado de uma banda
de música,
para homenageá-lo. Era mesmo o apogeu do culto à sua personalidade.
Seria mesmo ele um ser diferente, um profeta da antiguidade, que os mais
notáveis estudiosos de fenômenos dizem só aparecerem de tempos em tempos? Para
a maioria do povo, ele era mesmo um “Santo”, fazia milagres, tudo previa, tinha
premonições extraordinárias, profetizava, descrevia lugares onde nunca fora,
por exemplo, a vivenda do Monsenhor Távora em Manaus, como também previu a
queda da família
imperial, anos antes dela se
concretizar. Ubiquidade ou telepatia? Seus
detratores gratuitos davam esses fatos como pura ilusão; outros, que nutriam por ele um despeito
insopitável, davam outra conotação aos fatos, como por exemplo, o que
disse o cratense Padre Irineu Limaverde, numa palestra na mesma cidade, a qual tive
oportunidade de assisti-la. De acordo com ele, “o dom de ver as coisas ao longe
e fazer previsões fantásticas era fantasioso, um truque bem encenado”. Segundo ele, o Padre
Cícero mantinha em vários pontos do Nordeste uma espécie de rede de informação
prévia da chegada dos peregrinos ao Juazeiro. Aí então ele, “já conhecedor dos fatos da vida
daqueles, discorria sobre particularidades íntimas de cada devoto”. Inconcebível!, se pensarmos nas dificuldades de
deslocamento da época e a comunicação precária. A exposição do
representante do clero atesta evidentemente o desprezo da classe ao Padre
Cícero. Tranformado no grande mito, envolto pela auréola de mistério
que o cercava e da aura que carregava consigo, esses arremedos sem base científica nenhuma não se
sustentavam.
Gustavo Barroso, analisando-o, disse: “O Padre Cícero foi o
maior centralizador de enegia, em todo o Nordeste brasileiro” (Revista O Cruzeiro, 1955). Faço
mais uma vez menção ao Jornal O Rebate: lá encontrei uma lista de 28
pessoas de classe social elevada, incluindo políticos que foram ao
Juazeiro para visitá-lo. Imagine-se o quanto isso não era
desgastante para ele, mas a todos recebia. Houve pessoas que lá ficavam por
15 dias,
até conseguirem ser recebidas.
Era o auge da glorificação. Para mais glorificá-lo, veio o reforço dos
repentistas do cordel, quando o alçaram à posição de Santo, Rei e dono do
Brasil, como atestam os versos do cordelista de primeiríssima qualidade, o
paraibano Leandro de Barros, o primeiro a projetá-lo na literatura de cordel.
Leandro Gomes de Barros despertou a admiração de intelectuais do porte de Afrânio
Peixoto, Câmara Cascudo e Leonardo Mota, entre tantos outros. Também o
paraibano João Mendes de Oliveira exaltava em versos suas virtudes e seu poder
político. Seus versos em sextilhas fizeram fama, incensórios, num estilo
hiperbólico. Para o Dr. Floro, João Mendes sofria de distúrbio mental, daí a
forma louvaminheira dos seus versos. Eis uma amostra do que escreveu:
É
um pastor delicado
É a nossa proteção
É a salvação das almas
O Padre Cícero Romão
É a justiça
divina
Da santa religião
É dono do Horto Santo
É dono da Santa Sé
É uma das três pessoas
É um filho de São José
Projetado não só na literatura de
cordel, mas também com a impressão da sua efígie em calendários, espelhos de
bolso e caixas de produtos farmacêuticos disseminados por todo o País. Mas
ainda estamos no ano de 1914. No mês de maio, foi nomeado
Presidente do Estado o Coronel do Exército Benjamim Liberato Barroso para
concluir o governo de Franco Rabelo, provisoriamente substituído pelo
Coronel Setembrino de Carvalho. Como esperado, foi reintegrado no cargo de
Intendente do Juazeiro o Padre Cícero, enquanto que o município seria elevado à categoria de cidade e comarca de primeira instância. Em
Fortaleza, numa sessão tumultuada, foi eleito Presidente da Assembleia Legislativa o
Dr. Floro Bartolomeu, cuja escolha redundou em verdadeiro atrito com o grupo paroquial
do Cariri, dantes seu aliado. O grupo era constituído pelo Dr.
Hermínio Barroso, Coronel Tomaz Cavalcanti, Dr. Aurélio de Lavor e o Coronel
Gustavo Correia Lima. Esses, que poucos meses antes o
ajudaram a fazer a guerra, declaram-se contrários à sua eleição à Presidência da Casa.
O caso era simplesmente sua exclusão da política cearense, como ficou claro. Se
dizendo contra, a alegativa era a de que o Dr. Floro, galgando essa
posição,
passaria a acumular uma enorme soma de poder e faria de todos subservientes às suas ordens.
Nessa altura, ele contava com o
apoio do Presidente Hermes da Fonseca, Francisco Sá e demais políticos em
escala nacional. Todo esse prestígio causou ciúme, e unem-se para derrubá-lo, mas infrutífero, pois ele não
dobrou-se às
injunções políticas, e partiu para guerra interna, conforme suas próprias declarações
ao jornal
Unitário (Ano de 1915). Para a turma do contra, o fato era o do acúmulo de
poderes que já dispunha, e presidir a Assembleia era dar-lhe
poderes demais. Rechaçando algumas das leis que criara, como a da
indenização às vítimas da guerra, a ala dissidente dá por terra, e o
Presidente do Estado veta-a. Orçada em 400 contos de réis, recebeu não só do Presidente em
exercício Benjamim Barroso o voto contrário, mas de quase toda a bancada governista.
Aí os ânimos acirraram-se e houve troca de farpas, agravando-se com a
demissão de Pedro Silvino de Alencar, Chefe do Batalhão Civil, composto pelos
combatentes do Juazeiro. Decepção em dobro e inusitada para a época, pois feita
através de um simples telefonema.
Dr. Floro via dessa forma se
dissolver o grupo que parecia antes unido até para deflagrar uma guerra. Eram
dele amigo ou como manda o figurino político de ontem e de
hoje, simples aproveitadores de ocasião? Com a demissão do Coronel Pedro
Silvino de Alencar, na mesma ocasião a anulação de Deputados à Assembleia Legislativa,
dos Drs. Alvaro Fernandes e Guilherme Studart, embora mais tarde fossem reconhecidos
por pequena minoria. Nasceu desses conflitos a cisão entre a ala Aciolina, os
Marretas, e uma pequena ala chamada Unionista, que unidos, lembremo-nos,
formaram uma só corrente, ajudando na derrubada do Presidente Rabelo.
Nessa altura, com a situação
tensa, os representantes de Lavras da Mangabeira, Coronel Gustavo Correia Lima
e Aurélio de Lavor, remetem um telegrama ao Padre Cícero, onde pediam que
interferisse nos acontecimentos, já que o Dr. Floro tinha todo seu respaldo
político. Sabedor do telegrama, ele inflamou-se, e sempre afirmando sua
personalidade corajosa e invencível, aqui já tão colocada, indiferente à oposição que lhe
faziam os representantes do Cariri, exceção para o Coronel Antônio Luís, que lhe deu apoio,
telegrafa urgente ao Padre Cícero, num tom de ressentimento, dizendo:
“Caso insista em interceder daí
nessa verdadeira pantomima, criada por egoístas sem escrúpulos e pérfidos,
avise-me, para que imediatamente me retire da política cearense, não voltando
jamais ao Juazeiro.”
Horas depois enviava
uma extensa cópia de um telegrama que o Padre Cícero deveria passar para o
Presidente Hermes. Sem omitir nehuma vírgula, o referido telegrama foi passado,
e aí, com a interferência direta do Catete, as coisas voltaram aos trilhos, mas
com a ruptura outra vez do jornalista João Brígido, do Coronel Pedro Silvino de
Alencar, do Coronel Antônio Luís, do Crato, que permaneceram na Ala
Aciolina, bem como os dois chefes do Juazeiro: Padre Cícero e o próprio Floro.
Passados 92 anos desses fatos, a
política em nada mudou, continua a mesma, do ridículo dos conchavos,
difamações, vinganças, nepotismo. O de ontem é o mesmo de hoje. Uma degradação
maciça.
AINDA OS ANOS 1914-1915
Apesar de ascensão e vitórias
nesse ano de 1914, alguns fatos ensombraram o cotidiano do Padre Cícero, numa
sucessão vertiginosa de acontecimentos.
No dia 5 de Agosto, faleceu sua
mãe,
Dona Quinô, depois de longos padecimentos por cegueira e paralisia. Dias depois, ele teve o
desconsolo de ver o seu Juazeiro, mais uma vez, transformado num
campo de batalha. Só que desta vez por motivos pessoais dos bandos rivais que
lá viviam. O estopim para o brutal acontecimento – que a imprensa chamou de “Sábado sangrento” – foi tão somente a
nomeação de Quintino Feitosa para delegado, que os bandos rivais não aceitaram.
Considerado o Herói da Revolução do Juazeiro, por seu destemor, por sua
firmeza e capacidade das suas ações, desencadeou no meio das facções
beligerantes um terrível ódio, não aceitando o título de combatente máximo da
revolução, que lhe foi dado pelo povo. Indignados, covardemente arquitetam um plano
com o fim de eliminá-lo. Armados de fuzil e rifle, partem para a empreitada sem
um motivo plausível senão o despeito. Armam o grande golpe.
No meio deles havia diferentes
facções, sendo que a principal, por ser a mais sanguinária, era a de Zé Pinheiro
e seu irmão Sinhozinho. Possuídos de ódio, já desentendidos com Quintino,
por não se dobrar às suas vontades, arquitetaram o odiento e audacioso plano: tirá-lo de circulação.
Numa crueza sem limites, mas própria de bandidos, o ataque foi brutal, além de covarde,
pois Quintino estava só e recolhido à sua casa, com seus familiares.
Inconformados e indignados com sua nomeação, fecharam o Juazeiro (jargão
policial) por um cerrado tiroteio que teve a duração de 23 horas, quando virou
uma praça de guerra. Antes, já haviam invadido a Coletoria
estadual, depredando-a, numa explícita ameaça a Quintino, porque o seu titular, Francisco Morato, era seu cunhado.
Pernambucano de Pajeú das Flores, segundo a crônica local, Quintino Feitosa era
um homem de fibra, destemido o bastante para não se intimidar ante as hordas
sanguinolentas, conhecidas por sua crueldade, como Zé Pinheiro. Amigo e
compadre do Padre Cícero, que tinha por ele, uma consideração especial. Já
ameaçado de morte, Quintino não tomou nenhuma precaução, senão refugiar-se em
sua casa, não por covardia, segundo os que escreveram sobre
o trágico acontecimento, mas para evitar um novo embate e mais luta, já que o
Juazeiro mal se recompunha da malfadada guerra, que teve um epílogo sangrento.
Recluso e sozinho, emparedado,
reagia ao ataque covarde e brutal de grandes cangaceiros, à frente Zé Pinheiro, ele, que foi o autor
material da morte do inditoso Capitão Jota da Penha. Acompanhado de seu irmão
Sinhozinho,
vai à
casa de Quintino, que morava nas Malvas (um dos pontos estratégicos da
revolução,
que impediu a entrada da tropa militar). Lá chegando, procuraram intimidá-lo com ameaças. Quintino não queria
briga,
exige que se retirem dali, da sua casa, do lugar onde morava. Mas inútil, não
lhe deram ouvidos. Em fração de horas, as ruas do Juazeiro contavam com mais de
600 homens em armas. Para o jornalista Francisco Fernandes do Nascimento, que
reviveu o dramático acontecimento em 1955, através da Revista A Cigarra (Rio), o número de
cangaceiros chegou a 1000. Foi um verdadeiro dia de São Bartolomeu, escreveu o
jornalista. O escritor Antônio Xavier (op.
cit.),
referindo-se ao episódio escreveu: “As almas bem formadas, os homens
de bem da cidade, sem ter para quem apelar, eram constrangidos a ver, impotentes, o
assassinato bárbaro, frio e premeditado de um herói”.
O bando criminoso, já no terreiro
da casa de Quintino, quando ele ainda tentou com eles dialogar, mas inútil.
Sinhozinho
não aceita o diálogo e dá o primeiro tiro, seguido por muitos outros, tentando
alvejá-lo.
Quintino defendeu-se da tentativa, mas na ligeireza de um felino, Sinhozinho outra vez
faz pontaria certeira pela única janela aberta, outra vez perdendo o tiro. Aí
então houve o revide: com a mesma ligeireza do felino, Quintino sacou do
seu rifle, e fez o que qualquer um faria, acertando em cheio, atingindo Sinhozinho, que ali mesmo cai. O bando avança. Deitam por terra as
portas e adentram para o interior da casa. Nesse momento, Zé Pinheiro, vendo o
irmão agonizando, não se contém, o que seria inimaginável
pensar-se. Transtornado, saca do seu poderoso rifle e
detona toda a carga sobre Quintino, em presença dos seus familiares, que lhe imploravam
não o fizesse. Tombava ali o Herói das Malvas.
Seguindo-se então tiros e mais
tiros, todos ao mesmo tempo, atirados a esmo, conforme
depoimento de Amália Xavier (idem), que escreveu: “as balas cruzavam os
céus do Juazeiro, chegando a atingir a calçada da residência de meus pais, e por um triz não
fui vítima, pois naquele momento lá brincava com um dos meus irmãos mais novos”. Nesse instante
doloroso, chegava ao local o Padre Cícero, que encontra as duas vítimas já
mortas; nada mais tendo a fazer, senão o que mandava sua condição de sacerdote,
dá-lhes
a absolvição, e imerso em dor e choque consola a esposa de Quintino, Dona
Petronília, que em desespero e
inconformada debulhava-se em lágrimas. Desnorteado com o brutal acontecimento, tentando transmitir
calma, o Padre Cícero implora (é a palavra exata) que os bandos se
retirem do local, em nome de Deus. Foi atendido, mas logo que retirou-se de lá,
eles voltaram. Zé Pinheiro, fervente de ódio pela perda do
irmão, vocifera, grunhe, ladra, xinga, ameaça tudo e todos, e uma atmosfera
diabólica dele tomou conta, e dizia: “quem não é por mim é contra mim”.
Naquele trágico momento, feharam-se todas as
portas das casas, quando então ele tomou conta do lugar. Só ele era o dono,
empunhando o rifle, subia e descia ruas e vielas, falando coisas
desconexas, transtornado, ameaçando quem ousasse intervir. Todo o Juazeiro
estava recluso em suas casas, aguardando mais desfechos, e somente o Padre
Cícero enfrentava a ira e as balas dos cangaceiros. Dr. Floro se encontrava
em Fortaleza, e ao ser informado por telegrama do horror voltou ao
Juazeiro, mas era tarde, muito tarde. Naquele momento,
periclitou a autoridade moral do Padre Cícero, e suas lições de perdão e amor
não surtiram efeitos para as hordas desenfreadas, de mentes obnubiladas num
turbilhão de ódios, que não aceitavam render-se ao imperativo da ordem e da
lei, enquanto ele arriscava sua própria vida, em meio ao tiroteio.
Considerado por todos um monstro
cruel, Zé Pinheiro prova que realmente o era. Retornando ao local do macabro
acontecimento, manda um dos seus comparsas comprar uma garrafa de
aguardente, adentra a residência de Quintino, retira-o da cama para onde seus
familiares o tinham levado. Sem um mínimo de compaixão e respeito, conduz o cadáver até
o terreiro, senta-se sobre o seu abdome e corta-lhe o lábio superior,
mergulhando-o na aguardente, sorvendo a estranha bebida ao
som de estridentes gargalhadas. Mas foi contido por alguém do bando, que o retirou de
cima do cadáver, dizendo-lhe respeitasse o morto, que na verdade era um homem
valente, de bem, que nem satanás seria capaz de um ato daquele. As
vítimas foram sepultadas em clima de medo e silêncio, silêncio apenas quebrado
pelo toque pungente e triste do sino da Igreja de Nossa Senhora das Dores, que
com certeza também chorava.
A repercussão do episódio foi
imensa nos círculos políticos da capital, com a imprensa a atacar brutalmente o
Padre Cícero e o Dr. Floro. O Presidente Benjamim Barroso, em telegramas
urgentes,
pede-lhe explicação para tamanho desastre, e ordena prender os bandidos, mas, de acordo com o que
escreveu Xavier de Oliveira, “ninguém foi preso, muito menos Zé Pinheiro, que continuou
na sua casinha de taipa nos arredores do Juazeiro, pitando seu cachimbo, onde dias
depois o encontrei para uma entrevista”. Nessa sequência de acontecimentos
desagradáveis, até a própria natureza encarregava-se de enviar os seus,
com a chegada da terrível seca de 15, considerada pelos historiadores
como a maior do século XX, igualando-se à trerrificante seca de 1877, pelo
flagelo que provocou, físico e material. O estrago que ela
produziu foi incalculável, com a extinção de quase todo o rebanho, bovino e
caprino, a mortandade de mais de mil pessoas – esse o número, registrado em cartório. Foi quando
houve a debandada geral do braço humano para o Acre, ainda no auge da
borracha, de mais de 75 mil pessoas. O Estado paralisou-se: as exportações de
algodão e peles para o exterior foram canceladas, acarretando prejuízos
incalculáveis (Raimundo Girão, em História das Secas). Para se ter uma ideia do que foi
o tenebroso momento vivido pelo Ceará, só o teor desse telegrama do Padre
Cícero para o Secretário da Agricultura da época define o momento:
Dr
Graco Cardoso Rio:
Pelo
amor de Deus, acuda-nos, povo morrendo de fome. Agora mesmo, sepultaram oito.
Socorros tirados toda parte nada chegam aqui. Por Deus me entenda, ajude-me a
salvar vidas. Promessas fizeram de trabalho inviável. Esperanças não servem
mais. Saudações. Pe. Cícero.
Duplamente amargurado, ele vê o
descaso político, e se aflige, pede socorro, em tom dramático, quando
testemunhava in-loco a mortandade de
pessoas e de animais, sem recursos para salvá-los, sem ter para quem apelar. O poder público, a quem compete,
sempre omisso, ou quando muito, fazia promessas irrealizáveis, conforme citado
no telegrama acima. Seu humanismo não teve similar em terras do Nordeste, ele foi
ímpar. O sertanejo conformista, sofrido e desiludido de tudo e de todos, transformou-o no porta-voz das
suas reivindicações, dos seus sofrimentos, das suas desilusões.
Mas a grande seca de 1915, não
seria a última a enfrentar, veio a terrificante, de 1918-19, acompanhada da gripe
espanhola,
chamada de “Bailarina”
ou influenza, sequela da Grande Guerra de 1918. Democrática, ela fez muitas
vítimas, em todo o Cariri. Não escolhia posição social, ricos e pobres foram
afetados pelo medonho mal. Outra vez lá está o Padre Cícero na trincheira, pedindo socorro aos
poderes públicos. Dessa vez, foi ouvido. Pois foi a partir
daí que tiveram início as frentes de serviço no Juazeiro,
sob a chancela de Epitácio Pessoa e com a supervisão de Floro Bartolomeu, que
não admitia fosse o dinheiro público saqueado. Esse detalhe da sua vida
política é um fato, atestado por todos. Jamais se locupletou com verbas
públicas. Depois do muito que foi dito sobre ele, verdadeiro ou não,
redimiram-no com esse detalhe, a de não se apropriar do dinheiro do povo. Foram
coerentes. Esta não seria a última seca que o Padre Cícero veria. Veio a de 1932. Dois anos depois, falecia o grande
humanista.
A seca, que os políticos
nordestinos dizem insolúvel, só tende a piorar a cada ano,
pois até o seu outrora rico solo, hoje desertifica-se. As queimadas – a causa do fenômeno,
acrescida dos agro-tóxicos. O problema é insolúvel? A falta de precisão dos
governantes, isto sim é insolúvel, pela
insensibilidade para com o nordestino de modo geral, que depende da água para
sobreviver. Em jogo estão os interesses de muitos, sobrepondo-se ao que deveria
ser prioridade – a seca, com suas graves consequências. O sertanejo
fica à
mercê de antídotos passageiros, que são as frentes de serviço, num assistencialismo
barato e ultrapassado. Hoje, elas já não mais existem, e sim as chamadas
Bolsas de Auxílio, criadas pelo governo federal com
diversos nomes.
A seca da minha terra é rotulada
de “Indústria da Seca”, sabiamente batizada pela imprensa. Problema
detectado desde os primórdios da colonização do Estado, quando foi registrado
pelo Jesuíta Fernão Cardim, no ano de 1587, até hoje sem solução. Os estudos
recentes mostram a dura realidade. O Nordeste está inserido no Semi-árido, e o Ceará detém cerca
de 92/100
de sua área embutida nesse contexto, o que se torna alarmante pela escassez da
água. Chegamos ao século XXI, quando o avanço tecnológico é
imenso. O grave problema
continua irresolvido, pois para a classe dos políticos detentores do poder é um
caso insolúvel, quando sabemos ser a irrigação o caminho certo para resolvê-lo, pela transposição
das águas do São Francisco, tão próximo dos estados
castigados pela seca. Basta constatarmos a maravilha da irrigação, nas cidades geminadas
de Petrolina e Juazeiro da Bahia, com uma fruticultura totalmente irrigada. Seu
imenso e fértil pomar, de primeira qualidade, pela excelência de
suas frutas exportadas para o exterior, como: melão, manga, uva, e
outros comestíveis, como o aspargo e tantas outras, fez do Vale do São
Francisco uma referência brasileira em alimentos de primeira qualidade. Por isso, Petrolina é chamada de A Califórnia Brasileira. É
evidente e plausível: com a irrigação, o fluxo migratório tornar-se-á irrisório. Faltam apenas vontade e
amor para resolver o conflito secular.
Nada mais restando ao nordestino,
só há duas alternativas: ficar e morrer de fome, ou partir e sofrer. Os
grandes centros viraram depósitos desses mártires da seca, que vão viver ao
Deus-dará, sem nehuma esperança, e tudo faz crer que ainda viveremos por muito
tempo a angustiosa situação, porque, quando surge um
interessado em resolver o problema, é barrado automaticamente por forças políticas
contrárias, caso do ex-Governador do Ceará, Ciro Gomes, o único até hoje na
história do Estado a dar vida ao projeto da irrigação, que embora
pequena,
é bem verdade, muito ajudou, levando ao povo muito pobre o
precioso líquido – a água, problema maior e mais grave do nosso Estado.
Apesar de modesta, essa sua atuação o dignificou, tornando-o num estadista.
As ONGs que proliferam pelos
quatro cantos do País, uma já se posicionou contra a transposição das águas do
São Francisco para os estados altamente castigados pela seca, e isto com o apoio
de políticos mineiros, baianos e de Sergipe, que barram a transposição das
águas do São Francisco para a parte mais afetada pelo fenômeno. A atitude dessas pessoas, se posicionando
contra a transposição, é de uma crueldade inominável, por deixar o ser humano relegado
à
condição secundária, isto é: morrer de fome e sede, em detrimento da natureza,
ou de vantajens próprias. Um absurdo! Portanto, ao que tudo indica, a transposição das
águas do São Francisco para os estados castigados pela terrível e contínua seca
não passa mesmo de um projeto quimérico. Assim estaremos fadados a caminhar ad infinitum, porque, quando não é um dos
partidos políticos que se levanta, aliás, e a bem da verdade tanto de direita,
como de esquerda, ambos reacionários, juntando-se ainda, o grande poder do
latifúndio, com seus interesses. Enquanto isso, continua a imigração, a invasão
de propriedades, os massacres também, de lado a lado, pela indiferença para com
o problema. Canudos e o Caldeirão (Crato) são o retrato vivo desse descaso
secular. Portanto, o Professor Josué de Castro continua atualíssimo, no seu brado de
cobrança.
Siglas foram criadas com o intuito de amenizar o
problema,
quando rios de dinheiro também foram queimados, sumiam do mapa das secas,
parando nos bolsos dos mais espertos, e isso é uma constatação veraz. Por
exemplo, em 1958, no alegre Governo de JK, a coisa chegou a um ponto tão
grave, que a imprensa verberou em alto e bom som contra o sumiço do dinheiro,
que chegou a bilhões, isso mesmo, bilhões de cruzeiros, nascendo grandes
fortunas. A única coisa foi terem terminado o açude do Orós, que já se
arrastava desde 1904. É mesmo de pasmar e envergonhar. As siglas IFOCS, hoje
DNOCS, DNER, a própria SUDENE, SUDAM, e tantas outras, foram criadas para
grandes fins. Não foram, o tempo encarregou-se de mostrar a inutilidade
delas.
Recuei a longínquos anos, outras
vezes avancei um pouco, como no caso do ex-Governador Ciro Gomes, andei
pelas praias dos excluídos, que de tanto esperarem chuva e melhoria de vida,
não conseguem sensibilizar a quem detém poderes, e assim eles caminham pelos
tempos afora, resistindo e morrendo, morrendo e resistindo, na expressão do
imortal José Américo de Almeida, em A
Bagaceira (1930).
Retomo à narrativa histórica
do Padre Cícero e de seu Juazeiro. Findo o tormentoso ano de 1915, chegou 1916,
e com ele, um pouco de alívio, pois veio acompanhado de providenciais chuvas,
fazendo a alegria do sertanejo. Apesar de todas essas sequelas, o Juazeiro
reagia, e se desenvolvia. Nesse ano, foi inaugurada uma das mais
notáveis obras sociais do Padre Cícero, um ponto a mais de referência: o Orfanato Jesus
Maria José, que abrigava órfãs, recebendo educação básica e
também o do ensino profissionalizante, trabalhos manuais de grande utilidade,
no dia a dia das pessoas. Professoras competentes
esmeravam-se, tornando-se assim um símbolo do Juazeiro, tanto quanto sua
estátua e a Igreja-Matriz de Nossa Senhora das Dores.
Nesse ano também seria criada e
instalada a Diocese do Cariri, sediada no Crato. Para criação da Diocese do
Cariri, muito valeram os esforços do Padre Cícero, na sua estada em Roma, que
desejava vê-la
sediada na terra que ele adotou como sua, o Juazeiro. A prova está nessa carta
endereçada ao Dr. Leandro Bezerra de Menezes,
publicada no Jornal O Fluminense de
Niterói, no ano de 1908, cuja transcrição é a que se segue:
“Creio não haver mais dúvida
estar criada a Diocese do Cariri. Deus o quer, e o venerando amigo foi o
principal encarregado da Providência para essa grande obra na Igreja de Deus.
Quando estive em Roma (1898), apresentei este pedido a Sua Santidade Leão XIII,
e aqui mandei publicar nos Jornais a necessidade dessa Diocese, nesses centros
de diferentes estados do Nordeste, que limitam-se com o Cariri.
“O Joaseiro é o ponto principal
para onde converge gente de todas as partes, desde Alagoas ao Maranhão, o ponto
desejado de todos, próprio para uma grande cadeira de ensino, de civilização e
de fé, entre populações que se estão barbarizando ainda mais do que eram. Deus
por sua bondade multiplique os preciosos anos ao seu fiel servo, que veja no
humilde torrão de seus antepassados a sede de um Bispado (aqui) na capela de
Nossa Senhora das Dores.”
“Seu amigo. Pe. Cicero Romão
Batista.”
A carta, estampada no O Fluminense de Niterói, mandada
publicar pelo Dr. Leandro Bezerra de Menezes, atesta que o Padre Cícero foi o
precursor da ideia da criação do Bispado do Cariri, desde sua estada em
Roma. Seus esforços foram incalculáveis, para todos apelou, desde o Comendador
e ex-Presidente
do Ceará,
Nogueira Accioly, ao próprio Dr. Floro, e até mesmo à Baronesa da
Ibiapaba, quando dela solicitou a importância de 150 contos de réis para formar
o Patrimônio exigido por Roma. Ja idoso, ainda aventurou-se a uma viagem ao Rio
de navio (1908), pondo todo o seu patrimônio à disposição, inclusive as Minas
do Coxá e um grande terreno para a construção do Seminário. Tudo foi
debalde, seu encontro no Rio com o Núncio Apostólico foi mais uma decepção. A cúpula do clero,
como o Bispo
Arcoverde,
não mediu esforços para suplantar o ideal do Padre Cícero.
Injúrias, difamações voltaram à tona, referentes ao
movimento religioso do Juazeiro, que Dom Joaquim, sem medir as consequências do seu gesto, propalava entre os
presentes ao encontro, com a presença ilustre do enviado de Roma. Os dois altos
representantes do Episcopado brasileiro não mediram esforços para suplantar o
ideal acalentado por tantos anos pelo Padre Cícero, de sediar a Diocese
no Juazeiro. E foram vitoriosos, aliás, duplamente, pois além de sediarem-na no
Crato, foi nomeado o maior desafeto do Padre Cícero, Quintino Rodrigues de
Oliveira e Silva. Um inimigo feroz teria o Padre Cícero dali para frente, de
acordo com os documentos episcopais ainda hoje existentes. Para se ter uma ideia
do que foi o encontro no Rio, trechos de uma carta do Bispo Joaquim para o
Padre Quintino Rodrigues, já a essa altura Monsenhor, diz tudo. Eis o que
disse:
“Mas dir-lhe-ei uma vez por
todas, ainda que o Padre Cícero arranjasse um patrimônio de mil contos de réis,
eu jamais concorreria para a criação da diocese no Juazeiro, que é habitado por
explorados e exploradores”. (Do livro do sociólogo Ralph Della Cave, Mistério em Joaseiro).
O escritor diz ainda que o Padre
Macedo Costa, presente à reunião no Mosteiro de São Bento
(Rio), disse que dificilmente o Padre Cícero seria vitorioso, pois muito
pesavam as injúrias e difamações contra ele, insinuadas pelo Bispo do Ceará, Dom Joaquim,
passadas à
alta cúpula do clero ali presente, tornando mais difícil sua pretensão. Meses
depois, seria oficializada a criação da Diocese, quando de fato Monsenhor
Quintino foi investido nas funções de Primeiro Bispo do Cariri,
tomando posse numa festa grandiosa e solene, com a presença de muitos
representantes da hierarquia. A partir daí, ele assumiria o bastão da perseguição
contra o Padre Cícero, recebido das mãos de Dom Joaquim José Vieira, e que será
assunto dos próximos capítulos.
****
CAPÍTULO 17
JOSÉ JOAQUIM DE MARIA LOBO, FUNDADOR DA
LEGIÃO DA CRUZ
José de Maria Lobo, personagem curiosa,
que ficou na penumbra por muitos autores da História do Juazeiro. Uns talvez
por esquecimento, outros por o considerarem menor, quando na realidade ele foi
figura de indicutível força e influência no movimento religioso do Juazeiro.
Tornou-se célebre por ter sido o fundador da Legião da Cruz. Portador de uma
habilidade de fazer inveja, se fez amigo do Bispo de Niterói, Dom João Esberardo,
cuja amizade deu-lhe ampla liberdade para que fundasse a entidade. Àquela época, o Padre
Cícero, vivia a pior fase de sua vida religiosa, completamente desacreditado
perante o episcopado brasileiro. Intuitivo e sagaz, tornou-se José Lobo
um grande amigo do Bispo de Niterói, numa antítese a José Marrocos, que se indispôs com
boa parte do episcopado, principalmete com o Bispo Joaquim. O Bispo considerava
o Lobo,
como o chamava, sagaz e astucioso.
Conquistando a amizade de Dom
João Esberardo, era recebido atenciosamente no Palácio Episcopal de Niterói, conseguindo assim, com o apoio do
mesmo, fundar a Legião da Cruz no Juazeiro, já existente em outras
Dioceseses, e reconhecida pelos bispos. Só que Dom Joaquim, ao tomar
conhecimento da criação da Liga no Juazeiro, ficou irritado por não ter sido
consultado, e não mediu esforços a dar por terra, como de fato deu. A
habilidade de José Lobo, procurando bem longe apoio para sua causa, constitui
de fato uma proeza a mais no seu currículo de facetas religiosas no Juazeiro.
Vejamos: possuidor inegavelmente de uma grande astúcia, porque astúcia, tanto em religião
como em política, é fator de fundamental importância, José Lobo foi, realmente, um fenômeno de
inventividade, quase suplantando o teólogo José Marrocos na arte de fazer
proselitismo. A associação chegou a um número espetacular para a época (anos de 1892-97), de mais de cinco mil
associados,
segundo o próprio Bispo Joaquim, que pagavam a importância mensal de 1$200 réis
por cabeça. Por não ter sido consultado, protestou, fazendo grande
oposição e declarando a Associação esdrúxula, bem como seu fundador. Nascia mais um conflito entre o clero e o Padre
Cícero, e desse conflito, Dom Joaquim terminou por lançar uma Portaria, excomungando a
Associação e seu fundador, José Maria Lobo.
Na sua 4º e última Carta
Pastoral, o Bispo faz alusão ao Sr. Lobo e sua Associação, chamando-a de
enganosa,
referindo-se a ela como mais um ponto de fanatismo, inculcando na massa ignara
(era assim que o Bispo sempre se referia aos seguidores do Padre Cícero) a
santidade da beata Maria de Araújo e do Padre Cícero, com seus falsos
milagres. Para ele, um verdadeiro esbulho a arrecadação do alto numerário,
arrancado da pobre massa campesina, quando ela, iludida, acreditava na
santidade dos dois. Dom Joaquim, na sua 4°e última Carta
Pastoral, classificou a Associação de anárquica, falsa, e escreveu:
“Pretendia-se outrossim, por
essa forma, aparentar em Roma, com a oferta de soma considerável, fervoroso zelo pelo bem-estar da Cadeira
de São Pedro, no intuito de atrair-se a atenção do Santo Ofício em favor dos
pretensos milagres. Para esse fim, lá se foi três vezes à Cidade Eterna o fundador
da nova Liga. Imagine-se
o quanto de dinheiro não foi necessário arrancar-se, com este e outros
pretextos, a falsa fé ao pobre povo iludido, para fazer face às avultadas
despesas de tais viagens, e ao tratamento condigno de sócio beneficente e correspondente
perante a Santa Sé, tendo-se o câmbio a 8, 7, e
menos”.
O texto aqui transcrito foi
extraído da Carta Pastoral nº 4, e retrata
o que
pensava o Bispo
Joaquim não só a respeito da Liga da Legião da Cruz, quando fazia insinuações, claras e objetivas, de que a soma de
dinheiro arrecadado, o Presidente da tal Associação tivesse repassado ao Sacro
Colégio,
na finalidade de dobrar os Cardeais inquisidores. Com essa insinuação, Dom Joaquim
não só extrapolou mais uma vez, como deu lugar a várias interpretações sobre o
Sacro Colégio, contrariando o que escreveram muitos autores da Qustão Religiosa
do Juazeiro, de ter o Bispo levado o caso com parcimônia
até o fim. O referido aqui deixa explícito que a prudência dos primeiros
tempos, quando os fatos começaram a ser investigados, deixou evidentemente de
existir, e que de fato ele levou às últimas consequências, porque um
radical consumado, senão um cruel. Suas decisões eram ácidas e exorbitantes. Na
sua concepção e do clero cearense, a extorsão às massas campesinas tinha uma
única finalidade: dobrar o Sacro Colégio, pois o processo religioso estava em
pauta (1897), sendo estudado e julgado. Criava-se mais uma cisão entre o
clero e o Padre Cícero, na esteira dos acontecimentos que a cada dia surgiam no
Juazeiro, envolvendo padres e leigos. Era mesmo uma guerra de opiniões e
tendências as mais diversificadas. Os fatos provavam o desespero que pairava
nos dois lados. Com tantos pressupostos, o Bispo não teve dúvida: excomungou a citada organização
e seu fundador.
José de Maria Lobo por três vezes foi à Roma, sendo que da última vez
foi recebido por Leão XIII, tendo-lhe entregue uma quantia generosa de 6$800
réis. Em
audiência particular, lhe fez oferta de um rosário todo em ouro maciço, tal
qual dias depois faria o Padre Cícero. Na sua volta ao Juazeiro, trouxe cinco mil
cruzes que, de acordo com ele, haviam sido bentas pelo Papa, e quem fosse o
portador de uma delas teria garantida a salvação. Essas cruzes caracterizavam
nada mais, nada menos, que as antigas indulgências romanas, contra as quais Lutero se
insurgiu,
dando lugar ao seu rompimento com o clero romano, daí advindo a Reforma criada
por ele.
Os fatos deixam claro que a
oposição sistemática do Bispo a esse fato e a outros similares
tinha uma raiz: a de nunca ser consultado e, segundo ele, eram fatos criados à sua revelia, com seu total
desconhecimento. O fundador da Legião da Cruz era de forte personalidade, pois
se assim não o fosse teria desistido de fundá-la, e pior, além de não
consultar o Bispo da Diocese, deixou-o totalmente à margem das
negociações. Numa ação inusitada para a época, foi três vezes a
Roma, e na última fez pessoalmente a entrega à Sua Santidade da importância
acima aludida. O Bispo, ressentido, partiu para o
ataque, já com a rede de intriga feita pelos párocos do interior, a grande
maioria contra os fatos do Juazeiro.
No capítulo anterior, que poderia
até ter o título de “Triste História Cliceriana”, vimos Monsenhor Santiago a
denunciar o seu colega de batina, o Padre Clicério Lobo, numa confusão em nome
do clero, contra o clero, para o clero. Em seguida, Dom Joaquim fundava a
Legião da Cruz em Fortaleza, e dela fazia parte a alta sociedade da capital.
Altos financistas do comércio local, exportadores de algodão e pele, e pessoas
cultas, como o historiador Dr. Guilherme Studart, que foi seu presidente por longos
anos, e que mais tarde o mesmo Dom Joaquim, antes de
deixar a Diocese do Ceará, conseguiu para ele, por intermédio da Santa Sé, o
título de barão. Tanto quanto a constestação dos milagres de Maria de Araújo,
o Bispo contestava a Legião da Cruz.
A arrecadação do numerário por
José Lobo como Presidente da Associação nada mais era do que um prolongamento
da arrecadação do óbulo de São Pedro, criada pelo Vaticano, um hábito que já
existia desde os tempos judaicos, em moedas aos
sacerdotes. O Bispo, nos seus escritos, inseria uma linguagem teórica e
teológica,
dizendo,
entre outras coisas:
“A Igreja em sua sabedoria tomou, desde os primitivos tempos do
Cristianismo, todas as cautelas, em ordem a prevenir tudo que possa iludir os
fiéis de boa-fé, e provocar um culto errôneo. Os bispos, e só eles, têm o direito de criar
coisas referentes ao culto, e se alguém insistir, errados estarão, e merecem
toda reprovação”.
E invocava o Concílio Tridentino,
na sess. 25, de Invocat, Venerat. et Real Santorum, quando decretou que “não se devem admitir
novos milagres, nem receber novas relíquias, sem as conhecer e
aprovar o Bispo da Diocese. Portanto, só o bispo diocesano é, pois, a
autoridade competente, salvo sempre os direitos do Supremo Chefe da Igreja, o
Papa”.
****
CAPÍTULO 18
DOM QUINTINO, O SUCEDÂNEO DE DOM JOAQUIM
JOSÉ VIEIRA
“Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas,
e
uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes
as
noventa e nove, indo procurar a que se extraviou?”.
(Mateus 18.12.)
Realmente, como já escrito, prevaleceu o poder
de Dom Joaquim José Vieira perante o clero conservador: foi criada e
instalada a Diocese do Cariri, com sede no Crato. Era o ano de
1916, e no fim desse mesmo ano Dom Quintino saiu em visita às paróquias de sua
Diocese, como era de praxe àquele tempo.
Anualmente eram feitas essas
visitas, que também eram conhecidas por “desobriga” e consistiam em oito
dias de missões, com pregações ao ar livre, quando se realizavam batizados,
crismas e até casamentos, para quem ainda não tinha
recebido a consagração dos sacerdotes. A Igreja abominava as uniões ilícitas, não importando até
mesmo o casamento civil, que para o clero da época, não passava de simples
concubinato. Nessa altura, entravam em cena frades aqui radicados por força das
Ordens religiosas de vários países da Europa, sediadas no Brasil inteiro. Os bispos os
requisitavam para auxiliarem-nos em missão diocesana. Aí tinham lugar os sermões, baseados em
princípios teológico-morais e apocalípticos, carregados de impropérios, que
aterrorizavam o vulgo, com ameaças do fogo do inferno para aqueles que
desobedecessem os preceitos da Igreja Romana. Com vozes tonitruantes, que ecoavam a léguas de
distância, conseguiam, na maioria das vezes, a chamada conversão de muitos
empedernidos, com o casamento na Igreja. O exemplo mais
patente desses sermões carregados de impropérios e vazados no Apocalipse foi do
frade italiano Frei Damião, que viveu toda sua vida no Recife, no Convento da
Penha, e lá faleceu há poucos anos atrás. Da tribuna, ele assustou meio
mundo pela crueza das suas afirmativas.
Dom Quintino, deliberadamente,
escolheu como ponto final da sua caminhada religiosa o Juazeiro, que continuava
sob o interdito do clero. Inteirado da visita episcopal, o Padre Cícero
transbordou de contentamento, diz a escritora Amália Xavier (op. cit.), alimentando a ilusão de uma reaproximação com o clero e da sua
volta ao seio da Igreja, o que mais queria em sua vida. Tratou então de
organizar seu povo para uma recepção condizente com o acontecimento, para
festejar o novo bispo e a seleta comitiva episcopal, constituída de ilustres
padres,
pelo saber teológico e moral. Uma festa à altura, comenta em seu livro Azarias
Sobreira,
que escreveu:
“Movimento espiritual grandioso, com milhares de pessoas a se
confessar, a comungar, sequiosos que estavam da prática desses atos de fé. Os
sermões eram ouvidos no mais tocante silêncio, podendo se ouvir a
respiração ofegante da massa compacta, alinhada na Praça da Igreja Matriz” (op.cit.).
O último dia da visita chegou ao
seu término. Guardado, porém, a sete chaves estava um segredo só desvendado à última noite, como gran-finale do evento. Ainda hoje, os estudiosos da
história religiosa do Juazeiro se perguntam: será que a Comitiva Episcopal tinha
conhecimento do segredo? Ou o bispo prepotente era o único detentor dele?
Talvez, alguém próximo a ele soubesse. Não é demais pensar-se que o próprio Azarias Sobreira, que
gozava da confiança de Dom Quintino, tivesse conhecimento do assunto fatídico
daquela noite sinistra, mas que guardou fidedignamente o segredo, quem sabe assustado
com o desfecho que desse incidente pudesse advir, pela multidão comprimida no
espaço da Praça da Matriz.
No seu último dia de permanência
na cidade, Dom Quintino envia ao Padre Cícero um Ofício com vários itens,
solicitando-lhe que lhe desse respostas precisas e convincentes sobre
recebimentos de doações à Padroeira, em bens e dinheiro,
que,
como já acentuado, tornou-se para o clero o calcanhar-de-Aquiles, desde a era
Joaquiniana. Abordava ainda o assunto das medalhas que tinham sua efígie,
consideradas sacrílegas pelos bispos, e por que o Padre Cícero
não se manifestava contra o uso das mesmas. Entretanto, o tema central do
Ofício residia num item doloroso, que reabria cicatrizes as quais deixaram sequelas
grandiosas — o da “Hóstia Ensanguentada” das comunhões de Maria de
Araújo, que o clero abominava. O Bispo exigia, naquela noite
sombria, que o Padre Cícero fizesse uma retratação pública perante a massa, do alto da tribuna
ali fincada, dizendo que tudo tinha sido um grande engano, não passando de uma
burla. O cálice era amargo demais, como amargo foram outros que ele bebeu até a
última gota. Este, porém, foi um dos episódios mais tristes e cruéis da
vida acidentada do Padre Cícero. Está explícito no gesto do Bispo Quintino o
desprezo que a hierarquia lhe votava. Ele, padre católico por convicção, e que jamais e
apesar de tudo, nunca levantou a voz contra a Igreja, e nunca pensou em
apostatar.
Do livro O Patriarca do Juazeiro, de Azarias Sobreira (op.cit.), tomei de empréstimo o texto, que ora transcrevo:
“Em 1916, Dom Quintino me
encarregou de assisti-lo, a ele, Padre Cícero, na redação das respostas aos
itens formulados por Sua Excia. Como foi que ele se portou? Enquanto se tratava de outro gênero de
assuntos, tudo ia correndo bem, sem tropeços. Mal entrou em pauta a questão do Sangue, o Padre
Cícero começou a suar e empalidecer. A pena, em lugar de escrever, permanecia
indecisa, parecendo furar o papel. De repente, virando-se para mim, num tom
angustiado,
perguntou: ‘Menino,
como é que
posso dizer que reprovo aquilo que vi com meus próprios olhos? Entretanto, eu
quero satisfazer a Dom Quintino. Olha aqui o que ele está me perguntando?'. E lia para mim o texto que
tinha diante dos olhos, e que lhe causava tamanha consternação. Procurando se
desvencilhar daquele embaraço, com a voz tropêga pela emoção, disse: ‘vá dizendo o que você acha que
devo dizer, e eu irei escrevendo, como se minha mão fosse uma máquina’”.
E prossegue o autor:
“Jamais consegui arredar-me da
seguinte conclusão: o Padre Cícero, após vinte anos daqueles fatos e da
suspensão de suas ordens, continuava firme, acreditando que no Juazeiro,
efetivamente, tinha havido algo de sobrenatural, de miraculoso. Mas sua agonia
não se restringia à resposta
por escrito, ele teria que lê-la do alto da tribuna, perante a incomputável
multidão ali postada”.
Está aí, neste fato, evidenciado que Dom
Quintino continuaria a linha inquisitorial de Dom Joaquim José Vieira, que
jamais deixou de enfatizar essa proposta: a do Padre Cícero se desdizer de
público. E foi nessa noite sinistra que veio a concretizar-se a ordem de 25
anos atrás, numa suprema humilhação para ele, e todo o Juazeiro. Ele, o homem respeitável
e de todos querido, o hospedeiro inigualável, a cujas expensas estava hospedada
a Comitiva Episcopal. Era noite.
Embaraçado e humilhado intelectual e moralmente, depois de ler o que exigira o
bispo insensível, retirou-se do local, sempre acompanhado pelo povo.
Aparentando calma, dizem as crônicas, porém não introspectivamente, pois no dia
subsequente
teve febre e escarrou sangue. Era o princípio das hemoptises que lhe
acometeriam dali em diante, sempre que lhe chegavam as Portarias do bispo
impiedoso, e foram inúmeras.
O episódio chocou, causando
impacto entre os padres da Comitiva, pela delicadeza da situação. O gesto firme de Dom Quintino denotava
que cumpriria à risca a linha traçada pelo Vaticano, tão contrária à posição do Padre
Cícero, que residia na crença arraigada no milagre da hóstia ensanguentada,
segundo a observação do Padre Azarias Sobreira. Com esse gesto de menosprezo e
desdém, o Bispo,
orgulhoso da posição alçada, conquistaria mais uma vez prestígio perante seus
superiores hierárquicos, embora o fato o tenha desumanizado, tornando-o pequeno
demais, em flagrante contraste com o pensar e agir do Padre Cícero. Realmente,
eram dois mundos diferentes: o de Dom Quintino, aristocrático e
hermeticamente fechado; e o do Padre Cícero, o mundo do
povo simples, humilde, e nisso está a explicação da massa se curvar
ante sua pessoa.
O fato poderia ter resultado numa
tragédia de grandes proporções, já que o Juazeiro era um caldeirão fervente de
crença no milagre e de devotado amor ao Padre Cícero, que Dom Quintino, naquela
noite crucial, tinha conseguido atingir. O ato arbitrário excitou os brios do Dr.
Floro, e desolação e indignação em outros. Dr. Floro partiu para o ataque ao
clero, e acusou o Bispo de autoritário, arrogante, desumano, lembrando que
daquela forma iria ele trazer muitas confusões ao Juazeiro, e mui especialmente
ao Padre Cícero. Ainda em 1923, no seu antológico discurso na Câmara Alta,
referiu-se ao fato, defendendo-o de tantas acusações. E pressentindo o que
poderia vir daí para frente, tomou a iniciativa de censurar toda a
correspondência dirigida ao Padre Cícero partida da Diocese, quer fossem Cartas ou Ofícios
para comparecer ao Palácio Episcopal. Chegadas, ele se antecipava e comparecia
em nome dele, quando alegava seu estado de saúde, já deveras abalado.
As exigências exaradas naquele
Ofício teriam que ser impreterivelmente cumpridas, e como o Padre Cícero se recusou
a cumpri-las literalmente, como no caso das doações e de receber em sua casa os
romeiros e visitantes, o Bispo retirou a faculdade que lhe dera, de celebrar
missa nos arredores do Juazeiro, quando fazia o percurso em seu carro-de-boi
Manhoso e Bargado, que tinha às rédeas o alagoano José Pereira
da Silva, lembrando que este mesmo José Pereira era o fabricante dos seus
sapatos macios, semelhantes a sapatos de lã, por serem confortáveis. Desta
forma, ele cumpria sua missão evangelizadora de bom grado, apesar dos seus 73
anos de idade. Sentimental, dizia: “evitar os que me
procuram é insensatez, uma falta de cordialidade” – o que sempre foi, um cordial e afetivo.
Sofrido, certo dia não mais
suportando tanta humilhação, retrucou com veemência o que
seus adversários espalhavam sobre ele, dizendo, num discurso comovente aos
romeiros que lhe ouviam, o que lhe ia na alma:
“—Vocês, que vêm de muito longe arrostando toda a série de intempéries
dos sertões do Piauí, do Maranhão, de Pernambuco, das praias de Alagoas, e do
Rio Grande do Norte, dos ínvios chapadões de Goiás e Bahia, fiquem certos de
que jamais os esquecerei, e que a Mãe de Deus recompensará a todos, e nunca
deixem de visitar o Juazeiro de Nossa Senhora das Dores, mesmo depois da minha
morte. Ela os recompensará”.
Ainda de acordo com analistas do
dramático episódio de se desdizer em público do que ele acreditava ser
verdadeiro, Dom Quintino reforça o cerco das perseguições, e acata a
decisão de Roma de excomunhão, pedida por um alto membro do episcopado
brasileiro, que o responsabilizava pelos acontecimentos nefastos da revolução
do Juazeiro. No seu Testamento, ele defendeu-se das
acusações, e escreveu:
“Não fiz revolução, nela não tomei
parte, nem para ela concorri; não tive, nem tenho, a menor responsabilidade nos
acontecimentos dela decorrentes”.
Como já foi dito, o Dr. Floro
censurava toda sua correspondência, e determinado dia deparou-se com o que já
previa: um Ofício da Diocese, contendo a excomunhão partida do Vaticano. De
posse do documento, ele solicita uma audiência ao Bispo Quintino, no que
foi atendido. Recebido em Palácio, fez sentir que, se o Padre Cícero tomasse
conhecimento daquela medida da Santa Sé, não resistiria ao impacto da notícia,
e seria vítima de colapso cardíaco, dado o seu estado de saúde muitíssimo
abalado. Mas Dom Quintino reage, e diz: “A sentença será cumprida, e a
cumprirei, custe o que custar, até mesmo em prejuízo da minha própria vida”. Dr. Floro, sempre
argumentando, diz: “o autor intelectual e moral de todo o movimento subversivo
sou eu, o Padre não responde por nada”. A essa altura, já com mais de
duas horas de um diálogo exaltado, o Bispo perguntou-lhe, enfático: “Dr.
Floro, responda-me só isto: se o Padre Cícero não consentisse, pois ele é tudo
lá no Juazeiro, o senhor teria feito a revolução?”. Resposta : “Continuo a dizer a V.
Excia, o responsável sou eu, e a História um dia dirá”. Reagindo aos
argumentos do Dr. Floro, o Bispo insistia em cumprir a ordem
vinda do Vaticano: a excomunhão. Com os ânimos bastante alterados em face da
prolongada discussão, o Secretário da Diocese tomou a iniciativa de dar por
finda a conferência, que já se arrastava por quase 3 horas, num clima tenso.
Diante da interferência do
secretário do Bispo, o clima tornou-se mais ameno, e ponderando sobre a
reação que poderia advir daquela sentença da parte de todo o Juazeiro, pelo
devotamento que imperava ao Padre Cícero, aliás como até aqui, classificado pelo
clero como fanatismo, o Bispo então pediu de volta o documento, que a essa altura o
Dr.
Floro já o tinha em mãos. Dom Quintino então, mais calmo, disse-lhe que iria
se comunicar urgente com o Vaticano, o que fez, segundo o escritor Otacílio
Anselmo (op. cit.), que registra às páginas 410 do seu
livro:
“Essa pena foi comutada em
outra sanção eclesiástica, pois o bispo apelou para Roma, argumentando o estado
de saúde do Padre Cícero, e a consequente reação dos fanáticos. A Santa Sé
ponderou, e comutou a pena canônica, podendo ele confessar e comungar more laicorum, isto é, como se fosse
leigo, e não sacerdote”.
De acordo com o historiador Padre
Antônio Gomes e intelectuais da região do
Cariri, o Padre Cícero morreu ignorando todo esse episódio. Dr. Floro
encarregou-se de poupá-lo de tão grande constrangimento e tristeza. Sepultado o
episódio ficaria, porque encerrado nos escaninhos da Cúria Diocesana do Crato,
quando à
época não se tinha acesso algum. Depois de sua morte é que vários escritores
trouxeram à tona, tendo como destaque o Dr. Irineu Pinheiro (op. cit), Padre Azarias Sobreira e
Otacílio Anselmo (idem, idem).
As perseguições mescladas de ódio
e as draconianas medidas de Dom Quintino quase suplantam as do Bispo Dom Joaquim, mormente
porque Dom
Quintino recebia o apoio incondicional de boa parte da população cratense.
Eleito para a Diocese, seu primeiro passo foi um gesto político, com a criação
do Banco do Cariri. Conservador, era consultado pelos coronéis da
política
do Crato. Inteligente,
preparado, também fez seus adeptos e evidente proselitismo. Criou a Instituição
das Freiras de Santa Tereza do Menino Jesus e o Colégio Diocesano, celeiro de
intelectuais cearenses.
O desenvolvimento que deu à cidade do Crato é
inegável. Não sobreviveu ao Padre Cícero, falecendo anos antes. Para os seus
funerais,
que tiveram grande pompa, o Padre Cícero não foi convidado, nem sequer o
participaram do luto da Diocese. Está claro, nesse pormenor, o quanto o
desprezavam. Tornar-se-ia enfadonho listar o número incalculável de
perseguições, de injustiças movidas pelo ódio, reflexo da oposição sistemática
ao Padre Cícero. Ele mesmo reconhecia o fato, e deu conhecimento através de uma
carta
de Roma para seu grande amigo Secundo Chaves de Melo. E lembrar que tudo isso
era feito em nome da religião católica romana é chocante, e porque não dizer,
decepcionante. Era uma sequência ininterrupta de conflitos,
como foi o caso do já citado Padre Alexandrino de Alencar, desencorajando as
beatas depoentes, desencadeando efeitos psicológicos, afetando o
subconsciente, provocando desânimo. E aí o que se viu foram elas se
desdizerem publicamente do que afirmaram, como também a reação do Vaticano
pesou para a ala dos padres adeptos do milagre, à frente, o Padre Quintino e o
médico Inácio de Souza Dias, quando, numa carta, nem esclarece o
fato, como também não nega.
O clima de perseguições
ininterruptas do clero fez os repentistas do cordel manifestarem-se em versos
de sextilhas, louvando-o. Leandro Gomes de Barros, o primeiro a projetá-lo na
literatura de cordel. Eis o que disse:
É um pastor exemplar
O Padre do Juazeiro
Disse-me um velho romeiro
E não é interesseiro
Tudo que faz é de graça
Não aprecia dinheiro.
Há uns quinze dias passados
Disse-me um velho romeiro
Que está suspenso de ordens
Por não ser interesseiro
Os Padres detestam ele
Por não gostar de dinheiro
Diz ao pobre não se aflija
Porque vive na pobreza
Lázaro morreu mendigando
Mas no céu achou riqueza
Riqueza lá é perpétua
Tudo é com muita grandeza.
Está suspenso de ordens
Não faz um batizado
Não casa mais nem confessa
Está quase inutilizado
Porém com toda justiça
Não diz nada do Bispado.
Esses bardos sertanejos, projetando-o na
literatura de cordel, falando dos seus sofrimentos, despertavam na massa mais
exacerbação religiosa e consequentemente mais admiração ao Padre Cícero. Ele se
defendia, sempre dentro da ótica do perdão, da reconciliação, acompanhado da
sua aura de grandeza moral. E a todos que o fizeram tanto mal, morreu
perdoando. Nesses momentos extremos de sua vida, uma só frase repetia: “Ser Deus o único juiz, entre ele e os bispos, na momentosa
questão”. Aceitando pacientemente todos
esses reveses de sua sina, era convicto de que todos esses padecimentos eram de
âmbito divino, daí sua resignação religiosa.
A tênue esperança de se
reintegrar ao seio do clero morreu naquela noite funesta, convencido de que
não tinha concorrido para uma burla, e muito menos para o holocausto, onde
dezenas de pessoas perderam a vida, outros ficaram mutilados. A tudo ele reagia
dentro de uma imponderável calma, e continuva a lutar por sua
reintegração ao sacerdócio, conforme atestam suas cartas endereçadas ao
salesiano Padre Pedro Rotta, seu admirador e grande amigo, que lamentava o desatino
do clero brasileiro referente à sua pessoa. Uma perseguição
constante,
ilimitada. Apesar de sua luta com o clero, o Padre Cícero sempre manteve uma
relação fraterna e cordial com a Ordem dos Salesianos, tanto que os
fez herdeiros universais de toda sua fortuna. Outro pormenor que chama a
atenção na sua conduta religiosa era sobre os judeus: ele se afligia com a
situação dos mesmos, quando eram tão execrados, e através da imprensa clamava
contra tamanha insensatez.
Amigo e confidente, benevolente e
caridoso, o salesiano Pedro Rotta reconhecia no Padre Cícero um verdadeiro
servo de Deus, e tinha convicção de ser ele um sacerdote para o bem da
humanidade. Sabemos que, depois de ordenado, quis partir para regiões isoladas
da África para levar a
palavra das Escrituras a povos ignorantes do Cristianismo, e só não
o fez porque o jornalista João Brígido, grande amigo da família e seu ex-tutor,
dissuadiu-o da ideia. Aí ele voltou-se de corpo e alma para o sertanejo do
Nordeste, transformando-se num verdadeiro pai.
As cartas endereçadas ao Padre
Pedro Rotta definem em tom dramático o sentimento de estar afastado da Igreja,
suspenso de todas suas ordens e até do direito de abençoar seus fiéis. Por um
triz quase não se consuma a ordem do clero, quando impunha que deixasse de
recebê-los em sua casa. Aí houve resistência de sua parte, e a consciência do
povo nordestino não se abateu ante as imposições romanas, como pretendia o
clero. O Padre Rotta foi para o Padre Cícero um grande amigo e confidente. Sua
saída do Brasil deixou nele um vácuo profundo, sentindo-se só e desprezado pela
hierarquia, mas sempre alimentando a utópica ilusão de reaver suas ordens, cujo
sonho se esvaía antes de tomar consistência, pois grande era a correlação de
forças opostas, e o seu pedido de socorro era vox clamantis in desertis, e o sermão do evangelista Mateus,
epígrafe deste capítulo, não teve efeito, foi mesmo para o limbo.
A visita apostólica para a Santa
Sé do beneditino Dom Bento Lopez (1925) também constava de um encontro com o
Padre Cícero, que teria lugar no Palácio Episcopal do Crato, quando ele
pretendia reinvidicar sua volta ao clero. O encontro não aconteceu. Segundo o
Padre Manoel Macedo (op. cit.), na época, num duelo pela
imprensa com o Dr. Floro, responsabilizou-o por ter impedido que o Padre
Cícero se encontrasse com o representante da Santa Sé, alegando que ele
estivera enfermo até poucos dias antes da chegada do representante do Vaticano. A
conclusão,
para muitos no Juazeiro, era a de que o Dr. Floro, já tão cioso das constantes
humilhações sofridas pelo Padre Cícero, quis apenas preservá-lo de mais uma decepção.
Sabia que aquele encontro em nada adiantaria, trazendo mais frustrações a seu
grande amigo e protetor. O não comparecimento deu lugar a interpretações
diversas no clero.
O episódio constrangedor e
vexatório imposto por Dom Quintino naquela noite foi uma verdadeira execração
pública, sem dúvida alguma, concretizando-se assim a proposta exigida por Dom Joaquim (consumatus est) há vinte e cinco anos
atrás. Foi um desfecho perfeito para o clero, que sempre desejou
vê-lo. Inclementes, ininterruptas e impiedosas, as
perseguições continuaram pelos tempos afora, quando ele teve que recorrer ao
expediente da humilhação, suplicando ao Bispo Quintino
permissão para apadrinhar um filho do seu amigo alagoano, Coronel Assis Chita
Fina, no que foi preterido pelo implacável Bispo.
Esta foi uma das mais dolorosas
etapas da história trágico-religiosa do Padre Cícero, que Otacílio Anselmo (op. cit.) assim resumiu: “Eis
que o Padre Cícero dali em diante começava a sentir o peso da autoridade diocesana
nos seus domínios”.
****
CAPÍTULO I9
FLORO BARTOLOMEU: UMA LIDERANÇA NACIONAL
“O que há de certo é que
no sertão é onde
está o
patrimônio moral do país”.
Floro Bartolomeu
Médico diplomado pela antiga
Faculdade de Medicina da Bahia, soteropolitano – como são chamados os nascidos em
Salvador –, Floro Bartolomeu era filho legítimo do comerciante Vírgilio
Bartolomeu da Costa e de Carolina Costa. Nasceu aos 17 de agosto de
1876. Ao
chegar ao Juazeiro em 1908, contava 32 anos de idade. Fotografia da época de
sua chegada ao Juazeiro mostra o visual de um homem moreno claro, cabelos
pretos cortados rentes, bigode espesso, olhos negros e expressivos, denotando
inteligência e rápido raciocínio, tendo como característica inesquecível sua
voz anasalada. Trajava com requinte e discreta
elegância. De pouca estatura, o conjunto em si passava um quê de atraente e
sedutor, talvez pela polidez de suas maneiras, ou pela conversa cativante e
fluente.
O escritor Ralph Della Cave, estudando-o, disse: “impecável na lógica,
na militância política, na retórica” (op.
cit.).
Para a maioria dos habitantes do Juazeiro que tão bem o acolhera, ele era um
cordial. Para
a pequena casta dos descendentes das famílias tradicionais, ou seja, os
verdadeiros donos das antigas terras, um intruso, e procuravam falsear sua imagem,
pretendendo anulá-lo, quando o chamavam de forasteiro, aventureiro que, à sombra do Padre
Cícero, procurava fazer carreira política. Em meio aos que nunca o admitiram, estavam figuras do
porte do Padre Manoel Correia de Macedo, (depois Monsenhor), um dos descendentes
diretos
dos antigos proprietários do sítio Joaseiro. Anos
depois, o mesmo Padre Macedo se voltou abertamente contra sua ingerência na
política local, desencadeando uma polêmica através da imprensa, que redundou
numa guerra de insultos, com grande repercussão no seio
do clero e na política do Estado. Padre Macedo era culto, com estudos
Aliando retórica ao carisma de
que era portador, empolgava multidões. Foi o maior orador sacro à época, no país, além
de brilhante conferencista. Sua palavra eletrizante conquistava multidões. Os registros confirmam
o brilho da sua pujante atuação nas grandes jornadas de fé pelos congressos que
realizou Brasil afora, quando convidado por agremiações não só religiosas, mas
também civis, para pregações litúrgicas, por ocasiões da Páscoa. Apesar de
culto e de ocupar posição de relevo dentro do clero, como eminente, tudo
empenhou para que fosse nomeado Vigário de sua terra natal, o Juazeiro. Nesse
detalhe resta a pergunta: sendo ele um Padre altamente erudito, promissor, com
todas as qualidades acima enumeradas, além de jovem, bonito e extremamente
elegante, nos seus quase 1,80m de altura. Como dizia, seu empenho em
voltar ao Juazeiro para assumir sua freguesia, vivendo metade da sua vida em
São Paulo e Roma, o que o fez retornar à cidade-natal, quando sacrificou a
própria saúde, escreveu Azarias Sobreira (ibidem). Não que o lugar não tivesse
estrutura para ganhar tão bela aquisição, mas pelo caldeirão fervente que já se
tornara a essa altura, com o Dr. Floro dando ordens, terminando
por redundar numa disputa, quando os dois, deputado e
vigário, se desentenderam publicamente, contaminando todo o Juazeiro, terminando com o
Padre Macedo se retirando de lá e do convívio de sua família. Estudiosos da
Questão religiosa do Juazeiro, analisando a nomeação do Padre
Macedo para Vigário do Juazeiro, entendem ter sido uma atuação do
alto clero, para que ele conseguisse suprimir o fanatismo reinante, que continuava
exacerbado. Criticava abertamente a situação a que sua terra natal tinha
chegado com um fanatismo avassalador, não obstante ser filho de um dos
grandes amigos do Padre Cícero, que o tinha como um Deus na terra, engrossando
as fileiras dos seus adeptos. Este era Pelúsio Correia de Macedo, o mago dos sinos e
relógios de Igrejas.
Ao assumir a freguesia, Padre Macedinho, como era
carinhosamente chamado por seus conterrâneos, primou em manter distância do Dr.
Floro, que a essa altura, já dominava o cenário político do Juazeiro, pormenor
que fazia questão de deixar evidente. A ogeriza explícita demonstrada
pelo vigário ao médico baiano consistia no que ele achava insuportável: o extrapolar
limites, segundo a versão que dava para manter distância do mesmo, e que só foi
se acentuando até chegar ao limite de uma guerra aberta entre os dois. Sentindo-se incomodado com a
ingerência do Dr. Floro nos negócios pertinentes ao dia-a-dia dos seus
conterrâneos, que ele, Floro, passou a dominar com mão
de ferro, e ainda pela influência malévola que exercia sobre o Padre Cícero que, no seu ponto de
vista, submetia-se aos seus caprichos, quando realmente tornou-se árbitro da
sua vontade. Dessa antipatia compartilhava o médico e escritor filho da terra,
Dr.
Antônio Xavier, autor do livro Beatos e
Cangaceiros, também motivo de discórdia com o Dr. Floro, que
classificou o livro de apócrifo, não condizente com a realidade do Juazeiro e
ofensivo aos beatos. Da Tribuna da Câmara, ele rechaçou o livro de Xavier de
Oliveira, interrompido por apartes de seus pares, quando também fez crítica ao acadêmico
Afrânio Peixoto, que pela imprensa manifestara-se a favor do livro. Segundo o
notável escritor, o livro atestava uma realidade insofismável. Anos depois, o Dr. Antônio Xavier seria
deputado federal pelo Juazeiro, todavia sem o brilho e a competência política
do seu adversário. Sua irmã, a escritora Amália Xavier, autora de trabalhos
educacionais sobre o Juazeiro, sendo ela também uma grande educadora, aliás,
tão citada aqui, porque autora do livro O
Padre Cícero Que Eu Conheci, foi imparcial, analisando-o, dando a César o que
é de César.
Mesmo com toda essa oposição por
parte de uma parcela de nativos, Dr. Floro nunca fez desse pormenor
algo de invencível. Ao contrário, imbuído de espírito público, numa vocação
autêntica para a política, sem fazer oposição a ninguém, pelo menos em tese,
partiu para a destruição da sistemática oposição à sua pessoa, pela
invencibilidade, com seu poder de resolução e persistência. Foi suficientemente
inteligente, e pairou acima de todos eles, o que seria inevitável, pois ao seu
lado, desde o início, o apoio total do Padre Cícero, e assim ele desempenhou
sua missão política, com reais serviços prestados ao Juazeiro, ao Ceará e ao
País. Inteligente, construiu amizades no meio seleto do Cariri. À massa, ele dispensava
solicitudes, no atendimento médico a qualquer hora, raramente cobrando
pelos seus serviços, abrindo desta forma caminho às suas pretensões políticas,
que, diga-se, não eram tão rasteiras, quando realmente atingiu o zênite da política, sob o patrocínio do
Padre Cícero, projetando-se nacionalmente, e projetando o Juazeiro, que, como já assinalado, vivia tão somente do
seu passado religioso.
Cordial e sedutor, como atestam
os que o conheceram de perto, despertava simpatia; fez admiradores, depois
transformados em adeptos fiéis, daí foi um pulo para galgar o poder. Foi
vereador, deputado estadual e depois deputado federal, quando realmente fez
do Juazeiro seu feudo político, trazendo-o fechado em suas mãos.
Entre tantos que dele me falaram, está o depoimento valioso da citada Albuína
Figueiredo, que acompanhou de perto sua jornada política. Filha de político (seu
pai,
José Euletério Figueiredo, substituiu o Padre Cícero na
intendência do Município, quando ele se candidatou a
Deputado Federal), testemunha dos fatos do Juazeiro, deles ela falava com
veemência, e descrevia-os minuciosamente, prendendo o ouvinte não só pela
clareza com que detalhava, mas pelo modo de expressá-los, dando um tom de
dramaticidade ao relato. A impressão que se tinha era a de que o ocorrido
tivesse acontecido em intervalo de dias, e não de distantes anos, tamanha era
sua retentiva em fixar o episódio. Sem se dar conta de que era uma grande
memorialista, e que seus relatos merecessem o respeito da posteridade. Eis
porque deles aqui me utilizo para traçar o perfil do homem multiforme Floro
Bartolomeu da Costa.
Segundo a autora dos relatos ora
analisados, ele trouxe modernidade e evolução ao Juazeiro, e explica porquê:
pelo fino das suas festas (era um festeiro inigualável, e realizou-as muitas). Distinto no trato e
elegante no trajar, as festas por ele idealizadas tinham o cunho da elegância. Assim foi a da criação
do município, aqui já descrita, bem como sofisticadas também foram as
duas recepções que fez aos dois chefes do Estado, João Tomé de Sabóia e Silva, e
Moreira da Rocha. Mas nenhuma festividade foi mais importante que a da
inauguração da estátua do Padre Cícero, por ele idealizada, que, grandiosa para o
tamanho do lugar, teve grande repercussão, tudo feito com muita pompa.
Fundou um jornal, Gazeta do Juazeiro. Apreciava os festejos populares, Santo Antônio e São
João. Trouxe a luz de acetileno ao Juazeiro e calçou várias ruas, alargando-as
e ajardinando praças. Mas o que contou, acima dessas muitas realizações, foi a
nova fase que deu à política local, imprimindo-lhe uma nova feição, invertendo
papéis, passando do trabuco
para a dialética fluente e convincente. Para Albuína Figueiredo, esse passo foi
decisivo e importante para o Juazeiro. Embora os descontentes com sua presença
no Juazeiro, e que nunca o aceitaram, com o passar do tempo, tornaram-se em
adversários ferrenhos, e foram muitos.
A ele foi atribuída a série de
fuzilamentos na antiga rodagem Crato-Juazeiro. Passar-se a paternidade somente
ao Dr.
Floro do
cometimento dos atos desastrosos, é de difícil interpretação, porque o Estado
tinha sua parcela de cumplicidade. Esses fatos coincidiram justamente com o
período agudo do Presidente Benjamim Barroso, que fez escola e deixou amargas
lembranças, quando, com mão de-ferro, pretendeu exterminar o banditismo, seguindo-se
o governo Moreira da Rocha (Moreirinha), de triste memória. Foi por esse
tempo que o Dr. Floro extrapolou, tornando-se o dono do lugar, superando até mesmo
o Padre Cícero, apesar das afirmativas do Padre Manoel Macedo, que escreveu, no seu polêmico
livro, Juazeiro em Foco, que o Padre Cícero
jamais perdera a supremacia do lugar que fizera, embora o Dr. Floro passasse ao
público a imagem de quem mandava mesmo no Juazeiro era ele. E fim. Nesse
tocante,
temos o depoimento da escritora Amália Xavier, que acompanhou parte dessa
história,
e ademais,
filha de um dos grandes amigos do Padre Cícero, segundo ela, José Xavier de
Oliveira,
inimigo figadal do Dr. Floro: “Certo dia alguém perguntou ao
Padre Cícero algo, no tocante à administração da Prefeitura, sua resposta foi: ‘menino, a respeito do
Juazeiro,
eu nada mais sei, tudo está a cargo do Dr. Floro, só ele, pode lhe
responder’”
(Amália Xavier, op.cit.). Portanto, são fatos
verossímeis.
Mas o intrigante em todos esses fatos é que nenhum cidadão do Juazeiro
desmentiu os fuzilamentos como sendo da inteira responsabilidade do Dr. Floro. Ao contrário, ao cabo dos anos, só foi se
intensificando mais e mais a convicção que tinham a esse respeito, que terminou
por lhe darem a paternidade dos hediondos fuzilamentos.
O Cariri tornou-se um caos, com os bandos de
cangaceiros a extrapolarem, cometendo os maiores desatinos, roubos, furtos,
homicídios. A sociedade exigia paz e ordem, e representantes da Bancada do
Ceará na Câmara questionaram que ele, como representante do Cariri,
impusesse ordem, já que a mesma não existia no Juazeiro, pois transformado num
caos. Foi então que, premido pela cobrança, não vacilou, e reconhecendo que
de fato existia um Estado ilegal, dentro de um Estado que devia ser legal, de
acordo com o Presidente do Estado, resolveu dar cabo da situação, partindo para o
extermínio,
segundo as crônicas locais. Mandando prender bandidos, os mesmos sumiam
para sempre, e davam-lhe a responsabilidade pelo desaparecimento. Ele retrucava, em artigos de jornal e nos seus
discursos na Câmara, que os entregava à justiça para que fosse feita
justiça.
Sempre se declarando um cultor da
lei, o fato é que rechaçou o banditismo, limpando o
Juazeiro de tais males, em pouco tempo. Segundo observações de Azarias
Sobreira e Amália Xavier (idem), podia-se andar
livremente pelas ruas do Juazeiro, e quiçá pelas estradas do Cariri, sem ser
importunado, quando não morto. Para os que o odiavam, diziam ter havido um
verdadeiro extermínio no Juazeiro. Sempre se defendendo através do seu jornal Gazeta do Juazeiro, incriminava o governo, quando
questionado, e dizia que acima dele estava a lei, portanto, não
poderia usar de tais meios, para cometer tais delitos. Ele ou o governo do
Estado,
o responsável pelos fuzilamentos na célebre rodagem? Mesmo diante do macabro, para a maioria dos
habitantes do Cariri, a medida foi benéfica. Só assim desapareceram ciminosos
de alta periculosidade e ladrões irrecuperáveis, apesar do extremo do ato.
Qualquer que seja a explicação, os fatos são
controvertidos. Dr. Floro parecia estar seguro da sua superioridade, apesar de
ter ficado grandemente perturbado com as denúncias de uma parcela dos
habitantes do Juazeiro. O Padre Cícero Coutinho, filho da
terra,
dele tinha um retrato que, se não era de um puro, também
não era de um desalmado, muito menos a de um excêntrico, afora pequenas
ressalvas de menor menção. De suma importância são os testemunhos de Joaquim
Arrais da Cruz (o Quinco), do jornalista cratense João
Lindemberg de Aquino, do escritor e conferencista de nomeada, José de
Figueiredo Filho, meu saudoso amigo, do escritor e médico Dr. Irineu Pinheiro, e
complementando a ordem hierárquica desses personagens, o depoimento fidelíssimo
do Revmº Padre Antônio Gomes de Araújo, de quem guardo recordações perenes,
pois a ele devo parte dos testemunhos, hoje transformados nesse livro,
embora com ressalvas, porque sempre discordei de certos pontos de vista do
eminente historiador a propósito dos fatos religiosos do Juazeiro. À memória do
grande mestre, minha eterna admiração. As lições de história
(assim considero) que me transmitiu sobre os fatos religiosos do Juazeiro,
guardei-as, como se fossem ouro ou diamantes lapidados, anotando-as com carinho e hoje
as insiro nessa obra, que julgo imparcial. Padre Gomes, apesar de avesso à História religiosa
do Juazeiro, pormenor de todos sabido, entretanto, ao Dr. Floro ele não
poupava elogios, dizendo ter sido benéfica sua presença no lugar, porque só
assim lhe daria outra vida, execrando o fanatismo religioso
exarcebado, como por exemplo: o extermínio da chamada Corte Celeste e do Boi
Mansinho,
que representou um marco com um mínimo de civilização para o lugar, por isso o
considerava “o Civilizador do Juazeiro”.
Ele fez adeptos e também inimigos
ferozes, mas inteligentemente desprezou a antagônica ogeriza dos nativos,
fazendo-se de desentendido, superando até certo ponto, e isto no firme
propósito de um único objetivo: o de tornar-se senhor do Juazeiro, como realmente
foi. Era de uma fidelidade extrema ao seu benfeitor, o Padre Cícero.
Observando sua atuação política no Juazeiro, disse o Padre Gomes: “ele cometeu erros sim, mas quem
não os comete? Foi de um dinamismo a toda prova, quando projetou o Juazeiro
nacionalmente, pois até sua chegada ali, o lugar vivia unicamente do seu
passado religioso”. Dentro da concepção criada entre os que não o viam com
bons olhos, tentando depreciá-lo, mas sem conseguir obstar seus méritos de
liderança e sedução, é sepultar a história do Juazeiro, quando por longos 20
anos, ele foi o dono do lugar. Virou um líder, chegando realmente às culminâncias do
poder,
claro, com as bênçãos do Padre Cícero. Sua dialética e persuasão evidentemente
o ajudaram a construir sua carreira política, porque elas são qualidades imprescindíveis no tocante
à política, e ele esbanjava esses predicados. Tinha-os de sobra. Foram
justamente esses requisitos que o fizeram conquistar o cenário nacional, a admiração e a confiança dos dois
Presidentes da República, Marechal Hermes, em 1913-14, e Artur Bernardes, em
1926, onde a interferência do Padre Cícero foi quase nenhuma.
A prova de sua liderança está em
que, depois de sua morte, o Juazeiro passou ao ostracismo político, e o Padre
Cícero não conseguiu fazer do Dr. Juvêncio Santana deputado
federal, quando os antigos aliados impugnaram sua chapa. Considerado por muitos
um modernista, não era isento de posições conservadoras e tendenciosas, também
não era um moderado, já ficou esclarecido, nem poderia sê-lo, diante do caos
que tornou-se
o Juazeiro,
para muitos, um lugar fora da lei, com tantas etnias e facções de bandos
irrecuperáveis, porque, na realidade, não existe bandido moderado e
recuperável. Portanto, a ele caberia impor uma ordem. Sempre pertenceu ao Partido
Conservador, ou seja: do famoso Senador Pinheiro Machado e do ex-Presidente do Ceará,
Comendador Dr. Antônio Acioly (PRC - Partido Republicano Conservador, no Ceará
havia mais o acréscimo de um “C” que traduzido é: Partido Republicano
Conservador Cearense). Apesar da ideia preconcebida
contra sua pessoa, onde prevaleceu a lógica do não ser da terra, de
aventureiro, alienígena e outros epítetos que lhe davam, ele amava o Juazeiro
e seu povo, deixando ver que essas mesquinharias não o incomodavam. Conquistou
amigos e fez inimigos o bastante para tramarem sua morte, mostrada em detalhe no final
desse perfil. Teve momentos de serenidade e também de ódio.
À medida em que dispensava
cortesias, também mandava prender e expunha ao vexame, por exemplo, no caso do
beato José Lourenço e seu boi Mansinho, que os fanáticos
prestavam culto à maneira do Boi Ápis, pois o tinham como um boi santo, que fazia
milagres. Mandou prender o beato Lourenço, em seguida abate
Mansinho em plena Praça Pública, quando sua carne é vendida e distribuída aos
presentes à
triste cena – embora muitos beatos dela não comessem, afirma Amália Xavier
(op. cit.). O boi Mansinho pertencia ao Padre
Cícero, que o tinha recebido de presente do industrial Delmiro Gouveia, quando
garrote de excelente raça, grande reprodutor. Ao beato Lourenço foi confiada sua guarda, para que
desse um tratamento à altura, daí o seu amor pelo animal, que os beatos, na sua crença, exagerada pela
beleza do espécime, transformaram-no em boi santo, fazedor de milagres.
Com mão-de-ferro, Floro destroçou a trupe de
beatos
que se proclamavam santos e diziam pertencer à Corte Celeste, vivendo nas
imediações do Horto, alguns, em promiscuidade. Isto, para ele, envergonhava o
Juazeiro e seu povo. Aos amigos do alheio, não deu tréguas, e limpou o lugar da
triste mancha, embora seus desafetos tenham levado o caso a excessos de
crueldade de sua parte. Foi vereador, deputado estadual e deputado federal por
duas vezes. Seus discursos na Câmara revestiam-se de um tom nacionalista,
defendendo o País quanto à ingerência estrangeira. Fez
apologia das riquezas minerais do Cariri, chamando atenção para o fato;
defendeu o Juazeiro da pecha de lugar bandido, e mostrou a realidade da vida da
cidade, com seu desenvolvimento, também com sua pobreza, porém uma pobreza
decente, onde o que prevalecia mesmo era o trabalho honesto que dignifica o
homem.
Numa retórica fluente, espelhando
seu perfil de homem-forte, num estilo próprio que fez época, defendeu com grande
ênfase, num discurso de seis horas, aplaudido e aparteado simultaneamente, as
acusações injuriosas do deputado paulista, Paulo Morais e Barros, que indo ao
Juazeiro em visita relâmpago na Comissão Rondon de inspecção às obras no Nordeste,
ao voltar, traçou um perfil desabonador do Juazeiro e da administração Padre
Cícero. Com dados não condizentes com a verdade, o deputado paulista levou de
roldão tudo e todos, não escapando ninguém. O Nordeste, ele retratou como um
lugar opaco, desinteressante. Às figuras ligadas ao Padre Cícero,
fez comentários ácidos e críticos, caso do Conde
Adolfo, quando pôs em julgamento a sua tão apregoada linhagem de nobreza que o
francês dizia ter, por herança de família. Em suma: foi um arraso. Moraes e
Barros expôs
as
feridas de um Nordeste esquecido pelos poderes públicos. Os
dados apresentados por ele, na Câmara, extrapolaram os fatos. Não foi um
discurso da realidade do Ceará e especialmente do Juazeiro, mas uma crítica
mordaz e desonesta, com subsídio falso, que na certa alguém contrário ao Juazeiro
e ao Padre Cícero lhe passou. Dados destorcidos da realidade, afirmou Floro
Bartolomeu
no seu discurso, na Câmara, respondendo aos ataques do
deputado,
desmentindo-o.
O discurso de Floro,
que teve
a duração de seis horas, porque bastante aparteado, foi convertido em livro, com o título de Joazeiro do Padre Cícero, editado pela
Imprensa Nacional, e teve grande repercussão, porque largamente divulgado. Com
esse discurso, o Padre Cícero subiu mais um degrau na admiração nacional.
Dr.
Floro deu a entender que toda essa somatória de inverdades, exposta na
conferência nos dois maiores centros do país, Rio e São Paulo, e depois
convertida em livro, tinha partido de uma única pessoa: o Bispo Dom Quintino, depois de uma visita
da Comissão Rondon à sede da Diocese do Crato, quando este dispensou ao
deputado exageradas mesuras. O contraditório, no episódio, é que o deputado
Moraes e Barros, além de ter sido recebido hospitaleiramente pelo Padre
Cícero, ainda foi hóspede do Dr. Floro, cuja casa estava vazia,
pela ausência do mesmo, que se encontrava no Rio, o que em nada impediu que suas
domésticas o tratassem respeitosamente, servindo-o com finas iguarias. Portanto, não havia questão pessoal alguma para tamanho
desatino. Apenas um ponto de vista: denegrir a imagem do Padre Cícero, nada mais.
Usando de uma mesquinhez sem
tamanho, mal-educadamente, o deputado paulista rompe a
barreira da sociabilidade e da ética, e traça um retrato cruel, não só do
Juazeiro e seus habitantes, mas de todo o Cariri, numa crítica irônica, mordaz,
degradante e altamente deselegante, depois de ter sido recebido com
cordialidade. Como se não bastasse o seu comentário na Câmara, dando conta da
sua missão, Moraes e Barros faz duas conferências nas
Associações Comerciais do Rio e de São Paulo, e lança uma monografia: Impressões sobre o Nordeste. Dr. Floro, indignado com tantas injúrias, da Tribuna da Câmara, num longo discurso, defendeu seu
benfeitor e grande amigo. Em meio a tanta indignação, trouxe à baila um passado de
perseguições, movidas pelo clero contra o Padre Cícero e seu povo, ao
ponto de muitos membros da Câmara, entre estes o gaúcho Simões
Lopes,
sugerirem que a Santa Sé deveria tomar conhecimento de tamanhos absurdos e
abusos (Joazeiro do Padre Cícero, op.cit.).
O deputado Moraes e Barros
esqueceu que visitava uma região devastada pelas secas contínuas e, evidentemente desprezada pelos
poderes públicos há séculos. O perfil que traçou do Juazeiro e seu povo lembra
o do professor e pedagogo Lourenço Filho, que também em visita relâmpago ao
Padre Cícero dali saiu traçando o dantesco, e tudo por não ter ele concordado
com a tese que lhe levara, da nova reforma para o ensino primário. O Padre Cícero, lendo de afogadilho,
discordou do novo método, citando vultos da História do Brasil que tinham
chegado ao ponto alto da literatura, todos pelo velho método de ensino. Foi o
suficiente para, poucos meses depois, Lourenço Filho, se sentindo
decepcionado, lançar um livro de críticas mordazes e desumanas contra
ele e sua gente, rebaixando o Juazeiro ao nível de “hospício enorme, antro e
feira”, e interpretando-o sociologicamente como megalômano, caso explícito de
patologia.
O livro de
Lourenço Filho, que tem o título de Joazeiro
do Padre Cícero, foi muito divulgado e lido por intelectuais de todo o
País. Três edições se sucederam. Para a época, um alto percentual. Os dois
visitantes, escritor e deputado, desprezaram a realidade da terra pobre e
esquecida pelos poderes públicos. Exigir deles entenderem o drama nordestino, impossível, pois
somente os que lá nasceram e vivem entendem perfeitamente o que é o horror das
estiagens prolongadas, a grande tragédia humana, que para compreendê-la é
preciso com ela conviver. Ambos desconheciam esse lado pobre da vida, agiram à
maneira do conto poético de Baudelaire, “Os Olhos dos Pobres”, que retrata uma família em farrapos,
na antiga Paris de 1864, onde o drama universal de classes ficou retratado
(Spleen de Paris, 1864). À semelhança do conto francês,
nada difere da posição dos dois paulistas, sendo que o conto baudelariano, uma
ficção; aqui, uma realidade insofismável da posição dos dois paulistas, ao se defrontarem
com o povo pobre do sertão. O conto de Baudelaire quis mostrar ao mundo o aparthaid que grassava não só em Paris,
onde tem lugar o conto, mas no mundo. A Família em Farrapos, transformada em
poesia por sua pena brilhante, é de um lírico comovente. Vejamos:
A Família em Farrapos vivia por
trás de antigos e centenários prédios, até pouco tempo desconhecida do outro
lado, isto é: do mundo burguês, que só tomou deles conhecimento após a
demolição inteira de grandes quarteirões, por ordem do Barão de Hausman, o
arquiteto das belezas parisienses, que mandou derrubá-los para abertura e
alargamento das grandes avenidas que se abriam. O trânsito teria que fluir
livremente, jardins floridos e majestosas alamedas, eis tudo que a burguesia
exigia do grande arquiteto francês, e o poeta descreveu eloquentemente a entrada
dessa família
num desses lugares chics de Paris, e claro, a eles proibido. Eis o trecho dessa
imorredoura página da história universal:
“Deslumbrados ante a
magnificência das luzes ofuscantes dos majestosos cafés, com seu piso em pedra
de carrara, impressionados com a grandeza dos seus lustres e espelhos a ofuscar
a visão, eles lá entram, para ver de perto a suntuosidade do famoso recinto.
Naquele momento, lá se encontrava uma moça aristocrática e seu namorado; ao
vê-los, ela solicita ao amado que os faça sair, para ela, um acinte a presença
daquela gente miserável no recinto luxuoso do café, e diz: ‘não consinto que o meu enlevo
seja perturbado por essa gente maltrapilha, insignificante’. O namorado tenta contornar a
situação, debalde, porém. Ela chama o garçom e pede que ele solicite do gerente
a saída daquelas crianças de olhos esbugalhados, retirando-os do recinto, o que foi feito.
E na profusão das luzes e das largas avenidas que se abriam, eles retomam a
direção de onde tinham saído, dos esconderijos dos velhos prédios já agora
inexistentes. Na
certa, mais tarde voltariam ao café, às alamedas, às calçadas, porque seus destinos é sempre a volta, não têm para
onde ir. Os amantes baudelarianos e a Família em Farrapos, ao se defrontarem,
passaram a ser vistos em todo o mundo como símbolo de la vie parisiense” (transcrito do magnífico livro
de Marshal Berman, Tudo que é Solido
Desmancha no Ar. Editora Companhia das Letras, 1994).
Essa comparação aqui feita entre
o conto baudelariano e os dois homens paulistas – deputado e escritor –
mostra,
em toda plenitude, o desprezo dos poderosos para com os pobres. Os dois,
representantes da plutocracia paulista: o professor Lourenço Filho, na época,
considerado o papa da intelectualidade brasileira; o deputado Moraes e Barros,
representante das finanças paulistas. Ambos semelhantes à moça aristocrática do
poema baudeleriano: visível desprezo pelos humildes, deixando clara a distinção
entre os povos, a qual será eterna, porque sem solução. Exemplo vivo de aparthaid explícito aqui no Brasil é a
capital da República, Brasília, que nem sequer procuraram
disfarçar. Ao construí-la o Presidente JK, o chamado Presidente dos “cinquenta anos em cinco”,
titulo que lhe deram seus admiradores, construiu Brasília de modo segmentar. A estrutura da
cidade, idealizada pelos arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, afasta as
pessoas, num recolhimento pastoral.
Brasília não foi feita para
pobres:
ela é antidemocrática. Foi construída especialmente para abrigar uma casta, a da
nobreza política e militar, por ser a Capital da República. Note-se a barreira
das gramas entre uma quadra e outra, como também a largura das suas ruas sem
esquinas, portanto desertas, nada de aproximação, nada de povo, resultando o
que eles na certa desejavam – ausência total de miseráveis na cidade
do século e do Presidente JK, que talvez pensasse eternizar-se no poder.
Nascido numa das regiões mais pobres e miseráveis do país, o Vale do
Jequitionha, como observou Chico Julião em Até
Quarta Isabela, JK esqueceu os pobres. Entretanto, foram esses pobres
nordestinos que, tangidos pelas secas (mas capazes pelo trabalho), para lá
migraram, e concorreram com sua-mão-de-obra na monumental construção. Não
receberam louros nem honrarias, mas sim um estrambótico designativo, até hoje
prevalecente, de “Candangos”.
Os construtores de Brasília, exaltados e louvados, imprimiram à cidade que também,
dizem, nascida de um sonho de Dom Bosco, um tom de tristeza e opacidade
visível, com a grande carga de asfalto das suas construções monumentais
dando-lhe um tom sombrio. Ela não tem a alegria e o charme de outras metrópoles brasileiras, tudo
lá é envolto em solidão, em densas brumas e mistérios políticos, que vindo à tona, faz corar a todos,
envergonhando o país. Uma só coisa lá se salva: o seu por-de-sol, poético e
deslumbrante. Tenho que aqui registrar que de 20 anos para cá, a coisa lá
mudou, com festivais de música e cinema. No entanto, para muitos, ela continua
horrenda. Os anos passaram-se e, para tristeza da nobreza militar
e política, lá chegaram os miseráveis que hoje vivem em volta dos suntuosos
edifícios, uma gente sem rosto, sem vida, sem expressão alguma. Pisoteados,
indesejados, excluídos, quando não mortos barbaramente, como foi o índio
Galdino, pelos filhos dos magnatas pertencentes à casta dominante de Brasília
(Abril de 1997).
Saí um pouco do assunto-tema
deste perfil, que é Floro Bartolomeu, enveredando para outros assuntos. “Fora do contexto da
obra”,
pensarão alguns, no entanto não o é, porque eles, os miseráveis, os excluídos, também
fazem parte dela. Volto ao Dr. Floro. Seu discurso
virou livro e percorreu o país, ganhando a admiração de intelectuais que se
solidarizaram com o Padre Cícero, como Gilberto Amado, Gustavo Barroso,
Leonardo Mota, João Brígido, e muitos outros. Da Câmara, ele recebe total apoio
de destacados próceres, à frente o Senador Epitácio Pessoa, Flores da Cunha, Cunha
Bueno (líder da Maioria), Ramalho Ortigão, Ascendino Cunha, Nabuco Gouveia,
Gonçalves Maia, Agra Silva, Tavares Cavalcanti, Moreira da Rocha (este depois
Presidente do Ceará, e seu grande amigo), citando aqui apenas os que
constituíam o núcleo intelectual da Câmara existente àquele tempo, e de
posições políticas diferenciadas, o que prova mais uma vez a fascinação que o
Padre Cícero exercia, a quem o conhecesse ou não. Livro escrito e distribuído, Dr. Floro retorna ao
Juazeiro para encontrar o Padre Cícero acabrunhado pela morte de sua irmã
Angélica Romana, falecida há pouco menos de um mês. Entretanto, a chegada do amigo
fez com que retomasse o ânimo e a alegria, pelo retorno do seu
porta-voz; prepara-lhe uma recepção improvisada, pelo imprevisto da chegada.
Para fazer o discurso de saudação de boas-vindas, ele convoca o intelectual
Padre Manoel Macedo, que depois escreveria no seu livro Joazeiro em Foco (op. cit.) o seguinte:
“Estava no confessionário da
Matriz quando se me apresentou o Emídio, porteiro da casa do Padre Cícero, com
um cartão do mesmo, onde me solicitava fazer um discurso de saudação ao Dr.
Floro, que havia retornado de surpresa ao Joazeiro. Apesar da ogeriza que sentia
pelo homenageado, não me
recusei, era o pedido do velho e bondoso Padre que tinha povoado meus sonhos de
jovem”.
O que isto custou ao padre
aristocrata, descendente dos fundadores do Juazeiro e filho de um dos
mais fiéis e devotados amigos do Padre Cícero, é dificil de se
traduzir. O elegante e culto sacerdote não via o Dr. Floro com olhos de
amigo, mas,
atendendo à
solicitação do Padre Cícero, fez a saudação. Pouco tempo
depois, divergência e aversão se tornariam públicas no Natal de 1924, pois
entre os dois desencadeou-se uma polêmica pela imprensa que fez tremer as pedras
do Juazeiro, com ressonância além das fronteiras paroquiais. O estopim para a
acirrada polêmica proveio tão-somente de uma Circular da Diocese do Crato, na
qual o Bispo Quintino proibia os jogos de roleta, aliás, muito comuns em festas
como Natal, Ano Novo e festas regionais das Padroeiras, especialmente. Esses
jogos tornaram-se parte integrante dos festejos, como um entretenimento
popular, lembrando que eles tinham a aprovação tácita dos delegados locais,
todos da polícia. A respeito desse entretenimento, considerado por muitos como
inofensivo,
o próprio Floro faz referência no seu citado livro, traçando um roteiro
interessante do que representava esse tipo de diversão muito comum no interior, por ocasião de
festejos regionais. “Para muitos, era a ocasião de fazer uma
fezinha”,
escreveu.
O Vigário Macedo, obedecendo
incondicionalmente às ordens do Bispo, decretou que não seriam
realizados os festejos de Natal e Ano Novo, caso os jogos não fossem suspensos.
Com essa medida, desencadeou-se uma luta entre ele e o Dr. Floro através da
imprensa e da tribuna da Igreja. O delegado já havia vendido por oito contos de
réis ao contraventor, inclusive com o aval do Dr. Floro, portanto era um fato
consumado. Padre Macedo publica uma circular, quando mais uma vez reiterava o
que já havia dito: não celebraria a Missa do Galo, se insistissem na realização
dos jogos, ferindo os brios do Dr. Floro, que já havia dado seu aval. Como não
era do seu feitio voltar atrás em nada, ele assegura através da imprensa a
realização dos mesmos. Era o trunfo que o Padre Macedo precisava para detonar a
campanha aberta contra ele, chamando-o de ambicioso e centralizador político
que tinha conseguido, graças ao aval do Padre Cícero, tornar-se senhor do
Joazeiro. Irredutível, Padre Macedo não aceita o esquema que apologistas e
donos do jogo traçaram, dos mesmos serem realizados não mais em praça pública, mas
sim num salão previamente destinado para isso. Estava contornada, entre aspas, a situação, o que não agradou ao
Vigário Macedo, que insistia na sua não realização, sob hipótese alguma. E
por não concordar, partiu para o ataque, aliás, já vinha fazendo da tribuna
da Igreja um verdadeiro libelo, quando ressuscitou os
assassinatos e crimes de tortura na cadeia do Juazeiro, bem como as execuções na estrada
velha do Crato, que, segundo ele, tinham a chancela do Dr. Floro, num
abuso de poder incomparável. Foi de fato um tremendo golpe. A crise chegou ao
extremo. Desaparecia naquele momento a alma aristocrata do Padre Macedo.
O episódio tomou uma conotação
tão grave que o Juazeiro, dantes unido, fragmentou-se, formando duas alas —
Floristas e Macedistas —, uma decisão já premeditada há algum tempo. O
motivo fica claramente evidenciado: a carreira política do Dr. Floro, numa terra
que não era a sua, é inegável. Abalado com o violento incidente entre duas
pessoas de sua estima, o Padre Cícero tentou contornar a situação. Reconhecidamente um conciliador,
chama o Padre Macedo à sua casa para uma conversa particular, e lhe pede paz. Sua
tristeza por ver o Juazeiro fragmentado era evidente. Apresentou então uma
solução de calma na difícil conjuntura para o bem de todos dali. Afirmou, durante sua
conferência particular com o citado sacerdote, que dali em diante esses jogos
jamais ali se realizariam. Só que isto seria impossível, tudo estava
acertado, não podendo mais voltar atrás.
No seu citado livro Joazeiro em Foco, ele comenta:
“O Padre Cícero, tentando me
convencer a dar por encerrado o episódio, dada a repercursão que ultrapassou os
muros do Joazeiro. Surpreendi-me,
pois desde que ali chegou ele sempre foi contra jogos, por mais inocentes que
fossem, até mesmo o de baralho em casas de família.
Impressionado com sua mudança, que considerei radical, ele aí reagiu, denotando mágoa pelo meu
comentário. Em seguida disse: ‘já nos entendemos o suficiente’. E num
gesto de humildade pediu-me perdão, caso me tivesse magoado, e deu por
encerrado o encontro”.
Prosseguindo, diz:
“O Padre Cícero é do rol
daqueles que machucam, mas não dão aos outros o direito de suscetibilidades,
mas infelizmente, ele já havia perdido o rumo do direcionamento, e tudo que
partisse do Dr. Floro era por ele acatado, pois dele fizera seu alter-ego, sem todavia abrir mão da supremacia”.
Nesse detalhe está implícita a tentativa do Padre Cícero
de encerrar o episódio, quando acenou com paz e conciliação. Tudo foi em vão,
pois na noite seguinte, véspera do Natal, Padre Macedo, aproveitando a ocasião da grande
massa presente à missa, sobe ao altar e profere um sermão carregado de
emoção e,
ao mesmo tempo, de violência. Do alto da tribuna, que já vinha sendo palco dos
seus contundentes discursos, ele apelou, despedindo-se dos seus conterrâneos, dizendo que deixava
sua terra natal, e quem o botava para fora eram os dois homens, Floro
Bartolomeu e o Padre Cícero Romão Batista.
O sermão calou no ânimo das
pessoas ali presentes. Parafraseando o grande vate, Gonçalves Dias, disse: “não
permita Deus que morra, sem que volte para cá”. Fez as malas e partiu rumo à
Fortaleza, onde já o aguardava o alto clero, que o acolheu, e de lá, com o
apoio da imprensa, ele detona suas flechas envenenadas contra o Dr. Floro. Este se defende das
denúncias através do seu jornal Gazeta do Juazeiro, quando, em títulos como “Um
Padre Ordinário” e outros do mesmo jaez, responsabilizava o clero pelo
incidente. E entra com uma ação no Tribunal do Estado contra calúnias e danos
morais contra o Padre Macedo. Mas era tarde, demasiado tarde. O ato de coragem do
Padre Manoel Macedo só tinha similar nos também corajosos atos do ofendido
Floro Bartolomeu.
Antes desse incidente, esses
comentários a respeito da sua pessoa eram feitos no maior sigilo, nos recintos
das salas de jantar. O Padre Macedo inverte os papéis, e consegue o que nenhum
outro conseguiria — jogar a opinião pública contra o deputado da sua terra. E
incitado por uma boa parcela de pessoas que gostariam de sepultar sua voz, a
insidiosa campanha de descrédito contra ele tomou corpo, quando construíram uma
imagem deformada da sua personalidade, atribuindo-lhe horrendos crimes no
Juazeiro. Daí o nascimento das duas alas, Floristas e Macedistas. A opinião
pública dividiu-se, fragmentou-se o Juazeiro – fato espantoso, pois a união
sempre foi sua força primordial. Teve início abertamente a campanha de oposição
à
sua pessoa por parte dos nativos, especialmente mesclada de
difamações: o retrato que dele traçavam era de uma figura demoníaca, as
insinuações dos crimes pesou.
A despeito de nebulosas, as acusações,
entretanto, ganhavam credibilidade em grande parte da população não só do
Juazeiro, mas também do Estado, em face da voz denunciante ser
da mais alta estirpe, justificando assim, portanto, o crédito que passava. A
lista de adesões ao Padre Macedo cresce. Dela, faziam parte figuras
públicas do lugar, como o farmacêutico prático, José Geraldo da Cruz, afilhado
de batismo do Padre Cícero, Benjamim Abraão,
sírio-libanês, um dos seus últimos secretários e ex-morador de sua casa, o
patriarca da família Xavier de Oliveira, José Xavier – um caso
surpreendente, pois segundo diz sua filha, a escritora Amália Xavier, ele era
da extrema confiança do Padre Cícero –, o romeiro pernambucano, Miguel
Jordão,
que chegou ao Juazeiro atraído pelos Milagres e, para espanto geral, José Terto e
sua mulher Petronília. Este, como não podemos esquecer, foi uma das principais
figuras da revolução, ao lado do Dr. Floro, e muitos, muitos outros de menor
prestígio.
Como ficaria sua carreira
política a partir daí, após tantas denúncias? Sendo que o agente transformador
disso tudo era um nome de peso, que jamais o aceitou na sua terra? Incomodado
com a atuação política do médico baiano, e, naturalmente, também subestimado
com a sua presença onipotente, pois sempre repetia nos seus escritos “Até
quando, Dr. Floro, abusarás da nossa paciência?”. Sempre procurando se defender
do libelo acusatório dos assassinatos, em verdadeiras execuções, que também
pairava sobre o governo. Era o período agudo do governo policial de Moreira da
Rocha, o Moreinha, por ter deslanchado uma repressão sangrenta ao banditismo
reinante no Ceará. Apesar das suas defesas, dos seus artigos quilométricos,
estava o Dr. Floro na realidade cercado por inimigos rancorosos, e sua imagem
de líder vai aos poucos se dissolvendo, como nuvens no céu. Fisicamente vai se
exaurindo paulatinamente, e sua saúde se agravou, segundo o médico Irineu
Pinheiro (op. cit.), depois do episódio violento
contra sua pessoa, deslanchada pelo Padre Manoel Macedo. Dr. Floro era portador
de osteíte aguda, que o matou prematuramente, apenas dois anos depois da
acirrada polêmica. Para se ter uma ideia do que
ocorreu nesse período e quanto o episódio lhe fez tanto mal, abalando-o física
e moralmente, eis o que disse o escritor Otacílio Anselmo, no livro Mito e Realidade (op. cit.):
“Certa noite, chegando de
Campos Sales, onde era Coletor Federal, José Fausto Guimarães, passando em
frente à casa do Dr. Floro, viu luzes acesas. Estranhando o adiantado da hora, pois já
passava da meia-noite, acercou-se da janela para ver o que acontecia. Vendo-o
de pena em punho, perguntou-lhe entre surpreso e curioso: ‘Dr. Floro, já é muito tarde, e
continua escrevendo?’. Sua resposta: ‘Estou rebatendo um artigo daquele padre,
filho-de-uma égua’”.
E foi a partir daí que o Dr. Floro
dá uma guinada de 180 graus: da sua proverbial e decantada cordialidade,
torna-se áspero, explode pela menor coisa, irrita-se, destrata. Numa palavra,
perdeu o brilho cativante de outrora, e o verniz da popularidade se esvai.
Agora ele opera pela força, a força do poder político. É desnecessário falar
das implicações políticas que o fato gerou, e não só a ele, mas por extensão ao
Padre Cícero, pois inseparáveis. Sua presença era evidente a cada ação do
mesmo.
Tentando minimizar o episódio,
porque dele também saiu arranhado perante o Estado, o Presidente Moreira da
Rocha ensaiou uma visita ao Juazeiro, e convocou todo o seu secretariado, a
imprensa, e o Prefeito da capital, cinegrafistas e deputados, e em trem
especial partiu para o Juazeiro, onde foi altamente recepcionado e festivamente
recebido, inclusive sua grande comitiva de mais de 50 pessoas. Banquete de 200
talheres, discursos e foguetórios, banda de música, como mandava o figurino
Florista da alegria baiana, do despojamento, do ser festeiro. E o ágape farto,
requintado, saído do crivo da governanta emérita, beata Mocinha, e a presença
maciça de todos os prefeitos do Vale deram um tom de conciliação, embora
superficial. Estava assim maquiado o
recém-findo episódio de atrito deprimente, que só percalços trouxe. Esta foi a última visita de
Chefe de Estado que o Dr. Floro anfitrionaria – em pouco mais de um ano, deixaria
de existir. A acirrada e desgastante polêmica
passou à história juazeirense, não se perdendo nos labirintos do esquecimento, porque o autor dela
encarregou-se de perpetuá-la em livro, sob o título de Juazeiro em Foco (ano de 1927).
Na esteira desses acontecimentos
veio à
tona um escândalo de grande efeito difamatório para o Padre Cícero. Trata-se do “Caso Hermelinda
Correia de Macedo”, prima do Padre Macedo, e que, segundo a opinião pública do
Juazeiro, teria sido influenciada pelo mesmo. O caso foi tão grave que ganhou a imprensa,
indo parar depois em Juízo, quando Dona Hermelinda, pessoa de posição
social elevada e também de posses, assegura ter sido lesada pelo Padre Cícero, que havia se
apoderado indevidamente do Sítio Paul, de sua propriedade, depois dela
ter feito uma dádiva às Obras das Vocações Sacerdotais. Com isso, o Clero do Crato
arremeteu e exigiu a volta da propriedade, mas inútil: o sítio ficou mesmo
com o Padre Cícero, que argumentou e apresentou documentos comprobatórios da
compra que fizera. Segundo seu advogado, Raimundo Gomes de Matos, em artigo no jornal A Região da Diocese do Crato (ano de 1925):
“Muitos álibis ela apresenta,
reinvindicando sua propriedade, dentre estes, e mais importante para ela, o Padre
Cícero ter feito de Floro Bartolomeu seu herdeiro universal, quando diz que, surpresa e amargurada, foi informada do caso, não
querendo, em
absoluto, que sua propriedade, herança de seus pais, fosse parar nas mãos de quem
não gosto”.
Aí então só lhe restou exigir do
Padre Cícero a volta do seu Sítio Paul, que como vimos terminou numa nova encrenca
no Juazeiro, de âmbito estadual.
Voltando ao Dr. Floro, ele resiste à
tempestade, não se deixando abater, e segue para o Rio. E quando pensavam que o
haviam destroçado politicamente, surpreendentemente lá surge ele, cheio de
poderes, pois o Presidente da República, Artur Bernardes, o nomeia como Chefe
do Batalhão Patriótico, vendo nele um nacionalista e patriota, um intrépido para
combater a Coluna Prestes, que descia do Mato Grosso em direção ao Norte e
Nordeste do país. Dinheiro, armas e poderes. Desembarcado em Fortaleza, o
arsenal que trouxera consigo poucos dias depois segue de trem para o Juazeiro,
quando ele,
em vagão especial, por força da sua posição de Comandante de um Batalhão, já havia seguido
antes. Lá chegando, arrebanhou milhares de homens e formou o Batalhão
Patriótico. Chegava assim ao ápice do prestígio e da glória nacional, consolidando o seu
papel de revolucionário. Sua estrela brilha, ele transcende o precário do
cotidiano, pois nomeado com todos os poderes Comandante-Chefe pelo Presidente
da República, função até então inerente às Forças Armadas. Formado o Batalhão,
e uniformizado de azul (era esta a cor), ele segue em direção ao oeste do Estado para a cidade
de Campos Sales, por ser fronteira de dois estados, Piauí e Pernambuco, e
naturalmente, pelos seus cálculos, a Coluna Prestes, invariavelmente teria que
por ali passar. Dias depois, chegava para reunir-se a ele o
XI RI de São João Del Rei (MG), sob o comando do Major Polidoro.
A Coluna Prestes, que deixava
Teresina, teria que passar em território cearense, mas seus
integrantes foram prudentes ao extremo, e se embrenham Piauí afora: de Jaicós, eles tomam a direção
de Pio IX, passando próximo à fronteira de Campos Sales, onde estava
aquartelado o Batalhão, que chamarei de Florista. Há discrepâncias de
alguns autores a respeito desse itinerário da Coluna Prestes. Até mesmo o próprio
secretário da Coluna, Lourenço Moreira Lima, não esclareceu tão bem esse
pormenor, de fundamental importância para a História. Aqui, prefiro ficar com o
depoimento de meu pai, Delmiro Moreira Arrais, que a tudo assistiu de muito
perto. Primeiro, por ser vizinho do
Quartel General, residência oficial do Dr. Floro; segundo, porque a essa mesma
casa ele tinha acesso, o que explicarei adiante. Meu pai não deixou a pequena
cidade, a exemplo de muitos moradores que se refugiaram em suas fazendas ou
sítios. Poucos os que lá ficaram logo que o Batalhão Patriótico fincou
sua base.
Dentre esses poucos, estava a família de meu pai, constituída de minha mãe e três
filhos menores, sendo que o mais velho deles contava apenas oito anos de idade.
Os apontamentos escritos por meu pai, e que os vi muitas vezes, traçam o seguinte
roteiro: a Coluna Prestes passou próximo à nossa cidade, enveredando por
uma estrada vicinal ao lado do cemitério local, quando abriu fogo contra o
Batalhão Patriótico, informada que estava da sua presença ali. Houve revide por
parte do Batalhão Patriótico, seguindo-se um tiroteio que
durou meia hora, estando os do Batalhão Patriótico acampados no lugar que
batizaram de “Trincheiras”, próximo de onde
passou a Coluna. (Mais tarde esse pequeno sítio pertenceu ao pai das minhas
filhas, e quando o vendeu fiquei triste, pois gostava de ir até lá para
contemplar os Valados, ainda abertos – 1968).
Esse tiroteio esteve sob o
comando do Major Polidoro. Tudo leva a crer que o susto da Coluna Prestes foi
inevitável,
porque às
pressas seguiu em direção à cidade de Pio IX. A fuzilaria, que durou por mais
algum tempo, assombrou os poucos moradores de Campos Sales que lá ficaram.
Muitos passaram mal, sendo socorridos pelos médicos do Batalhão Patriótico, mas
não houve vítimas. Essa é a fonte de informação, para a autora, mais precisa, pois
contada por um homem destemeroso, de caráter ilibado, que não se
amedrontou,
lá permanecendo. Meu pai, que era de índole calma e
sensato por excelência, dando por terra o que disse o escritor Otacílio Anselmo
(op. cit.): “Floro, acuado e
acovardado em Campos Sales, já bastante enfermo, não deu um tiro sequer.” É o
escrever com parcialidade, sem falar das tendendências comunistas de tantos
outros que escreveram sobre o assunto, mudando a História, o que, na visão do escritor
argentino, José Luís Borges: “modificar o passado é criar duas histórias
universais”.
Quanto a meu pai ter acesso à
casa do Dr. Floro, deu-se pelo seguinte fato: sabedores que ele era um bom
aplicador de injeções, foi convidado a prestar essa ajuda, e aqui é bom frisar,
não que estivesse o Dr. Floro à mercê de incompetentes, ou que falhassem na sua
tarefa absolutamente, acompanhado de dois médicos competentes, e enfermeiros
não menos. Mas, como dizia meu pai, a correria era tão grande, o tumulto
tão intensivo, uma verdadeira Babilônia. Quando lhe sobrevinham as dores
lancinantes causadas pela osteíte, deixando-o irritado e agressivo,
alteava a voz, chegando a ser ouvida das casas vizinhas à sua. Nessas horas
tristes da sua vida, ficava indomável e destratava mesmo, atestava meu pai que, por pura fatalidade,
fez parte desse corpo de prestadores de serviço voluntário. Foi também como
Mestre-de-obras que fez remodelações no recinto da casa que ficou servindo de
Quartel-General e, ao mesmo tempo, de residência ao Dr. Floro (quero frisar que esses pequenos
serviços internos de pedreiro eram muito bem remunerados, e que meu pai sempre
resistiu recebê-los). Outro pormenor também deve aqui ser citado: por ter
saído a maior parte dos moradores da cidade, e principalmente os donos de
açougues, houve falta de carne. Tomando conhecimento, Dr. Floro mandou que abastecesse a
população,
já que,
para eles,
o abastecimento era contínuo. Assim, os que lá ficaram foram
abastecidos pela cozinha Florista. Levando em conta que havia crianças e idosos
a depender do artigo carne.
Esses pequenos detalhes fizeram meu pai aproximar-se daquele
poderoso homem que, no momento, detinha enorme poder, conferido pelo
Presidente da República. Da parte do Dr. Floro, nasceria uma consideração
espontânea ao modesto homem de obras, que ele chamava de Mestre. Acostumou-se
ao aplicador de injeções, e àquela determinada hora de ser
aplicada,
lá estava meu pai, cumprindo a tarefa que julgava gratificante: o aproximar-se de um
homem ao qual estava entregue uma grande missão, qual fosse, a de rechaçar
ideologias vesgas, que nem mesmo os que a estavam
espalhando Brasil afora estavam dela convictos, como mostrou a História. Ainda assim,
meu pai teve ocasião de, em muito pouco tempo, como
sempre dizia, avaliar o seu caráter, suas atitudes tão comentadas pelos delitos
aos quais lhe davam a paternidade, como vimos atrás. No caldeirão tão sugestivo, pela infinidade de
cabeças pensantes, havia um parente próximo de minha mãe, com o qual o casal
mantinha boas relações – até acho que foi esse um dos motivos que fez meu pai ter
acesso àquela residência-militar. Era Pedro Silvino de Alencar, vítima dos acessos de neurastenia do
biografado, que demitiu-o do Comando do Batalhão. O motivo do desentendimento:
Dr.
Floro divergiu de um itinerário, traçado por Pedro Silvino, quando, irascível, aos brados, contava meu pai,
destituiu-o do comando. Há registros também de uma divergência entre ele e o
Major Polidoro que, apesar de não ter sido um
atrito, tudo leva a crer ter sido não mais que um conflito de personalidades e
poderes, razão por que o Batalhão Patriótico foi desmembrado.
Os médicos ali sempre presentes
tentavam conter a irritabilidade que tomava conta do intrépido homem, já a essa
altura altamente fragilizado pela doença óssea que o contaminou e o levou à
morte. Passadas as crises, era um outro homem, polido, educado, de fino trato,
que era difícil de entender-se o que dele se dizia, acentuava meu pai, se
referindo às
execuções de bandidos perigosos no Juazeiro. Achava mesmo incompatível toda
essa triste história, se fôssemos levar em conta o seu porte fino, a sua
convivência com o Padre Cícero, um pacifista, e até pelo seu lado sentimental.
Ele, ouvindo da sua casa meu pai tocar violão, pois o fazia muito bem, lá chegava
o seu ordenança, de nome João Fernandes, com um cartão, ou mesmo com um
pedido verbal para que meu pai solasse algumas valsas, dizendo o ordenança: “o Dr. sente-se bem ao ouvi-lo
tocar, parece até um milagre, alivia suas dores, deixando-o calmo”. Minha mãe acompanhava
meu pai,
cantando com sua voz afinada e melódica – ela cantava muito bem –, com alma, dando um
toque de divinal ao momento. Dessa forma, essa família simples e despretenciosa
presenteava com tão pouco aquele homem cheio de poderes, que, já em estado
terminal, mas no cumprimento do dever para com a pátria, sentia-se aliviado das
suas dores, pelo toque musical dos dedos ágeis de meu pai e do cantar bonito de
minha mãe, pela sublimidade que a música empresta, enlevando-nos, e elevando
até ao paroxismo do êxtase. Pela sensatez de meu pai, caráter reto, incapaz de
um exagero, é que aqui torno público esses fatos. Antes de partir deste mundo, confidenciou-me
desejar ardentemente que um dia escrevesse algo sobre o poderoso homem que, por um acaso do
destino,
ele conheceu de perto, embora tão rápido, mas que deixou nele uma impressão
duradoura da sua sinceridade e intrepidez, que o tempo, na sua velocidade
avassaladora, não foi capaz de diluir, muito menos apagar da sua retina.
Cumprindo o seu pedido, aí esse modesto perfil do que era Floro Bartolomeu da
Costa.
No dia em que deixou a pequena
cidade de Campos Sales, de clima magnífico, pelo ar puro que recebe da
altaneira Serra do Araripe, e até mesmo pelo vento que sopra e uiva com
veemência, dando um tom de poesia, Dr. Floro, gravemente enfermo,
dirije-se a meu pai, presente ao seu embarque, bem como outros moradores, e
dele recebe um efusivo e fraternal abraço de despedida. Os dois médicos,
Otaviano da Costa (baiano) e José Paracampos (fluminense), também tornaram-se
conhecidos de meu pai e hóspedes, como diziam, de um ficus-benjamim, que tinha
em frente à sua casa, e que eles, em momentos de folga e de calor abrasivo, ali
sentavam-se a conversar, refrescando-se da fornalha do sertão com o vento a soprar
forte, talvez desejando que tudo aquilo passasse. A pequena Campos Sales ganhou
outra feição: era o exército de Floro, com milhares de homens, e o 15 RI de São
João Del Rei, com rapazes elegantes, fazendo a alegria das moças da minha
cidade. Aqui, portanto, o relato de meu pai e suas anotações à caneta-tinteiro, numa letra de
manuscrito que muitas vezes lia e relia para mim. Esse relato é uma modesta
evocação in-memoriam a meu pai, meu
verdadeiro amigo, e um admirador incondicional do multiforme homem que era
Floro Bartolomeu da Costa.
Retorno ao itinerário da Coluna
Prestes,
chegando a Pio IX (PI), onde os habitantes do lugar foram vítimas das mais
cruéis atrocidades, e o chefe Júlio Simões e a família Arrais de Alencar,
fundadores do lugar, foram coagidos. Entre outras coisas, tiveram o desprazer e
o desconforto
de presenciarem seus bens, como animais de montaria, serem mortos e
esquartejados em plena via pública. Bois de corte foram mortos para o
consumo da cozinha ambulante que conduziam consigo. Paióis repletos de
alimentos foram destruídos, derramados, saqueados. Fotografias dos antepassados
foram retiradas da sala de visitas e rasgadas a punhal. Os fios do telégrafo, cortados,
deixando a cidade sem comunicação. Danos materiais e afetivos chocaram a população,
despertando o senso de indignação e de revolta, mas, silenciosos e
prudentemente, só lhes restou engolir a humilhação e a arbitrariedade,
quando nenhuma resistência houve à entrada deles no lugar. O
Vigário da Freguesia ficou sob coação, e ainda teve que acompanhá-los até a
saída do lugar, debaixo de ofensas e iniquidades, quando tomaram a direção
dos Inhamuns.
Ao passarem no lugar São Domingos,
hoje Quixariú, berço da família Andrade Arrais, novos percalços. O medo tomou
conta dos ingênuos habitantes, molestados impiedosamente, pois a um pobre velho
fizeram-no acompanhar para lhes ensinar as veredas que os levassem ao caminho
dos Inhamuns. Note-se que não enfrentavam o batalhão do governo, sempre
margeando os rios e por estradas vicinais. Prestes não queria o confronto
direto com o Exército de Floro Bartolomeu no Cariri, o chamado Batalhão da
Legalidade. Entre o coice de um animal e outro, e aos impropérios, já chegados à divisa dos Inhamuns, para onde se
dirigiam em direção à grande fazenda dos Távoras, o pobre homem
foi deixado num lugar deserto e de difícil acesso, e detalhe: amarrado. Na sua
busca,
depois de dois dias de intensa caçada e sofrimento dos seus familiares, o
encontram em estado de desânimo e sem nenhuma resistência, quase morto. Retornam com ele para
a Vila de São Domingos. Segundo seus parentes, esse senhor ficou
traumatizado pelo resto dos seus dias, seguindo-se poucos anos depois sua morte
repentina.
Desta forma, a Coluna Prestes ia
espalhando o terror contra indefesos sertanejos, que não entendiam o porquê de
eles ali estarem, muito menos da violência de que eram vítimas. Embora ainda
hoje existam adeptos embevecidos, que o louvam incessantemente, tanto quanto o
foi à época, quando, num tributo exagerado, exaltavam-no em versos como
estes: “cantando, sorrindo, purificando a Pátria”, sendo que o que prevalecia
de fato era o despotismo e a anarquia, deixando marcas em quem foi vítima de
tão iníquos
distúrbios da “gloriosa Coluna Prestes” e de seu mito maior, o chamado
“Cavaleiro da Esperança” por adeptos apaixonados, que até hoje teimam em
glorificá-lo, quando nada de positivo deixou Luís Carlos Prestes —
que a História já deu o seu veredicto.
À medida em que ia ganhando mais
poderes do Presidente da República, Artur Bernardes, que aliás governou quase
todo o tempo em estado de sítio, o Dr. Floro, na
visão de muitos autores, extrapolou, quando convocou Lampião, através de um
emissário, que o encontrou num dos seus famosos esconderijos, para integrar o
Batalhão. A convocação do bandoleiro partiu do seu Quartel-General em
Campos Sales, por meio de um cartão com o timbre oficial do Batalhão, e não,
como muitos supõem, ter sido o Padre Cícero o autor do convite, num verdadeiro
equívoco, simplesmente, ao que tudo indica, pela presença de Lampião no Juazeiro.
Mas por que Lampião não seguiu direto para onde estava estacionado o Batalhão?
São pontos controversos até hoje. Assim, a cidade de Campos Sales foi
poupada da sua indigesta presença. O fato é que, fazendo a caminhada até o
Juazeiro, trouxe constrangimentos ao Padre Cícero. Magistratura,
imprensa, clero e a polícia, todos se sentiram ofendidos com a
presença aberrante de Lampião, que naquela ocasião estava sendo procurado pela
polícia de seis estados. Padre Cícero estendeu-lhe a mão, foi ao
seu encontro, no sobrado do poeta popular João Mendes de Oliveira, onde
estava hospedado. A conversa foi reservada e rápida, havendo várias versões
desse encontro. Todavia, é voz corrente que aconselhou-o a deixar o cangaço e
retirar-se para Goiás ou Mato Grosso, na época um fim de mundo, e lá começar
outra vida, o que jamais aceitou.
Diferentemente dos seus
antecessores Antônio Silvino (1906) e Sebastião Pereira (Sinhô, neto do Barão do
Pajéu 1916, que formou seu bando para vingar a morte de um irmão), Luís Padre era seu
primo, e fez parte do bando, tendo início assim a luta que durou quase meio
século, entre Pereiras e Carvalhos, quando foram eliminados quase todos os
Carvalhos (1916-1922). A conselho do Padre Cícero, os dois primos se retiraram
para Minas Gerais, quando foram de fato substituídos por Lampião (extraído da
Enciclopédia Brasileira). Ao contrário destes, Lampião jamais aceitou deixar
sua terra natal. Num certo tempo, um setor da imprensa ávida de sensacionalismo
levantou a hipótese de que ele estava vivo e residindo em Goiás, mas
tudo não passou de especulações com o fito de aguçar o imaginário popular,
criando lendas. São as imaginações férteis de que tanto falava o escritor
cubano Alejo Carpentier nos seus escritos, referindo-se ao poder de imaginação
e criação do fictício do latino-americano, pródigo em dar vida a fatos
inverossímeis.
Do encontro entre o Padre Cícero
e o celerado nada transpirou para o público, a não ser a promessa de jamais
tocar no Ceará, juramento que cumpriu à risca. O cearense foi poupado
das suas barbaridades, diferentemente de outros Estados do Nordeste, onde fez grandes
estragos,
principalmente na Paraíba, que prometia tirar do mapa (ditado usado à época). A chegada de
Lampião ao Juazeiro, como não podia deixar de ser, causou alvoroço, todos
queriam vê-lo em carne e osso. Seria mesmo uma verdade aquilo tudo, ou seria
apenas ilusão de ótica? Caravanas das cidades vizinhas para lá afluíram, para
constatar o ineditismo do fato. A cidade ficou repleta de
curiosos, fazendo lembrar os tempos do Milagre. Vê-lo ao vivo excedia o limite
do pensamento, pois para muitos Lampião era uma figura lendária, quase
fantasmagórica, ora aqui, ora ali, sem residência fixa, senão a da caatinga, que tão bem conhecia
nos seus mínimos detalhes, daí resistir ao cerco policial de seis estados. Mas
como conceber-se tanto drible para não ser preso? Estrategista ele o era, mas
impossível que sempre levasse a melhor.
As Secretarias de Polícia dos
estados davam conta do cerco pertinente a ele, tudo porém não passava em parte
de um blefe. De acordo com depoimentos e artigos de jornais da época, as
volantes andavam no seu encalço sempre à paisana, e nunca a uma distância
superior a quatro léguas. Como prendê-lo dessa forma? Os locais que o abrigavam
pertenciam em grande parte aos senhores do latifúndio, que tinham em Lampião um
grande camarada para qualquer emergência. Daí sua longevidade no cangaço: com a grande proteção
que lhe davam os ricos fazendeiros, fato constatado e sem contestação. O
fato das propinas feitas a Comandantes de Batalhão, que operavam na sua
captura, é mais que real, tanto que vários oficiais chegaram a responder a
inquéritos, sendo que os principais deles, segundo o próprio
Lampião, eram o Major Teófanes, da polícia pernambucana, e o
Major Figueiredo, da polícia da Paraíba.
Portanto, conhecedor da corrupção
no meio policial, tornava-se difícil sua captura, pela duas proteções,
latifúndio versus corrupção policial,
peso mais que suficiente para sua longevidade no cangaço. Admitindo-se também, inegavelmente, seu conhecimento de
grande estrategista. Quanto à sua valentia, o que dizem os
estudiosos da sua pérformance? Para uns, valente; para outros covarde e
cruel,
até aqui sem substituto. Mas no meio policial a maioria o detestava, e não se
dobrava a ele e seu bando. O Sargento José Antônio do
Nascimento, por exemplo, era um desses, quando tentou por todos os meios barrar
sua entrada no Juazeiro. Em represália, Lampião escreveu-lhe desafiadora carta,
muito divulgada pela imprensa.
Evidenciando sua estada na
cidade, sabendo de que todos gostariam de vê-lo nem que fosse à distância, ele
chegou à sacada do sobrado do poeta João Mendes e acenou à multidão ali
postada, e fez mais: num gesto de filantropia, distribuiu mais de um conto de réis, em moedas e notas de
cinquenta
mil réis, escreveu o médico Otacílio Macedo, que o entrevistou. A construção
pormenorizada dessa entrevista, talvez a mais correta e transparente que se fez
sobre Lampião, até hoje. Descrevendo seu perfil físico e
as características da sua pérformance nada fica a dever aos grandes repórteres desse começo de
século. O médico-repórter começa por dizer que Lampião era um dandi
deturpado, referindo-se ao seu vestuário, que constava do seguinte:
“Na ocasião ele trajava calça
de brim cáqui, camisa de xadrez com colarinho alto, lenço vermelho ao pescoço,
abotoado por um reluzente broche cravejado de pedras preciosas, brilhantes e
esmeraldas. Nos dedos, anéis de safiras e rubis e, pendente do pescoço, um
grosso cordão de ouro, com um crucifixo também em ouro maciço, e em cada um dos
braços da cruz uma pedra preciosa, que parecia ser rubi. Usava óculos com
armação em ouro e tartaruga, e complementando a exótica indumentária, um largo
cinturão de couro, fechado por uma fivela dourada que também julguei ser de
ouro.
Dado o calor
abrasante do Nordeste, não usava sapatos, mas alpercatas de couro cru, muito usadas
entre os nordestinos, sem exceção de condição social. O seu perfil físico era
de um homem com uma acentuada envergadura. Andando, deixava bem à mostra o
pormenor, detalhe que atribuí ser devido aos pesados bornais e cartucheiras que
consigo carregava, trazendo-lhe talvez problema na coluna. Dolicócefalo, uma extensa leucemia
no olho direito empanava um pouco a diretriz de sua visão quando mirava, não atrapalhando
em nada, pois como sabemos tinha
excelente pontaria. Seus cabelos eram pretos e lisos, acentuando assim o
parentesco da raça indígena misturada ao caboclo sertanejo. O corte do cabelo era em estilo
americano, em voga na época. Sua voz era pausada, extremamente desconfiado,
deixava entrever sua descendência nativa. Seu olhar oblíquo dava a impressão de
querer abarcar de uma só vez todo o cenário ao seu redor. Mesmo com a fama de
impiedoso, despertava admiração. Um pormenor chamou-me a atenção: Lampião
respeitava o interlocutor. Olhando para mim, perguntou-me: quanto vai me pagar pela
entrevista? Em seguida, com um sorriso brejeiro, mandou que seus homens se perfilassem, o
que fizeram instantaneamente, e aí foram feitas as fotos,
pelo sírio-libanez Benjamim Abraão. E são essas fotos que até hoje, estampadas em livros e
jornais, correm mundo.”
Entre pasmos e incrédulos,
Juazeiro via o maior bandoleiro de todos os tempos em seu território, manso,
cordato. Atendendo
ao chamado do médico Floro Bartolomeu, ali ele estava garantido a
qualquer tentativa de represália por parte das autoridades. Por exemplo: o da
sua prisão, pois o Padre Cícero não consentiria, e isto afirmou para a imprensa
quando questionado, por deixar que ele lá chegasse, numa afronta às autoridades
constituídas. Sua resposta foi a de que nem era juiz nem delegado para mandar
prender ninguém, e Lampião lá estava a chamado do seu grande amigo Dr. Floro,
portanto, seria uma traição mandar prendê-lo. Para muitos autores, o vulgo o via como
protetor de uma parcela espezinhada da sociedade, um porta-voz das suas
reivindicações; para outros, no entanto, não passava de um monstro sem alma,
desprovido do menor sentimento cristão, que não poupava suas vítimas das mais
cruéis atrocidades. Apesar do constrangimento que sua chegada trouxe, o Padre
Cícero teve que tolerá-lo durante 12 horas na sua cidade. E paralelo a esse
constrangimento, teve que enfrentar os setores da sociedade ressabiados com
a presença do cangaceiro. Ao chegar ao Juazeiro, o Batalhão Patriótico estava
praticamente desmoronado, dado o estado de saúde do Dr. Floro ter se agravado,
e ele ter seguido para o Rio.
O Batalhão ficou assim dividido:
uma parte seguiu para a Paraíba, outra para Fortaleza, sob o comando do
General Polidoro. Com a presença constrangedora de Lampião e seu bando, os juazeirenses
encontraram um meio de se desvencilharem do famoso bandoleiro, numa habilidade
incrível. O engenheiro-agrônomo Pedro Uchôa, da Secretaria de Agricultura do Ceará, lotado
no Juazeiro, astuciosa e sorrateiramente arquiteta uma patente de
Capitão para ele, depois de já tê-lo uniformizado e ao seu bando com a farda do
Batalhão Patriótico e ter recebido pesados armamentos, armas privativas das
Forças Armadas. A fim de não decepcioná-lo, e evidentemente temendo uma reação
contrária do celerado, engendra uma patente de Capitão e, numa folha de papel
almaço,
foi exarado o documento apócrifo e folclórico. Foi a partir daí que ele passou
a ser chamado de Capitão Virgulino Ferreira. Dia seguinte, deixava o Juazeiro e
tomava a direção do norte do Estado, onde foi esbarrar em
Mossoró, e foi aí, como já citado, que seu bando foi rechaçado, tendo como
epílogo a morte de Jararaca.
Os repentistas do cordel
celebraram o inacreditável acontecimento, momento que jamais imaginaram vê-lo. A presença viva
em carne e osso do maior bandoleiro do sertão, hospedado e com garantias na
casa do também repentista, o poeta popular João Mendes de Oliveira. Em estrofes
de sétima, eis uma pequena amostra do que foi cantado:
“Assim
a quatro de março
Num dia de
quinta-feira,
Chegou
aqui na cidade
A
famosa cabroeira
Desse
bravo Lampião
Que
vinha com seu irmão
De
nome Antônio
Ferreira.
Daí
da Fazenda Nova
De
Juazeiro arrabalde
Lampião fez uma carta
Pedindo a autoridade
Se ela lhe permitia
Ele e sua companhia
Acamparem na cidade”
José Bernardo completava a
narração:
"Eu porém lhe perguntei
Se lhe deram permissão.
Só sei que às nove da noite
Entrou o Batalhão
E na casa hospitaleira
De João Mendes de Oliveira
Hospedou-se Lampião."
Mas não só foi a chegada de
Lampião ao Juazeiro que despertou polêmica. Controversa também é a carta que o Padre
Cícero enviou ao líder da Coluna Prestes, e que tem a data de 20 de fevereiro
de 1926. O secretário da Coluna, Lourenço Moreira Lima, classificou-a de
ingênua, e diz que o Padre Cícero fazia um aceno para que a Coluna depusesse as
armas e seguisse para o Juazeiro, onde seria bem recebida. Essa carta fez
surgir na imprensa a hipótese de que ele via com simpatia o movimento
revolucionário comunista. Nada mais irreal do que essa interpretação; primeiro,
por ser ele de índole conservadora, tão conservadora, que não podemos esquecer
ter sido acusado de monarquista, portanto, jamais iria apoiar movimentos
contrários às suas posições nacionalistas (sem ser um chauvenista), é
fato inconteste. Segundo: por ser amigo de Artur Bernardes, que acabara de
nomear o seu grande amigo e porta-voz na Câmara, Dr. Floro Bartolomeu, para combater os
revoltosos. A interpretação é de todo insustentável. O que ele, Padre Cícero, desejava era tão
somente paz — Paz—que sempre pregou, e por ser
um pacifista e um nacionalista, não admitia o nascimento de
novas doutrinas políticas, fossem aqui implantadas, pois não demorou
muito, e Luís Carlos Prestes fez sua profissão de fé ao comunismo.
Voltando ao Dr. Floro,
sua passagem pelo Juazeiro foi breve e emocionante. Pela última vez ele
pisava o solo juazeirense. Também pela última vez abraçava seu inovidável amigo e
benfeitor, o Padre Cícero. O encontro foi pontilhado de emoção, e Floro tinha
convicção do seu próximo fim, como assegura o médico Irineu Pinheiro, seu
colega e grande amigo. Dali ele segue para Fortaleza, de automóvel, em marcha lenta, onde aguardaria o
navio que o levaria ao Rio. Acolhido na Escola de Aprendizes e
Marinheiros, embora bastante doente, ele concede entrevistas, e sustém as
prerrogativas de Chefe-revolucionário. Esse fato é da mais alta relevância,
pois sublinha sua importância perante o Presidente da República, com o qual mantinha
contato diário, através de sua assessoria. Embarcando dias depois para o Rio,
por onde passa concede entrevistas que os jornais da antiga capital reproduziam.
Mas seu estado de saúde cada vez mais se agrava. Ao desembarcar no Rio, concede
entrevista. Já em sua casa, no Catete, recebe um
representante do Presidente Artur Bernardes com votos de boas vindas e de
pronto restabelecimento.
Ainda presta conta da sua missão
ao Estado Maior do Exército, sendo este o seu último ato político na Capital da
República. Seu estado de saúde se agrava, e de enfermo passa a agonizante. Poucos dias lhe
restavam. Sua casa enche-se de personalidades as mais diversas, políticos de
variadas agremiações partidárias, médicos, enfermeiros, todos na luta pela
sobrevivência do homem que, já muito doente, prestou à nação um
grande ato de patriotismo: impedir que a temida Coluna
Prestes penetrasse no seu Cariri. O Cariri, que adotou como sua segunda terra,
tanto o amou que empenhou sua própria vida, quando da revolução de 1914, e
também na grande confusão com os donos da terra, à frente o Padre Manoel Macedo
e seus adeptos. Apesar de citadino, com anos de vivência na Capital da República, ele amava
mesmo era o sertão, e isso ele perpetuou no seu livro, que tomei de empréstimo
para a epígrafe que abre esse modesto perfil.
Estando à beira da morte, seus
antagonistas não o perdoaram. A parcela da população constituída
de nativos que lhe eram hostis nunca o admitiu no Juazeiro, fato de todos conhecido.
Arquitetam o seu assassinato, já estando ele no Rio e gravemente enfermo.
Naquele momento, não mais estava ali o homem intrépido portador de um inegável
carisma, nem tampouco o fino cavalheiro que tão bem sabia receber. Retórica,
persuasão, tudo estava paralisado. Simplesmente repousava ali uma sombra do
bravo homem que fora outrora. Mesmo assim, os que nunca o aceitaram
no Juazeiro concertaram um plano para sua eliminação. Vejamos o que escreveu
Xavier de Oliveira (op.cit.), seu inimigo, em livro onde retrata
o Juazeiro da época, o exército e o sertão, e descreve a chegada
ao Rio do homem contratado para eliminá-lo. Vejamos.
“Certa manhã, fui surpreendido
aqui no Rio pela chegada inesperada de Miguel Jordão, que me procurou em minha
casa; pernambucano, romeiro do Padre Cícero, magnicida frustro, tendo sido uma
das vítimas do caudilho, após ter sido preso e levado uma surra na cadeia do
Juazeiro, de cujo episódio jamais esqueceu. Destilando ódio, reunido a outros,
concertaram a trama do seu assassinato. Procurando-me, expôs o plano, dizendo
ter recebido dinheiro para as despesas de viagem e permanência aqui, além da arma,
com a qual concretizaria o crime. Diante da sua fria exposição, horrorizei-me,
e tentei convencê-lo a não executar o crime, mesmo porque era de um absurdo sem
limite. Tentando dissuadi-lo da sinistra e louca pretensão, disse-lhe: 'Floro é
um homem liquidado, não durará mais 30 dias, deixemo-lo morrer em paz'.
Reprovando por todos os meios esse absurdo, com o qual não me associei,
consegui que desistisse, empregando-lhe na Prefeitura do Rio, e por aqui ficou
até ser aposentado”.
Essa passagem mostra evidentemente
o ódio brutal de uma parcela da sociedade do Juazeiro contra o Dr. Floro. Mas o
interessante no episódio é que o escritor procurou se isentar da participação
no projeto ignóbil do assassinato do Dr. Floro. Entretanto, na lista citada pelo
escritor de Mito e Realidade, aparece o nome
do patriarca da família, José Xavier de Oliveira, pai do Dr. Antônio Xavier de
Oliveira, inimigo confesso do Dr. Floro. Como se conceber fossem
amigos incondicionais do Padre Cícero, e romeiros do “Bem”, na expressão do
literato Alencar Peixoto antes de se indispor com todos eles, inclusive com o
Padre Cícero, a quem difamou? Como advogado do Padre Cícero,
ele fez a demarcação das minas do Coxá, junto ao engenheiro de Minas, Conde
Adolfo van den Brulle, o que lhe valeu mais inimizade. No jornal O Rebate, do
Juazeiro de 1909-10, em artigo primoroso de uma página, ele dá em detalhe a
extensão delas e fala de herdeiros, onde cita a poderosa família Alves Teixeira
de Aurora, que se diziam herdeiros únicos, mas havia outros, entre esses o
Padre Cícero, como vimos atrás. Eis porque a luta com mortes que chegou
a um século.
Voltando ao episódio da sua
eliminação pelos que se diziam amigos do Padre Cícero, e de romeiros do Bem, na
expressão do Padre Alencar Peixoto. Na lista citada pelo escritor Otacílio
Anselmo e Silva, eram muitos, inclusive o patriarca da família Xavier de
Oliveira José Xavier, pai do escritor ora citado. A índole de Floro Bartolomeu,
com tendência ao mando, era um fato; tornando-se político, chegou ao auge. O
homem a quem o Padre Cícero
entregou o destino do Juazeiro, e que ardentemente lutou, enfrentando as mais
diversas reações para elevar o Juazeiro e seu povo a nível nacional,
confirmando por esta forma o que diziam Rodolfo Teófilo e Gustavo
Barroso, observando a índole do sertanejo: a vingança. Vingar-se, desde que fossem
vítimas de ofensas ou assassinatos. Quando lhes surgia uma
oportunidade, na maior frieza vingavam-se de verdade, fazendo justiça
com as próprias mãos. E assim o faziam por não confiar na Justiça, comprometida
com os governantes que estivessem no poder.
Não há registros de que o Padre
Cícero tenha tido conhecimento do escabroso e iníquo plano do assassinato do
seu maior amigo e representante político, já em estado terminal. Católico, Floro
Bartolomeu confessou-se, recebeu a comunhão e a extremunção, e a 8 de março de 1926, às
cinco horas da tarde, exala o seu último suspiro, numa modesta casa da Rua do
Catete, de nº 89. Chegava assim ao fim o tão controvertido e multifacetado
homem Floro Bartolomeu da Costa. Anunciado seu falecimento, logo sua casa ficou
repleta de autoridades civis e militares, o Presidente da República se fez
representar nos funerais, e envia uma coroa de flores, lamenta a morte do
homem, a quem tinha dado todos os poderes para impedir que a Coluna Prestes se
espalhasse pelo país, disseminando ideias vesgas e incompreensíveis. Será que
Prestes amava o povo? Será que tinha consciência do que era o Comunismo,
travestido de Socialismo?
A Bancada do Nordeste se fez
presente, e presta suas últimas homenagens àquele que tanto fez pela terra, sem ser exatamente
um cearense. Mas que, em colaboração com o Senador Epitácio Pessoa, muito fez pela
criação de verbas federais para construção de estradas de rodagens, açudes e
melhoria da linha ferroviária, vital na vida do nordestino. Nos seus discursos
repletos de nacionalismo criticava os governantes estaduais, que deixavam o
nordestino migrar para o sul do País, onde nada lhes era oferecido, senão
humilhação. E advogava a causa dizendo que constituía um grande erro da
parte dos governantes deixarem-nos migrar. Para ele, deveria era se criar
trabalho e meios propícios a que eles ali permanecessem, e não deixá-los sair
para viverem ao Deus dará (extraído do livro Juazeiro do Padre Cícero).
Seu corpo foi conduzido à Câmara,
onde foi velado, e seu caixão coberto com as bandeiras do Brasil e do Ceará. Recebendo as honras de
praxe, foi transportado em um carro de combate para o cemitério de São João
Batista, onde está sepultado. Uma guarda de honra formada pelas duas armas dá o
toque final aos funerais, com toque de corneta e salva de 21 tiros, enquanto o
Presidente Artur Bernardes outorgava-lhe o título pós-mortem de
General-de-Brigada do Exército Brasileiro. Depois, novos tributos lhe seriam
endereçados em nome da nação. Um jazigo em mármore e, encravado nele, o seu
busto. Na base lê-se a seguinte inscrição:
“DR. FLORO BARTOLOMEU DA COSTA,
GENERAL HONORÁRIO DO EXÉRCITO BRASILEIRO, A HOMENAGEM DA NAÇÃO”
Não se pode omitir ter sido ele o
arquiteto político do Juazeiro. De uma fidelidade incontestável ao Padre
Cícero, embora não subserviente. Dono de ideias próprias, as garantia, e varonilmente.
Defensor ardente do Juazeiro, subiu várias vezes à tribuna da Câmara
para defender da pecha de ser um reduto de bandoleiros. Autores antigos e uma
parcela da opinião pública entendem que seu papel político no Juazeiro foi mais
positivo que negativo. Como já assinalado, ajudou na concretização de um grande
sonho, que era o da emancipação política. Pouco tempo depois, fez uma revolução, desapeando do poder
o Presidente do Estado, quando Juazeiro tomou posição de destaque político no
cenário nacional. Imprimiu vitalidade ao lugar, com a fundação do seu jornal
Gazeta do Juazeiro, e colaborava para a educação com dinheiro próprio. Anfitrionou
dois Presidentes do Estado, quando dispendia uma boa parcela do seu próprio
bolso,
escreveu Amália Xavier (idem). A recepção teria que
ser de fino gosto, um requinte, como ele, um requintado,
conforme já escrito. Sua casa era ponto de reunião não só de política, como
literária e de música. O Cordel, ele apreciava, era leitor
assíduo de Aristóteles e possuía uma boa biblioteca.
Enfim deu vida ao Juazeiro,
construiu a cadeia pública, abriu ruas, pavimentou-as, fez jardins floridos,
com dinheiro público, por ocasião da grande seca de 1918-19. Calcou o
banditismo reinante, até mesmo com crueldade, mas teria que ser feito,
destroçando em pessoa parte do fanatismo
reinante ao Boi Mansinho e santos. Abriu poucas mas boas escolas de alfabetização,
embora esse pormenor seja contestado pelo Senador Fernandes Távora
(perfeitamente compreensível, óbvio). Mas o que mais chamou a atenção entre
tantas realizações foi a consecução da estátua do Padre Cícero, esculpida no
Rio, que custou 100 contos de réis35, de cujo numerário saiu a maior parte do seu bolso. Apesar da maneira
viril de agir, era um sensível. Esse acontecimento foi um dos maiores momentos
da história social do Juazeiro. Com a presença da Banda de Música de Aprendizes
e Marinheiros, sob a regência do maestro Tenente-Capitão Augusto Bitencourt. Momento
de suprema glória para o Padre Cícero, homenageado em vida, e perpetuado no
bronze para sempre.
Enfim, por ter habilidade e
enxergar longe, foi que o Padre Cícero confiou-lhe a direção da sua terra,
fazendo dele o seu porta-voz. As homenagens no Juazeiro à sua memória existem: foi imortalizado
numa das ruas centrais do Juazeiro, que tem o nome de Avenida Dr. Floro. Aliás,
para os citados escritores Otacílio Anselmo e Azarias Sobreira (ibidem), descrevendo o
sentimento do povo juazeirense, por ocasião do seu falecimento, foi de total indiferença,
e ambos escreveram: “A notícia de sua morte não
comoveu o Juazeiro, nenhuma lágrima foi ali derramada, parecendo
haver um total desprezo pelo morto”.
Já outros insistem em que o Juazeiro comoveu-se após o recebimento da notícia,
tanto que trataram de lhe imortalizar com nome de rua. Na visão dos dois
autores, o Dr. Floro não gozava realmente do prestígio de todo o povo juazeirense, daí a
indiferença demonstrada pelo seu desaparecimento. Registrando o fato, o faço
porque também faz parte da história do Juazeiro e do homem que na realidade foi
o arquiteto da política local, levando o Juazeiro ao cenário da política
nacional.
****
CAPÍTULO 20
A BEATA MOCINHA
Joana Tertuliana de Jesus — era
este o seu verdadeiro nome de batismo — chegou ao Juazeiro muito antes
dos milagres, acompanhada de sua mãe de criação, professora Dona Naninha, que
procedia de Jaguaribe Riacho do Sangue, segundo os informes de Azarias Sobreira
(op. cit.). Lá elas chegaram em 1876, atraídas pelas virtudes do capelão da
localidade, de quem já corria a fama de virtuoso, pelas reformas que conseguira
realizar não só no mundo profano da dançarina Belmira que, convertida, passou a ser motivo
de crença para todos dali. Espalhando-se a fama de operador de milagres, um
sacerdote de apenas 28 anos de idade, quando à época era conhecido um clero em
boa parte dissoluto. Muitos eram pais de família, vivendo em
concubinato, sem prestar conta a seus superiores. O sertanejo, um crente de tudo,
deixou-se levar pela regeneração da mundana Francisca Belmira e pelas
consagradas virtudes do capelão, virtudes peregrinas que o fizeram ser elevado à grandeza de um
santo.
Na companhia de sua mãe de
criação,
Dona Naninha, ela chegou ao pequeno e obscuro Joaseiro - ainda com essa
grafia. Dona Naninha era professora primária. Abriu, em colaboração com o
Padre Cícero, uma escola, que recebia a orientação pedagógica do
sacerdote, com o seu método de não vacilar, se preciso fosse, nas palmatoadas,
depõe Amália Xavier (op. cit.). Mas
essa senhora não ficaria por muito tempo ali, retornando à sua terra natal, o
vale do Riacho do Sangue, de tantas e ferozes lutas, daí a origem do seu nome.
Joana Tertuliana não regressaria com ela, ficaria para sempre no Juazeiro, em
companhia dos familiares do Padre Cícero, e se destacaria pelos seus dotes de
inteligência e critério, no rol de beatas formado em torno do sacerdote.
Ocupando lugar de relevo no microcosmo agitado do Juazeiro a partir do ano de
1889, o ano do Milagre, ela foi de fato poderosa, a primeira na hierarquia no
rol das beatas.
Depois da chegada do
Dr.
Floro ao Juazeiro (1908), ela passou a compartilhar com
ele algumas atribuições. É bom aqui deixar registrado que entre os dois
sempre houve um entrosamento perfeito, não consta em nenhuma passagem de toda
essa longa história um atrito, por menor que fosse. Ocupou por toda sua vida as funções de governanta da
casa do Padre Cícero e de tesoureira da soma incalculável de dinheiro que lá
entrava, diariamente. De estatura acima da média cearense, tinha um físico
atlético, era alva, tinha olhos castanhos claros e cabelos pretos e lisos. Não
era bonita, como outras beatas que se destacaram pela beleza, como Hermínia
Marques de Gouveia e a dócil beata Jerônima Pinheiro de Menezes, a Giluca, que
delas falarei adiante. Sua fisionomia beirava ao rígido; não se dobrando a
injunções, era realmente talhada para o cargo que ocupou, de governanta e
administradora de todos os bens do Padre Cícero. Teve livre arbítrio de tudo
resolver, tudo passava pelo seu crivo, desde a criadagem até os visitantes mais
ilustres. Hospedou três Governadores de Estado, e também a Banda de Música de
Aprendizes e Marinheiros de Fortaleza, por ocasião da inauguração da estátua do
Padre Cícero, composta por mais de 50 Músicos.
Deputados, jornalistas,
cientistas da febre amarela, que visitaram o Juazeiro, engenheiros ingleses e
norte-americanos, os padres cultos da primeira Comissão de Inquérito. A todos
ela envolvia pelo tratamento educado, e também pelo requinte primoroso da sua
farta e elegante mesa. Sem a sua senha, impossível ver o Padre Cícero, o sonho
estava sepultado. Frustrou muita gente, dizem os analistas do assunto, quando
chegou a barrar com mão de ferro os que insistiam em penetrar no recinto
daquele tabernáculo, se não tivesse seu aval. Fotografia dele, idem. Por tudo
isso, ela foi perfeita, decididamente talhada para o cargo que ocupou por espaço
de 54 longos anos. Não dispunha de tempo para repouso. Além da sua agenda,
ainda tinha que atender ao grito insistente dos miseráveis em frente a um dos
portões da residência do Padre Cícero, que solicitavam pela comida diária, e
que de acordo com fontes idôneas do Juazeiro, chegavam a quase 100 refeições
(Amália Xavier, idem).
As poucas vezes em que saía à rua, era interceptada
pela multidão, embargando-lhe o direito de ir e vir, pois os pedidos eram
inusitados. Assim,
preferia retornar à casa. Foi rica e famosa, virou estrela de primeira grandeza,
como são hoje os artistas da televisão, do esporte, os astros da música, do
cinema e da grande literatura mundial. Circunspecção, compostura e naturalidade
emolduravam a sua personalidade forte. Altamente equilibrada, agia mais pelo
racional que pela emoção. Um detalhe chamava a atenção de todos, por se
destacar das demais beatas: chamava o Padre Cícero pelo seu nome de batismo, e
não de Padrinho como tantas outras. Este, por sua vez, a chamava de Joana. Foi
amiga de todos os padres que frequentavam a casa do Padre Cícero, sem exceção.
No mar de confusões do Juazeiro, delas sairia imune. Sua posição foi sempre a
da neutralidade. O Bispo Quintino a tinha em grande apreço, e elogiava sua
personalidade forte e irrepreensível (Azarias Sonbreira, idem).
No Juazeiro, ela foi tudo, como
já acentuado. Sua tarefa à frente da casa do Padre Cícero
não era fácil, sobre seus ombros pesavam tarefas difíceis, quase
inconciliáveis. Como governanta, tinha a missão de administrar
tudo que fizesse parte dos rendimentos não só da Igreja, sob sua supervisão,
mas principalmente das ofertas feitas ao Padre Cícero, que se constituíam de casas no
Juazeiro, Crato, sítios, roçados, gado, engenho e muito mais, até mesmo em
outros Estados,
Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte. Com seus dotes de grande
administradora, conseguiu valorizar e fazer crescer o patrimônio do Padre
Cícero,
que foi às
alturas. O próprio testamenteiro se surpreendeu ao listar os bens.
Contava com uma boa rede de funcionários, prestimosos todos ou
quase todos, agregados da casa do Padre Cícero, que tinham capacidade para executar a
missão que a Beata e governanta lhes destinasse. Cada um tinha sua missão, como:
coletar a safra de legumes e ordenar o plantio para a safra seguinte, isto é, dependendo das chuvas,
consertar e manter cercas, roçados, abrir cisternas, etc. Tinha também os
arrendatários. Aqui lembrarei o pai da escritora Amália Xavier, que
muito prosperou fazendo independência financeira, segundo a memória coletiva do
Juazeiro. Por ocasião do aperto financeiro para captação de dinheiro para
pagamento da operação do Padre Cícero, realizada lá mesmo no Juazeiro, o senhor
Xavier de Oliveira apresentou-se como comprador de uma das suas propriedades, recebendo do Padre
Cícero uma sutil ironia, quando lhe perguntou, entre surpreso e admirado, como
conseguira amealhar tanto dinheiro para candidatar-se à compra de um bem
daquela estatura. Ele lhe deu uma resposta que não se sabe se o convenceu. O
fato é que,
dias depois, o imóvel foi a leilão e José Xavier de Oliveira o arrematou pelo valor
estipulado pelo Padre Cícero. E aquela casa que outrora lhe pertencera e a
seus familiares, com anos de vivência lá, tornou-se residência da família Xavier de
Oliveira, até os dias atuais. A própria escritora fala dessa passagem no seu
livro O Padre Cícero Que Eu Conheci. Todavia, é obvio, omitiu a
ironia.
Mas árduo mesmo era o manter a
harmonia entre os agregados da casa, que também eram chamados de familiares do
Padre Cícero, e que se compunham de um pequeno exército de mais
de 25 pessoas, todos sob sua supervisão. Sempre atenta a todos os
detalhes, e ai de quem não a obedecesse. Agia como se fosse um senhor
feudal, com mão de ferro, não consentindo que a ordem por
ela estabelecida fosse quebrada. Mesmo assim, escreveu o citado
Azarias Sobreira, houve um caso de envenenamento de uma das moradoras lá
residentes, tendo a suspeita recaído sobre o sírio-libanês Benjamim Abraão, um
dos últimos secretários do Padre Cícero, e também residente na casa, e tido
como um filho querido para ele, que abalado e triste não aceitou a hipótese do
envenenamento lançada sobre Benjamin. Para ele, as evidências não
eram suficientes para que a afirmação se sustentasse. Sua tese era
de que Benjamim Abraão tinha sido criado sob a égide dos frades da Terra Santa,
portanto incapaz de cometer tal desatino. Mas a Beata Mocinha, que agia no real, isenta de emoção,
exigiu que ele se retirasse de imediato do teto que o abrigara por anos
seguidos, afim de não comprometer a dignidade da casa, evitando assim maiores
escândalos. E ele se foi, para nunca mais voltar.
Por tudo isso, a Beata Mocinha foi
ímpar. O espírito de liderança saltava aos olhos de quem chegava ao Juazeiro, e foi justo por esse
espírito de liderança que ela conseguiu manter-se em evidência durante 54 anos à frente da casa do
Padre Cícero, que também era sua. Dormindo apenas seis horas por dia, alimentava-se
precariamente, por não dispor de tempo para uma
refeição condigna. Várias vezes, estando à mesa, ouvia gritos aflitos, como acima citado, com batidas no
portão. Eram
de miseráveis implorando que a refeição não tinha chegado. Imediatamente deixava
de lado sua refeição para socorrer aqueles que gritavam pelo alimento, e eram
centenas
deles. Assim foi a Beata Mocinha: mulher especial, digna de admiração.
Mesmo com toda essa avalancha, conseguiu viver até os oitenta
anos, e morreu lúcida.
Já fiz sentir que não dispunha de
beleza, em compensação tinha o dom de dirigir com segurança e clareza aquele
mundo confuso da casa do padre Cícero; por isso ela tornou-se personagem
histórica.
Era secretária do Padre Cícero, tesoureira,
sócia da empresa de luz, diretora de várias Associações Pias. Fundadora de instituições de caridade,
depositária dos donativos ofertados ao Padre Cícero e à Padroeira, e responsável
direta pela remessa de dinheiro para a Terra Santa, para frades mendincantes,
guardiões do Santo Sepulcro, em Jerusalém. Nessa parafernália de remessas de
dinheiro para o estrangeiro, quando discutia sobre câmbio, importou da Bélgica
coroas de filigranas em ouro maciço e pedras preciosas, para a Padroeira Nossa
Senhora das Dores, que segundo notícias, foi parar mais tarde
na Diocese do Crato.
O Padre Azarias Sobreira, em seu
livro (op.cit) a compara à Madre Pasqualina, governanta do imortal Papa Pio XII.
Assim foi ela, portadora de um espírito forte e de um tirocínio invejável,
capaz de suplantar muitos mestres da Economia de hoje. Virou mito, pela
música de Luís Gonzaga, que a imortalizou no Baião "Minha Santa Beata
Mocinha". Sobreviveu ao Padre Cícero, e foi
a
única beata
presente à sua morte, à exceção da beata Josefa Maria do Espírito
Santo, quando ouviu dele as palavras “No céu, rogarei por vocês todos”. Faleceu
aos 80 anos de idade, está sepultada num jazigo especialmente destinado para
abrigar os restos mortais dos que fizeram parte da família do Padre Cícero.
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CAPÍTULO 21
O OCASO POLÍTICO DO
PADRE CÍCERO APÓS A MORTE DE FLORO BARTOLOMEU
Dirigindo o município há quase l5
anos, quando se tornou um autocrata, somente se afastando do cargo por
motivo do falecimento do seu grande amigo e mentor político, para candidatar-se
à vaga por ele deixada de Deputado Federal. O fato, como não podia deixar de
ser, encontrou resistência por parte de outros, que também almejavam a cadeira. Nunca um lugar de
Deputado foi tão disputado como a vaga deixada por Floro Bartolomeu, escreveu
Edmar Morel (op. cit.).
Como outros tantos fatos do
Juazeiro, sua pretensão levantou polêmica e restrições, e críticas lhe foram
endereçadas pela imprensa pelos que disputavam a vaga, como o jornalista Matos
Ibiapina, que sem um motivo plausível que justificasse suas críticas,
centrou-as tomando por base sua idade, já bastante avançada. Até aí, tudo compreensível,
mas o jornalista, que era culto, poliglota e tradutor (foi ele um dos
primeiros aqui no Brasil a traduzir do alemão para o português a obra de
Hitler, Mein Kampf, Minha Luta), centrou-se no tema
do seu contato com o vulgo, e dirigiu-lhe pesadas críticas. Para o jornalista
Ibiapina,
o contato com a massa analfabeta e supersticiosa terminou por fazer dele um homem de
conhecimentos abaixo do razoável, portanto, incapaz de assumir uma cadeira no
parlamento. E dizia nos seus artigos: “Além
da sua provecta idade, o que já seria um grande embaraço, o fundamental mesmo é
a sua incapacidade intelectual para representar o povo cearense, e até mesmo a
memória de Floro Bartolomeu”. Também como agravante fazia
menção à
sua condição de demiurgo, “desgastada por anos de convívio
diário com a ralé fanática, incapaz de raciocinar.” A crítica cheia de desdém
espelhava o sentimento de inveja dos seus eternos detratores. Não
dispondo de tempo para ler, pela afluência de centena de
pessoas que diariamente recebia, tornou-se difícil para ele o contato com os
livros. Mas era assinante de jornais do Sul, inclusive os da Capital. Portanto,
não vivia tão alheio aos acontecimentos do País e do mundo, quando
magistralmente alternava o convívio de pessoas cultas que o visitavam com a
pobreza inculta que o procurava.
Nessa época (1927) no Juazeiro já
existiam dezenas de médicos, advogados, engenheiros. Se fôssemos fazer um
levantamento do período, ver-se-ia que o Juazeiro da época em nada diferia das
grandes cidades
de então. Por mais que seus detratores omitam a obra beneficente do Padre
Cícero,
a que mais sobressaiu, no Juazeiro, foi a educacional, como aqui já
bastante enfatizada. Para ele, era ponto precípuo e isto é tão
cristalino, como cristalina são as águas das nascentes do Cariri. Se não
existia um ensino superior à época, mas o básico sempre existiu
e com ótimos
resultados, pelo ensino das suas escolas elementares, a maioria
particulares e pagas do seu próprio bolso (Amália Xavier, ibidem). Antes dessa época,
ou seja,
no ano de 1922-23, sempre lembrando a época, o Juazeiro já possuía quatro escolas
públicas, duas do município, outras duas do Estado, e várias outras
particulares, para uma população fixada em 35.000 habitantes, é o que escreveu
Floro Bartomeu (op. cit.). Sob o crivo do
Padre Cícero, que as inspeccionava semanalmente como se fosse um prefeito de
disciplina, e se achava prudente, é o que diz a crônica, aplicava
sua conhecida pedagogia, que era a do ralhar com
veemência, doesse a quem doesse.
À época dessa crítica (1927), o
Juazeiro dispunha de uma elite intelectual com médicos, bacharéis em Direito,
os padres Macedo — quatro irmãos, sendo que o Padre Manoel Macedo era doutorado
pela Gregoriana de Roma, e, como já atrás citado, um dos maiores
oradores sacros do País. Havia os moradores distintos vindos de outras partes,
como o bacharel Dr. Manoel Diniz, paraibano, que fundou um colégio
particular, o engenheiro de minas, Conde Adolfo Van den Brulle, os
Vitorinos, militares e médicos, o escritor filho da terra e também médico, Dr.
Antônio Xavier, e até mesmo o mascate, o sírio-libanês Benjamim Abraão, que
trouxe modernidade ao Juazeiro pela venda de artigos importados, como tecidos, perfumes,
louças finas, e pela arte da fotografia — tinha tendência a cineasta. Lembro
que Benjamim Abraão foi o primeiro a fotografar Lampião e seu bando. Depois faria as
tomadas para um filme sobre sua vida, quando foi morto pelo bando. As centenas
de juazeirenses
que passaram pelo Colégio Diocesano do Crato, um referencial. Toda essa plêiade
de homens inteligentes e cultos formavam a elite local, acrescente-se ainda os
visitantes ilustres que lá iam e que, embora flutuantes, não deixavam de trazer, na pior das
hipóteses,
um certo grau de civilização e influência cultural de suas terras.
Já nos idos de 1891, o erudito professor José
Marrocos espalhava o brilho da sua cultura, transformando o Juazeiro
provinciano em pólo das artes, com Semanas Santas dramatizadas com
figurantes ao vivo, representando os personagens bíblicos, usando vestimentas
apropriadas, importadas do estrangeiro. Até nesse pormenor, o Juazeiro
foi o pioneiro no Brasil a ter esse gênero de arte, hoje muito bem representado
em Fazenda Nova (Caruaru).
Criticado por certos intelectuais
pelo convívio com a massa simplória, segundo eles. Não entenderam certos
homens de letras que isto fazia parte da missão a que o Padre Cícero se propôs: lutar pelo
marginalizado, dando-lhes cidadania. E isto ele cumpriu literalmente, até mesmo
em detrimento de sua vida religiosa, razão do seu viver, e em prejuízo da sua
própria saúde, pois tornou-se um homem sem horário para nada absolutamente, nem
mesmo para suas parcas e modestas refeições e até para dormir. Jamais deixou de
receber alguém, desde o graduado até o mais humilde, todos para ele eram
iguais. E é nesse detalhe que reside a nobreza desse homem inesquecível,
tornado num monumento de grandeza. Exaustiva foi mesmo sua maratona em prol do
seu povo, que apesar de ser um homem de boa saúde, terminou por comprometê-la,
vindo a se submeter a intervenções cirúrgicas aí mesmo, no seu Juazeiro. Sem
esquecer das hemoptises que lhe vieram, provocadas pelos dissabores que o clero
lhe infligia, estas de tal ordem, que é difícil se precisar como pode reagir e chegar à veneranda idade de
noventa anos e seis meses.
Pondo por terra o pensamento
iníquo dos seus eternos detratores gratuitos, três empreendimentos falam por si só, e que
devem ser aqui analisados. O primeiro grande esforço
dispendido por ele foi para a criação da Diocese do Cariri, que sonhava vê-la sediada no
Juazeiro,
com a instalação de um Seminário para a educação dos jovens, isto no
distante ano de 1898, quando da sua estada em Roma. Os dois outros, a criação
do Orfanato Jesus Maria José, já comentado, hoje transformado em dispensário e abrigo para velhos,
que esteve algum tempo sob a égide da Diocese do Crato, dirigida pelas Filhas
de Santa Tereza. O terceiro, a fundação da Associação dos Empregados do
Comércio em 1926, com a precípua finalidade da educação dos empregados e de
seus descendentes. Um grande avanço para a época.
Por último, deixou todo o seu
patrimônio para a Ordem dos Salesianos, para que lá fundassem um Colégio, com a
finalidade de que todos estudassem. Impossível imaginar-se como homens de
letras e da imprensa ignorassem fatos dessa ordem. Mas a verdade é que, na
proporção em que era tão endeusado, tão amado, tão idolatrado, também era
criticado. Volto a falar da sua candidatura a deputado federal. Dela não arredou pé e,
sem competidor, foi eleito. Não assumindo porém a cadeira, terminou
por perdê-la. Seria mesmo o Padre Cícero um indecifrável, uma personalidade
complexa? Lourenço Filho, analisando-o, assim o define: “Vê-lo
e ouvi-lo é uma aula de indagações; difícil é captar-lhe o pensamento e o que
realmente deseja”. E incisivo e contundente, acrescenta: megalômano, por se achar amigo
de Reis e Imperadores, dizendo ter concorrido para o término da Segunda Grande
Guerra, por ter enviado ao Czar da Rússia e ao Imperador da Áustria-Hungria,
Francisco José, telegramas em prol da pacificação do mundo. E conclui dizendo: “olhando-se no seu
rosto anguloso, de fartas orelhas, vê-se que, por trás do seu sorriso
enigmático, esconde-se uma personalidade oculta, firme e indecifrável”.
Por discordar de uma proposta de reforma do ensino elementar e da sugestão da criação
de um Grupo Escolar no Juazeiro, deu motivo a que o professor Lourenço se sentisse
subestimado, indignado com a decepção de ter sido contrariado na sua
proposta. Como titular da Secretaria de Educação e Saúde do Ceará, não teve dúvida,
partiu para o ataque e, contundente, desenhou uma imagem do Padre Cícero de tosco
e prepotente.
No seu livro, O Juazeiro do Padre Cícero, traçou um
abominável perfil do Juazeiro, comparando a um antro, feira, oficina e hospício
enorme. O Padre Cícero, ele o chama de megalômano, interesseiro, figura
desconexa, enigmático, que ocultava atrás de si uma personalidade
controvertida, portador de uma vaidade exagerada, sempre citando os
telegramas aqui referidos. O livro teve grande receptividade, mormente no meio
intelectual, e foi reeditado três vezes. Para o grande
filósofo Nietzsche, as grandes personalidades são mesmo assim: insondáveis,
difíceis, incompreensíveis, enigmáticas, relembrando Alcibíades, César, o
Grande,
e Da Vinci. Segundo o grande filósofo, homens predestinados a vencer, a
seduzir, a não serem esquecidos (Além do
Bem e do Mal). O Padre Cícero foi um desses, por
seu humanismo, por sua bondade, pelo incomparável azul do seu olhar profundo
que a todos fascinava, e até nos pequenos discursos que fazia para a massa, que
o ouvia num comovente e respeitoso silêncio.
Efetivamente, com a morte do Dr.
Floro,
seu ocaso político é um fato incontestável, ele definha politicamente, mas
sempre atento à situação do País. Patriota exacerbado, tomou partido contra
a venda ilegal de terras no Pará, adquiridas pelo americano Henry Ford, e
recorre contra o esbulho numa carta emocionada para a Câmara e Senado, pedindo
providências. A carta enviada ao Senador Epitácio Pessoa define
tudo que sentia, por ver nosso patrimônio entregue de bandeja a Ford Motor
Company -
uma vastíssima extensão de terras feitas pelo Governador Dionísio Bentes, e o
Prefeito da Capital, Crespo de Castro, uma dilapidação do patrimônio
brasileiro, que ele não admitia.
Só e corajosamente, levantou-se, denunciando a
transação escandalosa do Governador do Pará. A transação da venda ilegal se deu
nos seguintes termos: Henry Ford obteve do Governador
Dionísio Bentes e do Prefeito de Belém a concessão de um milhão de hectares,
simplesmente comprometendo-se com o seguinte plano: nos dois primeiros anos,
plantaria 400 seringueiras; no terceiro ano, outras 400, e mais 400, no quarto
ano. Aí a transação do jogo altamente espúrio do Yankee e dos brasileiros
paraenses, que tudo lhes facultou em troca de tão pouco. A negociata
escandalosa previa o seguinte acordo: isenção de impostos ao Estado e ao
Município do Pará por espaço de 50 anos, ficando ainda o americano com o
direito exclusivo da navegação em todo o Tapajós e Amazonas, além de utilizar
as quedas d’água, construir estradas de ferro, telégrafo, rádio-emissoras,
instalar bancos e fábricas, formar sua própria polícia e desapropriar terras
vizinhas. Uma imoralidade, devastação do patrimônio nacional.
A reação dos poderes constituídos
ao ato generoso do Governo do Pará foi quase nenhuma. Senado e Câmara
praticamente omitiram-se, norma vigente da política brasileira, até hoje.
Poucos os que se levantam contra a entrega do patrimônio público. Os escândalos
mais ou menos desse porte já se tornaram rotina em todos os setores da
sociedade. Os que o praticam, ficam isentos de responderem judicialmente, é fato concreto,
enquanto a população pobre, que é maioria, se sente prejudicada
e sofre as consequências do escândalo, quando tudo lhes é negado, saúde, educação e
segurança,
principalmente, quando devia ser prioridade em qualquer governo. Os escândalos
financeiros vêm em série, tantos que listá-los é dispensável. Para que? Virou
nesse ano de 2006 uma epidemia. É só olhar os jornais e lá estão eles, como
manchetes de primeira página. A indignação do Padre Cícero em 1918 pela terras
retalhadas lá no Pará, dadas de presente aos Yankes, passou à história. E rememorar
é um dever,
para que não se apague da memória o que impera há muitos anos.
A transação das terras do Pará
feitas pelo governo paraense foi a seguinte. O Governador Dionísio
Bentes recebeu a importância de 600 contos de réis, e o Prefeito Crespo de
Castro, 150 contos, pelo presente ao yankee do patrimônio nacional, entregue em
bandeja de prata. A única voz a se levantar de fato contra o esbulho foi a do
Padre Cícero, num grito de rebeldia e tristeza, arrebatando corações e
despertando encanto e lágrimas, como o telegrafista Pedro
Gondim, que chorou copiosamente ao transmitir o telegrama do Padre Cícero para
o Senador Epitácio Pessoa, comenta Edmar Morel (op. cit.), de quem extraí essas notas.
Já não mais tendo o seu
representante, porta-voz do seu pensar na política brasileira, nacionalista
ferrenho, que sempre deplorou a partilha entre os estrangeiros. Floro
Bartolomeu teria erguido seu verbo altissonante em defesa do patrimônio
nacional dilapidado, esfrangalhado pela falta de moralidade ética e política
que até hoje continua. Estes são os verdadeiros inimigos da Nação, pois só uma
preocupação os assiste: o seu próprio Eu. As exceções são raras. O Padre
Cícero, ferido no seu patriotismo, levantou-se só e corajosamente, na expressão
do mesmo Morel. E nacionalista sem ser um chauvenista, manifestou-se
contundente para as duas Casas do Congresso, através dessa carta:
“Posto que no declínio da existência, vencendo a última etapa que a
Providência aprouve limitar para os meus dias terrenos, sou levado, não só como
brasileiro, mas também como político que veio do Império para o regime
republicano, ao qual tenho servido sem desfalecimento, e ainda principalmente
como sacerdote católico que deseja uma pátria forte e unida, a protestar com
veemência contra a indébita concessão de terras brasileiras, sob capciosos
fundamentos, porém virtualmente lesivos aos interesses patrióticos,
constituindo um atentado criminoso à integridade territorial do nosso Brasil.
Ontem, era a cessão da grande faixa de terra à Bolívia, no Amazonas, território
incorporado ao País graças ao civismo do cearense e à alta visão diplomática de
Rio Branco; hoje, é a concessão de cem mil quilômetros quadrados, feita à
Companhia da Estrada de Ferro Norte-Mato Grosso a um sindicato americano, isto
com a aquiescência da nossa Chancelaria, e à revelia do Congresso Nacional. E
finalmente a vasta extensão ainda no Amazonas, de terras vendidas ao
capitalista americano Henrry Ford. Até aos japoneses se pretende vender ou
fazer concessões de terras brasileiras! Sangra-me o coração — pois nele ainda
sinto a chama do patriotismo, e comigo está a maioria dos brasileiros — ver o
plano inclinado a que estão arrastando o Brasil na vertigem da insânia.
Parafraseando Clemenceau, acho que o Brasil também tem filhos que não permitem
sejam postos em leilão e retalhem suas terras. Seria medida de alto alcance se
o Congresso Nacional, ainda este ano, votasse uma lei vedando concessões desta
natureza, porque fatores desta ordem, desagregando a nação, fomentam o espírito
de revolta, dando lugar à guerra civil, único meio, triste aliás, para
as grandes reivindicações. Salvemos a nossa cara terra, salvemos o nosso
Brasil!
Saudações
- Padre Cícero Romão Batista.
O telegrama e a carta tiveram
repercussão nas duas Casas do Congresso, e uma torrente de telegramas de apoio
chegou ao Juazeiro. Mas o malfeito estava selado. Diz ainda Morel (op.cit.) que o que mais o empolgava
nessa época era a luta de Sandino, o herói da Nicarágua, contra a política
imperialista dos Estados Unidos, e o mal que ela traria economicamente a toda
humanidade. Entretanto, hoje assistimos estarrecidos que nem a visão de
estadista de Sandino, nem as previsões pessimistas do Padre Cícero, numa explícita premonição,
foram suficientes para debelar o grande mal, e aí ele está em toda sua
plenitude, afligindo toda a humanidade. Sandino tornou-se para ele um
verdadeiro herói, e o estudo da sua personalidade passa a ser sua leitura predileta,
disse Morel (op.cit.). Revoltado com os
desmandos políticos no País, como esse do Pará, que despertava sua indignação,
patenteando-a através da imprensa, com artigos que mandava publicar na imprensa
do Crato e no jornal O Nordeste,
de Fortaleza. Sua revolta não tem limites. Preocupava-o também a infiltração
comunista na massa trabalhadora e reprovava. A confissão comunista de Luís
Carlos Prestes é guardada, sem nenhum comentário, mantendo vivo o interesse
pela encíclica Rerum Novarum, do
grande Leão XIII, considerado por ele o luminar da Igreja dos últimos séculos.
Sobre ela faz comentários públicos, e através do jornal O Nordeste manda republicá-la. Duzentos recortes de todos os
jornais do País, foi o encontrado por Edmar Morel (op.cit.) no seu álbum
particular. A escandalosa concessão Ford, publicada pela imprensa, era assinalada à tinta vermelha.
Nesse mesmo ano de 1927, foi acometido de uma
enfermidade, um tumor na nuca, lhe valendo uma operação. Por exigir cuidados
especiais, os médicos do Cariri tomam precauções devidas, e convidam para
operá-lo o renomado cirurgião de Belo Horizonte, Dr. Licínio Santos. Cauteloso,
informado pelos médicos locais de que seria um desastre se o Padre Cícero
viesse a falecer durante a operação, dado o fanatismo do povo, o que na certa traria
consequências
desagradáveis, o médico então, através da imprensa do Crato, pela voz do jornal
Gazeta do Cariri, disse o que se
segue:
“Havia na residência do Padre
Cícero mais de 200 pessoas. Dirigi-me então a elas e expliquei-lhes que se o
Padre não fosse operado sua morte seria um fato inevitável, dado o adiantado da
enfermidade, ao passo que, tentando a operação, acreditava salvá-lo. Todos me ouviram em
silêncio, concordando inclusive ele, inteirado que estava de tudo”.
O cauteloso médico mineiramente
tomou mais uma precaução: a de informar o público postado em frente à sua casa. E da
sacada do sobrado usou das mesmas palavras que foram ditas à família, amigos e
auxiliares. Todos concordaram. “Parti para a operação, com a participação de
colegas do Cariri, convicto do sucesso”. Dois dias depois, através da imprensa,
Dr.
Licíinio Santos dava uma entrevista sobre a cirurgia, dizendo ter sido um
êxito. Mas houve um pormenor, que reflete o estado de
incerteza e tristeza em que vivia o Padre Cícero com o desaparecimento do Dr. Floro. O pormenor
foi confidenciado pelo médico aos seus colegas do Cariri. Segundo ele, “o Padre Cícero, já de todo
recuperado e denotando satisfação pelo êxito da operação, perguntou-me: quanto
lhe devo? Ao que lhe respondi: nada. Ele então com um olhar
grave e circunspecto disse: — Vou fazê-lo deputado
federal, em substituição ao Dr. Floro”. Nesse pequeno detalhe fica claro
que a miragem do poder o seduzia. Sua Era de Ouro havia passado, nessa proposta
fica expressa a desilusão que dele tomava conta. Tinha pressa para
substituir o Dr. Floro, quando via o seu Juazeiro amargar o ocaso político em
escala nacional e local, com o
lançamento da candidatura a prefeito do seu maior antagonista, o já citado
Major João Bezerra. Entretanto, ele ainda reage, e faz do Coronel Alfeu Aboim
seu candidato, eleito com expressiva maioria.
A essa época, era Juiz de Direito
do Juazeiro o Dr. Joaquim Juvêncio Santana, seu afilhado de crisma, no qual ele
encontraria alento, cuja amizade continuou até seus últimos dias, pois o mesmo
passou a residir em casa colada à sua, para melhor lhe dar assistência, oferecendo-lhe o apoio de que
necessitava já no último quartel de sua vida, comenta Amália Xavier (op. cit.). Efetivamente, o Dr. Juvêncio seria
definitivamente uma espécie de substituto do homem-forte Floro Bartolomeu,
embora não tivesse a força de suas ações, nem seu poder de articulação e
liderança. Era sim, um homem inteligente, educado e cordial, o homem da
etiqueta e do requinte palaciano, mas no plano da determinação política e da eloquência não se
parecia em nada com o seu antecessor. Mesmo assim, consegue manter o Juazeiro
em evidência no cenário estadual, e o Padre Cícero faz dele Secretário de
Interior e Justiça, posição-chave no Governo. Vale aqui lembrar que
em 1929 saiu candidato a Deputado Federal, não tendo conseguido se eleger, o
que realmente confirma o declínio político do Padre Cícero em esfera nacional,
embora depois Juvêncio fosse eleito Deputado Estadual.
****
CAPÍTULO 22
ÚLTIMOS PASSOS DO PADRE CICERO NA POLÍTICA BRASILEIRA
E SEU MANIFESTO AOS NORDESTINOS
Antes de falar sobre sua
Proclamação, um breve comentário para uma nota do clero do Crato, pelo exotismo e pelo
intempestivo, cuja nota partiu da Secretaria do bispado, no jornal Gazeta do
Cariri, contestando uma nota anterior do mesmo jornal. Mesquinha e incoerente, é no mínimo
imponderável. Mas como era praxe do clero polemizar tudo que se referisse ao
Padre Cícero, sublinho para que se tenha uma ideia do que realmente foi a
grande pressão sobre ele.
Naquele ano de 1929 chegou à cidade do Crato o
Exmº Primaz da Bahia, Dom Augusto Álvaro da Silva, acompanhado do Arcebispo de
Fortaleza, Dom Manoel Lopes, e de grande comitiva, constituída de padres e monsenhores.
A visita, que não era de caráter religioso, segundo a mesma Diocese, mas
sentimental, porque exclusivamente dedicada ao venerando Monsenhor Sóter de
Alencar, grande amigo do primaz, quando Dom Augusto foi Bispo de Floresta (PE). A nota do jornal na qual destaca-se a ilustre visita é a
seguinte:
“Partindo de Fortaleza em trem
antes de chegar ao Crato, o vagão especial que conduzia o Exmo Cardeal passou pelo Juazeiro, e lá na Estação estava
aguardando-o o Padre Cícero, que foi cumprimentado efusivamente por ele, e pela comitiva que o
acompanhava. Um defeito na locomotiva fez um atraso de meia hora, enquanto
cordialmente o Padre Cícero palestrava com o Primaz e sua Comitiva, numa troca
de gentilezas. Dom Augusto, que não conhecia o Cariri, encantou-se com a região, e teve do
Juazeiro, apesar dos poucos instantes que lá demorara, boa impressão, tão boa,
que no dia seguinte voltaria para melhor conhecer a Meca Caririense, quando foi
recepcionado pelo Padre Cícero”.
Essas poucas linhas foram
suficientes
para que o Secretário do bispado, Monsenhor Francisco de Assis
Feitosa, reagisse à nota, numa reação de extrema direita, num tom de desprezo
e hostilidade ao Padre Cícero, quando nega veementemente que o Cardeal o tenha visitado, e
muito menos tenha sido por ele recepcionado em sua residência. Eis o que disse
o Secretário do bispado sobre a controvertida visita do Cardeal ao Juazeiro:
“Quanto à excursão ao
Juazeiro, Suas Excias foram tão-somente visitar a Meca Caririense, sem se
preocupar com o Patriarca. Tanto assim, que nem foram à casa dele. O Padre Cícero
acompanhou-os até aqui em caráter particular, e aqui chegando não houve longa
conferência sobre a volta do velho sacerdote ao grêmio Católico-Romano. Eis o
que há de real nesse episódio. Quanto à atitude do povo em todo o percurso
dessa visita, o que sobre ela se disser além, é boato, é falso, é mentira. Que
Suas Excias viessem até aqui tratar do caso do Juazeiro e seu condutor, ainda
se compreende. Mas ir até lá, em visita ao Padre Cícero, é o que está fora de
toda compreensão, sendo ele como é um insubordinado, um insubmisso, um
recalcitrante. Isso ainda importaria em um quase rebaixamento de autoridade, a
que não estão sujeitos os chefes da Igreja, sob pena de caírem de sua
dignidade.”
A nota de cunho fascista mostra em toda
plenitude os cristais do clero, e define sua mentalidade, numa prova
irrefutável de que jamais levantaram uma palha pela volta do Padre Cícero ao
seio da Igreja. A essa nota ele não responde, o silêncio tornou-se uma
constante em toda sua vida, vale dizer por 50 anos batidos. E assim foi a
história religiosa do Juazeiro, correndo em simetria, quando tudo parecia ter
chegado ao fim, novamente tudo recomeçava, numa construção ciclíca, como se fosse uma
sinfonia. O clero parecia não mais discernir entre a mentira e a verdade, entre
o bem e o mal. Já denotando sinais de cansaço físico, ainda dá uma demonstração
de amor ao nordestino, impulsionado pelo seu bem-estar, e lança um Manifesto em
apoio político à candidatura para a Presidência da República do Dr. Júlio
Prestes-Vital Soares Brasil.
A Proclamação, que tem a data de 7
de Setembro de 1929, assinala seu último ato político em escala nacional,
quando alertava o povo nordestino a apoiar o candidato oficial Júlio Prestes,
que dizia ser o continuador do Presidente Washington Luís, pelas obras que este
fizera no Nordeste, na construção de estradas de rodagem e ferrovias, de
significativa melhoria na vida do povo tão sofrido. Imbuído de fervor e
idealismo,
escreveu seu manifesto, amplamente difundido em todo o Nordeste. Transcrevo
ipsis-literis o que disse:
“Atendendo aos superiores
interesses do Brasil e de acordo com a orientação do meu eminente amigo
Presidente Matos Peixoto, resolvi dar inteiro apoio à candidatura dos preclaros
estadistas Doutor Júlio Prestes-Vital Soares. O nome do ilustre Dr. Júlio Prestes é não só uma
garantia da continuação do Governo fecundo e de paz do benemérito Washington
Luís, como também merece a simpatia de todos que o conhecem, e o que tem sido a
ação administrativa do Presidente de São Paulo, que sempre afirmou serem as
obras do Nordeste um problema nacional.
Como patriota, tenho sempre me batido pela
liberdade constitucional do voto, que reputo um direito de todo cidadão. Meus
amigos têm o dever
de me acompanhar nessa minha atitude de verdadeiro cidadão, e espero que todos o farão. Recomendo portanto, a todos os
meus amigos, os nomes
dos meus candidatos, Doutores Júlio Prestes-Vital Soares Brasil.”
A campanha tem início, começando
no Ceará pelo Juazeiro. O Presidente Matos Peixoto (aliás, eminente jurista),
com grande comitiva de jornalistas, cinegrafistas, deputados, secretários de
Estado, prefeito da capital, segue para o Juazeiro, em trem especial. Era a terceira vez
que o Padre Cícero anfitrionava Chefe de Estado.
Discursos no melhor estilo, ruas engalanadas saudando o Presidente, com faixas
de apoio à candidatura paulista, banda de música, tudo
fazia lembrar a Era Floro. E em meio a tantas festas, o tradicional banquete,
regado à champagne, para duzentos convidados. Entre o tilintar de finos copos e
talheres, o primoroso e requintado ágape, sob o crivo da famosa beata Mocinha.
O Padre Cícero faz a saudação à ilustre comitiva, quando, num tom queixoso e
comovido,
disse:
“Muito nos alegra e conforta a
honrosa visita de V. Excia. Alegra, porque V. Excia. observará pessoalmente que
o Juazeiro não é o que se diz lá fora — um antro de banditismo, ou coisa
semelhante — e sim um núcleo de população ordeira e trabalhadora. Conforta
porque, pondo à margem os comentários desautorizados dos impenitentes inimigos
desta terra, V. Excia. dá o eloquente testemunho de que lhe merecemos
alguma consideração. Assim é que V. Excia., dando destacado relevo ao nosso
Estado, tomou a dianteira na escolha do candidato à sucessão presidencial da
República, e o seu clarividente descortino, nessa momentosa questão, está
comprovado inquestionavelmente, com a adesão que mereceu o candidato de sua
preferência, o eminente Dr. Júlio Prestes, de maioria absoluta da Nação”.
Seu discurso
sensibilizou o historiador e poeta Leonardo Mota, que, encantado, teceu ao
Padre Cícero os mais honrosos elogios. Apesar do avanço da candidatura oficial,
a todo vapor movimentava-se também no Ceará a já fundada Aliança Liberal, a
cargo do jornalista Raimundo do Monte Arrais, com a colaboração do Dr. César
Cals, Joaquim Pimenta, Dr. José de Borba Vasconcelos, Carvalho Lima, Coronel
Alfeu Aboim e Venefrido Arrais, estes dois últimos com base no Juazeiro. O
fato criou um atrito. A Câmara municipal do Juazeiro exigiu que o prefeito Alfeu
Aboim renunciasse ao cargo, eleito como vimos sob os auspícios do Padre Cícero.
Para o povo, o prefeito era um traidor, por ter aderido à Aliança Liberal, e
partem para a execração pública, difamando-o e vaiando-o em praça pública. Segundo
alguns remanescentes daquela época, informação passada a autora no ano de l977,
a administração Alfeu Aboim foi uma das mais profícuas do Juazeiro.
O candidato Júlio Prestes vence
as eleições de 1º de março de 1930, com expressiva maioria, embora contestado
pela oposição, que dizia ter sido o maior blefe que o País assistira, porque
usaram dos mesmos métodos do passado: atas falsas, coação e suborno. A
essa altura, o País estava praticamente conflagrado. Minas, rompida com
São Paulo, por ter sido preterido o candidato mineiro, Antônio Carlos de
Andrada, à
sucessão presidencial. Partiam-se aí os laços políticos dos dois estados que
dominavam há 35 anos, num acordo indecente entre mineiros e paulistas,
daí o slogan de “Café com Leite”. Rompido o acordo, nasceu a Aliança
Liberal, que contava com o apoio do Rio Grande do Sul, de parte de Minas
Gerais, do Ceará, e da pequena Paraíba, pela voz do seu Presidente, Dr. João
Pessoa, assassinado na mesma época, não por motivo político, convém aqui
registrar.
Com o repúdio à candidatura mineira
de Antônio Carlos de Andrada, muitos pensaram estar sepultada a hegemonia de
poder dos dois estados, mas não foi bem assim. Os fatos presentes estão aí a provar,
mineiros e paulistas se revezando na Presidência da Nação.
Seria ingenuidade pensar-se que a política café com leite tivesse
sido sepultada. Puro engano, ela continua tão ativa como no
passado, apenas um tênue véu a disfarça, aliás, como tudo em Minas. A última
eleição presidencial de 2002, que teve Lula como candidato, mostra que nada
mudou. Além de ser escolhido por São Paulo onde reside há 50 anos, e ser o
candidato do PT, seu partido de origem e originário de São Paulo, foi
apoiado pelo empresariado moderno, alguns hoje elevados ao cargo de Ministro.
Mas o detalhe mais importante dessa eleição está em que Minas, como no passado,
mostrou toda sua força, força que já vem desde o Império, quando concorria com
alta soma de dinheiro, é fato verossímil. Nesse ano de 2002, o velho
acordo dos velhos tempos da velha República, saiu de lá o Vice de Lula, um nome
desconhecido da maioria dos brasileiros, José Gomes Alencar, cuja candidatura
teve o beneplácito apoio do Governador em exercício, Itamar Franco.
Portanto,
nada mudou com relação à política do passado, não houve evolução.
O prejuízo que a política café
com leite deu ao Nordeste foi imenso, quando as prioridades foram deixadas de
lado, como no caso das secas, que durante esse longo período não foi construído
nenhum açude, exceto alguns já em andamento. É bom acentuar aqui que
o assistencialismo popular de todos os tempos, e que até hoje continua com a enganação do Cartão
Bolsa Família, é apenas um antídoto, o que o nordestino reivindica é a
irrigação para salvar a população ante o flagelo da falta dágua, para evitar o
êxodo. Vivendo na esperança de que o projeto quimérico da transposição do rio São Francisco se
realize. Um projeto já vindo desde o Império, vez por outra vai parar na
Imprensa, dando a entender que está em curso a prossecussão de sua
transposição. Depois tudo volta ao esquecimento, e o sofrimento do nordestino
continua pelos tempos afora. Pergunta-se, até quando?
No momento atual, ano de 2005-2006, forças políticas
poderosas do Nordeste levantaram-se contra o projeto da transposição, caso que
registro,
porque impressionante. O porta-voz da reivindicação dos contrários à transposição, um bispo. Pensando
talvez comover o Presidente Lula com uma greve de fome. É de pasmar! Choca e
entristece a posição desses políticos carreiristas. Esquecem, ao que parece, das longas estiagens
com a
falta dágua e o terremoto das secas que tudo devasta, dando lugar ao êxodo, quando seguem em
direção aos grandes centros, inchando as grandes cidades e lhes
trazendo penosos sofrimentos. Mas falava da política mineira. A ela volto, para confirmar
que a aliança política que causou danos, e que até hoje continua entre os dois
estados, é a verdade suprema. Um fato curioso me chamou a atenção nos doze anos
em que vivi
A filosofia tornada em ideologia,
ou teologia? A do mineiro ser ímpar na arte de fazer política, um virtuoso por
assim dizer, deixando transparecer segurança, superioridade e pose.
Fato visceralmente sedimentado na alma do seu povo. Esta presunção deve ter
nascido do orgulho da Inconfidência Mineira, movimento de caráter estritamente
ouro-pretano e ao circuito das cidades históricas, não conseguindo ultrapassar
limites além das suas montanhas. Apesar do nobre escritor Valdemar Barbosa, com o qual muito
conversei a esse respeito, assegurar, na sua História de Minas, o contrário, ou seja, que o movimento de Ouro Preto
teve apoio de outras Províncias, jamais encontrei algo
do que disse o escritor. O que estava em jogo ali não era um projeto nacional,
mas sim a Província de Minas Gerais. Desgostosos com a saída do ouro para a
Corte Portuguesa, e isso eles não mais aceitavam, levantaram-se no intuito de barrar, fazendo
proselitismo com o povo, que se sentia lesado.
Vejamos o que escreveu Antonio
Risério no seu magnífico livro Uma
História da Cidade da Bahia. Citando vários autores sobre o arremedo
da Inconfidência Mineira, o escritor diz: “A Inconfidência
Mineira foi um movimento elitista, onde o que estava em jogo era a sangria do
cofre mineiro, e não um projeto de Nação”. E cita vários estudiosos do
movimento com a mesma opinião. Lembra citando o Patriarca do
Movimento,
Tomaz Gonzaga, e também Claúdio Manoel da Costa, este como defensor
intransigente do expurgo radical, da limpeza de Quilombos em Minas
Gerais, para ele uma mancha. Já Gonzaga se coloca entre os que depositam índios
e negros no último escalão da humanidade. Gonzaga não só aceitava a
escravidão
como coisa natural, mas também as desumanas punições corporais. Quanto à Tiradentes, escreve o autor: “sentindo o cerco se
fechar,
resolveu fugir, depois da prisão do seu escravo, um mulato, que
ele acabara de vender, ficando tranquilo como se nada tivesse
acontecido”.
Ainda o citado escritor: “Não se encontra no acervo documental referente à Conjura o mais
leve indício de que ele reprovasse a escravidão. Tiradentes mercadejara um
homem, e tinha a consciência tranquila” (op.cit.).
A propósito de Tiradentes, disse o escritor
Valdemar Barbosa: “Tiradentes era o único pobre em meio à elite dos inconfidentes.
Quase nada possuía, senão um título de alferes, e exercia
a função de arranca-dente. Daí o apelido de Tiradentes”. Ingênuo, tudo leva a crer,
sacrificou-se no lugar dos demais. Foi enforcado e decapitado na cidade do Rio
de Janeiro,
tendo grande visibilidade. Por isso foi transformado em
símbolo nacional. Que o mineiro é na verdade cioso do seu saber político, é fato incontestável
e conhecido do mundo político. Eles são tão ciosos desse pormenor que nem
disfarçam, e isto a autora presenciou in-loco, como simples e obscura
observadora dos costumes e rituais da terra, por longos doze anos. Lá não
existe intriga violenta com mortes por ocasião da campanha política, é um fato. A notícia
que se tem de rixas gravíssimas, violência com perda de poder, e até mortes,
foi na antiga Barbacena, entre os Andradas e os Bias Fortes. Hoje, parece que tudo
amainou. Antes das eleições, eles divergem, passada a eleição
ou mesmo nos últimos intantes que a antecede, eles fazem o chamado acordo da
coalizão, e nisto são impecáveis. Eis aí a boa receita para a paz política.
Nesse pormenor, é inegável dizer-se que eles diferem do
resto do país, e seu símbolo maior foi o ex-Presidente Tancredo Neves,
falecido poucas horas antes de assumir a Presidência da República, quando passou
efetivamente à História, chamado também com justiça de O Homem da Conciliação,
e também da Incógnita. Mais é impossível. O que existe de fato é que
são enigmáticos, insondáveis, difícil ao forasteiro
decifrá-los.
Retraídos, herméticos, cautelosos, de poucas palavras, não deixando vislumbrar
a ninguém o que lhe vai na alma. Gilberto Freire, ao analisá-los, escreveu: “o mineiro com seus
retraimentos, suas contradições, suas refrações, que lembram nichos e criptas
cavadas dentro de um homem, é um dos mistérios da psicologia
regional brasileira (Problemas
Brasileiros de Antropologia, pag. 87).
Retorno ao que vinha descrevendo
da política café com leite, período da história política do
Brasil que o marcou pela espúria aliança, quando o resto do País era marginalizado
pela força do latifúndio, ora na mão dos mineiros, ora na
dos cafeicultores de São Paulo, com reais prejuízos para o Nordeste, que se via
preterido nas suas reinvindicações mais urgentes, como a das secas, num
servilismo de dá pena, que durou 35 anos, e que resistiu até ser criada a
Aliança Liberal. Muitos anos antes, o Norte, como era chamada a
Bancada do Nordeste na Câmara, criou um bloco denominado “Bloco do Norte” para
que fossem ouvidos. Inútil. Tudo continuou como dantes, no quartel de Abrantes. Prevaleceu mesmo o
poder do latifúndio, e a “força da grana” paulista, na feliz expressão do
poeta-cantor Caetano Veloso, na sua antológica música “Sampa”. Porque ganha
eleição quem dispõe de dinheiro, fato incontestável.
Mas como tudo muda, mutatis mutandis, hoje temos um fenômeno
surgido em
fins da década
de
70-80, e que atualmente lidera o rank nacional, ocupando grande espaço na
política do país. São as chamadas Igrejas Evangélicas, destacando-se na vida
política,
em todos os seus
setores: Câmara, Senado, Assembleias Estaduais, Prefeituras,
Câmara de Vereadores. Elas atingiram um papel tão alto na política, que
impossível menosprezá-las. O fenômeno teve início em Minas Gerais, precisamente
na cidade
de Belo Horizonte, quando elegeram o Pastor Mário de Oliveira, da Igreja
Quadrangular, Deputado Federal, daí em diante só foi crescendo e hoje é uma
explosão de Evangélicos ocupando relevantes cargos no cenário nacional. Sem
nenhuma ideologia, o que os move é o poder para comandar o povo crente dos seus
milagres. Um fenômeno transformado em realidade. Aqui no Rio, o Governador Antony
Garotinho e sua Vice, Benedita da Silva (que já foi Ministra do atual Presidente
Lula no ano de 2003). Sucedeu-lhe sua mulher, Rosinha Mateus, na direção do
Estado, contando nessa falange evangélica, o Vice de Lula, José Alencar,
apoiado pelo Sr. Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de
Deus. Esse mesmo Vice Presidente da República fundou, juntamente com o
bispo Marcelo Crivela, da mesma Igreja Universal, um Partido Nacional, denominado
PRB,
fundado há
poucos meses, e assim caminhamos pelos tempos afora.
Retomo a história do candidato
Júlio Prestes. Eleito, foi em seguida contestado,
seguindo-se então a luta, já a essa altura com a adesão de Getúlio Vargas,
depois de muitas hesitações, diz o professor Hélgio Trindade,
em Perfis Parlamentares. É
lançada a
candidatura Vargas, que teve como companheiro de chapa o Presidente da
Paraíba, Dr. João Pessoa, com o apoio incondicional dos Tenentes, ou seja,
aqueles de 1926. Na época, a Paraíba vivia uma luta interna
sob o comando do caudilho José Pereira Lima, contra o Governo João Pessoa. José
Pereira Lima, arrogante e de motu-próprio, decreta sua cidade de
Princesa Isabel como Território Livre da Paraíba. A luta tomava proporções
gigantescas, agravando-se com o episódio do assassinato do Presidente
João Pessoa que, sem nenhuma conotação política, foi decisivo para o
agravamento da crise.
Numa tarde do Recife, enquanto
lanchava acompanhado do político pernambucano Dr. Agamenon de Godoy Magalhães na
Confeitaria Glória, um recanto aristocrático da capital pernambucana, de
repente ali irrompe, de arma em punho, o Dr. João Dantas,
apontando para o Presidente que, desarmado e surpreso, não esboçou nenhuma
reação. O tiro foi à queima roupa, uma execução. Tombava ali o ex-Ministro e
Presidente da Paraíba, João Pessoa, que passou à história como uma vítima da
política, quando a verdadeira causa do crime foi passional, como atestam
documentos da época, embora a imprensa tenha dado ao fato
conotação política, o que não procede.
Tem início então a revolução de
30, sob a chefia de Getúlio Vargas e do tenentismo. As forças do Exército
descem para a Paraíba, a fim de debelar o foco insurreto sob a inspiração do
caudilho José Pereira. Antes dos fatos se agravarem, o Padre Cícero tenta
intervir,
com um apelo pela paz, através de um telegrama a João Pessoa. Este, ao que tudo indica, interpretou que ele
lhe havia sugerido uma rendição ante o caudilho, quando o contrário. O Padre Cícero só
queria ver o conflito terminado e a paz voltar ao Estado. Escaldado com a
revolução de 13-14 no Juazeiro, ele se afligia diante da carnificina que tomou
conta da Paraíba. O Presidente João Pessoa,
esprimido pelas diatribes de José Pereira Lima, e diante do momento crítico
deu-lhe a seguinte resposta:
“Asseguro a Vossa Revma que o movimento
subversivo que hora infelicita o estado da Paraíba não partiu do Governo, mas
de elementos contrários à ordem, à paz, à quietude do Estado, no que tenho me
empenhado seriamente a fim de ver restabelecida a ordem no nosso Estado. Saudações. João Pessoa, Presidente da Paraíba”.
Com o desfecho do seu falecimento
de maneira trágica, o qual não estava associado à guerra na Paraíba, ao ser comunicado
da triste ocorrência, envia um telegrama de pêsames. As forças revolucionárias
já haviam chegado para sufocar o movimento instalado por José Pereira, que
antes tinha solicitado ajuda ao Padre Cícero, que lhe respondeu por telegrama, dizendo: “o meu povo não tomará armas nesta luta entre
irmãos”. O Major João Leal e o Tenente Juarez Távora, considerando-o um
conciliador, solicitam-lhe intermediar entre eles, tenentes, e o Presidente do
Ceará,
Matos Peixoto, para que este renunciasse ao governo, para evitar
derramamento de sangue, e o sacrifício do brioso Coronel Facó. Esse era o teor
do telegrama de Juarez Távora, como chefe do estado-maior das forças armadas na
Paraíba.
Mas o Presidente Peixoto, ignorando as advertências, permanece à frente do governo. Poucas horas depois,
outro telegrama chegava ao Juazeiro, insistindo que o Padre Cícero
demovesse o Presidente e o convencesse a afastar-se do governo, e
acrescentavam: “Caso o Presidente Peixoto não renuncie, invadiremos a
Capital para depô-lo, prendendo-o”.
As forças federais já ocupavam
toda a Paraíba e desciam para o Ceará, e aí o Padre Cícero vê com tristeza o
seu Juazeiro ser invadido por um contingente do Exército; e foi nessa ocasião, como já tão
enfatizado aqui, que o clero violou o túmulo de Maria de Araújo. Prevendo o
pior,
Matos Peixoto deixa o governo, não sem antes informar ao Padre Cícero, que
transmite a informação ao Tenente Juarez Távora, dizendo não ser mais necessário
sua intervençâo no caso. Com a fuga precipitada do Presidente Matos Peixoto,
encerrava-se definitivamente a ERA Padre
Cícero, politicamente
falando.
Assumindo o governo do Ceará, o
Senador Fernandes Távora, integrante da Aliança Liberal, comunica-lhe o fato
por telegrama, dizendo: “Assumi hoje a Presidência do Estado, espero contar com sua boa vontade
no sentido de inaugurar uma nova era de paz e de justiça no nosso querido
Ceará. Saudações, Fernandes Távora- Presidente do Estado.”
O contingente do Exército, que já estava
estacionado no Juazeiro, dá início à apreensão de armas
em toda a cidade, não escapando nem mesmo sua fábrica de descaroçar algodão,
que tinha Pelúsio Macedo como administrador, comenta Otacílio Anselmo, que fazia parte do
citado contingente. E complementa o escritor: “o Padre Cícero foi poupado de
maiores dissabores, como por exemplo, o da sua prisão, praxe que fazia parte do
novo esquema revolucionário — a prisão dos chefes oligárquicos. Muitos já tinham caído: os Dantas Barreto em Pernambuco,
os Maltas em Alagoas, os Nery no Pará”. Segundo ainda o mesmo escritor,
a prisão do Padre Cícero não se consumou porque o comando do Batalhão estava
sob as ordens do Tenente Ari Hugo Brígido Correia, um descendente direto do
jornalista João Brígido, que foi seu tutor quando
seminarista. O Tenente Ari Brígido Correia foi à sua casa com ordem de prendê-lo, mas o Padre Cícero terminou por reverter a
ação do oficial com o seu magnetismo pessoal, em longa e amistosa palestra, cujo tema era o
conhecimento genealógico da família do oficial, que o próprio ignorava.
Seduzido pelo seu carisma, e impressionado, o Tenente Ari desiste da prisão, conforme diz o
escritor, que anos depois em palestra com ele, quando já era General, disse-o
ter desistido daquela prisão, não por comiseração à sua idade bastante
avançada, mas pelo fascínio que ele lhe despertara, com sua pérformance
convincente e sedutora (Mito e Realidade, op.cit.) Fascinado, como ele mesmo
declarou, não cumpriu as ordens dos seus superiores.
Mas entre tantos casos, que podemos chamar
de transfiguração hipnótica, que transcendiam a ordem natural das coisas, houve
um,
entre dezenas, simplesmente impressionante, que o mesmo escritor acima citado
comenta no seu livro (op.cit.), deixado à posteridade pelo
escritor Paulo Elpídio de Menezes, da cidade do Crato, autor de O Crato do meu Tempo, dentre outros. O
escritor Paulo Elpídio, numa narrativa poética, descreve um momento vivido por
ele, da chegada de um contingente policial à fazenda do seu tio Aristides,
nos anos de 1899-1900, no auge da peregrinação para a chamada Meca Juazeirense.
Eis o seu relato:
“Encontrava-me na casa de fazenda do meu tio Aristides,
nas imediações da hoje cidade de Porteiras, próxima ao Juazeiro. Era por volta
das dez horas da manhã, estávamos sentados no alpendre da Casa Grande, conversando, quando de
repente, ouvimos trotes de animais e em seguida um som estridente de corneta
ecoou por toda várzea, quando avistamos um batalhão de homens descendo ladeira
abaixo. Um dos presentes falou: é tropa do governo. Meu tio não se alterou, apenas perguntou a um dos seus
serviçais: houve alguma coisa por aqui que eu não esteja sabendo? Resposta: não
senhor. Em segundos estava o pátio da casa coalhado de animais, com eles já
descendo das montarias. Eram de dez a doze soldados, tendo à sua frente o garboso oficial
Raimundo Guilherme, da PM do
Ceará, que demonstrando fidalguia cumprimenta a todos ali presentes. Ao
aproximar-se do velho Aristides, abraça-o afetuosamente. Meu tio convida-o a entrar para a sala de
visitas, onde já estava armada uma rede branca, de brancas varandas, que
chegavam a tocar o chão de lustrosos ladrilhos. (Era praxe dos proprietários
abastados, ao receber alguém em suas casas, oferecer-lhes uma rede para
descanso). Meu tio,
apontando-lhe a rede, perguntou-lhe: o que o trouxe a estas bandas com todo esse
contingente de policiais? Resposta: Aristides, estou aqui em missão oficial. Não falou quem o autorizou.
Estou passando para o Juazeiro para dar um ponto final naquela loucura, que já
ultrapassou os limites. O oficial tinha o movimento religioso do Juazeiro como
simplesmente um excesso de fanatismo que corroía todos, trazendo confusão, briga com o
clero e tudo mais. Portanto, era imprescindível terminar com tudo aquilo antes que fosse
tarde. Vi no rosto de meu tio uma expressão de desapontamento, de preocupação. Mas
nada disse. Em seguida fomos convidados a tomar assento à grande mesa, um farto almoço
com pratos diversos já estava servido. Após almoçarmos, voltamos à sala de visitas, quando tomamos assento nas cadeiras
de balanço e espriguiçadeiras para a sesta do meio-dia, complementada
pelo café”.
“O oficial toma assento na
branca rede e no balanço cadenciado dela, com o rebenque a tocar o
chão, volta ao assunto que o trazia àquelas bandas, ou melhor ao Juazeiro.
Chega a tarde, o jantar
foi servido, a conversa sempre girando em torno da sua missão. Às nove horas recolhemo-nos, não sem antes
ouvirmos a reza do
terço; era praxe à época
dos moradores de sítios e fazendas a reza do terço. Em seguida, nova mesa de coalhada, queijo coalho e café.
Deitamo-nos. Às cinco
horas da manhã fomos acordados pelo som estridente da corneta, anunciando a partida.
Lá se vai Raimundo Guilherme e seus comandados rumo ao Juazeiro. A preocupação
de meu tio Aristides era visível, e chegou a dizer: meu Deus, o que irá ali acontecer?
Religioso,
implorava a proteção divina. Passados sete dias exatamente, lá estava de volta
o oficial e seu comboio de soldados. Adentrando a sala, vai abraçando meu tio. Abalado com o que
presenciara, estas
foram suas palavras, as quais nunca esqueci: — Aristides, aquilo ali é mesmo um
Milagre. Corria a notícia de que o oficial havia se convertido, depois de ter sido ouvido em
confissão pelo Padre Cícero.”
O que dizer de tudo isso?
Estudando o Padre Cícero durante 20 anos, a conclusão é a de que ele realmente
possuía uma força estranha, superior, que muitos tinham como
hipnótica. Para o escritor Aldenor Benevides, o Padre Cícero era clarividente e intuitivo,
tinha visão hiperfísica. Tinha a chamada vidência do
tempo,
aquela em que o vidente vê cenas representando fatos por ocorrer ou já
ocorridos em outros tempos. O fato é que ele foi realmente uma incógnita, conforme
disse Azarias Sobreira (op.cit.).
Volto à Revolução ou eleição
de Júlio Prestes. O Presidente Whashington Luís insiste pela posse do
Presidente eleito Júlio Prestes, e nisso acreditou o Padre Cícero. Convicto da
sua lealdade ao candidato eleito, envia-lhe uma longa carta. Em tom de pesar, diz ao Presidente
eleito que fora traído, com referência à candidatura para deputado federal do Dr. Juvêncio Santana.
Dando conta dos seus serviços prestados à Nação, ele evoca o recém passado
pleito, cientificando-o de o Ceará ter sufragado seu nome, quando o Cariri
deu-lhe a expressiva votação de 3.275 votos.
Reiterando seu apoio ao Catete,
pedia-lhe não esquecer o Nordeste, pois o seu único objetivo em vida eram as
populações pobres desse pedaço de chão esquecido, que o viam como um protetor
incansável, sem desfalecimentos. “Daí colocarem-se sempre ao meu
lado, em todos os momentos, em quaisquer circunstâncias”. E
fazia uma observação: lembrando que sempre tivera um representante dos seus
interesses na Câmara Federal, quando evocava o falecido Floro, hoje substituído
pelo seu afihado Juvêncio Santana, que apresentado a deputado federal, fora
preterido por injunções políticas, às quais havia cedido para evitar
desgastes na política do Estado, num sentimento de concórdia, de coerência à
causa nacional pela qual sempre havia batalhado. Dizia ainda ter suportado esse
golpe que muito o havia magoado e pedia, caso assumisse de fato a Presidência,
atendesse ao seu pedido, dando-lhe um lugar de destaque no cenário da política
nacional.
Segundo Edmar Morel (op. cit.), de quem extraí este texto,
essa carta não teve resposta e marcou de fato o ocaso político do Padre Cícero.
Era mesmo o fim de uma Era. Reduzido ao ostracismo político e religioso, ele
era apenas uma sombra do que fora no passado. Entretanto, uma coisa ainda
persiste: a adoração de milhares de romeiros que continuavam a visitá-lo
ininterruptamente. Apesar do enfado que o cercava, ele mantém sua
correspondência em dia, quando lá chegavam diariamente centenas de cartas, de todos os
quadrantes do Nordeste. Nenhuma ficava sem resposta. A todas respondia, passando esperanças,
dando consolo a quem precisava. Ingênuas, podiam ser classificadas de
terra-a-terra. Era o grito dos desesperados, dos abandonados, que tinham nele
um protetor zeloso, um pai sempre solícito a lhes defender, um raio de sol a
iluminar suas vidas. Por isso a definição de Gustavo Barroso atrás citada, de
que ele foi o maior centralizador de energia em todo o hinterland
brasileiro. E o primeiro ex-reitor da Universidade
do Ceará, Martins Filho, complementa: “O Padre Cícero foi na realidade
o Consolador das gentes abandonadas dos sertões que sempre tiveram fome e sede
de justiça” (O Ceará, p. 306. 2ª
Edição, 1945). Amava os pássaros, e a natureza foi por ele defendida;
não consentia que machados cruéis a devastassem. Evocando novamente o Caldeirão
(Crato), ordenou ao beato José Lourenço que ao chegar ali preservasse por todos
os meios uma grande árvore, que segundo a história teria servido de abrigo para
os dois Jesuítas que lá viveram e morreram, fugidos da perseguição pombalina,
no ano de 1759 em Portugal. Que assinalasse o local com uma cruz, para que as
gerações vindouras deles não os esquecessem. A ordem foi cumprida literalmente.
O cantarolar dos pássaros trazia
paz ao seu espírito, perturbado por aflições enormes; ouvi-los, uma das
suas predileções, lembra o escritor Azarias Sobreira (op.cit.) Possuía-os bastante, presenteavam-nos seus romeiros de
Alagoas e Pernambuco, em gaiolas, verdadeiras obras-primas da rica fauna
de que dispõe o Nordeste, numa mistura de linhagem e canto, em verdadeira
sinfonia, enchendo a casa com seus trinados, enfileirados em ricas gaiolas
que corriam paralelo em toda a extensão dos alpendres da
sua última residência à Rua São José (informações
transmitidas a mim no ano de 1975). O Dr. Irineu Pinheiro, que o acompanhou por
anos a fio, assegura: ele era de alta sensibilidade, um sentimental, na
mais alta expressão do termo, e ilustrando o que dizia, dá à estampa o seguinte
episódio:
“Um dia cheguei de surpresa à sua casa e o encontrei num
grande estado de depressão, mergulhado numa infinita contrariedade. Procurei saber a causa para tamanha
tristeza. Os de casa me informaram que ele tinha repreendido severamente uma
das suas afilhadas, que lá moravam. Certo de que a tinha magoado, estava
inconsolável, e denotava um profundo arrependimento. Procurei dissuadi-lo dessa
interpretação, retirando-o desse estado de contrariedade e culpa em que se
dizia encontrar. Ao seu lado também estava o seu afilhado, Dr. Juvêncio Santana, que
procurava consolá-lo,
dizendo que, ‘como
condutor de um povo, a ele competia castigar ou premiar’”. E encerra o médico, dizendo: “ali me deixei ficar pelo resto
da tarde, até vê-lo aliviado”.
Tão ingênua quanto as cartas que
recebia era a sua farmacopéia, mais conhecida por “mezinhas do Padre
Cícero”,
verdadeiros antídotos para seus adeptos, com históricos de cura para
determinados males, e que se constituía de chás de canela do mato, folhas
de abacate
para os rins, de laranja para acalmar, de casca de umburana para sarar inflamações
e curar gripes, de jatobá para anemia, folhas de jalapa, óleo de rícino como purgante
para crianças com vermes, etc., etc. Era, ao que tudo indica,
um discípulo de Thomaz Crochrane, o divulgador da fitoterapia
entre nós.
Efetivamente, seu poder de decisão
vai declinando em definitivo, e assim chegaria ao ano de 1932, exaurido
fisicamente e atormentado por uma catarata que já o vinha fazendo sofrer há tempos. Nesse ano,
ele perde uma das suas grandes amizades: morreu o Conde Adolfo, seu
compadre, casado com Maria Custódia, filha adotiva da beata Mocinha. Moça de
bem, criada nos moldes cicerianos, educada e bondosa, diz Amália Xavier (op. cit.). Conde Adolfo deixou
descendência, até hoje existente. O engenheiro de Minas que chegou ao Juazeiro
no ano de 1908, acompanhado do Dr. Floro, dele muito se diferenciava.
Apolítico, preferiu ficar à testa dos seus negócios e também dos do Padre
Cícero, administrando seus bens. Cidadão pacato, finamente educado e cordato,
dizem os que com ele privaram, atestando por essa forma a sua tão apregoada
linhagem de nobreza. Foi sepultado no cemitério da Igreja do Socorro, no jazigo
do místico José Marrocos, numa deferência especial do Padre Cícero ao seu nobre
amigo francês, Conde Adolfo van den Brulle.
E assim paulatinamente iam
desaparecendo aqueles homens de outrora, que o ajudaram na construção de um
lugar, de uma história: Monsenhor Monteiro, Coronel Secundo, José Maria Lobo,
Pedro Lobo, Padre Joaquim Sóter de Alencar, José Marrocos, Floro Bartolomeu, e
tantos outros. A morte, essa ingrata e
traiçoeira, ia chegando, e de mansinho levava um a um, seus mais fiéis e
dedicados amigos, deixando-lhe apenas a lembrança de uma Era, a princípio de
calmaria religiosa, daquela religiosidade bucólica de paz, de fraternidade, mas
que dentro em pouco transformou-se num religioso agitado, como agitado foi
também a sua Era política. Seus aparecimentos em público vão
rareando cada vez mais. Uma das últimas vezes em que foi visto, foi por ocasião da
inauguração do Campo de Aviação da cidade do Crato, mas seu abatimento físico
era tão visível que chegava a emocionar os que antes o tinham conhecido. Era o
câncer que já o consumia lentamente. Apesar disso, ainda fala à Imprensa sobre o
evento, e se diz contente com mais esse progresso para a região do Cariri.
Mas um outro acontecimento
tolda-lhe a já quase nenhuma alegria. Este, além de rude, decepcionante, cujo
passado a História relembra: a ingratidão do seu
afilhado de batismo, José Geraldo da Cruz. Prefeito do Juazeiro pela
Aliança Liberal, ou seja, na ditadura Vargas, esqueceu ter sido criado à sombra
do Padre Cícero e dele só ter recebido amizade e afeto, mas ainda ferido pelas
humilhações de que foi vítima por parte do Dr. Floro, as quais nunca
esquecera, e a História confirma. Usando de seus poderes, não hesitou em enviar um
Ofício ao Padre Cícero, no qual solicitava que mandasse buscar sua fotografia,
que ornava um dos salões principais da Prefeitura do Juazeiro, lembrando a sua
Era de Intendente, quando fora escolhido democraticamente pelo povo.
O prazo para a retirada seria de
30 dias, findo o qual, não sendo procurado pelo dono, seria encaminhado para o
Arquivo Público
“Juazeiro, 27/9/1932.
“Ilmº Sr. José Geraldo da Cruz.
“Acuso em meu poder a vossa
carta, datada de hoje, na qual me comunicais que o Decreto de nº 751, de 9 do
corrente, proíbe a aposição de retratos de pessoas vivas nas repartições
públicas do Estado, e me convida a mandar buscar o meu, oferecido à nossa
Prefeitura como lembrança da criação do nosso Município, a qual, acredito, a História
não poderá obscurecer o contingente de minha contribuição. Em resposta,
comunico-vos que autorizei o Sr. José Edwiges a receber o aludido retrato, e
peço-vos mandar lavrar da entrega um termo, no competente livro dessa
repartição, a fim de que fique perpetuada a ocorrência, que julgo de suma importância
para a futura História de nossa terra. Sem outro assunto, subscrevo-me.
“Atenciosamente. Padre Cícero
Romão Batista.”
1934, o Padre Cícero assiste à transformação na
política, com a nova Constituição, ele, que já vinha do Regime Imperial.
Seu estado de saúde cada dia mais declina, merecendo de todos de casa cuidados
especiais, principalmente no tocante à alimentação, que se já era modesta,
tornava-se naquele momento muito mais, consistindo apenas num pouco de arroz
cozido no leite, galinha assada na grelha, à tarde, no jantar, uma simples canja de
galinha, outras vezes, mingau de maizena acompanhado de suco de frutas,
especialmente de laranja lima, limonada. É sabido que não tomava a água do
Juazeiro,
por ser muito salobra, substituindo pela água de coco. Não tomava café,
preferia chás, afirma Edmar Morel (op.cit.), informações
prestadas ao escritor por uma das suas últimas serviçais, a beata Tereza de
Jesus, a Terezinha do Padre, como era mais conhecida.
Segundo seu biógrafo Azarias
Sobreira (ibidem), “Na sua mocidade foi
um fumante compulsivo. Criticado por colegas de batina, deixou o uso do tabaco para
sempre, após uma advertência de um colega, quando ele fazia ao mesmo uma
censura por este ser um etílico”. Nesse pormenor, fica patenteado o sentimento de
inflexibilidade nos seus atos. A catarata,
que já o atormentava há anos, progride assustadoramente, já
não mais lê, e ouve em silêncio a leitura diária dos jornais, feita por
seus auxiliares. Com dificuldade apõe sua assinatura em papéis redigidos por
seus secretários. Efetivamente aproximava-se do fim. Os de casa não têm
mais dúvidas quanto ao seu desenlace. Seus médicos assistentes e a família
Juvêncio Santana tudo empenham para que seus sofrimentos fossem minorados. Para
o público,
com raras exceções, era sabido o seu grave estado de saúde. Seus males cada dia
mais se vão acentuando, ora uma leve indisposição, ora uma má digestão, e assim ele
transpõe o ano de 1933, quando chegaria 1934, e completaria a veneranda idade
de 90 anos.
Poucos o vêem: entrada mesmo em
sua casa, além dos seus médicos, estava restrita ao Revmº Monsenhor Sóter de
Alencar e ao Padre Juvenal Colares Maia, que logo que seu estado de saúde
piorou para lá mudou-se, e foi um dos presentes à sua última agonia. Juvenal
Colares era muito pobre e não gozava de boa saúde, por isso foi durante muito tempo
auxiliado financeiramente pelo Padre Cícero.
****
CAPÍTULO 23
FIM DE UMA ERA
No ano de l934, o Padre Cícero,
estava totalmente cego. A catarata, que há muitos anos o vinha
atormentando, progredira o suficiente para que o cristalino do olho
direito sofresse uma atrofia irreversível, constatada pelo médico Dr. Isaac Salasar, catedrático da
Faculdade de Medicina do Recife, que veio até o Juazeiro para
operá-lo.
Aquele olhar, parte integrante da sua personalidade, pela expressividade
e pela profundeza do seu azul, que a todos fascinava, estava completamente
extinto. A operação realizou-se no dia 20 de junho, sem êxito. O cristalino estava extinto,
afirmou o médico Isaac Salazar em entrevista à Gazeta do Cariri. Ao retirar-lhe
a venda, ele ainda conseguiu ler o cabeçalho dos jornais, e só.
A operação custou 20 contos de
réis, quantia que ele não dispunha na ocasião, quando teve que tomar 15 contos
emprestados ao maior comerciante do Juazeiro, o senhor Fenelon Pita, cujo
empréstimo teve o aval da Beata Mocinha, e sofreu um atraso de 15 dias, em face
da ausência do comerciante, que se encontrava em viagem. Esse
empréstimo é curioso por dois motivos: primeiro, considerando-se a soma de
dinheiro que lá entrava diariamente. Não falo das esmolas à Padroeira, esse era
intocável, mas sim dos presentes em dinheiro que lhe faziam pessoas de posse. O
segundo, mais impressionante ainda, aliás, o suficiente para merecer de todos
os seus biógrafos alusão ao fato, isto por ter sido sua governanta, a beata Mocinha, a
fiadora. Perguntaram-se os que sobre ele escreveram o que se deduzir dessa
passagem,
desse pormenor: a falta, no cofre do Padre Cícero, dessa insignificante
quantia? Incompreensível! E para não alongar o assunto com referências a
autores que escreveram sobre o episódio, cito o jornal Gazeta do Cariri, na edição
de junho desse mesmo ano (Crato):
“O Padre Cícero recebia
diariamente muitas dádivas dos seus romeiros, tanto em bens materiais como em
dinheiro vivo. Está constatado que, só em fins de 1933/34, tenha sido
endereçado a ele, de diversas localidades do Nordeste, a importância de 300
contos de réis, quantia significativa para a época. Entretanto, não teve 20
contos de réis para saldar uma pequena dívida, socorrendo-se de um empréstimo,
do qual foi fiadora a beata Mocinha, a secretária e tesoureira de todo o
numerário que ali entrava.” E conclui a nota: “Causou estranheza e surpresa a todos,
mormente por ter sido sua governanta e tesoureira a fiadora”.
Tendo que relembrar o episódio, fica claro que o
Padre Cícero não foi, em tempo algum, um preocupado com dinheiro, como
afirmavam seus detratores. É inegável que muito recebeu, mas muito doou a entidades
filantrópicas, como por exemplo, no Rio, para os franciscanos de Cascadura, os
salesianos de Niterói, e até mesmo para o estrangeiro, para a Terra Santa. Sem
uma definição exata do que acontecia com as finanças, por não tocar em
dinheiro, fato de todos sabido, ficando essa parte a cargo da beata Mocinha, e de
outros, com os quais ela mantinha negócios, para a época bastante altos. Padre
Cícero então passou por essa grande humilhação, a do irrisório empréstimo, para
saldar uma pequena dívida. Mais um mistério, na confusa história da sua vida.
Para o escritor Edmar Morel (op. cit.),
foi humilhante essa passagem, um homem da sua estatura ter que submeter-se a
essa inversão de meios, para saldar um pequeno compromisso financeiro.
Em 24 de março deste mesmo ano de
1934, pouco antes de ser operado, ele havia completado seu nonagésimo aniversário,
e como não podia deixar de ser, surpresas lhe foram feitas;. Há pouco, tinha
sido a mudança de casa para uma mais confortável, à Rua São José, onde veio a
falecer. A outra, por ocasião da data magna, uma missa com Te Deum e um banquete que em nada
lembrava o fausto de outrora, pois ao invés de altos políticos, jornalistas,
escritores, e outros da mais elevada projeção sentados à grande mesa com
capacidade para 40 pessoas, naquele dia encontravam-se sentados ali seus
verdadeiros amigos. A família Juvêncio Santana, o médico e escritor Irineu
Pinheiro, o Padre Juvenal Colares Maia e o venerável Monsenhor Vicente Sother
de Alencar (irmão do também venerável Joaquim Sother de Alencar). O Juiz
Plácido Castelo e seus serviçais, considerados por ele como da família. Homenageado
com uma chuva de pétalas de rosas derramando-se sobre sua cabeça já
completamente branca, que na expressão de Edmar Morel (op. cit.) mais se assemelhava a um floco de algodão do Seridó.
Abraçado efusivamente pelo Dr. Juvêncio Santana, à queima-roupa lhe pergunta
como se sentia naquele momento, à queima-roupa também foi sua resposta, na mais
absoluta clareza: “gostaria de chegar aos 100, ainda tenho muito o que fazer
pelo meu povo”. A resposta provocou risos nos presentes, e ao contrário do que
escreveram certos autores, ele, animado, enceta conversa variada, sem
esquecer da data prodígio, quando festejava seus 90 anos de idade.
Em grande alegria, como foi sempre o
seu habitual, apesar de tantas opressões que anuviaram a maior parte do seu
viver, ele ouviu os cânticos em sua homenagem, e recebe os cumprimentos
efusivos dos que ali se encontravam, e os jornais falam da data.
Os presentes comovem-se com a lucidez de suas respostas, embora exista uma
outra versão, de que ele, em meio à recepção, tenha falado coisas
desconexas, sendo contornado de imediato pelo Dr. Juvêncio Santana.
A vontade de viver sempre mais
para fazer o bem, pois achava que tinha feito muito pouco, ainda o dominava, no
limite extremo da sua avançada idade, numa afirrmação constante de luta, de
reforma, de progresso, que muitos não entenderam. Por isso, ele faz jus ao
título de benemérito de um povo, co-precurssor da cidadania, quando paupérrimo
ao ali chegar, nada possuindo materialmente, além da vontade de realizar uma
obra meritória, vontade essa que leva o homem a grandes ousadias. E foi
essa temeridade, da transformação de alguns marginalizados em cidadãos da lei,
com autonomia para se impor, que lhe valeu contundentes críticas, deformadas
injúrias. Pagou caro pelo ideal. Esse homem de fé e de
bem, extraordinário por suas atitudes para com o pobre, naquele momento ainda
falava de longevidade, pensando em sonhos não convertidos em realidade.
Envelhecido, fragilizado, transformado numa imagem pálida e desfigurada, já marchando
para a sepultura, ainda sonhava com realizações.
Daquele dia em diante seu estado
de saúde declina, sofrendo dos rins e intestinos, inspira cuidados. Seus médicos tomam
precauções, e redobram as atenções para com ele. Se antes já se
alimentava muito pouco, daí em diante era o mínimo. Somente alimentos
líquidos e tenros, como uma canja rala, ou mingaus. Ele vai perdendo o
ânimo, e seu abatimento físico é visível. Entre seus seguidores, isto é, a
grande massa, a preocupação vai se generalizando, e eles vêem com desolação o
próximo desenlace, embora não acreditassem que um dia ele partisse para sempre.
Sofrendo de uma grande insônia, às vezes entre cochilando e acordado, ainda tem
ânimo de acompanhar a reza do rosário, feita por Maria das Malvas, uma das
fâmulas de sua casa, que cuidava da sua alimentação nos últimos tempos, dos
seus banhos mornos em bacia de ágata, e das suas bem passadas roupas. Assim a
serva fiel trocava o dia pela noite, só conseguindo dormir poucas horas. Era
mesmo uma abnegada.
Mas à medida que vão
passando os dias, ele vai definhando cada vez mais. Cada dia era precioso aos
olhos dos seus romeiros, que mais e mais se recusavam a aceitar que ele
morresse. Muitos
o tinham como um santo descido dos céus, por isso impossível desaparecer.
Apoiados nessa ilusão, ali vão chegando e estacionando em frente à casa do seu
guia, esperando que um grande milagre ocorresse, qual fosse, o do seu
aparecimento à janela, e dali, como fazia há 50 anos, desse a sua costumeira
bênção, acompanhada dos preciosos conselhos. Nada disso, porém, acontece, senão
a chegada de mais três médicos: Drs. Pio Sampaio (Barbalha), Elísio Figueiredo
(Crato), e Mozart Alencar, este do Juazeiro. A ilusão de um restabelecimento
vai aos poucos se esvaindo do seio da massa, que não consegue esconder a grande
decepção, quando o sonho dava lugar a uma cruel realidade — piorava o Padre
Cícero. Os médicos ali presentes, em número de cinco, não têm mais ilusão, seu
desenlace seria questão de horas. Dores ininterruptas, grandiosas, sobrevinham-lhe a
cada minuto. Os médicos resolvem aplicar morfina para que suavizassem as
dores. Era o câncer que o matava lentamente. Passado o efeito da droga, ele, um
pouco mais aliviado, olhando para o Dr. Mozart, pergunta-lhe:
— Você ainda tem esperanças,
Mozart?
O médico responde com uma
afirmativa de cabeça, procurando quem sabe naquele gesto esconder sua dor. Lá
fora, a agonia ia crescendo a cada minuto, quando, entre rezas e choro, a massa
se movimentava, e no recinto de sua residência, padres, médicos,
amigos, os de casa, se perguntavam: como transmitir a notícia àquela gente
fidelíssima de 62 anos, que ali se encontrava, ávida por notícias,
esperando evidentemente a de uma melhora? Encorajada pelo Padre Juvenal Colares
Maia, que mudou-se para sua casa logo
que ele piorou, e pelo seu último secretário, Severino Alves, a beata Mocinha foi a
porta-voz daquele triste momento. Denotando calma, como era sua
praxe, falou à multidão estacionada, dando remotas esperanças de
melhoras. Mas logo em seguida cai por terra para eles a grande ilusão, chegava
Monsenhor Pedro Esmeraldo, acompanhado do sacristão, para administrar os
últimos sacramentos de hora de morte, a extrema-unção. Não queriam
crer no que estavam vendo, agonizava o Padre Cícero. E entre rezas e choro,
chegou a noite, mais uma noite de perspectivas e ilusões, entremeada pelo
desfiar dos rosários. Vem a madrugada, uma madrugada fria,
de vento frio e rasteiro, como sói serem as madrugadas do Vale do Cariri. Essa,
porém, foi a mais fria de todas da sua história. Lentamente morria o Padre
Cícero.
Os médicos não mais insistiam na
aplicação dos remédios, tudo estava perdido, a realidade da morte sobrepunha-se
à ciência.
Suavizado um pouco mais das dores pelo efeito da morfina, apresentou, segundo consta, um pequeno reflexo
de lucidez, olhando todos ao seu redor. Foi então nessa ocasião que o Dr.
Elísio Figueiredo, percebendo o momento, altamente emocionado, solicita do
Padre Juvenal Colares, também presente aquele momento, pedisse ao Padre Cícero
que abençoasse todo seu povo, os presentes e também os ausentes. Ele, num
impulso próprio das grandes almas, tenta, e consegue. Ergue-se do leito, e
apoiando-se nos travesseiros que o cercavam, traçou cruzes no ar em direção de
todo o Juazeiro, e balbucia algo numa voz imperceptível que a memória
guardou.“No céu rogarei a Deus por vocês todos”. Fecha os olhos e santamente
expira nos braços de Severino Alves, que empunhava uma vela, ao lado da suave
beata Josefa Maria do Espírito Santo. Chegava ao fim o Grande Homem de Deus, e
também ali terminava a guerra de uma facção. Eram 6 horas e 45 minutos do dia
20 de julho de 1934. Obscureceu-se o céu do Juazeiro.
A notícia correu célere. Monsenhor
Esmeraldo celebra missa pelo grande morto, e transmite a notícia. A massa, inconformada, corre
em direção à sua casa, à Rua São José, e na correria eles
se atrapalham, caem, levantam-se, atropelam quem tenta se interpor entre eles,
finalmente, lá chegam para constatar a triste e cruel realidade. Morreu o Padre
Cícero. A tristeza deles se apodera, choram, rezam, lamentam-se. Em poucas
horas, uma grande multidão tomava conta das ruas, já agora quilométricas, que
de acordo com a polícia foi de 80 mil pessoas. Uma multidão impressionante para
o tamanho do lugar e as condições da época. Lá eles chegaram de caminhão, a cavalo, de
carroças, automóveis, de trem, a pé, não importava o meio de transporte,
queriam era chegar ao Juazeiro para prestar sua última homenagem àquele que, durante 62
anos, só pregou o bem e a paz, e deles foi um verdadeiro amigo.
O telégrafo ficou congestionado, tal a quantidade de
mensagens de condolências de todo o País. Os telégrafos do Crato e Barbalha e a
Rádio da Polícia colaboram na transmissão de mensagens. À tarde, aviões do Exército
sobrevoam a cidade, passando em rasantes por sobre sua casa - era a homenagem que
lhe fazia seu afilhado de batismo, Coronel-aviador José Macedo, que veio
dar-lhe o último adeus, homenageando-o com coroas de flores também em nome da
Aviação.
Instantaneamente, como num passe
de mágica, toda a cidade parou, cobrindo-se de luto. As residências, ricas ou
pobres, ostentavam em suas fachadas uma tarja preta em sinal de pesar, expressando sua dor.
Homens, mulheres, e até menores, usavam distintivos pretos nos braços. As
mulheres vestiram-se de preto, costume esse que permanece todos os dias 20 de
cada mês, lembrando sua morte. Dão início à preparação dos
funerais, e paramentado como se fosse celebrar, o esquife é colocado num caixão
de cedro puro, confeccionado na marcenaria de propriedade de Antônio
Pereira. Suas mãos entrelaçadas ostentavam o que foi todo o símbolo de sua
vida, o rosário, e sobre seu peito, o crucifixo.
Para que o povo dele se
despedisse,
foi improvisado um catafalco, onde colocaram o caixão, numa
das janelas de sua casa. Ao avistar o esquife, a multidão avança e houve
tumulto, sendo contido pela Guarda de Honra ali presente. Todos, ao um só
tempo, queriam aproximar-se, foi preciso calma e pulso forte para conter a
massa. Alguém sugeriu ao Prefeito Tenente Porfírio de Lima convocar um reforço
da polícia, para evitar transtornos maiores, com o povo inconsolável. A essa
proposta reagiu o Prefeito dizendo: “o Padre era do povo, e continua sendo do
povo, todos terão o direito de vê-lo pela última vez”. Formou-se
uma fila, e
em silêncio
desfilavam
pausadamente ante os restos mortais do seu protetor, chegando aos mais de oitenta
mil, segundo a Polícia Militar.
Movidos pela dor da perda, as
lágrimas expressavam seus sentimentos, o sentimento da orfandade que o povo
ingênuo e bom do sertão sentia naquele instante. Desaparecera o
grande líder que deles cuidou com amor e caridade, num verdadeiro espírito de
abnegação, por longos 62 anos, quando sacrificou sua saúde, e até mesmo sua
própria vida em defesa da comunidade que fizera, como naquele sábado sangrento de
1914. No Padre Cícero, o espírito de solidariedade em bem da coletividade
alcançou sua forma mais nobre. Com seu desaparecimento, eles se consideravam
orfãos. Desolados, mostrando-se inconformados ante o quadro da morte, que muitos
não queriam acreditar que ele um dia viesse a morrer, pois o tinham como
imortal. E atropelando-se, esgueirando-se para ver o seu ídolo pela última vez,
como escreveu o caixeiro-viajante Lourival Marques, presente ao momento. Para
Edmar Morel (op. cit.), é o melhor
relato fúnebre de que se tem notícia até hoje, e diz: talvez nenhum articulista
de Londres ou de Nova York o tivesse feito melhor. Enquanto isso, o seu
antigo secretário Benjamim Abraão reaparece e, máquina filmadora em punho, registra o melancólico
fato do sepultamento do seu grande protetor.
Ao se aproximarem do esquife, o tocavam com terços,
rosários, galhos de árvores, chapéus de palha, para guardarem como relíquia. O
venerando Monsenhor Sóter de Alencar, lá presente durante toda a cerimônia
fúnebre, representando a Diocese do Crato, dizia: "podem tocar, ele era
mesmo um santo". Oito missas foram celebradas, a Bandeira Nacional estava
a meio pau. Em
todo o Cariri, o Prefeito decretou luto oficial por três dias, no que foi
acompanhado por todos os prefeitos do Vale.
Os sinos incessantemente batem em
dobre de finados, pausado e triste. Chorava um povo. Por fim, 24 horas depois,
sai o grande cortejo fúnebre em direção à Igreja de Nossa Senhora das Dores,
para a encomendação do corpo. O féretro é conduzido pelas mãos simples de gente
do povo, que se revezavam na nobre tarefa. A comoção é geral. À frente do cortejo,
nove padres, inclusive o Vigário do Juazeiro, o já citado Monsenhor Pedro
Esmeraldo. Uniformizados, os legionários ladeavam as autoridades convidadas
à cerimônia, representantes do governo do Ceará e Estados vizinhos. As Associações
dos Vicentinos, com destaque para a Associação do Coração de Jesus por ele
fundada há quase meio século, se faziam presentes, como também as Associações de classe,
com suas bandeiras envoltas em crepe preto, simbolizando luto. Lentamente
caminham, e chegam à Igreja Matriz, onde é celebrada a missa de corpo presente.
Em seguida cantam o memento, sob a regência do maestro Pelúsio Correia de
Macedo, seu grande amigo, que mesmo carregado de extrema emoção conduz a
orquestra. Depois desses rituais, segue o préstito em direção à Igreja do
Pérpetuo Socorro, onde seria sepultado, sempre em marcha lenta e ao som das
marchas fúnebres.
O Padre Juvenal Colares e o
citado Monsenhor Sóter são os mais emocionados, e choram. Enfim, depois de uma
vagarosa marcha, chegam à pequena igreja. A grande e
compacta multidão ouve em silêncio os discursos de despedidas, destacando-se o
do jovem Odílio Figueiredo, que, carregado de emoção, traça um panegírico de
toda sua trajetória como fundador do Juazeiro, encerrando assim as homenagens
póstumas. Finalmente, quando o sino da igrejinha anuncia 12 horas, desce à sepultura o corpo do
grande humanista sem par na História do Brasil. Em cova rasa,
lá está sepultado, ao lado de sua mãe e irmã, como era do seu desejo,
expresso em testamento. A multidão rompeu em prantos, houve gritos, lágrimas,
tumulto, com o saldo de duas mortes e vários feridos.
Uma simples e despretensiosa
lápide assinala o local, que é visitado por milhares de pessoas diariamente, em
pagamento de promessas à sua alma, ou por simples visita
de homenagens. Juazeiro e o Nordeste gostariam de vê-lo canonizado, em face das
inúmeras graças alcançadas. O Vaticano silencia ante os pedidos.
Praza aos céus que um dia não muito distante o Papa lhe conceda a honra dos
altares, se é que a canonização pelo Vaticano é a prova cabal da santificação.
Para muitos, ele era um santo, e continua sendo, por sua humanidade, pela
humildade ao suportar resignadamente os exaustivos sofrimentos transformados em
grandes martírios, e pelo infinito número de graças recebidas e provadas por
aqueles que as recebem. Seus ensinamentos de fé sobrevivem à força do tempo, que
tudo transforma, e às vezes até acaba — Mutatis-Mutandis
—, notadamente
os sentimentos. A veneração a ele, no entanto, continua pelos tempos afora,
fenômeno único no País. Iniciou sua vida com o povo, viveu com o povo, morreu
cercado pelo povo.
A casa onde faleceu à Rua São
José, nº 242, transmite um ar de mistério, de misticismo, de força no
sobrenatural, que a todos impregna. Dominado pela Igreja, prestou a ela seu
preito de obediência e silêncio, embora firmemente acreditando no Milagre da
Hóstia Ensanguentada. No seu livro, Edmar Morel (op. cit.) diz: “os ídolos têm a
fragilidade da porcelana, mas existem astros que brilham eternamente. O Padre Cícero é um
destes”. Passados
64 anos de sua morte, ele permanece na lembrança de todos, confirmando o que
disse Guimarães Rosa: “Os grandes homens não morrem, permanecem para sempre”. Assim
esse homem inesquecível que foi o Padre Cícero, esse anjo, na expressão do
austero bispo Dom Luís Antônio dos Santos, quando em visita ao Cariri, nos idos
de 1873, empolgado por suas virtudes que já despertavam admiração pelo seu
modo simples de ser, e principalmente pela grande virtude de que era portador,
a humildade. O austero bispo, num ímpeto de admiração e orgulho do seu padre,
disse: “Desta mesma massa é que se fazem
os santos”.
Por suas excelsas virtudes, pelo
amor ao seu povo, pelos seus ensinamentos, que sobreviveram ao tempo, ele
continuará para sempre perpetuado no seu Juazeiro, e será ad aeternitatem.
****
CAPÍTULO 24
OBSERVAÇÕES FINAIS SOBRE O JUAZEIRO E SUA ÉPOCA
Como já aqui tão ressaltado, um
detalhe chamava a atenção de todos que visitavam o Juazeiro no decorrer dos
fatos aqui mencionados, que são parte integrante dessa fantástica história de
fé, amor, controvérsias, processos eclesiásticos, suspensões de ordem,
excomunhão, óbitos. O grandioso elenco de beatos e beatas, já aqui tão
enfatizado,
despertava atenção de todos que lá chegavam, pelo excêntrico que alguns
aparentavam, com suas vestes extravagantes, outros ainda pela performance da sua personalidade, onde o
mistério tinha predominância — caso das três principais beatas: Maria de Araújo, pelo milagre; Hermínia Marques de
Gouveia, uma mística, que tinha visões (sua história no Juazeiro é
curiosa, porque há passagens líricas e comoventes, que merecem ser registradas); Giluca Bezerra,
pela ternura e bondade. Sem elas, talvez, o tom do glamour e do mistério não tivesse
existido, um mistério transformado em enigma até hoje indecifrável. Por isso, a
história de fé no milagre da hóstia ensanguentada é o principal motivo de
estudo, nas suas mais diversas concepções, porque rica de interpretações.
A participação dos beatos, em toda essa
trajetória, é fato real e integrante da história religiosa do Juazeiro, que o
escritor Antônio Xavier assim definiu. Para ele, os beatos eram portadores de
delírios,
que,
numa progressão geométrica, chegavam à paranoia total, sobrevindo
daí o exacerbado fanatismo religioso que os levava definitivamente à loucura. Dr. Antônio Xavier era
natural do Juazeiro e com eles convivia, observando-os, porque médico.
Depois de muito estudá-los lançou o livro Beatos
e Cangaceiros, onde argumenta que a grande maioria dos beatos era
portadora
de esquizofrenia, levava vida anômala e praticava, até sem se dar conta, de uma religião
proveniente do delírio místico ao qual associavam hipocrisia, banditismo e
vagabundagem.
O livro, tal qual o de
Alencar Peixoto, suscitou polêmica. Escritores manifestaram-se, dentre
eles, Afrânio Peixoto, à época no auge entre a
intelectualidade brasileira. Seu comentário pela imprensa carioca foi o de
admitir a realidade contida no livro do Dr. Xavier, também seu colega de
profissão. Dr. Floro, indignado com o livro, vai à Tribuna da Câmara. À época, era deputado federal
(1923),
e desafia os dois escritores, principalmente Xavier de Oliveira. E veemente,
lança uma saraivada de críticas ao escritor de Beatos e Cangaceiros, chamando-o de hipócrita, dizendo admirar sua
coragem,
manchando e enxovalhando a honra dos beatos, quando na realidade toda sua família no Juazeiro
era de procedência de romeiros que lá tinham chegado, atraídos pelos milagres. E da
mesma Tribuna ele faz um histórico sobre beatos, desde seu aparecimento na
Europa em remotas eras, comparando-os aos anacoretas do princípio do Cristianismo
(ano
de 1923). Já indisposto com o patriarca da família, José Xavier, por motivos
políticos no Juazeiro, o livro despertou mais o ódio do Dr. Floro, causando mais
confusão. Veio daí a grande intriga entre a família Xavier de Oliveira e o Dr. Floro, que segundo
Otacílio Anselmo (idem), foram participantes da frustrada
e não concretizada eliminação do Dr. Floro. Era a História do
Juazeiro, de lances incríveis.
Os beatos chamavam a atenção pela
singularidade dos seus trajes, ou ainda pelo exotismo que os caracacterizavam, caso do beato José
da Cruz, ou simplesmente beato da Cruz, como era mais conhecido. Inofensivo sob
todos os aspectos, carregava às costas uma cruz de madeira
coberta por fitas de variadas cores, conduzindo também consigo um pequeno
carneirinho. Figura visivelvemente frágil, evidenciado pelo corpo emagrecido
pelos jejuns e pela dura vida que levava. Muito perseguido pelos que dele
zombavam acintosamente, e até mesmo pela polícia arbitrária da época. Foi
vítima de grande espancamento, conforme assinala Floro Bartolomeu no seu livro Joazeiro do Padre Cícero (op. cit.). Depois de muito ser maltratado e espancado até perder os
sentidos, foi socorrido pelo Padre Maranhão, da cidade de Milagres (CE). Padre Cícero, tomando conhecimento, mandou buscá-lo, e
lhe impôs uma condição: jamais sair do Juazeiro. O beato José da Cruz, um
errante, ora aqui, ora ali, depois dessa ordem fixou-se definitivamente no
Juazeiro, e aí viveu até seus últimos dias.
Digno de menção é também o beato
Manoel Cego que, de esmolas, construiu a capela de São Miguel, ainda hoje
existente, nos arredores do Juazeiro. Em contraposição ao beato José da Cruz,
puro e casto, inofensivo, na expressão de Floro Bartolomeu, tendo com ele
convivido, havia um Elias Gilli, ou Elias Italiano, espertalhão, fazedor de filhos - dizem
muitos
escritores, deixou grande descendência. Beato Francelino, figura de destaque,
tido como homem de bem, depôs na Segunda Comissão de Inquérito, e para ele, se
houve farsa, foi justo nessa segunda acareação, feita sob a égide do ódio, da
contestação e da tendência a dar por terra toda a história do milagre.
Merece mais uma vez fazer
referência aqui, pela importância que teve na conturbada história do Juazeiro,
a cândida beata Josefa Maria do Espírito Santo, vulgo Bichinha, de quem já
falei noutro capítulo. Foi ela que, por muitos e muitos anos,
guardou consigo os famosos paninhos ensanguentados das comunhões ditas
miraculosas de Maria de Araújo. Prevendo sua morte, ou por descarrego de
consciência, achou digno e justo entregá-los à autoridade diocesana, temendo, quem sabe, fossem
parar em mãos adversas. Crente fervorosa do milagre, na certa temia uma
profanação do que considerava um bem sacrossanto, lembrando com certeza o
destino que tiveram os restos mortais de Maria de Araújo. Tudo não passou de
uma ilusão da beata. O Bispo Dom Francisco de Assis Pires
cumpriu rigorosamente, como já citado noutro capítulo, a ordem de Roma de 55
anos antes, que era a de incinerá-los para que nada subsistisse da grandiosa
história de fé e devoção, de inegável valor historiográfico, que o clero ignorou
e tudo fez para que passasse ao limbo, onde os fatos essenciais estão
destinados a permanecer no esquecimento. Reduzidos a pó, as cinzas
foram sepultadas à sombra de uma frondosa mangueira, no pátio interno do
Seminário São José da cidade do Crato, evidenciando assim o grande poder de
silêncio imposto por Roma. A beata Josefa Maria do Espírito Santo, a única, à exceção da fiel
assessora beata Mocinha, a estar presente à morte do Padre Cícero,
ajudando-o nos seus últimos instantes, o que lhe confere grande importância.
Beata Jael da Franca Cabral
figura mais uma vez aqui, pela firmeza da sua concepção no milagre e por suas
profecias. Seus depoimentos eram, na maioria, vazados no latim. Chamada de
teóloga por alguns escritores, dado seu conhecimento das escrituras sagradas,
que discutia com profundidade e conhecimento dos textos. No
rol das beatas também figura a beata Giluca, Gerônima Bezerra Monteiro, este seu verdadeiro
nome. De cor acentuadamente branca, tinha cabelos loiros e olhos
profundamente verdes, era meiga e dócil. De ascendência aristocrática, porque descendente
em linha direta dos fundadores do Crato e Juazeiro, os reais donos de glebas de
terra no Cariri, os tradicionais Bezerra e Pinheiros. Ela também fazia parte
integrante da trupe de beatas, residentes da casa do Padre Cícero. Era tão
amada por ele e por seus familiares, que no seu Testamento fez doação
a ela de um sítio e uma casa.
As irmãs do canto, beatas Maria e
Isabel da Luz, têm seu merecido destaque, quando
elegantemente, ao som magistral do harmonium, enchiam o Juazeiro
com seu canto solene e harmonioso, dando um toque celestial aos rituais da
humilde capelinha de Nossa Senhora das Dores, elevando os fiéis às alturas, dado o
poder oculto da música, na expressão de David Tame, no seu livro O Poder Oculto da Música. Embevecidos, tinham a impressão
de estarem
se deslocando para o céu. Era o ápice do esplendor. As duas irmãs foram
regentes do coro por muitos anos da capela, depois Igreja-Matriz de Nossa
Senhora das Dores. Como já escrito, Isabel da Luz muito colaborou para o
engrandecimento do Juazeiro, lapidando cérebros pelo ofício da instrução.
Beata Tereza de Jesus, a
ex-escrava do Padre Cícero, alforriada por seu pai, Joaquim Romão Batista,
merece um lugar nesse elenco, por sua infinita humildade e lealdade. Por fim, a beata
Mocinha,
pelo destacado e relevante papel que desempenhou durante 54 anos à frente da
casa do Padre Cícero, conduzindo-a com mão-de-ferro. Era a gerente
administrativa das finanças da casa e da Igreja, o que permitia levar ao grande
público a imagem de uma mulher excepcional, inteligente e capaz. Além de
desempenhar um relevante papel social, quando tudo naquele mundo teria
que levar o seu sinete. Menos fanática que as demais beatas, agia racionalmente.
Mas uma se destacaria, impreterivelmente, no rol imenso da
beataria, por sua bondade e simplicidade, que também são virtudes, segundo Floro
Bartolomeu,
numa referência à linda Beata Hermínia Marques de Gouveia, acrescentando ser
ela uma pessoa de bem, como escreveu (op. cit.). Dr. Floro parece ter
recorrido a Sócrates, que definia o Bem pela prática das virtudes. Daí, ela ter
sido elevada à categoria de virtuosa não só por ele, mas por outras
pessoas que com ela conviviam. Tentarei aqui traçar um ligeiro
perfil dessa personagem que se sobressaiu, entre tantas outras beatas, e que
tanto chamou a atenção dos que chegavam ao ainda Joazeiro, e também da autora, depois de ouvir sua
história. História que pretendo descrever, porque considero um episódio digno
de menção,
dada a gravidade do caso, que a tornou numa figura emblemática, e para mim
excepcional.
A tradição oral deixou à posteridade o
seguinte perfil: portadora de rara beleza, traços finos, voz suave e olhar de
santa. Este
o retrato traçado pelos que a conheceram, até mesmo por Alencar Peixoto, que a caluniou. À época de sua chegada
ao antigo Joazeiro, contava apenas 20 ou 22 anos de idade, segundo vários
autores. Mística,
impôs-se ao meio, destacando-se dentre as demais beatas, numa ação preponderantemente exercida por sua
religiosidade. Além de virtudes, sua beleza angelical despertava a atenção de
quem a via, como foi o caso do próprio Dr. Floro quando lá chegou em 1908.
Hermínia Gouveia foi citada por vários autores, não só por sua rara beleza e
devoção ao milagre, mas também porque foi vítima de calúnias, envolvendo o nome
do Padre Cícero, por seu desafeto, o citado Padre Alencar Peixoto
que,
rompido com ele politicamente, escreveu ser ela também a chave de ligação no suposto
caso das hóstias ensanguentadas, recebidas por Maria de Araújo.
Apropriando-se de um momento confuso, vivenciando in-loco todo o cotidiano da
casa que o abrigava, de fértil imaginação literária, convenhamos, e com
intenção explícita de menosprezar a história religiosa do
Juazeiro, foi cruel nos seus ataques, como esse aqui transcrito (Mito e Realidade). Apesar do seu
destempero,
é nele que vamos encontrar extenso relato sobre personagens da época de 1908 a
1911,
quando deixou o Juazeiro. Apesar de exagerados, seus relatos são caricaturas que
adquirem
vida. Eis um desses que passou à História. Destemido, a ele pouco importava a crueldade das suas afirmativas ou
invencionices, e escreveu o que se segue:
“Certo dia, uma das moradoras da casa do
Padre Cícero disse-me ter presenciado uma acalorada discussão entre ele (Padre
Cícero) e a beata Hermínia, também moradora em sua casa. A discussão consistiu, segundo a informante, em que ela teria ameaçado o Padre
Cícero de levar ao Vigário
Quintino Rodrigues tudo o que sabia, e que silenciou, sobre o propalado ‘milagre da hóstia ensanguentada’, para que este fizesse
ciente ao Bispo Dom Joaquim que tudo não
passava de uma burla. Ao tentar sair para se dirigir ao Crato, foi barrada pelo
porteiro e segurança da casa. Mas, conseguindo se desvencilhar, saiu, tomando o caminho do
Crato. Cientificado de que ela havia saído, o Padre Cícero manda ao seu encalço Antônio Grande, seu empregado e de sua
inteira confiança. A ordem
era fazê-la voltar. O emissário saiu a
toda perna (expressão de Alencar Peixoto), encontrando-a já nas imediações do Crato,
conseguindo trazê-la. Ao
chegar de volta à casa, o
Padre Cícero teve com ela uma longa conferência, que durou quase quatro horas.
A partir daí, ela
passou a exercer enorme domínio sobre ele, chamando a atenção de todos, dando o que falar.”
Para Alencar Peixoto, Hermínia
Marques de Gouveia era também a chave que encerrava muita coisa,
“ela
sabia demais”, segundo dizia. Daí, sua suspeita. E acrescenta: “o que me chamou
atenção nessa história é que a beata era personagem de destaque dentre outras,
naquela casa,
prestando reverências ao Padre Cícero, a quem tinha como Deus”. E diz: “Hermínia Gouveia não
era beata, isto é: não recebeu véu e nem fez votos, à exemplo da imensa falange de
beatas do Padre Cícero, algumas vindas da Casa de Caridade do Crato e Barbalha,
remanescentes do Padre Ibiapina, o Apóstolo do Nordeste.
Abeatou-se por conta própria”. O fato é que ela dominou o
cenário religioso do Juazeiro, exercendo preponderância
absoluta. Hermínia Marques de Gouveia chamava a atenção, despertando a admiração de todos do Juazeiro,
idem da
autora, depois de conhecer sua história, para mim personagem de romance, por sua crença
exacerbada no milagre e pelas calúnias atiradas contra ela, que
resignada e passiva, não protestou.
Sua fidelidade ao milagre era
impressionante: o que levou essa jovem de 22 anos a tudo abandonar para se
dedicar inteiramente ao movimento messiânico do Juazeiro? Acreditando piamente
no milagre da hóstia ensanguentada, tendo a beata Maria de Araújo como uma
predestinada, e o Padre Cícero como um Ser superior, ela se transfigura,
convertendo-se. Sob o efeito do milagre, talvez pensasse ter alcançado a
felicidade eterna e ali estivesse a salvo de todos os males. Vivendo o momento
mágico do sobrenatural, muda inteiramente sua vida, ao ponto de romper os laços
matrimoniais, segurança de vida àquela época. Penso aqui: o que
terá padecido Hermínia Gouveia, num meio conservador e moralista, onde a
perpetuidade do casamento, por ser indissolúvel, teria que
ser eterno? Mas ela rompeu essa tradição, levando às últimas consequências, quando publicamente
rejeitou o marido. Por isso, foi censurada e julgada por muitos como adúltera,
especialmente por Alencar Peixoto e o clero, que não vacilava em acatar todo
horror que se dissese sobre o Padre Cícero e o Juazeiro. Mas se pergunta: em
que se baseava o Padre Alencar Peixoto para fazer tamanha acusação e conceituá-la como adúltera, por ter se separado
do marido? O escritor e político foi insensível à conversão da beata Hermínia e à sua beleza de santa, repito.
Dr. Floro, como médico, e a
conhecendo de perto, dizia ela carregar consigo duas grandes virtudes: pureza e
bondade, virtudes estas que Rosseau louvava à imagem da mulher pura e
angelical. Para Floro, ela tinha essas virtudes, principalmente a pureza, que na
sua visão era traduzida pela fuga ao amor carnal, como provava a separação do marido, por ela rejeitado.
Por isso, foi elevada à categoria de virtuosa. Entretanto, para os estudiosos da
História Religiosa do Juazeiro, o Dr. Floro fez dela um mito, mito de
pureza e castidade, que não existia. Dentre estes, o Padre Gomes, o maior estudioso e
intérprete do Milagre da hóstia ensanguentada, que dizia ele ter criado
essa lenda de “santidade” da beata. Embora não fosse um fanático, esse seu
endeusamento a ela tinha uma só finalidade: dar mais ênfase ao milagre da
magia, do mistério, da enganação, esse seu ponto de vista. Já para o literato
Alencar Peixoto, o mito da mulher casta e pura não se sustentava, porque ela mantinha
com ele,
Dr.
Floro, algo além de uma amizade cordial. Essa suposição gerou um terrível
conflito no clero, após sua morte. Porque o vigário do Crato, Padre Quintino, e o Bispo Dom Joaquim se
opuseram a que ela fosse sepultada no corpo da Igreja do Pérpetuo Socorro por
ela construída, como queria o Padre Cícero. Daí um novo conflito se estabeleceu
entre o Vigário
Quintino, o Bispo e o Padre Cícero.
Devotada totalmente ao movimento
religioso do Juazeiro, abandonou o marido simplório, um pobre homem do povo, e
quem descreve muito bem o ocorrido é o sensato Padre Azarias Sobreira. Vejamos o que
escreveu: “Hermínia Gouveia chegou ao Juazeiro na fase aguda dos
milagres, no ano de 1889-90, procedente da cidade de Jardim (CE), com apenas 20 ou 22
anos de idade. Atraída pelo fenômeno religioso e pela ‘santidade’ de Maria de Araújo,
e pelo próprio Padre Cícero, a quem julgava como um Ser
Superior. Integralmente dedicada à vida religiosa do Juazeiro, o
que lhe valeu a separação do marido João Canário, este o seu nome”, disse o escritor. E
conclui a observação, dizendo:
“O marido tentou reavê-la pela força a voltar para
ele, não conseguindo. Separada dele, sem recursos, e por ser uma adventícia,
encontrou dificuldades para achar nova moradia, só encontrando abrigo na família do Padre Cícero, o
apoio de que necessitava, isto é: a de um teto para abrigar-se. Lá ela passou a
morar, juntamente com sua mãe e sua irmã Angélica, e vários agregados, inclusive o seu caluniador, o Padre Alencar Peixoto, que
desfrutava da hospitalidade dos donos daquela casa, sem nada lhe cobrar. Sem um
motivo plausível, senão o
baseado em suposição, confundindo sua devoção ao milagre, fruto de sua crença
religiosa que via em Maria de Araújo, uma ‘santa’, pelo milagre da transfiguração da hóstia
em sangue”.
Não há explicação plausível para
o caso Hermínia Gouveia, senão sua crença e veneração ao
milagre da hóstia ensanguentada. Este o principal motivo que a fez
tomar um outro rumo em sua vida, quando rejeitou o marido, levando-o publicamente
ao ridículo. Não conseguindo que ela voltasse para ele, abalado e humilhado
retirou-se do Juazeiro, e dele não se teve mais notícias senão a de que morreu
pobre e esquecido na sua terra natal, a pequena cidadezinha de Jardim (CE), diz a tradição
oral. Por sua ardente fé no milagre da hóstia ensanguentada, a jovem beata
Hermínia Gouveia se transfigura, e passam a vê-la como virtuosa,
tornando-se uma figura emblemática. O amor e a veneração ao Padre Cícero foram o caminho por ela
escolhido,
que talvez pensasse ser o caminho do Bem. Quem sabe, acreditasse no perdão
divino pelo desenlace do seu casamento, o que, aos olhos da gente conservadora
e moralista da época, soava como transgressão ao princípio canônico e
indissolúvel do matrimônio.
É dificil descrever o
comportamento e o que pensava essa jovem beata, que chegou ao Joazeiro antigo
encantada sob o efeito da magia de um milagre, pensando talvez encontrar
ali a felicidade plena, imaginando estivesse a salvo de todos os males, como já
acentuei. Será que havia nela uma consciência pelo papel desempenhado como
crente fervorosa do milagre, ou seria nada mais que a caracterização de uma
loucura, loucura essa que a levou ao extremo de tudo abandonar: casa, marido,
família (não tinha filhos), para viver a sublimidade do momento mágico do
Juazeiro, para ela uma felicidade eterna. A aura de satisfação de ali estar
procurando ser útil à causa que ela tanto acreditava, e na certa defendia,
era um sonho de um céu que alcançara. Entendeu que, pela graça e pela fé,
a mente triunfa. Foi a fundadora da Igreja do Perpétuo Socorro, hoje transformada em
santuário e ponto de romaria, por lá estarem sepultados o Padre Cícero, sua
mãe e irmã, a beata Maria de Araújo (em sepultura ignorada), José Marrocos, a
beata Mocinha, e ela própria.
Mas não só foi ela a ser
caluniada. Anos
depois,
a vítima seria a angelical e terna beata Giluca Bezerra, de olhos verdes e
penetrantes. Aqui abro um parêntese para falar desse assunto delicado, mas que
faz parte integrante da história cheia de percalços que foi a história do Padre
Cícero. A dimensão que ocupam figuras de elevada estatura na História tende a
que nada delas se omita, mesmo porque a História, segundo
Paul Veyne,
“é um conto, uma narração de acontecimentos, verdadeiros ou não, enfim uma
descrição do que é específico, isto é, compreensível nos acontecimentos humanos”. Embora seja o assunto de
extrema delicadeza, o Padre Azarias Sobreira, respeitável personalidade, como disse Austregésilo de
Athayde,
trouxe à
público essa página da história do Juazeiro. Leiamos sua versão dos fatos,
citada em O Patriarca do Juazeiro.
Conterrâneo e afilhado de batismo do Padre Cícero, e também seu confessor por
muitos anos. Eis o que disse:
“Certa vez de passagem pelo
Juazeiro, um
sacerdote que se dizia amigo do Padre Cícero dirige-se à sua casa para uma rápida
visita de cortesia. Em lá chegando, não o encontrou como de costume, na sala de recepção onde
recebia os visitantes, quando foi informado por sua irmã Dona Angélica, a ‘santa’, como era conhecida, pelos
seus dotes de bondade e ternura, que o Padre Cícero encontrava-se em uma
conferência particular com uma de suas beatas, Geronima Bezerra, a Giluca. Dona
Angélica fez ver ao visitante que ele não demoraria, pois já fazia algum tempo
que lá se encontrava, portanto, convinha aguardá-lo. Passados alguns instantes
e impaciente com a demora, o visitante já apresentava suas despedidas, quando
de repente abre-se a porta da sala de conferências e lá aparece o Padre Cícero. Logo atrás dele estava Giluca,
que não podendo ocultar a surpresa do visitante, desequilibrou-se, quase caindo. Segundo o
informante do texto ora transcrito, a beata transformou-se, e com as faces acentuadamente coradas,
bastante embaraçada,
tropeçou, sendo amparada pela incômoda visita. Foi o suficiente para que o
mesmo desse a conotação bem ao seu modo, e comentasse o episódio dizendo-se
decepcionado, pois na sua concepção vira algo de estranho no fato”.
Diz ainda o autor do texto que o tal sacerdote
lançou dúvidas sobre a castidade sacerdotal do Padre Cícero, bem como da
beata. “O
motivo: o simples fato de Giluca ter-se apresentado além das faces muito
coradas, totalmente desconcertada” (op.cit.). Geronima Bezerra, ou Giluca, como era
vulgarmente conhecida, talvez fosse tímida, tanto que, ao ver o sacerdote
visitante, embaraçada e corada como se algo lhe tivesse acontecido. Essa é uma
das predisposições dos tímidos, segundo o estudioso do assunto, Hartemberg, autor de um livro
célebre sobre o assunto, citado por Medeiros e Albuquerque em Hipnotismo, que, resume-se no seguinte: “Há, de fato, pessoas que
a todo propósito e principalmente sem propósito algum, coram de um modo
intenso, desde que se encontrem em presença de outros. Parece sempre que
acabaram de ser surpreendidas na prática de algum crime”.
A beata Giluca, além da timidez,
parece que anteviu com precisão o que daquela fatalidade de uma visita
inesperada e inoportuna surgiria. E o comentário malicioso veio, pois no
cérebro doente do representante do clero, ele viu o ocorrido por outro ângulo,
qual fosse,
o da falsidade, no simples intuito de ferir susceptibilidades, atingindo
diretamente a honorabilidade do Padre Cícero. Era do conhecimento de todos
o voto de castidade que fizera aos doze anos de idade, inspirado em São
Francisco de Salles. Atestado por ele, perante o Bispo Dom Joaquim, com a mão
direita sobre o livro dos Evangelhos, no Palácio Episcopal, quando depôs sobre
o fato milagroso do Juazeiro. Declarando-se um casto, tornaria o fato público
através do seu testamento. Apesar de não ser mandamento divino, mas simples lei
eclesiástica, ele cumpriu à risca o juramento que fizera. Os
que conviveram com ele mais de perto, o testemunho é de que, nesse tocante, ele foi insuperável.
Entre estes, está o citado Padre Azarias Sobreira (ibidem), que disse: “Nesse
particular, ele atingiu os píncaros do heroísmo, pois via passar diariamente
diante de si dezenas de pessoas do sexo feminino, e para todas ele tinha um
mesmo olhar — o da circunspecção”.
Retornando à personagem Hermínia
Gouveia, ela não poderia passar despercebida, porque mística e bela. Tomo aqui de
empréstimo o que escreveu Marshall Berman no seu belo livro, Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar: “O misticismo tem o
tom do lirismo e da beleza”. E ela realmente era bela como uma santa.
Eis tudo que restou da sua
história. Foi a responsável pela fundação da Igreja do Perpétuo Socorro,
promessa que fizera, segundo ela, à santa pelo restabelecimento de
uma moléstia grave, que vitimou o Padre Cícero no ano de 1906. Mesmo morrendo com
fama de virtuosa, ainda provocou um terremoto, porque o vigário do Crato, o
tão mencionado Padre Quintino, e o Bispo Joaquim opuseram-se
formalmente a que ela fosse sepultada na citada Igreja, dizendo ser uma
profanação, pelo que se dizia a seu respeito. Aí uma execração pública não mais
a ela, mas ao Padre Cícero, que a tinha na conta de uma pessoa de bem. Além de
atirar-lhe as mais desastradas calúnias, baseado, ao que tudo indica, nos escritos de
Alencar Peixoto, como comenta Floro Bartolomeu no seu citado livro. Aos olhos
do clero,
a construção da Igreja era mais um ponto de apoio ao fanatismo reinante no
Juazeiro, e embarga a obra. Mesmo assim, com todo esse levante, houve
resistência do Dr. Floro, que, num rompante de indignação, ignorou a ordem do Bispo, dando ordens de
sepultá-la no solo sagrado do cemitério anexo à pequena igrejinha. E lá repousa para
sempre entre os familiares do Padre Cícero aquela que despertou admiração e
amizade entre seus coevos. Mas o gesto temerário do Dr. Floro fez aflorar a
indignação do vigário Padre Quintino, que teve o apoio do Bispo para embargar a
obra, tal qual fizeram com a frustrada construção da Igreja do Horto. Floro
Bartolomeu,
no seu livro às páginas 102, escreveu:
“Depois de ter sido embargada a
construção pelo Bispo, a
beata Hermínia procurou-me, dizendo-se triste e decepcionada, e suplicou-me que intercedesse perante o
vigário do Crato, Padre
Quintino, o término da construção da Igreja, já a essa altura interditada.
Portadora, ao que deixava entrever, de forte premonição, disse esperar sua
morte para breves dias, e desejava ser sepultada no solo da Igreja que
construíra. Seu pedido impressionou-me, então resolvi não mais consultar o
clero, porque via em tudo isso pura perseguição ao Padre Cícero. Deterrminei o
prosseguimento da obra, e quando faltava pôr a última fileira de telhas na
cobertura, eis que subitamente morre a beata Hermínia Marques de Gouveia” (Joazeiro do Padre Cícero, op.cit.).
A propósito das premonições da
beata Hermínia, eis o que escreveu Amália Xavier (op.cit.):
“Dizem que ela tinha visões e
escrevia tudo a mandado do seu diretor espiritual, o Padre Cícero. Poucos dias antes de morrer, queimou alguns
papéis e mandou enterrar outros, no que desagradou o Padre Cícero, que os fez
desenterrar. Encontrados, estavam ilegíveis, por ter
chovido noites seguidas sobre eles, nada foi aproveitado”.
A beata Hermínia Gouveia
pertencia a uma das famílias tradicionais de Jardim, era prima da Madre
Ana Couto, Primeira Superiora das Filhas de Santa Tereza do Crato.
Altamente equilibrada, governou por muitos anos aquela casa, e era estimada por
todo o Vale do Cariri.
O testamento do Padre Cícero: é
sabido que foram dois testamentos por ele feitos. O primeiro, escrito do seu
próprio punho no ano de 1922, o segundo, em 1923. No primeiro, ele deixava
todos os seus bens para a Congregação dos Frades Trapistas e Premonstratenses.
Sediados em São Paulo, apesar de já em declínio, foram eles os escolhidos por ele para fundar
e dirigir um Colégio no Juazeiro para a educação do seu povo. Depois
mudou de opinião, e preferiu a ordem dos Salesianos. De acordo com alguns
autores, o ponto de vista do Dr. Floro Bartolomeu pesou na sua
decisão,
por achar que a Congregação Trapista estava em declínio e sem vínculo algum com
o Brasil. Os Salesianos então foram sua escolha, a quem contemplou
com toda sua fortuna, conforme declaração expressa nesse novo testamento de 1923,
quando assegura se encontrar em plena lucidez das suas faculdades mentais,
declarada
no início do testamento. Esse segundo testamento foi escrito pela pena
brilhante do jornalista e advogado Raimundo do Monte Arrais. Nele, ele dá nova direção a seus bens e aos bens
da Padroeira Nossa Senhora das Dores, deixando a maior parte para a Congregação
dos Salesianos. Seu testamento constou de 31 sítios, vários terrenos
agricultáveis, cinco fazendas de gado e benfeitorias, três sobrados, 17 prédios, quatro quarteirões de casas, casas no Crato e
sítios no Rio Grande do Norte e Pernambuco e
uma mina de cobre (Coxá).
Num rasgo de generosidade, contemplou a
criadagem de sua casa e algumas beatas com sítios e casas no Juazeiro, caso da
beata Giluca, já citada atrás. Retirando também, por ordem expressa do Dr. Floro, a doação que
no primeiro testamento teria feito para o Arcebispado e o Seminário
Arquidiocesano de Fortaleza, o Bispado e o Seminário do Crato, a Santa Casa de
Misericórdia de Fortaleza e a Casa de Caridade do Crato, lembrando: aquela que
serviu de palco para a montruosa crueldade à beata Maria de Araújo. Por fim, a Santa Sé, na
pessoa do Papa reinante.
O Padre Cícero era mesmo uma
pessoa extraordinária e, sobretudo, um homem do Bem. Não guardava mágoa
nem rancor, como está expresso nessa primeira doação feita a essas entidades
que tanto o perseguiram. Dr. Floro, como seu
representante político, achou extremamente chocante a doação milionária a quem só
o tinha perseguido de maneira cruel, e sugeriu a anulação do
testamento, e que outro fosse feito. Finalmente, no segundo testamento, o que realmente
prevaleceu foi ele ter legado aos Salesianos toda sua fortuna, fazendo-os seu
herdeiro universal. Sua única exigência: fundar no Juazeiro um Colégio para a educação do seu povo.
Eis aí o grande legado que deixou para seu povo: Educação, e para todos, sem acepção de cor ou
posição social. Volto a dizer: o Padre Cícero sempre esteve à frente do seu tempo.
Nessa doação milionária aos Salesianos, o que exigiu ele? Simplesmente que
fundassem um Colégio para a educação dos jovens, por confiar nas possibilidades
do ser humano, porque um otimista. Rogava que terminassem a Igreja do Horto,
seu sonho, um sonho irrealizável, que o clero jamais consentiu fosse tornado em
realidade.
Depois de muitas contradições e
especulações, sem o apoio total do clero do Crato, escreveu Edmar Morel (op. cit.), os padres salesianos lá chegaram, e não foram banais
as divergências, motivando de ambos os lados muitas mágoas, como já escrito
noutra parte desta obra. Todavia lá estão eles, há mais de meio século
cumprindo fielmente a obra máxima do fundador da Congregação, o imortal Dom
Bosco, no seu estilo único no mundo da pedagogia. Mas um pormenor continua sem
resposta até hoje, e se pergunta: porque os Salesianos, seus verdadeiros
herdeiros, não deram cumprimento à obra máxima do Padre Cícero, que era o término da
construção da Igreja do Horto? A resposta parece ser a seguinte: pela
indiferença com que foram recebidos pelo clero do Crato, como atestam as
declarações do Revmo Padre Davino, já citadas, é de crer-se que foram barrados
mais uma vez por quem tinha forças e poder para fazê-lo.
A Igreja que seria construída era
em pagamento de uma promessa feita por ele, no ano de 1889, para que cessasse a
estiagem que castigava o Cariri, uma seca que perdurou por mais de dois anos. A
construção dessa Igreja era seu sonho. Embargada em 1890 pelo Bispo Joaquim, ele
nunca deixou de alimentar o sonho de vê-la construída, é o que se deduz
pela maquete que trouxera de Roma e que até hoje existe, exposta em museus do
Juazeiro como relíquia. A Igreja do Horto, se construída, seria um dos grandes
templos do Nordeste, pelo arrojado da sua construção barroca, com 20 torres e
16 portas laterais, incluindo janelas. Além da grandeza arquitetônica da
sua construção, a visão panorâmica da Serra do Horto, impressionantemente
bela. A realidade
é que jamais o clero se interessou por essa construção, ao contrário, como escreveu Amália
Xavier (op. cit.): “Mãos criminosas e iconoclatas
destruíram o que lá ainda restava como lembrança de um passado”. A escritora não
cita nomes, de quem sacrificou “a velha Timbaúba centenária de
recordações perenes para dar lugar a uma torre retransmissora de TV”. Também
não faz referência à derrubada dos alicerces à picareta que lá existiam até a decáda
de 46. Segundo
o escritor Edmar Morel, a ordem foi dos Salesianos, fazendo uma veemente crítica,
por serem eles herdeiros do Padre Cícero. Embora achando estranho, termina por
dizer: “eles
devem ter obedecido ordens do clero do Crato, na pessoa do Bispo”.
Mas nos anos 70 foi construída a
grande estátua na colina do Horto, uma homenagem do povo do Juazeiro e do Nordeste ao seu
benfeitor e líder incomparável. Ela tem a altura de
O Padre Cícero, em toda sua vida, só assumiu duas
Paróquias:
a primeira, depois de ordenado em 1871, conforme já assinalado; a segunda, em São Pedro do
Crato, hoje Caririaçu. Mas foi tão rápida sua passagem pelas duas, que muito
dos seus biógrafos nem escreveram sobre o fato. Dessa última, têm-se ciência,
além dos registros paroquiais, também através de uma carta do Bispo Dom Joaquim,
lamentando que ele tivesse de deixar a freguesia por motivo de saúde, no ano de
1886. A carta, de teor canônico, leva grande
importância, não só pelo brilho literário, mas pelo tratamento ainda
fraternal que lhe dava, quando menciona suas virtudes, aliás, como o fizera em
1884, na inauguração da nova Capela do Juazeiro, por ele construída. Numa
retórica emocionada, disse: “A virtude do Padre Cícero enche todo o Vale do Cariri”. Bons tempos
aqueles, quando o Bispo não escondia a admiração que devotava ao seu
pupilo, e o tinha na conta de um virtuoso, um reformador, um verdadeiro servo
da Igreja. Depois, foi tudo que aqui está escrito, que ficará como um
registro histórico, do que foi o ódio de uma classe contra a mesma classe.
Inegável é dizer-se que o Padre
Cícero se pensou historicamente. Seu testamento, bem como outros documentos
aqui registrados, deixa claro. Às vezes, em uma simples carta,
ele fazia questão de que seu pensamento passasse à posteridade, como foi o caso
de uma dessas, enviada ao então vigário do Crato, o tão mencionado Padre
Antônio Alexandrino de Alencar, nos idos de 1897. No auge da crise religiosa, o
citado vigário
insistia para que o Padre Cícero deixasse o Juazeiro em breve tempo, para o bem
do bispado do Ceará, ao mesmo tempo em que o intimava a comparecer a uma
conferência no Crato, para ouvir dele, pessoalmente, essas recomendações
passadas pelo Bispo Joaquim. Bastante traumatizado e humilhado por anos a
fio, viu que o encontro de nada adiantava, senão receber cáusticas e costumeiras
reprovações. Decidiu não comparecer ao chamado do Vigário, preferindo
registrar para a posteridade através de uma carta, para ele uma forma de dizer
ao povo os sofrimentos de que foi vítima ao longo de 45 anos batidos. E começou
a carta com as palavras latinas. Verba
volanti et escripta manent, que em vernáculo, é: “as palavras voam, a
escrita fica”, escreveu Irineu Pinheiro (op.cit.).
Analisando a atuação do Padre
Antônio Alexandrino de Alencar, como Vigário do Crato, a quem era subordinada a
capela da povoação do Juazeiro, durante a fase do processo canônico, veremos
que ele apenas foi um instrumento que o bispo cruel usou para submeter o Padre
Cícero e a beata Maria de Araújo a provações que transcendem o limite do
inimaginável. Os Vigários de freguesias tinham que se submeter a essas
imposições,
sob pena de excomunhão. Talvez dissesse Dostoiewiski: o Grande Inquisidor da
grave e explosiva Questão Religiosa do Juazeiro foi de fato o Bispo do Ceará, Dom Joaquim José Vieira.
Em 1923, quando o Juazeiro já era
Paróquia, portanto, não dependente do Crato, o Padre Alexandrino, elevado a
Monsenhor e nomeado para reger a freguesia de Picos (PI), foi ao Juazeiro
despedir-se dos seus antigos paroquianos. Recordações da memória histórica
registram
a seguinte passagem, que chegou até aqui: o Padre Alexandrino, num gesto de arrependimento, embora
tardiamente, diga-se, do altar da Igreja de Nossa Senhora das Dores, em
lágrimas pede ao povo que o escutava desculpas pelos excessos cometidos durante
e depois do processo canônico do Juazeiro, dando a entender que assim
procedera porque a tanto fora obrigado por seu superior hierárquico, deixando
clara
sua posição de subserviência ao alto clero. Essa passagem é
comentada por vários escritores, que os registros históricos
confirmam, embora tenha sido de imediato contestada por seu sobrinho, o
jornalista Loiola de Alencar, que saiu a campo em longo artigo, desmentindo o
episódio. Lê-se
O Padre Cícero morreu acreditando
na sua reabilitação, senão pela Igreja militante, pela Igreja triunfante, e
evocava Joana D'Arc, queimada viva pela Inquisição como feiticeira, e que
depois foi reconhecida por essa mesma Igreja, que a elevou à honra dos altares.
Sua inabalável confiança na Divina Providência o levava ao extremo. Não era
dado ao ressentimento, para ele o perdão estava acima das perseguições, das
calúnias, das mesquinharias. Um dia, perguntaram-lhe o que achava dos cáusticos
e desprezíveis artigos do Padre Dubois à sua pessoa, como esse:
MÍSTICO
Eclesiasticamente o Padre
Cícero é um perjuro
dos seus votos de obediência,
teimoso, obstinado
que jamais se quis sujeitar às decisões da Igreja,
porque se julga infalível
contra os votos dos seus superiores.
Padre Dubois.
Sua resposta foi:
“Seus artigos não me incomodam,
eles dão a dimensão do tamanho da sua mente mesquinha, mas uma coisa fica
clara. Seu comportamento o apequena
com reflexos para todo o clero. Essas coisas não mais me atingem, já estou com
o couro grosso de tantas bordoadas, os de bom senso saberão me julgar”.
Sempre recorrendo ao princípio
emanado do Novo Testamento de que só Deus é o único Juiz da fé humana.
Nos seus sermões carregados de fé
e piedade, dizia que um novo tempo se aproximava para expiação dos pecados, e isto causava mais
polêmica entre ele e o clero, sob a égide de Dom Joaquim, um seguidor do
Tomismo, que só admitia três transcendentais, “unidade, bondade e
verdade”, e nega uma segunda redenção. Para os tomistas, o sofrimento de Cristo
foi, é e será para sempre único, divergindo dessa forma dos crentes dos
milagres do Juazeiro, que pregavam que o sangue ali aparecido prenunciava uma
Nova Era, e que o fim do mundo se aproximava. Versados nas Escrituras Sagradas, referiam-se ao
Apocalipse, e que era chegada a hora para conversão dos pecadores, evocando as
profecias.
Como vimos, os esforços do Bispo foram
infrutíferos para suplantar a crença no sobrenatural, no caso da
transformação da hóstia em sangue. Aí ele recorreu ao extremo dos extremos, como assinalado, e
lutou contra, até seus últimos momentos à frente da Diocese do Ceará.
Das curas milagrosas do Padre
Cícero, escreveu Manoel Diniz
“Devo dizer que fui testemunha
de algumas dessas curas. Dezenas de pessoas lá chegavam
diariamente à procura de alívio para seus males, quando ele lhes prescrevia
chás, purgantes e até sangrias. Ao deparar-se com os doentes, uns em estrados,
outros trazidos em redes por braços hercúleos, muitos acometidos de paralisia.
Ao encará-los, traçava-lhes o sinal da cruz, tocando-lhes a parte afetada, e no gesto de suas mãos, ao traçar o sinal da cruz,
ordenava que se levantasse, o que conseguia. Nos acometidos de loucura, era o mesmo ritual,
com uma diferença: nestes, ele tocava-os com o rosário, pondo-lhes a mão sobre
a cabeça, aí então mandava que desatassem as cordas que os prendiam e o que se
via era eles
caírem em prantos” (Manoel
Diniz, op.cit.).
Quem sabe, além da fé, que muitos
pensam tudo alcançar, a atmosfera mística e religiosa do Juazeiro e a aura de
carisma que carregava consigo não o ajudassem a realizar as curas, os chamados
Milagres, e foram dezenas deles, continuando até aqui, quando encerro essa
modesta biografia.
Assim foi o Padre Cícero, o homem
que seus seguidores julgavam um enviado de Deus, que passou a vida a fazer o
bem, e mesmo
assim foi criticado pelos que não quiseram compreender sua grande obra. Criticaram-no até mesmo no seu
modo de se expressar, quando sabemos que seus ouvintes eram de maioria
analfabeta. Ora, se ele, ao chegar à insignificante povoação, constituída por uma
gente rústica, a maioria de iletrados, tivesse usado de uma retórica imponente,
na certa teria atrapalhado seu apostolado, paralisando sua ação, que era justo
a da transformação daquela gente submissa e subjugada em cidadãos capazes, como
o fez. E foi por entender a clareza do seu linguajar perceptível que ele
despertava admiração e deslumbramento naqueles que o ouviam, realizando assim o
seu ideal, que era o de amparar seu povo, dando-lhes cidadania. Começava no
Juazeiro o advento de uma NOVA ERA.
Encerrando sua história que, reconheço, não está aqui
descrita totalmente, pelo muito que foi e fez, tomo de empréstimo as palavras
de Guimarães Rosa, de que: “certos homens
não morrem, ficam encantados”. O Padre Cícero é um desses, está
encantado no seu Juazeiro até hoje, despertando a admiração e o respeito dos
que o visitam, e trabalhando em espírito pelo bem da humanidade, e esse
encantamento constatei em três anos que lá morei.
****
NOTAS
3 Segundo o Bispo Dom Joaquim, esse folheto foi largamente
distribuído na cidade de Roma, quando lá se encontrava o Padre Cícero, no ano
de 1897.
4 O Juazeiro dista
5 Único médico a depor duas vezes. Isto porque o Bispo Dom
Joaquim, já de antemão, contrariando o seu testemunho
anterior, retrucava sua afirmativa do sobrenatural.
6 Terras alencarinas:
uma homenagem à família Alencar, pela participação nos fatos históricos
nacionais, notadamente nas revoluções de 1817 e 1824, onde destacou-se a figura
de Bárbara de Alencar, a "Heroína", e seus filhos, José Martiniano de
Alencar e Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, o Mártir da Confederação do
Equador.
8
As beatas pertenciam à Casa de Caridade do Crato, e outras pertenciam a Casa de
Caridade de Barbalha.
9
Ainda hoje existe a maquete da igreja, trazida de Roma pelo Padre Cícero, em
estilo barroco, seguindo a
linha das igrejas de estilo colonial do Nordeste. A igreja, se construída, seria sua
obra máxima, síntese do
seu pensamento.
10 O Concílio de
Constança condenou João Huss em 1512. Por suas doutrinas antirromanas, foi queimado vivo, e suas cinzas foram
jogadas no Reno.
11
Chamado de Caldeirão dos Jesuítas, porque lá viveram por vários
anos, até a morte, dois Jesuítas fugidos da
perseguição do Marquês de Pombal.
12 José Lourenço, o Beato, deixou o Cariri, retornando à sua terra de origem, a Paraíba, onde morreu aos 70 anos de
idade.
13 A infalibilidade do
Papa foi proclamada no Concílio do Vaticano em 1870 e tornada dogma de fé pela
Igreja Católica, que estabeleceu ser o Papa infalível por uma assistência
especial de Deus. Só ele era digno deste privilégio. O ato criou polêmica entre
católicos da Suíça e da Alemanha à época (Extraído de Lello Universal, p. 1290).
14 Segundo o Dr. Floro, as minas do
Coxá mediam 3.600 braças de comprimento e 2.400 de largura, o que equivale a 9
e 6 km, respectivamente.
15 A reportagem referida é do
jornalista Moraes Né, e foi publicada em página seleta do jornal de maior
circulação do Ceará, O Povo, de Fortaleza, edição de março de
16 Sandálias de couro, tipicamente
nordestina, muito usada pela população em
geral.
18 As admoestações do
Padre Cícero refletem suas ideias de paz, condena
explicitamente a violência, abomina a ingestão de álcool, e dá ordens para
deixarem a cidade livre, para quem quisesse se retirar.
19
Dona Federalina Augusto, a líder feminina dos sertões daquele tempo, mulher
forte e irresistível nas lutas políticas de Lavras da Mangabeira, destacou-se
pelo papel que exerceu, de líder que não se dobrava a injuções políticas.
20 Nesse mesmo dia, o Coronel
Antônio Luís foi reempossado na Intendência do Crato.
21 Filemon e José Magalhães, este
conhecido por Zequinha das contendas.
22
O Marechal Hermes era Grão-Mestre da Maçonaria, por isso recebeu o repúdio da
Igreja.
23
O Coronel Franco Rabelo teve o mesmo destino que seu sogro, o General
Clarimundo de Queiroz, que também foi deposto do governo do Ceará, nos idos de
1900, quando os Acciolis acenderam ao poder.
24
Para os estudiosos de forças ocultas, era somente telepatia.
25 Venceslau Braz, à época
presidente da República.
26 João Tomé, Presidente do Ceará.
27 Jornal Unitário, 17/07/1915.
28
Registre-se também que seu solo é produtivo, um dos mais ricos do mundo.
29 O açude
Acarape foi iniciado nos idos de 1900.
30 Dr. Leandro Bezerra de Menezes
era filho do Crato e descendente direto do Brigadeiro Leandro Bezerra de Menezes.
Foi Senador do Império por Alagoas, conceituadissímo no Rio e em Niteroi, onde foi Juiz por décadas. Deixou um nome impoluto, e até
hoje lá existem seus descendentes. Morreu aos 85 anos de idade.
31 José Maria Lobo era
sócio correspondente da Santa Sé, um cargo extraordinário, de grande valor à
época. Pertencia à Guarda Nacional e era
advogado rábula. Diz a história que morreu pobre e esquecido; raramente seu nome
figura nos acontecimentos religiosos do Juazeiro, a maioria dos escritores
desprezam-no, quando na verdade ele foi, depois de Marrocos, o maior divulgador
do Milagre.
32 Guilherme
Studart presidiu o Conselho Central por 42 anos seguidos. Era bisneto do Capitão Domingos Gonçalves Martins, pioneiro
naquelas terras.
33 Criador do remédio
Bálsamo da Vida, de efeito magnífico, ainda existente, hoje sob o
controle dos seus descendentes. Era também proprietário do jornalzinho O Ideal, que fez época no Juazeiro
daquele tempo, e foi fechado pelo Dr. Floro, seguida de coações psicológicas, segundo ele dizia, que levaram sua mulher à loucura.
34 O escritor Azarias Sobreira (op. cit.), também dá conta de que, nos dias tumultuosos, o autor do livro João Pergunta, Newton Craveiro, cheio de ódio, estava a redigir um artigo na sala de redação do Jornal Gazeta do Juazeiro, de propriedade, do Dr. Floro, e no auge da raiva foi fulminado por um colapso cardíaco.eu escultor foi um dos maiores do Rio à época, Laurindo Ramos.
36
O Joazeiro do Padre Cícero, O Patriarca do Juazeiro, A Revolução de 1914.
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Diário de Pernambuco (1891)
Jornal da Aparecida (São Paulo)
Jornal do Comércio do (Rio 1891)
O Fluminense. (1900)
O Rebate (Juazeiro1909)
O Nordeste (Fortaleza)
Unitário
(Fortaleza)
Gazeta do Joazeiro (Joazeiro 1925)
Jornal da Diocese do Crato (Crato 1926)
Sul do Ceará (Crato 1909)
Era Nova (Recife 1891)
Gazeta do Cariri (Crato)
Folheto da Cidade de Água Branca (PB 1891)
Tipografia Cratense (1890)
Arquivos: Padre Gomes (Crato)
Seminário da Prainha (Fortaleza)
Arquivos do Estado do Ceará
Revistas Itaytera (Crato)
Cigarra (Rio)
O Cruzeiro (Rio)
Holanda, Joaquim (Crônica da Guerra de
1913-14)
A Região (Diocese do Crato)
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