PADRE CÍCERO AD AETERNITATEM - Autora: Maria Hilma Arraes

PADRE CÍCERO AD AETERNITATEM

 

Dedicatória

A minhas filhas e netos, todo meu afeto.

****

A meus pais e irmãos, in memorian.

****

Às memórias de Luís Gonzaga,

do Padre João Câncio de Oliveira

e de Patativa do Assaré, o grande menestrel

que enternecia o sertão ao som

da viola, no seu cantar elegíaco.

****

À memória de três Arraes, para mim inesquecíveis:

Abigail, minha primeira Professora -

com ela, aprendi a soletrar.

Meu tio Enéas, símbolo de decência.

E Miguel, por seu exílio imerecido.

****

                                                                                         

             APRESENTAÇÃO

 

Foram anos de leitura e pesquisa de interpretação de uma história misteriosa, obscura, conflitante, e até hoje uma incógnita, que teve grande repercussão no Nordeste, causando impacto no clero da época. Fato ocorrido na Capela de Nossa Senhora das Dores na povoação do antigo Joaseiro, no ano de 1889, ficando  conhecida como o fenômeno da hóstia ensanguentada, passando à História como “Milagre do Juazeiro”. Desde muito jovem, essa história despertou em mim muita curiosidade e desejo de um dia escrevê-la. Li tudo que sobre ela se escreveu, desde o aparecimento do fenômeno no século passado, até o presente momento. Não sou uma historiadora, na acepção do termo, nem tenho a pretensão de ofuscar autores que dela já se ocuparam.  Pretendo aqui tão somente relembrar algumas passagens que foram distorcidas da sua realidade e evocar personagens que deram sustentação à história mística, resgatando alguns personagens nela envolvidos, sobretudo a beata Maria de Araújo, protagonista do milagre da conversão da hóstia em sangue. Lá se foram vinte anos de estudo, leitura e documentos, procurando entender esse passado numa espécie de purificação da mente, para não me contaminar com o que escreveram outros. Assim sendo, julgo este livro, a que dei o título de Padre Cícero ad etermitatem – por toda a Eternidade – isento de fantasias ou incoerências grotescas.

Seu desaparecimento, em 1934, não o fez esquecido. Padre Cícero permanece indelével na lembrança do nordestino, que o teve presente por quase um século de existência, quase todo passado no Joaseiro primitivo, quando lá chegou como Cura da minúscula e obscura povoação. Prova-o a grande peregrinação do dia 2 de novembro, atestado eloquente de que ele continua presente em suas memórias, quando uma imensa multidão toma conta das suas ruas, das suas igrejas, num vai e vem frenético, reverenciando-o com cânticos, queima de fogos e missas durante todo o dia. Talvez não seja a única no país, mas certamente a maior.

Portador de extraordinário carisma acompanhado de uma mística sagrada, a todos envolvia. Assim viveu toda sua vida, a transmitir esse halo de fé, bondade e altruísmo, passando à História. Sua personalidade envolvente, sedutora, e porque não dizer, misteriosa causava comoção a quem dele se aproximava, o que o fez inesquecível. Ele marcou uma Era. A Era Padre Cícero. Sua história é transcendental. Condutor de uma imensa massa de esquecidos e desprezados, restaurou-lhes socialmente, dando-lhes cidadania. Para os nordestinos, ele era um Deus, Profeta e Oráculo, e a eles dedico este livro, para eles, escrevi. Romeiros de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, primeiros a chegarem ao antigo Joaseiro, atraídos pelo milagre da hóstia em sangue no ano de 1889, lá ficando para sempre, hoje representados por seus descendentes. É também dos repentistas do Cordel, que o canonizaram, sublimando-o com seus versos barrocos e hiperbólicos, eternizando-o. O Jesuíta e poeta Aires de Montalvo o evocou dizendo:

        O Padre Cícero foi o maior líder natural que já deu o nosso povo.”

O carisma acompanhado de mistério envolvia a todos, e lendas se criavam em torno de sua pessoa, como a de que, ao contato de suas mãos, dos seus dedos saía um fluido divino, para outros, magnético, fazendo parar o relógio de bolso que trazia consigo. E os casos aconteceram, impressionando os ânimos. O aparecimento do fenômeno da transformação da hóstia em sangue no ano de 1889, do qual foi protagonista a célebre beata Maria de Araújo, redundou numa polêmica com o clero, causando-lhe grandes sofrimentos, que teve a duração de 45 anos. O Bispo Dom Joaquim José Vieira, titular da Diocese do Ceará à época desse fato, jamais aceitou como sendo de ordem sobrenatural, e dizia: tudo era apenas um fenômeno de efeito puramente natural. Eis o epicentro da divergência entre ele e o Bispo, um fato que abalou a Igreja e o clero do século XIX, no Ceará, e no Brasil. Cristalizado em convicção popular como milagre, o Padre Cícero sublimou, como divino, e para ele, e os que o acompanharam, um dogma.

O memorável acontecimento, até hoje uma incógnita, é a parte principal desta história contida nestas páginas, que ora entrego ao público do Nordeste. Escrita e reescrita tantas vezes, o que vale dizer, ela não é nova. Ao Bispo Dom Joaquim José Vieira coube a investigação do inusitado caso, que culminou com suspensão de todas as suas ordens e seu banimento para sempre do clero. Foi chamado à Roma, para se explicar ao Sacro Colégio, instância máxima, lá recebendo a mesma sentença, ratificando assim o que lhe havia dado o bispo do Ceará, morrendo suspenso de ordens. A lista dos seus sofrimentos é longa e impressionante. Este livro é um pequeno contributo à história religiosa do Padre Cícero, injuriado e difamado pelo clero da época, que o julgou herético e paranóico. Lembrando aos leitores que não sou uma especialista em hermenêutica, pretendi aqui, embora tarde (a mim me parece), um resgate de uma história de crueldade e perseguições que o tempo não esqueceu: refiro-me especialmente ao caso da beata Maria de Araújo e o comovente desfecho de sua história.

Apesar da complexidade do assunto, tentei interpretar o fenômeno religioso do Juazeiro por outro ângulo que não o da farsa, como dizia o clero. Por isso esperei bastante tempo para que pudesse dar vida, através de documentos não só escritos, mas também da memória coletiva, fonte da verdade. Este livro que ora entrego ao público, e que julgo imparcial, é de minha inteira responsabilidade. Ele começa pelo Joaseiro primitivo, fechando com os últimos instantes do Padre Cícero, à frente da cidade que construiu com dedicação. A lista de personagens que fizeram parte desta história grandiosa e conflitante é extensa: muitos padres, bispos, políticos de nomeada, gente do povo, leigos, beatos e beatas, num total de quase cem, são aqui citados. Três se destacaram entre os demais: o teólogo da conturbada e confusa história do Milagre, José Marrocos, classificado pelo clero como o impostor da fraude. Adiante destacarei o papel desempenhado por ele, em todo o percurso da longa e intrincada história. José Joaquim de Maria Lobo, personagem curioso e célebre no seu tempo, por ter fundado a Legião da Cruz e ter ido três vezes a Roma, sendo que, da última vez, foi recebido pelo Papa Leão XIII. O terceiro deles, Floro Bartolomeu da Costa, autor intelectual e moral da Revolução de 1913-14 do Juazeiro. Sem esquecer a importância das beatas, pelo papel expressivo e relevante que desempenharam em todo decurso dessa história conflitante e misteriosa. Destacando entre dezenas delas, a beata Maria de Araújo, protagonista do milagre da hóstia ensanguentada, com sua história de humilhação e martírio, Joana Tertuliana de Jesus (Beata Mocinha), governanta e gerenciadora das finanças da casa do Padre Cícero e da Igreja por 54 anos, e Hermínia Marques de Gouveia, uma figura emblemática, de mistério e romance, no cenário religioso do Juazeiro.

A todos que me ajudaram na realização desta obra, e para os quais tenho uma dívida de gratidão, e foram muitos, uns na obtenção de documentos, outros pelas narrativas da memória, meus agradecimentos. Sem eles, seria impossível construí-la. Um agradecimento especial à Biblioteca Nacional do Rio, à Casa do Saber, e aos que lá trabalham com paciência beneditina e elegância, e que me aturaram por anos e anos seguidos, na procura de documentos. Meu afeto especial à cidade do Rio, imponente e bela, que me inspirou em todos esses anos de trabalho na construção deste livro.

                                                 Cidade do Rio de Janeiro, outono/inverno de 2008.

A autora.

****

          SUMÁRIO

PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO 1 - JOASEIRO E SUA GÊNESE

CAPÍTULO 2 - NASCIMENTO E BATISMO DO PADRE CÍCERO

CAPÍTULO 3 - A CONSTRUÇÃO DA SEGUNDA CAPELA PELO PADRE CÍCERO

CAPÍTULO 4 - A GRANDE PEREGRINAÇÃO

CAPÍTULO 5 - O PIMEIRO INQUÉRITO

CAPÍTULO 6 - O SEGUNDO INQUÉRITO SOB A PRESIDÊNCIA DO PADRE ANTONIO ALEXANDRINO DE ALENCAR

CAPÍTULO 7 - O CETICISMO DO BISPO DOM JOAQUIM JOSÉ VIEIRA

CAPÍTULO 8 - A DEFESA DE MARROCOS E A DECISÃO DE ROMA COM SUAS IMPLICAÇÕES

CAPÍTULO 9 - ESTADA EM ROMA

CAPÍTULO 10 - MARIA DE ARAÚJO, A PROTAGONISTA DO MILAGRE: VIDENTE E ESTIGMATIZADA

CAPÍTULO 11 - JOSÉ JOAQUIM TELES MARROCOS, O TEÓLOGO DA FÉ


SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO 12 - A METAMORFOSE DO PADRE CÍCERO: MUTATIS MUTANDIS

CAPÍTULO 13 - ANOS DE 1907 A 1911

CAPÍTULO 14 - PADRE CÍCERO E OS GOVERNOS DE ANTÔNIO ACCIOLI E FRANCO RABELO

CAPÍTULO 15 - A GUERRA E SEUS EFEITOS NOCIVOS

CAPÍTULO 16 - PADRE CÍCERO, LÍDER DA MEDIAÇÃO E DO CONSENSO

CAPÍTULO 17 - JOSÉ JOAQUIM DE MARIA LOBO, FUNDADOR DA LEGIÃO DA CRUZ

CAPÍTULO 18 - DOM QUINTINO, O SUCEDÂNEO DE DOM JOAQUIM JOSÉ VIEIRA

CAPÍTULO 19 - FLORO BARTOLOMEU: UMA LIDERANÇA NACIONAL

CAPÍTULO 20 - A BEATA MOCINHA

CAPÍTULO 21 - O OCASO POLÍTICO DO PADRE CÍCERO APÓS A MORTE DE FLORO BARTOLOMEU

CAPÍTULO 22 - ÚLTIMOS PASSOS DO PADRE CÍCERO NA POLÍTICA BRASILEIRA E SEU MANIFESTO AOS NORDESTINOS 

CAPÍTULO 23 - FIM DE UMA ERA

CAPÍTULO 21 - OBSERVAÇÕES FINAIS SOBRE O JUAZEIRO E SUA ÉPPOCA

NOTAS

BIBLIOGRAFIA                                                                                                                             

                                                                                     

PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO 1

 JOASEIRO E SUA GÊNESE

Este livro, por ser um livro de etapas, tem uma cronologia, e portanto um começo, por dar vida ao sítio Joaseiro, matriz das páginas que o compõem. Joaseiro era a ortografia usada por seus moradores no princípio dos seus primórdios, e encontrada em registro, no Cartório de Notas e Ofícios da Cidade do Crato, no ano de 1815.

Nesse antigo sítio está hoje edificada a atual cidade de Juazeiro do Norte. O documento citava o Padre Pedro Ribeiro da Silva como morador e seu proprietário. Apesar de ser um descendente direto do latifundiário e detentor de título de nobreza — Brigadeiro —, Leandro Bezerra de Menezes, seu avô, seu sobrenome, Ribeiro da Silva, surpreende, por destoar do sobrenome dos seus familiares, proprietários de terras, gado e também de títulos de nobreza. Azarias Sobreira, autor do livro O Patriarca do Juazeiro, disse: seu verdadeiro nome era Pedro Ribeiro de Carvalho.

O sítio Joaseiro que, segundo consta, era de sua propriedade, porque herdeiro de sua mãe, Luísa Joana Bezerra de Menezes, filha legítima de Leandro Bezerra. O eminente historiador Padre Antônio Gomes de Araújo, aliás, autor de uma ligeira biografia sobre  o sacerdote Pedro Ribeiro da Silva, ou Monteiro, assinala que ele viveu toda sua vida no Joaseiro, onde nasceu. Sua única ausência foi quando passou a estudar no Seminário de Olinda (PE), por volta de 1790. Ordenado sacerdote, para lá voltou, permanecendo até sua morte. No seu regresso do Seminário, já como sacerdote, junto com seus tios, fundou uma modesta capelinha, para evitar que se deslocasse até o Crato, ou Missão Velha, para cumprir seus deveres religiosos, por não gozar de boa saúde.

A singela capelinha foi criada sob a égide de Nossa Senhora das Dores, cuja imagem veio de Portugal, ainda hoje existente na Igreja Matriz do Juazeiro. Daí o emérito historiador dá ao sacerdote citado o título de fundador do Juazeiro, considerando que sua construção configurava-se como os alicerces de uma futura cidade, fato que, segundo ele, ficou no esquecimento por mais de cem anos, quando o trouxe à tona.

Os antigos descreveram o sítio e seus arredores como de majestosa beleza, encravado entre as centenárias Missão Velha e Barbalha, de vegetação espessa e banhada pelo Rio Salgadinho, hoje nome de um subúrbio do atual Juazeiro.

Amália Xavier, autora do livro O Padre Cícero Que Eu Conheci, escreveu:

“O sacerdote Pedro Ribeiro ao nascer no sítio Joaseiro, já existia a Casa Grande de propriedade de seu avô, Brigadeiro Leandro Bezerra de Menezes proprietário da grande extensão de terras, que começava nos arredores do Crato, espraiando-se em direção à Serra de São Pedro, terminando na Fazenda Taboleiro Grande”.

Com tanta terra e outros bens elevados, ele dominava tudo e todos, naturalmente. Na longa história que absorve o período da estrada vicinal, ou seja, quando era apenas caminho de tropeiros, até chegar à moradia com seu primeiro morador fixo, o magnata de terras — Brigadeiro — Leandro Bezerra Monteiro, título nobiliárquico. Ali ele fundou um núcleo, construiu uma família, deixou uma grande descendência até hoje existente. Também foi ali que nasceram cinco dos seus filhos, de um total de oito, três dos quais nascidos em Sergipe, de onde era originária sua família, Bezerra de Menezes. Sua primogênita, Luísa Joana Bezerra de Menezes, era mãe do sacerdote Pedro Ribeiro, seu pai era o Sargento-mor, Sebastião Carvalho de Andrade, pernambucano. Seus tios maternos, e que o ajudaram na construção da singela capelinha, tinham títulos de nobreza: eram Capitães de Cavalaria, Tenentes-Coronéis, Cavalheiros e professos da Ordem de Cristo, da Ordem da Rosa (essa, uma das mais altas comendas do Império) e da ordem do Cruzeiro, títulos concedidos pelo Imperador.

Fica evidente, nessa exposição, que o primitivo Joaseiro foi fundado sob o signo da aristocracia rural, porque senhores de terras, gado e proprietários de engenho. Para se ter uma ideia do quanto eram poderosos, o rico Leandro Bezerra Menezes, que também era Monteiro, insurgiu-se contra os Revolucionários de 1817, do Crato, denunciando-os para o Imperador. Daí a prisão de Dona Bárbara de Alencar e seus filhos, o Padre José Martiniano de Alencar, cabeça da Revolução no Cariri, e seu tio Leonel Pereira de Alencar Rego. Padre José Martiniano de Alencar era o pai do escritor José de Alencar, nascido do seu romance com sua prima legítima, Ana Josefina de Alencar, filha legítima de Leonel Pereira de Alencar Rego. Em 1824, seu irmão Tristão Gonçalves de Alencar Araripe foi morto e decapitado, por conta da Revolução do Equador. Algemada, Dona Bárbara foi levada para Fortaleza, de lá, para os calabouços do Recife e de Salvador, onde sofreu os piores martírios. Conseguindo indulto imperial (perdão), retornou à sua cidade do Crato, refugiando-se na sua fazenda Touro, município de Campos Sales, falecendo no ano de 1832. Foi sepultada em Poço da Pedra, hoje Itaguá, mesmo município de Campos Sales. No ano de 1960, os intelectuais do Crato, nas figuras do presidente da Revista Ytaytera, Dr. José de Figueiredo Filho, do Padre Antônio Gomes de Araújo, do jornalista João Lindemberg de Aquino, acompanhados pela autora desta modesta obra, assinalaram com uma lápide o local onde foi sepultada, na centenária Igreja de Poço da Pedra. A lousa mortuária faz referência ao seu patriotismo e lembra seu martírio pela liberdade, contra o jugo português. Por seu arrojo e destemor, numa época tão remota para sonhar-se com liberdade, ela de fato foi notável, sendo aclamada heroína por Arruda Câmara, que a imortalizou dando-lhe o título de Heroína Cearense, primeira mulher a receber esse título no Brasil.

Padre Gomes foi o maior estudioso da nobre família Alencar do Crato. E nas suas pesquisas me firmo, para traçar um ligeiro histórico sobre a chegada dos Alencares ao Crato. Vindos de Portugal, ligaram-se à Casa da Torre de Garcia D´Ávilla, também recém-chegados aqui. Lá permaneceram por algum tempo, depois se transferindo para Pernambuco (Cabrobó), mais precisamente no Riacho da Brígida, de onde é natural Dona Bárbara e seus irmãos, quando se transferem definitivamente para o Crato.  Bárbara de Alencar era casada com o português João Gonçalves, comerciante no Crato.

Retorno ao Padre Pedro Ribeiro. Realmente, ele foi o construtor da singela capelinha e que merece o título de benfeitor. Sua atuação no seu sítio Joaseiro: além das obrigações religiosas, também administrava o seu patrimônio, com grande criatório de gado e animais, engenho de rapadura, melaço e aguardente. Possuía muitos escravos, e alforriando-os, recebeu deles demonstrações de afeto. Telúrico, vivia isolado no seu sítio, dali só se afastando para visitar os parentes no Crato, ou para assistir às solenidades da festa da Padroeira Nossa Senhora da Penha, cuja data, 1º de setembro, é celebrada até hoje, quando tomava parte na Procissão na Ala da Irmandade do Santíssimo Sacramento, da qual era sócio perpétuo (in Pe Gomes, doc. cit.).

Um registro deve aqui ser feito: muito antes da aristocrata família Bezerra de Menezes, porque portadores de títulos de nobreza, como vimos, o referido lugar já havia pertencido a legatários de Manoel Rodrigues Ariosa, primeiro ocupante de sesmarias naquelas paragens. Entretanto, nada edificou que aqui mereça registro (in João Brígido). Por muitos anos, o lugar foi apenas caminho de aventureiros, almocreves, que cortavam os sertões conduzindo boiadas e fazendo trocas de mercadorias. Quando foi registrado em cartório como Sítio Joaseiro, já era de propriedade de Leandro Bezerra Monteiro, e constava apenas, como já dito, da Casa Grande e ao seu redor, a senzala. Os documentos da época de 1815 a 1871 mostram que seu desenvolvimento foi mínimo, um insignificante povoado, que se compunha apenas de remanescentes do Brigadeiro Leandro e de seus escravos. O patrimônio construído pelo Padre Pedro e seus familiares constituía-se da Casa Grande, Curral de Gado, Senzala e a capelinha, deixando entrever que o lugar era simplesmente um recanto de repouso da latifundiária e milionária família, para mais de perto administrar seus bens, e nunca no intuito de transformar o pequeno povoado, como fez o Padre Cícero ao chegar lá. Espessa vegetação, com destaque para os Joaseiros sempre verdes, proporcionava aos transeuntes sombra permanente, tornando-se em ponto de encontro para os solitários viajantes. Imortalizados, deram nome à povoação, hoje a grande cidade de Juazeiro. Nos seus primórdios, como vimos acima, grafava-se Joaseiro. Depois, quando lá já morava o Padre Cícero, passou a designar-se de Joazeiro do Padre Cícero, mais tarde Joazeiro do Cariri, e por pouco tempo Cicerópolis, o que deveria ter ficado para sempre, porém não foi. Parecia que as épocas designavam os nomes, mudando sempre a grafia, chegando por fim a Juazeiro do Norte, cuja grafia farei uso daqui em diante. Iniciando por esse histórico da História do Juazeiro antigo, não seria possível descrevê-lo, sem reconstituir sua gênese. Eis porque a abordagem relâmpago em torno da figura humana do Padre Pedro Ribeiro da Silva, e de seu avô, o primeiro morador, em ordem cronológica, do sítio Juazeiro.

Além de latifundiários, eles foram representantes do protetorado e do clã Caririense, que dominaram e continuam a dominar o Cariri pelas posições de relevo que ocupam na política, no comércio, nas letras, nas artes, os Bezerra de Menezes, que formaram uma grande e quase única família, dado o entrelaçamento pelo casamento com outras famílias de posição social do Cariri, como: os Teles, os Pinheiros, os Gonçalves, os Sobreiras, estes cofundadores do lugar, os Correia de Macedo, os Esmeraldos e  os Alencares, destacando-se a personalidade inconfundível do Capitão Domingos Gonçalves Martins, bisavô paterno do eminente Padre Manoel Macedo, e tantas outras. Ainda de acordo com o historiador e genealogista Padre Antônio Gomes, que esquadrinhava os escaninhos poeirentos do passado, o Padre Pedro Monteiro de Carvalho, ou Ribeiro da Silva, foi ordenado por volta de 1813, porque, em 1815, sua assinatura já constava no Livro de Registros da Matriz do Crato, dando conta da sua atuação como membro perpétuo da Irmandade do Santíssimo Sacramento do Crato. O cálculo aproximado do historiador é que ele tenha sido ordenado aos 22 ou 23 anos de idade.

Seu sítio Juazeiro, como já escrito, era um cartão postal de beleza, por sua exuberância, com uma vegetação que cobria toda a extensão do quadrante de sua propriedade, onde nasceu e viveu toda sua vida. Nesse paraíso de tranquilidade e beleza, faleceu aos 54 anos, rodeado por seus familiares e escravos. Com a edificação da Casa Grande de Leandro Bezerra de Menezes, antes de existir o sítio propriamente dito, era caminho limítrofe para outros estados, tornando-se então num ponto de encontro de boiadeiros e tropeiros, partindo naturalmente do Piauí, com suas boiadas, onde, segundo a autoridade de Therbérge, existia grande criatório de gado, decorrente da Bandeira de Garcia D’Ávilla, fundador da Casa da Torre (BA), e que, arrostando toda sorte de intempéries, rasgaram os sertões, partindo da Bahia, margeando o rio São Francisco via rio das Velhas até o alto sertão pernambucano de Cabrobó. De lá, tomavam o caminho do Piauí, chegando a Oeiras, muitos anos depois, primeira capital do Piauí.

Garcia DÁvilla foi o maior latifundiário do Brasil. Suas terras começavam na Bahia, onde fundou a casa da Torre, chegando até o Piauí (Oeiras), num raio de 1200 km. Conduzindo boiadas, ou tropas de burros, os almocreves, ou cargueiros, foram os comerciantes dessa remota era, praticando o escambo - a troca da moeda por gêneros diversificados, rapadura, farinha, carne seca, azeite para candeeiros. Sombra, brisa fresca e água perene de suas fontes eram um convite à parada para a sesta do meio-dia, dada a inclemência do tempo, verdadeira fornalha, ou em noites amenas de inverno, frescas e enluaradas, tendo como fundo a contornar esse cartão postal a altaneira Serra do Araripe.

Esse painel deslumbrante da outrora Serra do Araripe, de natureza exuberante, terminou por se constituir num ponto de encontro, pelo conforto das sombras de suas frondosas árvores, com destaque para os Juazeiros sempre verdes, e da água de suas fontes perenes. Parada obrigatória desses viajantes solitários que por lá transitavam, tornou-se num ponto de referência para esses encontros, diz Amália Xavier (op.cit.) Desse intercâmbio mais tarde surgiram as feiras, pelo ajuntamento de pessoas que se criaram em torno delas. A troca de mercadorias e de animais eram os principais produtos encontrados. Em escala ascendente, elas foram se tornando fixas, desenvolvendo-se, permanecendo até hoje, apesar da evolução do mundo, com seus shoppings luxuosos, televisão, cinema e outros entretenimentos da era moderna, mesmo assim elas conseguiram sobreviver. Para o interiorano, as feiras eram de grande valia, porque além de lhes oferecer negócios, proporcionavam talvez o mais importante de tudo: o congraçamento das famílias, pelo encontro sentimental que se realizava entre parentes e amigos que moravam distantes um do outro. Atraídos não só pelas compras, mas também pelo saudosismo, na esperança do reencontro com o parente, o compadre, o amigo. A conversa entre os saudosistas não mudava, eram sempre as mesmas: a ausência chorada do parente que se mudou, o reencontro com o compadre que esbanjava alegria por rever o amigo, a notícia do nascimento do neto, e o casamento do filho, que não deu certo; o desaparecimento de entes queridos às vezes de maneira trágica, a saúde da família; os bois que se extraviaram, os animais roubados, a perseguição do dono da terra. A arruaça dos bebedores de aguardente, a história do lobisomem, entidade fictícia; e não tão distante, o medo de Lampião e seu bando, com suas histórias aterrorizantes. Enfim, a temática principal para fechar o tão sonhado encontro — a seca. Raras vezes, o inverno.

As feiras ganharam enorme dimensão em todo o Nordeste. Solidificadas, ficaram famosas e conhecidas nacionalmente, como as de Caruaru, Campina Grande, Crato e do hoje Juazeiro, pela variedade que elas oferecem ao visitante, com suas comidas típicas e artesanatos primorosos; folhagens para chás, indicados para achaques e banhos, vulgarmente conhecidos por banho-de-cheiro, que se espalhou Brasil afora, até mesmo para os grandes centros. A literatura do cordel se faz presente em pequenos folhetos, onde ficção e realidade se misturam. Apesar de todo o avanço da modernidade e do aparato tecnológico do presente, ela permanece na cadência dos seus versos lúgubres, ou alegres, que o nordestino herdou dos provençais da Península Ibérica, conseguindo preservar o rico filão popular, que encanta. Gerações e gerações fazem parte da rica literatura. Na Paraíba, ficou a lembrança indelével de Inácio da Catingueira, no começo do fim de século XX, numa peleja que durou 70 horas, para uns, outros chegam ao exagero de dizer 15 dias.

Fechando este Capítulo dos primórdios do Joaseiro antigo, volto ao Padre Pedro Ribeiro. Tudo leva a crer que era mesmo um gregário e acomodado, chegando quase à apatia. Traçando seu perfil, o Padre Gomes diz: “ele era um desprendido. Nunca optou por ser o capelão da localidade, o que certamente teria sido, dado o prestígio do seu avô, o citado Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro”. Ainda de acordo com Amália Xavier (op.cit.), o Brigadeiro Leandro Bezerra era descendente direto de Caramuru e Catarina Paraguassú, décima geração. No entanto, nos escritos do Padre Gomes, o maior genealogista e estudioso da heráldica no Ceará, nada consta.

Padre Pedro Ribeiro, ou Monteiro de Carvalho, ao morrer a 9 de setembro de 1833, deixou uma imensa fortuna em gado, terras e prataria, além de doze escravos. Seu sítio Joaseiro foi avaliado em 2:800$00 contos de réis, verdadeira fortuna para a época. A metade de seus bens, ele doou em testamento à Padroeira Nossa Senhora das Dores. Seus restos mortais estão sepultados no solo da antiga capelinha por ele edificada, mesmo local onde hoje se ergue a imponente Igreja Matriz. Com sua morte, sucederam-lhe cinco capelães, conforme registros das Igrejas de Missão Velha e Crato. Destes, um se destacou entre os demais, pelo lado da cultura e do civismo: o Padre Antônio de Almeida, que além de primeiro professor da localidade, deixou escrito do seu próprio punho um Manual de Lições Elementares de Lógica para o Primeiro Ensino, e também por ter sido um dos participantes da Guerra do Paraguai, como voluntário, prestando relevantes serviços ao País, quando financiou do seu próprio bolso o pelotão do Cariri, que tomou parte na guerra. Esse sacerdote era natural de Tauá (CE). De acordo com as crônicas locais, não houve arbitrariedade na formação do batalhão, como por exemplo, o do alistamento forçado. De regresso ao Ceará, não chegaria mais ao Juazeiro, falecendo no Estado do Maranhão.

Com a retirada do Padre Pedro Ferreira de Melo, quinto capelão da localidade, estando vaga a capelania, foi convidado para assumi-la o Padre Cícero Romão Batista, e é dele que me ocuparei d’ora em diante.

****

                                                 

CAPÍTULO 2

 NASCIMENTO E BATISMO DO PADRE CÍCERO

 

Nasceu no Crato aos 24 de março do ano de 1844. Era filho legítimo de Joaquim Romão Batista e Dona Joaquina Vicência Romana, mais conhecida pela alcunha de Dona Quinô. Grande foi o contentamento dos pais, por ter nascido um varão, escreveu o autor de Mito e Realidade, Otacílio Anselmo e Silva. Eles, que já tinham duas filhas, Maria Angélica Romana (Mariquinha) e Angélica Maria Romana. Batizou-se na Igreja de Nossa Senhora da Penha, aos 8 dias do mês de abril, portanto, quinze dias depois do seu nascimento. Tendo por padrinho seu avô paterno, o Capitão de Cavalaria Romão José Batista, representante da nobreza cratense, e sua tia materna, Antônia Ferreira Castão. Os ancestrais do futuro Padre Cícero, via paterna, não eram ricos, mas tinham nobilus ortus, isto é linhagem, que segundo a autoridade do medievalista George Duby, nos séculos XVIII, XIX, contava mais do que riqueza ou poder (1980, pag. 59).

Foi oficiante do ato o vigário da Freguesia, Manoel Joaquim Aires do Nascimento, que, conforme a tradição da época, solenizou-a, porque cheia de circunstância: usando uma pomposa “capa de asperge”, levando o recém-batizado até a residência de seus pais, fato inédito para a época. O recém-nascido era alvo, de cabelos louros e olhos azuis. Mais tarde, esses olhos azuis e penetrantes tornaram-se parte integrante da sua personalidade envolvente e fascinante. Suas duas irmãs, Maria Angélica e Angélica Maria Romana, morreram adultas e solteiras, portanto, não há descendência em linha direta do Padre Cícero. Nascido numa família de origem portuguesa, pelo lado paterno, extremamente religiosa e de bons costumes. Sua mãe, segundo dizia, tinha ancestrais indígenas. Restritas são as informações de sua vida dos cinco aos 16 anos de idade. O que restou foram pequenos fragmentos que a tradição oral guardou, passada ao público por seus familiares, sua mãe e a ex-escrava Teresa de Jesus. Sabe-se que ele foi matriculado na escola do professor Rufino de Alcântara Montezuma, aos seis anos de idade, caso de precocidade para a época, como também sua primeira comunhão aos sete anos. Embora, na época, não fosse permitido a menores de 10 anos receber a comunhão, de acordo com a Bula do Papa Pio IX.

Os sucessores do seu primeiro professor, os irmãos Jesuíno e Laurênio Brizênio da Silva Garrido, o tinham como um menino precoce, de rara inteligência. Azarias Sobreira comenta: “nessa escola, ele deu de chegar atrasado, o que fez o mestre-escola levar ao conhecimento de seus pais, que surpreenderam-se com o fato, admirando-se, pois todos os dias ele obedecia rigorosamente ao mesmo horário de saída de casa”. Trataram então de averiguar. Foi quando descobriram que ele se deixava ficar por horas a fio na Igreja Matriz, de altar em altar, a contemplar os santos. Outras vezes era visto na botica de Benedito da Silva Garrido, a ouvir as conversas dos intelectuais da terra. Essas farmácias, também chamadas de boticas, reuniam a fina flor da sociedade local. Lá se discutia os fatos da política brasileira, não sem atraso, pois a notícia só chegava através dos vendedores ambulantes. Mas o grosso da conversa girava mesmo era em torno dos fatos gloriosos do Cariri. Daí, o seu gosto pela História, e, complementa o autor de O Patriarca do Juazeiro: “Mas ele era apenas um ouvinte, já que aquela época não era permitido a crianças tomarem parte na conversação de adultos.”

Sua última escola no Crato foi a do Padre João Marrocos Teles, exímio latinista. Em seguida, foi estudar em Cajazeiras (PB) no ano de 1860 no Colégio do Padre Rolim, educandário de tradição por onde passaram dezenas de pessoas que mais tarde se notabilizaram. Memória privilegiada, desse período nada esqueceu: será que já se sentia um predestinado, um ser diferente, ou coisa que o valha? Confiando na memória, tudo registrou. Mais tarde, elas serviram de tema para suas longas palestras, e também para sua primeira biografia, escrita após sua morte, pelo Dr. Manoel Diniz (Mistérios do Joazeiro, ano de 1935), considerado o biógrafo oficial do Padre Cícero.

No educandário em Cajazeiras, teve como colega Joaquim Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque, que depois seria o primeiro Cardeal da América Latina. Quando ainda era aluno do Padre Rolim, falece seu pai, Joaquim Romão Batista, no ano de 1862, vitimado pelo cólera-morbus, que assolou o Cariri de ponta a ponta. Ele próprio uma vítima do mal, detalhe que jamais esqueceu e sempre estava a recordar, em palestras com amigos. O contágio se espalhava rapidamente, fazendo óbitos, causando pavor; os próprios familiares das vítimas não mantinham contato com o doente, o medo dominava todos. As pessoas vitimadas pelo mal, em poucos dias ficavam reduzidas a esqueleto, porque suas carnes corroídas pelo mal grangrenavam (morte do tecido) transformando-se em água. Vinte e quatro horas era tudo de que dispunham para não morrer, conforme relatos da época. No Crato, foi construído às pressas um cemitério só para sepultamento dessas vítimas do mal, a fim de evitar a proliferação, escreveu Tomaz Pompeu de Souza Brasil, em O Ceará na Independência do Brasil.

Órfão aos 18 anos, o trauma o marcou, pois além da perda física do pai, ficou sem condição financeira de voltar aos estudos em Cajazeiras (PB). Joaquim Romão Batista era um médio comerciante. Ao falecer repentinamente, deixou dívidas, nas praças do Recife e Fortaleza, ficando para a família o ter que honrar essas dívidas. Cabendo ao jovem rapazito – expressão usada por Azarias Sobreira – cuidar da mãe, das irmãs e da ex-escrava Teresa de Jesus, para quem ele era o seu “Sinhozinho”, escreveu Edmar Morel, em Padre Cícero, o Santo do Juazeiro. Dona Quinô, mulher simples, voltada para os afazeres domésticos, de pouco estudo, ou nenhum, segundo muitos autores, mas equilibrada o suficiente para comandar os filhos com retidão e dignidade, dando-lhes uma boa educação doméstica, que se traduz na pessoa do Padre Cícero.

O desaparecimento inesperado de seu pai, além de o deixar amargurado, trouxe-lhe apreensão e dúvida quanto ao seu destino, por tornar impraticável seu retorno aos estudos em Cajazeiras (PB). Abatido e triste por ver-se sem recursos para enfrentar as despesas do colégio, o que o deixava amargurado, preocupava-o ter que responder pelas dívidas, que eram grandes para a época, e de finanças nada entendia. Nesse impasse de desilusão e dúvida, uma noite, depois de muito rezar e pedir a Deus que o ajudasse naquela emergência, segundo dizia, sonhou com seu falecido pai, cujo sonho, mais visão que propriamente sonho, foi registrado por Manoel Diniz, já aqui citado. Eis o que dizia:

“Uma noite, já estando deitado e entre cochilando e acordado, ouvi passos vindo em minha direção. Erguendo-me da rede onde me encontrava, vi acercar-se de mim a figura de meu pai, que assim falou-me: ‘Cícero, não abandones teus livros, continua a estudar e Deus dará um jeito para prosseguires nos teus estudos’. Em seguida, a sombra desapareceu, deixando-me em estado de perplexidade. Sua imagem, no entanto, permanecia em minha retina, e não mais consegui conciliar o sono, naquela noite. Ao levantar- me pela manhã procurei minha mãe, que já se encontrava de pé, e contei-lhe o ocorrido. Ela me ouviu, dizendo-me para não me preocupar porque tudo seria resolvido a partir dali. E assim foi. No mesmo dia, procurou meu padrinho de crisma, Coronel Antônio Luís, Intendente do Crato, relatando o fato. Ele, ciente do meu abatimento, prometeu que dali para frente tomaria para si o encargo de responsabilizar-se por meus estudos, e fez. Só assim pude retornar a Cajazeiras, reiniciando os estudos interrompidos durante quase um ano. Pouco depois, fui para Fortaleza, onde, com sua ajuda e por mercê de Deus, depois de seis anos de seminário, fui feito sacerdote”.

O Seminário, fundado por Dom Luís Antônio dos Santos, primeiro Bispo do Ceará, com o auxílio do Barão de Aratanha, que colaborou com numerário para sua conclusão, foi inaugurado em 1865, quando teve início seu funcionamento, de acordo com os escritos do Monsenhor Quinderé, na sua História Eclesiástica do Ceará. Portanto, Padre Cícero foi aluno da primeira turma do notável estabelecimento, matriculado sob o nº 55. Dela fazia parte pessoas que depois se notabilizaram pelo saber e pelo caráter, como: Agapito dos Santos, José Lourenço da Costa Aguiar, mais tarde Bispo do Pará, o imortal Capistrano de Abreu, e seu primo e grande amigo, José Teles Marrocos, cuja amizade foi decisiva para sua personalidade religiosa, marcada pelos acontecimentos de 1889, no Juazeiro. Durante sua estada no Seminário, fatos estranhos lhe aconteceram, escreveu seu biógrafo, Azarias Sobreira. Muitas vezes, era visto dormindo nos corredores da Casa depois de noites acordado, no afã da leitura. Certa vez, a turma foi a um banho de mar; num mergulho ele submerge e não volta à tona. Os colegas já o davam por morto. Depois de 10 minutos de espera e aflição, quando já se preparavam para deixar o local e levar a notícia ao Reitor, ele reaparece, causando espanto. Nascia ali o mito. Mito que o acompanhou por toda sua vida. A notícia correu veloz entre os internos, chegando ao Reitor Chevalier, que já o vinha observando por suas posições, contrárias à teologia dos padres lazaristas, professores do seminário, sobre aparecimento de sangue em hóstias consagradas. Numa aula de teologia os ânimos se acirraram, tendo o reitor levado o caso ao bispo, dizendo que, se ordenado, ele iria trazer graves consequências ao clero, por suas ideias confusas. A citação é do autor de Mito e Realidade (op.cit), que escreveu: “sua ordenação foi retardada por dois anos, e só com a interferência do seu padrinho de crisma, o já citado Antônio Luís, grande amigo do Bispo, Dom Luís Antônio dos Santos, foi ordenado aos 30 de novembro de 1870”.

Ordenado, retornou à sua cidade natal, o Crato, para celebrar sua primeira missa na Igreja-Matriz de Nossa Senhora da Penha, lotada por parentes e amigos, com repique de sino e com a presença ainda do Vigário que o batizara, Manoel Joaquim Aires do Nascimento. Por esse relato, pode-se deduzir da alegria de sua família, por contar com um sacerdote no seu seio – à época, o sacerdócio abria caminho para a ascensão social da família, e o clérigo passava a ter autoridade não só religiosa, também política. Sua permanência no Crato foi rápida, retornando outra vez à Fortaleza, quando foi nomeado para assumir sua primeira missão como vigário de Trairi, atualmente Paracatu. Aí também sua passagem foi efêmera, retornando outra vez ao Crato.

Fixando residência na sua terra natal, passou a lecionar latim no Colégio Venerável Ibiapina, fundado e dirigido pelo ex-seminarista José Marrocos, desligado do Seminário já diácono, por sustentar os mesmos pontos de vista do seu primo e grande amigo, o seminarista Cícero. Inseparáveis, os dois caminhariam juntos por toda vida. Marrocos foi, de fato, seu braço direito, na tumultuada Questão Religiosa do Juazeiro, tomando a si o encargo de discutir teologicamente o inusitado e confuso caso do sangue nas hóstias recebidas pela beata Maria de Araújo. Teólogo da causa, e peça-chave da intricada questão, até hoje um mistério nunca desvendado, ele foi sem dúvida o principal personagem dessa rica história de mistério, de dúvida, de afirmativa, de controvérsia. Profundamente místico, sua ardente fé no Milagre da Hóstia ensanguentada envolvia a todos. Dele voltarei a falar nos capítulos seguintes.

Em 1871, não existindo Capelão no povoado do Joazeiro, o Padre Cícero foi convidado pelos irmãos mestres-escola, Simeão Correia de Macedo e Pedro Correia, a celebrar o Natal daquele ano. Este Natal marcaria para ele o desdobramento de toda sua vida, por espaço de 64 anos consecutivos. Passado o clima festivo da grande noite, os moradores insistem para que lá fosse morar. Convite recusado, seu desejo era voltar à Fortaleza, na esperança de ser professor do Seminário da Prainha, cargo que exercera quando seminarista. Mas não os desanima, e aos domingos e dias santificados, lá voltava para celebrar, atendendo à solicitação dos moradores, alguns aparentados com ele, como o próprio mestre-escola. E foi numa dessas suas estadas por lá, que depois de um dia cansativo de confissões, missas e orações, principalmente a do Rosário – era um rezador compulsivo, asseguram os que com ele conviveram, como também tinha por hábito dormir viajando a cavalo, ou conversando, e até celebrando missa, disse o Padre Quintino depois Bispo –, naquele dia, sentindo-se cansado, preferiu pernoitar na localidade, como sempre fazia, hospedando-se na casa que servia de escola, e que lhe era emprestada durante sua estada ali.

Naquela noite, exausto pelo número de fiéis que ouvira em confissão, entre cochilando e acordado, segundo suas próprias palavras, teve uma visão. Tudo leva a crer que o Padre Cícero era dado a visões e sonhos cósmicos: o citado Manoel Diniz registra em sua biografia que ele experimentava do processo de ubiquidade, isto é, estando em vários lugares ao mesmo tempo, detalhe que seus íntimos sabiam. A visão daquela noite, ele guardou para sempre, jamais a esquecendo, e sempre mencionada em suas palestras com visitantes e amigos. Manoel Diniz foi o primeiro a registrar essa passagem de sua vida, porque autor de sua primeira biografia escrita após sua morte. Seguiram-se outros copistas e aqui reproduzida mais uma vez. Eis o que dizia:

“Naquela noite, como de costume recolhi-me muito cedo, embora não conseguisse conciliar o sono, talvez pelo cansaço que se apoderava de mim. De repente fui arrebatado por uma visão, que se desdobrava aos meus olhos, deixando-me como que dominado. Na sala contígua ao quarto em que me encontrava, vi entrar uma comitiva de pessoas que a princípio não reconheci; adentrando a sala, vão tomando assento ao redor da mesa do Mestre-escola. Em meio a eles, um se destacava dos demais, ficando de pé, quando teve início um diálogo, numa língua que também não compreendia. Estranhando aquilo tudo, instantes depois reconheci serem os doze Apóstolos, acompanhados do Coração de Jesus, que continuava de pé. Terminado o diálogo com os companheiros, este que permanecia de pé, e tinha certeza ser o Coração de Jesus, volta-se para mim e profere as seguintes palavras, num tom apocalíptico: ‘— Eu estou muito magoado com que os homens me têm feito. Se não se corrigirem, acabarei o mundo. Quanto a ti, toma conta destes’, apontando o dedo em direção ao pátio da capelinha que ficava a poucos metros dali. Num estado de perplexidade e êxtase, quando parecia estar em outra dimensão, vi, no pátio da capelinha, uma multidão das mais diversas pessoas em estado de miséria, à semelhança de retirantes das secas em trajes rotos, esfarrapados e pés descalços”.

Esse sonho, ele tinha como uma revelação do Alto, uma ordem divina para que tomasse conta daquele povo. Eis aí o processo de bilocação, comentada por Manoel Diniz (op.cit). Jamais o esquecendo, sempre fazia alusão em palestras com amigos e jornalistas, descrevendo o cenário numa visão comovedora, interpretando como o anúncio de sua designação para capelão do Juazeiro. E foi pensando assim que pouco tempo depois lá chegou, para definitivamente fixar residência, acompanhado dos seus familiares, sua mãe, duas irmãs e a ex-escrava Teresa de Jesus, aos 11 de abril de 1872.

Crendo definitivamente nesse sonho, ou visão, o Padre Cícero se julgava um predestinado, ou, como Santo Agostinho, baseava seu pensamento na onipotência divina? Seria reflexo do seu espírito eminentemente místico, produto da atmosfera mística na qual nasceu, viveu e morreu? Daí as sequências das suas visões, dos seus sonhos? O Coração de Jesus, que durante toda sua vida dizia ter visto naquele sonho, tornou-se para ele um símbolo, como símbolo também era o seu olhar, que a todos encantava. Numa quase obsessão, a presença do Coração de Jesus estava, para ele, em todos os lugares, tanto que, em várias passagens do seu depoimento ao Bispo Dom Joaquim na rumorosa Questão Religiosa do Juazeiro, ele cita diálogos que tivera com o Cristo, e dizia: na hóstia ensanguentada, ela tomava proporções diferentes, formando um coração sangrando, cujo fato foi presenciado por milhares de pessoas, como atestam os documentos da época. A devoção ao Coração de Jesus, ele trazia visceralmente entranhada, desde os tempos de seminarista, pela fé dos padres lazaristas, que disseminaram por aqui a devoção, já conhecida em outros países da Europa, como França, Espanha e Portugal, depois de ter sido ratificada pelo Papa Pio IX no ano de 1850, segundo a autoridade do insigne medievalista Jacques Le Goff, em História e Memória.

Ao chegar ao primitivo Joaseiro quase nada existia, segundo Azarias Sobreira e Amália Xavier (idem), que registraram 50 a 60 casas – era o patrimônio da rústica e pobre povoação. Casas de taipa e chão batido, com cobertura de palha de carnaúba, algumas de alvenaria – estas, pertenciam aos proprietários de terras descendentes dos antigos moradores, os Correia de Macedo, os Gonçalves Sobreira. O restante era de descendentes de nativos e um percentual irrisório de negros que provinham da senzala do Padre Pedro Ribeiro, ou Monteiro de Carvalho, e do seu avô, Leandro Bezerra de Menezes e Monteiro. Em meio a estes, encontrava-se o pai da beata Maria de Araújo, Padre Gomes (doc. cit.). Ela, que será bastante citada aqui, não só por ter sido protagonista do fenômeno da Hóstia Ensanguentada, mas por ter sido incriminada pelo clero como farsante do misterioso caso, até hoje uma incógnita, e principalmente por seus sofrimentos, que extrapolaram o natural das coisas.

O tempestuoso e turbulento caso trouxe infinito sofrimento ao Padre Cícero, que amargou um processo vexatório, culminando com sua suspensão de ordens, e à beata, humilhação e martírio. À época, o Padre Cícero era portador de um grande desprendimento do mundo, que o caracterizava como um místico, catequista, praticante de jejum. Implantou, naquele meio rústico, a devoção à reza do Rosário, sendo ele o pioneiro no Cariri, especialmente no Juazeiro, a disseminar a devoção. Todos os seus moradores e, mais tarde, os que lá chegaram atraídos pelo fenômeno, passaram a usar no pescoço o rosário, de contas azuis e brancas, costume passado de geração a geração.

Ao chegar ao Juazeiro tinha apenas 28 anos de idade. Inteligente e elegante, aventurou-se a viver ali quando nada existia, senão a beleza paradisíaca do lugar, por todos tão decantada. Viajantes ilustres que por lá passavam eram tocados por sua bela paisagem, e referiam-se a ela como obra de Deus. George Gardner, naturalista inglês de passagem para a Amazônia, traçou um perfil de sua beleza natural, encantado com sua vegetação, com seus pássaros, para ele exóticos, suas nascentes de águas puras e cristalinas. Entretanto, não deixou de observar o espírito de beligerância dos seus moradores, que a bela paisagem em nada os sensibilizava, por guerrearem-se entre si.

Em 1862, Souza Brasil, deslumbrado com a magnífica paisagem escreveu: “O Vale do Cariri é um verdadeiro oásis, como aquele da Líbia, para onde acorrem os árabes do deserto”. Essa deslumbrante paisagem também mereceu do Monsenhor Monteiro grandes elogios. Numa carta endereçada a um seu colega de São Paulo, descreveu o Vale como recanto abençoado e divino, onde se fica mais perto de Deus. Parecia o Monsenhor ter a visão do paraíso ao descrevê-lo. Classificando-o de paraíso celestial, terminava numa exaltação em Ode ao Juazeiro.

A descrição do Monsenhor Monteiro leva o destaque de ter sido, tempos depois, o lugar escolhido para o acontecimento grandioso e sem par na história cearense, em cujo seio se processou o fenômeno sócio-religioso. Altruísmo, espírito de religiosidade coadjuvado pelo alto grau de misticismo justifica, sem dúvida alguma, a missão do Padre Cícero no Juazeiro. Em lá chegando, ele inicia o seu apostolado pelo ensino do Catecismo, pela leitura dos Evangelhos, pela reza do Rosário.

O escritor Irineu Pinheiro, in Efemérides do Cariri, retratou matematicamente seus primeiros dias no lugar, dizendo:

“O Padre Cícero dá início ao seu apostolado em Juazeiro; extenuado, vivia sob duro jejum, alimentava-se mal e em horas incertas, atendia aos fiéis a qualquer hora do dia ou da noite aonde quer que o chamassem. Não aceitava dinheiro pelos serviços religiosos, mantinha-se com donativos ofertados pelos fiéis, ficava no confessionário, até altas horas, só o deixando depois de ouvir o último penitente.”

Aí o perfil dos seus primeiros anos no pequeno povoado. Mais tarde, deixaria de ser um asceta, mudando radicalmente, quando foi levado de roldão pelos acontecimentos extraordinários da conversão da hóstia em sangue, recebida pela beata Maria de Araújo, fato que convulsionou todo o Nordeste, causando comoção e impacto no clero do Ceará. Fugindo à regra da época, não fazia sermões exaltados, limitava-se a uma conversa objetiva, recheada de conselhos paternais e amoráveis, num linguajar popular, numa perfeita catequese adequada ao meio, ao grau de compreensão daquele rústico auditório que o ouvia, e que ele tão bem sabia dominar e empolgar. Eram verdadeiros códigos de ética, dominados pela lei do amor, ensinados por Jesus. Cumpria assim, à risca, o Cristianismo primitivo, baseado na essência do amor.

Ociosidade, jogatina e bebedeira faziam parte do cenário da primitiva povoação. Nos finais de semana, o cenário era contagiante, com a batucada nos terreiros ao som da concertina e reco-reco. Quase sempre, a festança terminava em briga e morte pelos bandos rivais, que se digladiavam. Informado destes acontecimentos sangrentos, resolveu ver de perto a animação que se prolongava noite a dentro. Com um grande chapéu de palha à cabeça e o seu inseparável cajado, ele adentra a noite em direção ao Beco Novo, tradicional reduto de bebedores e sambistas. Ao chegar sozinho ali, de surpresa, e para surpresa de todos, encontra bêbada a mundana Francisca Belmira, piauiense de Oeiras, filha de portugueses radicada no então Joaseiro. É possível que Francisca Belmira tenha chegado ao povoado com os boiadeiros em trânsito. Bastante conhecida no meio por sua beleza e sua vida devassa, seus atributos de exímia dançarina tornaram-na figura de destaque. Naquela noite, ela cantava e bailava ao som do ritmo alegre da concertina e do pandeiro, em requebros lascivos, a sextilha que a tornaria famosa:

São quatro menina

São quatro fulô

São quatro umbigada

Bonita que dou

Quando eu quero, quero,

Quando eu quero é já.

Ao ver o Padre, a dançarina emudeceu. Acercando-se dela, ele perguntou-lhe: “O que queres mulher?”. Ela, fixando-o, e em prantos, respondeu-lhe: “Quero me confessar!”. E ali mesmo ajoelhou-se aos pés do sacerdote, prometendo regenerar-se.

Edmar Morel, comentando o fato no seu livro Padre Cícero, O Santo do Juazeiro, escreveu: “Regenerada, e cercada pelo respeito público, faleceu aos 85 anos de idade”. Francisca Belmira dançava a umbigada ou o lundu, danças que escandalizaram os estrangeiros que passaram por Salvador em 1840, definindo como uma prefixação do sexo. Essa dança foi implantada na Bahia por negros bantos trazidos da África, espalhandando-se pelo Nordeste (Antonio Risério em Uma História da Cidade da Bahia). A regeneração da mundana Francisca Belmira configurou-se, aos olhos do sertanejo, como um verdadeiro milagre. A notícia espalhou-se. A partir daquela noite, o padre franzino, de maneiras suaves, de olhos azuis profundos e de fala simples e modesta como a de Savonarola, mas que tinha um poder alquímico de transformar vidas, ganhou prestígio e notoriedade, sertão a dentro.

Marcado de profunda religiosidade, admirador de São Francisco de Assis, de São Malaquias, que foi Bispo da Irlanda no século XII, e faziam parte das suas meditações, escreveu Azarias Sobreira (op.cit.) Diz ainda o mesmo autor que ele saíra do Seminário profundamente impressionado com as leituras que lá se fazia da vida do Padre João Maria Vianey, o Cura d’Ars.

São Francisco de Salles foi modelo para ele. Aos 12 anos de idade, fez voto de castidade, virtude que considerava sagrada e que firme levou até seus últimos dias terrenos. Impregnado de tanta fé e religiosidade, ele prossegue no seu apostolado, ao mesmo tempo em que vai imprimindo uma nova feição ao lugarejo, abrindo ruas e numerando-as, inaugurando escola de alfabetização, incentivando o plantio, já que os moradores do Juazeiro eram rurais, sem esquecer de ensinar-lhes o ofício da carpintaria e o de pedreiro.

Estimulando o desenvolvimento do ser humano, por ser um verdadeiro humanista, acreditava na capacidade de desenvolvimento daqueles a cuja guarda se dedicou com amor. Despertava para o camponês inculto e subserviente uma outra visão de vida, qual fosse, de liberdade de pensamento e de ação. Inaugurava-se então, no pequeno e obscuro Juazeiro, o direito de cidadania pelo Padre Cícero Romão Batista, que construiu naquele isolacionismo uma sociedade unida e fraterna que se impôs e marcou uma Era. Daí a admiração e amizade que a outrora comunidade subserviente aos senhores de terras passou a devotar ao padre simples, que ensinava respeito e direitos de ação. Ouvindo-os atentamente, sentiam-se alguém, publicamente diziam jamais por lá ter passado um padre igual a ele. Sua forte tendência ao misticismo era uma realidade, mas quem, no Cariri daquela época, não o era? A herança era atávica, deixada pelos frades itinerantes, os chamados Barbadinhos, pregadores de Missões, que com os seus sermões apocalípticos, exageravam na doutrina da escatologia, do niilismo, pregando a condenação eterna pelo pecado cometido, desenhando um Deus colérico e vingativo, incapaz de perdoar, no qual a massa acreditava fervorosamente. As profecias de Frei Vittal de Frascarolo jamais foram esquecidas, bem assim as do Padre Mestre, Frei Ibiapina. Suas vidas austeras serviam de parâmetro para aquela sociedade, lembranças que persistiam na memória religiosa do Vale do Cariri através  dos escritos do professor José Marrocos, que fundou o Jornal denominado A Voz da Religião, nele exaltando os feitos do Padre Ibiapina, sua vida de asceta e sua misteriosa conversão, depois de ter renunciado à cadeira de Deputado Provincial e também à banca de advogado bem sucedido.

Além da religiosidade do Frei Ibiapina, eram divulgadas também no referido jornal suas realizações, quase impossíveis, porque sozinho e sem auxílio do Governo Imperial. Ele percorreu a pé todo o Nordeste, construindo escolas, igrejas, cemitérios, barragens e açudes, numa região castigada pelas secas, a fim de fixar o sertanejo ao seu meio, evitando assim a emigração. Foi o fundador das célebres Casas de Caridade, que abrigavam moças que quisessem ser freiras, onde recebiam hábito, cortavam os cabelos e usavam véu. Mantinha ainda a clausura, seguindo a ordem dos conventos. Por isso, o Cariri foi pródigo em beatas, como veremos no decorrer deste livro. Frei Ibiapina nunca recebeu o apoio do Bispo Dom Luís Antônio dos Santos, que impôs sua retirada da Diocese por ver, nos seus atos, total rebeldia e desobediência à sua autoridade. Retirando-se do norte do estado, seguiu para a Paraíba, Rio Grande do Norte e outros estados castigados pela seca. Prosseguindo no seu Apostolado, fundou Casas de Caridade em cinco estados do Nordeste, e continuou a conceder às moças o hábito, ditando as regras da clausura. O Bispo reagiu, e suspendeu-o de ordens, excomungando-o. A citação é de Ralph de La Cave (Mistério em Joaseiro).

No Cariri, sul do Ceará, ele chegou a convite do Padre Aurélio Arnaud Formiga, Vigário colado de Missão Velha. O povo o via como um virtuoso, pelos exemplos edificantes de pureza e castidade. Daí surgirem lendas a seu respeito, de santidade, pelas construções de igrejas e cemitérios, feitas em tempo recorde. Por exemplo, a igreja e o cemitério de Pio IX, no Piauí, construídos em apenas oito dias. Chamavam-no de Padre-Mestre, porque se dedicava a alfabetizar o rústico. Na sua abnegação em construir açudes, barragens e cisternas, ele pretendia fixar o homem à terra, salvando-o da fome e sede, evitando o êxodo. O patrimônio religioso que construiu foi inigualável para a época: 18 Casas de Caridade, nos Estados do Nordeste, principalmente em Pernambuco, Ceará e Paraíba. Por tudo isso, fez jus ao merecido título de “O Apóstolo do Nordeste”.

A vida do Frei Ibiapina serviu de parâmetro para o Padre Cícero? Talvez. Já trazendo consigo lições de fé e devoção, recebidas no Seminário dos padres lazaristas, e a lembrança dos missionários itinerantes, de sermões assustadores, que tinham como base o Apocalipse. Tudo isso plasmou-se na sua alma sensível. Daí o seu apostolado no Juazeiro sob o prisma do misticismo e da fé no sobrenatural, sempre e em contínua progressão, até desaguar na grave crise religiosa que passou à história com o nome de “Milagre do Juazeiro”, como mostrarão os próximos capítulos, tema central desta obra.

  

****


 CAPÍTULO 3

A CONSTRUÇÃO DA SEGUNDA CAPELA PELO PADRE CÍCERO

                                     

Parece haver imponderáveis reservas de energias dispersas na humanidade, reservas que, de onde em onde, se condensam numa só pessoa e dão lugar ao aparecimento de seres extraordinários, que mudam o curso dos  acontecimentos, e  marcam as Eras. Estevão  Zweig.    

 

Três anos eram passados desde sua chegada ao Juazeiro. A população crescera, e a antiga capelinha do Padre Pedro Ribeiro dos idos de 1827 tornara-se pequena para acomodar o crescente número de fiéis que a procuravam. Já de todo integrado ao meio, admirado e respeitado, ele convoca o povo a ajudá-lo na construção de uma nova capela, com maior espaço físico, no que foi atendido. A essa convocação aderiram todos os moradores, conforme escreveu Amália Xavier: “Havia os que cortavam madeira, os que faziam tijolos e telhas, os que carregavam pedras, até ao pé da obra”. Assim, em sistema de mutirão, dizemos hoje, vai sendo construída a nova capela. A moeda circulava escassamente e o pagamento aos que lá trabalhavam era feito em doações de gêneros alimentícios.

Persistente, uma das suas características, e apesar da seca que o Ceará atravessava, ele não desiste e prossegue na sua obra meritória. Dos moradores aquinhoados do lugar, ele e seus familiares recebiam doações de alimentos, depõe sua escrava Tereza de Jesus, dizendo: “nada faltava, na dispensa da casa” (Amália Xavier, op.cit.). Pobres, a pequena herança deixada pelo pai tinha acabado, daí o cumprimento da palavra empenhada pelos proprietários da povoação. Azarias Sobreira comenta: “Batina, chapéus, calçados lhe ofertava o Vigário do Crato, o Padre Fernandes Távora”. Até aí, levava mesmo uma vida de pobreza, de ascetismo. Depois, foi levado de roldão pelo lusco-fusco do Milagre de 6 de Março de 1889, que mudou radicalmente sua vida, com tanta gente a assediá-lo. E foi numa dessas concentrações de devotos que ocorreu o seguinte episódio, descrito pelo anteriormente citado Azarias Sobreira: “Numa tarde, por ocasião da sua célebre bênção aos romeiros em frente à Igreja, uma multidão enchia a praça; do meio dela surgiu alguém que lhe fez uma oferta, um pacote embrulhado em papel trançado por grosso cordão de barbante”.

Era praxe, diz o escritor e seu biógrafo, ele não agradecer as dádivas recebidas. Nessa manhã-tarde, ao receber a oferta, como de costume guardou-a no bolso externo da batina. Instantes depois, mãos suplicantes erguem-se-lhes a implorar uma esmola, ele então retira do bolso o pacote recebido há pouco e entrega ao suplicante, que dali mesmo partiu para as compras. Ao fazer o pagamento, uma grande surpresa para o comerciante, porque pago em moedas de ouro. Admirado e surpreso com tantas moedas valiosas, num total de dezoito, o comerciante pergunta-lhe como conseguiu toda aquela pequena fortuna. Respondeu: “Meu Padim Ciço me deu”. O comerciante manda avisar à Beata Mocinha, governanta respeitável daquele mundo complicado da Casa do Padre Cícero. Num piscar de olhos, o novo rico foi localizado. Chegando, ela perguntou-lhe onde tinha conseguido aquela dinheirama toda. Ele confirma o que dissera ao dono do estabelecimento comercial: “Padim Ciço me deu”. A beata e mordoma, sem coação, exigiu que lhe devolvesse as libras, o que foi feito. Aborrecida com o incidente, se dirije ao Padre Cícero, num tom de altivez e crítica, dizendo: “Onde iremos parar, Padre Cícero, o senhor dando moedas de ouro, como se fossem vinténs?”. Sem se alterar, respondeu-lhe: “Basta, Joana, já dei está dado”. Jamais soube ele que as libras esterlinas recebidas horas antes tinham voltado às mãos de sua governanta.

Retomo ao que vinha comentando sobre os trabalhos da construção da nova capela, quando sobreveio a seca de 1877, trazendo no seu bojo um cortejo de misérias. Ela passou à História como a maior e mais dolorosa de todos os tempos, ficando conhecida pela seca “dos dois sete”. A devastação que fez foi a de um furacão, destruindo e levando de roldão como se fosse mesmo o fim de um tempo apocalíptico, deixando um rastro de tristeza e destruição indescritível, pelo número de mortes e um flagelo sem precedentes. Os historiadores do passado a descreveram como um fenômeno sem parâmetro, em toda história do Ceará. Nessa quadra de tanta aflição e pavor, o Padre Cícero muito deu de si. Pragmático, tomou a iniciativa de conduzir os flagelados ao campo, ensinando-lhes como converter a macambira e a mucunã em alimento, a fim de salvá-los da morte.As raízes teriam que ser lavadas e secadas nove vezes. Desse modo, estariam prontas para serem consumidas, após serem transformadas em farináceos para a fabricação de beijus e mingaus. A citação é de Manoel Diniz (op. cit.), cuja informação foi dada pelo próprio Padre Cícero, em intermináveis palestras com ele, rememorando o fato que fixou-se para sempre em sua retina, do qual nunca conseguiu libertar-se: o dantesco painel, presenciado por ele, quando viu dezenas de pessoas sucumbirem pela fome e pela sede, num rastro avassalador de desespero. O processo das sementes era rude, mas eficaz, salvando muitas vidas, observou Edmar Morel (op. cit.).

Em Fortaleza, as crônicas dão conta de que, nas ruas, os flagelados tombavam de fome, os sepultamentos eram contínuos; muitos tentavam resistir e partiam em direção à Serra da Ibiapaba, mas não chegavam a concluir a caminhada – exaustos pela fome e sede, sucumbiam. O número de cruzes à beira da estrada multiplicava-se, marcando, assim, o inexorável fim – a morte pela fome e pela sede.

Joaquim Alves, Tomaz Pompeu de Souza Brasil, Rodolfo Teófilo, Raimundo Girão são nomes conhecidos, que escreveram sobre o fenômeno da grande seca de 77. No Cariri, os sacerdotes foram os grandes baluartes do doloroso momento. Em Missão Velha, o Padre Aurélio Arnaud Formiga foi de uma solidariedade extrema: descendente de família rica, doou metade do seu patrimônio para a Igreja e o restante repartiu com os pobres, por isso deram-lhe o título de “Cavaleiro da Caridade”. Padre Cícero, não dispondo de recursos para ajudar os flagelados, tomou a si o encargo de seguir com eles para o campo, e ajudá-los a usar a maniçoba, a mucunã e outras raízes, conseguindo por essa forma salvá-los da morte. O episódio traumatizou-o por toda sua vida. A Seca sempre foi uma das pautas das suas preocupações, pela falta de recursos hídricos, no Ceará, quiçá em todo o Nordeste. Depois, quando já Prefeito do Juazeiro (1910), ele tornou obrigatórias a abertura de poços artesianos e a construção de cisternas em todas as residências. Se o indivíduo não podia arcar com as despesas do material, ele o fazia, contanto que o problema da água fosse solucionado (Amália Xavier, op.cit.).

O consolo da presença caridosa do Padre Cícero, no seu papel de guia e pai amoroso, era para todos que lá chegavam um lenitivo. Parecia que ele estava a “olhar por todo o mundo” na feliz expressão de David Hume. Por isso, teve garantida a sua imortalidade. Usando de meios os mais engenhosos possíveis, como os acima citados, a fim de salvar vidas, é fato de todos sabido. Além dessa alternativa, tomou a iniciativa de, juntamente com o Intendente do Crato, dirigir-se ao Imperador, solicitando ajuda. Embora tenha demorado, o auxílio veio, só que insuficiente para atender a enorme leva de mendigos, que ultrapassava em muito o enviado pelo Imperador, porque metade do dinheiro remetido ficou com os mais espertos, conforme citação de Amália Xavier (op. cit.), que escreveu: “O dinheiro não foi usado para o fim principal, que era o de salvar vidas, por ter sido desviado em mais da metade”.

O episódio ocorrido há mais de um século mostra, em toda sua plenitude, o que hoje virou uma rotina: o desvio de verbas públicas, sem o menor respeito pelo momento que atravessava o povo cearense, com a seca a devastar vidas humanas, quando tombavam exauridos pela fome e sede. O quadro dantesco não foi suficiente para sensibilizar os que foram responsáveis pelo desvio do dinheiro e alimentos para socorrer os flagelados, que, num gesto de benevolência do Imperador, tinha a finalidade de salvar vidas humanas. Fica nítido nesse episódio que o expediente do desvio de verbas públicas, já vindo de longe, arraigou-se de tal forma que é difícil extirpá-lo, continuando vivíssimo até o presente. Não havendo interrupção saneadora, com uma fiscalização idônea, o erário público é saqueado afrontosamente. No momento em que escrevo, virou epidemia em todo o País. Os desfalques, em todas as esferas da administração pública, são astronômicos. A distância do Poder Central, segundo autores antigos, ajudava para que reinasse a impunidade, e hoje, o que dizer, se estamos cercados pela globalização e pelo instantâneo da notícia? Mesmo assim, os desfalques continuam, enquanto o povo tomba nas ruas de doença e fome, em pleno Século XXI, e nada, absolutamente, acontece aos corruptos do dinheiro do povo. Falar de CPIs é ilusão – a maioria tem como destino as gavetas. Esse o sistema reinante no país, dos donos do Poder, verdadeiros magnatas, quando as estatísticas mostram um elevado percentual de milhões de famintos e marginalizados (ano de 2006).

Interrompido o fio da narrativa da construção da nova capela, a ela volto. Com os serviços paralisados, ante o quadro desolador da seca, finalmente depois do doloroso período, a construção recomeçou sem mais interrupção. E a 20 de agosto de 1884 foi inaugurada por Dom Joaquim José Vieira,1 segundo bispo do Ceará, que veio ao Cariri em missão diocesana. Sob a égide de Nossa Senhora das Dores, escolhida desde a fundação da rústica capelinha do Padre Pedro Ribeiro de Carvalho, e de seu avô, Leandro Bezerra de Menezes, ela continuou como padroeira do Juazeiro, até os dias de hoje. A solenidade foi de grande magnitude, pela presença de um significativo número de padres, que acompanhavam o bispo. Presentes ao ato, figuras tradicionais do Vale do Cariri, o que fez da solenidade uma grande festa, quase excedendo as proporções do modesto e acanhado lugar. A construção, considerada de grandes proporções para a época, arrancou elogios do bispo dom Joaquim, exaltando o feito, e num discurso emocionado, disse:

“— A capela do Joazeiro, começada no princípio de 1875, pelo Padre Cícero Romão Batista, sacerdote inteligente, modesto e virtuoso, é um monumento que atesta eloquentemente o poder da fé e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, pois é admirável que um sacerdote pobre tenha podido construir um templo vasto e arquitetônico, em tempos anormais, quais aqueles, que atravessava esta Diocese, assolada pela fome, seca e peste.” (Irineu Pinheiro, op. cit.).

O elogio espontâneo do bispo dom Joaquim despertou inveja por parte de alguns colegas de sacerdócio; depois, os mesmos encarregaram-se de indispô-lo com o Padre Cícero, quando do aparecimento do fenômeno da Hóstia Ensanguentada. Fato de grande repercussão, que abalou os alicerces da Igreja Católica no Brasil no século XIX, chegando até Roma, e aqui o tema principal desta obra, porque marcou uma Era: A ERA PADRE CÍCERO.

O bispo Joaquim, no seu discurso laudatório, fez alusão às virtudes do Padre Cícero. Terminou dizendo: “A virtude do Padre Cícero enche todo o Vale do Cariri”. Não só o elogio ao Padre Cícero, de reconhecimento pelo feito, à magnitude do evento, foi relevante, mas contou também com a presença de nove sacerdotes. Foram eles:

Belarmino José de Souza (Secretário da Comissão Episcopal)

Antônio Fernandes Távora (Vigário do Crato)

Antônio Alexandrino de Alencar (Vigário de Assaré)

Cícero Romão Batista

Félix Aurélio Arnaud Formiga (Vigário de Missão Velha)

José Silvino Ferreira Lima

Bernardino Gomes Leitão

Manoel Rodrigues Lima

Francisco Rodrigues Monteiro (Reitor do Seminário do Crato)

Joaquim Soter de Alencar (professor do mesmo Seminário)

João Francisco da Costa Nogueira considerado um virtuoso (Irineu Pinheiro, op cit.).

Vale lembrar que o Padre Cícero, quando chegou ao ainda Joaseiro, o lugar era um simples povoado, dando início aos seus trabalhos apostólicos pelo ensino do Catecismo, fundando pequena e modesta escola de alfabetização, ler e contar, era tudo que podia lhes oferecer. Azarias Sobreira descreve a povoação como insignificante: metade da população era de analfabetos, retardatários e paupérrimos.

Ele não ficou insensível a esses detalhes. Sabia que ali estava para cumprir uma missão, e, segundo afirmava, divina. Diferente dos outros capelães que por lá tinham passado, abriu um canal de comunicação com os descritos por seu biógrafo como incapazes. O resultado foi surpreendente, fecundou, consubstanciou-se. O ponto de partida para essa transformação foi o de dar-lhes cidadania, eles viram surgir à sua frente um novo horizonte, deixando para trás o servilismo a que viviam submetidos, sem nenhuma perspectiva. Deu-lhes lição de deveres e direitos. Usando de pragmatismo para seus ensinamentos, de forma adequada passava-os à massa analfabeta, servindo de fio condutor para suas ações, aliás, o bastante para uma grande transformação no obscuro povoado. Dispensava-lhes atenção, compreensão, solidariedade e amor, porque amor é cuidar, aí está a explicação para que alcançasse os degraus de uma permanência eterna, iniciada na metade do século XIX e continuada até a metade do século XX, em todo o Nordeste brasileiro, num raio de mais de 800 quilômetros.

Sua dedicação aos infortunados chamava a atenção dos viajantes que pelo Joaseiro passavam, assim foi se espalhando a notícia de suas virtudes, e em pouco tempo sua população cresceu além do esperado. Ele parecia se inspirar na doutrina do Humanismo, que tem por objetivo o desenvolvimento das qualidades e potencialidades do homem, atribuindo-lhe importância fundamental. Nascia no Joaseiro primitivo a Cidadania do Humanismo. O pequeno povoado foi se transformando num centro de convergência, pelos que lá chegavam à sua procura, para eles, um Padre diferente dos demais que por lá tinham passado. Atraídos por suas virtudes, pelos conselhos que os dava, que corrigia quando necessário, terminou por aglutinar todos em torno de si, acompanhado do magnetismo que carregava, garantindo sua imortalidade.

Tornou-se um mito, volto a dizer. Admirado por todos, despertava o orgulho do seu rebanho, que se sentia protegido diante da sua atuação. E o comparam a um profeta da antiguidade, por suas visões, por seus sonhos, por suas profecias. Em pouco tempo, já era tido como um ente sobrenatural, um enviado de Deus. O coadjuvante havia: voz solene, olhar azul profundo e penetrante. Voz e Olhar – eis o mistério. Esses dois pormenores passaram a fazer parte de sua enigmática personalidade: todos que o viam jamais esqueciam o detalhe, nem mesmo seus mais ferrenhos detratores ousaram negar. O próprio bispo Joaquim, já indisposto com ele, não omite o detalhe. A todos causava impacto e admiração. Se com pessoas de nível intelectual elevado assim acontecia, que diremos da massa, a maioria analfabeta e predisposta à auto-sugestão?

Seu humanismo vai tomando consistência, extrapola os limites do microcosmo do Juazeiro. À medida em que ali iam chegando pessoas de outros lugares, atraídas por suas virtudes, e isto bem antes do Milagre de 6 de Março de 1889, não demorou muito e eis que desperta desconfiança, por suas ações de benemerência para com o povo pobre, dos coronéis do latifúndio da área geográfica do Cariri, como foi o caso do fazendeiro José Joaquim da Rocha, administrador de terras e Coronel da Guarda Nacional, que disse, segundo as crônicas locais: “O Padre Cícero começou como missionário, breve será milionário, mais tarde revolucionário”. O fraseado passou à História, dando lugar a que, mais tarde, outros donos de terras o vissem como uma ameaça.

As constantes secas fizeram com que ele fizesse o assentamento de flagelados que congestionava o Juazeiro nas terras devolutas da Serra do Araripe e Caririaçu. A seca, uma pauta constante em sua vida; assentando-os nessas terras devolutas que pertenciam e pertencem à Nação, ele se viu sob fogo cruzado dos que se diziam proprietários, enxotando os que lá chegavam na esperança da sobrevivência, um problema até hoje sem solução e que já vem desde a colonização. Documentos antigos, como o do historiador Dr. Pedro Thérbege, alemão que residia no Icó, onde praticava medicina terapêutica, em 1840, o primeiro a escrever sobre o assunto, sem esquecer João Brígido, no seu notável Ceará: Homens e Fatos.

A narrativa do Dr. Thérberger é autêntica, exercendo sobre o leitor uma grande curiosidade, quando descreve em pormenores a grande contenda, que durou um século, entre duas das mais poderosas famílias do Ceará: Montes e Feitosas. A causa do sanguinolento combate, no qual tomaram parte tribos indígenas, foi a demarcação de terras. Os dois milionários ocupavam os Inhamuns. Senhores poderosos, porque riquíssimos, se digladiaram por quase um século, só deixando a luta quando já envelhecidos; retiraram-se do campo de batalha, embora ela continuasse com os descendentes que iam chegando depois. Não só as tribos indígenas se engajaram nessa luta, mas parte da Província do Estado do Ceará também se envolveu. Metade das tribos, as mais poderosas, foi dizimada, como comenta o autor de Esboço Histórico da Província do Ceará. Após já terem guerreado por mais de 50 anos, houve a intervenção da Coroa. Os dois principais chefes dos clãs, Coronel Lourenço Alves Feitosa e o lendário Capitão-mor Geraldo, ou Francisco, do Monte e Silva (há dúvidas sobre seu exato nome), depois de combaterem por longos e longos anos, se retiraram do campo de luta já envelhecidos, embora ostentando grandes poderes.

Lourenço Alves Feitosa, que tinha patente de Comissário, era originário de Pernambuco, e foi um dos desbravadores da Província do Ceará. Sua descendência permanece até hoje. Geraldo ou Francisco do Monte era natural de Penedo (Alagoas), e lá chegou com grande séquito, senhor de imensa fortuna em ouro, terras e gado. Considerado também um desbravador, suas fazendas de criar excediam as proporções da época. Lourenço Feitosa, pernambucano e fundador da grande e tradicional família Feitosa, e Geraldo do Monte eram tão ricos, que as histórias de suas fortunas mais parecem contos de fadas, quase inacreditáveis, dignas de admiração e assombro. O próprio Dr. Théberge, ao narrar embevecido, parece achar fora do natural das coisas. A sanguinolenta batalha foi um épico de sangue, como registram os anais do Ceará. A Coroa intercedeu para que cessasse a luta. Entretanto, anos depois recrudesce um novo embate, desta vez com um ramo da mencionada família Feitosa: os Ferros. O principal cabeça da contenda era o também rico português José Pereira Lima, senhor de engenho e proprietário de imensas glebas de terra no Cariri. Os ânimos se acirraram, desembocando em luta violenta, com perdas de ambos os lados. José Pereira Lima acrescentou a seu prenome a palavra Aço, em contraposição ao do seu opositor Manoel Ferreira Ferro (Théberge, obra citada). Vemos, nessa rápida exposição, que a luta pelo poder da terra é contínua, e será ad infinitum, porque arraigada desde o princípio da colonização.

Retomo a história do Joaseiro de 1889, que continuava com a mesma grafia de 1815.  Até essa data, pouca coisa tinha mudado: um lugar esquecido, um recanto singelo, que só contava com a exuberância de sua paisagem, emoldurada pela Serra do Araripe e de São Pedro do Crato, atualmente Caririaçu. Caminhando, como as demais localidades ao seu redor, na lentidão própria da vida rural, a tranquilidade era sua característica. Nesse ano, o Padre Cícero fundou várias associações pias, dentre elas, uma se destacaria entre as demais: a Associação do Sagrado Coração de Jesus, ou Apostolado da Oração, muito bem organizada, tendo ele como Presidente. Secretaria e Tesouraria, foi confiado a um grupo de zeladoras, num total de 13 membros, entre senhoras casadas e solteiras do escol social do Juazeiro, escreveu Amália Xavier (op.cit.). Conhecido por sua memória fenomenal, conforme já escrito, nada esquecia. Dessa vez, optou pela escrita. Intuição ou simples acaso? Sabemos que nada deixou escrito sobre a grave Questão Religiosa na qual se envolveu e que foi sua figura principal. Mas suas cartas, escritas de Roma para seus amigos e familiares, se reunidas, acrescente-se, às escritas ao bispo Joaquim, ao vigário do Crato, são suficientes para que se tenha ideia do que pensava em torno da transformação da Hóstia em Sangue, que ele sublimou, eternizando para sempre.

Apesar de uma personalidade indecifrável, segundo a observação do Padre Azarias Sobreira, que escreveu: “Defini-lo é tarefa difícil, sobre-humana. Ele foi um verdadeiro ponto de interrogação” (op. cit).

Além da Associação do Apostolado da Oração, tinha a de São Vicente de Paula, a das Almas, fundada por José Marrocos e por José Joaquim de Maria Lobo, a da Legião da Cruz, que irá merecer um capítulo à parte, pelo tumulto que causou com a forte oposição do bispo Joaquim, excomungando-a, e também ao seu fundador. José Maria Lobo foi de indiscutível força e influência no movimento religioso do Juazeiro; o bispo tinha por ele grande desprezo. Na lentidão dos seus dias, a povoação pouco se desenvolvia, exceto no tocante ao religioso, que avançava com suas associações, suas festas litúrgicas, de inegável valor social. Chegou o ano de 1889, já tumultuado pelos horrores da seca que já vinha castigando desde o ano anterior. Foi exatamente nesse ano que o Juazeiro deixaria para trás o anonimato, movido pelo impacto do fenômeno religioso, com o aparecimento de sangue nas hóstias recebidas pela beata Maria de Araújo, fenômeno que ultrapassou os limites do Juazeiro, chegando a todo o Nordeste, causando sensação. Mais tarde chegaria ao estrangeiro, à Roma principalmente, onde seria julgado pelo Sacro Colégio. Um fato histórico que a memória guardou e que teve a participação do grande público, criando raízes, se eternizando para sempre.

Naquele ano, a expectativa era sombria, desenhava-se um painel de uma grande e terrível seca, com suas consequências, quando lembravam a de 77, passada à História como um flagelo sem precedentes. Preocupados, ele e os demais vigários da redondeza recorriam às orações, suplicando por chuva; movimentavam-se em procissões, faziam promessas, vias-sacras, aguardando ansiosos o tradicional dia de São José, Padroeiro do Ceará e fiel depositário das esperanças do cearense. Se a chuva cai no seu dia, é sinal que teremos bom inverno; se a previsão falha, segue o horror da migração e todas as sequelas que a seca traz no seu bojo. As crônicas registram a apreensão do Padre Cícero, e ele tinha razão, quando presenciou in-loco a morte de dezenas de pessoas por fome e sede, detalhe que o traumatizou por toda sua vida.

No calendário, constava a primeira sexta-feira do mês, dia 6, consagrado ao Apostolado da Oração, reverenciado com missas, confissões e comunhões. A noite daquela quinta-feira, num exagero de religiosidade atrelado ao misticismo, ele a passara em claro, confessando e em vigília ao Ssmo Sacramento; dezenas de fiéis lotavam a capela de Nossa Senhora das Dores. Alguns, já exaustos, ao amanhecer do dia retiraram-se para suas casas. Mais da metade, segundo a crônica oral, lá permaneceu.

O relógio marcava 5 horas; ele deixa o confessionário e dá início à celebração da missa. Ao administrar a comunhão à Maria de Araújo, ela entra em êxtase e a Hóstia se transforma em sangue, fato que foi presenciado por dezenas de pessoas que lá estavam. Por ter sido público, não foi possível escondê-lo: a notícia correu veloz, difundida pela propagação oral, esse veículo poderoso que atravessa fronteiras, ganha o mundo, e chegou até o bispo que, informado do episódio, não se pronunciou de imediato. Autores que escreveram sobre o movimento religioso do Juazeiro consideraram um erro do bispo, em demorar a averiguar o fenômeno, expresso na pessoa da beata Maria de Araújo. Ao tomar tal decisão, já era tarde. O movimento já tinha se alastrado sertão afora, chegando aos mais remotos lugarejos. O caso tomou outra conotação, após as afirmativas do Monsenhor Monteiro, de que o fenômeno era de ordem divina. Começava a grande polêmica em torno do fato, e a peregrinação teve início, transformando o obscuro lugarejo na Meca Caririense. Nascia aí a história impressionante de um Milagre, que tantos sofrimentos causaram ao Padre Cícero.

O sertão ficou convulsionado pela novidade, causando comoção e admiração. O sertanejo, na sua crendice arraigada, vinda de tempos atrás, segue em direção ao Juazeiro, para constatar in-loco o grande milagre da transformação da hóstia em sangue. Entusiasmados, celebravam o memorável acontecimento e entoavam louvores a Deus. O fenômeno se repetiu, durante toda a quaresma daquele ano, e sempre às quartas e sextas-feiras, de acordo com documentos da época. A partir daí, o Padre Cícero enfrentaria uma situação confusa, cheia de percalços. Tem início a grande romaria que, até hoje, passados 119 anos do episódio, continua viva, e a cada ano mais cresce.

Pela leitura dos documentos, vê-se que o movimento parecia ser um movimento interno, limitado somente ao ainda Joaseiro. Num segundo momento, numa dinâmica ilimitada, ganharia o Mundo na velocidade de um raio, após as declarações do Monsenhor Monteiro em peregrinação até lá, quando arrastou uma multidão de mais de três mil pessoas da vizinha cidade do Crato. O dia para celebração desse evento foi 7 de Julho, dia consagrado, na liturgia da Igreja Católica, ao Precioso Sangue de Cristo. Monsenhor Monteiro sobe ao púlpito e, num sermão carregado de fé, piedade e eloquência, declara que o sangue nas hóstias recebidas pela Beata Maria de Araújo era mesmo o sangue de Cristo, do Divino Redentor. Segundo a tradição oral, o povo caiu em prantos. Com essa afirmativa de um membro do clero de grande expressão, idôneo e digno de fé, tanto que ocupava o cargo de reitor do Seminário do Crato, o Milagre era uma realidade.

O efeito sobre a massa foi surpreendente, e o Nordeste, alvoroçado, partiu rumo ao Juazeiro. Todos queriam chegar ao mesmo tempo, na ânsia de constatar o assombroso Milagre, abarrotando o lugar, congestionando-o. Em lá chegando, os peregrinos tinham dois objetivos: primeiro, ver de perto o Padre e a Beata, portadora de sacrossantos dons; segundo, prestar reverências aos paninhos manchados de sangue, das comunhões ditas miraculosas de Maria de Araújo, paninhos que, na liturgia católica, são chamados de sanguinhos. Guardados numa urna de vidro, eram expostos à adoração dos fiéis, cuja urna ficava no centro da capela-mor, e bem à vista dos presentes. Candelabros com velas acesas rodeavam-na; turíbulos incensavam o ambiente, e o aroma enchia toda a capela com o seu odor característico, transformando-se em fumaça, subindo em espirais, dando um aspecto de imponência e respeito, numa atmosfera de fé e religiosidade, tudo dentro dos cânones da Igreja Católica Romana. Embora o bispo Joaquim e a corrente do clero que ficou a seu lado insinuassem que os rituais na Igreja do Juazeiro eram de outra ordem que não a católica. Por isso, precisa aqui ser lembrado mais uma vez, para refutar certos equívocos. E assim o milagre ia sendo implantado na alma do povo simples, que acreditava piamente. Aliás, não só este, significativa parcela de pessoas cultas e de expressão social também acreditava.

A imprensa agita-se, e publica os fatos nos dois maiores Jornais do país: o Diário de Pernambuco e o Jornal do Comércio do Rio (edições de 19 e 29 de agosto de 1891). O caso ganhava repercussão nacional; em breve, seria manchete na Europa, nas cidades de Viseu e Porto (Portugal), pouco depois no Gionarlli de Roma, atesta o bispo Joaquim,2 indignado com a repercussão do fato. A ele caberia, dali para frente, tomar a si o encargo de averiguar o estranho caso. Os artigos provinham da pena erudita do professor José Marrocos, denominado teólogo da Questão Religiosa do Juazeiro. O fato também foi publicado no Jornal Estrela da Aparecida, de São Paulo, cujo artigo era de autoria do Monsenhor Monteiro.

Amplamente divulgado, o fenômeno despertava interesse e, no imaginário popular, criava-se a lenda em torno do mistério, enquanto a romaria para a povoação tornava-se gigantesca, com peregrinos vindos de todos os quadrantes do Nordeste. Há de se notar, nesse pormenor de deslocamento das multidões, o fenômeno do instantâneo da notícia, para uma época tão remota, quando não havia a comunicação de massas, e os jornais, além de serem restritos às capitais, só chegavam ao sertão com grande atraso, trazidos por cargueiros, os chamados ambulantes, viajantes daquela época, que traziam e levavam notícias, admite o historiador Valdemar Barbosa em História de Minas.

Ficando consignado ao boca-a-boca poderoso, como até hoje, o outrora obscuro lugarejo transformou-se rapidamente na Meca caririense. Em lá chegando, eles espalhavam-se pelos becos e ruelas próximas à Igreja, para poderem participar ativamente do movimento religioso. Cinco missas por dia eram celebradas, e nunca menos de seis sacerdotes lá se encontravam diariamente, afirmava o Padre Antônio Fernandes Távora, Vigário do Crato à época, em carta ao bispo dom Joaquim, datada de 7 de março de 1891. Nessa Carta, ele traça o perfil do movimento na povoação, dando uma ideia visível do que seria o seu desenrolar. Em meio a uma série de explanações carregadas de críticas e desdém, escreveu: “O Juazeiro ou há de acabar como o mais célebre santuário do mundo, onde se formará um só rebanho e um só pastor, ou então acabará muito mal, dando muito trabalho ao Governo, ou à própria Igreja”.

Esta carta foi o primeiro torpedo, partido de um membro do clero, abrindo caminho para a grave crise religiosa. A partir daí, originou-se todo o mal-entendido entre o bispo e o Padre Cícero. O teor da carta é claramente um incitamento à luta religiosa, que na realidade teve aí seu nascedouro, além de logicamente ter criado uma cisão entre as irmãs geminadas, Crato e Juazeiro, sobrevindo uma rivalidade entre as duas que durou anos e anos, com evidente prejuízo para ambas. O Padre Fernandes Távora não só conseguiu o desdobramento religioso, dividindo o clero, como deu lugar à rixa que se formou entre os adeptos e não adeptos do milagre, desaguando mais tarde na guerra civil de 1914, porque ela teve conotações atreladas ao movimento eucarístico do Juazeiro – é um fato inequívoco. Observe-se que, no último parágrafo da carta, ele preconiza a interferência do Governo, tal qual aconteceu depois.

Ao receber a carta do Padre Fernandes Távora, o bispo Joaquim, contrariado com as notícias procedentes do Juazeiro e com a explosão de peregrinos que cada dia mais aumentava, remete ao Padre Cícero uma carta de caráter confidencial, cuja transcrição é a que se segue:

 “Confidencial. Padre Cícero, é escusado dizer que sou seu amigo e que venero suas virtudes; por isso, deve V. Revmª fazer justiça às minhas intenções com relação à Maria de Araújo e ao seu caso, ao qual ligo máxima importância. Há de V. Revmª lembrar-se que em 1886, no Quixará, contou-me alguns fatos extraordinários sucedidos com Maria de Araújo, havendo eu lhe recomendado muito critério, muito cuidado em ordem a evitar-se qualquer ilusão. V. Revmª foi fiel às minhas recomendações, guardou silêncio criterioso. Monsenhor Monteiro, entretanto, pratica nova imprudência, e V. Revma começa a dar culto público a uns paninhos manchados de sangue etc. Abalou-se o Ceará, excitou-se a curiosidade pública, a imprensa levou aos quatro ventos a notícia. Tenho tido certos interrogatórios acerca do assunto. Nestas condições,bem compreende V. Revma o meu dever de bispo, averiguar os fatos para que possa dizer: Digitus Dei est hic. Ora, ficando Maria de Araújo em sua companhia, eu não poderei atingir aquele fim; eis porque meu padre, eu exigi, e continuo a exigir a entrada de Maria de Araújo para a Casa de Caridade do Crato. Ali haverá testemunhas de qualquer maravilha, de modo que os fatos ficarão mais firmados. Ademais disso, não faltarão os cuidados necessários a Maria de Araújo, quer da parte espiritual, quer da parte temporal. Se a Beata vier a morrer porque me obedece, dará mais uma prova de suas virtudes, a Santa Obediência. E numa palavra, Padre Cícero, não desisto de minha exigência, pois trata-se de coisa muito séria. Dou-lhe cinquenta  dias, a contar da data da recepção desta, para V. Revma dispor o espírito da moça a ir para o Crato. Não obrigo inteiramente a V. Revma, mas se me obedecer, me firmarei no conceito que formo de sua pessoa; se não me obedecer nada farei, mas ficarei triste e... desconfiado. Eu bem sei que o contrario com esta resolução, mas não tenho outro alvitre a tomar. E repito: é grande inconveniente que Maria de Araújo more em sua companhia pois assim nunca se poderá verificar coisa alguma.

 Espero Padre Cícero, que V. Revma, refletindo melhor, me auxiliará nesta empresa, em que só tenho em vista firmar a verdade.

 Nosso Senhor o inspire e o dirija na sua afanosa tarefa.                                           

  Seu humilde servo e amigo.      

                                                   Joaquim Bispo Diocesano”       

Cheia de advertências severas, a Carta também mostra, em certos trechos, que o bispo até aí ainda demonstrava certo apreço ao Padre Cícero, fazendo menção às suas virtudes. Com o andar do tempo, a transição no seu pensamento foi de uma verdadeira metamorfose, pela posição da ala conservadora do clero, que o pressionava, e de leigos, embora mínima. E o que poderia ter sido um grande movimento de fé, unindo o povo, redundou na guerra civil do Juazeiro, que não deixou de ter conotação com o movimento religioso, embora muito tempo depois.

A perseguição ao Padre Cícero começou em 1890, continuando até sua morte, arrastando-se dessa forma por 45 anos ininterruptos. É o que veremos nas páginas seguintes, quando sentimentos de fraternidade e perdão foram esquecidos pela ala conservadora do clero brasileiro.

  

****

 

CAPÍTULO 4

A GRANDE PEREGRINAÇÃO

 

O grande contingente humano que chegava ao Juazeiro, para constatar o fenômeno, era incalculável e constava de um público variado. Ainda com a grafia de Joaseiro e ostentando resquícios dos seus primórdios, virou uma babel. Doutores, fazendeiros, comerciantes, padres e pessoas comuns lá chegavam diariamente, e todos tinham uma só finalidade: constatar in-loco o fenômeno. A população crescia a uma velocidade tal que, no ano de 1891, sua população já atingira a cifra de mais de cinco mil habitantes fixos, tendo como causa o milagre, que arrastava uma multidão dos mais longínquos recantos do Nordeste. Muitos não retornavam às suas terras de origem, ficavam por lá. Desta forma, o Juazeiro tornou-se um amálgama de culturas. As famílias foram se entrelaçando pelos laços do matrimônio entre nativos e adventícios, dando lugar ao nascimento de uma cidade heterogênea com um tipo interessante de pessoas, que formam a espinha dorsal de sua sociedade, produto de uma herança histórico-religiosa. Com o aglomerado humano que foi se formando, veio o desenvolvimento comercial, lojas foram se abrindo: tecidos, miudezas, armarinhos e casas especializadas na venda de santos. Os artesãos chegaram trazendo diversas especialidades: na fabricação de velas, de jóias, na arte da fotografia e da pirotecnia, com seus magníficos fogos de artifícios, muito elogiados, e que foram passando de geração a geração. Mais tarde, imperaria a tipografia.

É fato notório que foram essas pessoas simples que fizeram o progresso do Juazeiro antigo, colaborando ativamente para o desenvolvimento da povoação. Com a grande densidade demográfica e a pressa que tinham em construir, o lugar foi perdendo sua característica primitiva: ruas iam se abrindo em desalinho, tortuosas, becos e vielas confundiam-se; casas eram construídas da noite para o dia, a maioria de taipa e cobertas de palha de carnaúba; outras se destacavam naquele mosaico confuso, eram de alvenaria, cobertas de telhas com piso em tijolos de ladrilho. O pequeno detalhe denotava o poder aquisitivo dos seus proprietários. Subdividido, o Juazeiro ia perdendo seu aspecto de paraíso natural, o que era uma pena. Documentos da época dão conta de que no dia 26 de março de 1890, por ocasião de solene missa com a participação de oito sacerdotes, a capela de Nossa Senhora das Dores abrigou para mais de mil pessoas. Neste dia, realizou-se mais um milagre e a notícia espalhou-se com a velocidade de um raio, dominando os espíritos, com o cenário da povoação a transmitir uma aura de mistério.

Nesse mesmo dia 26 de março, o Dr. Marcos Rodrigues Madeira, notável médico, na expressão do Bispo Joaquim, formado e doutorado pela antiga Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, culto e íntegro, em férias no Crato, sua cidade natal, foi convidado pelo Padre Cícero a dar seu parecer sobre o fenômeno. Depois de verificar com atenção, segundo o que disse em seu documento-memória, emitiu sua opinião através de um atestado, tornando o fato cognoscivo, e mais que isto, transformou-o num monumento histórico, porque reconhecido em Cartório, rubricado, datado e assinado por seu próprio punho e sob juramento do seu grau de doutor. Na íntegra, o que escreveu:

 Atesto que, sendo chamado para observar a beata Maria de Araújo poucos minutos depois dela ter comungado, no dia 26 do corrente, quinta-feira Santa no povoado de Juazeiro, onde me encontrava, observei o seguinte: encontrei-a de joelhos, cercada pelo Revmº Padre Cícero Romão Batista, outros sacerdotes e muitos cidadãos distintos desta e de outras localidades, os quais me convidaram para verificar a transformação da hóstia em sangue, fato este que, segundo me referiu o mesmo Reverendo Padre Cícero, tem se reproduzido mais de uma vez na mesma pessoa. De fato, examinando nesta ocasião a língua da beata, verifiquei com os meus olhos que a partícula estava quase toda transformada em uma pasta sanguínea, menos na parte central, na qual se divulgava ainda uma pequena parte da partícula com sua cor natural. Em seguida a mim, continuaram a examinar o referido fato grande número de cidadãos de reputação insuspeita; e desejando continuar a examinar o fato, pedi ao Revmº Padre Cícero que fizesse remover grande parte do povo que nos cercava, a fim de que houvesse bastante luz para prosseguir no meu exame, o que fiz com a mais acurada atenção. Nessa ocasião, observei que a partícula estava completamente transformada em sangue vivo, rubro, que podia ser visto a olho nu, por qualquer pessoa, mesmo que não fosse um profissional. Este sangue assim descrito tomara a forma de um coração. Observava-se uma úlcera na parte anterior a média da língua, cujos bordos eram salientes e se elevavam bastante, de modo ser este fato também verificado por mim e um grande número de cavalheiros da primeira sociedade. Minutos depois, quando tornei a aproximar-me para proceder a novos exames na referida beata, já não encontrei nada do que antes havia observado com bastante atenção. O sangue tinha desaparecido completamente, e bem assim a úlcera ou chaga, como chamaram as outras pessoas que comigo foram testemunhas do fato, não ficando absolutamente na língua o menor vestígio dos fenômenos que acabavam de operar-se. Continuando ainda o meu exame, não descobri a menor ferida, úlcera ou ferimento de natureza alguma na língua, gengivas, laringe, enfim, em toda a cavidade bucal, sendo de notar-se que a língua estava completamente limpa e sem a menor rachadura. Outro fato digno de menção é que esse sangue completamente rubro não sofreu a menor alteração na sua cor, durante todo o tempo em que foi observado na língua por espaço de duas horas mais ou menos, apesar da ação do ar atmosférico que com ele estava em contato. Para mim, trata-se de um fato sobrenatural, para o qual não me foi possível encontrar explicação científica. Pouco se me dá que os incrédulos não dêem a este atestado o valor que ele deve ter. Desde que o que atesto acima é expressão da verdade, e o juro em fé do meu grau, tantas vezes quantas me forem pedidas. Declaro outrossim, que já dei  no mesmo sentido um atestado igual com a minha própria letra, o qual vai seguir com o das pessoas que também assistiram ao fato, para o Exmº Bispo do Ceará, e por ser este pedido, mandei passá-lo, e nele me assino.

                                                      Cidade do Crato, 28 de março de 1891

                                                             Dr Marcos Rodrigues Madeira”

O médico também contou com a participação de diversas testemunhas oculares. Seu atestado deu sustentação ao milagre e fez o Padre Cícero crescer no conceito de todos. Posteriormente, reunido aos testemunhos do eminente médico Dr. Idelfonso Correia Lima, do farmacêutico Joaquim Secundo Chaves, do Monsenhor Monteiro, dos Padres Manoel Martins de Jesus (de Salgueiro, PE), Ferreira Düetts (Triunfo-PE), de Quintino Rodrigues (depois Bispo do Crato), e de muitos outros. Com esses testemunhos, em especial dos sacerdotes, nasceu a grande tensão entre o Bispo, o Padre Cícero e demais autoridades eclesiásticas que acompanharam o Diocesano. Nascia o grande conflito religioso, culminando com a suspensão de suas ordens, depois ratificada por Roma.

O médico Dr. Inácio de Souza Dias, da cidade do Icó, atraído pelo fenômeno, emitiu seu testemunho, reconhecendo o milagre, embora mais tarde retirasse o que disse, e numa Carta ao Bispo pediu desculpas e também ao público. Espantado ante o fato misterioso, dizia: estamos em presença de um mistério o qual não podemos compreender, por mais privilegiada que seja a mente humana. Posteriormente, diria em carta ao Bispo Dom Joaquim, o que pensava em relação aos fatos, mas é assunto para depois. O poder dos atestados dos dois médicos, Marcos Madeira e Idelfonso Lima, tiveram enorme peso, com repercussão em todo o Juazeiro e vizinhança. O bispo e seu segmento, no entanto, fizeram objeção a esse testemunhos, alegando que o horário das nove horas da noite era impreciso, quando tudo ao nosso redor tende a se embaralhar, por ser o orgão visual suscetível de receber impressões.

Cético quanto ao milagre, o Bispo rejeita a tese do médico que atestava a sobrenaturalidade do fato. Mas de nada adiantou ter contestado. O testemunho do médico Idelfonso Lima, apesar da recusa de Dom Joaquim em não aceitá-lo, passou a ser parte integrante da intrincada Questão Religiosa do Juazeiro, sendo decisivo no aperfeiçoamento da concepção do milagre, cuja história repercutiu ao longo do tempo, e até hoje, passados 118 anos, ainda gera controvérsias. Após ser divulgado pela imprensa o atestado do Dr. Marcos Madeira, também foi lançado um Boletim, assinado por José Estrela Cabral Júnior, impresso na Tipografia Cratense, com a assinatura de 27 pessoas da elite local, que diziam ter visto a Sagrada Hóstia se transformar em sangue e tomar a forma de um coração humano. Anexo a esse Boletim, um artigo do Padre Manoel Martins de Jesus, cujo título era “Uma Santa”. O artigo corria mundo, publicado pelo Jornal Católico Era Nova do Recife (Mito e Realidade, op. cit.). Seguindo-se a esse, artigo do Padre Cícero Torres, da cidade de Água Branca (PB), expresso num folheto denominado Graça Concedida por Deus. O folheto existe.3 Era o auge da fé religiosa, que serviu de objeto para uma crítica sarcástica do sociólogo Jader de Carvalho ao analisar o movimento religioso do Juazeiro, no prefácio do livro Mito e Realidade. 

Retomo ao que vinha narrando sobre os testemunhos: para todo um público, o milagre era uma realidade. E não só para as pessoas simples, tendentes a acreditar no maravilhoso, no fantástico. Havia também, no meio intelectual, os que acreditavam ser de ordem divina. Assim sendo, nenhuma dúvida mais pairava sobre os fenômenos, nem mesmo a reação fulminante do Bispo, contestando-o, influíram no pensamento religioso da massa. Ao contrário, a adesão foi inevitável, sobrevindo daí a grave crise religiosa, que teve seu desdobramento, formando-se duas correntes: uma, fiel ao Bispo; a outra, que acreditava piamente no milagre – todos eles de notável saber, como o Padre Ferreira Düetts (era poeta), o venerando Joaquim Sóter de Alencar, de caráter inquestionável, considerado a pérola do clero, e Monsenhor Monteiro, culto e grande orador sacro. Tenho que registrar que, à época, era um clero culto. O conceito de Milagre não só era creditado aos sacerdotes daqui, mas outros sacerdotes de Dioceses distantes acreditavam no fenômeno como sendo de ordem divina, como por exemplo, o Padre Carloto Távora, à época na Diocese do Maranhão, depois foi Bispo de Caratinga (MG). Nesse oceano de dúvidas e concepções diversas, vale aqui lembrar Michel Foulcaut, que escreveu: “Os problemas da História podem resumir-se numa só palavra: o questionar dos documentos”.

Dom Joaquim continuava inflexível, contestando veementemente, convicto de que não havia milagre algum nas comunhões da beata. O atestado do Dr. Marcos Madeira, escrito de próprio punho, invocando o juramento de médico, passou a ser documento oficial, e a reação de Dom Joaquim foi de decepção. A proposição do Padre Cícero de que o sangue aparecido nas hóstias era de origem divina, numa palavra, de Cristo, contrariava a posição do Bispo, que dizia ser essa concepção avançada e grave, e recriminava-o, perguntando: “A Igreja lhe autorizou a pregar essa novidade?”. E foi o enunciado dessa proposição, sustentando a tese de que era o sangue de Cristo, que marcou o movimento teológico-ideológico da chamada Questão Religiosa do Juazeiro.

A publicação dos atestados médicos pela imprensa trouxe apreensão e preocupação não só ao Bispo, mas a todo o clero. Até aquele momento, sua intervenção na trajetória dos fenômenos consistira em longas cartas para o Padre Cícero e o Monsenhor Monteiro. A partir daí, ele reagiu, cobrado pela imprensa, pela ala do clero descrente do milagre, e por um segmento que até hoje se desconhece, mas citado em suas Pastorais – para muitos autores, a Maçonaria, já aqui presente com grande poder. Entretanto, nada de oficial consta nos anais de toda essa longa história, que o comprove. O Bispo, demonstrando ceticismo, deixa evidente que absolutamente não aprovava os fatos, e tentava se eximir de responsabilidades. Decidiu então que seria feito uma averiguação minuciosa, ordenando que o Padre Cícero comparecesse ao Palácio Episcopal para se explicar. Cumprindo ordens, e demonstrando irrestrita obediência, ele seguiu para Fortaleza, e no dia 17 de julho de 1891, depois de prestar o juramento de fé com a mão direita sobre um dos livros do Evangelho, prestou seu depoimento, prometendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado. Testemunharam essa acareação os sacerdotes Monsenhor Hipólito Gomes Brasil, Secretário do Bispado, e o insigne Padre Clicério da Costa Lobo, convidado do bispo como Secretário ad-hoc. Seu depoimento foi chamado de “Auto de Perguntas”, reminiscência do antigo e horrendo “Auto de Fé” da Suprema Inquisição.

Após ser ouvido, o Padre Cícero apresentou um documento para ser incluído ao Auto de Perguntas, escrito por ele sobre a vida espiritual da Beata, que constou de nove itens, aos quais deu os seguintes títulos: “Disposições e Provações de Maria de Araujo; Visões; Dom de Vocação; Colóquios; Espírito de Penitência; Fatos extraordinários; Êxtases; Estigmas; e Como Nisso Procedi”, resumindo com um adendo: “Quanto ao que possa ter aqui omitido, e para o que não sobrou tempo, refiro-me aos diversos atestados médicos, que, o quanto me cabe, confirmo e julgo autênticos. Eis, Exmº Sr. Bispo, quanto ocorre-me agora, certo de que só a obediência, a maior honra e glória de Deus, e a edificação a isso me obrigam, isto é, a fazer públicos todos esses fatos” (Amália Xavier, ibid, p. 77).

Depois do seu depoimento, o Bispo o recebeu em audiência privada, quando mais uma vez reiterou sua desaprovação aos fenômenos, sempre defendendo a tese de que o sangue aparecido nas hóstias recebidas pela beata não era o sangue de Cristo: não é nem pode ser, segundo os dogmas da Teologia Católica. Na sequência, de uma só canetada, o Bispo baixou duas portarias: a primeira, dirigida ao clero, sobre sua posição a respeito do fato dito milagroso, que relegava a plano secundário; a segunda, nomeando a Comissão de Inquérito para a apuração do caso.

Apesar de avisado do que ocorria no Juazeiro, parecia o Bispo não ter uma visão precisa do tamanho do movimento e da crença, que se alastrava com uma velocidade impressionante, já sedimentada na mente das pessoas, desde as afirmativas do Monsenhor Monteiro. Acreditou que, com as medidas exaradas na Primeira Portaria, conseguisse extirpar do seio da massa a crença, que já havia se alastrado Nordeste afora. O Padre Clicério, após as declarações do Padre Cícero e da sua nomeação para investigar o caso, fez críticas contundentes ao movimento, dizendo que iria extirpar do seio da coletividade tamanha heresia. Azarias Sobreira (idem) confirma as palavras do notável sacerdote. 

A ordem dada pelo Bispo era a de agir com rigor. Fazia comentários alusivos à passagem do Padre Cícero pelo Seminário e sua ideia obsessiva a respeito de hóstias ensanguentadas. Vê-se, nesse detalhe, que a Comissão Episcopal estava afinada com o Bispo. Os documentos referentes ao caso mostram evidentemente que o Bispo tinha plena convicção de que o caso iria lhe trazer, como trouxe, problemas de ordem religiosa e moral. As visões da beata já eram algo do seu conhecimento desde o ano de 1886, quando o próprio Padre Cícero o fez ciente, num encontro na Vila de Quixará, estando Dom Joaquim em missão episcopal.  Discorrendo sobre a beata, assegurou ser ela portadora de “dom” especial: “tinha visões, era ascética, fazia jejuns diariamente, e mortificações; ao sair desse estado de prostração momentânea, profetizava, ouvia frequentemente vozes a lhe dizer que grandes acontecimentos iriam acontecer no Juazeiro, e que essa voz era a do Cristo, pois ele lhe revelara”. O Bispo o ouviu em silêncio, mas, empolgado, chamou os fatos de — extraordinários —. Entretanto, advertiu-o a não fazer nenhum comentário, e que guardasse silêncio total. Essa confidência ao Bispo selou seu destino: pouco depois, o clero interpretou como ilusão. 

Com a primeira Portaria, Ddom Joaquim pensou que o movimento cessasse um pouco, sobretudo a vinda de peregrinos ao Juazeiro, mas foi um engano terrível – a Portaria em nada contribuiu para impedir que a romaria e a crença no milagre sofressem abalo. Ao contrário, ela cresceu, alastrando-se assustadoramente, despertando no povo mais exacerbação e maior reverência ao milagre. Autoritariamente, o Bispo impunha ao povo não ouvir o Padre Cícero, e o obedecer como Pastor da Diocese, numa concepção vazada no poder medieval da ortodoxia romana, mas tudo foi inútil. O que de fato ocorreu foi a insubmissão do povo às suas ordens, e mais crença no milagre.

Na segunda Portaria, nomeava a Comissão de Inquérito para apurar in loco o fenômeno. O documento diocesano, constante da primeira Portaria, enumera três itens que deveriam ser obedecidos rigorosamente, por serem decisões eclesiásticas: 1º) Proibia expressamente qualquer culto aos panos ensanguentados encerrados na caixa de vidro, os quais deveriam ser retirados da capela e guardados em lugar seguro, até que chegasse ao Juazeiro a Comissão de Investigação, que teria a guarda dos mesmos. 2º) Ordenava ao Padre Cícero se desdizer publicamente da proposição que avançou, afirmando que o sangue aparecido nas sagradas partículas é o sangue de Cristo, pois não é, nem pode ser, segundo os dogmas católicos. 3º) Ordenava que, dentro de oito dias impreterivelmente, após a chegada da Comissão Episcopal, a beata Maria de Araújo deixasse o Juazeiro e fosse recolhida à Casa de Caridade do Crato, onde deveria permanecer por seis meses.

Aí fica claro que o relatório de nove itens, apresentados pelo Padre Cícero a respeito da vida espiritual da beata, e que a seu ver eram provas eloquentes da veracidade dos fatos, o Bispo menosprezou. Queria provas rigorosas, concretas, deixando claro que o argumento espiritualista apresentado pelo Padre Cícero não valia nada. E rapidamente abriu Inquérito para apuração dos fatos, classificando de injuriosos e uma blasfêmia à Igreja. Àquela altura, já era evidente em dom Joaquim o sentimento de desconfiança que o atormentava, inoculado no seu ânimo por vários membros do clero, com destaque para os padres Fernandes Távora e Manoel Félix de Moura. Apesar do ponto de vista conflitante, ainda teceu um conceito favorável ao Padre Cícero, dizendo ser ele de bom caráter, puro, zeloso, e em extremo dedicado à Santa Religião que professamos, incapaz de qualquer embuste, ou de pretender enganar a quem quer que seja, o que não o impede de poder iludir-se” (Amália Xavier, p. 79, op. cit.).

A imprensa publica as duas portarias, que também foram afixadas na porta da capela do Juazeiro e da Igreja Matriz do Crato, por ordem do Diocesano. Seguiu-se então a guerra de pontos de vista, quando o milagre era por todos aceito como sendo divino. Ao nomear a Comissão de Inquérito, o Bispo escolheu o que de mais ilustre havia no clero cearense, além da confiança que depositava nos dois. O Padre Clicério Lobo e o Monsenhor Doutor Francisco Ferreira Antero, teólogo pela Escola Latino-Americana de Roma. Ambos de credenciais reconhecidas pelo clero.

Retornando ao Juazeiro triste e abatido pela imposição que o Bispo lhe fizera, isto é, a de se desdizer publicamente de que os fatos não eram de origem divina, conforme o item 2º da Portaria episcopal, o Padre Cícero reagiu, remetendo para a Santa Sé uma apelação, condicionada ao Concílio de Trento (1545-1563). O Documento, saído do punho de Marrocos, continha assinatura dos seguintes sacerdotes: Padre Cícero Romão Batista, Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, Joaquim Sóter de Alencar, Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, Vigário Felix Aurélio Arnaud, Nazario de Souza Rolim, Manoel Rodrigues Lima, Vigário Manoel Furtado de Figueiredo, Padre Manoel Antônio Martins de Jesus, Vigário de Salgueiro (PE). E de 52 leigos do Cariri, Crato e Juazeiro, todos de posição social elevada, inclusive de mulheres, as beatas, testemunhas dos fatos. Era um texto vazado na teologia, extremamente erudito, cujo cabeçalho é o que se segue:

                                    Exmo e Revmo. Sr. Dom Joaquim José Vieira.

                        Non solum quilibet, contra quem lata sententia est, appelare

                        poteste, sed etiam omnes quorum interest sententiam revocari.

                                                                         (Júris Canonice)

“Nós abaixo assinados, Sacerdote e Fiéis da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, cientes da decisão interlocutória contra nós proferida na causa do Precioso Sangue, que corre no foro eclesiástico desta Diocese, queremos, com o devido respeito, e por obediência ao preceito legal do Sacrossanto Concílio Tridentino (Sess.13, e 1, et Sess 24 e 20 do ref.), apelar da dita interlocutória para Santa Sé, porque ela fere de morte a mesma causa, antes que ela fosse preparada, instruída e provada, com documentos que interessem profundamente à sua própria essência. Não se pode Exmo e Revmo Sr, juntar-se nenhum desses documentos. Consultas de Bispos veneráveis, por sua autoridade, sua ciência, sua virtude, respostas de Teólogos distintos, e fatos autênticos, juridicamente provados, e outras peças de suma importância — tudo reclama contra a interlocutória e pede sua inserção no corpo do Processo. Pelo que, venerando Senhor, pedimos, filial e humildemente, a V. Excia Revma, que dentro do prazo legal, em que nos achamos, se digne, pois, tomar nossa apelação, e faça seguir os trâmites legais, em termos.     

                                 Pela justiça, Orabimus ad Dominum Juazeiro Cidade do Crato,

                                  Diocese do Ceará. 28 de Julho de 1891”.     

Por esse documento, Marrocos consolidou sua posição de teólogo, prestando um real serviço à causa pela qual se empenhou. Uma via do documento, foi remetida ao Bispo que o criticou, se dizendo decepcionado e surpreso, devolvendo o documento por ser extemporâneo, recriminando o Padre Cícero mais uma vez, dizendo:

 “— Não metam mulheres no meio, elas entendem de teologia ao ponto de discutirem com o Bispo da Diocese? Todavia podem recorrer para a Santa Sé, terão ampla liberdade de o fazer, de acordo com o Tridentino. Não digo isso por amor de mim, mas pelo princípio que represento”.

Este foi o último documento remetido ao Padre Cícero, porque a partir daí fechou-se a porta ao diálogo. Qualquer que seja o julgamento que se tenha do Bispo e das regras que invocou para invalidar a assinatura das beatas, não teve efeito. Tudo leva a crer que ele as tinha como analfabetas ou de poucas letras, quando na realidade eram talentosas; interpretavam corretamente as escrituras, a espiritualidade e até mesmo a teologia, ensinamentos transmitidos a elas por José Marrocos, o teólogo da questão religiosa do Juazeiro. Também eram hagiógrafas, conhecimentos que Marrocos lhes transmitia, porque era um hagiógrafo. Muitos anos antes, ele já havia fundado no Crato, sua terra natal, o Jornal A Voz da Religião, disseminando conhecimento religioso sobre a vida dos mártires e santos. Influenciadas por ele, a leitura das Escrituras era imprescindível; dedicadas, aventuravam-se a traduzir pequenas passagens em latim, como foi o depoimento da beata Jael da Franca Cabral, que veremos na sequência.  

Chega ao Juazeiro a Comissão Episcopal. Hospitaleiro e cordial, o Padre Cícero hospedou-os em sua casa. Ao tomar conhecimento, o Bispo reprovou. Era tarde.

No domingo, dia 9, por ocasião da Missa Conventual, o Monsenhor Antero leu a Portaria supra. A capela estava lotada como sempre, e o anúncio da investigação causou viva sensação e interesse em alguns; outros, viam a presença dos Padres da Comissão Episcopal com cautela e certo desprezo, e diziam que o Bispo estava pondo em dúvida a palavra do Padre Cícero e de toda a comunidade que havia presenciado os fatos. Após a leitura da Portaria, o Padre Cícero, do seu próprio punho escreveu:

“—Certifico ter sido publicada hoje a estação da Missa Conventual, a Portaria retro-Ita-in verbo Sacerdotis”. Datou e assinou. Começavam, a partir daquele dia, sua jornada de amargura e o seu calvário de opressão, que duraram toda sua vida.

 

****

                                                                                                    

CAPÍTULO 5

O PRIMEIRO INQUÉRITO

 

As investigações duraram 30 dias, num longo e tumultuado processo de averiguação, com o Bispo a impor seu ponto de vista, expedindo ordens a seus enviados para agir com a máxima eficiência, a fim de elucidar o caso. O esclarecimento da Verdade e só da Verdade, era tudo que ele exigia, como sempre argumentou em suas Pastorais. Entretanto, suas advertências foram infrutíferas. Após 30 dias de investigação, o Padre Clicério Lobo, na qualidade de Presidente, já tinha formado seu ponto de vista do que havia presenciado, deixando o Bispo e o clero constrangidos, não só por sua conversão em acreditar no milagre, mas também pela posição do Monsenhor Antero, teólogo de nomeada, atestando o fato como sobrenatural. A posição dos dois padres tornava o episódio mais conflituoso, que por si só já era conflitante. A partir daí, o caso tomou uma conotação impressionante, pela dimensão. Juazeiro era uma babel de opiniões, com suas implicações.

No dia 9 de setembro, quarta-feira, tem início as investigações. A beata Maria de Araújo, a primeira a ser ouvida, quando afirmou vigorosa e categoricamente o fato, dando os seguintes esclarecimentos: disse chamar-se Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo, filha legítima de Antônio da Silva Araújo (falecido) e Ana Josefa do Sacramento, natural do Juazeiro, nascida aos 24 de maio de 1863, tinha, à época, 26 anos de idade. Por incrível que pareça, nada ocultou no seu depoimento, nem mesmo a história de que era portadora de ataques de origem nervosa, que, para alguns médicos, era tão somente sintoma de epilepsia. Já para Azarias Sobreira (ibidem), simples espasmos. Referiu-se aos escarros com sangue que lhe apareciam frequentemente, dizendo serem provenientes de uma queda que tomara aos 10 anos de idade; fez alusões às suas visões, que se deram a partir dos nove anos de idade, acrescentando que, desde o ano de 1885, o Cristo e a Virgem dirigiam-na pessoalmente. Sobre seus colóquios com Deus, assegurou serem verdadeiros, bem como as chagas em suas mãos, serem as chagas do Cristo, Ele lh’o revelara, estando ela em estado de êxtase. Confirmou o que dissera o Padre Cícero, no tocante às hóstias se transformarem em sangue, e ser esse sangue o de Cristo. Ele também o havia lhe revelado.

No dia subsequente foi submetida à primeira verificação. Estavam presentes, além dos Padres da Comissão, os dois médicos: Drs. Marcos Madeira e Inácio de Souza Dias. O público lotava a capela. Todas as precauções foram tomadas, lavagem da boca, verificação da laringe, gengivas e garganta. A vigilância foi redobrada, os padres atentos aos mínimos detalhes, limitando o mais que possível a intervenção de fatores aleatórios, para não comprometer o valor da averiguação, com a finalidade de esclarecer o misterioso fato. Era exigência precípua de Dom Joaquim descobrir aquela potência misteriosa que ultrapassava o conhecimento de todos dali, inclusive da Ciência, representada por três médicos e um farmacêutico idôneo, Joaquim Secundo Chaves de Melo. O Padre Clicério ordena ao Padre Cícero administrar a comunhão à beata. Em fração de segundos, ela entra em êxtase, enquanto a hóstia ia lentamente se transformando em sangue, impregnando os sanguinhos, se avolumando, tomando a forma de um coração, segundo os autos. Passados alguns instantes, e refeita dos êxtases, uma segunda comunhão lhe foi administrada, quando outra vez ocorreu o mesmo fenômeno. E aí outro fato teve lugar: horas depois a beata entra em estado de crucifixão, apresentando os estigmas da Paixão de Cristo, com pés e mãos sangrando. A terceira verificação realizou-se no dia 11, operando-se mais uma vez os fenômenos na presença de vários sacerdotes, do médico Marcos Madeira e de um elevado número de populares e interessados da causa. Maria de Araújo era uma hipnótica, tinha dom especial, ou simulava? Atestava o Bispo e seu segmento. São respostas até hoje sem explicação, como veremos no decorrer dessa história.

No dia 12 foi aberta a urna com panos ensanguentados, e constou do seguinte arrolamento: 60 sanguinhos manchados de sangue, 55 deles continham partículas ensanguentadas; 13 corporais, 4 toalhas, idem, o véu e a murça, objetos pessoais da beata, usados durante as comunhões. Cujos objetos foram motivo de polêmica, depois.

No dia 14, depõe o Padre Cícero, quando mais uma vez reafirmou o que já dissera em seu depoimento anterior, no Palácio Episcopal, acrescido apenas de um diálogo que, segundo ele, tivera com Jesus Cristo. Quando muito abalado e preocupado após sua volta de Fortaleza, pedira a Deus que lhe desse um sinal de que todos aqueles fatos eram verdadeiros, e em reposta ao seu aflito pedido teria ouvido o seguinte:

“Ego sum Jesus, hóstia santa, hóstia pura, hóstia imaculata; et vivificavi sanguinem Cordis ad pecatoris.Vide ne feceris, Conservus tuus frutuorum habentium testemonium sanguinis-mei, et Spiritu prophecie. Ego sum vitis vera, hóstia santa, hóstia pura, hóstia imaculata.”

Essa passagem convenceu-o da veracidade do fato. Portanto, tornava-se difícil para ele uma retratação pública dos fenômenos, como exigia o Bispo, acrescentando que uma ordem religiosa seria fundada no Juazeiro, com aprovação da Santa Sé. Ele aí não só atestou o milagre, como também fez profecia. E prosseguem os depoimentos. Nesse dia, foram ouvidas as beatas, todas elas partícipes dos fenômenos. A primeira a ser ouvida foi a beata Jael da Franca Cabral, tida como teóloga pela interpretação que dava às Escrituras. Usando o latim, seu depoimento foi rebuscado, além de profético, está nos autos. Seguindo-se em ordem cronológica as beatas: Maria Leopoldina da Soledade Melo, Ana Leopoldina de Aguiar Melo (eram parentas), Angela Merícia do Nascimento, Raquel Sisnando Lima, Antônia Maria da Conceição e Maria das Dores do Coração de Jesus, natural de Missão Velha, que confirmou ser testemunha dos fenômenos sanguíneos de Maria de Araújo. O depoimento da beata Maria Leopoldina Ferreira de Melo foi vazado no latim, tal qual o da beata Jael da Franca Cabral. Eis os principais trechos: Estoli parati quia tempus est breve, accendit lampadam tuam et vigilate. E prossegue, citando frases em latim, semelhantes às ouvidas pelo Padre Cícero. Incrível!

Observação importante: todas essas beatas não tinham chegado aos 30 anos de idade, pertenciam ao grupo de beatas formado pelo Padre Cícero, que lhes concedeu o hábito com todas as formalidades inerentes à vida espiritual; eram do Juazeiro, filhas de adventícios que lá tinham chegado, atraídos pelas virtudes do Padre Cícero. As beatas Ferreira de Melo eram do escol social do antigo Juazeiro, e de boa condição financeira. A exceção parece ser da beata Antônia Maria da Conceição, pertencente ao grupo formado pelo Padre Manoel Felix de Moura (Missão Velha). Algumas da Casa de Caridade de Barbalha. Como se vê, um cinturão fechando o Vale do Cariri. No Inquérito, não consta a beata Josefa Maria do Espírito Santo, vulgo Bichinha, como depoente; nada que confirme ter sido ouvida. De reconhecida notoriedade, por ter feito muitos anos depois a entrega dos panos ensanguentados ao vigário do Juazeiro, e também por ter sido uma das beatas presentes aos últimos instantes do Padre Cícero.

Inexplicável, para muitos escritores, é a ausência da principal beata do Juazeiro, em ordem cronológica, Joana Tertuliana de Jesus (beata Mocinha), não ter sido ouvida.

No dia seguinte, foram ouvidos os Padres Manoel Felix de Moura, Manoel Rodrigues Lima, Manoel Antonio Martins de Jesus (da paróquia de Salgueiro, PE), Felix Aurélio Arnaud Forrmiga, Manoel Furtado de Figueiredo, Nazário de Souza Rolim, Quintino de Oliveira e Silva e Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, todos afirmando ser o fenômeno de origem divina.

Concluído os depoimentos no Juazeiro, a beata foi conduzida para a Casa de Caridade do Crato, seguindo as diretrizes traçadas pelo Bispo, que insistia na sua retirada do Juazeiro. Na sua concepção, a presença do Padre Cícero, como seu diretor espiritual, influía no seu ânimo, concorrendo para o aparecimento do fenômeno. Assim, era difícil saber-se (são palavras suas) com exatidão o que ocorria de fato no Juazeiro. O bispo deixava claro que a influência do Padre Cícero dava lugar ao aparecimento do sangue, porque tudo nada mais era do que autossugestão. Para o Bispo e o clero, o Padre Cícero usava do método de sugestionar, caso contrário, segundo ele, como conceber-se a graça de transformar hóstias em sangue? Daí todo seu empenho em dar por terra o tenebroso caso.

Anos depois, num sermão repleto de emoção, o Padre Cícero se defendia, dizendo não entender de magia nem de ciências ocultas. Ao se referir ao estado de saúde da beata, o Bispo enfatizava ser ela de compleição frágil e doentia, dando lugar a esses transtornos, por ser na realidade uma sugestionável. Tudo leva a crer que o Bispo, levado por reminiscências da passagem do Padre Cícero pelo Seminário, baseava seu pensamento nos informes do Reitor Padre Chevalier, que acusava de ser o Padre Cícero um adepto das Teorias de Mesmer (Dr. Francois Antoine Mesmer, nascido em Well, em 1734 na Alemanha, autor de Memórias Sobre a descoberta do Magnetismo, e de um processo de curar enfermos por meio de imãs, e depois pelas mãos) e do dominicano Giordano Bruno (1548-1600), teórico das ciências ocultistas da memória, perseguido, excomungado e executado pela Igreja (informações do Monsenhor Francisco Silvano de Souza, de Barbalha, ao Padre Gomes, transmitidas pelo mesmo à autora, na cidade do Crato, em 1975). O autor, Dr. Manoel Diniz, refere-se no seu livro a essas curas, afirmando que o Padre Cícero obtinha somente usando as mãos. Veremos à frente.

Dentro dessa concepção, ficava evidente que o Bispo dava aos fenômenos uma classificação específica, qual fosse: a da atuação do ânimo pela ordem da palavra, que desencadeava no cérebro da beata o fenômeno da auto-sugestão, segundo a Escola de Nancy, muito estudada e acreditada em várias partes do estrangeiro e em Paris, então  em choque com a de Salpêtriére, como admitiu o cientista Julio César da Fonseca, no seu parecer sobre o fenômeno. Nas suas quatro Cartas Pastorais, o Bispo sustenta seu repúdio ao milagre, fulminando-o, pressionado pela alta cúpula do clero, que pedia resultados satisfatórios para sepultar de vez todo esse movimento, que, segundo diziam, já tinha ido muito além. Foi então que ele, premido e cobrado pela alta esfera do clero, apelou para a sugestão hipnótica ou para o efeito demoníaco, como declarou numa das suas Pastorais, com uma ressalva: “se é que o demônio tem poderes para operar milagres”. Por isso, a comparação. Na era medieval, o clero daquela época admitia a influência diabólica dentro da própria Igreja. O escritor Padre Azarias Sobreira foi o único a admitir que, no Juazeiro, houve interferência do demônio para dar por terra um projeto espiritual ao qual o Padre Cícero tinha se proposto (op.cit.).

No oceano de discussões e pareceres, o milagre já estava sedimentado na alma do povo, pelo testemunho do Monsenhor Monteiro, dos eminentes médicos, Marcos Madeira e Ildefonso Correia Lima, e dos dois Padres da Primeira Comissão de Inquérito. A repercussão foi estrondosa, sobretudo por Monsenhor Antero, um teólogo com estudos em Roma, o que evidentemente lhe dava credenciais. Se até aí existiam dúvidas, elas se dissiparam após as declarações dos dois, e a crença no milagre ganhou proporções astronômicas. 

Cumprindo a ordem do Bispo, a beata foi levada para a Casa de Caridade do Crato, quando seria mais uma vez interrogada. Os padres da Comissão Episcopal levam também a urna de vidro, onde estavam guardados os paninhos das suas comunhões ditas miraculosas. Pela manhã, o Padre Clicério celebra a missa das sete horas com a capela lotada por curiosos e crentes. Presentes, um bom número de sacerdotes, os três médicos por ele convidados. Entre os padres presentes naquela manhã, estava o probo Joaquim Sóther de Alencar. Várias beatas da tradicional Casa de Caridade davam um toque solene ao ato. O número de fiéis presentes era de mil, segundo a matemática de Joaquim Secundo Chaves, em seu documento chamado de Memorial de Outubro. De acordo com os documentos da época, a calma da beata impressionava, chamando a atenção de todos os presentes. De joelhos, aguardava em silêncio lhe fosse dada a comunhão. Ao receber a partícula, ela se transforma em sangue. O teste da água entra em cena: sem ingerir o líquido, lança-o fora, isso efetuado à luz do dia, constatando-se que nenhum vestígio de sangue havia; outra comunhão lhe foi dada, ocorrendo o mesmo fenômeno. Portanto, a tese do Bispo de que o cenário do Juazeiro e a presença do Padre Cícero influíam no ânimo da beata caiu por terra, não tinha a menor validade, pelo menos até aí.

Na tarde desse mesmo dia, seguiu-se mais um fenômeno. Dos seus pés e mãos, corria sangue, causando viva comoção à multidão que se espremia no acanhado recinto da Casa de Caridade para constatar o fenômeno, cujo fenômeno foi testemunhado pelo médico Inácio de Souza Dias, que não assinou o ocorrido. Em decorrência desses fatos inexplicáveis pela ciência e pela teologia, a Comissão de Inquérito fez uma pausa nas investigações, e aí ocorreu um fato atípico – a caixa de vidro, onde estavam recolhidos os paninhos ensanguentados, sumiu misteriosamente do sacrário da Matriz do Crato. Como em todos os grandes movimentos, quer sejam de ordem política ou religiosa, há sempre um suspeito. Nesse caso, como não podia deixar de ser, apontam Marrocos como autor material do furto. Os contrários ao milagre asseguravam que ele, era de fato, o autor do sumiço dos paninhos, por se opor a que fossem levados a exame científico, como preconizara Dom Joaquim. O clero tinha convicção de que Marrocos era o autor material do furto. Três dias depois do ocorrido, prosseguiram as investigações sob o crivo do Revmo Glicério Lobo, que, aliás, não menciona, em passagem alguma dos seus depoimentos, o rapto da caixa. Para muitos autores, foi um lapso inconcebível silenciar ante um fato de tamanha gravidade. Os paninhos eram incontestavelmente a prova material da verdade ou inverdade, pela repercussão que causara no Episcopado brasileiro pelo seu inusitado. A omissão do Padre Clicério foi censurada pelo clero de imediato. Depois dessa falha propositada ou não, o incensado padre começou a cair em abandono pela hierarquia, culminando com seu afastamento do clero por suas declarações ao fechar o Processo, como detalharei adiante. Antecipando um pouco as datas, pois estávamos em 1892, passo para 1910, por ser de transcendente significado na história dos Milagres.

O furto dos paninhos ensanguentados permaneceram no limbo por 19 anos consecutivos, quando subitamente morre no Juazeiro o teólogo José Marrocos. Com sua morte repentina, veio à tona o sumiço dos paninhos ensanguentados, por muitos já esquecidos. Uma infeliz ironia do destino fez com que eles fossem parar, de modo transverso, nas mãos do Juiz da Comarca do Crato, Dr. Raul de Souza Carvalho, que teve como causa um pequeno desentendimento entre o Juiz e emissários do Padre Cícero, quando estes foram ao Crato buscar os pertences de Marrocos, que, dois anos antes, já havia feito do Padre Cícero, em documento assinado de próprio punho, seu único herdeiro, porque solteiro e sem descendentes. O Juiz, informado de que os emissários haviam entrado na casa sem permissão jurídica, entendeu que eles violaram a lei, e barra a entrada dos cargueiros, que estavam na calçada aguardando a retirada dos pertences do morto para conduzir ao Juazeiro.

O Juiz ampliou o episódio, transformando-o num grande escândalo. Não admitindo que se retirasse nada do Sobrado, propriedade de Marrocos, interditou-o. A alegativa para essa resolução era de que o documento apresentado era falho, por não ser registrado em Cartório, e desautoriza a entrada dos emissários na Casa, alegando condição sine-qua non, isto é: exigia as formalidades legais da lei. Depois de devidamente legalizado, aí sim, ele faria a devida entrega do espólio. Para os observadores da História Religiosa do Juazeiro, o Juiz talvez suspeitasse da existência dos paninhos lá guardados, ou foi uma infeliz coincidência? Escorado na lei, e com a segurança que a mesma lhe facultava, interditou o sobrado onde nasceu e viveu por toda sua vida o teólogo Marrocos, herança de seu pai, o Padre João Marrocos Teles. Portas lacradas, somente ele, Juiz, ou pessoa em sintonia com ele, tinha acesso, e foi justo por essa porta transversa que, guardião do espólio e garantido pela lei, revirando toda a casa do morto, encontra a caixa onde estavam guardados os paninhos manchados de sangue das comunhões miraculosas de Maria de Araújo. Acomodado numa caixa com tampa de madrepérola, estava ali o segredo que tanto reboliço causara ao clero, como suspensão de ordens, excomunhão e até óbito. Marrocos os guardava trancados à chave no seu oratório privado. Uma espécie de altar de alguns centímetros de largura dava apoio ao oratório, que lembrava o altar do Ssmo Sacramento. Em torno dele, velas acesas, incenso e flores frescas, numa expressiva demonstração de fé, uma impressionante e tocante cerimônia. Nesse detalhe está cristalizado o poder da fé que o fazia acreditar piamente que aqueles paninhos manchados de sangue encerravam um milagre, uma relíquia sagrada. Daí todo o seu zelo. Portador de uma fé contagiante, quem sabe, até capaz de por ela se imolar.

Para esse achado, há duas conclusões a se tirar do episódio: ou Marrocos era de fato um crente confiante do Milagre, ou os escondia para evitar profanação, como depois aconteceu com os restos mortais da beata Maria de Araújo. Detalharei à frente. Os que contestavam seu gesto de fé, e eram muitos, diziam: ele os escondia para que não viesse à tona o segredo da falsificação do milagre que ele engendrara. Seja como for, ele passou à História como o teólogo da Fé. Ausentando-se do Crato, essa guarda era confiada a uma parenta que morava em sua casa e era da sua mais alta confiança, pelos anos de convivência.

O achado foi de fundamental importância não só para o Juiz, mas para os que contestavam o milagre, e em especial para o clero, sob a guarda de Dom Joaquim. Encontrando-os, estava configurado o rapto atribuído a ele, quando misteriosamente sumiram do Sacrário da Matriz do Crato, em pleno processo de investigação. O achado foi uma grande infelicidade para os crentes dos milagres, porque novas insinuações surgiram no caso do Milagre da hóstia ensanguentada, aceito por muitos, desacreditado por uma pequena parcela. O Juiz Raul Carvalho, numa entrevista ao Jornal Unitário de Fortaleza, Ano de 1910, se dizia pasmo e incrédulo, ante o fato gravíssimo, e declara: “chamei a atenção dos que me acompanhavam para constatar a cena insólita que se desenrolava ante meus olhos, que não queriam crer no que viam”. Entre os que estavam com ele, encontrava-se o Intendente do Crato, o conservador e aristocrático Coronel Antônio Luís Alves Pequeno, um homem representativo do seu tempo, e demais pessoas da sociedade local. Continuando a busca, o Juiz foi até o sótão onde ficava a Biblioteca de Marrocos, e, para mais espanto, encontra um livro, para ele suspeito: ali estava toda a realidade da história do milagre, uma fraude, um embuste, sendo Marrocos o impostor de tamanha farsa (palavras do Juiz). O livro era escrito em francês e tinha como tema central o Sangue. Em meio a outros livros, havia um precioso acervo. Apontamentos para a História do Cariri em manuscrito, e Quem Fez Pretensos os Milagres do Juazeiro, A Vida do Padre Mestre Ibiapina, a Summa Teológica, de São Tomaz de Aquino, comentários de textos bíblicos, e o Augustinius, livro baseado no Jansenismo, doutrina da qual Marrocos era um cultor confesso. Um precioso acervo.

Com esses achados, principalmente do livro sobre o sangue, a polêmica acirrou-se, indo parar na imprensa, para gaúdio do clero, que ganhou mais um reforço para desacreditar o milagre. Depois de dias de polêmica entre o ir e vir de emissários, e até do Padre Cícero, ao Crato, quando se desentendeu com o Juiz que, inflexível, não queria fazer-lhe a entrega do espólio, dizendo não estar devidamente registrado em Cartório, embora fosse escrito pelo próprio punho de Marrocos, o que fez dois anos antes de sua morte. O Juiz não considerava o documento apócrifo, mas imperfeito perante a lei. Enquanto não houvesse as formalidades legais, o espólio ficaria sub júdice. Sua intransigência, não permitindo a entrega do espólio, quando invocava os trâmites da lei, ofendeu o Padre Cícero, que interpretou como um desacato a ele, ofendido em seu brio de líder e chefe religioso, revoltado com o que julgava uma ofensa à sua dignidade. Para ele, o Juiz tinha posto em dúvida a transmissão dos citados bens feita pelo falecido Marrocos. Uma afronta à sua pessoa, naturalmente. Sentindo-se ferido no seu amor-próprio, invoca a autoridade do Juiz iniciante e sua idade, chamando-o de “um menino que me desacata publicamente”. Impassível e inflexível, o Juiz Raul Carvalho não se abalou.

O episódio mostra que não era a interpretação da lei que o Juiz quis passar naquele momento, e sim uma desforra, quando ainda bastante ressentido pelas ofensas de que fora vítima por parte do Padre Alencar Peixoto, nos artigos de O Rebate, Jornal do Juazeiro, que será comentado mais à frente. Finalmente, depois das formalidades exigidas por ele, foram entregues os pertences, que seguiram para o Juazeiro, exceto os paninhos, que foram parar nas mãos do Intendente do Crato, o já citado Coronel Antônio Luís, que, de posse deles, usaria como arma para pressionar o Padre Cícero, no decorrer da campanha pela emancipação do Juazeiro, por ser contra ela. Essa é a versão mais corrente, embora desmentida pelo Padre Azarias Sobreira, que sustenta jamais ter ocorrido tal episódio – a entrega dos paninhos manchados de sangue  ao Intendente do Crato. Afirma categórico: “não houve essa entrega, tudo não passa de uma inverdade, uma invenção do citado Juiz” (op.cit.).

Os célebres paninhos manchados de sangue foram de grande importância na história do milagre que, nos anos 55-60, voltaram à tona, quando o já ancião Raul de Souza Carvalho voltou à imprensa, rememorando o fato e corroborando com o Padre Antônio Gomes, que acabara de lançar um opúsculo denominado Apostolado do Embuste, uma contradição sistemática, demolidora e confusa dos milagres, e principalmente da teologia de José Marrocos, que acoplava Cristianismo ao Jansenismo, incriminando-o totalmente pelo episódio sanguíneo. O Juiz questionava implacavelmente a autenticidade do Milagre, dando Marrocos como autor material da fraude: tentando denegrir sua imagem, o acusava de ser o químico do milagre. O sangue impresso nos paninhos era, para muitos, objeto de indagações, sobre porque foram incinerados, não obstante, os testemunhos de dezenas de pessoas da mais conhecida respeitabilidade, incluindo o médico Madeira, sob juramento. Mas o poder de Roma, condenando o milagre e as pessoas nele envolvidas, prevaleceu sobre todos os documentos testemunhais. O clero brasileiro acatou in-totum a decisão. Falou a voz dos séculos. Roma locuta est causa finit est. Roma falou, acabou a questão.

Com os dois sacerdotes se digladiando pela imprensa, houve a interferência do Bispo do Crato à época, Dom Vicente Matos, dando por finda a azeda polêmica, pois o tão aqui citado Azarias Sobreira (op.cit.) retrucou com veemência os escritos do Padre Gomes, através da imprensa.

Por esse opúsculo, Padre Gomes foi ameaçado de morte por parte de alguns fanáticos, ficando confinado a um quarto no Colégio Diocesano do Crato, onde era professor de História, lá morando até sua morte. Fazendo-me essas confidências já agora, fins de 74-75, não denotava nenhum arrependimento pelo que escrevera. Ouvia-o, embora dele discordasse em certas passagens. É assim que funciona a História, tornando-a atraente e sedutora. Os célebres paninhos ficaram ocultos por quase duas dezenas de anos, quando foram parar às mãos do Bispo Dom Francisco de Assis Pires, por intermédio da beata Josefa Maria do Espírito Santo (vulgo Bichinha), que os entregou ao vigário do Juazeiro, Monsenhor Joviniano Barreto, depois do falecimento da beata, a primeira na hierarquia, Joana Tertuliana de Jesus (Beata Mocinha), que, com toda segurança, os guardava.

A propósito dessa entrega, a escritora Amália Xavier dá outra versão para o caso, recorrendo ao livro do Dr. Irineu Pinheiro, Efemérides do Cariri, que registrou: O Bispo Quintino, numa Portaria datada de 28 de Junho de 1917, exigia do Padre Cícero esclarecimentos sobre o paradeiro dos paninhos ensanguentados e outros objetos condenados pela Suprema Congregação do Santo Ofício no ano de 1894. Sua resposta foi a de que não tinha conhecimento do paradeiro dos paninhos; sabia, sim, do boato de que Marrocos os tinha em seu poder, embora nunca o tenha perguntado. Tinha conhecimento de que, após sua morte, eles tinham sido entregues às autoridades policiais e judiciárias do Crato para serem entregues ao Bispo Dom Joaquim. Aí mais um ponto de controvérsia na longa história dos paninhos rubros de sangue. Uma observação: a beata Bichinha era a única, entre dezenas delas, que não merecia críticas do Padre Gomes, que a chamava de “velhinha cândida e de alma pura”.

Retomo ao que vinha descrevendo sobre a entrega dos paninhos ao Monsenhor Joviniano Barreto, que deles fez entrega ao Bispo Dom Francisco de Assis Pires, acatando a ordem de Roma de 55 anos atrás, quando foram incinerados no pátio do Seminário do Crato, com a presença de três padres. O já citado Monsenhor Joviniano Barreto, o Padre Francisco Limeira e Antônio Vieira, autor do livro O Jumento Nosso Irmão, de grande circulação, e também professor, à época, do Colégio Diocesano do Crato. O dia para a queima foi adredemente preparado, por ser aniversário de ordenação do Padre Cícero, 30 de novembro de 1949. O fato, entretanto, teve um resultado sinistro: 36 dias depois tombava, no Juazeiro, Monsenhor Joviniano, assassinado a faca por um fanático no paroxismo da loucura, na ocasião em que era lançada a pedra fundamental do Seminário dos Franciscanos, com a presença do Bispo do Crato e de vários sacerdotes. Abruptamente, o maníaco irrompe por entre a massa ali aglomerada, e consumou seu gesto criminoso, surpreendendo o sacerdote, que não teve chance de defesa, pois, paramentado, dava sequência ao ato do benzimento do local. Tumulto e comoção seguiram-se, e a solenidade foi suspensa. O pânico foi geral; as pessoas, apressadas e desoladas, deixavam o local. Apesar de classificado como louco, o maníaco denotava algum reflexo. Quando interrogado pelas autoridades porque agira assim, respondia: “Ele era inimigo dos milagres do Juazeiro”. Está no processo.

Um ligeiro histórico mostra que o curto paroquiato do Monsenhor Joviniano no Juazeiro não chegou a ser profícuo, ao contrário, reavivou velhas questões, disseminando a  desunião, quando abertamente profligava o passado religioso do Juazeiro, despertando rancor, e o vulgo, com suas crendices arraigadas, o tinha como inimigo da memória do Padre Cícero. Pensando combater exageros, criou mais confusão, no tocante à devoção a Cristo Rei, que se generalizou entre a massa, numa concepção esdrúxula.  Até mesmo entre os padres salesianos, herdeiros do Padre Cícero, houve confusão, dando lugar à retirada às pressas do Juazeiro do salesiano Davino Ferreira, que de lá saiu humilhado e ofendido, conforme depoimento do próprio ao escritor Edmar Morel (op. cit.). Está evidente por esses relatos que Monsenhor Joviniano subestimava ostensivamente a população do Juazeiro, tentando implantar ideias fora dos seus princípios subjetivos, pretendendo dessa forma subjugá-los. Daí a reação do insano Manoel Pedro da Silva,  assassinando-o. A população do Juazeiro, chocada com o trágico acontecimento, prestou as devidas homenagens póstumas, levando seu corpo a pé até a cidade do Crato, onde foi sepultado4.

Depois dessa longa retrospectiva, volto ao capítulo das investigações das quais falava, sob a presidência do Padre Clicério Lobo, quando foi ouvido o Padre Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, à época, professor do Seminário do Crato. Ele não só atestou categoricamente os fatos, como assinou seu testemunho, assegurando os prodígios de Maria de Araújo. Prosseguindo, no dia 5 de outubro foi ouvida pela segunda vez a beata Jael da Franca Cabral (a teóloga), que, firme e altiva, confirmou seu primeiro depoimento, fazendo profecia, dizendo da vinda para o Juazeiro dos frades franciscanos, e da fundação de um Seminário. Seu vaticínio se confirmou, embora trágico, como vimos. O grande defensor dos milagres, o farmacêutico Joaquim Secundo Chaves, fez nesse mesmo dia a entrega do seu famoso Memorial de Outubro, que passou à História. Resumia-se numa coletânea dos fatos ditos milagrosos, e constava de 59 assinaturas de devotos da causa, representando a elite do Cariri. Por fim, nesse dia 5 de outubro, foi realizada a última verificação na beata, cujo cenário era a capela do Seminário São José, para onde fora levada e onde estavam hospedados os padres da Comissão Episcopal.

No dia subsequente, foi ouvido o médico Ildefonso Correia Lima5, que confirmou os milagres por escrito. Esse médico foi ouvido duas vezes.“Os estigmas se revelam na Beata quando ela está em estado transcendental, medita profundamente na Paixão de Cristo, ocasionando êxtases, arrebatamentos e alheamentos, vendo-se nesses momentos, em suas mãos e pés, as Chagas de Cristo”, acrescentando que as hóstias ensanguentadas apareciam quando o Padre Cícero, exclamava:

                      “ —Para honra e Glória de Deus, apareça a hóstia!”

No penúltimo dia dos interrogatórios, o professor e teólogo, José Teles Marrocos, fez a entrega ao comissário do seu testemunho por escrito. Uma erudita exposição de fé nos milagres, porque ele, um verdadeiro e confesso apaixonado da causa milagrosa, da qual fez proselitismo.

No dia 13 de outubro, o Padre Clicério Lobo fecha o inquérito com a seguinte declaração escrita: “Ou negamos os fatos, ou admitimos um agente inteligente e oculto, que apresente a causa”. E complementou:

“Em abono da verdade, sou obrigado a declarar aqui, querendo cumprir o juramento que prestei de ser fiel à missão que me foi confiada, que todo aquele que estudar o espírito de Maria de Araújo e o de Antônia Maria da Conceição, como procuramos fazê-lo, já ouvindo seus diretores espirituais, já ouvindo as pessoas que as conhecem de perto, excluirá toda a ideia de artimanha e embuste nessas comunhões e partículas. São elas ditas beatas como tantas outras, levadas à vida unitiva, à vida de contemplação, o que bem pouco se conhece e pratica entre nós”.

A interpretação do Padre Clicério, baseada na hipótese do divino, para o Bispo, refletia tão somente a influência perniciosa de Marrocos com uma convivência por quase um mês no Juazeiro, na companhia do Padre Cícero, do Monsenhor Monteiro e da protagonista do milagre, Maria de Araújo.

Ao finalizar o texto dessa maneira, o Padre Clicério torna flagrante sua crença no Milagre e seu entusiasmo pelas beatas, dentre estas, a já mencionada Antônia Maria da Conceição. Externando-se assim, ele falara contra sua consciência? Pelo que se sabe da sua história de padre virtuoso e probo, tanto que fora escolhido pelo próprio Bispo para abrir sindicância sobre os milagres, impossível pensar-se que ele tenha falsificado o caso. Seu documento reflete, em toda a extensão, sua posição de circunspecção e honestidade. Era um místico; tomado por esse sentimento, deu um tom de divino ao fato, um fato obscuro, ensombrado pelo mistério que o cercava.

Seu testemunho causou impacto no clero. O Bispo, indignado, desaprovou abertamente o ter passado à imprensa, desautorizando-o a se manisfestar dali em diante. A grita no clero fiel ao Bispo foi de indignação e desaprovação; a partir daí, ele perderia seu conceito de formador de opinião e de figura de relevo no bispado.

Afastado da cúpula do clero do Ceará, foi decretada sua retirada da Diocese, por ordem de Dom Joaquim, e ainda considerado heresiarca, recaindo sobre ele uma somatória de injúrias, injustiças, incompreensão e falsificação do seu pensar, numa odiosa guerra religiosa, é o que atestam as denúncias do Vigário de Jaguaruana (Baixo Jaguaribe), Monsenhor José Agostinho Santiago. Em carta ao Bispo, ele dizia que o Padre Clicério, ali chegando após sua saída do Juazeiro, tentou dar continuidade aos fatos, com o aparecimento de hóstias ensanguentadas e sermões em tom apocalíptico, cujo tema principal era o do próximo fim do mundo, exemplificado com os fatos milagrosos do Juazeiro. Acompanhava-o nessa nova empreitada (expressão usada pelo Monsenhor), a beata Maria Caminha, da cidade de Aracati, a mesma cidade do Padre Clicério, vinda do Juazeiro. Desligado da Diocese do Ceará, abrigou-se na Diocese do Rio Grande do Norte. Ele, que outrora, fora amigo, conselheiro e formador de opinião do Palácio Episcopal, jogaram-no ao ostracismo, porque passou a acreditar que os fatos do Juazeiro transcendiam ao natural. Ao testemunhar in-loco, converteu-se, tendo ainda a coragem de tornar público o seu pensar. Desencantado e faltando o elo de ligação entre antigos colegas, depois de algum tempo no Rio Grande do Norte, retornou ao Ceará, refugiando-se em sua terra natal Aracati, onde de tristeza e depressão morreria. A bondade, piedade, do Padre Clicério Lobo impressionava a quem o conheceu. “Pobre e desiludido faleceu na praia de Melancias, seu torrão natal, onde se lhe veneram os restos mortais”, escreveu Azarias Sobreira (op. cit.).

O escritor Leonardo Mota, chocado e impressionado ante o desprezo que o clero do Ceará lhe infligiu, o evoca de modo comovente, e escreveu:

“Padre Clicério era portador de grande cultura e integridade. Foi um dos expoentes máximos do clero brasileiro. Ordenado pela Bahia, depois de um Seminário brilhante, ocupou o cargo de professor e colaborador ativo do recém-fundado Seminário da Prainha, em 1862, ao lado do aureolado Bispo Dom Luís Antônio dos Santos. No Rio, ocupou o cargo de Capelão do Asilo Santa Leopoldina em Niteroi, no Hospital da Gamboa, e em Cascadura, respectivamente, onde deixou um nome impoluto. No Ceará, em 1886, promoveu o Sínodo dos Bispos, e foi cotado pela hierarquia para Arcebispo e Primaz da Bahia, convite que recusou por motivo de saúde.

Termina o historiador e pesquisador cearense dizendo: “Ninguém o superou em terras alencarinas6 em saber e critério, além das virtudes de que era portador”.

O testemunho do Padre Clicério ganhou receptividade entre os devotos de todo o Nordeste e alhures, além de sedimentar mais uma vez na alma do povo, que via o caso como milagroso, já antes atestado pelo Monsenhor Monteiro, é bom lembrar.

Após as conclusões da Comissão Episcopal, a romaria para o Juazeiro chegaria ao ápice. A imprensa levou a notícia aos quatro ventos (expressão de Dom Joaquim).

 A propagação do milagre era tão estrondosa que o escritor Otacílio Anselmo registra no seu livro, Mito e Realidade (op.cit.), que, de uma só tirada numa tipografia do Rio Grande do Norte, foram impressos mais de cem mil folhetos, uma coletânea dos milagres distribuída em todo o País. No Juazeiro, a beata Maria de Araújo tornava-se grandiosa, despertando admiração, tornando-se na mais célebre mulher do Juazeiro e quiçá do Nordeste, suscitando interpretações de teólogos e médicos, com os Jornais noticiando o fato, e adorada como Santa pelos fiéis.

O impacto causado em Dom Joaquim e na alta esfera do clero da aceitação do divino, pelos dois padres da Primeira Comissão, foi de decepção e indignação. Instigado pela ala conservadora e por leigos – como os juízes da Barbalha e do Crato, que pela imprensa, através do Jornal A República (1891), pediam a supressão da heresia –, foi instalado o Segundo Inquérito. Apesar das provas irrefutáveis, para o clero não passava de uma fraude muito bem montada, tendo Marrocos como o impostor. De fato, para todo o episcopado, ele era o responsável pela farsa, palavras do clero. Nesse emaranhado de contradições, foi instituída a Segunda Investigação, e nomeado para presidi-la, o vigário do Crato, Padre Antônio Alexandrino de Alencar, e como seus auxiliares, os Padres: Miguel Coelho de Sá Barreto, de Barbalha, e Manoel Cândido dos Santos, de Saboeiro (CE). Tinha início a segunda investigação. Descreverei, penso, modestamente, o que foram as atrocidades cometidas durante essa segunda investigação, que teve nuances de prepotência, abalando a população do Juazeiro, de certa forma já esmagada por tantas humilhações. Foi grande a decepção não só para o Padre Cícero e seus seguidores, mas principalmente para a beata, que foi martirizada e coagida publicamente. Sem esquecer das conclusões recheadas de pareceres injuriosos, tendenciosos e desumanos. Acompanhemos seu desfecho trágico.

 

****

 

CAPÍTULO 6

 

O SEGUNDO INQUÉRITO SOB A PRESIDÊNCIA DO PADRE ANTONIO ALEXANDRINO DE ALENCAR

 

Pela segunda vez, a beata Maria de Araújo é reconduzida à Casa de Caridade, quando a trouxeram, a pé e sob coação, do Juazeiro ao Crato. Na memória dos mais velhos, e que foi passando de geração à geração, ela teria sido acorrentada pelos pés, enfrentando um percurso de duas ou mais léguas. Como não encontrei registros autênticos, fica a dúvida. Embora na imaginação da autora se desenhe esse quadro, dado o que ocorreu naquele dia fatídico da última investigação. Essa foi uma ligeira amostra do que viria, depois da sua última comunhão, de resultado negativo, avaliado pelo Presidente da Segunda Investigação. Antes, ele teria dito, iria fazer uma reparação pública pelo ultraje feito à Igreja de uma farsa que contaminou até sacerdotes de reconhecida notoriedade, como os dois padres da primeira investigação. E o fez: o Padre Alexandrino, subserviente ao Bispo Joaquim, agiu inquisitorialmente. Considerado um sacerdote íntegro e um expoente do clero, afirmam remanescentes de sua família, exaltando sua história religiosa e também política (foi deputado provincial), como se conceber ele agir como agiu? Fica a dúvida. Mas a verdade é que agiu, e impiedosamente, passando à História como um fato desumano, desabonador, que assombrou a quem testemunhou. Frágil e doente, a beata fez todo o percurso calada e sob coação dos que a estavam levando para ser julgada e condenada, numa averiguação grotesca e cruel, quando lhe foi oferecido um cálice amargo, que ela bebeu até a última gota. Mesclada de ódio e rancores, a segunda investigação teve um fim dramático, porque transformada num cenário de violência e crueldade. O Vigário Alexandrino exorbitou de suas funções; chamá-lo de cruel não basta, ele foi de fato um inquisidor. Acompanhemos. 

Era 20 de abril de 1892. Esta seria a última vez que Maria de Araújo se defrontaria com os representantes do clero, nomeados pelo Bispo. A capela era exígua para comportar a massa que lá se encontrava, extrapolando os números anteriores, quando muitos tiveram que ficar no pátio externo. Em meio à massa simplória, como classificada pelo clero, uma plateia da elite, formada por ilustres: os três médicos, Drs. Marcos Madeira, Ildefonso Correia Lima e Inácio de Souza Dias, o bacharel Aarão Madeira, irmão do citado Dr. Marcos Madeira, o Juiz da Comarca, Dr. Francisco Praxedes, o Coronel e farmacêutico, Joaquim Secundo Chaves, vários padres, muitos de estados próximos, Pernambuco e Paraíba, especialmente. Dois sacerdotes da extrema confiança do Presidente da Investigação, com a missão de ficarem atentos aos menores movimentos da Beata, numa vigilância intensiva e martirizante, dando um tom de angústia ao momento que passou à História como desumano e trágico. Investido de poderes inquisitoriais, ressalte-se, ele extrapolou a acareação, como veremos adiante.

Às sete horas da manhã, a beata Maria de Araújo foi levada da cela que ocupava na Casa de Caridade, ladeada por dois padres, e também por outras beatas lá residentes, para o anexo da Capela, com lugar já reservado para ela; na capela-mor ficou a elite.

O público que lá se encontrava enchia os corredores laterais, amontoando-se uns aos outros, dificultando a passagem para aqueles que lá foram à procura de ver mais um milagre. Ajoelhada e despojada de todos os seus pertences, como o véu que cobria sua cabeça, e um lenço vermelho que sempre trazia consigo, por ordem do presidente da Comissão. Para os representantes do clero, esses objetos eram nebulosos e comprometedores. A suspeita era a de que eles serviam como escudo, quando ela, driblando a vigilância, controlava o recebimento das hóstias por ocasião da comunhão, sutilmente e na ligeireza do escamoteador, ostentava sobre a língua hóstias tintas de sangue, esse o truque usado dizia o clero. Ela, que vinha sendo coagida por várias intimações, repreensões, respondendo a inquéritos, humilhada e com a saúde abalada pelos martírios que lhe infligia o clero, levando-a à exaustão. A pergunta é: onde ela iria buscar tanta energia para agir da forma como diziam? Os responsáveis por essa segunda investigação não só desacreditaram médicos e padres que atestaram o milagre, mas mancharam suas reputações, comprometendo leigos de caráter irrepreensível, como o respeitável Coronel e farmacêutico Secundo Chaves de Melo, e de centenas de pessoas que constataram a olho nu o milagre.

É de todo impossível dizer-se que não houve coação. O excesso de autoridade do presidente da segunda investigação é notório. Ele extrapolou os princípios da ética e da moral cristã. Mas vamos aos fatos: de cabeça baixa e olhar incomensuravelmente triste, a beata dominava a cena. Apesar de todo esse aparato humilhante, parecia haver, em torno dela, uma aura, fazendo com que o povo dali não arredasse pé. Inicia-se a Santa Missa; chega o momento solene da comunhão. Somente ela a receberia, fato sistematizado desde a primeira investigação e continuado nessa segunda. O Padre Alexandrino, portando o cálice que continha a partícula, aproxima-se dela, num ritual exótico, e ordena-a abrir a boca. Em seguida, ordenou-a que fechasse e reabrisse, mostrando a língua, por intensos minutos. Foram momentos cruciais. Depois desse ritual exótico, num imenso aparato de cautelas, que teria sido justo, evidentemente, se não beirasse o exagero, chegando quase ao limite da resistência humana, termina por dar-lhe a comunhão, para em seguida continuar o mesmo ritual de abrir e fechar a boca. Passados alguns instantes, o espanto para a gigantesca plateia ali presente: ao extrair a hóstia da boca da beata, ele, num acesso de despotismo, convida as autoridades que lá estavam a se aproximarem e, num gesto grotesco, como quem comemorava, apresenta-lhes a hóstia, que se mantinha intacta e branca como a neve. “Por fim, foi dada a ordem para que ela ingerisse a partícula, o que ela fez, sem dificuldade” (Otacílio Anselmo, op. cit.).

Nos dias 21 e 22, repetiram-se os mesmos testes, os mesmos estrambóticos rituais, o local o mesmo, o da capela da Casa de Caridade, que virou um palco, dado que fizeram da investigação teatro, por isso seu desfecho foi dramático. Em meio às testemunhas especialmente convidadas, uma chamou a atenção dos presentes pela discrição e circunspecção do seu porte e da sua indumentária. De terno preto, camisa branca com colarinho à batina de padre, cenho fechado e, nas mãos, o objeto de sua devoção, o livro A Imitação de Cristo, leitura obrigatória para ele, dizem os que o conheceram de perto. Era o teólogo Marrocos, que ali estava a convite da Comissão Episcopal. Este dia ficaria marcado como o dia do último martírio da beata. Pela última vez, ela foi levada à presença dos sacerdotes. O povo, ansioso, aguardava a reprodução do Milagre, expressando-se nos olhares que se entrecruzavam, convergindo diretamente para a agraciada Maria de Araújo.

A capelinha da Casa de Caridade era o palco daquele drama comovente e reacionário. Os padres sempre atentos, numa precisa e rigorosa vigilância, aparato igual a certos órgãos repressores de um recente passado, aqui no Brasil. Inicia-se a santa missa, em seguida a comunhão. Outra vez o Padre Alexandrino usa do mesmo ritual do dia anterior: abrir e fechar a boca, por intensos minutos, no que ela obedece humildemente, demonstrando por essa forma que a humildade é uma virtude cristã por excelência. Visivelmente debilitada, mesmo assim, foi pressionada até a exaustão. Imóvel e serena, olhos fechados, alheia às circunstâncias daquele momento trágico, parecia não estar ali, e sim em outra dimensão, como se a este mundo não pertencesse, atestam comovidos os que testemunharam o fato. O Vigário lhe fez uma pergunta; ela não responde, o que causou nele irritação.

Virando-se para o público, ele lança um olhar à multidão, que se comprimia à espera do milagre, e convida para junto de si a nobreza ali presente, de juízes, doutores e padres ilustres. Aí foi o incrível! O que parecia uma inverdade era tão somente a verdade, ou inverdade?  Outra vez, a partícula recebida por ela minutos antes estava intacta e na sua brancura imaculada. Deus quis provar o Padre Cícero — Sua Mão Divina ocultou o Milagre. O sangue não tingiu a hóstia, foi o amargo. Se fosse dado ver à distância, com certeza ver-se-ia o coração do Padre Cícero lá no Juazeiro a sangrar.

Naquele conturbado e triste momento, a beata Maria de Araújo deve ter empalidecido, tremido e cambaleado aos pés do sacerdote. Terminava ali o ciclo dos milagres. Foi um momento de perplexidade e confusão, para tristeza dos devotos. Atônitos e decepcionados, retiraram-se do recinto sem nada dizer, mas convictos de que algo de errado tinha acontecido, pela oposição sistemática da segunda Comissão de Inquérito, que agia de modo reacionário: desprezo e desdém à causa. Para eles, uma infelicidade. Os partidários do clero, opostos ao milagre, aclamavam o ocorrido e diziam: tudo era mesmo uma fraude, um embuste, e davam Marrocos como o autor material e moral do nefasto e devastador caso. A única pessoa, exceto a beata, que se manteve imperturbável, e cujo fato não causou nenhum desapontamento, foi justamente ele, Marrocos. Sua indescritível calma em meio àquela tempestade não passou despercebida aos presentes. Para os psicólogos, esse estado de espírito reflete em toda extensão a calma do fanático. Passados alguns instantes, retirou-se do local, sem assinar o termo da ocorrência, mantendo-se silencioso. Parecia ter a convicção de que prevalecera o império da vontade clerical, pelo modo com que foi conduzida a investigação. Que alterações se produziram no ânimo da beata? São respostas até hoje envoltas em mistério, mistério insondável, inexplicado, obscuro. De volta à cela que ocupava na Casa de Caridade, um fato sinistro ocorreu, totalmente fora do convencional da investigação dos fatos, sublinho, para que não esqueçamos. Não foi nenhum caso de transcendência sobrenatural, e sim um comentário ingênuo, se é que houve, encerraria aquele dia trágico. O fato atípico dá uma visão do contrário aos seus procedimentos de discrição e humildade.

De acordo com algumas beatas da Casa de Caridade, Maria de Araújo teria dito que o Milagre não se realizara porque os padres da Comissão não estavam em estado de graça. Para quem a conhecia de perto, ela jamais seria capaz de externar esse ponto de vista, mesmo porque, nessa fatídica manhã-tarde, ela tinha chegado a um total estado de exaustão; impassível, demonstrava grande contrariedade, e chorava. Esse o retrato traçado por outras beatas, residentes na Casa de Caridade, contrariando o que disseram as informantes do Padre Alexandrino. Deitada, de olhos fechados e suando bastante, nada dizia, quando de repente abre-se a porta. Era o Padre Alexandrino, que, sem lhe pedir nenhuma explicação, munido de poderes supremos, se dizendo ultrajado e ofendido, numa atitude de superioridade, aos brados (reza a memória coletiva que falava muito alto, podendo ser ouvido à grande distância), identifica-a como uma farsante, insignificante, que tinha usado de persuasão para convencer o público, médicos, padres, e até mesmo o Padre Cícero, de um milagre que não existia. Mentirosa, devia ser presa”, declarou. Sem demonstrar a mínima compaixão pelo estado de prostração e alheamento em que ela se encontrava, sem nenhum respeito pela integridade física da beata, na brutalidade extravagante e completa indiferença por qualquer sorte de felicidade humana, retira do bolso externo da batina uma palmatória. Ordenando-lhe que fique de pé, “cheio de ira santa”, aplica doze bolos de palmatória em suas descarnadas mãos, e ordena sua retirada imediata da Casa de Caridade para o Juazeiro. Ao tentar se desvencilhar do padre cruel sem um mínimo de sensibilidade religiosa, ela cambaleou, quase caindo, sendo amparada por outras beatas ali presentes.

Quem testemunhou a brutal cena, o que viram foram suas lágrimas a lhe rolar pelas faces. Nesse momento, chega seu irmão. Visivelmente transtornado e blasfemando contra o Vigário Alexandrino, queria tomar satisfação, mas foi aconselhado a não procurá-lo. Cumprindo a determinção do Vigário, improvisam imediatamente sua retirada da Casa numa rede, por não ter ela a menor condição de voltar a pé para o seu Juazeiro, como sempre fazia de regresso do Crato. Dizer-se que o Padre Antônio Alexandrino era benigno, não tem lugar. Seus atos de submissão ao clero e à pessoa do Bispo são evidentes. Destacou-se como um perfeito inquisidor, por isso esse retrato, para mostrar o excesso das práticas tirânicas e repressivas do clero, sob o domínio de Dom Joaquim.

Esse registro que ora faço ficará como lembrança do que foi a história religiosa do Juazeiro, que, longe de ser uma ficção, foi sim a realidade de um clero medieval, que terminava por fazer adeptos. Refiro-me às declarações da ex Superiora da Casa de Caridade à época desses fatos, Delmina Silveira de Jesus. Essa religiosa, num ímpeto de desamor ao próximo, ou de irresponsabilidade, ou para dar uma satisfação ao clero, contrária aos fatos, pronunciou-se, dando declarações impactantes, chocando alguns membros do próprio clero e o público, desafiando os adeptos dos milagres. Foram declarações absurdas, grosseiras e esmagadoras sobre Maria de Araújo e o Revmo Monsenhor Monteiro, nome de expressão dentro do clero brasileiro. À época desses fatos, ele era reitor do Seminário do Crato. A ex Superiora e beata Delmina Silveira de Jesus, sem se aperceber do grande mal que trariam suas declarações, num momento agudo de suspeições e falsos testemunhos, incoerentemente disse o que se segue:

“Acusava Monsenhor Monteiro de ser conivente com a farsa de Maria de Araújo, e que, contrariando o regulamento da instituição, ela saía à noite para o Seminário, onde se reunia com os padres para conferenciar com eles sobre os exames a que tinha sido submetida, e que os comissários da investigação tranquilizavam-na. Acrescentou que Monsenhor Monteiro passava horas e horas em colóquio com ela, como se realmente fosse uma santa, e que seus fingidos êxtases davam-se após ingerir bons goles de cachaça”.

Espantosas as declarações da beata e ex Superiora da Casa de Caridade, Delmina Silveira de Jesus! O clero ficou estarrecido ante tais declarações. Caindo de sua posição e desacreditado, Monsenhor Monteiro, injuriado e difamado, era um dos membros do clero reconhecidos por sua vida imaculada. A partir daí, Dom Joaquim jogou-o ao ostracismo e, na sequência dos acontecimentos, dois anos depois era suspenso de todas as suas ordens e ameaçado de excomunhão. Foram tão graves as declarações da beata Delmina Silveira de Jesus, que o Padre João Augusto da Frota Aguiar, de grande conceito na Diocese e um dos fiéis amigos do bispo Joaquim, exigiu retratação, de público, da ex Superiora, dizendo que ela havia enxovalhado o clero, assim sendo era necessária uma reparação pública do que dissera.

O fato chamado de Milagre do Juazeiro trouxe consequências gravíssimas ao Padre Cícero e à ala do clero que ficou a seu lado, bem como a todo o povo do Juazeiro.     

Depois de 20 anos de estudo desse tenebroso passado, o que dizer do clero da época, senão que era um clero medieval e que agia de modo inquisitorial, exemplificado com os casos aqui descritos? Estou particularmente inclinada a acreditar que, ainda hoje, ressoem nas paredes da secular Casa de Caridade do Crato (fundada pelo inovidável Padre Ibiapina em 1862 com outra finalidade, e não para ser palco de tortura e ameaças) o som macabro da palmatória. Quem sabe, o fantasma espectral de Maria de Araújo lá não esteja, estática, submissa, com o seu rosário de contas azuis e brancas, ajoelhada, invocando aos céus perdão para o Padre Antônio Alexandrino, e inclusive para o implacável Dom Joaquim José Vieira, seu algoz, para a ex Superiora da Casa de Caridade, Delmina Silveira de Jesus, e para o Padre Manoel Felix de Moura, primeiro a fazer declarações semelhantes às da ex-Superiora.

A ira do Padre Alexandrino extrapolou, exorbitando das suas funções. E a esse ato extremo, que abalou estruturas, o clero fez vista grossa, mas o povo, indignado, reagiu ao gesto extremado do Vigário, protestando contra tamanha violência. O episódio é de todos conhecido. Apesar de não haver registro, a memória coletiva guardou-o, atravessando o tempo, chegando até os dias de hoje. Estava implícito, no gesto do Vigário, o poder incomensurável da Igreja de Roma. Os padres e bispos, recebendo ordens de instâncias superiores, acatavam-nas obedientemente. O receio era de que fossem suspensos de ordens, ou excomungados, ficando assim banidos da comunidade eclesiástica, tudo dentro dos cânones da Igreja Católica Apostólica Romana. E o exemplo de perdão, amor e humildade, que tanto ensinou Jesus, foi esquecido no decorrer dos fenômenos do Juazeiro. Para os padres da Segunda Comissão de Inquérito uma só coisa era verdade: a beata Maria de Araújo tinha sido apanhada em flagrante delito de falsidade, pois o fato ressaltava à mais pura evidência. Para eles, tudo era uma burla, e aí prevaleceu uma ignominiosa guerra de desprezo, poderes e exaltação, seguindo a linha da bula intitulada Summis Desiderantes Affectibus, do Santo Ofício, nome que substituiu a Inquisição.

Dom Joaquim insistia na sua tese de que o sangue nas hóstias era da beata, pois os últimos testes mostraram claramente a evidência da falsificada história dos milagres. Cético, daí em diante seu ceticismo foi às alturas, e a perseguição ao Padre Cícero chegou ao auge. O que prevaleceu foi a bula de Inocêncio VIII, de que fatos como os do Juazeiro teriam que ser sepultados, numa palavra: varridos de órbita. Apesar de proclamarem o fim da Inquisição, o caso do Juazeiro soa como velada Inquisição.

Os fatos aqui descritos procedem das mais idôneas fontes, vistos e testemunhados por todo um povo, e os documentos citados estão guardados na Cúria Diocesana do Crato, como símbolo de um passado que o clero queria sepultar, para que as gerações vindouras dele se esquecessem. Mas a História reagiu ao tempo, guardando-o para sempre. Dali em diante, nada mais houve de verdadeiramente importante a registrar sobre a beata, que, reclusa à sua casa, ficou confinada a um álgido silêncio, imposto por Roma, proibida também de apresentar-se em público.

Muitos anos se passaram desses fatos dolorosos. Aquela que fizera do Juazeiro a Cidade Sagrada, chegava ao fim, morria paupérrima e esquecida de todos, por tuberculose. Até mesmo o Padre Cícero não a procurava, impedido por Roma de com ela manter contato. Era mesmo o fim de uma história. É sabido que, diariamente, saía de sua casa a refeição para ela. Ao falecer a beata, ele deu-lhe enterro condigno, não só por sua presença, mas homenageando-a com funerais e luto. O caixão para seu sepultamento foi fabricado na marcenaria de Antônio Pereira; era de cor de nogueira escura, envernizado por dentro e por fora e trancado à chave, por ordem do Padre Cícero, escreveu Irineu Pinheiro, presente ao sepultamento (op.cit.). A mortalha era de cor marrom, semelhante ao hábito das Franciscanas. Mesmo desprezada pelo público, que a tinha esquecido, ela ofereceu o seu resto de vida para salvar outras vidas, e agonizou ao som dos estampidos dos tiros que cortavam os céus do Juazeiro de ponta a ponta. Era a guerra de Floro Bartolomeu.

O Padre Azarias Sobreira (op.cit.) reconheceu o desprezo dado por seus conterrâneos à beata, que morreu abandonada num miserável casebre, sem nenhum conforto, onde tudo lhe faltava. “Apenas duas ou três famílias, compadecidas de sua miséria, lhe levavam de vez em quando um pouco de consolo espiritual e material. Não resistindo à tuberculose que a corróia há anos, faleceu a 17 de Janeiro de 1914, em plena guerra do Juazeiro”, escreveu ele. Terminava aí a história de humilhação e martírio da beata Maria de Araújo.

De acordo com o Padre Gomes, que registrou, nas páginas da Revista Ytaytera (Crato), ela foi sepultada de pé, por ordem do Padre Cícero. Para ele, esse ato confirmava eloquentemente que o Padre Cícero a tinha na conta de Santa, e que, sepultada de pé, significava que ela continuaria viva. A antropóloga Rose Ribeiro, professora da Universidade Federal do Piauí, especialista em rituais funerários, afirma desconhecer povos que exijam o enterro em pé. Segundo ela, ficar em pé significa o desejo de continuar vivo. Ficar de pé significa vida. É uma posição vertical, lembrando o elo entre a Terra e o Céu. Diante do exposto pela antropóloga no Jornal O Globo (2006), fica evidente a assertiva do Padre Gomes do que pensava o Padre Cícero a respeito da santidade da beata Maria de Araújo.

                                 

****

 

 

CAPÍTULO 7

O CETICISMO DO BISPO DOM JOAQUIM JOSÉ VIEIRA

 

Eximindo-se do desfecho da segunda e desumana investigação que manchou o clero, o Bispo se defendia, dizendo estar pressionado por forças poderosas, sem citar quais. Aliás, no Juazeiro daqueles dias, generalizou-se entre o público que ele era simpático à maçonaria, e uma avalancha de suposições grosseiras foi desferida contra ele. Talvez fosse uma forma de extravasar o ódio que o povo sentia pelos sofrimentos infligidos ao Padre Cícero e à toda comunidade. Decepcionado com a primeira investigação e descrente quanto ao fato milagroso, ele dá início a novas investigações, dessa vez ouvindo leigos. Questionado sobre o caso de Sena e Oviedo na Espanha, idêntico ao do Juazeiro (sangue nas hóstias), não negou, mas fazia ressalvas. O clero sob seu comando rejeitava abertamente o milagre, apesar das provas testemunhais e documentos oficiais, como o do célebre médico Madeira. Para muitos, o que contava para tanta rejeição era a ascendência sem linhagem alguma de Maria de Araújo. Seria um desafio para a história da Igreja. Por isso, foram ouvidos personagens que, além de não crerem nos fatos como divinos, depreciavam-no, num tom de desdém. Eram eles os juízes do Crato e Barbalha, que pela imprensa emitem um arrazoado de inverdades e injustiça, dando por terra o milagre. Pesou também, para a ala descrente do clero, as insinuações do comerciante e fazendeiro Juvenal de Alcântara Pedroso, reconhecido pela urbe cratense como respeitável e digno. Para esclarecer suas dúvidas quanto ao milagre ser de origem divina, ele usou de um método tosco. Vejamos o que disse:

“Certo dia fui à casa do Padre Cícero. Ao chegar lá, encontrei a sala de visitas repleta de pessoas de posição social elevada, médicos, padres, comerciantes, e outras pessoas de bem do lugar, inclusive o médico Marcos Madeira. No centro da sala, rodeada por esses ilustres personagens, estava a beata Maria de Araújo. Impressionado com o caso do sangue nas hóstias recebidas por ela, embora descrente de que fosse um fato sobrenatural, pedi-lhe que escarrase no ladrilho da sala onde se encontravam todos. Sem demonstrar nenhum constrangimento, não se fez de rogada, e qual não foi minha surpresa, e talvez de todos que lá estavam: o escarro veio com bolhas de sangue”, o que comprovava, segundo ele, toda fraude montada. “Naquele escarro estava a explicação do inexplicado caso das hóstias ensanguentadas”.

Os juízes das Comarcas do Crato e Barbalha, coerentes com o Coronel Pedroso, insitiam na supressão, para eles, da heresia. Emitem uma nota pelo Jornal A República (ano de 1891), de cunho fascista, desprovida do principal: embasamento teológico. Abelardo Montenegro, em seu livro História do Fanatismo Religioso do Ceará, transcreve trechos do referido artigo. O Juiz de Barbalha, Siqueira Cavalcanti, na sua entrevista ao Jornal, disse: “certo dia, estando no Juazeiro, fui à missa conventual das 11h30min, chamada Missa dos Romeiros, celebrada pelo Padre Cícero, quando, num sermão exaltado, ele fazia apologia ao Milagre e previsões assustadoras, deixando o povaréu aflito; muitos, comovidos, choravam”. Com essa insinuação, o Juiz, para todos os efeitos, quis dizer que o Padre Cícero, ideologicamente, controlava a massa, colocando desse modo mais lenha na fogueira não só do clero, mas também das autoridades do Estado. Pesou também, para o Bispo, uma extensiva Carta de Idelfonso Gurgel Nogueira, enviada de Russas (região do alto Jaguaribe), quando fazia veemente crítica ao milagre, depois de ter ido ao Juazeiro, lá ficando por alguns dias, para ele, o suficiente para tirar suas conclusões de que tudo não passava mesmo de uma fraude. O cidadão citado não tinha conhecimento de teologia, nem da Ciência subjetiva do inconsciente, simplesmente seu ponto de vista era aleatório e inconsistente.

Todavia, foi acolhido pelo Bispo como verdadeiro. Na sua Carta Pastoral, ele faz referência a essa Carta como verdade suprema, sem citar o nome do missivista. Um paradoxo inexplicável, quando dos padres da primeira investigação ele não se cansava de exigir rigor nas acareações, numa exegese extrema. Entretanto, deixou-se levar por esses testemunhos menores, desprovidos de conhecimento teológico, e que foram anexados aos autos do segundo inquérito e remetidos sem demora para Roma, onde correria de fato o Processo Canônico sob a égide do Sacro Colégio.

A carta do Padre Quintino, onde se desdizia do que afirmara antes, bem como a do médico Inácio de Souza Dias, deu sustentação ao Bispo. Foi a gota d’água que faltava, pois já considerado por ele e sua ala como um embuste, uma farsa muito bem montada por Marrocos, e o recriminava, dizendo que ele estava fazendo teologia a seu modo, quando nenhuma autoridade canônica tinha para isso. As investigações acopladas à sua dúvida não paravam de chegar às suas mãos. Premido pelas cobranças do clero conservador e pela dúvida que o atormentava, envia os documentos para Roma. Para o Bispo, o resultado do segundo inquérito era a prova indefectível da fraude montada por Marrocos, a quem incriminava, chamando-o de maligno. Tudo fora provado, argumentava.

Para o Padre Cícero, com sua visão do milagre, acompanhado dos médicos e padres que atestavam sob juramento, o milagre era incontestável. Como desacreditar de teólogos da estatura do Revmo Monsenhor Antero e do virtuoso Clicério Lobo, que emitiram laudos afirmando ser o fenômeno de ordem sobrenatural? Que dizer-se do documento histórico do Dr. Marcos Madeira, que atestou sob juramento? A pergunta sempre existirá pelos tempos afora: qual o objetivo do Dr. Marcos Madeira, ao passar esse atestado para os pósteros? Fica mais uma vez a alusão à queima dos paninhos ensanguentados e a inevitável pergunta: por que o bispo do Crato, à época, Dom Francisco de Assis Pires, não mandou ditos paninhos para serem examinados pela ciência, já que os tinha como embuste? Era 1949, a ciência, bem mais avançada do que na década do milagre, daria com certeza resultado positivo ou negativo. Se aquele sangue ali impresso era da beata, como atestava o bispo e sua ala, ou tinha outra procedência? Só eles, os paninhos, eram na realidade a prova cabal dessa longa e dramática história de um milagre. Infelizmente, assim não aconteceu: viraram pó. O que restou do conturbado e misterioso caso é a dúvida, até hoje, sobre o que realmente houve no Juazeiro, naquele ano de 1889. Teria sido mesmo nada mais que um engano do Padre Cícero, dos médicos, e também do público, que constataram a olho nu o fenômeno, e de leigos da mais alta crediblidade, cite-se o farmacêutico Secundo Chaves de Melo, personagem exponencial da sociedade cratense e muitos outros? Era possível descreverem fatos inexistentes, como sangue nas hóstias e os estigmas que apareciam na beata, com pés e mãos sangrando? Só uma aberração de raciocínio seria capaz de semelhantes afirmativas: são perguntas que nos remetem há 118 anos atrás. Seria iludir a boa-fé dos fiéis.  Apesar da negativa de uns poucos, a história do milagre se expandiu, tomou conotações imprevistas, ultrapassou fronteiras e chegou à Roma.

Os testemunhos dos juízes de Barbalha e Crato, e do fazendeiro e comerciante, Juvenal de Alcântara Pedroso, que faziam parte da elite cratense, tiveram enorme peso. Apesar de tendenciosos, foram reunidos aos Autos do Primeiro e Segundo Inquéritos e enviados para Roma. Nas suas Cartas Pastorais, o Bispo faz alusão a esses testemunhos, para ele, relevantes e verdadeiros.

As medidas danosas e caústicas do Bispo, considerado por muitos um Inquisidor, eram constantes. As pastorais tornavam-se públicas, porque afixadas nas portas das Igrejas do Nordeste. O restante dos sacerdotes que ainda acreditava nos milagres, sem mais alternativa, acatou a decisão do Diocesano e da alta esfera do clero. Sem se afastar um milímetro sequer da sua posição contrária ao milagre do sangue na hóstia ser de origem divina, a tese do Bispo era a de que o sangue impresso nos paninhos era mesmo da beata, cuja posição ele levou até seus últimos dias à frente da Diocese do Ceará. Para ele, o caso já estava devidamente esclarecido pela coleta de fatos da segunda investigação; a culpabilidade da beata tinha sido provada de maneira inequívoca. Travou-se então uma guerra de concepções as mais exóticas, mescladas de infâmias, inverdades, rancores, de perseguições as mais crueis. Nesse clima de incertezas e radicalismo, o Padre Alexandrino, estribado no suporte desses testemunhos, foi além, e solicitou ao diocesano que pedisse ao Governo do Estado a remoção da “crescente população do Juazeiro para campos isolados de internamento além das fronteiras do Ceará”. A solicitação do Vigário Alexandrino de Alencar, na concepção do sociólogo Ralph Della Cave, é configurada como campos de concentração (Mistério em Joaseiro). Com esse procedimento, ele antecipou-se a quase meio século do que seriam os campos de concentração da Alemanha nazista, ou lembrou-se da Sibéria? A Sibéria, de que tanto falou Dostoievski na sua monumental literatura.

A partir daí, foi montado um processo vexatório e opressivo de vigilância eclesiástica sobre o Padre Cícero, e a tempestade de descrédito do clero inegavelmente pesou, sem impedir que a romaria e a crença no milagre sofressem nenhum abalo. O Bispo, firme e coerente com seus princípios, além de consultar oito teólogos de nomeada no estrangeiro (segundo escreveu na sua 2ª Carta Pastoral), usando de todos os meios para que o caso fosse devidamente esclarecido, convoca o eminente médico Dr. Júlio César da Fonseca Filho, reconhecido como cientista. Erudito, foi um dos fundadores do Jornal A República e pioneiro na fundação de bibliotecas no Ceará. Foi Deputado Provincial por sua cidade natal, Aracati (in 10001 Cearenses Ilustres). Atendendo à solicitação do Bispo, o médico-cientista deu os esclarecimentos que se seguem, de acordo com o seu ponto de vista. Não fugindo à realidade dos fatos, e descartando a hipótese do milagre, também da impostura, da simulação, começa o seu parecer invocando a tese do Padre Dr. Debreyne, um médico e religioso de Trapa, que classificava fenômenos dessa ordem como simplesmente patológicos. Falou sobre o fenômeno da histeria, discorreu sobre o hipnotismo de acordo com o professor Charcot, da célebre Escola da Salpétriere, dizendo: “aqui o invoco nas suas minudências, pelas circunstâncias dominantes do momento em Juazeiro”.

“— Se Maria de Araújo não é puramente uma histérica, como suponho, com bons fundamentos, depois de estudar sua história, é sem dúvida uma neurastênica de temperamento hemofílico. Tem hemorragias espontâneas, provocadas pela psicose do ascetismo exagerado, por disposições morais concentrativas, que a levam irresistivelmente à contemplação íntima das visões celestiais, devota prática como é. Portanto, Maria de Araújo não é uma mística, nem tão pouco uma mistificadora. É uma doente”.

E continua seu parecer dizendo:

“Uma mulher histérica e impressionável, dominada pela superexcitação nervosa, é um mundo de problemas. A inquietação que se apodera de Maria de Araújo imediatamente após a comunhão, os movimentos espasmódicos de que é vítima na ocasião, não podendo projetar para fora a língua, assomo de glossoplégia, desaparecendo por injunção do seu diretor espiritual, faz-me crer, cada vez mais, que se trata de uma histérica sem ataques. Repito. Maria de Araújo não é uma mística no sentido teológico da palavra; é simplesmente uma doente. O fenômeno que nela se opera, com a ‘mise en scene’ dos grandes espetáculos que age fortemente sobre a imaginação, não tem sua origem na corte celestial, e sim no córtex cerebral, no substratum anatômico dos fenômenos psíquicos”.

Sempre mencionando os grandes cientistas das Escolas da Salpêtriére e Nancy (Paris), que à época eram acatadas e estudadas pelo mundo europeu, onde o maior destaque era seu criador, o Professor Charcot, pioneiro nos estudos da histeria. Já a Escola de Nancy seguia a linha da autossugestão. O médico foi cauteloso e prudente, mas suas observações foram pautadas na hipnose. Criticou abertamente pela imprensa o atestado do médico Marcos Madeira, dizendo ter havido precipitação, e concluiu dizendo:

“O sangue aparecido nas hóstias recebidas por Maria de Araújo provém de hemorragias espontâneas, provocadas pela psicose do ascetismo exagerado, por disposições morais concentrativas. Maria de Araújo não é uma mística, no sentido teológico da palavra. É simplesmente uma doente”.

O atestado do ilustre médico Dr. Júlio César da Fonseca Filho simplesmente descontruiu o mito que se formou em torno do fenômeno chamado de Milagre, dando como causa a Sugestão, nada mais. Sua tese provocou mais polêmica entre religiosos e no meio médico do Ceará. Enquanto ocorria esse vendaval de depoimentos, com a imprensa agitando, Dom Joaquim, mesmo sabendo do ponto de vista do Monsenhor Antero (Secretário da Primeira Comissão de Inquérito), solicitou-lhe desse uma definição franca, sincera, do que deduzira das suas investigações, e exaltava seu saber teológico. De porte corajoso e firme, contava 36 anos de idade. À época, era vigário da sua terra natal, Icó. Sem usar de artifícios complicados, dispensou o recurso da elaboração filosófica; menos místico, mais teológico, numa altiva defesa do milagre, esclareceu a questão do sangue nas hóstias da seguinte maneira:

“O sangue aparecido nas hóstias não é de Maria de Araújo. V. Excia poderá fazer uma experiência, deitando uma partícula em líquido colorido e espesso como o sangue humano, que em dois ou três minutos esta partícula não se transformará naquele líquido, ficará umedecida, desfeita um pouco, porém nunca a ponto de não poder distinguir-se e separar-se, experiência que fiz. Ora, muitas vezes observei que, em poucos minutos, a partícula se transformava completamente, a ponto de não se distinguir nada, como em poucos minutos aumentou de volume consideravelmente, como tive oportunidade de notar e admirar.

Por conseguinte: ou devemos dizer que o sangue não é de Maria de Araújo, ou admitir um outro milagre sui generis: atribuir ao sangue de Maria de Araújo a propriedade de transformar instantaneamente uma substância em outra” (Amália Xavier, op. cit., p. 88).

Sua tese contrariava a do clero conservador e agitou o meio eclesiástico do Ceará, causando mais polêmica. No Juazeiro, os sermões eram carregados de fé e emoção no milagre, quando diziam que o sangue aparecido na hóstia era uma revelação de Deus para expiação dos pecados. Evocando o Apocalipse, falavam de fim de mundo; o próprio Padre Clicério estava imbuído desse pensamento quando explicitamente diz no seu parecer. Ele vislumbrava nos fatos o prenúncio de uma Nova Era.

Como já citado, Dom Joaquim, antes de se tornar um inflexível, chegou a admitir o aparecimento de sangue em hóstias, só que descartava a possibilidade do divino e admitia que todo o objetivo do Padre Cícero nesta questão era o de converter almas a Deus, cujo trecho lê-se numa de suas Cartas dirigida a ele, quando ainda o tinha na conta de um bom padre e filho da Igreja. Apesar de rígido em seus dizeres e ácido nas suas sentenças, sempre o considerou incapaz de embuste. Mas isso foi bem antes de ser tão pressionado não só pela hierarquia, como também por forças outras que despontavam no Ceará, vale lembrar, a maçonaria, o positivismo, o republicanismo, que o bispo e o clero chamavam de doutrinas esdrúxulas. No trecho de uma de suas cartas no ano de 1886, para o Padre Cícero, lamentando a falta de fé no Brasil, permeado por novas doutrinas, em tom de tristeza dizia: “Acautelemo-nos dessas doutrinas malsãs e salvemos o nosso Brasil, ainda há fé para isso”.

O Bispo jamais esqueceu os sofrimentos dos bispos de Pernambuco e do Pará, presos e condenados pela maçonaria. O Padre Cícero, diz o escritor Azarias Sobreira (op. cit.) “não perdia ensejo de, no púlpito ou nas rodas de amigos, profligar a fraqueza do governo imperial; e formava assim a opinião pública em defesa dos dois nobres confessores da fé. Lia e fazia ler, comovido, as pastorais de Dom Vital, que reputava um verdadeiro santo digno dos altares”, completa o escritor.

Nesse tempo, considerado pelo Bispo um virtuoso, coloca-se no lugar de um mensageiro da fé, de uma obsessiva fé, manifestada em todos os seus atos de vida, como: sonhos, visões, e até no aparecimento de sangue nas hóstias ser de origem divina, pensamento que já trazia arraigado desde os tempos de seminarista, quando, numa aula de teologia, discordou veementemente do Reitor, Padre Chevalier, o que fez sua ordenação ser retardada por dois anos, pois o Reitor levou o caso ao Bispo Dom Luís Antônio dos Santos, dizendo que, se ordenado, ele iria trazer confusão ao clero, por suas ideias tendentes à heresia.

Nesse emaranhado de depoimentos e suspeições, eis que vem à tona o Bispo Joaquim Arcoverde, figura proeminente da Igreja Católica, totalmente contra os fatos, para eles grotescos e supersticiosos. Ríspido, decretou que os padres crentes dos milagres fossem suspensos de ordens e proibidos terminantemente de fazer apologia dos milagres como divinos, imposição extensiva também aos leigos. Caso insistissem, seriam punidos com a excomunhão. Ordenou ao bispo do Ceará mandasse recolher os sanguinhos no Juazeiro, e que fossem queimados, como já decretado pelo Vaticano, e concluía dizendo: tudo não passa de uma fraude (Ralph Della Cave, op. cit.).

O Bispo Arcoverde, figura destacada da Igreja Católica, num assomo de indignação matizado de grande injustiça, esqueceu seu antigo colega de outrora, do Colégio do Padre Rolim em Cajazeiras (PB), e rotulava os fenômenos de escabrosos e uma degradação do dogma religioso. Para ele, o Padre Cícero estava enganado, evidentemente, e dizia que essa história de Milagre era injuriosa e uma infâmia para a Igreja. Sendo um dos mais respeitáveis nomes do clero brasileiro à época, ele nem sequer formulou uma tese capaz de convencer, não consta em nenhuma passagem dos seus pronunciamentos uma tese sólida sobre o fato, senão a de ser uma burla. Ele, que seria depois o primeiro Cardeal da América Latina, ateve-se a detalhes menores, e não a uma teologia convincente, já que demonstrava ser um exegeta e contestava os fatos. Entretanto, suas declarações surtiram efeito, calando no ânimo do aqui tão citado Padre Antônio Alexandrino que, estribado nos seus pronunciamentos, passou a pressionar as beatas depoentes, ameaçando-as da perda do hábito e de residência (Casa de Caridade do Crato). A princípio elas não se intimidaram, nem se importaram com a ameaça de excomunhão. Os padres adeptos dos milagres contestaram a posição de ordem do Padre Alexandrino de Alencar como um grande retrocesso eclesiástico, causando mal estar e grande comoção ao público, que recriminava o clero. Mas dada a grande pressão, elas não tiveram alternativa, senão desdizer-se do que afirmaram, dizendo serem falsas suas declarações. Evidentemente coagidas religiosa e moralmente, renderam-se de maneira humilhante e passaram ao ostracismo. Foram elas: Maria da Conceição, Maria das Dores do Coração de Jesus, Raquel Sisnando Lima, Maria Joana de Jesus, Jael Cabral (teóloga), e outras de menor expressão.

Na esteira desses acontecimentos e de opiniões várias, o médico Inácio de Souza Dias, que sempre esteve presente em todo decorrer desses fatos, rompe seu silêncio dias antes de deixar o Juazeiro. Na dúvida de que o milagre fosse de origem divina, deu uma declaração espontânea para a imprensa na cidade do Crato, dizendo: o que havia no Juazeiro, era simplesmente sugestão. Baseou seu ponto de vista nas afirmações do célebre Padre Faria (português), de que o essencial, no aparecimento desses fenômenos, era Sugestão. Recorreu também à Escola de Nancy (Paris), de que o ato pelo qual se faz aceitar pelo cérebro uma ideia qualquer, termina em sugestão. “E a beata Maria de Araújo era sugestionável e histérica, isso posso admitir, depois de apreciar por muitas vezes o fenômeno”. Essa declaração bombástica do médico provocou confusão entre padres, leigos e autoridades.  Segundo ele, foi forçado a deixar o Juazeiro de imediato.

Ao retonar à sua cidade natal Icó, remeteu uma Carta ao Bispo, que a classificou de a expressão da verdade.  Eis algum dos trechos da citada Carta, bastante longa.

Exmo e Revmo Sr. Dom Joaquim José Vieira.

Observando atentamente o fenômeno expresso na pessoa da beata Maria de Araújo, esclareço que não cheguei como desejaria a uma conclusão satisfatória; se antes dei testemunho, afirmando o milagre, o fiz sem os necessários dados. Porque, cercado que estava por um povo que transluzia fanatismo em todos seus atos, exigindo desse meu testemunho. Assim premido pelas circunstâncias do momento, emiti meu parecer sem a devida certeza. Hoje, distante 100 léguas do palco dos acontecimentos, sinto-me à vontade para dizer o que pude constatar em 40 dias de observação.

Lá não há nada de sobrenatural, e sim: que a beata é portadora de um grau elevado de autossugestão acoplada ao histerismo, que fazem vir a ela os sintomas como reconhecidos pelo cientista Julio César da Fonseca Filho. Portanto, esclarecendo o fato a V. Excia e ao clero, peço perdão pelo meu ato injustificado, assegurando mais uma vez que o fiz premido pelas circunstâncias”.

                                                               De V. Excia amigo e confidente.

                                                                Dr. Inácio de Souza Dias.

A carta do médico soou no meio eclesiástico e fora dele como um vendaval. Foi um verdadeiro estouro. Encorajada pelas declarações do médico, houve a rendição de vários sacerdotes (observação: os quatro médicos que deram seus pareceres eram formados pela Escola de Medicina do Rio de Janeiro, e o Dr. Idelfonso Correia Lima e Júlio César da Fonseca Filho foram deputados provinciais).

No dia 16 de agosto de 1892, o bispo baixava mais uma Portaria, suspendendo o Padre Cícero de pregar e confessar no Juazeiro. Aí a luta teve seu apogeu, seguiu-se a exaltação de lado a lado, enquanto o povo persistia na crença do milagre e a romaria chegava ao ápice.

                         

 

****

 

CAPÍTULO 8

 

A DEFESA DE MARROCOS E A DECISÃO DE ROMA COM SUAS IMPLICAÇÕES

 

O teólogo José Marrocos assumiu daí em diante a defesa do Padre Cícero e dos milagres, consultando teólogos do estrangeiro (Funchal e Porto, Portugal) o Bispo do Maranhão e seu ex-colega de seminário em Fortaleza, o Bispo do Pará, Dom José Lourenço da Costa Aguiar.  Nesse cipoal confuso, que tornava os fatos um verdadeiro labirinto de contradições, contrariado, Dom Joaquim ameaçava punir os seguidores dos milagres com a pena de excomunhão. Receavam o Bispo e o segmento que o acompanhava que se formasse um cisma, o que jamais aconteceria, pois o Padre Cícero nunca se afastou das regras canônicas, e seria incapaz de tentar uma defecção no seio do clero.

Depois de debruçar-se sobre os tratados teológicos por meses a fio, como afirmou, o Bispo Joaquim lança sua primeira Carta Pastoral, com data de 25 de março de 1893, condenando os fatos e exortando os fiéis a não darem crédito aos fenômenos, pois eram contrários ao ensino da Igreja. Fazia mais uma vez alusão ao testemunho do médico Ildefonso Correia Lima, classificando de puro engano e concluiu dizendo:O fenômeno do sangue nas hóstias é mero efeito de causas puramente naturais”.

Anexa à Carta Pastoral, a ratificação da suspensão do Padre Cícero de celebrar e confessar, não só no Juazeiro, mas em toda a Diocese. Proibiu-o de fazer uso da palavra em público, como também não lhe era mais permitido receber visitantes e peregrinos. O fato tomou uma dimensão enorme, abalando todo o Juazeiro. Proibir que os peregrinos e visitantes que lá chegavam para visitar-lhe não fossem recebidos por ele, em sua casa, nem dele se aproximar? Era o auge da força episcopal. Marrocos contestou a ordem, não reconhecendo no Bispo autoridade para decretar tal sentença. Para ele, o Bispo exorbitou de suas funções, e escreveu: Razão ou absurdo?”, desafiando-o e às autoridades episcopais, invocando trechos do cânone eclesiástico. Aí o seu destacado papel como defensor do Padre Cícero e dos milagres, tornando-se, sim, no personagem arquétipo da Questão Religiosa do Juazeiro.

Padre Gomes, aqui tão citado, por ser o maior estudioso do movimento religioso do Juazeiro, embora contestando, fato de todos sabido, analisando a defesa de Marrocos, acreditava que todo esse seu empenho em defender o milagre, e consequentemente o Padre Cícero, centrava-se num só ponto: desafiar o clero. Pois nunca esquecera de ter sido desligado do Seminário já diácono, fato que o magoou profundamente. Surge então o caso da hóstia ensanguentada, contestado pelo clero. Ele então toma para si a defesa do Padre Cícero e entra em confronto não só com o Bispo do Ceará, mas também de outras Dioceses, desmitificando as bulas que expediam. Fazendo-se uma leitura imparcial da sua defesa nesse caso, o que se deduz é que ele foi corajoso, por não temer sentenças drásticas, que por muito pouco não sofreu, como prisão ou mesmo desterro. Excomungado foi. A Inquisição agia na sombra, sutilmente, apesar de extinta há mais de 150 anos. São fatos que até hoje impressionam a quem se dedica a pesquisar e estudar o passado religioso do Juazeiro. Mas o Padre Cícero não se abalou com a ordem caústica do Bispo, e rapidamente (leia-se Marrocos) concebeu um meio de ficar perto do seu público que lá chegava de tão longe para ouvi-lo. A solenidade era chamada pelos romeiros —Prática ou Consagração—.

Não precisou de púlpito para que o ouvissem. Usou apenas uma das janelas de sua casa para falar à massa, em tom solene e moderado, sempre ao cair da noite. O ritual impressionava não só pelo tom de sua voz modulada, que fascinava, mas, pela sublimidade do momento, que tinha para a massa um efeito mágico. De frente para o povo, que se mantinha em silêncio solene, ele tinha, às suas costas, o reflexo da luz mortiça de um candeeiro a gás, que proporcionava um efeito impressionante, pelo contorno que dava à sua silhueta pequena e magra. O clarão da luz tênue do candeeiro, acoplado à sombra da noite, projetava-se sobre sua figura num contraste evidente, quando parecia agigantar-se. O momento era de grande sublimação. Sua voz pausada e suave dava um aspecto solene ao ato. O efeito teatral produzido pelo reflexo do candeeiro a gás sugeria ao espectador a visão de um ente sobrenatural — um Deus. Nesse instante mágico, ele então, com ares de um verdadeiro profeta bíblico, arrebatava as massas ali postadas, com sua palavra suave ungida de mistério. Mas o ponto alto da solenidade era mesmo quando erguia as mãos para traçar o sinal da cruz. Na unção piedosa desse gesto, a massa acreditava fluir dos seus dedos um fluxo divino e aí, prosternardos, levantavam os rosários para serem bentos, muitos não resistiam, choravam. Ainda hoje, revendo essas passagens de sua vida, pergunta-se: o que trazia aquela multidão a prosternar-se a seus pés? Como já escrito, suas palavras eram de uma simplicidade indescritível.

De Fortaleza, o Bispo Joaquim arremetia, e verberava ataques à sua pessoa, dizendo ser, o Padre Cícero, pregador de seitas grosseiras e supersticiosas. Equivocava-se, pois não há registro de tais fatos. Chamava-o de recalcitrante, de inovador de doutrinas esdrúxulas, nunca se cansando do seu indefectível argumento: “A Igreja lhe autorizou a pregar essa novidade?. Mas que doutrina inovadora era essa que tanto despertava a ira do Bispo? A do Padre Cícero, de admitir os fenômenos e dizer que o fim estava próximo e falar numa segunda redenção? Esta, fora da conceituação tomista de Dom Joaquim? E assegurar que os fatos eram de origem divina, conforme revelação ouvida do próprio Cristo, segundo afirmava? Sem acesso à Igreja, e a oficiar qualquer ato, desejando resgatar sua reputação, devidamente abalada, deu início à construção de uma Igreja encravada na colina do Horto, lugar vulgarmente conhecido por Serra do Catolé, de deslumbrante paisagem. Do alto da colina tem-se a visão panorâmica de todo o Vale do Cariri, circundado e bafejado pelo sopro benéfico e perfumado da Serra do Araripe.

Dr. Irineu Pinheiro (op.cit.), considerado o escritor da Revolução do Juazeiro, numa invocação solene, faz referência à beleza e grandiosidade da Serra do Araripe, quiçá da Serra do Horto, em imagens ufanísticas, num momento de grande emoção após a Revolução do Juazeiro, quando afirma seu amor pelo Vale do Cariri. Vejamos:

“Visitando hoje trechos da Serra do Araripe, onde foram feitos valados, porque se dizia que o Governador de Pernambuco, Dantas Barreto, mandaria um contingente em socorro ao Presidente Franco Rabelo, contemplava o Vale que se desenrrolava deslumbrantemente a meus pés. Tudo dourado pelo sol. Manchas claras dos canaviais, destacando-se dos matos mais escuros que as envolvia; mais próxima ao Juazeiro, ao seu lado, à maneira de atalaia, a Serra do Catolé, e nela, o perfil dos muros inacabados da Igreja do Horto, um sonho do Padre Cícero, que a oposição do Bispo Dom Joaquim José Vieira impediu se concretizasse em monumento secular. Em meio a toda essa poesia impossível de descrever, os homens lá embaixo não se entendiam”, finalizou.

 A construção da Igreja, afirmava o Padre Cícero, era em cumprimento a uma promessa que havia feito ao Coração de Jesus, juntamente com o Padre Antônio Fernandes Távora, à época, Vigário do Crato, Monsenhor Monteiro, e o Padre Manoel Felix de Moura, para que cessasse a estiagem que castigava o Ceará, no ano de 1888-89, por coincidência o ano do milagre. Sua construção era um sonho que acalentava de há muito. Fixada no elevado da colina, surpreendia pelo arrojado de sua construção de terreno acidentado. Os alicerces tinham a profundidade de 10 metros, e as paredes, 2 metros de largura. A construção era em estilo barroco. Manoel Diniz (op.cit.) classifica de bizarra, extravagante, sua construção.

Ao tomar conhecimento da construção, o Bispo Joaquim baixou uma Portaria, paralisando a obra e qualquer ato religioso no Juazeiro, mesmo por qualquer outro sacerdote, além de interditar a Igreja de Nossa Senhora das Dores. Mais uma derrota significativa, pelo fato de a comunidade ficar sem direito de cumprir suas obrigações religiosas. Era 14 de abril de 1896. Naquele momento angustiante, como angustiante foram outros de sua vida, certamente deve ter evocado as palavras do Apóstolo Paulo: “Já o mistério da injustiça opera” (Tessalonicenses, 2:7). Com essas medidas inusitadas e drásticas, padres e leigos ficaram confusos. Alguns, não interpretando bem a Portaria, não cumpriam a rigor a ordem que lhes fora dada. Tomando conhecimento do fato, Dom Joaquim sentiu-se injuriado e contrariado nas suas determinações, e ameaçou-os de penas canônicas, suspensão de ordens e excomunhão. Era a prevalência de sua ordem sobre os fatos, aos quais não admitia transigências.

As medidas foram danosas e destrutivas e deixaram sequelas difíceis de cicatrizar. Mas o tempo, que tudo ameniza, encarregou-se de um parcial esquecimento. A interdição da Igreja do Juazeiro durou exatamente 26 anos, deixando uma população inteirinha, eminentemente religiosa, sem o conforto espiritual, e o clero jamais se comoveu, diante dessa imposição, que suprimia o direito dos fiéis praticantes da religião católica no Juazeiro de cumprirem suas obrigações religiosas. Acuados e humilhados, jamais apelaram para outra linha de conduta religiosa. Vale dizer que já despontavam no Ceará algumas igrejas, como a luterana ou Assembleia de Deus, e a Batista, respectivamente. Vivendo um verdadeiro ostracismo, obrigado ao silêncio, à retração, seu único consolo consistia na bênção dada aos romeiros da janela de sua casa, nascida justamente pelo interdito da Igreja. Mas a devastadora perseguição não convenceu o povo, que jamais dele se afastou, nem mesmo os decretos romanos surtiram efeito. Ricos e pobres, letrados e analfabetos, grandes e humildes se concentravam em torno de sua pessoa para ouvir dele sua palavra simples, mas convincente de fé nas Escrituras, na Igreja primitiva dos Apóstolos (“O justo viverá da fé”. Romanos, 1.17.)

A aplicação da força pelas autoridades episcopais teve resultados opostos. Entendia o Bispo que estava usando de força. Não era, era apenas crueldade. As medidas expressas nas suas pastorais despertavam na massa mais reverência ao Milagre, e a romaria chegava ao auge. Num assomo de lealdade peculiar ao sertanejo, os fiéis ostentavam em suas casas retratos do Padre Cícero e da beata Maria de Araújo, ao lado dos santos tradicionais da Igreja Católica, e em volta da estampa, flores, rosários e velas acesas. Nascia no Juazeiro, segundo a visão de Ralph Della Cava, uma religião popular (op. cit.). Foi por esse tempo que surgiram as medalhas cunhadas com a efígie do Padre Cícero. Medalhas que foram concebidas por um judeu morador do Recife, as primeiras fundidas lá mesmo. Depois elas vieram aos milheiros, fundidas no estrangeiro, como declara em sua Pastoral ob Bispo Dom Joaquim, escandalizado e indignado. De um lado, a efígie do Padre Cícero em atitude de serenidade; na outra face, a da beata Maria de Araújo vestida com um hábito, tendo em volta da cabeça uma aureóla que, segundo o bispo, nem à imagem dos beatificados era permitida pela Igreja. Censurava o Padre Cícero por não reprovar tal desatino, ordenando fossem retiradas de circulação imediatamente. A maioria das medalhas era em alumínio, outras em ouro, disputadas e vendidas a preços astronômicos. Incontinente, o clero levantou-se, tachando de alta superstição e declarando-as ridículas, e excomungando quem as portasse.

Para o clero, o uso dessas medalhas só iria fomentar cada vez mais a ignorância e o fanatismo. Com as medalhas, também surgiu o fenômeno social: todas as crianças levadas à pia batismal recebiam o nome de Cícero, em sua homenagem. Num pequeno intervalo, o clero reagiu, e houve casos de crianças não receberem o batismo. A esta ordem do Diocesano do Ceará aderiu o Bispo da Diocese de Pernambuco. Foi quando passaram a chamá-lo de “meu padrinho”, ou Padim Ciço, numa demonstração de respeito ao líder religioso que admiravam, num sentimento de apreço. Fica claro, nesse detalhe, a grande liderança que alcançou e até hoje ninguém conseguiu suplantar em terras brasileiras. Passados 74 anos de sua morte, a veneração a ele, de santo e operador de milagres, continua. Na Igreja de Nossa Senhora das Dores existe um recanto destinado aos ex-votos, graças alcançadas por intercessão do Padre Cícero. São milheiros e milheiros, renovados todos os anos na grande peregrinação de 2 de novembro. Para todo um público, ele era uma pessoa diferente — um Ser sublime, enviado de Deus, e o viam como imortal. O que pensaria ele de toda essa avalancha de admiração? Quem sabe, não se sentisse lisonjeado com todo esse tratamento dispensado a ele, esse homem de fato incompreensível, insondável, enigmático. O clero, achando tudo isso um exagero, procurava extirpar a crença de um Deus. Além de criticar duramente, responsabilizava-o por todo esse estado de fanatismo a que o povo do Juazeiro, quiçá do Nordeste, tinha chegado.

Dentro dessa sequência ininterrupta de fatos, Dom Joaquim lançava sua 2ª Carta Pastoral, uma decisão cruel e opressiva, a qual reflete os desígnios de um clero medieval ainda com resquícios deixados pelo poder grandioso da Suprema Inquisição Romana. Anexa à Carta Pastoral, a decisão de Roma, que tem a data de 4 de abril de 1894, quarta-feira, dia destinado pelo Sacro Colégio para tais finalidades. O decreto romano continha os seguintes dizeres escritos em italiano, que foram traduzidos para o português:

Discutidos os fatos que se sucederam no Juazeiro, Diocese do Ceará, os Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais Inquisidores Gerais responderam e decretaram o seguinte:

“Que os pretensos milagres e quejandas coisas sobrenaturais que se divulgam de Maria de Araújo são prodígios vãos e supersticiosos, e implicam gravíssima e detestável irreverência e ímpio abuso à Santíssima Eucaristia, por isso, o Juízo Apostólico os reprova, e todos devem reprová-los, e como reprovados e condenados cumpre serem havidos. Mas, para se dar cabo de tais excessos, a um só tempo e se evitarem maiores males que deles possam nascer.

“1º) O Ordinário de Fortaleza, e os outros do Brasil, proíbam por todos os meios e alcances o concurso de peregrinos e visitantes, o acesso à Maria de Araújo e às outras mulheres incursas na culpabilidade da mesma causa.

“2º) Quaisquer livros, escritos, opúsculos publicados em defesas dessas pessoas e desses fatos, tenham-se por condenados e proibidos, e sejam quanto antes recolhidos e queimados.

“3º) Tanto aos sacerdotes como aos leigos seja-lhes defeso tratar por palavras ou por escrito dos pretensos milagres supracitados.

“4º) Os panos ensanguentados, as hóstias e outras coisas conservadas, de que se falou o Bispo, as tome e as queime.

“ (a) Rv. Cardeal Monaco”.

O Bispo expede mais uma de suas famosas Circulares, fazendo alusões aos fatos do Juazeiro, onde deixa clara toda sua angústia, síntese pura e simples da sua decepção. E escreveu: “Suma-se para sempre o cúmulo que anuviou por algum tempo o céu azul claro da Diocese do Ceará, caiam em eterno esquecimento os desvios oriundos de um conceito formado sem madureza de reflexão”.

O feito produzido pelo decreto romano, enxertado de autoritarismo milenar, pesou para a ala do clero adepta do milagre. Houve um retraimento, e o silêncio, norma constante de Roma, prevaleceu. Em outra Circular, expedida em caráter de urgência, o Bispo convocava os três sacerdotes principais envolvidos na questão para uma conferência no Palácio Episcopal. Referindo-se de preferência ao Padre Cícero, disse-lhe que estava na hora de terminar com todo esse movimento, e que dali em diante ele ficava terminantemente proibido de falar sobre o caso, bem como recorrer para Roma, como já havia feito por duas vezes. A sentença já lhe fora dada. Aos dois outros sacerdotes, Monsenhores Antero e Monteiro, seguiram-se as mesmas advertências de que, se não cumprissem o que estava determinando, seriam excomungados, e alertava-os: recorrer da sentença para Roma não adiantava, ela já fora dada. A possibilidade de uma revogação era de todo impossível, pois o Sacro Colégio, depois de ter estudado por um ano o Processo, já havia dado seu veredicto, a sentença era irreversível, os Cardeais não voltariam atrás nas suas decisões. “Roma locuta est causa finita est. Roma falou acabou a questão”. Impondo-lhes silêncio total e absoluto sobre os fatos, finalizou, dizendo: se quisessem continuar como sacerdotes da Igreja Católica, teriam que sepultar os fatos, olvidá-los para sempre.

Presunçoso e cheio de orgulho, dirigiu-se ao Padre Cícero, exigindo retratação por escrito e de público, e que, após chegar ao Juazeiro, fizesse, do púlpito, esse pronunciamento. Aí fez um paralelo entre ele e o Conselheiro, Antônio Mendes Maciel, que, tanto quanto aquele, estava a pregar doutrinas esdrúxulas, arrebanhando ignaros, crentes de doutrinas inexistentes. Contundente, criticou os padres adeptos da causa e o povo do Juazeiro, chamando-o de massa amorfa, ignorante, e ao sangue nas hóstias ele classificava de corrupto e corruptível. Usando das prerrogativas do “infalível romano”, o Bispo extrapolou, violentou o princípio humanístico do perdão, tão observados pelo Cristo. Obedecendo a Roma, e decepcionado por não ter conseguido suplantar o caso que tanto o incomodava, agia de maneira cruel. Da sua parte, não houve conciliação, seus escritos mostram os cristais de sua posição ante os fatos. Sem retrucar, os três sacerdotes silenciaram, e, submissos, acataram suas ordens. O momento era crítico, a ordem da Santa Sé, uma imposição grandiosa. A expectativa daquele momento era realmente a de que eles se curvassem ante a autoridade de Roma, que continuava com reflexos da Sagrada Inquisição Romana. Os três padres não tiveram escolha, submeteram-se às ordens do Sacro Colégio. Analisando essa passagem do rumoroso caso, Lourenço Filho escreveu:O  Padre Cícero foi um subserviente, não escreveu nada, não defendeu seu ponto de vista, simplesmente silenciou, o que mostra sua incapacidade literária  para defender-se, em suma: de enfrentar Roma, por isso, seu caso tornou-se uma luta inócua (op.cit.).

Silenciando, o Padre Cícero deixava claro dois princípios primordiais que pautaram toda sua vida — paz e conciliação —,  essência dos seus ensinamentos. Sua submissão às ordens de Roma reflete de sua parte uma realidade emblemática: o emblema da amizade que o unia ao seu povo. Silenciou, embora jamais tenha deixado de crer no caso como milagroso, e dizia: Ser Deus o único Juiz entre ele e o Bispo, na momentosa questão”.

Depois da decisão romana e desse encontro, onde prevaleceu a ameaça de excomunhão, a incredulidade entre o clero foi quase total. O milagre era fé ilusória, e o Padre Cícero, para a ala radical e conservadora, um heresiarca, um visionário. Aí então, seguiu-se o esperado: a ala dos padres adeptos dos milagres retratou-se de maneira vergonhosa, o número dos que o fizeram foi significativo. Está explícito nesse gesto o medo de Roma. Essa passagem deixa claro o unilateral da famosa Questão Religiosa do Juazeiro, quando um poder avassalador somente falava. Os sacerdotes que se renderam ao Bispo foram: Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva (depois Bispo do Crato), Laurindo Justiniano Ferreira Düetts (PE), Manoel Antônio Martins de Jesus (PE), Jacintho Ramos (PE), Davi de Souza Rolim (PB) Joaquim de Siqueira Torres (PE), João Carlos Augusto (Lavras da Mangabeira CE), Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro (Crato) – a grande surpresa para o clero e para o público, por ter atestado o fato, e na efervescência dos acontecimentos, teria dito: “se um dia negar o que vi, que ceguem os meus olhos”. Meses depois, sem apresentar nenhum sintoma ocular, subitamente Monsenhor Monteiro perdia a visão. O vulgo atribuía sua cegueira à sua negativa. Ainda, os Padres Manoel Rodrigues Lima (Missão Velha) e Clicério da Costa Lobo, o Mártir, que, pressionado pelo clero por suas declarações escritas à imprensa, causou não só constrangimento à cúpula do alto clero, mas um verdadeiro escândalo, por ser ele uma referência dentro do próprio clero. Humilhado e submisso, retratou-se, embora de nada tenha adiantado, pois foi banido da Diocese do Ceará, como mostrarão as páginas seguintes. Monsenhor Antero, único a não se retratar, teve sua suspensão completa. Mesmo suspenso, diz a tradição oral que celebrava a portas fechadas em sua casa no Icó, registrou Amália Xavier (op. cit.).

As retratações dos seus colegas de batina não causaram mágoa ao Padre Cícero, que compreendeu, naturalmente, que forças poderosas obrigaram-nos a agir por essa forma. Sem demonstrar sentimento de pesar, conformou-se a uma resignação religiosa, e o silêncio foi sua resposta. Daí para frente, poucos foram os que ficaram ao seu lado.

O medo de Roma prevaleceu. Permaneceu apenas o povo bom, simples, leal e amigo do sertão, ou seja, as massas rurais. Ele viu-se a sós. Dom José Delgado, ex Arcebispo de Fortaleza, escrevendo sobre o fato, traçou um painel do que foi a brutal solidão e ostracismo no qual foi jogado, e escreveu:

“A cruel solidão eclesiástica em que se viu foi sustentada por sua fé e confiança em Deus. Com medo de Roma, seus melhores amigos o abandonaram, seu único arrimo foi o povo bom do sertão, mas ingênuo e incapaz de ajudá-lo como convinha. Apesar de tudo, nunca se desviou da fidelidade do Evangelho. Guardou e fez guardar o patrimônio da doutrina cristã. Ser-nos-á preciso descobrir quanta purificação no sofrimento da alma, nas cruzes da contradição sistemática, nas suspeitas levantadas contra sua pessoa e espalhadas pelo Brasil inteiro. Foram dezenas de anos de heroísmo silencioso que muito deve pesar na balança de Deus, e só Deus tem a última palavra em assunto de tamanha importância” (Jornal da Diocese do CE).

Não obstante a insistência do Bispo de que o Padre Cícero não devia mais recorrer a Roma diante da sentença que lhe fora dada, ele reagiu, e, pela terceira vez, apelou. Calmo, ficou aguardando o pronunciamento da Santa Sé. Após meses de espera, eis que lhe chega um decreto do Santo Ofício. Um decreto cruel e opressivo, dando-lhe um prazo de 10 dias para retirar-se do Juazeiro, sob pena de excomunhão latae sententiae, extensiva ao Monsenhor Antero, suspensão a divinis, isto é, reservada ao Papa. O decreto pontifício ordenava-lhe que deixasse o Juazeiro no prazo de 10 dias e seguisse para Roma, para explicar, perante o Sacro Colégio representante do Vaticano, suas convicções a respeito dos fatos por ele considerados de ordem divina, portanto sobrenaturais. Ao receber a notificação através do Vigário do Crato, Padre Alexandrino de Alencar, o abalo, acompanhado de uma grande comoção, foi geral em todo o Juazeiro e adjacências. O povo, comovido, chorou nas ruas: sua sorte estava lançada. A partir daquele dia, ele teria apenas 10 dias para deixar sua amada capela, seu Juazeiro querido, a terra que construíra com dedicação e zelo. Quando lá chegou, em 1872, existia apenas um modesto alicerce. Neste ano de 1897, havia uma população de milhares de almas bem formadas, de cidadania pelas escolas que abrira, pelo incentivo ao trabalho, pela transformação que conseguiu, com aqueles dantes marginalizados, em seres valiosos para seus familiares.

Importa aqui, mais uma vez, deixar registrado que o Padre Cícero foi realmente o precussor de cidadania em terras brasileiras, além de valorizar a mulher, dando-lhe posição de destaque até em assinaturas de papéis eclesiásticos, como os referidos acima. Juazeiro silenciou ante a ameaça de excomunhão partida do Vaticano. Era a grande crise religiosa que chegava ao auge. O chamado para apresentar-se em Roma consistia em ter que explicar perante o Sacro Colégio, e impreterivelmente ao Papa, suas doutrinas, suas convicções, seu ponto de vista movido pela fé, fé que constitui perigo. Abatido, deve ter entendido que forças poderosas estavam contra ele. Certamente, houve temor ante a tempestade que o ameaçava, e que importava em coragem e grande confiança na Divina Providência, na qual ele tanto confiava e se apegava com tanta crença. Não demonstrando arrependimento algum do que sempre afirmara, continuou firme no seu ponto de vista do milagre, sem olvidar as palavras do Divino Mestre, quando disse há mais de dois milênios: “Qualquer um que me negar diante dos homens, eu o negarei diante de Meu Pai que está nos Céus” (Mateus,10:33.)

A força onisciente sempre presente a iluminar seus passos — Álguém —, infinitamente superior àqueles que o chamavam, trazia-lhe paz e serenidade nessas horas amargas da sua agitada existência. A ordem que bania o filho da sua própria terra, sem cometimento grave de faltas, excitou consternação e apreensão a todo um povo. Aquela ordem, vinda de tão longínquas terras (um fim de mundo, na expressão de Edmar Morel), era extremamente drástica. Sua piedosa mãe, Dona Quinô, viúva e pobre, de tanto chorar os sofrimentos do filho querido, foi vítima de paralisia e cegueira. Era o grande poder da Supremacia Romana, representada no Ceará pelo Bispo da Diocese, Dom Joaquim José Vieira, fiel representante do clero brasileiro. O alto episcopado acompanhava atento o desenrolar dos acontecimentos em Roma.

Com a dignidade cristã que o caracterizava, à boca da noite, horário de sua fala, agindo com prudência, como sempre foi a norma dominante dos seus atos, possuído de domínio próprio, explicou ao povo que o aclamava lá fora o motivo da ordem vinda de Roma, quando teria que deixar o Juazeiro.

A exposição das tuas palavras dá luz, dá entendimento aos símplices (Salmo 19 130).

Falando sobre a gravidade do momento, pedia calma, união e orações. Era mais um ciclone a vencer. Ele teria que esclarecer perante a autoridade máxima da Igreja Romana sua atitude de fé nos milagres. Diante de tamanha aflição, talvez tenha se lembrado das palavras do salmista: “—Tu contaste as minhas vagueações; põe as minhas lágrimas no teu odre, não estão elas no teu livro?” (Salmo 56:8).

Com a ordem expedida de Roma para que deixasse o Juazeiro no prazo de 10 dias, retirou-se antes mesmo de expirar o prazo que lhe deram. Cumprindo as determinações de Roma, seguiu para Salgueiro, onde aguardaria as decisões do Sacro Colégio. De lá, telegrafou ao Arcebispo e Primaz da Bahia, fazendo-o ciente de sua presença em Salgueiro. Sempre reiterando obediência à Santa Sé, pedia ao Primaz que intercedesse por ele. Mas novas provações lhe estariam reservadas, só que desta vez tiveram conotações políticas, por despertar suspeitas, nas autoridades de lugarejos próximos, que sua presença em Salgueiro era para auxiliar Antônio Conselheiro, que naquele momento enfrentava os batalhões do Exército. A notícia circulou rapidamente, e dentro de poucos dias os jornais noticiavam com destaque a calúnia. Os governadores de Alagoas, Pernambuco e Bahia, oligarcas reacionários, usaram todo o seu potencial de poder, posto em circulação na imprensa, e exigem explicações das autoridades.

O governador de Pernambuco, aliado à elite pernambucana, representada pelo Diário de Pernambuco, e apoiada pelo clero, os Bispos Joaquim Arcoverde e Dom Luís, Bispo de Olinda, engrossam fileira na bem articulada campanha de infâmia contra o Padre Cícero. A interferência dos dois não causou surpresa, porque desde o princípio eles já se declararam contrários ao fenômeno do Juazeiro, e a ordem era dá por terra o movimento. Houve troca de telegramas entre as autoridades da capital e as autoridades da Vila de Salgueiro, representados pelo Juiz da Comarca, Lima Barros.

O Governador Joaquim Correia de Araújo decreta a prisão do Padre Cícero (in Floro Bartolomeu, Juazeiro do Padre Cícero). O Governador receava que a presença do Padre Cícero em Salgueiro fosse para ajudar o Conselheiro, daí a ordem de prendê-lo. As autoridades de Salgueiro reagiram à tresloucada ordem, e informam ao Governador que o Padre Cícero lá se encontrava cumprindo  determinação de Roma: ausentar-se do Juazeiro. Joaquim Correia, o primeiro a exigir sua retirada ou sua prisão imediata, dizia em telegrama urgente o seguinte:

                         “Juiz de Direito Delegado de Polícia Salgueiro.

Constando Padre Cícero deixou Juazeiro do Crato, procurando Canudos para auxiliar Antônio Conselheiro vindo por Água Branca, peço, informeis máxima urgência que há de verdade, bem como distância entre Crato e Rio São Francisco.

                                   Assinado: Joaquim Correia – Governador”

  A resposta do Juiz foi imediata:

“Afirmamos ser absolutamente falsa notícia Padre Cícero deixar Crato procurando Canudos auxiliar Conselheiro. Em obediência ao Bispo ausentar-se em 10 dias 40 léguas daquela localidade, retirou-se para esta Vila, não tendo passado Água Branca 90 léguas Juazeiro. Daqui telegrafou Papa comunicando residência provisória, e aguarda ordens seguir para Roma. Podemos garantir ser ele virtuoso sacerdote completamente hostil movimento sedicioso Canudos. Incapaz tentar contra ordem e tranquilidade pública. Do Crato a São Francisco 40 léguas.

                                                       Saudações - Lima Barros.

                                                              Juiz de Direito”

Outros telegramas entre as autoridades do Recife e de Salgueiro, e a manifestação do clero pernambucano, Dom Luís, Bispo de Olinda e Recife, que, na certa influenciado pelo Bispo Arcoverde, sugeria ao Vigário de Salgueiro, Padre João Carlos Augusto, a imediata retirada do Padre Cícero, em termos categóricos dizia:

“Respondo telegrama ontem. Salgueiro mal escolhido, vizinhança Juazeiro Bahia, sofismado Padre Cícero continuará aí, perturbador consciências, animará surperstições pequenos. Povo ignorante. Obedecer Decreto, é deixar Juazeiro grande distância Fortaleza ou Recife, sujeito ordens diocesanas não trato política. Cabe outro poder. Responsabilizo V. Revma. qualquer coisa.

                                                         Assinado: Bispo de Olinda e Recife”

O teor do telegrama feriu suscetibilidades e suscitou a pronta reação do Vigário Padre João Carlos Augusto, que rebateu o Bispo Dom Luís, numa resposta precisa, dizendo:

                                     “Salgueiro, 17 de agosto de 1897.

                                                     Exmº Sr. Bispo Olinda e Recife.

Com a devida vênia uma vez mais pondero V. Excia, Decreto Congregação Romana prescreve Pe. Cícero ausentar-se Juazeiro e limites. Estando Salgueiro 40 léguas daquela circunscrição, vê-se claramente não haver sofismas sentença cujos efeitos pendem recursos Sumo Pontífice. Garantido Leis país plenitude de Direitos Civis, não é possível vedar-lhe locomoção. Não receie V. Excia, perturbação consciência povo, produzindo agitação sua índole pacífica, humilde de caridade, são seguras garantias contra tais sentimentos. Admirador suas virtudes não me excuso responsabilizar-me seus atos, sempre inspirados no acriso lado amor a Santa Religião. Deus suportando verdadeiros sacrifícios em bem da humanidade.

                                                Assinado Vigário.

                                                       Padre João Carlos Augusto”

(Padre João Carlos Augusto foi Vigário de Assaré por anos, e pertencia à Família Augusto, de Lavras da Mangabeira.)

Com esta corajosa e contundente resposta, repleta de especial carinho para com o Padre Cícero, encerrou-se a troca de telegramas entre autoridades estaduais e episcopais. E pensar-se que todo este mal-entendido proveio tão-somente de uma interpretação medíocre do paralelo usado por Dom Joaquim nos idos de 1894, e ratificado na sua 3ª Carta Pastoral (1897), quando o comparou ao Conselheiro, cuja Pastoral foi afixada nas portas de todas as Matrizes do Nordeste. O delegado de Ouricuri, lendo-a de viés, assimilou a comparação a uma linguagem revolucionária e, de acordo com sua pobreza mental, detonou a notícia para as autoridades do Recife, despertando a exacerbação dos ânimos. Vexame e estrago foram feitos. Apesar do episódio que o incriminava como auxiliar do Conselheiro, em nenhum momento, de acordo com as crônicas, o Padre Cícero se deixou abater, nem tampouco perdeu a calma. Não obstante a ordem de prisão, suprema humilhação, pelo muito que representava para todo um povo, e que a bem da verdade uma ordem tirânica de força e poderio da autoridade do Governador de Pernambuco. A calúnia ficou registrada para sempre nos anais da história, porque o escritor-poeta de Canudos, Euclides da Cunha, a fixou no seu imortal Os Sertões. Usando das prerrogativas de correspondente da Guerra de Canudos e a serviço do Governo da República, expôs o Padre Cícero ao ridículo da mentirosa calúnia, afirmando a tresloucada notícia, dizendo: “No Ceará, um eclesiástico funesto, o Padre Cícero Romão, conglobava multidões em prol do Conselheiro”. Bem ao contrário do que foi noticiado, o que o Padre Cícero fez ali foi apagar um incêndio centenário com infinito número de mortes entre duas poderosas famílias da região — Farias e Maurícios —, que se digladiavam de geração em geração pela posse da terra e do poder político. Ele, com o seu espírito eminentemente pacificador e de conciliação, pôs fim à luta armada, solucionando uma guerra de quase um século entre as duas poderosas famílias. “Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” (Corintios, 13:8).

Num momento de extrema gravidade para a Nação, quando milhares de seres humanos estavam sendo dizimados pela sanha sanguinolenta do latifúndio, com o apoio do grande poder político do Governador da Bahia, Luís Viana, que por lhe faltar aptidão política, terminou no grande e inominável massacre de Canudos. As versões disparatadas a respeito do Conselheiro e sua comunidade enchiam as páginas dos jornais, como a de que ele tentava restaurar a Monarquia contando com forças externas. Apesar da sua pregação pela volta da Monarquia, não há nada que indique um entrosamento entre forças estrangeiras. Antônio Mendes Maciel tinha uma visão aguçada das coisas, estudou no Seminário da sua terra natal (Baturité, CE), era inteligente o suficiente, mas não para uma aventura dessa natureza. Depois de peregrinar pelo Nordeste inteiro, fixou-se na Bahia, já demonstrando sinais de uma parcial loucura (informações que me foram passadas por Antônio Vilanova, um dos últimos remanescentes de Canudos, na cidade de Assaré, de onde era natural).

O que existia em Chorrochó, onde fundou sua Comunidade, era um respeito ao velho monge, por parte dos seus seguidores, que o chamavam de Bom Jesus. Suas pregações eram exaltadas, como registra a história, mas havia paz e trabalho. E para que houvesse essa paz, existiam dois fatores essenciais: a abstinência ao álcool, terminantemente proibido, e a disciplina religiosa. Numa visão do coletivo, implantou, à beira do Vaza Barris, várias plantações, não existindo na Comunidade o problema secular da fome. Criou uma cooperativa rural, que o braço forte do latifúndio não deixou que prosseguisse, dando por terra. Abatido e desiludido, foi sacrificado junto com seus seguidores. Era o Brasil de ontem, aliás, o mesmo de hoje. Pouco ou quase nada mudou. 

O grande massacre de Canudos mostrou, de forma cristalina, a nascente força da recém criada República; não aquela República tão sonhada e idealizada pelo gênio imortal de Castro Alves, nem tampouco dos intelectuais pernambucanos e cearenses que com ela também sonharam em 1817-1824 e foram martirizados, e seus principais líderes executados, como o Padre Miguelinho (Rio Grande do Norte), Joaquim do Amor Divino Caneca (Frei Caneca, PE), o Padre Mororó, os irmãos Alencares Padre José Martiniano de Alencar e Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, este decapitado, por conta da Revolução do Equador.

A calúnia sobre o Padre Cícero, divulgada equivocadamente por um erro de leitura, quase termina num desfecho de imprevisíveis consequências, dado a ordem de prisão para ele. À guisa de ilustração, sabe-se que, nas guerras, usa-se de todo expediente, desde a mentira, a contrainformação, o dinheiro, a intimidação. E o escritor Euclides da Cunha, numa informação confusa, registrou para a posteridade a controvertida, infâmia difundida pela imprensa que, segundo o escritor Otacílio Anselmo (op. cit.), partiu do delegado da Vila de Ouricuri (PE).

Passado o vendaval, o Padre Cícero retornou ao Juazeiro para despedir-se do seu povo e seguir para Roma, onde permaneceria por quase um ano, enquanto corria no Sacro Colégio o processo sobre o fenômeno religioso do Juazeiro.

 

****

 

CAPÍTULO 9

ESTADA EM ROMA

 

                                                                “Muito pode a calúnia

                                                     feita e movida com audácia”.

                                                       Padre Cícero Romão

 

Obedecendo ao chamado de Roma, no dia 13 de janeiro de 1898, ele deixava Juazeiro e seguia para o Recife. Lá, tomaria o vapor que o levaria a Roma, para ser ouvido e julgado pelo Sacro Colégio de Cardeais. Enfrentando em lombo de animal a agressividade do sertão na adversidade de sua paisagem, ora de chão rachado e de céu cinzento, ora de várzeas verdes e riachos perenes, num verdadeiro contraste. Seu Juazeiro ia ficando para trás. Em procissão, o povo o levava de uma Vila a outra. “Seguia-o uma grande multidão” (Marcos 3:78).

Era o grande sinal de respeito e admiração que o sertanejo devotava ao líder que ali estava; sua presença despertava entusiasmo, criava fé e emoção. Para eles, o Padre Cícero, era um enviado do Altíssimo, um ser sobrenatural, um Deus. Acompanhava-o nessa jornada seu grande e devotado amigo João David, romeiro chegado ao Juazeiro no ciclo dos milagres. O testemunho do Dr. Ulysses Lins de Albuquerque expressa com eloquência o momento da sua chegada à sua cidade natal, Alagoa de Baixo (PE), deixando nele, menino de apenas nove anos de idade, uma impressão duradoura, que depois seria lembrada no seu antológico livro de memórias:

“De passagem para o Recife, de onde deveria seguir para Roma, o Padre Cícero chegou à minha cidade natal, Alagoa de Baixo, acompanhado de uma grande multidão. Dirigindo-se à praça principal da Vila, falou ao povo, que, ajoelhado e emocionado, o aplaudia calorosamente. Não podendo aproximar-me dele, pela multidão que o cercava, ali mesmo da calçada do Grupo, ajoelhei-me e pedi-lhe a benção, derramado em lágrimas; ao terminar a recepção improvisada, dirigiu-se à casa do Coronel Neco Pereira para um breve descanso. À tarde do mesmo dia, seguiu em direção ao Recife, sempre acompanhado por uma grande multidão”.

E assim, de cidade em cidade, de vila em vila, ele chegou ao Recife, à época, a Metropóle do Nordeste, onde permaneceria por alguns dias, preparando os últimos detalhes para a longa viagem à Cidade Eterna, o centro das decisões romanas, quando o Processo sobre o fenômeno já estava sendo estudado pelos Cardeais, que o aguardavam para uma explicação. Seu secretário particular e companheiro de viagem João David, diz: “sua preocupação era visível: mesmo assim, visitou os lugares históricos, as pontes que cortam a bela cidade, os marcos da colonização holandesa, as ricas e majestosas igrejas de altares em ouro. Visitou o Diário de Pernambuco, marco revolucionário da cultura do Nordeste, que registrou sua presença no Recife, fato contestado pelo  escritor Otacílio Anselmo (op.cit.) como mentiroso. Visitou os Salesianos, dos quais era um grande admirador, principalmente da grande obra do seu fundador Dom Bosco e da sua pedagogia de ensino, que assombrou o mundo. Os dias no Recife lhe traziam apreensão: como chegar a Roma, se lhe faltava o principal — dinheiro — para enfrentar tamanhas despesas? E com o coração a sangrar dizia para João David: “o que fazer?”. Logo, a nuvem de desânimo se dissipava; cheio de fé, dizia: “Deus providenciará”. O governador Joaquim Correia (o mesmo que decretara sua prisão em Salgueiro), num gesto de solidariedade, sabendo do seu aperto financeiro, e quem sabe arrependido da ordem de prisão que expedira contra ele, procurou reparar o erro cometido, fazendo-lhe uma generosa oferta de 500 mil réis; e uma senhora, da alta sociedade do Recife, lhe ofertou uma significativa quantia, completando o que precisava para chegar à Roma. A citação é de Manoel Diniz, em Mistérios do Joazeiro (1935). O autor não registrou o nome da senhora doadora. Com esse suporte financeiro, pode embarcar para Roma a bordo de um navio que o levou até Gênova, e de lá tomou o trem que o conduziu até a Cidade Santa, chegando lá na segunda quinzena de fevereiro de 1898.

A Cidade Eterna o acolheu fraternalmente. Edmar Morel escreveu: “naquele grande centro do saber e do Catolicismo, quão diferente foi o tratamento por ele recebido, excedendo suas expectativas. O tratamento recebido em Roma foi diferente do recebido aqui, dos seus colegas brasileiros” (op.cit.).

Hospedou-se no Albergo Dell Orso, Via Monte Bianzo, nº 94. Até regressar ao Brasil, ocupou uma das dependências da Igreja de São Carlos Al Corso, a convite do Revmo Padre Vicenzo Bucceri, da ordem dos Salesianos. Ali, naquele recanto da milenar cidade, vivendo a realidade estrangeira, onde até o ar era diferente do da sua terra natal, num misto de apreensão e incerteza, movido pela grande saudade da família, aquele padre perseguido e humilhado aguardava a decisão da Suprema Congregação do Santo Ofício, já por ela condenado. Foram dias de amarga tristeza para ele, longe dos seus, da sua terra, da sua amada Igreja, aguardando sua convocação para ser ouvido pelos dirigentes do Sacro Colégio, que poderiam lhe dar uma sentença favorável ou extrema. Mergulhado em oração, certamente refletia sobre todo o passado daquela manhã de um milagre, que o clero nunca reconheceu. Recolhido a um modesto quarto, estava abalado e triste, era de grande sensibilidade, conforme atestam seus médicos, e especialmente seu assistente por muitos e muitos anos, o médico Irineu Pinheiro (in Efemérides do Cariri, op. cit.).

Aparentemente calmo, mas abatido, obedecendo às regras do silêncio, aguardava ser chamado para depor naquele meio estranho, um fim de mundo, onde o Papa é o Poder maior, um verdadeiro fascínio, e para muitos — a Porta do Céu—. Admirador das artes e para dar vazão à angústia que o dominava, conforme diz em suas bem escritas cartas de amor e saudade, fazia passeios intermináveis, visitando os lugares milenares, como o Coliseu, as Catacumbas, o Circo de Alexandre Severo, a Via Ápia, o Arco de Drusa. Descrevia os símbolos da cidade com suas estátuas, suas fontes, e principalmente as igrejas seculares e velhos conventos. De tudo dava conta por carta a seus familiares e ao grande amigo Secundo Chaves de Melo, com detalhes dignos de um autêntico narrador das artes. Seus olhos se encantavam ao contemplar as igrejas milenares, de construções magníficas, com seus altares ricamente trabalhados, dando ênfase para a Capela Sistina, onde assistiu à sagração do Bispo de Nápoles, Cardeal Prisco, numa cerimônia imponente na grande Catedral de São Pedro, ao som dos afinados órgãos e coro de vozes do canto – gregoriano – que tanto nos comove e enleva, porque na realidade ele é inexcedível, impressiona a mente, e todos nós nos curvamos e mergulhamos em respeito e reverência.

No esplendor da grande cidade, jamais esqueceu seu povo. Suas cartas para a família e amigos são verdadeiras relíquias, documentos precisos de sua situação, as quais retratam sua alma tão sofrida e seu espírito de resignação e perdão. Com certeza, evocava todo o polêmico passado daquela manhã de 6 de março de 1889, cujo episódio o levara até ali, para justificar seu ponto de vista. Numa carta ao seu grande amigo Secundo Chaves, ele faz referência à má vontade com que certos colegas de sacerdócio o tratavam, e terminava dizendo, sem esquecer de avivar o essencial, que era o da perseguição:

“Se não fosse o meu povo, que não tem outro arrimo a não ser eu mesmo, jamais voltaria ao nosso Brasil; não porque não o ame muito, mas porque receio, e tenho medo que, ao chegar aí, novas tempestades desabem sobre mim, porque sei e vejo o espírito de perseguição com que me tratam”.

Ratificava mais uma vez a opressão que lhe faziam sem temor nem piedade. E escreveu: “parece que só me vendo morto ficariam descansados. Mas sei perdoar e não guardo rancor, apenas sinto medo, já tão cansado como estou de tantas amarguras”.

A carta espelha todo o seu sofrimento; comovente, deixa entrever nitidamente o que sentia naquele momento, sozinho em terra estrangeira. O último parágrafo é de assombrar, porque se referiu à sua morte. Quando comecei a dar vida a essa história conflitante e trágica dos fatos do Juazeiro, prometi a mim mesma que tudo seria explicado, porque é dever de quem escreve História a responsabilidade de nada ocultar. Portanto, aqui os registros dos sofrimentos que lhe infligiu o clero brasileiro, com raras exceções. Padre Cícero era um telúrico, acostumado diariamente a receber centenas de pessoas vindas de todos os quadrantes do Nordeste, ficando sem tempo para nada, até mesmo para recolher-se e orar, como acentua o Padre Azarias Sobreira. Por isso, acostumou-se a rezar em presença de visitantes, parece, sem se aperceber do que fazia (op. cit.). Também era costume dormir celebrando missa, ou mesmo viajando a cavalo, depõe o Padre Quintino, depois Bispo, antes de se tornar seu adversário. Levando vida sedentária, raramente ia até o Crato para logo retornar.

Em outra carta, desta vez para sua mãe, Dona Quinô, deixa claro sua conhecida solidariedade e fraternidade. Preocupado em saber que o Ceará enfrentava um novo período de grande seca, ele lhe passa as seguintes recomendações: procurar Mestre José, pessoa de sua inteira confiança, ordenando que colhesse na Serra de São Pedro umas mandiocas, para serem transformada em goma e farinha, e que fizesse a distribuição entre os carentes, pois as tinha guardado, prevendo esse tempo de horror. Em seguida, fala com alegria de sua absolvição por Roma, dizendo perdoar a todos que lhe tinham feito tanto mal. Dizia estar muito feliz por retornar ao seio do seu querido povo, depois de quase um ano de exílio forçado, para o qual não havia cometido nenhum crime  (grifo da autora).

Lembrava agradecido o ato de generosidade do Vigário de Belo Jardim (PE), Padre Pedro, que, junto com o Juiz da Comarca, através de uma subscrição pública, lhe enviara a quantia de 930 liras, o equivalente a um conto de réis na moeda brasileira da época, trazendo-lhe um grande alívio, pois, havendo contraído dívidas, não tinha como saldá-las, deixando-o amargurado. E continuava com um recado para o mesmo Mestre José: construir um pequeno altar nas dependências de sua casa, uma espécie de oratório privado para celebrar para sua mãe, presa a uma cama pela paralisia e cegueira; advertia-o para que fizesse tudo sem celeuma, sem comentários, e lembrava: as coisas de Deus vão devagar, nada de precipitação. Essa pequena benesse eclesiástica, concedida pelos Cardeais por um rescrito, era uma deferência especial ao estado de saúde de sua mãe, já incapaz de se locomover. Mas o Bispo Joaquim jamais lhe concedeu a faculdade de celebrar, mesmo em oratório privado, apesar do rescrito, ignorando a ordem de Roma, toldando mais uma vez o céu azul do Padre Cícero, tornando-o cinzento.

É de todo impossível não citar todos esses revezes pelos quais passou, oferecidos pelo clero, sob a força tirânica do Bispo Dom Joaquim, porque esse livro ficaria desestruturado. Reiterando o que disse o Arcebispo Dom Delgado: “era preciso muita contrição e acentuada fé, para não apostatar”. Mas, imbuído de um grande amor a seu povo, amor que se sobrepunha a todas essas mesquinharias, escreveu. “Estou feliz em voltar para casa, para o seio dos meus, pois é aí que está o meu coração e a minha alma; aqui, eu ando somente em espírito, o de mais caro aí está”. Sem esquecer as recomendações de sempre para a criadagem: Maria Joaquina, Maria das Malvas, sua cozinheira e que também cuidava de suas roupas; sem esquecer em nenhum momento da ex escrava Tereza de Jesus (a Terezinha). Lembrava as irmãs do canto, Maria e Isabel Montezuma da Luz, e da suave e angelical beata Giluca, pessoa de sua alta estima, dela falarei em capítulo especial. Para todas elas, ele tinha palavras de consolo, de resignação, de conselhos repletos de amor e diretrizes, animando-as a não se deixar vencer pelas adversidades da vida.

Enfrentando toda espécie de acasos, depois de meses de espera, surgiu a boa nova: o veredicto lhe foi dado. Os Cardeais o absolveram. Deus olhou para ele, com compadecida ternura. Aquele que outrora dissera: “Não temas, eu sou teu escudo” (Gênesis, 15:1) estendeu Sua Mão, e protegeu Seu servo. Ele foi absolvido, o impossível aconteceu. E lá na distante Roma, ainda no auge dos banimentos, das excomunhões, o milagre aconteceu. “Milagre” sem contestação, sem polêmica, sem controvérsia, quando seus adversários o davam como mais um excomungado por Roma. O próprio Bispo Dom Joaquim e o clero surpreenderam-se. Na sua 4ª e última Carta Pastoral, ele insinua nas entrelinhas que o Presidente da Legião da Cruz, para ele, o famigerado José Joaquim de Maria Lobo, havia tentado subornar o Santo Ofício com enorme soma de  dinheiro, arrecadado da pobre massa campesina (expressão do Bispo), para favorecer o Padre Cícero e seus milagres. A Carta Episcopal Romana, absolvendo-o de culpas e censuras segundo o Direito Canônico, tinha a data de 5 de setembro de 1898, embora as medidas drásticas continuassem em toda sua extensão.

No último dia da reunião com os Cardeais, e que também seria seu último dia em Roma, por pouco, o processo não tomou outro destino. Já ciente de sua absolvição, não compareceu à última audiência que, segundo as normas do Vaticano, era imprescindível. O Sacro Colégio, dentro da sua estrutura rígida, suspendeu a Carta denominada “Carta de Perdão”, porque a bem da verdade nada mudou em relação às decisões anteriores, prevalecendo as resoluções do ano de 1892. Continuava o dilema do Padre Cícero, e consequentemente da Questão Religiosa do Juazeiro. Para muitos analistas do caso religioso do Juazeiro, o Padre Cícero, em Roma, oscilava em dois tempos: ou sustentava que o milagre da transformação da hóstia em sangue era sobrenatural, ou se desdizia, e voltava às graças da Igreja de Roma. Ao Sacro Colégio, segundo ele, fez juramento de que dali em diante o caso estava sepultado. Observemos: -- sepultado --. Não disse que abominaria; não existe documento comprobatório de que se desdissesse do que afirmara – ser aquele sangue de procedência divina. Discretamente, conseguiu que o fim moral de toda essa história não empanasse seu brilho e majestade de chefe religioso, tornando-o imortal. E foi o que aconteceu. Intimamente, tinha a convicção de que aquele sangue era de ordem sobrenatural. E isto é uma realidade. Mais tarde, iremos ver o que disse o Padre Azarias Sobreira, no capítulo referente ao Bispo Quintino em 1916.

Quanto ao episódio de não ter comparecido à última audiência, o Sacro Colégio deu ciência por carta ao Bispo Joaquim. Tomando conhecimento do desastre,  Monsenhor Távora e Monsenhor Bessa, que lá se encontravam em estudos de Direito Canônico, saem à sua procura. Encontrando-o já em momento de partir, levam-no de volta, à presença dos Cardeais Inquisidores, antes que tudo fosse perdido. Apresentando-se aos Cardeais, outra Carta foi passada, onde é comentado o fato, e prevalecendo o que já havia sido decidido, isto é: todas as disposições anteriores de desaprovação aos fenômenos, desde o ano de l889. Uma cláusula se destacava entre as demais – sua imediata retirada do Juazeiro, e que o Bispo enviasse com urgência para lá padres e frades para pregações missionárias, quando devia ser exposta a doutrina romana na sua verdade, porque só assim seria varrido o tufão de fanatismo (expressão do Bispo Joaquim) que ameaçava alastrar-se por todo o país.

E a lei do silêncio imposta por Roma prevaleceu em todo seu rigor, com todas suas consequências. Seguindo à risca a imposição do Sacro Colégio, nunca mais falou sobre os fatos ditos milagrosos, embora intimamente neles acreditasse. Quanto à audiência que tivera com Leão XIII, e naturalmente a sentença que este lhe dera, nunca a ela se referiu em momento algum de sua vida. Exceto, quem sabe, o teólogo da causa, seu inolvidável amigo e mentor religioso, o soubesse. Excessivamente discreto e moderado, Marrocos levou consigo para o túmulo o grande segredo, como muitos outros. E assim permanece sem resposta para todo um público o que foi aquela audiência de 20 minutos com a maior Autoridade religiosa da terra — o Papa — e o humilde capelão da minúscula povoação do Juazeiro. Sabe-se que ele chegou ao Vaticano acompanhado do Padre Salesiano Vicente Bucceri, o mesmo que tão regiamente o hospedou, e também do prestigioso Monsenhor Cagiano de Azevedo, que o apresentou à Sua Santidade, o Papa Leão XIII, intitulado Imortal pelas grandes reformas que fez, sobretudo por sua Encíclica Rerum Novarum, de cunho eminentemente social, e que foi objeto no passado de leitura de intelectuais de esquerda do mundo inteiro. Nesse encontro de 20 minutos, o Padre Cícero lhe fez uma oferta de um Rosário em ouro maciço, obra dos seus artesãos, recebendo, segundo o próprio Bispo Joaquim, deferências especiais.

Floro Bartolomeu (op. cit.) escreveu:

Depois desse encontro com o Papa, os jornais de Roma deram destaque a esse encontro. No seu retorno ao Juazeiro, há várias contradições: alguns autores citam o seu desembarque pelo Recife, outros insistem em que ele desembarcou em Fortaleza, apresentando-se ao Bispo para dar conta da sua estada em Roma, e das últimas deliberações do Sacro Colégio. Seja como tenha sido, e como era de se esperar, o Bispo radical lhe fez severas recriminações, dando-lhe um prazo de poucos dias para retirar-se do Juazeiro, sob pena de excomunhão, ratificando assim a ordem de Roma”.

Sua chegada ao Juazeiro fez uma imensa multidão sair às ruas da pequena povoação, que estavam enfeitadas de folhas de palmeira, bandeirolas, e banda de música, sob a batuta de Pelúsio Macedo. Sua alegria pelo retorno era visível, embora as medidas drásticas que lhes foram dadas desde o ano de l894 continuassem em toda sua extensão. As exigências impostas por Roma seguiram a mesma linha das já impostas pelo Bispo do Ceará, quando se antecipou à Roma, mas era um direito garantido a ele, como Bispo da Diocese. E foi a partir daí que teve início a grande polêmica com o teólogo Marrocos, que sustentava o Bispo passar nas suas Cartas Episcopais um ar de infalibilidade, além, claro, de caústicas e humilhantes.

As imposições eram de tal ordem, que se embaralhavam na mente dos que com elas teriam que conviver, ácidas e absurdas, como a de não administar os sacramentos, mesmo em caso de morte, como o batismo, ou a extremunção. Com essas medidas draconianas, várias pessoas morreram sem receberem os sacramentos de hora de morte. Se por acaso o Padre Cícero, ante a iminência da morte, administrasse os sacramentos, o clero logo se levantava e tachava-o de recalcitrante pirrônico e desobediente às Leis de Roma. Mas o item que mais causou tristeza e até mesmo indignação entre o povo era o que ordenava sua retirada imediata do Juazeiro, cuja ordem o Bispo Joaquim exigia fosse cumprida, ou melhor, obedecida em tempo recorde. O povo, não aceitando essa decisão, protestou: José Marrocos, mais uma vez, incansável na sua luta, ergue sua voz altissonante através da imprensa contra a medida danosa e cruel. Reagindo a essa imposição, o povo nordestino levantou-se contra a medida; nunca aceitou a ideia de que ele deveria dali se retirar. Guia e protetor do seu povo, a ordem de deixar o Juazeiro era para eles inconcebível, e reagiram contra a desumana ordem.

E lá ele ficou por toda sua vida. Sentimental, afeiçoado à terra que construíra com desvelo e carinho, um telúrico, optou por ficar, condicionando sua permanência ali à vontade divina, recordando o sonho misterioso que não esquecia, quando, segundo ele, recebera uma ordem divina para cuidar daquele povo esquecido. Contrariando até mesmo suas convicções mais arraigadas, que eram o sacerdócio, preferiu permanecer no Juazeiro, mesmo suspenso de ordens, na posição de acéfalo. Importante, para ele, era lá permanecer, para dar continidade à sua obra máxima, que era a de cuidar do povo e dar cidadania aos excluídos. Ademais, como poderia de lá sair, se em sua companhia viviam 25 pessoas, todas suas dependendentes?, escreveu Azarias Sobreira (ibidem), sem contar sua única irmã, já bastante envelhecida, e sua mãe, doente e presa ao leito por cegueira e paralisia, sequelas dos sofrimentos que a tinham deixado inválida. Como, diz o escritor, sair assim, ao Deus-dará, tendo em vista que, aonde chegasse, sua fama já o precedia, de heresiarca, desobediente às leis romanas e infringidor dessas mesmas leis?

Optando por ficar, lá permaneceu até sua morte. Destituído de ordens, com a Igreja interditada, consolava-se com a reza do Rosário e a bênção que dava aos seus romeiros, que continuavam a chegar de muito longe para ouvir seus conselhos; ou em intermináveis palestras, com visitantes e amigos, para ele um passatempo agradável. Dispondo de uma capacidade extraordinária de prender o ouvinte com suas histórias, apesar de prolixas, às vezes antecipava-se ao interlocutor, quando lhe fazia uma pergunta, rompendo a ética. Sentindo o deslize, desculpava-se pelo incidente. O silêncio que Roma lhe impôs, obedeceu, embora jamais tenha deixado de acreditar nos milagres e tê-los como sobrenaturais. Numa carta dirigida ao então Vigário do Crato, o supra citado Antônio Alexandrino de Alencar que, em restrita obediência ao Bispo Dom Joaquim, insistia para que ele se retirasse do Juazeiro com a máxima urgência, ele expõe de modo franco e sincero o que sentia, e escreveu (veja-se que o Padre Cícero continuava a acreditar no milagre, apesar da imposição de Roma, que o silenciou e jogou-o ao ostracismo religioso):

“Não posso negar o que vi, e seriam verdadeiros esses fatos (do Joaseiro) porque a sagrada Congregação (Santo Ofício) não poderá provar um erro; mas pode condenar uma verdade, por não estar bem provada? Adulteraram o primeiro processo, o segundo correu ao sabor da segunda comissão, mesclada de ódio e interesses, como poderia Roma agir, senão condenando?”.

Bastou essa explicação para que o clero o averbasse de desobediente, insubordinado e desrespeitador das leis de Roma.

Transcorridos 119 anos desses fatos, todos os descendentes dos que participaram da história de fé num milagre permanecem firmes na plataforma da verdade religiosa do Padre Cícero e de sua influência benéfica. Juazeiro desenvolveu-se, e hoje ostenta o títublo de segunda maior cidade do Estado, com um comércio diversificado e um complexo educacional excelente, que teve a participação e o incentivo do Padre Cícero, um idealista, ou até mesmo um visionário, de ideias utópicas, como querem outros.

Visionário ou utópico, ele esteve à frente do seu tempo. Seu olhar ultrapassou os muros paroquiais, quando em telegrama dirigiu-se a dois líderes mundiais: o Imperador Francisco José, da Áustria, e o Czar da Rússia, na Guerra de 1918, rogando pela paz. Esse gesto de humanidade suscitou diversas interpretações. Alguns consideraram uma ingenuidade; mas teve também os detratores gratuitos, como o Professor Lourenço Filho e o Deputado Moraes e Barros (São Paulo), que viram no episódio simplesmente um exibicionismo exagerado, e taxaram-no de megalômano.

Escolhido por Cristo, como sempre afirmou, para cumprir uma missão divina, invocando aquele sonho, ele cumpriu à risca. Conduziu o Juazeiro no cumprimento da religião, do dever do trabalho e da harmonia. E foram justamente esses fundamentos que fizeram de um lugarejo esquecido, nos confins do Brasil, um novo lugar, onde todos desejavam viver para sempre, e quando lhes era de todo impossível lá fixar residência, contentavam-se em ir fazer-lhe uma visita anual. Costume que até hoje subsiste. Por tudo que aqui foi dito, ele realmente foi o Arauto de uma NOVA ERA. O carisma de que era portador o tornava numa pessoa fascinante e sedutora.

Os personagens que fizeram parte dessa monumental história do milagre têm também seu destaque, concorrendo para que o fenômeno da Hóstia Ensanguentada tivesse vida e fascínio, e envolto nesse fascínio, o glamour. Os nomes dos médicos Marcos Madeira, Ildefonso Correia Lima, Inácio de Souza Dias (apesar dos seus desmentidos depois), Júlio César da Fonseca Filho, os Padres Clicério da Costa Lobo (o Mártir), Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, Monsenhor Dr. Francisco Ferreira Antero, Teólogo José Joaquim Teles Marrocos, farmacêutico Joaquim Secundo Chaves e José Joaquim de Maria Lobo. Por fim, a beata protagonista de toda essa história, Maria de Araújo.

                              

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Já amplamente comentado, gostaria de destacar aqui duas conclusões da história religiosa do Juazeiro, quando dois poderes correram paralelos. Em primeiro lugar, o poder da Igreja, imensurável, grandiosíssimo. Segundo: o poder do povo, representado pelos atestados médicos e pela palavra de representantes do clero, que acreditavam no milagre da Hóstia Ensanguentada, inculcando no ânimo da massa a realidade do sobrenatural. Apesar do grande poder da Igreja de Roma e das decisões rigorosas do Bispo Joaquim, os fiéis não deixaram de crer no milagre, e nem se sujeitaram aos vereditos impostos pela hierarquia. A crença deitou raízes profundas na mente da massa, e o que houve foi a desobediência total às ordens do Bispo, e consequentemente de Roma. O poder do povo ficou evidenciado em todo decorrer do ruidoso caso, no qual jamais deixaram de dar todo apoio ao Padre Cícero. Apenas uma ínfima parte da sociedade, especialmente das cidades de Barbalha e Brejo Santo, o Coronel Basílio Gomes (avô do Padre Gomes) era um dos que descartavam o milagre, fazendo críticas contundentes e sarcásticas. Não convenceu ninguém. Eram fatos isolados ante a avalancha de seguidores da crença, seguindo-se pelos tempos afora, perdurando até hoje. E foi exatamente com eles que o Padre Cícero contou para a derrubada do Presidente do Estado, Coronel Franco Rabelo. Uma luta sem precedentes em terras do Ceará, como veremos nos próximos capítulos. 

O venerando Leão XIII, o Papa na época, tudo indica não ter deixado se levar pela soma incalculável de documentos, alguns até apócrifos, dando-lhe uma sentença branda, imparcial, e não como queria o clero brasileiro, que seria o da sua excomunhão e banimento por completo da Igreja. O próprio Bispo Dom Joaquim surpreendeu-se. Seu desapontamento está espelhado na sua Quarta e última Carta Pastoral. Entretanto, o que os adversários da causa tanto desejavam, a excomunhão, só veio a acontecer após a revolução de 1914, quando o clero considerou-o culpado pela guerra. Aí então, o implacável Bispo da Diocese do Cariri, Dom Quintino, em conexão com figuras do alto episcopado brasileiro, pediu ao Papa sua excomunhão, como veremos na segunda parte desta obra. Todavia, fica claro que, no papado de Leão XIII, considerado o homem mais importante do século XIX, a resistência de fé do povo do Juazeiro e do povo nordestino pesou na decisão de Roma, inexoravelmente.

O movimento religioso do Juazeiro diferiu em muitos aspectos do movimento messiânico de Canudos e de outros movimentos, como os do Condado, dos Mucheres (beatos) em São Leopoldo, Rio Grande do Sul (1872), que teve como protagonistas Jacobina Maurer e o Jesuíta Ambrósio Schup. Os fanáticos acreditavam que ela era santa, por inculcar no ânimo da massa a surperstição de que seria capaz de repetir todos os milagres do Cristo. Casada com um curandeiro, despudoramente deixa o marido e foge com um dos crentes. Seus romances são novelescos, cada um mais agitado que o outro. No último combate com a tropa imperial, degola o filho de peito, para que o choro não denunciasse seu esconderijo. Imitando Herodes, decreta o massacre de todas as crianças de cinco anos de idade. Em 1874, um cabo, de ordem do Capitão Dantas, vara o corpo de Jacobina. Tinha fim aí a horrenda história de sua maldita vida, passando à História como a Catarina do Rio Grande do Sul.

No Juazeiro, essa loucura não teve vez. O movimento religioso sobressaiu-se pelo avanço e posição de progresso do Padre Cícero, num verdadeiro leque de realizações sociais e políticas, quando houve efetivamente sua transição do plano religioso para o político — Mutatis mutandis. Na verdade, houve exageros no decorrer do processo, fato comum nos movimentos de ordem religiosa ou política. Ademais, no Juazeiro, havia a circunstância de ser um movimento que diziam divino, que tomou conotações astronômicas, tornando-se endêmico, na expressão do tão citado médico Dr. Marcos Madeira, que, segundo o escritor Otacílio Anselmo (op.cit.), tempos depois, já não mais acreditando no milagre, teria dito. O escritor citado foi o único a registrar tal afirmativa, levado pelos informes de Alencar Peixoto, naturalmente. Mesmo porque, após todo esse vendaval, o Dr. Madeira deixou o Ceará, fixando residência em Manaus, onde faleceu no exercício de sua profissão.

Exageros houve de todos os lados, e em especial numa ala de beatas fanáticas, quando algumas se insinuavam de videntes, proferiam palavras inintelígiveis, procurando imitar a agraciada Maria de Araújo. O pormenor suscitou de imediato a reação do clero, pois era injúria, mesclada de fanatismo. Dignas ainda de reflexão são as seguintes considerações: mais atrás, vimos que o Padre Cícero queixava-se de como tinha sido dirigido o segundo processo para Roma, onde na verdade prevaleceu o ponto de vista de Dom Joaquim e do clero do Ceará. E aí tem que se levar em consideração que o propósito da maior parte da hierarquia era o de expô-lo e à sua doutrina ao ridículo e à execração pública, recorrendo ao argumento de uma visível paranoia, nascida do incidente ainda quando do tempo de seminarista, como já foi devidamente focalizado. Daí, os Padres Clicério Lobo e Francisco Ferreira Antero responsabilizarem o Reitor, Padre Pedro Chevalier, pelas desavenças surgidas no âmbito do clero, no decorrer do processo canônico do Juazeiro. Criticaram suas pretensões de teólogo, e diziam que ele adulterou, falsificou e caluniou o Milagre do Juazeiro. Efetivamente, o Padre Chevalier, com toda sua arrogância, foi, sem sombra de dúvida, o precussor e autor intelectual dos sofrimentos que encheram de desgosto a vida do Padre Cícero. Daquele antecedente histórico, nascido de uma discordância de pontos de vista teológicos, nasceria toda essa confusão, para sua via crucis, na qual o clero, como já dito, se apoiaria para condená-lo.

A arrogância e prepotência do Reitor Chevallier chegou ao limite do inimaginável, quando provocou uma rebelião no interior do Seminário da Prainha, entre o corpo docente e discente. De tão grave, foi preciso a autoridade do Bispo Joaquim para por fim ao incidente. A causa da rebelião: o festejo de 13 de maio, quando, no Ceará daquele tempo, era comemorada a abolição da escravatura. A atitude dos padres franceses contra o feriado redundou em grande tumulto, e só com a interferência direta do Bispo, que não teve outra saída a não ser fechar o seminário por tempo indeterminado, e exonerá-lo das funções que ocupava por espaço de um quarto de século, como assegura o inolvidável Monsenhor Quinderé, na sua História Eclesiástica do Ceará (op. cit.) Enfim, como bem disse o grande orador sacro, o  insígne Jesuíta Padre Antônio Vieira, no seu Sermão da Terceira Dominga do Advento —“O que fazeis, isso sois, nada mais”.

 

****

 

CAPÍTULO 10

 

MARIA DE ARAÚJO, A PROTAGONISTA DO MILAGRE:

VIDENTE E ESTIGMATIZADA

 

A beata Maria de Araújo tinha 26 anos à época dos fenômenos que nela se operaram. Moça simples e obscura, não pertencia à linhagem de nobreza rural das famílias do Cariri. Sua pele era escura o bastante para a ela ser creditado parentesco próximo dos ex-escravos do Padre Pedro Ribeiro de Carvalho, conforme acentua o escritor Padre Gomes (op. cit.). De traços vulgares, cabelos cortados rentes, voz inaudível, olhar sereno e triste. Exteriormente, nada de extraordinário que despertasse a atenção de alguém, a não ser pela pureza de sua vida casta e de sua profunda religiosidade, tendo como alicerce supremo a infalibilidade das Escrituras Sagradas, com a qual era familiarizada. Vestia-se com discrição, seguindo a linha das beatas do Padre Ibiapina; vestido preto de corte monástico na altura dos tornozelos, sapatos fechados de cor preta, véu também preto, cobrindo toda sua cabeça com debruns em branco, e no pescoço, suspenso por um cordão grosseiro de algodão, o crucifixo, símbolo da paixão e da piedade. De magreza acentuada pelos jejuns e abstinências, era praticante assídua da ascese. Os sintomas que nela se operaram, e que comoveram todo o Nordeste, começaram desde o ano de 1883, segundo o Padre Cícero. Ela foi o pivô da grave crise religiosa que abalou o clero brasileiro, estendendo-se até Roma, e questionada seria pelos tempos afora, se o fenômeno que nela se operara era uma realidade, ou simplesmente um embuste.

Qual o agente oculto para a explicação do fato? Azarias Sobreira, aqui tão mencionado, comenta: tudo indica que o fenômeno parecia ter sua nascente no Padre Cícero. Fala em reversão de papéis e em uma “mística sui generis”, deixando entrever que, na verdade, era tão somente o Padre Cícero o detentor do portentoso milagre. A escritora Amália Xavier, se referindo ao fenômeno, diz: tudo provinha do Padre Cícero, e complementa: antes do milagre se tornar público, por diversas vezes foi visto na ocasião da consagração, que ele, ao levantar a hóstia, ela se transformava em sangue, fato testemunhado por pessoas simples do povo, velhos de personalidade idônea, e que guardaram segredo absoluto, a pedido do próprio Padre Cícero. Depois eles viriam à tona, porque testemunhados por uma capela completamente lotada” (op. cit.). Já o Padre Clicério Lobo dá a seguinte explicação: um agente oculto – nesse caso, Deus – operava o milagre; a beata, por ser portadora de carismas extraordinários, manifestava-se nela o prodígio. Nascia no Juazeiro uma nova Era de fé e piedade, para fortalecimento da religião, hoje tão devastada por conceitos estranhos à fé católica. “Evocando o Apocalípse, escreveu: o fim do mundo aproxima-se.

Fenômeno constatado por todos, e que foi visto à luz do dia, ocorrido na singela capela de Nossa Senhora das Dores, conforme documentos da época, a beata Maria de Araújo, personagem central do rumoroso caso, não usou de artifícios ou farsa, segundo declarações dos médicos que a examinaram e do teólogo da primeira comissão de inquérito, o competente Monsenhor Antero. O atestado do Dr. Marcos Madeira deu forma cognitiva ao milagre, quando, sob juramento, invocando sua condição de médico, atestou para o Bispo e Roma a evidência do caso. Registrado em Cartório, passou à História, tornando-se num monumento de uma história impressionante, inexplicável, da qual o Padre Cícero jamais deixou de crer que o sangue que fluía das hóstias era de ordem sobrenatural, para redenção e sublimação de todos dali. Lembrando uma vez mais que o cientista, Dr. Julio César da Fonseca Filho, descartou publicamente em documento oficial a hipótese de milagre, mas também da farsa, dizendo: não há indício de simulação ou farsa, o fenômeno em questão provém apenas do ascetismo exagerado que leva a beata irresistivelmente à contemplação íntima das visões celestiais, devota prática como é”. Seu atestado teve grande repercussão; o clero não se manifestou. A beata Maria de Araújo parece ter tido uma visão providencial dos acontecimentos através da intervenção do sobrenatural. Sobrenatural que o brilhante medievalista Jacques Le Goff assim define: Já vindo da Idade Média, atravessou os séculos, chegando até aqui. Para ele, três são os principais fundamentos do sobrenatural, por ele classificados:

(1) Mirabilis. O maravilhoso com suas origens pré-cristãs.

(2) Magicus: a intervenção de pessoas com poderes excepcionais, muitos até satânicos.

(3) Miraculosus: a interferência da divindade, ou o maravilhoso cristão, que tem grande importância na narrativa da Demanda do Santo Graal. 

Nos nossos tempos, causou repercursão o livro intitulado Apostolado do Embuste, da autoria do Padre Antônio Gomes de Araújo, já citado, que outro propósito não teve, senão o de pretender anular os fatos e denegrir o místico Marrocos. Apesar de conhecedor da História e genealogista de peso, ele dá aos fatos uma versão contraditória e vulgar. Para ele, não houve milagre, e diz: tudo foi uma fraude engendrada por José Marrocos, o químico do Milagre do Juazeiro”. Nem sequer referiu-se à auto-sugestão ou coisa idêntica, limitou-se a contestar o óbvio, fulminando de vez o argumento da espiritualidade, do livre arbítrio e da fé, no qual se baseava Marrocos.

Portadora de virtudes, ascética e profundamente mística, Maria de Araújo apresentava sinais da paixão de Cristo: chagas nos pés e na mão direita, êxtases, estigmas, suores e alheamento se sucediam dia após dia. Constatada a evidência do fenômeno por todos que o presenciavam, não havia argumento que os arredasse de que não fosse um milagre, enquanto o clero resistia, opondo-se, tentando por um ponto final na história, que já havia chegado à Roma. Descartando a hipótese do divino, vieram as investigações, num processo doloroso e vexatório, como já escrito. E as duas santas do êxtase — Teresinha de Jesus e Tereza de Ávila — eram lembradas por muitos, numa comparação ao caso de Maria de Araújo, estas, reconhecidas por Roma e elevadas à glória dos altares, porque tinham nobreza. Maria de Araújo era humilde e sem linhagem alguma. Aqui no Brasil, afora o caso excepcional de Maria de Aráujo, o da freira Amália de Jesus, flagelada da cidade de Campinas (SP), no ano de 1928. Falou-se em êxtases, estigmas, com o Bispo da Diocese a fazer proselitismo. Mas o fato foi prontamente soterrado pelo alto episcopado, e não se falou mais dele (Otacílio Anselmo op.cit.).

No livro intitulado Humanismos e Anti-Humanismos, de Della Nogare, lê-se a seguinte observação, cuja autoria é creditada ao filósofo Max Scheler: Todo cristão pode contar com o poder da graça sobrenatural, dependendo das condições de disposição de fé e amor em que se encontre o indivíduo, não dependendo em absoluto da nossa vontade tão somente”. Maria de Araújo não poderia também ser uma agraciada por Deus? O que pesou? Quando do princípio da longa e ruidosa história, o Bispo considerou os fatos como extraordinários, e, cheio de precauções, sugeriu discrição e silêncio, mas logo, advertido pela alta esfera do episcopado, ou por forças superiores, como as do próprio Estado, mudou de posição, tomando medidas amargas e radicais. Pensasse talvez fosse uma posição de força, mas não era, era apenas crueldade contra o Padre Cícero e todo o povo do Juazeiro, declarada pública e impiedosamente, através de suas Cartas Pastorais. Depois se decepcionaria até mesmo com Roma, por ter o Papa Leão XIII dispensado alguns benefícios eclesiásticos ao Padre Cícero, e desafia Roma, quando não concede a permissão que a ele lhe fora dada, para celebrar em oratório privado para sua mãe, cega e paralítica. Nas entrelinhas, caluniou o Presidente da Legião da Cruz, José Maria Lobo, e ainda implicou Roma na questão do numerário ofertado pelo referido José Lobo, lê-se tudo isto na sua Quarta e última Carta Pastoral.

A beata Maria de Araújo era excepcionalmente mística. Impressionada, talvez, pelos sermões dos frades itinerantes, todos eles de mentalidade apocalíptica, que obtinham com esses sermões verdadeiras conversões. Criada num ambiente místico favorável à espiritualidade, ela respirava o ar invisível do misticismo; muito cedo, fora preparada, tendo como seus mentores o próprio Padre Cícero e o Monsenhor Monteiro; ascética, só isso já era fator de um grande sustentáculo à sua espiritualidade, daí advindo as exudações, os êxtases e estigmas, conforme constatado por todo um povo. E para um povo tão cheio de fé, ela era uma santa, e o milagre era a plena realização da vontade divina. Para o Bispo Joaquim, era apenas contrafação do verdadeiro milagre, operada por espíritos inferiores, embora abrisse um parêntese, dizendo: se é que o demônio tem poder para influir diretamente. Sobre espiritualidade, recorro a um tópico do livro do teólogo Frei Beto, que tem por título Mística e Espiritualidade. Às páginas 39-41, diz ele: “O êxtase é capaz de nos levar neste mundo a uma proximidade com a experiência do divino, do transcendente, da Trindade. A teologia não se articula pela lógica dos anjos, e sim pela lógica das pessoas, porque são tributárias da cultura, na qual nasceram e respiram”.

O Padre Clicério reconheceu a predisposição ao sobrenatural da beata, por suas virtudes, estigmas e visões. Naquele tempo, a Igreja muito ajudava com seus rituais impressionantes, levando os fiéis a um mundo de contemplações, quando muitos não resistiam, derramando-se em lágrimas ao som do cântico solene do Tantum-ergo, do Kirie, do Deus in adjuntorium meum in tende, das ladainhas de harmonias celestiais, do magnificat, que sensibilizavam os fiéis mesmo cantadas em Latim, ao som magistral dos harmonius. As semanas santas eram carregadas de piedade e fé; o encontro de Maria, com Jesus, a descida da cruz, eram por si só impressionantes, irresistíveis, pelo sublime, e muito mais pela piedade de que se revestiam, vistos por uma imensa multidão vinda de pontos distantes da cidade onde se realizava o evento, que tinha início na quarta-feira de trevas, com gran-finale no Domingo da Páscoa. As Igrejas durante a semana vestiam-se de roxo ou preto, que também eram as cores oficiais dos paramentos dos sacerdotes, e que representavam luto pela grande tragédia do Calvário. No sábado de Aleluia, o repicar festivo dos sinos e matracas, logo ao amanhecer do dia, anunciava a ressureição, e o Domingo era de aleluias e glórias, com missas concelebradas, e os padres, nas suas vestes litúrgicas em verde ou carmim, entoavam ao som magistral dos órgãos louvores ao Deus ressuscitado. Era assim o Cariri daquele tempo, região mística por excelência. Os padres eram piedosos e tementes a Deus, muitos se autoflagelavam não só com demorados jejuns, mas também se açoitavam à plena luz do dia, como os Padres Manoel Felix de Moura e Aurélio Arnaud Formiga, o “Cavaleiro da Caridade,” ambos de Missão Velha, ao som de Pequei, Senhor, Misericórdia, escreveu Irineu Pinheiro (op. cit.). Como não aparecer uma Maria de Araújo e o seu tão discutido milagre? Condenada por Roma, foi obrigada a silenciar e proibida de aparecer em público. A Inquisição já havia desaparecido há duzentos anos, no entanto, o alto clero romano, ao usar desses expedientes, a ela dava continuidade.

Apesar de todo esse confinamento, ainda viveu ou sobreviveu por anos a fio, como se não mais viva fosse, comenta Azarias Sobreira (ibidem). Numa verdadeira retração, confinada a um álgido silêncio, morreu de tuberculose aos 17 de Janeiro de 1914, em plena revolução do Juazeiro. A memória coletiva assegura: ela ofereceu sua vida para que cessasse a luta. Mesmo depois de morta, não dormiu em paz. Como já acentuado, seus ossos foram exumados depois de 16 anos do seu falecimento. Esta foi uma das últimas confusões, e gravissíma. O clero, na pessoa do Monsenhor Lima, violou seu túmulo na calada da noite e, vale dizer, sem respaldo jurídico que justificasse o ato, dando-lhe sepultura em lugar ignorado. Com esse ato de iniquidade, o clero dava sequência ao Concílio de Constância (1414-16), que, segundo a escritora e teóloga Ellen White, no seu magnífico livro O Grande Conflito, era a chamada perseguição além-túmulo: os mortos podiam ser julgados, condenados e seus cadáveres, queimados, isso em casos considerados heréticos por Roma.

Dessa forma, para o clero brasileiro, a beata Maria de Araújo se enquadrava nesse item. Padre Cícero, já fragilizado pela doença era o ano de 1930, rebateu o hediondo ato, através de uma nota em Cartório. O ato arbitrário do Vigário excitou indignação e desolação. Depois de decorridos tantos anos daqueles fatos, aos 86 anos de idade, bastante fragilizado, ele passa por mais esse dissabor que lhe ofereceu o clero. Mas seu ocaso era visível sob diversos aspectos: lá não mais existiam os dois homens que deram dimensão e estrutura à história do Juazeiro, aliás, diferenciados, como da água para o vinho. O teólogo José Marrocos teria feito uso da sua brilhante pena, mostrando ao mundo o procedimento de quem se dizia seguidor de Cristo, quando as principais virtudes lhe faltavam: perdão e amor, tão ensinadas por Jesus. Floro Bartolomeu, na sua conhecida intrepidez e desassombro, não faria por menos; usaria do seu verbo fluente, pois sempre desprezou a hierarquia, a ela jamais foi subserviente; diria aos quatro ventos e clamaria contra tamanho abuso de autoridade religiosa. A única explicação dada depois pelo clero do Crato, justificando a atitude arbitrária de um dos seus membros, foi a de que assim agira para evitar  recrudescimento de fanatismo. Ora, a fé é ato voluntário. E se o povo tinha a beata na conta de santa, não seria cometendo esse ato de profanação e iniquidade que ele deixaria de crer no milagre, como continua até hoje. O clero brasileiro, apesar da abertura do Grande Leão XIII e em pleno papado de Eugênio Paccelli Papa Pio XII, cognominado o Papa Aristocrata continuava impermeável a mudanças.

 

****

 

CAPÍTULO 11

JOSÉ JOAQUIM TELES MARROCOS, O TEÓLOGO DA FÉ

 

Latinista e teólogo, José Marrocos foi o grande intérprete do movimento religioso do Juazeiro. Seu papel de defensor do milagre tornou-o o protótipo do caso religioso. Portador de uma fé extrema, devoto da doutrina da Predestinação que, naquela época, era tida como um dogma essencial da Igreja. Através dos seus escritos, concorreu para que o caso da Hóstia Ensanguentada fosse conhecido em todo o País, e ainda no estrangeiro, para onde enviava artigos. Portugal, Espanha, e Roma principalmente, onde circulou uma coletânea de fatos referentes aos milagres, denominada “Quem fez pretenso os Milagres do Juazeiro,” que o Bispo dizia ter sido espalhada pelos quatro cantos da Cidade Eterna, à época em que lá se encontrava o Padre Cícero. O referido tratado, alusão direta e objetiva à Questão Religiosa do Juazeiro, além de sustentar os milagres, fazia veemente crítica ao clero, por seu posicionamento na condenação e repulsa aos fatos. Considerado o homem chave da rumorosa questão, Marrocos foi o cérebro do movimento religioso do Juazeiro; acreditava que a beata Maria de Araújo tinha “o dom” de converter hóstia em sangue, porque uma predestinada.

O Padre Gomes, que contestava sua teologia, sustentava que Marrocos era um Jansenista confesso, com recusa à eucaristia. Doutrina condenada pelo Papa Urbano VIII (1642), mas que resistiu por muito tempo até chegar ao século XIX. Na França, os Jansenistas sofriam processos movidos pelos Jesuítas, que os acusavam de ensinar uma doutrina subjetivista, na qual a fé bastaria ao crente, mesmo desacompanhada das obras externas e dos rituais públicos de fé (in: Lelo Universal). A doutrina do Jansenismo baseava-se em três transcendentais: graça, livre arbítrio e predestinação, virtudes que se alinhavam ao pensamento de Santo Agostinho. Por isso, o livro encontrado em seus pertences (Augustinius), escorado nele, fazia sua profissão de Fé. O Bispo, a par de tudo isso, o execrava, e nos seus escritos dizia ele não ter autoridade canônica para passar ao povo tamanho ponto de vista, temendo, ao que tudo indica, viesse a criar um cisma dentro da Igreja. Daí a luta entre os dois.

José Marrocos nasceu na cidade do Crato a 26 de novembro de 1842, era parente do Padre Cícero e descendia de uma das principais famílias do Cariri, os Teles. Era filho legítimo do latinista e também professor por nomeação imperial, Padre João Marrocos Teles. Dedicado e fidelíssimo amigo do Padre Cícero, foi seu mentor religioso, sempre esteve ao seu lado, desde o Educandário notável do Padre Rolim em Cajazeiras (PB) até o seminário da Prainha, em Fortaleza, quando, já Diácono, foi dispensado da casa religiosa, por sustentar pontos de vista contrários aos do Reitor Chevalier, um seguidor da teoria Tomista.

Ex-jornalista com passagem na imprensa carioca, ao lado de José do Patrocínio e Joaquim Nabuco, batalhou pela libertação dos escravos. Antes, em Fortaleza, ao lado de Justiniano de Serpa, fundou o jornal O Libertador, conseguindo adeptos em prol da causa. Um grande humanista, na visão dos que com ele conviveram. Na grande seca de 1877, que assolou o Ceará, o pouco que ganhava em Fortaleza, como professor, repartia entre os flagelados, e certa vez chegou a desmaiar de inanição, escreveu Amália Xavier (op. cit.). No Rio, ao lado de Carlos de Laet e José do Patrocínio, colaborou na criação e divulgação da Gazeta de Notícias. Decepcionado com o rumo que o movimento tomou após a libertação, retornou à sua terra natal, o Crato. Aí se refugiando, funda o Colégio São José e o jornal A Voz da Religião, onde divulgava a História e os fatos do Cariri de então. Marrocos era culto, pedagogo, dominava quatro idiomas, era um poliglota. De porte ascético, polido nas palavras, trajava-se com elegância, dando um toque de discrição ao seu trajar, usando ternos em cor sempre escura, de preferência pretos, camisas brancas com colarinho à batina de padre, de mangas compridas, com abotoaduras em dourado. Usava botas de verniz de cano alto, abotoadas ao lado. De moral irrepreensível, cenho carregado, o que mostram suas fotos; era firme no falar e no escrever. Defendeu o Padre Cícero na tumultuada questão religiosa, não só aqui, mas enviando correspondência para a Santa Sé. Por isso, ele foi considerado o arquétipo de todo o movimento religioso do Juazeiro, o expoente máximo, astro cintilante. Sem sua colaboração por seus escritos, talvez pouco restasse sobre o fato histórico.  

Conhecedor profundo da teologia romana, estudioso das Sagradas Escrituras, escreveu, contestou, guerreou e traduziu os fenômenos na pessoa da beata Maria de Araújo. Devotado à causa dos humildes, em 1878 fundou em Fortaleza, em parceria com outros católicos, a Igreja de São Benedito (o santo pretinho), para que os negros pudessem aí fazer suas orações sem serem importunados, pois à época eram discriminados pelo clero, dado o autêntico preconceito de classes nas agremiações religiosas, por exemplo: a Irmandade do Ssmo Sacramento, da qual só fazia parte a fina flor da sociedade. Tradição e linhagem de família contavam, como também a posição social, isto é, a financeira. A Irmandade das Almas seguia a mesma linha das suas congêneres, aliás, até pior, pois não era permitido o ingresso de negros em suas fileiras. Para esses, o clero designara a Irmandade do Rosário, que teve seu apogeu no século XIX. Na Bahia e em Pernambuco, por exemplo, o culto a Nossa Senhora do Rosário era o preferido, imposto pelo clero, constituído exclusivamente de pretos, escreveu Alfredo Bosi, em sua Dialética da Colonização (p. 143).

Como já escrito, o teólogo José Marrocos era um místico. Sempre sobraçando o seu breviário, era visto em passadas largas cruzando as ruas do Crato, do Juazeiro e de Barbalha, onde dava aulas. Dedicou toda sua vida ao ensino e à religião. Não mediu esforços em traduzir do português para o italiano o primeiro Inquérito Episcopal sobre os fenômenos do Juazeiro, com a colaboração do Monsenhor Antero, secretário da primeira comissão de investigação. Poliglota, dominava o francês, latim e italiano, daí sua participação ativa na tradução do primeiro inquérito. Padre Gomes escreveu: “além de ser um Jansenista confesso, recusava-se a receber a eucaristia, e lhe faz acusações graves, ao assegurar que ele usava de uma química à semelhança de sangue, que poderia ser anilina, para tingir as hóstias recebidas pela beata Maria de Araújo. “Ele foi sem nenhuma dúvida o cérebro químico do Milagre”.

Essa posição radical do Padre Gomes a respeito de Marrocos e do Milagre lhe rendeu inimigos rancorosos no Juazeiro, que nunca o perdoaram. Mas um pormenor ele deixava claro: reconhecia que Marrocos foi de fato um grande educador, muito contribuiu para a educação no Vale do Cariri, como também foi um grande defensor na luta pela liberdade dos negros. Entretanto, para ele, tudo ficou anulado, em face de suas posições ante os fatos do Juazeiro. Acusado pelo clero no sumiço dos paninhos das comunhões miraculosas de Maria de Araújo, encontrados depois em sua casa, quando ficou caracterizado ter sido ele, de fato, o autor material do referido sumiço. Diziam ainda que o livro escrito em francês, encontrado em seus pertences, era significativo, como a insinuarem a hipótese de uma burla. A ideia mais provável, entretanto, é a de que tenha mandado vir da Europa, para estudos aprofundados do fenômeno, já que o livro tratava de aparecimento de sangue, e não para manipulações grosseiras, pela probidade do seu caráter, ligado à moral cristã, escreveu Azarias Sobreira (idem). Combativo, Marrocos era realmente um adepto da causa e um crente fervoroso dos milagres. Por crer no fenômeno como sendo divino, procurou salvá-los, guardando-os em sua casa. Com receio, quem sabe, que viessem a desaparecer e fossem profanados, como a adivinhar o que mais tarde aconteceria com o cadáver de Maria de Araújo. Por isso guardava-os trancados à chave num oratório privado de sua casa, sob a luz de velas acesas. Para ele, ali estava a prova evidente do milagre, daí a sacrossanta devoção que mantinha e que uma fé avassaladora o contagiava. Por esse excesso de fé e religiosidade, foi criticado, de maneira rude e impiedosa, pelo escritor Nertan Macedo, no seu livro O Padre e a Beata.

Um erudito, tinha por norma a arte da palavra escrita, seus escritos o atestam. Pedagogo, pelo seu crivo passaram personalidades da vida brasileira, como o  Senador Fernandes Távora e tantos outros, que seria enfadonho listá-los. “Não era dado a oratória, assegura Azarias Sobreira (op. cit.), mas, na arte da escrita e da conversação, seu linguajar era elevado à altura da sua distinta personalidade”. Suas aulas de português eram brilhantes, dificilmente o aluno esqueceria, escreveu Irineu Pinheiro (op.cit.). José Marrocos destacou-se na sua luta em prol dos milagres e contra os bispos, principalmente o Bispo Dom Joaquim José Vieira, por não aceitar princípios que ele considerava fora das normas da teologia. Censurava a tomada de posição que este tomara antes que Roma se pronunciasse sobre a questão, suspendendo o Padre Cícero de celebrar e confessar, silenciando-o, emudecendo-o. Por fim, Marrocos não reconhece a autoridade do Bispo Joaquim, ao decretar que o Padre Cícero estava proibido de receber, em sua casa, visitantes e romeiros. Para ele, o Bispo extrapolou, e escreveu: Razão ou absurdo?”.

Os bispos de Pernambuco também foram alvos dos seus escritos, principalmente o Bispo Joaquim Arcoverde, que, segundo ele, também passava um ar de infalibilidade no julgamento da grave questão religiosa do Juazeiro, e também o Bispo de Olinda e do Recife, Dom Luís, que, aderindo às concepções do Bispo do Ceará, proibiu que fossem batizados em sua Diocese crianças que portassem o nome de Cícero. Para o Bispo do Ceará, José Marrocos simbolizava o mal. Nunca pronunciando seu nome, só o chamava de mal inspirado paredroNão procurava disfarçar sua ojeriza e desprezo, e afirmava categórico que todos os seus escritos a respeito dos fatos do Juazeiro não passavam de sofismas, sub-reptício.

Apesar de tão criticado e contestado, Marrocos era um moderado, e reagia a todas essas injúrias através de sua pena brilhante. No auge da crise religiosa, ele escrevia ao Padre João Augusto da Frota, seu correspondente em Fortaleza, o seguinte:

Pronunciei-me contra a interlocutória, porque parti de um princípio certo, incontestável, e dogmático; a publicação mesmo do meu Memorial não teve outro fim, senão responder a alguma das objeções feitas pelo Sr. Bispo, como também as razões morais de resistência a que se refere, no concernente à assinatura de mulheres em alguns papéis. Como também é de minha inteira responsabilidade, a ideia de consultar bispos e teólogos do estrangeiro. (Cf. Irineu Pinheiro, Efemérides do Cariri, p. 480-482).

O ex-abolicionista tem o seu lugar merecido na História do Brasil. Apesar de não constar nos livros oficiais, na verdade, ele foi um defensor incansável da nobre causa. Culto e grande memorialista, seja qual for o conceito que se faça dele, só concorreu para que o Cariri preservasse sua história, porque ele o amava. Se não fora ele, pouco existiria da grandiosa história de fé nos milagres do Juazeiro, perpetuada através  dos seus memoráveis e cultos escritos, quando veementemente contestava o clero, porque a eles interessava que fossem apagados da memória, como sempre quis a alta esfera, que optava pelo sepultamento dos fatos. Por sua cultura e dignidade, ele foi um nobre. Tornado no homem símbolo da Questão Religiosa do Juazeiro, o arquétipo de toda essa história traumática, o teólogo da fé, a própria alma da célebre questão. Desprendido de bens, um idealista na acepção do termo, morreu pobre, como pobre morrem todos os idealistas. Nada deixou, senão a lembrança da luminosidade do seu saber. Promotor de eventos religiosos no Juazeiro, como Semanas Santas dramatizadas, mantinha, entre outras atividades, encontros literários, com declamações e leituras interpretadas. O canto também tinha seu destaque: fundou o Coro da Igreja, que chegou a ser um dos melhores do Estado àquele tempo. Preparava uma destas magníficas festas, chamada de Noite das Estrelas, quando foi surpreendido pela morte, na véspera da Assunção de Nossa Senhora, no dia 14 de agosto de 1910, deixando um vácuo na História do Ceará e principalmente do Juazeiro.

Apagava-se, com o seu desaparecimento, o clarão místico e lírico, e, engastado neste clarão, a história de um mistério, sedutor mistério, do qual ele foi a figura central, por seus escritos. O vácuo deixado não só se restringiu à cultura, deixando triste também seu grande amigo, o Padre Cícero, para o qual José Marrocos era o primus inter-pares, na linha dos mais fiéis amigos, e ele o foi na realidade, até a medula. Seu nome está imortalizado numa das ruas centrais da histórica e nobre cidade do Crato, e seu sobrado, onde viveu toda a vida, até poucos anos atrás lá estava de pé, como a dizer: aqui nasceu e viveu um homem de vasta erudição e coragem, pois guerreou contra uma hierarquia potente, o clero.

No Juazeiro, também foi homenageado com nome de rua e de um pequeno distrito, nos arredores da hoje grande cidade. Mais do que justa a homenagem ao modesto homem de letras que foi José Joaquim Teles Marrocos.

 

**** 

 

SEGUNDA PARTE

 

CAPÍTULO 12

A METAMORFOSE DO PADRE CÍCERO: MUTATIS MUTANDIS

                           

 

Padre Cícero contraditório? Para muitos ele o foi. José Maria Logendio, que escreveu sobre Savonarola, disse serem as contradições a essência da alma humana. No seu retorno de Roma, ele daria nova feição ao seu apostolado em Juazeiro, como por exemplo no recebimento das espórtulas que os fiéis faziam em pagamento de promessas feitas à Padroeira Nossa Senhora das Dores. As espórtulas tornaram-se em ponto de contenda, um calcanhar-de-Aquiles para o clero, nascendo daí uma nova luta religiosa entre o Padre Cícero e o clero, que durou até sua morte.

O clero alegava que, por ele estar suspenso de ordens, em hipótese alguma não poderia receber as dádivas, e nem delas fazer uso a seu modo, objetava o Bispo Dom Joaquim, altamente irritado. O destino que dava a essas espórtulas, na verdade, a maioria delas pertencia à Padroeira, nada solicitava dos fiéis, entretanto o povo prosternado ante ele fazia suas oblações, deixando a seu critério resolvê-las como quisesse, pois tinham a certeza que o caminho que lhes dava beneficiava a  todos. Mas o clero não pensava assim. As doações, do ponto de vista da cúpula, teriam que serem repassadas à Diocese, como não eram, desaguava na grande divergência. Eis o epicentro de toda questão. Sendo princípio canônico de que, se o público doa, para ele deve voltar, era justo o que acontecia no Juazeiro. Ao receber as ofertas que, de ordinário, eram envoltas num simples papel de embrulho e atadas por um cordão barbante, empoeirado pela longa e estafante caminhada de estradas de terra, ali mesmo eram repassadas aos suplicantes que lhe imploravam a caridade, escreveu Azarias Sobreira, sobre o caso das libras esterlinas (idem).

As doações foram um ponto de contenda na espiral de confusões da agitada Questão Religiosa do Juazeiro. Como já escrito, ao retornar da Cidade Eterna, ele daria outro destino à recepção dos donativos, quem sabe, talvez impressionado com o que presenciara em Roma, o montante de dinheiro que o Vaticano recebia, e que até hoje continua. Então achou por bem não abrir mão das ofertas, umas feitas a ele, por pessoas abastadas, outras destinadas à Padroeira, em pagamento de promessas. Essas, ele as transformava em obras assistenciais, uma casa funcionava como um pequeno hospital, que socorria os doentes não só do Juazeiro, mas de outras partes que lá chegavam à procura de saúde.

A partir do ano de 1900, uma nova visão com novas realizações, que se seguiriam pelos tempos afora. Em 1926 construiu um dos maiores marcos do seu apostolado, o Orfanato Jesus Maria José, que beneficiou não só o Juazeiro, mas todo o Cariri. Inegavelmente, este foi um dos seus maiores empreendimentos. O Orfanato, que além do ensino elementar tinha como base amparar meninas órfãs, era dirigido por professoras competentes que, com dedicação, esmeravam-se na arte do ensino e de trabalhos manuais da costura, do bordado, aproveitando a tendência natural de nossa gente para os ricos bordados à mão ou à máquina. De lá, saíam preparadas e aptas para enfrentar a vida lá fora com dignidade, comenta Amália Xavier (op.cit.).

Seu regresso de Roma, no princípio do século XX, foi mesmo de contentamento para seu povo. Absolvido pelo Sacro Colégio de “Ofensas à Religião”, como rezava o documento romano, se é que as medidas drásticas, que já vinham desde 1892, podiam ser consideradas perdão, por conter as mesmas medidas impostas pelo Bispo da Diocese do Ceará e ratificadas por Roma. A única diferença consistia numa só palavra: perdão, palavra esta que jamais foi pronunciada por Dom Joaquim, seu algoz.

1900, o Ceará gemia sob o peso de mais uma grande seca que veio acompanhada de grande sequela a varíola, assolando contundente todo o Vale do Cariri, e especialmente o Juazeiro, pelo acúmulo de pessoas que lá chegavam diariamente à procura da caridade do Padre Cícero. Nessa quadra difícil, ele desempenhou o papel de médico e enfermeiro, auxiliando o farmacêutico prático Ernesto Rabelo na vacinação em massa, quando exortava o povo a que se vacinasse e ensinava medidas de profilaxia a fim de debelar o mal, que se expandia de maneira vertiginosa, disse Amália Xavier (op. cit.). Aliando religião à medicina, no intuito de salvar vidas, de lutar contra doenças, contra a morte, ele incute no seu povo o sentimento da fraternidade, numa compaixão inusitada pelos sofrimentos dos deserdados da sorte. Sua solidariedade transpunha a barreira do inacreditável. Ele foi o Moisés em terras do Ceará, salvando, ensinando, administrando, conduzindo seu povo com retidão e acerto.

Tentando resolver o problema da fome, causada pela terrificante seca desse ano, lança mão mais uma vez das raízes de maniçoba e mucunã, preponderantes nessas situações de emergências das muitas secas que presenciou, e as quais seu nome estará sempre ligado. Elas tornaram-se uma pauta constante de suas preocupações, por não existir meios de resolver o problema, da falta dágua, pela falta dos recursos hídricos, em todo o Nordeste. Continuou a fazer uso das raízes brabas para delas extrair os farináceos, usados na feitura de beijus e mingaus, e assim salva muitas vidas, observou Edmar Morel (op.cit.). Herança indígena, que o Padre Cícero soube dela tirar proveito; por ser um pragmático, usou-as com grande êxito, salvando vidas. Mesmo conseguindo salvar vidas, foi bastante criticado, por considerarem a mucunã causadora de mortes e altamente tóxica. O escritor Rodolfo Teófilo, um dos pioneiros da imprensa no Ceará, impressionado com tantas mortes, desde a monstruosa seca de 77, passou a pesquisar e estudar o problema das raízes, sem chegar a uma conclusão satisfatória. Junto com Tomaz Pompeu, grande estudioso das secas no Nordeste, apelam ao Museu Nacional do Rio, solicitando um estudo que detectasse se realmente ditas raízes eram mortíferas, isto no ano de l888-89. Jamais obtiveram resposta, apesar do grande prestígio do primeiro por ocupar uma cadeira de senador do Império.

Em l946, o Professor Josué de Castro, baseado no estudo de Rodolfo Teófilo, solicitou ao Instituto de Nutrição do Rio que fizesse um estudo das raízes, pois até aquele ano, elas ainda geravam controvérsias, como sendo tóxicas. Dessa vez foi feito o exame das raízes e o resultado fornecido pelo Instituto de Nutrição é o que se segue:

“O uso pelos retirantes das secas dos farináceos da maniçoba e da mucunã não oferece risco de envenenamento, são alimentos de teor de amido próximos dos da mandioca, mas bem superior a esta, pelo teor protéico três vezes maior, aproximando-se dos da farinha de mandioca, e bem superior a esta, pelo teor protéico três vezes maior, igual ao da farinha de arroz e milho. Quanto aos efeitos, como referem as crônicas locais, de perturbação da digestão, com diarreias e cólicas intestinais, causando mortes, atestamos que não procedem dessas massas, mas sim, de carências múltiplas, já em estado bastante adiantado pela falta de alimentos, exteriorizada nos sintomas de carência total, de vitamina B e de proteínas.” (Extraído do Documentário do Nordeste, pp.164-68)

Empenhado pela melhoria de vida para o povo nordestino, o Professor Josué de Castro estudou, escreveu, pesquisou durante anos, ergueu a voz no Parlamento, quando dizia ser “o latifúndio mais forte que suas metas e propostas”. Seus discursos na Câmara foram antológicos e causadores de polêmica, eis um dos trechos dos muitos que pronunciou sobre o assunto:

   Pior que a seca, era a escravidão do homem pelo homem, e que só a chuva não resolveria o drama da miséria da região do Nordeste, daquelas áreas subdesenvolvidas deste país subdesenvolvido.

E clamava pelo desenvolvimento econômico e social para a região (Documento cit).

Tempos depois, o Padre Cícero usaria de um método até então inédito em terras do Ceará, fazendo o assentamento dos flagelados, nas terras devolutas da Serra do Araripe e de São Pedro. Fornecia-lhes sementes e ferramentas, para uso da terra, incentivava-os a não desperdiçarem tempo, fossem para o campo, quando caíssem as primeiras chuvas. Desse modo integrava o homem à terra, evitando assim a emigração, mas logo foi rechaçado, como comenta o jornalista Figueiredo Brito, nas páginas da Revista Ytaiytera, órgão oficial do Instituto Cultural do Cariri, da cidade do Crato (ano de l956):

“O assentamento dos romeiros, na Serra do Araripe, foi tão bem sucedido com a introdução em larga escala do plantio da mandioca, que os grandes latifundiários passaram a invadir as áreas recém-cultivadas, onde antigamente nada existia, alegando serem suas. De lá expulsaram os novos moradores, que antes viviam submetidos a esses mesmos proprietários”.

Passados tantos anos, o brado de alerta do Professor Josué de Castro continua atual: como no passado, a luta pela posse da terra continua. Assim foi em Canudos, e depois no Caldeirão, onde distorções de pensamentos religiosos atrelados ao latifúndio muito concorreram para a grande chacina do Caldeirão, região serrana do Crato, totalmente destruído no ano de l937. Um dos mais bárbaros e chocantes acontecimentos da ditadura Vargas, sob o comando do Chefe de Polícia do Ceará, em conexão com o Ministro da Guerra, General Eurico Dutra.

Relembrando: Caldeirão era uma comunidade encravada na Serra do Araripe; o lugar era assim chamado porque lá existia uma grande rocha em formato de um Caldeirão que acumulava água, vindas das nascentes da Serra do Araripe. O beato Zé Lourenço, expulso de outra gleba, na mesma Serra do Araripe, por fazendeiros que resistiam à presença dos romeiros na área, lá se refugiou. Caldeirão dos Jesuítas, assim conhecido por ter abrigado no passado distante dois jesuítas fugidos da perseguição do Marquês de Pombal, no ano de 1757 .

Recanto de grande beleza, encravado na Serra do Araripe, com um pequeno resevatório natural de água, mas ínfimo para suprir a necessidade da comunidade de mais de 400 pessoas. O beato, num esforço ingente, reverte o quadro: de estéril passa a fértil, com a abertura de poços artesianos feitos por ele e seus seguidores. Habilidoso e cheio de vontade e esperança, fez com que o Caldeirão, dantes um deserto, se tornasse um oásis, pela abertura de poços artesianos, disse José Alves de Figueiredo, o Zuza da Botica, que o chamava Iluminado, pela proeza de dar vida ao lugar, antes um deserto. Ainda de acordo com o jornalista e poeta Alves de Figueiredo, José Lourenço, com pouco estudo, tinha aguçada visão. Era inteligente, pacífico e de muito pulso, conseguindo dominar sua comunidade somente pelo uso da palavra. As Escrituras e o respeito à ordem eram o ponto principal de sua pregação aos seus seguidores.

O beato Lourenço notabilizou-se pelo caso do Boi Mansinho. De acordo com a crônica oral e escrita, era ordeiro e trabalhador. Seu nome tornou-se uma legenda, enchendo todo o sertão pela força do cordel. Sua comunidade chamava atenção pela organização e disciplina, fornecia 400 refeições ao dia, verdade que uma só vez, mas era uma refeição generosa, já que de tudo lá existia: criação de suínos, carneiros, bodes, patos, galinhas. A venda da produção de cereais e animais não era permitida, uma vez que tudo era para o consumo interno, regra estabelecida pelo beato. Lembrando que foi ele o pioneiro, no Cariri, da criação de Cooperativas, nos moldes da do Conselheiro. Com a abertura dos poços artesianos, fazendo jorrar água abundante, o pomar e o jardim chamavam a atenção dos visitantes, pela imensa variedade de flores, frutas, legumes e raízes, vale lembrar que o cará tinha para mais de dez espécies (Alves de Figueiredo, op. cit.). O lugar, que antes era impraticável para morar, pela falta d’ água, ele conseguiu mudar o quadro, tornando-o num lugar aprazível, onde não mais existiam a falta d´água e o fantasma crônico da fome, graças ao trabalho hercúleo dos que o seguiam, disse em artigo antológico o citado jornalista José Alves de Figueiredo, indignado com o massacre do Caldeirão. Seus artigos e poemas referindo-se ao hediondo crime foram registrados pelos jornais da época, agitando os meios literários do Ceará, passando à História.

O beato Zé Lourenço seguia o princípio primitivo do Cristianismo, baseado nos Apóstolos, que tinha como meta a partilha de bens. Mas o clero do Crato não via suas atitudes como verdadeiras, e sim uma forma de conquistar adeptos para sua seita, considerada por eles, e também por leigos, grosseira e surpersticiosa, além das uniões ilícitas, adoração ao Boi Mansinho, numa reminiscência do Boi Ápis. Maximizando, os fatos terminaram por criar um clima de suspeição e hostilidade ao beato e a seus seguidores. Na realidade, José Lourenço foi tido como contraventor de ideias perniciosas e um fora da lei, tudo o que ele não era. Estava aberto o caminho para que as autoridades estaduais entendessem como uma ameaça à ordem pública e, pior, sugeriram que ele era um adepto do comunismo.

No ano de 37-38 o Governo Vargas detonou uma caça aos comunistas, prendendo-os e exilando-os, e aí chegam ao beato Lourenço. Não houve diálogo, nenhuma explicação, agiram à Rússia, dos Czares, ou de Stalin, tanto faz, a mesma coisa; não o prendem, ao contrário: de cima, em aviões do Exército, bombardeam o Caldeirão e seus habitantes, que não tiveram tempo de fugir. Tudo muito rápido. Em fração de segundos, a comunidade do Caldeirão foi reduzida a escombros pelas bombas atiradas do alto: os corpos carbonizados pediam clemência, e a majestosa e secular Serra do Araripe, atemorizada com o estrondo das bombas mortíferas, era só desolação. Humildes serranos, que residiam do outro lado da Serra, procuravam esconder-se nas suas choupanas, apavorados com o horror, sem nada entenderem. Uma atrocidade gigantesca, poucos os que escaparam, dentre estes, o beato Lourenço, que conseguiu fugir, embora muito ferido. Mulheres, homens, crianças foram mortos pela sanha cruel da Ditadura Vargas, com o aval do Presidente do Estado do Ceará, Menezes Pimentel, e do Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra.

Tinha fim desse modo violento e trágico a cruenta perseguição a uma comunidade, tal qual aconteceu em Canudos. Pregador da paz, motivada apenas no intuito de fazer o bem, o Beato, conforme relato do jornalista e político Ademar Távora, revoltado com a destruição do Caldeirão, era um homem de bem. Depois de anos de luta, ele conseguiu fazer do lugar, outrora um deserto, uma vivenda aprazível, onde fincou um marco, que em poucos minutos foi destruída pela sanha sanguinolenta da ditadura Vargas e da perseguição do clero à sua pessoa, simplesmente por ser um seguidor do Padre Cícero, atestam os que escreveram sobre a monstruosa chacina. Dando ao Beato o título de “Gigante”, o deputado Ademar Távora chama-o de um homem excelente e de bem, inteligente e cumpridor dos seus deveres, pacifista, além de criador de uma notável obra social. Depois de tudo ter sido reduzido a pó e nada restando, o deputado entrou com um processo de indenização de vida e bens contra o Estado, não obtendo nenhum retorno quanto à indenização por ele cobrada. Foi para o rol do esquecimento, prevalecendo apenas os fatos cruéis que a ditadura Vargas perpetrou. O nome de José Lourenço e a destruição do Caldeirão permanecerão para sempre nos anais da História do Ceará. As centenas de corpos carbonizados não mereceram do clero nenhuma palavra de repúdio ao monstruoso ato, e nem sequer um ligeiro comentário no Órgão Oficial da Diocese do Crato. Silenciaram.

 

****

 

CAPÍTULO 13

ANOS DE 1907 A 1911

 

Nesse ano começa uma nova etapa de transformação na vida política do Juazeiro, que até esse tempo vivia unicamente do seu passado religioso. Foi nessa época que o Padre Cícero transpôs os umbrais do religioso, para se fixar definitivamente na política Mutatis mutandis. Talvez as circunstâncias o tenham levado a tornar-se um político ativista, levado pelos muitos reveses, como: a pressão persistente do clero à sua pessoa, humilhação de subserviência ao Crato, de quem o Juazeiro dependia política e religiosamente, a demasiada perseguição ao seu povo, e até mesmo uma tentativa de assassinato à sua pessoa, no ano de 1906, justificam certamente o novo caminho que tomou. Aliás, a decisão de abraçar a política, revertendo seu papel de missionário para ser um braço dela, não foi um fato inusitado, porque desde que chegou ao Juazeiro seus atos já deixavam entrever traços políticos, pelas escolas do ensino elementar que fundou, pelas ruas que abriu, nomeadas e numeradas, enfim, procurou dar cidadania aos dantes marginalizados, implantando no pequeno povoado a pedagogia do aprendizado e do trabalho. Embalado pelo sonho de ver o Juazeiro emancipado, começou a dar forma ao sonho, empenhando-se com afinco. Antes dele, o Major Joaquim Bezerra de Menezes deu início a um projeto para criação do município, só que nem chegou a tomar forma o embrião morreu ao ser concebido, porque barrado pelo arrogante e histórico chefe do Crato, Coronel Antônio Luís Alves Pequeno, que criava empecilhos a todo o projeto de emancipação do lugar, sepultando-os.

No ano de 1909, o Padre Cícero voltou a dar vida ao ideal, que terminou se concretizando. Por esse tempo, Juazeiro tinha várias escolas, públicas e particulares, de muito bom nível. Os professores das escolas particulares eram exímios conhecedores da gramática, latim e francês, como o Professor José Marrocos e o Dr. Manoel Diniz, muito depois. Sua população era de 30.000 habitantes fixos, dispondo ainda de um florescente comércio, Correios e Telégrafos, e uma Banda de Música a cargo do maestro Pelúsio Correia de Macedo, vulgarmente conhecido por Mestre Pelúsio, pai do eminente Monsenhor Macedo. Os instrumentos para a formação da banda foram comprados pelo Padre Cícero, na sua estada em Roma. Mestre Pelúsio era figura insígne em sua terra natal, mecânico, fabricante de relógios e sinos para torres de Igreja e praças, que o tornaram numa legenda. Até hoje, seus sinos e relógios permanecem, como a desafiar o próprio tempo.

Por esse rápido demonstrativo vê-se que o lugar tinha credenciais para ser elevado a Vila, tudo era apenas questão política, e o motivo sabiam todos: o chefe cratense não queria abrir mão de sua renda, que ultrapassava a do Crato e de outras cidades, graças ao fluxo de peregrinos, que, nesse ano de 1900, dobrou pelo retorno do Padre Cícero de Roma, quando foi recebido pelo Papa Leão XIII. Naquela época, ver o Papa era quase impossível, pelo elevado custo da viagem e pela distância, que também contava. Ver o Papa constituía-se num acontecimento da mais alta relevância, como até hoje. Era um grande feito, porque muitos o tinham como um Ser inacessível, intocável, abstrato, que fazia parte do imaginário popular, tendo como reforço a concepção dominante de ser infalível, escolhido por Deus como seu representante aqui na terra, conforme decretou o Concílio Vaticano em 1870.

A distância de Roma, as poucas notícias pela divulgação tênue da imprensa, vê-lo em carne e osso tornava-se um acontecimento notável, quando só estampas em livros religiosos o mostravam. No caso do Padre Cícero, apesar do chamado impositivo do Sacro Colégio, foi um acontecimento de grande relevância, que muito repercutiu. Ele ia, como de fato foi, ver o Papa. Roma, aos olhos daquele povo, era um fim de mundo, o Vaticano, um mistério impenetrável, como até hoje. O fato de ser um simples capelão de uma pequena e obscura povoação, esquecida nos confins do Ceará, deu-lhe enorme dimensão, enchendo de orgulho seu povo, enquanto mais crescia a romaria, deixando um saldo razoável de numerário, pela vinda de peregrinos ao Juazeiro e, é bom dizer, não só os romeiros, também pessoas de alto nível intelectual e político. Dessa forma, o numerário cresceu assustadoramente pelos que lá desembocavam, despertando a cobiça do Intendente do Crato, enquanto o povo do Juazeiro, numa reinvidicação mais que justa, desejava sua emancipação, para tornar-se independente do Crato, de quem dependiam, há 100 anos. Partiram para a luta, dispostos a não perderem, com total apoio do Padre Cícero.   

Nesse tempo, dominava o Ceará a oligarquia Acciolina, representada pelo Comendador Dr. Antônio Nogueira Accioli, cujo pensamento predominante era o mesmo dos seus antepassados: perpetuar-se no poder. Ele mesmo havia herdado o bastão do seu sogro, o Senador Tomaz Pompeu, um hábito arraigado, já vindo desde a colonização, por motivos os mais diversos: poder do latifúndio, distância do Governo Central, e muitos outros fatores. Dessa forma, o expediente deletério da oligarquia tornou-se num poder ad-infinitum, exercendo esse poder pelo tempo que lhes conviesse, e que até aqui continua, agora com uma nova geração dos seus descendentes.

No ano de 1907-1908, chegaram ao Juazeiro três personagens distintos entre si, e que, apesar de diferentes em concepção, foram decisivos às pretensões políticas do Padre Cícero. Eram eles: o Padre Joaquim de Alencar Peixoto, conhecido nos meios literários do Ceará como Alencar Peixoto, altamente explosivo e revolucionário; o mentor religioso do Padre Cícero, José Marrocos, que deixava sua cidade-natal, o Crato, para fixar residência no Juazeiro; e o médico baiano Dr. Floro Bartolomeu da Costa, vindo do interior da Bahia, dos Lençóis Diamantinos, Capim Grosso, Jacobina e Patumaté, onde se dedicava à extração de minérios e também praticava a medicina. Lá, ele chegou acompanhado de Adolfo van den Brulle, estrangeiro, que também se dedicava à extração de minérios. O engenheiro de minas, Adolfo van den Brulle, fazia parte de um sindicato francês que tinha ramificações no Nordeste, nos Estados de Pernambuco e Bahia, cujo sindicato tinha interesses nas referidas minas do Coxá.

Ao chegarem ao Juazeiro, foram informados de que o Padre Cícero também detinha uma parte de terra nas minas, foi então que o procuraram, e não como pensaram os próprios habitantes do Juazeiro e a imprensa do Ceará (embora logo corrigido), de que lá foram atraídos pelos milagres. A verdade é que não era “milagre” o que procuravam, e sim fortuna, o que também não deixa de ser o maior dos milagres. Hospitaleiro e afável, Padre Cícero deu-lhes as boas-vindas, e que se sentissem em casa. Para o público, a chegada ali dos dois despertou curiosidade, principalmente o engenheiro Adolfo van den Brulle, um homem de porte atlético, corado, olhos azuis, 1,80m de altura, de maneiras fidalgas e com um linguajar atrapalhado, escreveu Edmar Morel (op. cit.).

O cavalheiro Adolfo van den Brulle se dizia portador do título de Conde, por herança de família, título este que mais tarde seria questionado pelo Deputado paulista Morais e Barros e pelo Professor Lourênço Filho. Mas, enfim, Juazeiro hospedava um nobre, de descendência francesa. O médico Floro Bartolomeu era um receptivo e sedutor. Mestiço baiano, adaptou-se facilmente à vida simples do lugar, talvez extasiado pela beleza natural da paisagem verde que ostentava todo o Vale, ou pela aura de misticismo que o Juazeiro transmitia até mesmo ao mais descrente dos homens fortes e de posições arrojadas, como eram as suas. O fato é que, poucos dias após sua chegada ao lugar, endinheirado, fez aquisição de uma fazenda em Missão Velha, onde passou a residir, mas por pouco tempo, porque logo voltou ao Juazeiro, passando a morar na casa do Padre Cícero. Em seguida, comprou boa e confortável casa, onde viveu enquanto lá permaneceu. Mais tarde, ele desempenhou um importante papel político no Juazeiro. Já com residência fixa, abriu consultório médico, e, ao lado, uma farmácia. Solícito, não media sacrifício, atendia a todos que o procuravam a qualquer hora, assim ia conquistando de mansinho a admiração dos habitantes, notadamente do Padre Cícero, tornando-se seu médico assistente (Amália Xavier, idem). Sentindo-se realmente em casa, calmamente aguardou que os acontecimentos se desenrrolassem a seu favor. Efetivamente, não demorou. Aderindo ao movimento da emancipação em artigos no jornal O Rebate, despertando admiração por sua dialética e pelos modos cavalheirescos, que se refletiam na admiração de toda a povoação.

O jornal O Rebate, fundado em 1909, era de propriedade do Padre Alencar Peixoto e funcionava à Rua Padre Cícero, numa das suas casas cedidas por ele, a de nº 343. Alencar Peixoto, além de dono do jornal, era seu Redator-Chefe. Inaugurado no mês de Julho em meio a festividades, o jornal estampou na sua primeira página uma fotografia do Padre Cícero, em tamanho grande. Não faltaram colaboradores: o Professor José Marrocos, discretamente (detestava política, decepcionado pelo rumo que a emancipação dos escravos tomou e que não foi o sonhado pelos abolicionistas, e o jornal do Padre Peixoto era visivelmente político); Dr. Floro, o advogado rábula, José Ferreira de Menezes Longe, Dr. Manoel Diniz, Antônio Esmeraldo da Silva, farmacêutico, Coronel José Joaquim de Maria Lobo, e muitos outros, que faziam parte do corpo literário do jornal. Mas o que prendia mesmo a atenção do leitor era a lavagem de roupa suja nos artigos biliosos de Alencar Peixoto, brigado com o Intendente do Crato, Coronel Antônio Luís, por motivos políticos, o que lhe valeu a saída da sua terra, o Crato.

Os achincalhes grosseiros não eram só desferidos contra o chefe da comuna cratense, também atacavam o Vigário Padre Quintino, que na certa tinha influído na suspensão de suas ordens. E não só o Vigário Quintino, mas também contra o Padre Tabosa (depois Monsenhor Tabosa) e a comitiva episcopal, que tinham vindo ao Crato em missão diocesana, cumprindo ordens expressas de Roma, lembremo-nos. Num sermão repleto de desprezo e injúrias, chamavam a atenção para o caso do Juazeiro, dizendo ser uma seita grosseira e infundada, criticando acerbamente os romeiros (alguns lá tinham ido, como o beato Manoel Cego, que acompanhou o Padre Cícero na visita ao Bispo Manoel). Padre Tabosa, numa crítica desastrada, exigiu do beato que fizesse um milagre para todos ali verem, já que o Juazeiro era palco de grandes milagres, só assim eles passariam a crer nos tais milagres. O beato, ingênuo e humilhado, respondeu incontinenti: não, não sei fazer. Mas, sentado no meio-fio da calçada, riscou na areia a palavra milague. O Padre Tabosa retrucou: está errado. Sua resposta foi contundente: “Só quem sabe fazer perfeitim mesmo, é meu padim Ciço. Os sacerdotes presentes à cena grosseira e estúpida caíram na gargalhada, aplaudindo o beato.

O Padre Alencar Peixoto, tomando conhecimento do infeliz incidente, indignado, como todo o povo do Juazeiro, cheio de razão, convenhamos, se sentiu ofendido, despertando ódio e desejo de vingança. Ele então partiu para o ataque à comitiva, particularmente ao Padre Tabosa, pela cena degradante, impondo uma humilhação sem tamanho ao ingênuo beato, bem como a todo o povo do Juazeiro e de além. Numa linguagem radical e contundente, anarquizou o clero. Foram tão graves os insultos de parte a parte, que o Bispo Manoel, Bispo de Thale, Coadjutor do Ceará, o chamou urgentemente ao Crato, onde se encontrava, para uma conferência. Ele mesmo deu ciência a todo o povo do Cariri, através do seu jornal O Rebate. Apelou, dizendo-se disposto a enfrentar tudo, com a finalidade de limpar seu nome e o do povo do Juazeiro, que a Comitiva Episcopal tinha manchado, caluniando, ridicularizando, difamando. Tudo está estampado no O Rebate, ao qual tive acesso aqui no Rio, na Biblioteca Nacional. Aliás, O Rebate me chamou a atenção pelo seu conteúdo, com notícias de Nova York, da França e de outras capitais da Europa. Um artigo de página todo em francês, que creio ser de autoria do Conde Adolfo, porque o jornal não apresenta mais um bom estado físico, tornando-se difícil a leitura. Algumas receitas culinárias, como a de um creme de aspargos de excelente qualidade. Hoje, a culinária chegou a um ponto alto. Só se fala nela, há programas especiais de TV, revistinhas em bancas de jornal, restaurantes especializados em pratos, etc. O mundo parece ter aderido à arte da gastronomia. Saber cozinhar, hoje, virou status; no Cariri de 1909, ela já existia; o que mostra um Vale desenvolvido e o bom gosto dos seus habitantes na arte da mesa. Voltarei ao assunto em breve.

Alencar Peixoto, usando da ironia, uma das suas armas prediletas, atacava brutalmente o Coronel Antônio Luís, chamando-o de ladrão, arrogante, chefe e protetor de jagunços a seu serviço e dos seus asseclas. Lendo-os, seus artigos nos lembram as Cartas Chilenas, em todos os detalhes, não só pelas denúncias que fazia, mas pela ironia da sua crítica mordaz. O Coronel Antônio Luís, na realidade, era o alvo dos seus inflamados artigos. Ele foi o Tomaz Gonzaga do Cariri. A contestação aos seus inflamados artigos ficou a cargo do Juiz da Comarca, Raul de Souza Carvalho, e de José de Figueiredo, o Zuza da Botica. Aí a coisa se complicou, porque o Juiz enveredou por outros caminhos, e voltou a falar do caso religioso do Juazeiro, acusando abertamente o teólogo Marrocos, figura querida dos juazeirenses, e que tinha falecido há menos de um ano, de ser o autor do sumiço dos paninhos ensanguentados e de todo o burlesco dos fenômenos, chamando de puro embuste.

Aliás, a morte rápida e impressionante de José Marrocos deixou no ar uma pergunta: a rapidez que se seguiu, após ter sido medicado pelo Dr. Floro, que Alencar Peixoto, meses depois rompido com o Padre Cícero, insinuava ter sido o professor e teólogo envenenado pelo médico Floro Bartolomeu, após este ter-lhe prescrito umas cápsulas para debelar a pneumonia que o tinha acometido. Segundo o testemunho da beata Isabel da Luz, professora e maestrina, que dirigia junto com sua irmã Maria da Luz, em parceria com Marrocos, os eventos religiosos do Juazeiro, na manhã daquele dia, ele parecia bem disposto, apresentando uma sensível melhora. Foi até a sacristia e procurou-me, para dar-me as instruções para a execução do evento, a ser comemorado no dia seguinte, 15 de agosto, quando seria encenado o quadro litúrgico da Anunciação da Virgem, já bastante ensaiado. Que, após a reza do Terço, comunicasse ao público a realização da magna data, batizada por ele de “Noite das Estrelas”, que desejava fosse brilhante. Depois de lhe ter passado essas recomendações, que julgou satisfatórias, retirou-se para o quarto onde ocupava na casa do Padre Cícero, para repousar, e duas horas depois desse encontro, após ser medicado, ele entra em agonia, falecendo em seguida, causando estupefacção à beata, que, poucas horas antes, com ele havia se entendido. Daí a suspeita do Padre Alencar Peixoto, sobre as cápsulas medicadas pelo Dr Floro.

Para ele, a ascendência de Marrocos sobre o Padre Cícero o incomodava. Vendo-se livre dele, seu caminho estaria livre às suas pretensões políticas, mesmo porque Marrocos nunca aprovou a ideia do Padre Cícero tornar-se político, ele, um desencantado pelos rumos que a Abolição tomou, quando foi um dos seus principais baluartes. Evidentemente, a influência do Dr. Floro sobre o Padre Cícero tornou-se de tal forma que, com o andar do tempo, um não podia prescindir do outro. A hipótese do envenenamento, levantada por Alencar Peixoto, para uma parte da população do Juazeiro, refletia apenas seu desapontamento por ter sido preterido ao cargo de Intendente. Inteligente, sentiu a ascensão rápida do Dr. Floro, na caminhada da emancipação, quando fez admiradores e adeptos consagrados. Suplantado seu ideal de tornar-se Intendente do Juazeiro, seu ódio aflorou, e só lhe restou fazer denúncias, como o livro que escreveu contra o Padre Cícero e todo o Juazeiro. Já para a ala anti-Floro, a suspeita de Alencar Peixoto, ao levantar a ideia de envenenamento, procede. O lugar que Marrocos ocupava na hierarquia e no coração do Padre Cícero, Dr. Floro passou a ocupar, após sua morte. Chegaremos lá.

Volto a falar dos dois recém-chegados, Conde Adolfo e Floro Bartolomeu. De estilos diferentes, o que os ligava eram interesses comerciais nas minas de cobre do Coxá. O engenheiro Adolfo Van-den-Brule, apolítico; o médico Floro Bartolomeu, a perfeita representação do sertanejo, no seu modus-vivendis, apesar de doutor e soteropolitano. Mesmo exercendo a profissão de médico no interior, também garimpava nos sertões da Bahia, vivendo em contato com o homem do campo, e esse contato deu-lhe um aprendizado adequado e preciso para os embates que depois travaria no Juazeiro, impondo e dando um formato que atingiu dimensões surpreendentes e inimagináveis.

Sua primeira aparição pública para o povo do Cariri deu-se por ocasião da demarcação das minas do Coxá, quando, usando da palavra já como defensor do Padre Cícero, em admirável retórica, demonstrando profundo conhecimento do Direito, chamou a atenção dos presentes que lotavam aquela audiência tumultuada, porque debaixo de um chuveiro de balas. Sem se intimidar, muito menos demonstrar medo, ele prosseguiu no seu discurso. O conhecimento que tinha das leis provinha, segundo o escritor Otacílio Anselmo, dos muitos anos em que ele fora escrevente de Cartório em Salvador, e quando já universitário colaborou na imprensa baiana, daí, diz o escritor, sua habilidade nessas pugnas (op. cit.). Essa audiência, que por tanto tempo já vinha sendo desmarcada pelo poder político que ostentavam os seus muitos donos, como os Santos e Leites de Aurora, os Taveiras, os Fernandes, acrecente-se, também, o poder político dos magistrados. A situação vigente da política era a que contava para tanta protelação, os supostos ou donos de fato das minas, dependiam, como se diz lá no Ceará, da política do momento. Às vezes, aquela facção estava de cima, outra vez de baixo, e isso contava para os magistrados, que obedeciam literalmente ao Presidente do Estado que estivesse no poder, que por sua vez aceitava a imposição da oligarquia dos coronéis do latifúndio, conforme constatações de Gustavo Barroso e Rui Facó.

Assim corria o tempo, com a demarcação sempre protelada. Finalmente, com a chegada dos dois, Conde Adolfo e Dr. Floro, ambos atrelados ao sindicato francês, que tinha interesses nas minas, conseguiram a realização da audiência, embora feita sob intenso tiroteio, depredações e incêndios, com a duração de 12 horas, deixando um saldo razoável de mortos e feridos. Um reforço da polícia foi chamado para dar sustentação à sessão que tinha sido suspensa, mas de nada valeu, pois o tumulto continuou, com a entrada em cena do caudilho Major José Inácio do Barro e sua trupe de cangaceiros de mais de 50 homens. A sessão continuou depois de paralisada. Nesse detalhe, a força do poder dos coronéis do latifúndio. A lei era o que menos importava a eles, era um meio anárquico, na expressão de Gustavo Barroso.

O latifúndio herdado da colonização só foi crescendo, aumentando o poder consolidado pela industrialização da cana de açúcar, dando ascensão social e política aos donos de terras, senhores do latifúndio. Daí surgiu a figura curiosa do Senhor de Engenho, que os estudiosos do assunto dizem ser a versão do antigo barão do feudalismo europeu. Confiantes de sua posição, usavam prerrogativas de autoridade, baseados no princípio da lei e da ordem, que eles mesmos decretavam. A distância fazia o esquecimento do Governo Central, quando agiam seguindo seus próprios princípios de autoridade. Segundo a memória coletiva, fonte da verdade, o número de cangaceiros excedeu às expectativas, chegando a um total de quase 300 homens em armas. O historiador Irineu Pinheiro, escrevendo sobre o assunto (in Efemérides do Cariri, op. cit.), lamenta a perda das tiras de papel, onde estava registrada a conflitante audiência que o Dr. Floro, apesar do grande tumulto, conseguira registrar.Infelizmente”, disse o escritor, “essas anotações, em face do corre-corre, perderam-se, constituindo dessa forma em um grande prejuízo para a história do Cariri, pela descrição do que eram suas lutas internas”.

Assim foi a estreia do médico Floro Bartolomeu num cenário violento, entremeado por mortes e incêndios, numa demonstração de força dos coronéis, na plenitude da fúria do que era o sertão na sua realidade cruel. Certamente, o episódio não deve ter-lhe surpreendido, pois vindo de uma região de conflito, Lençóis e Jacobina, região baiana de constante guerra pelas minas de ouro e diamante, e também de terras. Dono de uma personalidade corajosa, forte e indomável, não deve ter se abalado. Adiante, veremos sua trajetória política no Juazeiro, quando passou a dar ordens, segundo o Padre Manoel Macedo, e ai de quem não as obedecesse. Continuo a falar das minas do Coxá. O poder pela posse delas era tão complexo, que, ainda em l960, a imprensa de Fortaleza dava conta de que a luta, iniciada há l00 anos, continuava ininterrupta, já tendo passado ao Supremo Tribunal Federal, que havia dado ganho de causa ao senhor Antônio Fernandes, mas que as outras partes tinham entrado com novo recurso, a fim de obstar o ganho da causa. Segundo a imprensa, a demanda deveria continuar, acrescida agora da família Macambira, que tinha comprado dos Padres Salesianos a parte que pertencera ao Padre Cícero, e cada um pedia cifra astronômica de Cr$ 30 milhões de cruzeiros de indenização.

No jornal O Rebate, Dr. Floro, num extenso artigo sobre as minas do Coxá, faz alusão ao Coronel Alves Teixeira de Milagres, a respeito das tais minas, que talvez o tenha incomodado.

                                   

Continuação dos Anos — 1908 a 1914

 

Realmente, com a chegada ao Juazeiro dos três personagens, José Marrocos, Padre Alencar Peixoto e Floro Bartolomeu, o desejo do Padre Cícero de emancipar o Juazeiro tornar-se-ia realidade. Foi fundado o jornal O Rebate, que deu sustentação ao movimento, chamando a atenção dos seus moradores para o fato. Eram páginas inteiras, aliás, muito bem escritas, influenciando, calando no ânimo da massa o desejo de libertar-se do jugo do Crato e do poder hegemônico do Coronel Antônio Luís.

Apesar das investidas agressivas de Alencar Peixoto, é nele que vamos encontrar extenso relato sobre a sociedade da época, dos nove aos doze, quando deixou o Juazeiro. Apesar de toda sua fraqueza, sua confusão, seus relatos são caricaturas que adquirem vida. Veremos à frente.  

Compondo essa tríade de dispostos a se libertarem do jugo cratense, o advogado rábula José Ferreira de Menezes Longe, o moço Paulo Maia, que teve papel decisivo pela propaganda oral que irradiava nos quatro cantos do Juazeiro, e também o próprio Padre Cícero, com seu grande poder de atração.

O movimento tomava vulto, especialmente pelos artigos do Padre Alencar Peixoto. O jornal do Crato, Gazeta do Cariri, rebatia seus artigos inflamados, pela pena do Juiz Raul de Souza Carvalho, e do já aqui citado José Alves de Figueiredo. Nesse clima de acusações, de vilipêndios, o movimento crescia com a adesão da população. Dr. Floro, de simples espectador a princípio, passaria a defensor entusiasmado da causa. Já adaptado ao meio e ao convívio da gente simples, mas também de uma sociedade que lá encontrara, letrada e cordial. Entusiasmado, o Padre Cícero mandou fazer um censo da então povoação, que a essa altura já tinha uma população fixa de quase 20 mil habitantes, um desenvolvido comércio, com uma renda de 30 contos de réis, deixados pela população flutuante, que lá ia enchendo suas ruas. Essa, uma das causas que fazia o Chefe do Crato não abrir mão do domínio do Juazeiro, quando toda essa renda era enviada para os cofres do Crato, de quem dependia politicamente.

Com os dados do recenseamento que mandara fazer em mãos, levou-os ao Intendente Coronel Antônio Luís, mas sua reação foi imediata: resistência ao projeto da emancipação. Para ele, a independência do Juazeiro soaria como dar poderes aos seus inimigos de Missão Velha, Barbalha e Milagres, todos seus desafetos, e também ao Sr. Joaquim Bezerra de Menezes, este já desacatado anteriormente pelo caudilho, em sua própria casa no Juazeiro, por nenhum motivo, simplesmente para barrar a emancipação. Diante da resposta contundente e rude do arrogante Chefe do Crato, o Padre Cícero, um obstinado, não desiste. Escreve ao Presidente Accioli, e a resposta também foi incisiva: não. Embora prometesse que iria estudar o assunto, talvez para o ano fosse mais conveniente, disse o inoperante e ausente Presidente. Frustrado ante as negativas, nada mais tinha a fazer, senão empenhar-se com afinco junto ao povo, que o obedecia literalmente, e fazer a desejada emancipação. E foi o que aconteceu.

Um bloco de resistência formou-se com a finalidade de não mais pagar os impostos ao Crato, ordenado pelo Padre Cícero. Pagamento de impostos, somente os estaduais e federal. Ao tomar conhecimento dessa ordem, inconformado, o Coronel Antônio Luís ameaçou invadir o Juazeiro para receber os impostos devidos, e avisava: contava com mil homens em armas. Como sempre, o povo Juazeirense não se intimidou nem se abateu diante da ameaça de invasão à localidade. Incentivados pelo verbo fluente de Alencar Peixoto, autêntico revolucionário, partem para a guerra do salve-se quem puder, e caminham unidos por sua independência. Um Boletim, saído da sua pena caústica, foi o estopim. Ele incentivava o povo a se unir e enfrentar pelas armas o caudilho cratense. Na Praça da Liberdade, uma parcela de pessoas esperava o desenrrolar dos acontecimentos, já com faixas anunciando a leitura do Boletim, que de fato foi lido, e que tinha o seguinte título em letras de forma: ATITUDE DO POVO DO JUAZEIRO, QUALQUER QUE SEJA A SOLUÇÃO.

Os dois primeiros itens diziam: 1) Não pagar mais impostos ao Crato, pagar somente os estaduais e federal. 2) Caso sejamos invadidos, como ameaçados estamos, usar das armas, e morrer ou vencer, pela liberdade do Juazeiro. Essa era a palavra de ordem que encontrava eco na população do Juazeiro de ponta a ponta.

O pagamento dos impostos ao Crato, quantia elevada para o tempo, foi suspenso, por ordem do Padre Cícero. O povo só via nesse seu gesto um ato de coragem, injetando incríveis esperanças de uma próxima liberdade. A marcha de civismo continuava, com a adesão das pessoas, em passeata ordeira, acompanhada pela Banda de Música do Mestre Pelúsio, ao som do Hino da Independência do Juazeiro, quando também já o tinham batizado deJuazeiro do Padre Cícero”, e pelas ruas acanhadas tremulava a bandeira do novo município. Um curioso pormenor terá que ser registrado. Juazeiro tem mesmo uma história singular dentro da História cearense, a começar desde o caso do milagre da hóstia ensanguentada, quando enfrentou todo o episcopado brasileiro, ultrapassando os muros paroquiais, chegando à Roma, ganhando notoriedade. Em seguida, fez sua emancipação, contra a firmeza e o endurecimento do Chefe cratense, Coronel Antônio Luís. Em sequência, veio a Revolução de 1914, culminando na deposição do Presidente Franco Rabelo.

No clima de otimismo que estavam vivendo, afigurava-se-lhes uma próxima liberdade, mas de repente chega um telegrama do Presidente Accioli para o Padre Cícero, no qual exigia que imediatamente fosse feito o pagamento dos impostos ao Crato, já em atraso, e afirmava categórico não ser possível atender ao pedido de independência do município, não nesse ano. O telegrama foi lido para o público e transcrito no jornal O Rebate. Mas o povo inconformado reagiu à ordem do Presidente, e proclamava que não pagaria os impostos exigidos pelo velho dono do poder cearense. O Padre Cícero, confiante na disposição unânime da massa em lutar por sua emancipação, telegrafa ao Presidente nos seguintes termos:

Presidente Accioli - Fortaleza. O povo exige sua emancipação, e reage a pagar os impostos ao Crato: digo a V. Excia retirar-me-ei do Juazeiro, caso seja efetuada a ordem de invasão para recebimento dos mesmos a fim de não assistir às cenas de violência e sangue. O povo está pronto a reagir. Minha retirada do Juazeiro servirá de protesto perante a Nação e o Clero, contra tamanha barbaridade. Assinado: Padre Cicero Romão Batista.”

Ao receber o telegrama de uma verdade absoluta, porque seria isso mesmo que aconteceria, caso o Juazeiro fosse invadido pelas armas, a mando do intendente do Crato, naturalmente o Presidente Accioli fez com que o Coronel Antônio Luís, que era seu parente e correligionário, desistisse da ideia de invasão.

Esbanjando civismo, patriotismo e força, síntese do que sempre foi o Juazeiro, no dia 7 de setembro de 1910 foi dado o grito de liberdade, ao som dos hinos patrióticos e dos foguetes que vararam os céus do Juazeiro. Paulo Maia, um ardente entusiasta da causa, terminou por dar vida ao ideal, erguendo num gesto de elegância a bandeira que conduzia acima das cabeças ali presentes. Cheio de ardor, deu o grito que ecoou por toda a praça: “Viva a independência do Juazeiro, ao que o povo em uníssono respondeu: “Viva a nossa independência. Os laços de subserviência ao Crato partiram-se. Naquele instante, Juazeiro ganhava sua liberdade, depois de 100 anos de jugo.

Os discursos romperam por todo o dia, quando, altamente inflamado, Alencar Peixoto usou da palavra, fazendo a apologia do povo juazeirense, numa retórica imponente para, em pouco tempo, reverter o quadro, anarquizando-os. Usando da palavra o Dr. Floro, por fim, dentre outros, o Padre Cícero, agradecendo ao povo a confiança e solidariedade. Vale dizer que a emancipação do Juazeiro foi feita sem tumulto, sem derramamento de sangue (o comum daquela época), sem nenhum tiro, exceto o dos rojões que cobriam de fumaça o céu azul do Juazeiro, em frenéticos agradecimentos. Em passeata ordeira, a multidão, concentrada na Praça da Liberdade, levou o Padre Cícero e os demais líderes do movimento até sua residência, ao som do hino do município. O Presidente Accioli, premido pelas circunstâncias, reconhece o feito, e a 22 de Julho de 1911 era ratificado e reconhecido o novo município, com solene festa para todos, por todos, princípio implantado desde que o Padre Cícero chegou ao pequeno povoado, nos idos de 1872. Lá não havia exclusão nem social, nem religiosa, nem de etnia. Dessa forma, ele cumpria à risca a fidelidade ao princípio da democracia. Ele foi sem dúvida o precursor da cidadania, em terras brasileiras; dizer o contrário é falsear a história do Juazeiro, mutilando-a, descumprindo o verdadeiro papel de registrar para a posteridade a realidade histórica.

No dia 4 de Outubro de 1911, de fato foi confirmada a criação da Vila, com festas em todo o Juazeiro. Um banquete na residência do Padre Cícero para 300 pessoas foi mais um dos acontecimentos daquele dia festivo pela maciça presença dos 18 Intendentes dos municípios vizinhos. Sendo que o maior destaque era o Coronel Antônio Luís, não só por render-se incondicionalmente à liderança do Padre Cícero, que a partir daquele dia, tornar-se-ia o maior líder político de todo o Vale do Cariri, com reflexos depois em todo o Ceará, em outros Estados, por fim no cenário político do País. O porte de gentileza e fidalguia que ostentava naquele momento o Coronel Antônio Luís, cumprimentando a todos sem distinção, contrastava com o de meses atrás, quando se posicionou de maneira rude e violenta contra o movimento de emancipação do Juazeiro. Os ataques pelo jornal foram suspensos, deixados de lado. Esquecidos talvez não, mas é assim que funciona a política, numa habilidade invejável.

Exibindo cordialidade, cumprimentava a todos sem exclusão, acoplada a gestos refinados, ele dava o tom de elegância ao grande evento. Usando um terno bem cortado, feito nas melhores alfaiatarias da capital, com colete  à moda da época, fina camisa de seda, com abotoaduras em ouro, relógio de algibeira também em ouro, atestando seu poder de posse, herdeiro que era de terras e comércio. Confirmando assim o título que lhe davam de “o Princípe do Cariri”. De invejável porte atlético, sedutor, despertava admiração. Acompanhado da esposa, cumprimentava a todos, num paradoxo, quando, meses atrás, era só insulto e agressão pelos jornais. Segundo as crônicas locais, sua presença na solenidade não foi um ato de humilhação, nem de grandeza. Como político experimentado que era, não podia ignorar que, ali, o Padre Cícero ascendia a um degrau tão alto na esfera política do Vale, que era melhor tê-lo ao seu lado, e ao seu testa de ferro, Dr .Floro. E não deu outra: anos depois, marchariam juntos na derrubada do Presidente do Ceará, o Coronel Franco Rabelo. Embora a amizade ao Padre Cícero fosse eterna, pois não podemos esquecer que era afilhado de crisma de seu pai, o segundo na hierarquia dos Antônios Luíses, que custeou todos seus estudos no Seminário, até vê-lo sacerdote. Sua presença na solenidade da emancipação do Juazeiro só consolidou os laços de amizade e de aliança política. Mesmo assim, parecia dizer aqui está o Chefe de todo o Vale, meu poder é eterno. Na sua mente, quem sabe, se julgasse o Cesar Caririense, daí suas reações de arbitrariedades e de incoerência, marca dos caudilhos e do poder autocrático, por ser  o terceiro na hierarquia de domínio no Crato. 

Ficaria essa narrativa inconclusa e desfigurada, se não descrevesse o que foi a grande festa da vitória da emancipação do Juazeiro, que teve o crivo direto de Floro Bartolomeu, escreveu Amália Xavier (op. cit.), analisando o momento. De acordo com o que escreveu, conclui-se que foi o fino; o esmero referente à gastronomia foi impecável. Feito com rigor sob o olhar atento do médico baiano, com a supervisão da governanta firme e discreta, Joana Tertuliana de Jesus (Beata Mocinha), coadjuvado pela elegância da mestra da socialização, professora Isabel da Luz, a Mestra amada dos Juazeirenses, na expressão da mesma escritora (op. cit.). As crônicas do histórico dia dão conta do que foi o banquete de 300 talheres, quando, sentados às mesas, personagens não só da política da região, mas políticos de outros estados próximos, solidarizando-se com o Padre Cícero, que tinha ascendido a uma grande posição de poder político na região.

As moças que serviram o banquete estavam vestidas à caráter, invenção do Dr. Floro, inovando, dando um tom de modernidade, de cosmopolitismo, ao Juazeiro. Esse parece ser o sentimento que queria passar naquele momento: as mesas, simetricamente dispostas, formavam as iniciais do Padre Cícero, ornamentadas com flores naturais, do qual o Cariri é pródigo, cobertas por toalhas finas, com bordados feitos à mão. Jogos de pratos em porcelana fina, copos de cristal e reluzentes talheres; ao lado, o tradicional guardanapo de linho branco, personalizado com o monograma bordado em alto relevo do dono da casa (PCRB) - Padre Cícero Romão Batista. As cadeiras em cor nogueira, de espaldar alto e assento de palhinha trançada, davam um aspecto de nobreza e requinte. Era assim o mobiliário da residência do Padre Cícero, num tom de modernidade e beleza, mas discreto. Todo esse aparato de louças de porcelanas e cristais finos veio das Praças de Fortaleza e do Recife principalmente, pois àquele tempo, considerado “célula-mater” do Nordeste.

O menu saboroso feito com esmero, ponto alto do cardápio requintado, segundo a memorialista Albuína Figueiredo, em longas palestras comigo nas tardes mornas do Juazeiro, das quais guardo perenes recordações. As informações que ora se seguem, ela as obteve dos seus antepassados, evocando-as, numa narrativa solene e quase elegíaca, com detalhes minuciosos, dando a impressão que o fato que narrava tivesse acontecido no dia anterior, e não há cerca de mais de cinco décadas. Jamais as esqueci. Longe estava ela de supor que um dia daria vida aos momentos por ela tão bem detalhados. Registrando, guardei-os, e hoje são as impressões da notável memorialista e minha amiga que ajudaram a dar vida a esta história de época, da vivência dos seus habitantes, dos seus hábitos culinários, das suas festas, da política cheia de altos e baixos, enfim e mui especialmente, das lições sábias do Padre Cícero. A ela, rendo aqui minha homenagem póstuma de eterno agradecimento. O esmero do banquete farto, requintado, daquele dia memorável para eles, porque livres do jugo do Crato, constava do seguinte: carne de vitela, costela de carneiro assada, peru, carne de sol, pernil de porco, farofa, arroz, e finalizando, a célebre galinha ao molho pardo, uma especialidade do Ceará.

A sobremesa, o fino, pela riqueza dos seus doces de acentuado sabor, como o doce de laranja limão, de Barbalha, de sabor inigulável, inimitável; o tradicional doce de leite, o de Buriti, de um amarelo vibrante que nos conduz impreterivelmente ao pecado da gula. Que dizermos da deliciosa rapadura macia, que chamamos de batida. Temperada com cravo e erva-doce, perfumada, ela satisfaz a qualquer paladar. Sem esquecer dos finos e delicados bom-bocados, translúcidos, os sequilhos macios, finos, gostosos, confeccionados pelas mãos de exímias artesãs que faziam parte da criadagem da casa do Padre Cícero. O Cariri é notável pela riqueza da sua culinária. Assim foi a festa da emancipação do Juazeiro, de todos, e para todos. O papel relevante do Dr. Floro, não só nessa ocasião, mas nos anos que se seguiram, é inegável. Ele trouxe, como bem disse o Padre Gomes, certa modernidade ao Juazeiro, passando por cima do fanatismo exagerado. Apesar de todo seu empenho na transição do Juazeiro à Vila, foi considerado depois um déspota.

Sua festa da liberdade, com o seu banquete de menu requintado, saboroso, bem como as formalidades que o acompanharam, deixando transparecer tons de elegância e de civilidade, não poderá ser esquecida. À época, Juazeiro já tinha o seu jornal, fundado pelo Padre Alencar Peixoto, e o Padre Cícero mantinha contato com países da Europa, na remessa de dinheiro para conventos, para a Ordem dos Mendicantes da Terra Santa. Para não deixar de registrar e correr o risco de cair em esquecimento, minha saudosa amiga Albuína Figueiredo acrescentou que o mar de comida daquele dia histórico foi extensivo à boa parte da população. E outro detalhe: a colaboração de todos os Intendentes da região para a grandiosa festa do “Para Todos”, com remessa de carnes nobres de boa qualidade. Data desse tempo, segundo informações do Dr. Belém de Figueiredo, destacado médico e figura de relevo do Juazeiro, que conheci no tempo em que lá morei. Disse-me ele: a mesa farta e requintada da casa do Padre Cícero tornou-se também histórica, pois apreciada e elogiada por altos políticos que o procuravam à caça de votos, e também jornalistas, escritores e Comissões que lá iam, como a Missão Rondon. Apesar de toda essa hospitalidade e do requinte de sua farta mesa, enfim, de todas as demonstrações de hospitalidade, houve os que sem nenhum motivo plausível, caso do Professor Lourenço Filho e do Deputado paulista Moraes e Barros, que intencionalmente ou por um prazer mórbido de reduzirem-no a nada, escreveram contra ele e o Juazeiro, numa explícita demonstração de desprezo.

Ainda falando da grande festa da emancipação, ela não se circunscreveu somente ao grande banquete, fato observado por muitos autores. Os festejos foram além. Um baile surpreendeu os presentes, pela distinção e ornamento do salão, quando seu assoalho estava luzidio e escorregadio, pelo uso da grande e quase exagerada carga de cera esparmacete ali usada, são palavras da citada Amália Xavier, que escreveu: “Os casais de dançarinos levitavam, fluíam ao som de maravilhosas valsas, do fox trote e velhas polcas(op. cit.). Em meio a tantos acontecimentos e alegrias desse dia histórico, uma surpresa: à noite, Juazeiro estava iluminada à luz de acetileno. Era o começo da modernidade, que Floro Bartolomeu, o verdadeiro arquiteto da política juazeirense, imprimiria ao lugar dali para frente.

Criado o novo município, com a investidura no cargo do seu primeiro Intendente, sob o crivo do Juiz da Comarca de Barbalha, Dr. Arnulfo Lins e Silva, depois de assinada a ata, pelo Secretário da mesa e convidados especiais, foi lavrada a nomeação do Padre Cícero, escolhido por consenso, depois de uma prévia consulta ao povo, que o via como o real conhecedor da psicologia de toda aquela gente que lá morava. Portanto, com pulso forte para comandá-los. Jornalistas do passado, e mesmo escritores contemporâneos, caso de Otacílio Anselmo versus Padre Gomes (idem), afirmam ter o Padre Cícero se autonomeado Intendente, detalhe nascido das afirmações de Alencar Peixoto, em seus ácidos artigos. Entretanto, a verdade é que, sendo ele um cultor da democracia, houve uma prévia, quando a população foi deveras consultada. Escolhido por antecipação, e por verem nele as qualidades necessárias para comandar uma população de mais de 20.000 habitantes fixos, fora a população flutuante que diariamente lá chegava. Ele seria o único capaz de conduzir a massa, porque conhecedor da sua psicologia, com uma convivência de mais de 36 anos batidos. Assumindo a prefeitura, não fugiu à regra do tempo, dominou o Juazeiro por longos 12 anos.

Para muitos, o ponto alto da grande festa teve como centro de atenção um documento de alta valia, pelo seu conteúdo para uma época conturbada, de grande tensão. O documento era um apelo à paz. Mesmo assim, foi criticado por jornalistas e escritores, quando interpretaram o documento como dando poderes inigualáveis para os chefes da região, todos beligerantes e protetores dos fora da lei. O Padre Cícero, já aí com poderes políticos assegurados, juntamente com o Juiz que presidiu a histórica sessão, Arnulfo Lins e Silva, idealizou esse instrumento de paz. E o que poderia ser eficiente, dadas as circunstâncias do meio, tornar-se-ia inexequível, pois o seu próprio criador logo depois sofreria as consequências. O documento, que foi batizado de “Pacto de Paz, ou Artigo de Fé Política, continha nove itens, dois dos quais referiam-se ao apelo pela paz, e pedia com insistência que, capturados os fora da lei, fossem de fato entregues à Justiça. Apelavam para que os Chefes não os dessem guarida e apoio, entregando-os à Justiça. Os grandes cangaceiros daquela época tinham o apoio dos coronéis das terras, eram raros os casos, o de Antônio Silvino e Senhor Pereira, por exemplo, este para vingar a morte de um irmão. Na verdade, era a grande problemática dos sertões daqueles tempos. Conforme depoimentos antigos, era a sanha dos coronéis do latifúndio, inconciliáveis entre si, pelo poder das terras. Apesar da boa vontade dos criadores do “Pacto da Paz”, ele jamais poderia subsistir realmente ao meio anárquico, onde o que contava era mesmo o poder dos chefes que tivessem maior número de bandoleiros, que a um simples toque de berrante, reunia centenas deles.

Por tudo isso, o documento da Paz foi efêmero, e como efêmero, tornar-se-ia inócuo e relegado, passaria ao esquecimento. Por ironia do destino, seu próprio criador seria vítima do seu ideal, e sofreria as consequências do seu ato, como comenta o autor de Beatos e Cangaceiros, Antônio Xavier. Segundo o escritor, o Juiz Arnulfo Lins e Silva, por não concordar com um dos Chefes de Barbalha, recebeu o prazo de 24 horas para deixar a cidade, ou então seria moído à cacete.”  Como sempre, o Padre Cícero interveio, evitando tamanho desatino e desmoralização para o Judiciário. Em telegrama urgente, solicitou ao Presidente Accioli um prazo maior para que o magistrado dali saísse com a dignidade que o cargo lhe outorgava. Homologado o município e seu Intendente já nomeado, as decepções já haviam irrompido.

O Padre Alencar Peixoto, pretendente ao cargo, fechou seu jornal O Rebate, que tanta sustentação dera ao movimento da emancipação, não só, é bom lembrar, ao movimento político, mas fez também um momento social do Juazeiro. Retirando-se de lá, seguiu para o Acre - o Acre de tantos outros cearenses lá levados pela seca, ou atraídos pelo embalo onírico da borracha. Em Sena Madureira, região da Alta Amazônia, ele escreveu um livro difamatório e ofensivo, um libelo contra o Padre Cícero e seu povo, com o título de Juazeiro do Cariri. Com a mente obnubilada pelo ódio, o livro refletia não só sua personalidade confusa, multiforme e desconexa, mas especialmente seu estado de espírito. Numa enxurrada de críticas violentas, traçou um perfil grotesco, e sem medir as consequências do seu gesto extremo, fez uma analogia entre a amizade religiosa que ligava o Padre Cícero à beata Hermínia Marques de Gouveia (de quem falarei adiante). Como não poderia deixar de ser, a obra do Padre Alencar Peixoto foi logo retirada das prateleiras das livrarias, e pior, foi queimada em praça pública, numa grande fogueira. Indagado por colegas de batina o que teria a dizer sobre o livro difamatório, violento, o Padre Cícero, sem se alterar, como era do seu feitio, respondeu: Era só o que me faltava, antes, ainda preservavam minha dignidade, patrimônio moral da qual tanto me orgulho, hoje assacam-na,  enxovalham-na. Que Deus, na sua infinita misericórdia, dele se apiede, e o perdoe. Já não bastam tantas difamações de ordem religiosa?”. E deu por encerrada a conversa.

O Padre Alencar Peixoto nunca foi subserviente ao clero, desprezava as regras eclesiásticas, fumava e bebia socialmente, tinha cabelos longos, e isso, na época, era considerado pela Igreja um acinte. Talvez por isso, estivesse suspenso de ordens. A memória não registra se teve amores. Se os teve, foram tão sutis, que jamais vieram a público. Depois do rompimento político com o Juazeiro, numa literatura bizarra, anárquica e exótica, como era do seu feítio, ele exumava os personagens mitológicos, e numa sátira cruel fazia alusões irônicas com pessoas ligadas ao Padre Cícero, de preferência. Mas não foi só ele o único a romper politicamente. O cidadão José André, que também fora preterido desde o começo do movimento da emancipação, criou uma dissidência, e uma nova ordem ele quis implantar no recém emancipado Juazeiro, com a nomeação do Tenente José do Vale para Delegado, logo exonerado da função.

O Coronel Joaquim Bezerra de Menezes, também preterido na fase embrionária do projeto de emancipação, formou ao lado dos dissidentes do Padre Cícero, embora discretamente. Essa dissidência terminou por influir, e marcar, o grave momento da vida do Juazeiro que esbarrou na Revolução de 1914, como veremos na sequência dos próximos capítulos.

 

****

 

CAPÍTULO 14

PADRE CÍCERO E OS GOVERNOS ANTÔNIO ACCIOLI E FRANCO RABELO

 

A emancipação política do Juazeiro lhe confere poder, acelera seu desenvolvimento, seu comércio florescia, gerando renda, suplantando muitas cidades ao seu redor. Antes de 1911, lá já existiam duas fábricas de descaroçar algodão; uma de propriedade do Padre Cícero, a outra, da família Bezerra de Menezes, cujo algodão, já prensado e em plumas, era enviado para Fortaleza, de lá seguindo para a Europa e Estados Unidos. Seu progresso era evidente, atraindo pessoas das mais variadas regiões e condições financeiras. O maior contingente humano era de Alagoas, seguido por Pernambuco e Paraíba, daí sua etnia mesclada (de acordo com vários autores, existia no Juazeiro de então até remanescentes de Canudos, cujos personagens foram decisivos na sedição de 1914). Efetivamente, o grande contingente humano extrapolou, Juazeiro virou um formigueiro humano. Na leva de migrantes vieram pessoas das mais diferentes categorias: comerciantes, fogueteiros, santeiros, ferreiros com suas forjas, e artesãos, que fizeram do Juazeiro o maior polo de artesanato do Nordeste, e misturados a essa leva de aventureiros, também os fora da lei. 

A beleza dos fogos de artifício dos fogueteiros que lá chegaram era surpreendente para a época, tornando-se conhecida Brasil afora. Os santeiros, idem, pelo esculpido das lindas imagens de grande perfeição. Mais tarde, sobressaiu-se na arte do entalhe Mestre Nosa, premiado na França por seus trabalhos em madeira. Os alfaiates também tiveram seu destaque, e eram inúmeras as alfaiatarias. Nascem as primeiras tipografias, que depois seriam um sustentáculo imenso para o culto à personalidade do Padre Cícero e seus milagres. Os poetas do Cordel, em versos barrocos, o elevavam à dignidade de rei e santo. As fábricas de velas fizeram e continuam a fazer a fortuna de muita gente. Havia também as oficinas de metal, onde as pulseiras chamadas de padre-nosso predominavam, sem esquecer os trancelins (cordões em ouro fino), dignos dos grandes mestres do design.

O braço humano fez o sustentáculo, com a plantação, na Serra do Araripe, da mandioca, do algodão, milho, e diversas outras leguminosas, que fizeram do Cariri um apreciável celeiro. A prosperidade era visível. Após esse momento surpreendentemente transformador, o Juazeiro ganhou vitalidade e um progresso crescente. Já não era mais o lugar sombrio e lúgubre descrito por Otacílio Anselmo, em crítica contundente (op. cit.) O fluxo de pessoas lá chegando para se estabelecer comercialmente era contínuo, enquanto a romaria chegava ao auge. Toda essa efervescência de pessoas no lugar deixava um saldo razoável de numerário, e justamente foi esse setor que fez na verdade o desenvolvimento financeiro do Juazeiro. Observemos que lá não existia mão de obra qualificada, ela veio com os adventícios, naturalmente.

O jornal O Rebate registra a chegada dessas pessoas ao Juazeiro. Nele, está inserida propaganda da Casa Comercial de tecidos e miudezas, de Manoel Vitorino da Silva, originário de Garanhuns (PE), que fixou-se no Juazeiro para sempre. Era compadre e amigo do Padre Cícero, tornou-se figura de destaque política e socialmente. Bem como a de João Batista de Siqueira Cavalcanti, também pernambucano. Não só ele se destacou comercialmente, muitos outros da Paraíba, e principalmente de Alagoas.   

A situação religiosa do Padre Cícero continuava inalterada, despido de ordens e com a Igreja interditada, pormenores que não mais o abalavam, acostumara-se a conviver com as medidas draconianas do Bispo Dom Joaquim. A peregrinação, porém, continuava ininterrupta, aos romeiros nunca interessaram as medidas diocesanas, a eles sim, interessava-lhes ver e ouvir seu guia e pagarem suas promessas à Padroeira, mesmo sem ter acesso ao recinto sagrado da casa de Deus, porque as portas estavam lacradas. Ao chegarem à Meca, ali mesmo, no adro, iniciavam o ritual do acendimento das velas, entremeado de canto de louvor e agradecimentos, cujo ritual é o mesmo até hoje. O interdito da Igreja causava desolação, espalhando um ar sombrio ao lugar, mas nunca de desânimo, que logo era quebrado pelo espoucar dos foguetes, costume que até hoje subsiste.

A ordem drástica do Bispo extrapolava o limite do compreensível, por subtrair do povo do Juazeiro, de católicos convictos, o sagrado direito de ir à Casa de Deus. Para os peregrinos, o pior, após dias de uma caminhada extenuante, sob a inclemência de um sol impiedoso, ou em noites chuvosas dormidas ao relento à beira das estradas, enfrentando perigos os mais diversos. Chegar ao seu destino, e encontrar as portas da Igreja lacradas, era uma lástima. A ordem caústica do Bispo até hoje provoca espanto, lendo-se os documentos da época, concernentes à história do milagre, que o clero transformou numa triste história.

Difícil é lembrar que tudo isso partia da hierarquia, sob o comando de Dom Joaquim, com o apoio evidente do alto Episcopado. Talvez, lá do alto do seu nicho, a linda Santa soluçasse de dor ante o quadro tão desolador. Apesar de todo esse clima, o Padre Cícero de fato ia acumulando uma enorme soma de poderes: Intendente, com o apoio de todo o Juazeiro, 3º Vice Presidente do Estado, anos mais tarde, Deputado Federal, embora jamais tenha assumido nenhum desses cargos, exceto a Prefeitura. Como já escrito, nessa época, dominava o cenário político do País o Partido Republicano Conservador, sob a égide do Senador Pinheiro Machado, ao qual era filiado o Presidente crônico do Ceará, Dr. Antônio Accioli. A maioria dos membros do Partido eram pessoas de poder monetário e conservadoras. Dele, fazia parte o Padre Cícero, que se tornou uma figura de grande prestígio, quando foi transformado em Conselheiro político, não só do Estado, mas também de outros Estados do Nordeste, incluindo aí o Presidente João Pessoa, Presidente da Paraíba, e outros.

Com a emancipação do Juazeiro, ele adquirira prestígio político incalculável. O Velho Presidente, expressão cunhada pelos jornais, vivia alheio às condições de miséria em que se debatia o povo, com seu governo inoperante, símbolo do atraso, da inércia e da opressão, de uma política anacrônica. O abandono do Estado era visível, principalmente no sertão, onde pontificava o arbítrio, imperando o braço forte do fazendeiro, e paralelo a esse poder, o jagunço, uma figura curiosa, que de salteador de estrada, transformou-se em bandoleiro, depois em cangaceiro a serviço dos coronéis do latifúndio, escreveu Rui Facó. Fortaleza não se desenvolveu, o marasmo era uma realidade incontestável, como atestam os registros da época. O povo cansou, e representado pelo mundo intelectual da Faculdade de Direito, que não compartilhava com esse estado de coisas, formalizou uma frente de oposição ao inócuo Presidente.

Fazia parte desse grupo de intelectuais da Faculdade de Direito pessoas de brilho, como Joaquim Pimenta, mais tarde convertido ao marxismo, Boanerges Facó, Florêncio e Francisco de Alencar, Júlio Maciel, Caetano Estelita, Hermenegildo Porto, João Mendes de Carvalho, Agapito dos Santos, Valdemiro Cavalcanti, Gustavo Barroso e o jornalista João Brígido, que, com sua inteligência brilhante, comandava o jornal Unitário, fazendo críticas ao Governo, e conquistava adeptos. Polêmico, tinha seu segmento, apesar de posições contraditórias na maioria das vezes, de acordo com o momento. Era tido por alguns como um panfletário, mas era ouvido e sua voz, acatada. Fluminense que fez história no Ceará, política e cultural, fundando jornais numa era remota, como O Araripe, na cidade do Crato, no ano de 1854, além do acervo histórico que deixou, sobre a História do Ceará, até hoje consultada. Sob a égide dessa plêiade de estudantes de Direito, a frente foi formalizada, conseguindo sensibilizar o povo, que amargava o Governo do Presidente Accioli, e que desde 1904 já insistia por sua saída do Governo. Até que numa tarde, por ocasião de um comício na Praça do Ferreira, de fato sua saída foi consumada, o povo aos brados de “Fora Accioli”, quando de repente a polícia ocupa a Praça, atirando a esmo, fazendo muitos feridos, porque também houve revide, terminando com um fim trágico: a vítima, uma menina de apenas dez anos de idade, que acompanhava seus pais.

O povo enfurecido e indignado seguiu rumo ao Palácio da Luz, antiga residência dos Governantes da época. Revoltados, tentavam invadir o Palácio, exigindo sua imediata retirada, para o bem do povo cearense.

Os jornais Unitário e Correio do Ceará, depois do trágico acontecimento, deslancham uma oposição cerrada ao seu governo, avolumando-se uma onda de revolta em toda Capital, e derrubam-no do poder. Aliás, em 1908, já o tinham tirado da Presidência, só que depois ele voltou pela força da oligarquia reinante, com destaque para o interior, onde as eleições eram feitas a bico de pena ou sob a mira do rifle. Nesse fim de 1911, com a aproximação da eleição de 1912, o povo, que é mestre sábio, como disse o eminente Afrânio Peixoto, entendeu a manobra do velho Presidente, que insistia em continuar no poder, e a tempo reagiu, formalizando um bloco, barrando seu desejo de novamente concorrer à eleição que se aproximava. A frente amplia-se, ganhando a adesão do Sindicato dos Marítimos e a participação de alguns coronéis do interior.  A essa altura, seu desprestígio era enorme. O humor engraçado do cearense para apelidos batizou-o de Velho Babaquara. Com certeza, na História Política do Ceará, tenha sido o governante que mais empregou parentes na administração pública. O nepotismo rolou solto, polícia truculenta, e principalmente desgoverno, marcou o longo período do Governo Accioli, que havia herdado o bastão do poder do seu sogro, o Senador Tomaz Pompeu. Comícios, boletins, artigos em jornais contra sua permanência no poder era a tônica dominante durante meses, para terminar com um motim de várias horas, quando outra vez a polícia enfurecida atira contra a multidão reunida na Praça do Ferreira, por ocasião de uma passeata, onde o refrão, o mesmo - sua renúncia.

Dessa vez o povo reagiu, e houve conflito, com incêndios, mortes e prisões, varando noite adentro, só terminando com sua rendição pela madrugada. Consolidava-se nesse momento a vitória do povo, que venceu mais uma vez. Naquela madrugada morna, como morna são todas as madrugadas de Fortaleza, caía uma das maiores oligarquias que o Ceará já vira. Mesmo com sua rendição, o povo continuou o dia em frente ao Palácio da Luz, exigindo sua retirada de lá. Caso não se retirasse, o invadiriam pelas armas. Sem forças para reagir, obedeceu aos apelos do povo, que, unido, sempre vence. Deixou o governo, abrigando-se num navio que o levaria ao Rio, deixando como reféns seu filho, Dr. José Accioli, e o genro, Graco Cardoso. Mas não terminaria ali sua história, o trágico o acompanharia. No litoral da costa do Rio Grande do Norte, abruptamente irrompe no seu camarim Antônio Clementino de Oliveira, ex-redator do jornal Correio do Ceará, e desfecha sobre o ex-Presidente vários tiros, que não o atingem, e sim, a seu filho caçula que com ele viajava. Socorrido, entretanto, não reagiu, falecendo a bordo, sendo sepultado em Salvador.

Na mesma ocasião, o autor dos disparos foi executado à queima roupa pelo Capitão Alfredo Nunes Weyne, que fazia sua guarda pessoal. Durante e depois de todo esse movimento que terminou com a deposição do Dr. Accioli, o Padre Cícero, como Intendente do Juazeiro, e como amigo particular que era do Presidente, esquivou-se. Não há oficialmente nada que conste nos Arquivos Públicos do Estado, em apoio ao deposto Presidente Accioli, fato censurado por muitos escritores. Vago o cargo, surge um nome surpresa no cenário político do Ceará. Como candidato, um personagem desconhecido da maioria dos cearenses. Servindo na 3º e 4º Região Militar do Exército sediada no Recife, engenheiro militar, Franco Rabelo era o nome de peso, proclamavam os contrários à política Acciolina, ou ao Partido Republicano Conservador que dominava o país há mais de meio século. A concepção do cearense era a de que o Coronel Marcos Franco Rabelo daria outro rumo ao Estado, que amargava um verdadeiro ostracismo. Para os políticos conservadores, e os tradicionalmente conhecidos como carreiristas, o Coronel Rabelo, a essa altura já candidato, passou a ser visto como a redenção do povo cearense.

Jovem, com curso superior, não constava fosse um militante da política da continuidade, e tinha a credibilidade do Exército, que àquele tempo merecia respeito e elevada consideração. Um candidato para lá de excelente. Era genro do General Clarimundo Queiroz, imposto Presidente do Ceará pela oligarquia dominante, depois deposto por ela. Eis o perfil do candidato, retrato que lhe traçavam seus adeptos e admiradores. Com todas essas credenciais, era mesmo um candidato imbatível e motivo de orgulho para o cearense que, ressabiado, descartava candidatos da continuidade. O sentimento de mudança da política arcaica era de todo o Estado, sentimento que marca o cearense, até nossos tempos. Há pouco mais de três décadas, destronaram do poder os que teimavam pela volta do velho comando político. Por incrível que pareça, mesmo tendo arrastado por anos a fio a política de conchavos e oligárquica, o Ceará sobressaiu-se dentre os demais estados da federação pela dinâmica política, ou seja: a mutação de valores. O cearense se impôs e rechaçou dos seus quadros o velho mandonismo anacrônico, de 40 anos para cá, quando o quadro deixou de ser predominante.

Mas passemos aos fatos da década de 1913-14, que marcaram a era do Governo intempestivo e breve do Coronel Franco Rabelo, o qual teve como seu opositor outro militar, Coronel José Freire Bezerril. Apregoavam os defensores da sua candidatura que, se eleito, seria o único capaz de tirar o Ceará do estado lastimável de miséria, já tornada endêmica, que caminhava junta e de mãos dadas com o banditismo reinante. E foi nessa curva ascendente que ambos, miséria e banditismo, caminharam até chegar ao estado em que hoje nos encontramos. Não houve solução para as duas grandes causas. Com a costumeira louvação sempre dirigida a candidatos que pleiteiam postos, ou na outra face da moeda, quando lhe atiram injúrias as mais deploráveis, caminharam os dois candidatos, e a vitória veio sem grandes esforços.

O chamado Candidato da Redenção”, Franco Rabelo, cantado em prosa e verso, dizem os escritos do Monsenhor Quinderé, seu grande admirador, e também Frota Pessoa, no seu livro A Realidade Brasileira, que lhe traça um perfil principesco, erguendo-lhe um panteão de glórias que jamais existiu. O candidato da Ala Acciolina foi rechaçado, mas o Partido não se extinguiu de todo. Apesar de cambaleante, se impôs, lançando um candidato que foi derrotado. Naquele tempo, prevalecia um álibi que encontrava proteção na Constituição vigente, o do reconhecimento pela Assembleia Legislativa do Estado. Era o maior blefe impingido ao povo, pois sempre o eleito era o escolhido da situação vigente, em escala nacional, ou seja, pelo poder central, o que nos faz lembrar Montesquieu, quando disse: “O Estado exerce um poder monstruoso, e isto, democraticamente”. E foi por esse poder democrático que o Coronel Franco Rabelo se tornou Presidente do Estado, apesar da inexpressiva soma de apenas 14 votos, dados pela Assembleia Legislativa, quando o certo seriam 16 votos. Mas como era de direito e reconhecido pela Constituição do Estado, fica claro que ele não infringiu a lei, herança vinda desde o século XIX, portanto sacramentada, que garantia a permanência no poder. A mecânica favorecia o escolhido, indicado por conchavos políticos, mas escolhido pelo voto popular, cuja teoria até hoje subsiste: pouca coisa mudou, falhas e imperfeições continuam, como há mais de um século atrás. 

Assumindo o Governo, Franco Rabelo promete grandes mudanças, conforme sua plataforma política no decorrer da campanha, que seriam: a extinção do banditismo, melhoria de vida para os pobres, a erradicação do analfabetismo que os outros governantes haviam esquecido por completo, sem esquecer de acentuar que no seu mandato não haveria nepotismo, que tanto indignava o cearense. Mal assumiu o Governo, surgiram os descontentamentos de praxe da política. Sem consultar a ala que o ajudou a elegê-lo, sentindo-se à margem das confabulações, veio o racha, motivado pela nomeação do capitalista Dr. Paula Rodrigues para o cargo de confiança na chefia do Governo. O Partido que o apresentou também rachou parcialmente. Daí a primeira manifestação de descontentamento, seguindo-se o rompimento, que só foi se acentuando à medida que passavam os dias, com novos fatos surgindo, ficando visível a derrocada iminente do seu Governo. Dr. Paula Rodrigues, para os do racha, era um cidadão unicamente voltado para seus negócios; dominava o comércio de exportação de peles e algodão, sem nenhuma ressonância política, eis a alegativa. Contra tal nomeação não só estavam os membros da Assembleia estadual, mas boa parte da Bancada Federal, formando um Bloco que só ia crescendo à medida que surgiam novos fatos.

Nessa altura dos acontecimentos, os jornais Unitário e Correio do Ceará abriram uma frente de oposição ao Governo. Os artigos eram transcritos no Rio, ficando inteirado de tudo o Presidente Hermes, que mandou fazer uma sindicância, a cargo do General Torres Homem. O General, que era amigo do Presidente Franco Rabelo, desmentia as versões dos acontecimentos, como: a queima do jornal Unitário de João Brígido, e os incêndios das Casas de Tecidos dos Montenegros e dos Acciolis. Nesse clima se arrastava seu Governo, já visto por muitos como agonizante. Agravando o quadro, rompeu com o Coronel Antônio Luís, Intendente do Crato, e com o Padre Cícero, um líder político em todo o Estado. O escritor Irineu Pinheiro, no seu livro sobre a guerra do Juazeiro, assegura terem sido esses dois fatores decisivos para sua queda do governo. O quadro era de confronto, delineando-se sua deposição, e consequentemente um levante, que veio sem muitos esforços.

A frente de oposição a seu governo amplia-se, com a adesão de personagens de renome na política, como o Senador Francisco Sá, Dr. Floro, o Coronel Tomaz Cavalcanti, o todo-poderoso Chefe do Crato, Coronel Antônio Luís, e também o Coronel Chefe de Araripe, Pedro Silvino de Alencar, e ainda o homem forte de Lavras da Mangabeira, Coronel Ildefonso Correia Lima e Aurélio de Lavor, do Iguatú, e outros, de menor projeção política. Nessa época, o Dr. Floro e Aurélio de Lavor eram deputados estaduais. Não consta oficialmente que Gustavo Barroso, à época no Rio, fizesse parte desse bloco de conjurados, na expressão de vários autores. O discurso convincente do Dr. Floro, pela força da sua persuassão, transmitia, segundo a leitura de documentos, um ar de vitória, como se tudo já estivesse resolvido. Portador de forte carisma, despertava admiração a quem dele se acercasse, com um detalhe que o caracterizava: sua voz anasalada marcava de fato sua inconfundível e inesquecível personalidade. Poder de argumentação, carisma, seja lá o que for, o fato é que ficou a seu cargo a dificílima tarefa de articulação no Rio, para onde seguiu juntamente com o jornalista João Brígido e Aurélio de Lavor. No Rio depois de meses, retornou já com tudo agendado para a deposição do Presidente Rabelo. As cartas que trouxera para o Padre Cícero e o Coronel Pedro Silvino de Alencar confirmam o acerto no Rio.  No interior do Estado, o acirramento de ânimos era um fato, prisões, mortes e perseguições descabidas com o aval do Presidente Rabelo, que governou todo o tempo em clima de autoritarismo e perseguição, escreveu Irineu Pinheiro (op.cit). 

Nesse estado de incerteza e decepção caminhava o Governo Rabelo, visto por muitos já como findo. A pretexto de combater o cangaço reinante no Cariri, ele nomeou o Comandante do Batalhão sediado no Crato, aliás, ponto estratégico das tropas militares da futura sedição do Juazeiro, o Tenente Ladislau Lourenço Gomes da Silva, que ao invés de reprimir o banditismo tomou partido, detonando uma perseguição cruel e desumana contra os romeiros do Padre Cícero, pessoas simplórias, que mantinham suas plantações na Serra do Araripe, e de quem não consta fossem refratários à ordem pública. Sem reagir, eram brutalmente espancados e mortos, numa barbaridade sem tamanho. Os fatos tinham uma só finalidade: desmoralizar os dois chefes do Juazeiro, Dr. Floro e o Padre Cícero. O segundo motivo: o assentamento de romeiros na Serra do Araripe, questionado pelos donos de terras, que se diziam proprietários, expulsando-os de lá. Desta forma, ele partidarizou sua função de comandante de um Batalhão, e desfechou seu poder de fogo contra o povo do Juazeiro, para ele, um bando de fanáticos de primeira ordem, e depreciativamente rotulava-os de “jagunços do Padre Cícero”, criando e acirrando mais hostilidades entre as duas localidades, já rivais, estigmatizando, abrindo feridas não cicatrizadas, deixando sequelas profundas.

Estudando-se imparcialmente o período, não se pode negar que no Juazeiro de então não existisse jagunços. Os havia e muitos, detalhe que não só era uma primazia do Ceará, ou do Nordeste, e sim de todo o País, como continua até hoje. Lá eles chegavam, a maioria infiltrada entre os peregrinos pagadores de promessas, mas levados pela palavra de fé e ordem do Padre Cícero, acrescido, diga-se, das condições que lhes dava, com sua pedagogia do trabalho, do aprendizado, terminava  por restaurar-lhes socialmente, fazendo-os voltar ao convívio da sociedade. Por conta disso, ele foi censurado, até mesmo quando aconselhou Lampião a deixar o cangaço e retirar-se para bem longe, Goiás ou Mato Grosso, àqueles tempos, um fim de mundo. Quem o criticava, não entendia o método humanístico que regia seus ensinamentos. Mas até o próprio Cristo foi censurado pelos judeus, por não purificar-se antes de sentar-se à mesa, e por andar em companhia de pessoas impuras (Mateus 15).

Agravando o quadro, o Presidente Rabelo demite o Padre Cícero das funções de Intendente do Juazeiro, e nomeia o Tenente José do Vale para delegado. Chegando lá, seu primeiro ato foi o de dar uma busca, a pretexto de apreensão de armas, incluindo nessa incursão a residência de verão do Padre Cícero, situada na colina do Horto. O ato ofendeu a comunidade, causando indignação e revolta, suscitando reação. Pressionado, o Governo o chama de volta à capital e o demite do cargo de delegado, por pressão do povo do Juazeiro. O ato desastrado do Presidente Rabelo, como escreveu Irineu Pinheiro, foi a gota dágua.  Soou como um toque de clarim numa festiva madrugada. Para a cúpula dissidente em Fortaleza, estava aberto o caminho para a deposição do Presidente Rabelo. Já não mais contando com a Assembleia Legislativa, porque a maioria, pressentindo o desfecho iminente da sua deposição,  alegava a ilegalidade do seu reconhecimento de apenas 13 votos. Esses, os chamados “Vira-Casaca”, anteviram nos fatos a queda do Governo.

Por esse tempo, o Presidente Rabelo sofria enorme desprestígio por parte do Presidente da República e do Senador Pinheiro Machado, este efetivamente o expoente máximo da Nação. Portanto, estava fadado a desaparecer do cenário político do Ceará. Seu desprestígio perante o Governo Central era em represália ao fato de não ter apoiado a candidatura do Dr. Venceslau Braz à Presidência da República, para ele uma imposição do Catete. Somado todo esse pantanal de problemas, com a oposição a dizer que o Ceará estava desgovernado, que o Presidente Rabelo agia arbitrariamente, com os que não o apoiavam tendo-os como inimigos rancorosos, dentre estes, citavam o Padre Cícero, Dr. Floro, inclusive o chefe do Crato, Coronel Antônio Luís Alves Pequeno. Impossível que continuasse por mais tempo no cargo. O cenário era de uma futura guerra, tal qual aconteceu, porque se julgando forte e sem parecer se dar conta de que seu governo caminhava para a sublevação da ordem, já sublevada, é fato notório, com prisões e mortes.

Na esteira dos indesejáveis acontecimentos, um novo partido surge no cenário conflitante da capital: o Coronel Tomaz Cavalcanti fundou um partido denominado Marreta, onde se abrigaram os dissidentes, os descontentes, e toda a gama que a política sem ideologia oferece no bojo das suas atividades ambiciosas. A grande estrela do recém-criado partido era o Senador Francisco Sá, rompido com o Presidente Rabelo e toda a cúpula do Palácio da Luz. Tomaz Cavalcancati não era um líder, mas conseguiu fazer adeptos, aglutinando em torno do seu partido figuras da maior expressão, como o jornalista João Brígido, descontente e rompido com o governo, e vários chefes do interior, sendo que o principal deles era o hegemônico Coronel Antônio Luís, seguido pelo Dr. Floro, Gustavo Correia Lima, Aurélio de Lavor, dentre outros.

Dr. Floro, a essa altura, já um líder, sob as bênçãos do Padre Cícero, era ouvido e acatado. Sua retórica fluente e convincente conferia-lhe crédito, e acoplada aos predicados de persuassão e convencimento, muito o ajudou na sua conversa no Rio, para a derrubada do Presidente Rabelo, e consequentemente da Revolução. Ele foi sem sombra de dúvida o baluarte de todo esse movimento, já previamente acertado em Fortaleza. A ele, e só a ele, coube a primazia da deposição de Franco Rabelo, e consequentemente da Revolução do Juazeiro. O mecanismo funcionou, quando de fato foi derrubado do Governo o Presidente Franco Rabelo, aliás, o Ceará registra razoável histórico sobre o assunto. A missão dada ao Dr. Floro, ele a cumpriu de maneira brilhante, fazendo história política noutra gleba que não a sua. Ali abriram-se-lhe as portas da grande caminhada de vitórias, que lhe deu o Juazeiro, pelas mãos do Padre Cícero. Estava armado o audacioso plano, e ele seria seu expoente máximo. De inteligência acentuada, o fato é que aplicou uma tacada de mestre, num arremesso impecável. Sem esquecermos que toda essa projeção que ia galgando tivesse o apoio integral do Padre Cícero, já a essa altura altamente prestigiado pelos políticos do Estado. Sem o seu apoio, talvez suas pretensões políticas não passassem de meras abstrações.

Acordo firmado no Rio e sacramentado, Dr. Floro empenhou-se em passar um ar de liderança, o bastante para impressionar a alta cúpula: Presidente Hermes e o Senador Pinheiro Machado. Habilidoso, ia conquistando de fato a admiração de todos. Mas o que mais chama a atenção na trama da deposição do Presidente Rabelo é que, nessa época, Dr. Floro era apenas um deputado estadual eleito pela primeira vez, portanto, desconhecido do meio oficial do País. Com o apoio da bancada cearense na Câmara e a confiança que despertou nos dois maiores homens do país, sua missão no Rio foi de fato um sucesso. Deram-lhe carta-branca para agir, deflagrando o movimento revolucionário. Estava a caminho a revolução que meses depois estalaria, conforme acertado no Rio, e teria que ser pelo Juazeiro, dado que por Fortaleza seria inviável, por contar o Presidente Rabelo com a maioria do povo, incluindo os sindicatos dos marítimos, dos ferroviários e também do clero, à frente o famoso Bispo Dom Joaquim José Vieira, e de um pequeno segmento da imprensa, representado pelo escritor e jornalista Rodolfo Teófilo.

Regressando ao Juazeiro, Dr. F1oro veio munido de cartas e documentos valiosos, como as cartas do Senador Francisco Sá para o Padre Cícero e para o Coronel Pedro Silvino de Alencar, este, Chefe da Vila de Araripe, e que foi figura de proa do movimento sedicioso. Assegurado o apoio do Presidente Hermes ao ato, iníquo para muitos autores, da derrubada do Presidente Rabelo, o Senador Francisco Sá, entre outras coisas, informava ao Padre Cícero o que fora acertado no Rio, inclusive que o movimento revolucionário teria que começar pelo Juazeiro, em virtude do apoio da capital ao Presidente, no que se tornaria muito difícil. Assegurava ter o Dr. Floro recebido in-totum o apoio da bancada cearense, inclusive do Presidente Hermes, as credenciais para deflagrar o movimento que culminaria na deposição do Presidente Rabelo. Pedindo seu apoio ao movimento sedicioso, esperava que não o obstasse, pois era imprescindível a saída de Franco Rabelo do Governo. Despedindo-se, assegurava ser seu amigo particular, e que nele muito confiava. Junto a essa carta para o Padre Cícero, uma dirigida ao Chefe do Araripe, Coronel Pedro Silvino de Alencar, seu correligionário e amigo, de teor idêntico à do Padre Cícero, com adesão irrestrita ao movimento que estalaria dentro de pouco tempo. Essa carta foi de importância decisiva na resolução do Padre Cícero ao levante, sem dúvida alguma.

No Crato, os chefes da situação tomavam precauções em caso de um levante armado. Foi o caso do ex-Intendente Coronel Francisco José de Brito, narrado magistralmente por Otacílio Anselmo e Silva (op. cit.). Ipsis literis o que escreveu:

Um dia, estando em palácio em visita ao Presidente Rabelo, perguntou-lhe este o que deveria ser feito para sufocar e calar o Juazeiro. O Coronel Brito, sem pestanejar e bem ao modo sertanejo, apresentou-lhe o seguinte esquema: que determinado dia, fossem bloqueada todas as estradas que dessem acesso ao Juazeiro, e então com centenas de homens em armas, tomariam a Vila, prendendo-os todos, inclusive o Padre Cícero e o Dr. Floro, ao que finda a operação, tudo estaria terminado.

E conclui o escritor, dizendo: “o Presidente a tudo ouviu sem interferir, mas não levou adiante o sugerido plano”. Se posto em prática, seria o esfacelamento total do Crato, pela possível reação dos habitantes do Juazeiro, como meses depois mostraram resistência e fortaleza, diante das forças de um Estado policial. No entanto, o Presidente Rabelo mandou reforçar o Batalhão de Polícia no Crato, e abriu um alistamento de voluntários, que chegou a 200 homens, sob a chefia do Coronel Torres de Melo, a maioria deles homicidas, retirados da cadeia pública do Crato, fato de todos sabido. No entanto, o escritor caririense mais à frente se contradiz, e escreveu: “O Presidente Rabelo não tinha nenhum plano de atacar o Cariri e sufocar o movimento que a olhos vistos se desenrolava entre os Marretas.

Mas a prova está em que ele, o Presidente, estava inteirado do movimento com a finalidade de depô-lo, tanto que, como vimos, abriu o alistamento, reforçando o Batalhão de Polícia do Crato,  e expediu uma ordem de prisão para o Dr. Floro, no seu regresso do Rio. Tomando conhecimento da ordem de sua prisão, através do Padre Cícero, optou por desembarcar em Cabedelo, na Paraíba, de lá seguindo até a fronteira dos dois Estados, acompanhado do colega de Assembleia, José de Borba Vasconcelos, que aderira ao movimento revolucionário. Driblando as polícias dos dois Estados, já estacionadas em toda a fronteira de Pernambuco versus Paraíba, o Padre Cícero, informado do esquema, mandou pessoas de sua confiança acompanhá-lo até o Juazeiro. Dessa forma, Dr. Floro escapou de ser preso, porque os homens rastreadores, conhecedores profundos das estradas vicinais, levaram-no até o reduto do célebre e folclórico Major José Inácio, que os acolheu, numa deferência especial ao Padre Cícero, de quem se dizia amigo e o respeitava, apesar de ser o Major José Inácio um rabelista convicto. Ali, o Dr. Floro e seu acompanhante, Dr. José de Borba Vasconcelos, estavam a salvo de tudo, quem ousaria tocá-los? E fez mais: escolheu a dedo, entre seus cabras de extrema confiança, para dar-lhes cobertura até o Juazeiro, aonde chegaram sãos e salvos. Essa passagem é de grande relevância na história da Revolução do Juazeiro, pois se não fora a interferência do Major Zé Inácio, dando guarida ao Dr. Floro no seu reduto impenetrável, o movimento subversivo, que culminou com a deposição do Presidente Rabelo, teria abortado, não se concretizando, pela prisão do Dr. Floro, ou sua morte, como apregoavam. No governo, o pedido de morte para o Dr. Floro, era uma constante. Era este o cenário em Fortaleza, dos adeptos do governo. Está tudo estampado no jornal O Rebate, são páginas inteiras contra o Dr. Floro, insistindo por sua morte.

Voltando ao caudilho Zé Inácio, que era rabelista declarado, mas que a amizade com o Padre Cícero se sobrepunha à sua simpatia política, prestou um relevante serviço à sedição, sem pegar em armas e sequer disparar um tiro. Esse Major Zé Inácio era tão sagaz que, se preso algumas vezes para responder a processos pelos crimes que mandava praticar, misteriosamente fugia da cadeia, atropelando o carcereiro, registram as crônicas do Cariri daquela época.

Com tão grande turbulência, o Padre Cícero de tudo faz ciente ao Presidente Hermes. Preocupado e apreensivo, ele prevê o esfacelamento da ordem. Nesse telegrama, levantava a hipótese de uma invasão iminente ao Juazeiro, pelo número de policiais nas cidades satélites do Crato e Barbalha. Sentimento que não era só dele, mas de toda a população, nascido de duas conjunções: 1º) o batalhão policial sob o Comando do major Ladislau Lourenço, um sanguinário, como veremos à frente; 2º) o acirramento dos ânimos entre as duas localidades, Crato e Juazeiro, completamente hostis.

Ao chegar ao Juazeiro, Dr. Floro convoca várias reuniões, e convence os indecisos a se aliarem à causa para deposição do Presidente Rabelo, já que ele resistia a renunciar, como pretendido pelos dissidentes. Com o instrumento da sua persuasão, conquista os indecisos para a causa. A essa altura, animado por altas pretensões, nos seus discursos e abordagens a vários chefes ainda indecisos, assegurava que o movimento revolucionário contava com o apoio do Presidente da República, por conseguinte legal. Na tentativa de convencer indecisos, estava o Padre Cícero, que supunha estourado o levante para que o Presidente Rabelo renunciasse. Pedia calma ao Dr. Floro, inútil. Ele persistia na sua meta: deposição pelas armas, da qual jamais se afastou, levando-a até o fim. Portador de uma personalidade forte e indomável, jamais se curvou a alguém. Interpretaram alguns historiadores que o Dr. Floro tenha ludibriado o Padre Cícero, pois é improvável que ele tivesse total conhecimento de todo o esquema montado para a deposição do Presidente Rabelo, apesar da carta do Senador Francisco Sá. Eis a incógnita. Passar a documento esse momento da vida do Padre Cícero é difícil, pelo enigmático que era. A interrogação persiste, em muitos do que escreveram sobre a chamada sedição do Juazeiro, com destaque para o jornalista Rodolfo Teófilo, que disse: era o Padre Cícero tão ingênuo, a ponto de se deixar iludir, acreditando que, iniciado o levante, o Governo renunciasse?”. Segundo o aqui tão citado Azarias Sobreira, “ele tinha predisposição psíquica para dar crédito à retidão de intenções de todo o mundo”.  Apoiando ou não seu protegido, a realidade é que a Revolução aconteceu, e consequentemente a deposição do Presidente Rabelo.

O médico revolucionário desprezou a autoridade do Padre Cícero? Ou o submeteu a mais uma das suas imposições, como disse o Padre Manoel Macedo, depois em livro, quando escreveu: Dr. Floro, árbitro absoluto da vontade do Padre Cícero. Aliás, Irineu Pinheiro (op.cit.) deixa claro, no seu livro sobre a Revolução, que o Padre Cícero não se omitiu, e a guerra aconteceu em toda sua plenitude. Naquele momento de extrema gravidade para todo o Ceará, e em especial para o Juazeiro, onde prevalecia a ameaça de destruição partida do Governo, na perspectiva de vê-lo tornar-se em escombros como Canudos, e diante daquele a quem o Padre Cícero dispensava apreço e um afeto filial, sua alma entristecida deve ter implorado: —Pai, passa de mim esse cálice” (Marcos, 14-15).

O dardo fora lançado. Persuasivo e extremamente hábil, não só em palavras, também em ação, aliás, no papel da persuasão ninguém o superou em terras do Ceará, Dr. Floro faz eclodir o movimento revolucionário, já contando com a participação direta de quase todos os chefes do Cariri, com destaque para os Coronéis Pedro Silvino de Alencar e Antônio Luís, do Crato, este principalmente pelo renome, liderança absoluta, e também pelo número incalculável de homens à sua disposição. Cartas e ofícios para Fortaleza sucediam-se numa velocidade frenética, todos em código, isso, aliás, desde sua estada no Rio. Com o passar dos dias, não mais confiando no serviço postal, enviava as correspondências através de um Positivo. Inteirado de todo esse movimento pré-revolução, Franco Rabelo telegrafa ao Padre Cícero, dizendo:

“Chegam-me avisos do Cariri de que aí se prepara um movimento sedicioso, no intuito de derrubar-me do Governo; mas o Estado está aparelhado para sufocar qualquer movimento dessa natureza. Espero V. Revma empregará esforços em bem da paz que esta região tanto necessita.

Saudações. Franco Rabelo — Presidente do Estado.

O Padre Cícero responde ao telegrama supra, com as seguintes observações:

Presidente Franco Rabelo — Fortaleza.

Aqui não há preparo levantamento sedicioso, pois bem sabeis Juazeiro sempre esteve em defesa. O que percebo, permita-me dizer como amigo particularmente, é que políticos vosso governo o pôs em uma situação de sérias dificuldades. Talvez V. Excia não acate o que vos digo agora, mas em tempo oportuno percebereis. Segue carta explicativa. Saudações — Padre Cícero.

O Presidente insiste, e diz: “Estranhei V. Revma falar em atitude defesa. Daqui jamais partirá algo contra a massa de trabalhadores aí sediados, e asseguro mais uma vez, nenhuma animosidade há da parte do governo.

Foram dezenas de telegramas que precederam ao levante, entre o Presidente e o Padre Cícero, e ele sempre a omitir que houvessem preparativos para uma sedição. Pressupõe-se nesse seu gesto a finalidade de simplesmente amainar o ânimo do Governo, evitando a irrupção de uma luta fratricida, o que terminou por ocorrer.

A Associação Comercial toma partido. Prevendo prejuízos ao comércio em todo o Estado, pede ao Padre Cícero interferir para a não eclosão do movimento. Os telegramas da Associação Comercial eram cartas, porque extensos, fazendo ponderações do que poderia se tornar um desastre, não só pela vida humana, mas também pela queda do comércio. No último, o responsabilizam pela guerra. 

Prosseguia a troca de correspondência entre os amotinados do Juazeiro e de Fortaleza, e foi num desses retornos do Positivo da capital, que foram sabotadas as correspondências do jornalista João Brígido para o Dr. Floro, um descuido do Positivo Manoel Cardoso da Mota, vulgo Lolô. Numa das paradas de trem, em Sussuarana, deixou-se furtar por agentes disfarçados do governo. O alarme foi dado, o plano da sedição fora descoberto, porque já em mãos do governo. Urgia pressa. O episódio fez com que imediatamente fosse deflagrado o movimento revolucionário.

Numa ação rápida, e audaz, Dr. Floro detona a revolução às cinco horas da tarde do dia 8 de dezembro de 1913. Otacílio Anselmo e Silva (op. cit.) comenta o fato, às paginas 396-397 do seu Mito e Realidade:

“Um grupo de doze indivíduos portando armas curtas e sob as ordens de um Capitão da Guarda Nacional, de nome João Evangelista de Santana, invadiu de surpresa o quartel do destacamento local, recolheu os soldados ao xadrez, tomando-lhe as armas, já tendo antes fugido o seu chefe, Comandante Tenente Raimundo de Oliveira”.

Dando sequência ao ato, Dr. Floro, se auto-nomeia Comandante-em-Chefe da Revolução, Presidente da Assembleia Revolucionária e Presidente do Estado. Transfere a capital de Fortaleza para o Juazeiro, e de tudo deu ciência às duas Casas do Congresso, ao Presidente da República, nos seguintes termos:

Exmº Sr. Presidente da República — Rio.

A Assembleia Legislativa do Estado do Ceará tem a honra de comunicar a V. Excia. que, de acordo com o parágrafo único, artigo 42, da Constituição do Estado, o Presidente da mesma Assembleia assume a Presidência do Estado, visto não estarem legalmente reconhecidos o atual presidente, nem os respectivos vice-presidentes.

Respeitosas saudações. Dr. Floro Bartolomeu da Costa — Presidente.  Dr José de Borba Vasconcelos, Primeiro Secretário, Coronel Antônio Luís Alves Pequeno, Segundo Secretário.

Estava dado o golpe pelo poder da força, caía o governo do Presidente Franco Rabelo. Já que não renunciou, forçaram-no dali para frente, pela imposição das armas, a deixar o governo. A guerra já era uma realidade, todavia, o Presidente resistia  e inflexível dizia:em hipótese alguma renunciarei”, posição que manteve até o seu último dia à frente do governo do Ceará. Apressado, faz ciente ao Padre Cícero, por telegrama, que sufocaria a todo custo o movimento subversivo, e o responsabilizava pelos acontecimentos. Custou caro ao Padre Cícero seu gesto de complacência para com os revolucionários, particularmente para com o Dr. Floro. Outra vez, ele subia os degraus do Pelourinho, questionado, até hoje, sobre ser o autor da Revolução, principalmente pelo clero. Daí para frente, dois grupos marchariam — “Marretas e Rabelistas”. Juazeiro era palco de uma revolução armada. Resistiria? No passado, conseguiu resistir ao poder hierárquico de Roma. Reagiria agora, ao poder militar de fogo? Naquele momento, a comunidade estava exarcebada, com o massacre de Cerca de Pedras, dias antes, onde foram sacrificadas doze pessoas, inclusive crianças, que desciam a Serra do Araripe vindas de suas lavouras, e seguiam em direção ao Juazeiro para se refugiarem. Um crime bárbaro, dada a crueldade com o qual foi cometido, verdadeira execução, demasiado dilacerante para ser descrito.

A monstruosa carnificina foi praticada pelos soldados do governo, a mando do seu Comandante Ladislau Lourenço Gomes da Silva, a essa altura, já investido nas funções de Capitão. Padre Cícero, num telegrama urgente ao Presidente da República, o fez ciente do hediondo massacre. Lamentando, pede garantias de vida para seu povo. Dessa forma, ficava descartada a hipótese de que o governo Rabelo fosse um céu azul de paz e harmonia. O ato de selvageria do seu Comandante desmitifica a lendária figura de Marcos Franco Rabelo, de Homem da Paz. E não só por esse grande massacre, mas também pela ordem que nunca cessou de dar: destruir o Juazeiro, não ficar pedra sobre pedra. Tudo isso perfaz uma tela gigantesca, num acumulado de situações humilhantes iniciadas pelo clero no ano de l889, ano dos milagres, quando a vida simples e pacata do Juazeiro foi quebrada. Depois, o episódio de Salgueiro, quando o Padre Cícero foi confundido como auxiliar de Antônio Conselheiro e simpatizante da Monarquia, numa afirmação dos Governadores da Bahia e de Pernambuco. Na visão dos dois, um conspirador da República recém-criada. Daí, o episódio da decretação de sua prisão pelas autoridades do Recife, que se transformou num caso político, pela reação que despertou em vários Estados nordestinos, principalmente em Alagoas e interior de Pernambuco. E pensar-se que tudo isso proveio tão somente de um sentimento de protesto do Bispo Dom Joaquim, com a adesão de altos membros do Episcopado Brasileiro, causando estragos irreparáveis até hoje, porque o mesmo clero, baseado em hipóteses, imputou-lhe responsabilidades pelo movimento revolucionário, e pediu a Roma a sua excomunhão (Azarias Sobreira e Otacílio Anselmo, ibidem).

Iniciada a luta pelo poder de Floro Bartolomeu, árbitro da vontade do Padre Cícero, o Juazeiro inteirinho aderiu à luta. Silencioso, confinado aos seus aposentos, ele certamente refletia o que seria aquela luta nos seus domínios, e qual seria o seu desfecho, talvez prevendo e convicto de que seu nome seria envolvido no litígio, do qual não teve tanta participação. Para atestar o fato, os documentos escritos do seu próprio punho, como por exemplo, seu testamento, quando afirma: “não fiz Revolução, nela não tomei parte, e nem para ela concorri com sugestão alguma. 

Muitos autores se perguntam: como imaginar-se o Dr. Floro desdenhando da sua autoridade, uma vez que, no Juazeiro, nada se fazia sem o seu aval, disse Amália Xavier. Essa passagem é de alta relevância, considerando-se as palavras da escritora (op.cit). Se pensarmos com imparcialidade, veremos que, sendo o Padre Cícero de boa índole e esta o levou a magnanimidade, movido por  consciência religiosa, jamais aprovaria a guerra fratricida; mormente porque o Juazeiro, antes de tudo, era a —Meca Sagrada — para os que o procuravam, pelo seu passado de religiosidade. De resto, nada mais havia a fazer, senão unir seu povo para evitar dispersão em massa, já com a revolução instalada, o que talvez não dependesse da sua vontade, e sim, dos grupos de interesse, legalizando o feito, com a finalidade de atingir objetivos, praxe da política e que continua até o presente momento.

Ao fazer sua prédica ao cair da noite, acompanhada da bênção aos romeiros postados em frente à sua casa, ele, com a voz embargada pela emoção, pedia calma e a união de todos, chamando-lhes a atenção para a gravidade do momento. Após essas recomendações, a multidão entoava o bendito Maria, valei-nos e o Ofício de Nossa Senhora”, escreveu Irineu Pinheiro (op. cit.). E foi assim, entre rezas e pânico, que teve início a guerra do Juazeiro, já pelos romeiros batizada de “Guerra Santa”, na qual demonstraram extrema fidelidade ao seu Padim Ciço”, resistindo heroicamente às forças do governo. Por isso, chamados de – heróis.

 

****

 

CAPÍTULO 15

A GUERRA E SEUS EFEITOS NOCIVOS

 

Com a guerra já instalada, milhares de romeiros se deslocavam para o Juazeiro a Meca Sagrada –, já agora transformado num campo de guerra. Armados e municiados com as mais diferentes armas, desde a ingênua espingarda de caçar passarinhos a armamento mais pesado, como rifles e fuzis.

O escritor e médico Irineu Pinheiro, lá refugiado, acompanhado da família do Coronel Antônio Luís, no seu livro A Revolução do Juazeiro (1914), chama a atenção para “o ardor guerreiro do romeiro e da fé no Padre Cícero, quando se entregavam ao sacrifício como se fossem a um simples passeio”. Mas faltava um Comandante para dirigir a massa, já que o Dr. Floro tinha se nomeado Presidente do Estado e Chefe da Revolução. A ele caberia outro papel, o de cimentar laços de solidariedade entre correligionários e convocar reuniões. Ao seu lado, a tríade que comporia o seu Estado Maior: Coronel Antônio Luís, de notório poder, Dr. José de Borba Vasconcelos e o Coronel Pedro Silvino de Alencar. Os três, na verdade, deram sustentação ao movimento, no qual o Dr. Floro fincou-se e garantiu a grande epopeia caririense. Como já escrito, o movimento sedicioso tinha realmente o apoio dos maiores líderes do País, inclusive do Presidente Hermes da Fonseca. Entre os que escreveram sobre os fatos, não há unanimidade de que o Padre Cícero tenha se oposto ao movimento revolucionário, como também não há de que tenha sido favorável à causa. Embora seus inimigos o dêem a paternidade do levante, caso de muitos autores, como Otacílio Anselmo e Rodolfo Teófilo, este último, o primeiro a escrever sobre o assunto, que veementes, sustentam sua participação direta no movimento (idem). Talvez seu pensamento fosse que, deflagrado o levante, o Presidente Rabelo renunciasse, e que o movimento sedicioso não ultrapassasse os limites do Juazeiro, pois os romeiros, nos primeiros momentos da guerra, estavam na defensiva, protegidos pelo cinturão intransponível que era o dos Valados.

De acordo com o já citado escritor Irineu Pinheiro (op. cit.) testemunha ocular do movimento, o quadro no Juazeiro, 24 horas antes de desencadear o levante, era o seguinte:

Ninguém que chegasse ali naqueles primeiros momentos que antecederam a eclosão do movimento sedicioso, acreditaria que dentro de poucas horas o lugar se transformaria num campo de batalha, a começar pelo chefe da revolta, Dr. Floro, que aparentava um absoluto ar de tranquilidade e calma extraordinária. Quem o visse aquele instante, jamais poderia supor que ali estava o chefe de uma revolução. Além da sua aparente calma, os trajes em que se encontrava: de mangas de camisa e chinelos, o que contrastava visivelmente com o seu modo de vestir-se. Ocupando um quarto numa das dependências da casa do Padre Cícero, onde instalaria seu Quartel General e de lá daria todas as ordens daí em diante”.

Tudo preparado, nada mais restava ao Padre Cícero senão unir seu povo por meio da palavra, em breves discursos e sempre ao cair da tarde, detalhe citado pelo escritor acima mencionado, que disse: “o tom moderado e calmo com que falava era o suficiente para mais comoção, principalmente quando apelava para que não houvesse dispersão”. Sob o impacto do fato, agora uma realidade, a ele só restou mesmo ficar restrito aos seus aposentos e continuar rezando seu rosário numa média de quatro horas ao dia, escreveu Azarias Sobreira (idem).

 Apesar de tudo organizado, faltava entanto alguém com capacidade de comando, com poder de resolução, de liderança, de conhecimento de guerra, capaz de barrar o avanço da tropa do governo, que já se deslocava para o Juazeiro. É quando entra em cena Antônio Vilanova, ex-guerrilheiro de Canudos, residente na cidade de Assaré. Um  homem de confiança foi buscá-lo, levando uma carta do Padre Cícero, de quem era amigo e visitante assíduo. E chega ao Juazeiro o herói de Canudos.

Naquele primeiro momento, segundo testemunhos dos que lá se encontravam, e eram muitos, deputados, chefes de interior, jornalistas, etc., Dr. Floro foi o primeiro a se manifestar, para expor porque o convidara a vir ao Juazeiro, e tenta convencê-lo com o seu discurso persuasivo, conquistá-lo, para assumir o comando dos rebelados. (Esse é um dos pontos esclarecedores quanto ao convite ao ex-guerrilheiro de Canudos de pessoas presentes àquela reunião, como o citado Irineu Pinheiro).

Vilanova mantinha-se calado, a tudo ouviu sem interferir no discurso do médico, já agora transformado em comandante chefe da rebelião. Depois de todo o exposto e da loquacidade do seu apelo, o experimentado guerrilheiro de Canudos, que até então se mantivera calado, ao usar da palavra declinou do convite, pois tinha feito uma jura de jamais tomar parte em movimentos revolucionários, e principalmente contra o governo. O que tinha sofrido em Canudos era o bastante para não desistir do seu ponto de vista e do juramento que fizera. Acrescentou: por milagre de Nossa Senhora das Dores, que também é a Padroeira do Assaré, hoje aqui me encontro.

Dr. Floro não desiste ante a resistência de Vilanova, e tenta por todos os meios atraí-lo para sua guerra, argumentando que o movimento tinha todo o respaldo do Presidente da República e do Senador Pinheiro Machado, além dos principais membros da Câmara e do Senado. Mas, dessa vez, seus argumentos não surtiram efeito. O ex guerrilheiro de Canudos deve ter acreditado na veracidade das suas afirmações, entretanto, como uma rocha, manteve-se firme na sua resolução, e um não selou aquele encontro. Vendo o cipoal em que colocaram o Padre Cícero e sua gente, pôs em prática os seus conhecimentos de luta armada e estratégia guerreira. Ali mesmo, na sala de jantar, na presença de várias autoridades refugiadas no Juazeiro sob a proteção do Padre Cícero, sentados ao redor de uma grande mesa, cheia de papéis, lápis, caneta, tinteiro, croquis de mapas, o guerrilheiro de Canudos, numa grande inspiração, projetou o que seriam os famosos Valados. Portanto, foi do cérebro privilegiado de Vilanova que o Juazeiro se impôs e conquistou sua vitória diante das forças do governo, que culminou com a deposição do Presidente Franco Rabelo.

Os Valados consistiam num cinturão circundando toda a Vila, do Horto até as Malvas, numa extensão de nove quilômetros, com oito metros de largura por cinco de profundidade. De dois em dois metros, uma parede de areia sustentada por tijolos de adobe coberta de telhas, com orifício onde podiam livremente atirar sem serem vistos pelo inimigo. Com esse cinturão intransponível, estava pronta a cidadela para a luta que se desenrolava aceleradamente.

Homens, mulheres e até crianças empenharam-se na construção da grande obra”, escreveu Amália Xavier (op. cit.). A construção foi executada em tempo recorde e com os mais rudimentares instrumentos, lembra ela. Eram pás, picaretas, enxadecos, latas e baldes para o transporte de água. O envolvimento de crianças na construção da obra é um fato notório, quando sustentando nas mãos lamparinas de querosene, para iluminar a noite escura, apressavam o andamento da obra, que dentro de cinco dias estava concluída. Foi o mutirão da solidariedade, organizado voluntariamente, formando um grupo único, de acordo com o código juazeirense. No princípio dessa história, ressaltei a união que norteava todos ali, e ela mais se acentuou com a revolução, quando em conjunto, sem nenhuma dispersão, jogaram suas vidas em defesa do Padre Cícero, numa verdadeira ideologiaa ideologia da solidariedade e do amor.

O sistema defensivo dos Valados foi crismado pelos romeiros com o pomposo nome de Círculo da Mãe de Deus. A contribuição de Antônio Vilanova foi notável, e foi o seu gênio de grande estrategista que salvou o Juazeiro de ser arrasado pelas tropas do governo, detalhe reconhecido por todos os autores que escreveram sobre a sedição. Protegidos pela grande fortificação, os romeiros ficaram aguardando a tropa militar, que já estava a caminho do Juazeiro sublevado. Enquanto isso, Dr. Floro visitava as trincheiras; chapéu de couro à cabeça, lenço vermelho preso ao pescoço, alpercata de currelepe16 aos pés, como todos os outros. Por onde passava, ia lançando palavras de ânimo e ideologia do movimento subversivo. Realmente, ele era um personagem surpreendente e singular, pelo papel que desempenhava de verdadeiro ator. Às vezes, palaciano, com ares de nobreza; outras vezes, não passava de um homem rude do sertão, que beirava ao simplório, amoldando-se ao sertanejo inculto, ao seu linguajar estropiado, por vezes ininteligível. Floro Bartolomeu, para a autora, é um personagem arquepico. Como esperado, no dia 19 de dezembro, chegou ao Crato o Batalhão da Legalidade”, que se compunha de 241 homens, todos armados de fuzis e com um estoque impressionante de balas e bombas de dinamite, comandados pelo Coronel do Exército, Alípio Lima de Barros.

No Juazeiro, as notícias circulavam em duplicatas, infundindo medo aos participantes do movimento, caso do Dr. Aurélio de Lavor e do Coronel Gustavo Correia Lima, que, atemorizados, abandonaram o Juazeiro, na noite de 14 de dezembro (entrevista do Dr. Floro ao Jornal Unitário, edição de 16/07/1915). A crônica registra que o batalhão foi recebido pelos rabelistas do Crato com foguetes e músicas, além de discursos políticos apaixonados. O comandante sentiu-se lisonjeado com tamanhas demonstrações de apreço. E, apesar do cansaço da tropa após uma marcha de trem até o Iguatu, ponto terminal da linha férrea, e daí para o Crato, em lombo de animal, cansados e estropiados, o comandante da tropa determinou que, no dia seguinte, logo ao amanhecer, sem o menor conhecimento da região, a tropa marcharia para o Juazeiro para sufocar a rebelião.

Nessa mesma noite, telegrafou ao Padre Cícero, dando-lhe um ultimato de 12 horas, quando deixava claro que marcharia sobre a Vila rebelada logo ao amanhecer, o que realmente aconteceu, e acrescentava no seu telegrama: “desarme os cangaceiros, referindo-se aos romeiros, “à noitinha estarei aí quando o movimento já estará sob o nosso controle e sufocado”. Responsabilizava-o pelo movimento armado, com a subversão da ordem. O telegrama para o Dr. Floro era jocoso, debochado, quando expressava o desejo de jantar galinha assada ao forno, a fim de comemorar melhor a vitória. Autoridades do Crato, como o íntegro Juiz Livino de Carvalho, achou precipitada a decisão do comandante de marchar sobre o Juazeiro, sem nenhum conhecimento do terreno, e objetou-lhe que não devia fazê-lo, sem antes uma verificação da praça, ao que ele respondeu: “Aquilo não vale nada, ao primeiro sinal, estabelece-se a confusão, ao segundo, a debandada será geral, então poremos querosene e tocaremos fogo no covil.

De efeito bombástico, a frase do Coronel Alípio passou à história. Ele usou frase de efeito, é verdade, mas a ordem da destruição do lugar era do seu superior, o Presidente Rabelo, tanto que a segunda expedição trouxe  um canhão, para dinamitar o Juazeiro. O Presidente, durante todo o período da guerra, jamais afastou a ideia de destruir o Juazeiro, tirá-lo do mapa. Mesmo assim, seus adeptos teimavam em classificá-lo de ordeiro e legal, à frente, o escritor da revolução, Rodolfo Teófilo, e por último, já agora em nossos tempos, o escritor Otacílio Anselmo (idem). Subestimava o Coronel Alípio o valor guerreiro do sertanejo, sua tática, sua habilidade e sua estratégia, exemplificada por Lampião, que assombrou cinco estados do Nordeste, só encontrando resistência no Rio Grande do Norte, na cidade de Mossoró, onde o seu bando foi rechaçado, tendo por epílogo a morte de Jararaca, onde está sepultado. Esgotado o prazo dado pelo Coronel Alípio, ele marchou rumo ao Juazeiro, para passar talvez o maior vexame de sua carreira militar, um verdadeiro fiasco. Ipsis literis, o que escreveu o cronista da expedição, Dr. Joaquim Holanda, que traçou o seguinte quadro:

Manhã de 20 de dezembro, 833 homens marcham em direção ao Juazeiro. Ao avistarem as primeiras casas da localidade, abriram fogo, secundados pela 1ª, 2ª, 3ª e 4ª Companhias. Sempre avançando, a tropa desfecha uma compacta fuzilaria, para logo mais ficar detida diante do que via. A Vila estava fortificada por um imenso cinturão intransponível, deixando o batalhão exposto ao fogo de adversários ocultos”.

O imprevisto aconteceu: foram rechaçados no primeiro combate de forma humilhante. Foi a primeira vitória dos romeiros pela logística dos Valados. Juazeiro estava inexpugnável, não havia como lá penetrar. Desapontados ante a derrota, retornaram ao Crato. O Comandante Alípio dá ciência ao Presidente Rabelo do desastre: a derrota de quase mil homens em armas. Imediatamente foram despachados mais reforços, e um contingente composto pela Guarda Cívica, cujo comando era do seu ajudante de ordens, Tenente Mário Gomes, acompanhado do Chefe de Polícia, Dr. Martins de Freitas. Esse segundo contingente conduzia um canhão fabricado por Alfredo Mamede, e estava sob a guarda do Coronel Emílio Sá. A peça, um trambolho, dias depois já estava ancorada no quintal da casa do Padre Cícero, capturada em lances geniais e audazes dos romeiros. A ridícula peça de artilharia, na qual os soldados rabelistas depositavam máxima confiança para demolir as fortificações do Juazeiro e dinamitá-lo, foi experimentada à plena luz do dia. Ao ser disparado o primeiro tiro, desfez-se em pedaços e, pior, virou a boca para a retaguarda, divertindo a romeirada que, segundo a escritora Amália Xavier (op. cit.) dizia: “Xô, maldito”.

Além do célebre canhão, trouxeram com eles um enorme carregamento de armas e munições, cedidas pelo General Torres Homem, que, sem motivo, tornou-se, inimigo declarado do Padre Cícero, como mostra o telegrama dirigido ao Presidente Rabelo, no qual desejava a vitória do Governo pelas armas legais e a expulsão do Padre Cícero do território cearense, a bem da paz e do progresso”. Mas esse assomo de imposição do General Torres Homem durou pouco, foi destituído pelo Presidente da República, Mal. Hermes, da chefia da 3ª e 4ª Regiões Militares, sediadas no Recife. Intranquilo e angustiado, o Padre Cícero rezava continuamente, mesmo em presença de alguém, disse o escritor Irineu Pinheiro (idem).

As deserções no Batalhão Militar eram contínuas, o quadro era de pânico e medo. Foi nesse clima de desespero que chegou ao Juazeiro um enviado do Gal. Torres Homem, para observar o campo de guerra, depois de solicitar por telegrama ao Padre Cícero autorização para entrar na cidadela rebelada, no que foi atendido. Dr. Floro não gostou da presença do Tenente Armando de Oliveira e, num gesto de força, superioridade e impetuosidade, bem ao seu estilo, improvisou uma passeata com mais de quatro mil homens em armas, cantando hinos guerreiros e benditos, e dando vivas ao Padre Cícero e desejando a morte do Presidente Rabelo (Amália Xavier, op.cit.).

O enviado do General Torres Homem, uma mistura de espião e diplomata, o Tenente do Exército, Armando de Oliveira, ficou estarrecido diante do que vira. A disposição para a luta e para a morte, dissera. E mais impressionado ficou, quando ouviu do Padre Cícero que tudo aquilo tinha o aval do Presidente da República, e que, a um sinal deste, seus romeiros deporiam as armas (a citação é de Rodolfo Teófilo). Segundo Edmar Morel (op.cit.), Dr. Floro tinha sob suas ordens 3.345 homens, 600 rifles, 2.500 espingardas de caça, 200 bacamartes, 80 reiúnas, 15 fuzis e pistolas automáticas, cedidas  pelo Catete e remetidas via Fortaleza em navio e, de lá, em trem especial para o Juazeiro. O escritor Azarias Sobreira (idem) calcula em 4.000 homens, e mais armas.

De regresso ao Crato, o Tenente Armando de Oliveira, em telegrama, expôs toda situação do que vira ao Presidente Rabelo, deixando o Coronel Alípio de Melo preocupado diante do que ouvira. Mesmo assim, ele ainda ensaiou um novo ataque à Vila. Sem nenhuma concentração de objetividade, que consubstanciasse num bom resultado, baseou esse novo ataque em uma promessa feita pelos chefes rabelistas de enviarem mil homens para reforçar o contingente policial, mas só apareceram no Crato 50 homens, enviados pelo chefe de Assaré. Outra decepção, deixando o Coronel Alípio desesperado. Pressionado pelo governo, que lhe pedia mais ação, faz a terceira tentativa, e parte com os seus comandados para o campo de guerra. Desvanecido e decepcionado pela promessa dos chefes rabelistas do interior, no não cumprimento do acordo, o Coronel Alípio não tinha mais dúvida quanto à derrota da fracassada tropa sob seu comando. Decepcionado com o primeiro lance da derrota fragorosa, e ainda com o acordo mentiroso dos chefes rabelistas do Cariri, e as declarações do Tenente Armando de Oliveira, ele só teve uma saída: comunicar ao governo o agravamento da situação, usando de sinceridade e franqueza. Fato raro em tais situações. Por telegrama, ao Presidente dizia ser de todo impossível esmagar a sedição, por ela contar com o apoio do Presidente da República e do Senador Pinheiro Machado. Essa explicação, dada por telegrama, era a confissão da derrota perante o batalhão que comandava. Depois da comunicação, que evidenciava um fracasso total, Franco Rabelo não teve alternativa, senão chamá-lo às pressas à capital. O chamado urgente do governo implicava simplesmente a sua demissão do comando do batalhão, por inabilidade estratégica e militar.

A guerra não podia parar a substituição teria que ser imediata. Por isso, foi nomeado Lourenço Ladislau, logo promovido a Major. Com a retirada do Coronel Alípio do campo de guerra, seguiram com ele os seguintes oficiais: Tenente-coronel Francisco Batista Torres de Melo, Capitão César de Andrade, Coronel Guilherme Bezerril Fontenele, Coronel-médico do batalhão Dr. César Cals, e alguns subordinados. Ao desembarcar na capital, foi vaiado pelo público que o esperava na Estação Central. Retornando ao Rio (era Coronel do Exército), dá uma entrevista ao jornal Imparcial, em que critica o Presidente Rabelo, culpando-o pelo número de mortes, e atesta a vitória dos romeiros.

 

SEGUNDA ETAPA DA GUERRA

 

A primeira expedição não convenceu, foi um fracasso; a segunda, um desastre, entregue que foi ao Major Ladislau Lourenço, que nem a si próprio comandava, dado seu eterno estado de embriaguês era um barril de aguardente itinerante. Pressionado para novos ataques à Vila rebelada, o Major Ladislau tenta chegar ao ponto nevrálgico, que eram os Valados, ou trincheiras, travando-se um cerrado tiroteio, com baixas dos dois lados. No dia 14 de janeiro, ao clarear do dia, eles desfecham novo ataque: tentavam desbloquear a Vila, numa pesada fuzilaria, que culminou com a morte do beato Ricardo. Aí então a resistência, o ardor guerreiro dos romeiros redobrou, e o grito de ordem era: aniquilar toda a tropa do governo. Amedrontados e em pânico sob o comando medíocre do Major Ladislau Lourenço, retrocedem rumo à Barbalha, mas era apenas uma estratégia do Comandante: dia seguinte, muito cedo, voltariam, desta vez com mais superioridade, reforçados pela presença de 28 sentenciados de alta periculosidade, retirados da cadeia do Crato, onde cumpriam pena por homicídio seguido de roubo.

À essa altura, era unanimidade entre a tropa do governo reconhecer a superioridade guerreira dos romeiros, que destemidos enfrentavam de peito aberto o inimigo; era a luta pela sobrevivência do mais capaz, do mais apto, como disse Darwin. O comandante Ladislau Lourenço, debochando de si próprio e naturalmente dos seus subordinados, compunha versos ao tilintar do som de garrafas de aguardente, e cantarolava a quadra:

             Deus é grande, mas o Padre Cícero é maior,

              E o mato maior que os dois.

               Maneira o pau, maneira o pau,

               Meu Padim Ciço é quem ganha.” 

E no balanço cadenciado da rede, fazia com as mãos gestos obscenos em direção à Fortaleza, dizendo: essa aí é para o merda do Rabelo”.

Eis, em breves linhas, a performance do segundo comandante do batalhão militar. Realmente, não era de se esperar que vencessem, mas que ao menos salvassem a honra da corporação. Pedir a cessão da luta aos rebelados do Juazeiro, foi só o que faltou ao Major Ladislau, que por um triz não o fez. Convictos da superioridade dos romeiros, em vista dos dados apresentados pelo cronista da expedição, Dr. Joaquim  Holanda, é fácil constatar a enorme diferença entre o “batalhão da legalidade e os rebelados do Juazeiro, uma massa compacta, coesa, sem discrepância, por mínima que fosse. Em face de tal panorama, o batalhão militar só tinha uma opção, a qual foi posta em prática: o sítio. Encurralados, na ótica do Comandante Ladislau, eles venceriam pela fome, pois estavam cientes de que o abastecimento no Juazeiro se tornara crítico, o estoque chegara praticamente ao fim. Ensaiam então um novo ataque. E no dia 15 consumou-se o cerco ameaçado pelas tropas do governo, estacionando nas saídas de Santa Rosa, São João e Malvas, quando foram destroçadas. Nas Malvas, por exemplo, estava estacionado o bravo Quintino Feitosa e seu grupo, que espartanamente impediram que invadissem a Vila, apoderando-se das trincheiras. Considerado destaque da Revolução, resistiu valorosamente, impedindo o cerco. Por isso o título que lhe deram, de herói da Revolução. Nessa conjuntura difícil, Dr. Floro deu ordens para que os combatentes invadissem os sítios abandonados ao redor da Vila, que estavam com os seus paióis abarrotados de víveres, como comenta o escritor Irineu Pinheiro (op. cit.).

Ao tomar conhecimento dessa ordem, o Padre Cícero se opôs terminantemente. Para ele, era um furto disfarçado em nome de uma situação periclitante, portanto não consentiria. Sua gente não poderia usar de tais métodos, contrariando seus ensinamentos. Mas Dr. Floro resistia, dizendo ser o único meio, em vista da falta de víveres, a população estava à mercê desse detalhe. Sempre ponderando e com voz calma e modulada, o Padre Cícero insistia na sua tese do furto, contrariando as ordens já expedidas pelo chefe da revolução, e dizia: vamos pensar noutro meio”. “Qual?, perguntava-lhe o Dr. Floro. Sem se afastar do que lhe parecia ser legal – o que era, dada a situação premente da escassez de alimento, com o ânimo já bastante exaltado pela discussão, ele perdeu a linha, e num rompante cruel e áspero, em presença de políticos, sentados à grande mesa da sala de jantar, de 40 lugares, que participavam de uma conferência, Dr. Floro levantou-se, e dedo em riste, apontado para o Padre Cícero, disse: ou deixa-me agir a meu modo, ou vou-me embora já, deixando-o nesse cipoal. Um frio gélido tomou conta dos presentes. Ninguém se atreveu a uma intervenção, paralisaram com a ameaça. O Padre Cícero silenciou. A ordem foi executada, assegura o escritor da Revolução, Irineu Pinheiro (op.cit.). Esse é o único atrito de que se tem notícia entre os dois, pelo menos em público.

Vale aqui lembrar que avulta nessa passagem a grosseria do Dr. Floro, e que não fazia parte do seu perfil, até essa data, porque depois houve uma grande reviravolta na sua personalidade. Talvez levado pela doença que o matou precocemente, ou pelas situações críticas que teve que enfrentar no campo da política, quando realmente tornou-se o dono absoluto do Juazeiro. Naquele momento, ele estava comprometido até a medula com as mais destacadas figuras do cenário político nacional, e perder a guerra não estava nos seus cálculos; seria sem dúvida sua derrota política. Para isso se empenhou, apostando no sucesso, daí esse gesto de indelicadeza. Era uma guerra, e na guerra é assim, não tem escapatória, triunfa o mais forte, o de maior poder. É a lei de Darwin.

O batalhão do governo faz uma manobra cautelosa, retirando-se para Barbalha, após o incidente das Malvas, mas foi apenas uma estratégia, porque no dia 17 voltaram a atacar furiosamente, disparando uma grande fuzilaria em frente aos Valados, sendo rechaçados mais uma vez. Não conseguindo realizar seu objetivo, retrocediam, quando inesperadamente são surpreendidos por uma bateria de bombardeio pesado, um explosivo feito de pólvora, cacos de vidro, pimenta moída, pregos, pedaços de ferro, chumbo derretido, tudo dentro de garrafas, que tinha como detonador um estopim feito de cordel. Era o coquetel molotov. Ao pressentirem que a tropa se aproximava das trincheiras, de dentro dos Valados, a salvo das balas inimigas, detonaram o engenho com precisão matemática, porque todos ao mesmo tempo, milhares de garrafas atiradas, produziram uma fuzilaria que assombrou o sertão, ecoando por todo o recôncavo.

A precariedade do comando do Major Ladislau Lourenço era visível, dando lugar a um retraimento que tomava conta da tropa. A única saída que encontraram foi a de retroceder, outra vez rumo a Barbalha, levando muitos feridos, e houve óbito dos dois lados, com um agravante: a deserção em massa na tropa do governo, apesar de também ter havido feridos e mortes entre os romeiros. Mas seu contingente era tão grande e eles eram tantos, que logo eram substituídos, ao contrário da tropa do governo, que desertava diariamente, e o lugar ficava em aberto, ficando desse modo inferior em número. Nesse dia, as deserções chegaram a um avultado número, escreveu Joaquim Holanda (op. cit.), e pior, o medo minou toda a tropa, por uma questão psicológica que já tomava conta da tropa, dando lugar à superstição, atribuídas a forças ocultas, e que se resume no seguinte: nas poucas vezes que se defrontaram cara a cara com os sublevados, estes, como miragens, se embrenhavam matagal a dentro, antes que os soldados do governo deles se aproximassem, sem deixar rastro, para reaparecerem noutro lugar, numa rapidez impressionante. E para mais afetá-los, durante o cerrado tiroteio, eles divisaram num dos parapeitos da torre da igreja o beato Vicente, o lenhador outrora pacífico da casa do Padre Cícero, que lá estava com o seu bacamarte de sete tiros, de sete certeiras quedas, a defender seu Padim. Na sua concepção, com certeza tudo muito natural. O Juazeiro é que não poderia ser destruído, por isso ele ali estava a fim de defendê-lo. O pânico dominou a todos, do oficial ao recruta, esmorecidos, subalimentados, pois a carne que lhes chegava já estava passada, e alguns até adoeciam ao servirem-se dela. Com os uniformes em péssimo estado, e uma neblina intermitente a encharcar-lhes o corpo, o que mais lhes restava? Escreveu Joaquim Holanda (op.cit).

Assim, levados pela sugestividade, iam abandonando o campo de luta. Por outro lado, temiam o Major Ladislau, depois de assistirem a um ritual em pleno campo de guerra, quando brutalmente aplicou uma surra num dos seus soldados que ali mesmo faleceu. Nesse mesmo dia 17 de janeiro, em meio a tanta mortandade, a tanto desespero, falece a beata Maria de Araújo, que agonizou ao som dos estampidos dos tiros. Era a guerra de Floro Bartolomeu. Tendo enterro condigno, acompanhado pelo Padre Cícero e autoridades políticas, refugiadas no Juazeiro. Sepultada na pequena Igreja do Perpétuo Socorro, em caixão de cedro, envernizado por dentro e por fora e trancado a chave por ordem do Padre Cícero (Irineu Pinheiro, op. cit.).

Depois desta ofensiva, e que terminou com a vitória mais uma vez do Juazeiro, o Major Ladislau chegou por fim a um reflexo mais que racional: manobrou a tropa outra vez em direção à Barbalha, para instantes depois impor uma parada para um breve discurso, no qual, com voz embargada, disse: “Cada qual procure o seu rumo, não me considero mais o Comandante da tropa. A essa altura, ele tinha feito refém o deputado Antônio Pinto, de Barbalha, quando se dizia estar garantido. E ameaçava: se tentar fugir, esmigalho sua cabeça com o meu sabre afiado. Ato contínuo, arrancou do boné e dos punhos seus galões, à maneira do Coronel Alípio de Lima, e às pressas deixou o batalhão entregue aos seus oficiais. Foi um momento dramático, escreveu Joaquim Holanda (op. cit.). A confusão tomou conta da tropa, e tanto o Estado Maior quanto os soldados atropelavam-se uns aos outros. Sem rumo, deixavam o local. Armas, uniformes e munições, e até mesmo a bandeira nacional foram jogados ao chão e pisoteados, comenta Otacílio Anselmo (op. cit.).

Ainda de acordo com o cronuista da expedição, o citado Joaquim Holanda, o Dr. Martins de Freitas tomou a iniciativa de conduzir a tropa, salvando a honra da corporação. Desacreditado perante todo um batalhão, o Major Ladislau seguiu em direção ao Crato, para em seguida retroceder e tomar a estrada do Iguatu. É que, a meio caminho, foi avisado de que Floro Bartolomeu ordenara para o outro dia o ataque ao Crato. Era 22 de janeiro. Realmente, no dia seguinte confirmou-se a ordem de ataque, e três grupos de 250 homens cada seguiram destemerosos rumo a mais uma jornada. Eram comandados por Manoel Chiquinha, Zé Pedro e Zé Terto. Antes de partirem, porém, ouvem atentamente às proposições do Padre Cícero, que passou à história, e se encerram no seguinte: 1º) Não beber álcool, não furtar, dar condição ao adversário de deixar a cidade, respeitar as famílias, dar proteção à Dona Maria de Secundo (viúva do seu inovidável amigo Joaquim Secundo), respeitar as autoridades, o Juiz, o vigário, Padre Quintino, o Seminário, e que deixassem abertas as estradas do Lameiro e do Seminário 18, para quem quisesse sair.

Depois dessas recomendações, e dada a sua bênção, a exaltação espiritual chegava ao ápice, entremeada por benditos e hinos guerreiros. Às três horas da tarde, tomaram de assalto uma das trincheiras do governo, nas imediações do cemitério do cólera, quando foi travado um grande tiroteio, e houve baixas de ambos os lados. A força militar estava bem municiada, enquanto rareou a munição no pelotão do Juazeiro. Se não fosse um desconhecido simpatizante da causa, de nome Américo Alves, a coisa teria se complicado. Ele foi o salvador do dramático momento, fornecendo munição. Em pouco tempo chegaria um grande reforço de munição, enviado por Dona Federalina Augusto, de Lavras da Mangabeira, mulher varonil, política atuante ao lado do marido, que enviou cinco mil cartuchos, e telegrafou ao Padre Cícero e ao Dr. Floro, desejando a vitória dos romeiros, enquanto Aurélio de Lavor e Gustavo Lima enviavam 3.750 cartuchos (entrevista do Dr. Floro ao jornal Unitário, com data de 17/07/1915). Com todo esse reforço, o ânimo foi recobrado e também redobrado o poder de fogo. Sem grande resistência pelo lado das tropas do governo, os combatentes do Juazeiro ultimam a conquista e, às 6 horas da manhã do dia 24 de janeiro, eles entram na histórica cidade do Crato (Irineu Pinheiro, op. cit.).

A 6 horas da tarde, tudo estava consumado: os romeiros apoderavam-se da nobre cidade, consolidava-se a vitória. Simultaneamente caía Barbalha, ficando sob as ordens do Comandante-em-Chefe, Dr. Floro Bartolomeu. Com a queda das duas cidades, a notícia correu velocíssima. Decepção e frustração tomaram conta do governo e seus aliados. A euforia explodia em Fortaleza, no meio dos Marretas. Exaltado, o jornalista João Brígido fazia a apologia dos romeiros, chamando-os de libertadores do Ceará (Rodolfo Teófilo, op. cit.). No Juazeiro, intranquilo e sob forte emoção, o Padre Cícero orava em voz alta e traçava com o crucifixo cruzes na direção do Crato. Era atávico nele esse gesto de fazer cruzes com a cabeça ou orar em voz alta, mesmo em presença de alguém, diz o Padre Azarias Sobreira (op. cit.).

Consolidada a tomada do Crato, no outro dia lá chegava o Dr. Floro e seu Estado Maior: Coronel Antônio Luís Alves Pequeno, até então refugiado no Juazeiro, Pedro Silvino de Alencar, seu braço direito em toda essa luta, e o Dr. José de Borba Vasconcelos. Em casa de Dona Tidinha Alencar, tia de Pedro Silvino, foi servido um lauto jantar de confraternização pela vitória, recebendo Dr. Floro visitas de amigos e autoridades, como o Juiz em exercício, Dr. Livino de Carvalho, que deixou um documento à posteridade do comportamento do romeiro, após a queda do Crato. A citação é de Irineu Pinheiro (idem). Dia seguinte à vitória dos romeiros e a consequente queda do Crato, foi reempossado no cargo de Intendente do Crato, o Coronel Antônio Luís. O documento, no que diz respeito ao comportamento do romeiro, tem outro enfoque, diferente do construído por escritores parciais. Um tanto prolixo, dele tirei os trechos principais, documento solicitado pelo Dr. Floro (in O Rebate.)

“Os combatentes eram numerosos, estavam visivelmente famintos, a maioria em andrajos, pés descalços. Arrombaram algumas casas, que estavam vazias pela fuga dos seus proprietários, procuravam alimentos. Achando-os, devoravam com ansiedade. Era a fome que grassava entre eles, e esse é o sentimento próprio das guerras, dos vencedores, que muitas vezes abusam da sua condição de vencedores, e extrapolam, cometendo estupros, incêndios, destruição. No Crato, porém, tal não aconteceu. Eles queriam e levaram apenas armas, alimentos e munições. Nesse instante, as portas da minha casa foram arrombadas a golpes de machado, aí apresentei-me como autoridade, exigindo respeito, no que fui atendido. Em seguida eles deixaram o local, e só aí respirei aliviado”.

É esse o depoimento insuspeito do Juiz Livino de Carvalho, testemunha ocular do momento, ficando descartado o que disseram os adeptos do rabelismo, e que muitos escritores tomaram por verdadeiro: dos romeiros terem espalhado o terror, e os saques chegando a ultrapassar expectativas. Digno de nota foi o que escreveu Amália Xavier (op. cit.):

Muitos, que não eram das hostes juazeirenses, aproveitaram o momento confuso, e baixaram a mão em tudo que puderam, de preferência, em casas de tecidos e armazéns de alimentos. Estes ficaram conhecidos pelos da Retaguarda’, que nunca deram sequer um tiro. Aproveitando a ocasião, sentimento inerente aos aproveitadores de situação, de uma hora para outra ficaram muito bem de vida, finaliza a escritora.

Com a queda das duas cidades, o esperado era a renúncia do Presidente Rabelo, mas não foi o que aconteceu. O movimento recrudesceu de intensidade, quando convocou a terceira expedição, nomeando para chefiá-la o Capitão do Exército, José Alves da Penha, também conhecido por Jota da Penha, filho do Rio Grande do Norte, radicado no Ceará, onde fora eleito deputado estadual. Tanto quanto as duas outras expedições, ele vinha munido de ordens para aniquilar o Juazeiro. Dispondo de muito prestígio e autoridade, pois era um militar íntegro e valente, tão valente que se dispôs ao sacrifício de comandar o 3º Batalhão de uma luta inglória e antecipadamente perdida. Talvez o soubesse, mas cumpriu a missão para a qual fora designado, e pagou por essa missão, com sua vida. A narrativa que se segue é do último quadro da guerra.

 

ÚLTIMO QUADRO DA GUERRA—

 

O Capitão Jota da Penha seguiu para o campo de batalha com um contingente de 240 homens, que juntou aos remanescentes do batalhão do Major Ladislau, estacionados na cidade de Iguatu e imediações, a fim de barrar a passagem dos romeiros em direção à Fortaleza. A revolução do Juazeiro ultrapassara o Cariri, ganhava manchetes nos jornais do país, despertava admiração e impunha humilhação ao adversário. Prestigiado com poderes e garantias, dadas pelo Presidente Rabelo, que apostava  nessa última cartada sob o comando de Jota da Penha, seu comando dava segurança à tropa, não só por sua indiscutível personalidade, mas pela estratégia que apresentou com tudo muito bem planejado. Linha de ataque, pessoal de enfermaria, fortificação de trincheiras ao longo de todo o leito da linha férrea, que foi cercada por arame farpado, desde a saída da cidade de Iguatu a Miguel Calmon, lembrava Antônio Guilherme, um dos sobreviventes da guerra, em conversa com meu pai, e que, observando-o, guardei  para sempre. Ele pertenceu ao batalhão sob o comando de Pedro Silvino de Alencar. São relatos preciosos. Retirando-se anos depois do Juazeiro, foi morar em nossa cidade de Campos Sales, e era muito amigo de meu pai. Lembro de vê-lo em nossa casa a conversar sobre a guerra do Juazeiro, que lhe tinha deixado sequelas: só tinha o antebraço, metade havia perdido nessa luta. (Confesso: o defeito me causava medo e certa repugnância, meu pai reagia a essa minha encenação - coisa de criança, talvez).  

Depois de tomar todas essas providências, o Capitão Penha fez uma reunião para acertar os últimos detalhes da operação. Repleto de otimismo, contando com o apoio de vários coronéis do latifúndio, como os irmãos Magalhães e outros adeptos do rabelismo, disse no seu breve discurso do compromisso que assumira com o governo para rechaçar o Juazeiro e seu povo, e que o momento era de luta e sacrifício. Convocava todos ali a cerrar fileiras, quem não quisesse, estava desobrigado, e desse um passo à frente. Alguns oficiais perfilaram-se, devolvendo as armas. Em meio a esses, encontrava-se a quintessência da covardia, o tão citado Major Ladislau Lourenço, que a passos apressados deixava o recinto em direção à Estação Ferroviária e embarcava rumo à capital, deixando à mercê do novo batalhão seu refém, deputado Antônio Pinto.

Depois de uma espera de 20 dias, a 22 de fevereiro foi desfechado o ataque, que partiu dos combatentes do Juazeiro pela traição de um camponês, que deixou-os em frente à tropa militar. A posição de comando militar era excepcional, sobretudo no conhecimento do terreno, já com uma vivência de longos dias. Encurralados, os romeiros partiram para o ataque. Antes, Zé Terto trucidou o camponês que os havia traído, segundo os relatos oficiais. Aí então desdobrou-se a fuzilaria, que ecoava sertão adentro, assombrando. Foi a luta mais duradoura e encarniçada da guerra, que teve a duração de 12 horas seguidas. As duas partes sofreram revezes, mas terminou com a vitória dos romeiros sobre o batalhão do Capitão José da Penha, morto na ocasião, marcando o fim da guerra e malogrando assim seu plano de aniquilar o Juazeiro.

O Capitão Penha, aos primeiros disparos, saiu a trotes largos no seu cavalo, empunhando uma pistola de grosso calibre das Forças Armadas. Destemido, partiu sozinho em direção às trincheiras. A fuzilaria tinha a rapidez do relâmpago, diz a memória coletiva. As balas cruzavam o céu azul-cinza daquelas paragens ressequidas. Em meio ao fogo cruzado, num delírio guerreiro e patriótico, o Capitão Penha passa pelo telégrafo e transmite sua última mensagem ao governo dizendo: “Estamos sendo atacados e revidando. Viva a República!”. Esse foi o seu último ato em vida. Daí a instantes, caía o último baluarte da insensata resistência do Coronel Franco Rabelo, a última esperança de um governo incoerente e inflexível. O repelente Zé Pinheiro foi o autor da façanha. Homicida terrível, que poucos dias antes estava recluso na cadeia do Crato, onde cumpria pena. Ele tinha por hábito dizer. “Eu me danando, troco tiro até com Nosso Senhor”.

Cessado o tiroteio, médicos e enfermeiros se revezavam no atendimento aos feridos, enquanto outros eram sepultados. Vale dizer que, de uma só vez, foram sepultados na mesma cova 14 cadáveres, segundo o testemunho de Frei Marcelino de Milão, capelão dos romeiros. Esse tremendo combate deu-se em Miguel Calmon, que os romeiros batizaram de São Bentoa alusão ao nome é desconhecida. Refluindo para seus acampamentos, levam consigo grande número de feridos. Em meio a estes, gravemente ferido, Manoel Calixto, figura ímpar da revolução, por sua coragem guerreira. Mortalmente atingido, reage com espantosa fúria sobre o inimigo, quando tomba, desfalecido.

Ali terminava a guerra, tinha fim o genocídio. Recolhidos os feridos e moribundos, lá estava o saldo trágico de 74 dias de sangrenta luta entre irmãos, uma história sem precedentes em terras do Ceará. A tropa do governo estava inquieta, preocupada com o desaparecimento do Capitão Penha há quase oito horas. Depois de muitas buscas infrutíferas, resolveram usar o apito prolongado da sirene das locomotivas, numa cadência lúgubre, até esgotar. Não restava mais nenhuma dúvida, o Capitão Penha estava morto. Ao amanhecer do dia, encontram seu cadáver em um matagal não tão distante das trincheiras: jazia desfigurado, frio e inerte, em decúbito ventral, o herói da 3ª Expedição, despojado de todos os seus pertences. Junto a ele, o cadáver do seu cavalo. Sua arma havia sumido, bem como sua carteira de identidade e sua aliança de casamento, que Zé Pinheiro ostentava com orgulho para os companheiros, dizendo-se, autor da morte do bravo Capitão Penha, regozindo-se do feito. Outra vez o pânico tomou conta da tropa. Espremidos, queriam todos ao mesmo tempo embarcar no vagão que conduziria o corpo do inditoso capitão para Fortaleza. Foi preciso calma e habilidade para contê-los (Joaquim Holanda, op.cit.).

Expostos a céu aberto, muitos sobreviventes da chacina ali permaneciam e, com todo o horror que as guerras oferecem, tenentes e sargentos, indignados com a morte do seu comandante, dão cabo deles a coice de perneira, num requinte de perversidade, esmigalhando o crânio de fuzil, chutando os cadáveres. Um vagão especial foi destinado para transportar o corpo do bravo Capitão Jota da Penha, coberto com a bandeira nacional. Por onde passava, recebia a homenagem do povo simples e fiel do sertão, num tributo ao grande herói sacrificado no campo de guerra. A tristeza, acoplada a um misto de decepção e ódio, tomou conta dos rabelistas aquinhoados do governo. Decepcionados e enfurecidos pela morte do Capitão José da Penha, responsabilizam Pinheiro Machado pela perda do Exército. Houve tumulto e quebra-quebra em Fortaleza, com ameaças de incêndio. Apareceu entretanto alguém sensato, e o motim foi contido, seguindo-se o enterro do bravo capitão, com todas as honras merecidas, escreveu Rodolfo Teófilo (op.cit.).

A morte do Capitão Jota da Penha virou lenda. Os cancioneiros anônimos, numa canção de gesta, exaltam seus feitos e narram, em versos lúgubres, sua morte e a de seu cavalo. Seu sacrifício, como o dos romeiros vencedores, tornou-se num épico, o grande épico cearense: a canção de melodia triste exaltava a figura de J. da Penha e do seu cavalo. Nascida e criada no sertão, sempre ouvi essa melancólica história da guerra, com tantas implicações de ordem política e moral, de heroísmo e covardia, e também de crueldade. No lugar onde tombou o Capitão José da Penha, foi erguido um monumento à sua bravura.

A revolução que ultrapassou o Juazeiro chegava agora à capital. E lá eles chegaram, dando vivas ao Padre Cícero e à Nossa Senhora das Dores, se impondo, orgulhosos do seu feito. Era o triunfo épico de anônimos combatentes que ganhavam as manchetes dos jornais, e com suas armas equilibradas aos ombros, em reluzentes animais, lá chegaram como verdadeiros heróis, trazendo como símbolo um lenço vermelho ao pescoço, e na cabeça o chapéu de couro, onde figurava, presa à borda, a medalha com a efígie do Padre Cícero. Exaltado, o jornalista João Brígido chamava-os de heróis libertadores do Ceará, pela audácia de enfrentar um governo constituído. E pensar-se que eles não eram heróis aristocráticos, mas simples homens retirados da massa camponesa. De emergentes, insignificantes até, eles passaram a heróis, eufemismo criado pelo citado jornalista, que muito se empenhou pela derrubada do Presidente Rabelo.

O ato de rebeldia ofendeu os fortalezenses, e principalmente o Exército, que, junto à polícia do Rabelo, criaram uma confusão, nascendo um ciclo de brigas na capital. Os romeiros, ao serem chamados de jagunços, partiam para a briga, e regiam a  espingardas e punhais, na maioria das vezes. A ciranda do imaginário alastrou-se em toda a capital, chamando-os de brutamontes, assassinos frios e um sem número de adjetivos, causando mais pânico, imprimindo grande medo. Misturada fantasia à realidade, ia tomando consistência, na mente de cada um, ao ponto das próprias freiras da Imaculada Conceição, o grande colégio tradicional e de elite, endereçarem um apelo ao Senador Rui Barbosa, e também ao Cônsul da França, pedindo garantias para as meninas internas e para elas, freiras do estabelecimento, a maioria francesas. E fazem mais: ameaçam hastear a bandeira da França na porta principal do colégio. Rui Barbosa lança um manifesto de repúdio ao movimento revolucionário do Juazeiro, e do alto da Tribuna, através de sua pena brilhante, ataca violentamente o Padre Cícero, e o chama de figura sinistra, samarra ensanguentada.

Esse contundente discurso nada mais era que a resposta presa há anos e nunca perdoada, pelo fato do Padre Cícero não o ter apoiado na sua candidatura civilista para a Presidência da República, apesar das rogativas dos quatro cantos do país, de altos políticos e da própria Igreja, como os bispos do Piauí e do Maranhão, e de seus fiéis adeptos de Alagoas, quando apoiou a candidatura Hermes da Fonseca, que foi vitoriosa. Diante de um novo quadro que surgia delineando novas cores, foi decretado o Estado de Sítio no Rio, estendendo-se do Distrito Federal ao Ceará.

Horas depois, seria nomeado interinamente para o governo do Estado o Coronel do Exército, Fernando Setembrino de Carvalho, já cupando as funções da 4ª Região Militar. De acordo com o artigo 6º, nº 2, da Constituição Federal, pelo Ministro de Interior e Justiça, ele assumiu o governo do Ceará. Ficando assim confirmada a deposição do cargo de Presidente do Estado do Coronel Franco Rabelo que, quando comunicado da intervenção, ainda esboçou um ato de resistência, por sinal o último da sombria história do seu governo, insistindo em permanecer no cargo através de um ofício, que aqui vai transcrito ipsis literis:

“Em resposta ao Ofício de V. Excia. datado de hoje, tenho a comunicar que, em obediência  aos deveres e atribuições que me confiou o Estado do Ceará, não devo passivamente,  submeter-me à intimação do dito Ofício de V. Excia, e do Governo Federal - contestando os fundamentos do decreto do Exmº Sr. Presidente da República de ontem, em que resolveu interferir neste Estado, nos termos do artigo 6º 2 da Constituição da República. Declaro público e peremptoriamente que mantenho em toda plenitude e integridade o exercício das funções de Presidente deste Estado, das quais poderá V. Excia. se apoderar quando quiser e como entender, na certeza de que, cedendo eu ao ato injusto e violento do Exmº Sr. Presidente da República, pugnarei em todo o tempo e oportunidade pelo direito que me assiste, de Presidente do Ceará legitimamente eleito e legalmente reconhecido pela Assemnbleia Legislativa deste Estado, e pelos poderes da União.

                             “Marcos Franco Rabelo – Presidente do Ceará”

Este documento seria o último que levaria sua assinatura como Presidente do Ceará, quando enfim retirou-se do Palácio da Luz para a residência de seus familiares. Fortaleza estava de luto, não pelas perdas de tantas vidas – para os maiorais da situação, isso é banal, sem nenhuma importância. Mas sim pela perda de cargos e posições de mando, e o banimento de forma humilhante do seu Presidente — o Coronel Marcos Franco Rabelo. Terminava assim de forma violenta e melancólica o malfadado Governo da Salvação. Apoiado e querido da sociedade tradicional e conservadora de Fortaleza, recebeu uma verdadeira consagração em vida, com Te Deum, discursos laudatórios e inflamados, e foi aclamado numa procissão ruidosa de protesto ao ato impatriótico do governo da nação. A citação é de Rodolfo Teófilo (op. cit.). Recolhendo-se à casa de sua filha, Alba Rabelo, para em seguida refugiar-se a bordo do Navio Tupi, ancorado no porto de Fortaleza, quando seguiu em direção ao Rio, no navio São Paulo, deixando atrás de si um rastro de sangue, que tingiu as alvas terras do sertão cearense, enlutadoo, pelo número incontável de mortos e mutilados.

 

 

****

                                                                                        

CAPÍTULO 16

PADRE CÍCERO, LÍDER DA MEDIAÇÃO E DO CONSENSO

                                                                  

                                                                   O Padre Cícero foi o maior líder

                                                                  natural  que já deu o nosso povo.

                                                                    (Jesuíta e poeta Aires de Montalvo)

                                                                                              

                                                                                                                     

A epígrafe acima atesta, de fato, a liderança do Padre Cícero em todo o Nordeste. A vitória do movimento subversivo ganhou ampla repercussão, ultrapassando fronteiras. Uma torrente de alegria inundou o Juazeiro: centenas de telegramas lhe eram endereçados de todos os quadrantes do País, em regozijo pela vitória. Em meio a  centenas de telegramas, os do Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, do Senador Pinheiro Machado, e da Câmara e Senado. O texto, um só: o restabelecimento da ordem pública”. Dali em diante, Juazeiro tornar-se-ia uma meca política, com trânsito dos mais eminentes políticos, das mais diferentes ideologias. O previsto por todos aconteceu: Dr. Floro ganhou um prestígio incontestável, atingindo o zênite da sua carreira política, como citam os documentos da época.

Quanto ao Padre Cícero, consolidou-se politicamente, alçado à posição de líder, conselheiro político, mediador e fiel da balança da política cearense. Para observadores atentos dos fatos do Juazeiro, quer de ordem religiosa, quer política, foram fatos inusitados e surpreendentes, começando por sua emancipação política, com o povo a manifestar-se em praça pública, expressando sua vontade, quando os movimentos políticos eram restritos somente a um grupo que dirigia e falava em nome de todos, o que não deixa de ser significativo. Aliás, a livre manifestação do seu povo já vinha desde os milagres, quando a maioria da comunidade se manifestou para Roma, em documento oficial, com assinatura até mesmo de mulheres, deixando o Bispo escandalizado e indignado, reprovando e classificando de ousadia. Com efeito, daquele ano até 1930 todos os escritores são unânimes em afirmar o prestígio político do Padre Cícero, no âmbito da política cearense, como Conselheiro, daí seu prestígio para a alta cúpula da política do País.

Enquanto ia acumulando uma enorme soma de poder político, o Juazeiro transformava-se numa espécie de meca política. Lá chegavam polítícos das mais variadas tendências, a sós ou em comitiva, para visitá-lo e implorar-lhe o milagre pela continuidade de suas carreiras, algumas já em franco declínio. Tornaram-no num oráculo, além de carregar aos ombros a enorme e gigantesca massa humana, caso único no Nordeste. Estava implicitamente estabelecida, a partir de 1915, a grande ascensão política que o Juazeiro ganharia no cenário da política nacional, continuando até o ano de 1930. O Senador Fernandes Távora, observando seu prestígio político escreveu:

O Padre Cícero foi, no seu tempo, o homem mais prestigiado do País, esperava-se até que mais fizesse pela educação, dado o prestígio que logrou, entretanto a intervenção diabólica de Floro Bartolomeu não permitia, a ele não interessava que se abrissem aos broncos a luz do saber; interessava sim a treva mental dos romeiros para poder dirigi-los a seu modo”.

Era o malogro político do velho contra o novo que surgia, deixando clara a ogeriza política da velha ala conservadora e empedernida contra o Dr. Floro, ao construir uma história política, de lances corajosos, multifacetada, autoritária; para muitos, violenta. Para os velhos políticos oligárquicos, Dr. Floro era um intruso na política cearense, desde que galgou projeção elevada após a guerra do Juazeiro. Quanto ao alto conceito político no País que adquiriu o Padre Cícero, eis o que disse Edmar Morel (op. cit.):

O Padre Cícero galgou um degrau tão alto na política do País, que poucos foram os que atingiram esse degrau. Ele foi de fato o homem mais prestigiado daquela época. Cabe-lhe ainda o mérito de ter sido o criador de uma política de cunho populista, até então inexistente. Dela aproveitou-se mais tarde o Presidente Getulio Vargas, para implantar a sua tão discutida política populista”.

E acrescenta:

“Ele teve poderes para fazer do Juazeiro um núcleo cultural de grande expressão, não fez. Era de se esperar que, convivendo com o mundo letrado de Roma, durante quase um ano ao retornar, viesse imbuído de novas ideias para fazer do Juazeiro um polo de cultura. Tinha prestígio bastante para fazer, depois de se ter tornado um líder político.

O autor deixou-se levar por informações que não refletem a realidade dos fatos, pois só o ter querido fundar no Juazeiro a Diocese do Cariri, e com ela um Seminário, no longínquo ano de 1898, fica claro nesse detalhe seus esforços para tirar o Juazeiro do atraso, e isto foi uma constante em sua vida.

Na realidade, o autor não exagerou ao falar do seu prestígio político e social. A simples leitura de sua correspondência pessoal fala por si só: dezenas de cartas que trocava com políticos de nomeada das mais diversas tendências. Despertou admiração em intelectuais como Gilberto Amado, que se solidarizou com ele pelo discurso na Câmara Alta, em 1923, quando Dr. Floro o defendeu de acusações que não condiziam com a realidade do Juazeiro.

Cartas de eminentes políticos, que faziam o fino intelectual da Câmara e do Senado de então, como o Senador Epitácio Pessoa, Cincinato Braga, o Presidente da Paraíba, João Pessoa, Flores da Cunha, Ramalho Ortigão, Artur Bernardes, depois Presidente da República, o também Presidente Hermes da Fonseca, Pinheiro Machado, Dr. Antônio Accioli, Juarez Távora, Tavares Cavalcanti, dentre tantos outros, que seria impossível listá-los O engenheiro Arrojado Lisboa era um dos seus admiradores, como também os engenheiros ingleses e norte-americanos, que vieram ao Ceará a serviço da construção da linha férrea. Sua performance impressionava-os e, fascinados, saem de lá tecendo elogios do conhecimento que ele tinha da História Natural. A Fundação Rockefeler lá também fora, recebendo todo seu apoio no combate à febre amarela. Assim o Juazeiro se movimentava a todo vapor, metamorfoseando-se numa cidade cosmopolita, não é demais dizer-se. Sentindo toda essa força, o Padre Cícero se sentiria mesmo um predestinado? A senha para lá chegar conferia atestado de status: ser recebido pelo Padre Cícero dava realce, imprimia grandeza.

O que trazia essa leva de pessoas a querer vê-lo e ouvi-lo? Lá chegavam pessoas da maior projeção social, como o grande latifundiário alagoano, Coronel Manoel Fernandes da Costa, que, de dois em dois anos, fazia o percurso com uma comitiva de 100 pessoas, acompanhado de uma banda de música, para homenageá-lo. Era mesmo o apogeu do culto à sua personalidade. Seria mesmo ele um ser diferente, um profeta da antiguidade, que os mais notáveis estudiosos de fenômenos dizem só aparecerem de tempos em tempos? Para a maioria do povo, ele era mesmo um “Santo”, fazia milagres, tudo previa, tinha premonições extraordinárias, profetizava, descrevia lugares onde nunca fora, por exemplo, a vivenda do Monsenhor Távora em Manaus, como também previu a queda da família imperial, anos antes dela se concretizar. Ubiquidade ou telepatia? Seus detratores gratuitos davam esses fatos como pura ilusão; outros, que nutriam por ele um despeito insopitável, davam outra conotação aos fatos, como por exemplo, o que disse o cratense Padre Irineu Limaverde, numa palestra na mesma cidade, a qual tive oportunidade de assisti-la. De acordo com ele, “o dom de ver as coisas ao longe e fazer previsões fantásticas era fantasioso, um truque bem encenado”. Segundo ele, o Padre Cícero mantinha em vários pontos do Nordeste uma espécie de rede de informação prévia da chegada dos peregrinos ao Juazeiro. Aí então ele, já conhecedor dos fatos da vida daqueles, discorria sobre particularidades íntimas de cada devoto”. Inconcebível!, se pensarmos nas dificuldades de deslocamento da época e a comunicação precária. A exposição do representante do clero atesta evidentemente o desprezo da classe ao Padre Cícero. Tranformado no grande mito, envolto pela auréola de mistério que o cercava e da aura que carregava consigo, esses arremedos sem base científica nenhuma não se sustentavam.

Gustavo Barroso, analisando-o, disse: O Padre Cícero foi o maior centralizador de enegia, em todo o Nordeste brasileiro” (Revista O Cruzeiro, 1955). Faço mais uma vez menção ao Jornal O Rebate: lá encontrei uma lista de 28 pessoas de classe social elevada, incluindo políticos que foram ao Juazeiro para visitá-lo. Imagine-se o quanto isso não era desgastante para ele, mas a todos recebia. Houve pessoas que lá ficavam por 15 dias, até conseguirem ser recebidas.

Era o auge da glorificação.  Para mais glorificá-lo, veio o reforço dos repentistas do cordel, quando o alçaram à posição de Santo, Rei e dono do Brasil, como atestam os versos do cordelista de primeiríssima qualidade, o paraibano Leandro de Barros, o primeiro a projetá-lo na literatura de cordel. Leandro Gomes de Barros despertou a admiração de intelectuais do porte de Afrânio Peixoto, Câmara Cascudo e Leonardo Mota, entre tantos outros. Também o paraibano João Mendes de Oliveira exaltava em versos suas virtudes e seu poder político. Seus versos em sextilhas fizeram fama, incensórios, num estilo hiperbólico. Para o Dr. Floro, João Mendes sofria de distúrbio mental, daí a forma louvaminheira dos seus versos. Eis uma amostra do que escreveu:

                               É um pastor delicado

                               É a nossa proteção

                               É a salvação das almas

                               O Padre Cícero Romão

                               É a justiça divina

                               Da santa religião

                               É dono do Horto Santo

                               É dono da Santa Sé

                               É uma das três pessoas

                               É um filho de São José

                               Manda mais que o Venceslau

                               Pode mais que João Tomé

 

Projetado não só na literatura de cordel, mas também com a impressão da sua efígie em calendários, espelhos de bolso e caixas de produtos farmacêuticos disseminados por todo o País. Mas ainda estamos no ano de 1914. No mês de maio, foi nomeado Presidente do Estado o Coronel do Exército Benjamim Liberato Barroso para concluir o governo de Franco Rabelo, provisoriamente substituído pelo Coronel Setembrino de Carvalho. Como esperado, foi reintegrado no cargo de Intendente do Juazeiro o Padre Cícero, enquanto que o município seria elevado à categoria de cidade e comarca de primeira instância. Em Fortaleza, numa sessão tumultuada, foi eleito Presidente da Assembleia Legislativa o Dr. Floro Bartolomeu, cuja escolha redundou em verdadeiro atrito com o grupo paroquial do Cariri, dantes seu aliado. O grupo era constituído pelo Dr. Hermínio Barroso, Coronel Tomaz Cavalcanti, Dr. Aurélio de Lavor e o Coronel Gustavo Correia Lima. Esses, que poucos meses antes o ajudaram a fazer a guerra, declaram-se contrários à sua eleição à Presidência da Casa. O caso era simplesmente sua exclusão da política cearense, como ficou claro. Se dizendo contra, a alegativa era a de que o Dr. Floro, galgando essa posição, passaria a acumular uma enorme soma de poder e faria de todos subservientes às suas ordens.

Nessa altura, ele contava com o apoio do Presidente Hermes da Fonseca, Francisco Sá e demais políticos em escala nacional. Todo esse prestígio causou ciúme, e unem-se  para derrubá-lo, mas infrutífero, pois ele não dobrou-se às injunções políticas, e partiu para guerra interna, conforme suas próprias declarações ao jornal Unitário (Ano de 1915). Para a turma do contra, o fato era o do acúmulo de poderes que já dispunha, e presidir a Assembleia era dar-lhe poderes demais. Rechaçando algumas das leis que criara, como a da indenização às vítimas da guerra, a ala dissidente dá por terra, e o Presidente do Estado veta-a. Orçada em 400 contos de réis, recebeu não só do Presidente em exercício Benjamim Barroso o voto contrário, mas de quase toda a bancada governista.  Aí os ânimos acirraram-se e houve troca de farpas, agravando-se com a demissão de Pedro Silvino de Alencar, Chefe do Batalhão Civil, composto pelos combatentes do Juazeiro. Decepção em dobro e inusitada para a época, pois feita através de um simples telefonema.

Dr. Floro via dessa forma se dissolver o grupo que parecia antes unido até para deflagrar uma guerra. Eram dele amigo ou como manda o figurino político de ontem e de hoje, simples aproveitadores de ocasião? Com a demissão do Coronel Pedro Silvino de Alencar, na mesma ocasião a anulação de Deputados à Assembleia Legislativa, dos Drs. Alvaro Fernandes e Guilherme Studart, embora mais tarde fossem reconhecidos por pequena minoria. Nasceu desses conflitos a cisão entre a ala Aciolina, os Marretas, e uma pequena ala chamada Unionista, que unidos, lembremo-nos, formaram uma só corrente, ajudando na derrubada do Presidente Rabelo.

Nessa altura, com a situação tensa, os representantes de Lavras da Mangabeira, Coronel Gustavo Correia Lima e Aurélio de Lavor, remetem um telegrama ao Padre Cícero, onde pediam que interferisse nos acontecimentos, já que o Dr. Floro tinha todo seu respaldo político. Sabedor do telegrama, ele inflamou-se, e sempre afirmando sua personalidade corajosa e invencível, aqui já tão colocada, indiferente à oposição que lhe faziam os representantes do Cariri, exceção para o Coronel Antônio Luís, que lhe deu apoio, telegrafa urgente ao Padre Cícero, num tom de ressentimento, dizendo:

Caso insista em interceder daí nessa verdadeira pantomima, criada por egoístas sem escrúpulos e pérfidos, avise-me, para que imediatamente me retire da política cearense, não voltando jamais ao Juazeiro.”

Horas depois enviava uma extensa cópia de um telegrama que o Padre Cícero deveria passar para o Presidente Hermes. Sem omitir nehuma vírgula, o referido telegrama foi passado, e aí, com a interferência direta do Catete, as coisas voltaram aos trilhos, mas com a ruptura outra vez do jornalista João Brígido, do Coronel Pedro Silvino de Alencar, do Coronel Antônio Luís, do Crato, que permaneceram na Ala Aciolina, bem como os dois chefes do Juazeiro: Padre Cícero e o próprio Floro.  

Passados 92 anos desses fatos, a política em nada mudou, continua a mesma, do ridículo dos conchavos, difamações, vinganças, nepotismo. O de ontem é o mesmo de hoje. Uma degradação maciça.

 

AINDA OS ANOS 1914-1915

 

Apesar de ascensão e vitórias nesse ano de 1914, alguns fatos ensombraram o cotidiano do Padre Cícero, numa sucessão vertiginosa de acontecimentos.

No dia 5 de Agosto, faleceu sua mãe, Dona Quinô, depois de longos padecimentos por cegueira e paralisia. Dias depois, ele teve o desconsolo de ver o seu Juazeiro, mais uma vez, transformado num campo de batalha. Só que desta vez por motivos pessoais dos bandos rivais que lá viviam. O estopim para o brutal acontecimento que a imprensa chamou de Sábado sangrento” – foi tão somente a nomeação de Quintino Feitosa para delegado, que os bandos rivais não aceitaram. Considerado o Herói da Revolução do Juazeiro, por seu destemor, por sua firmeza e capacidade das suas ações, desencadeou no meio das facções beligerantes um terrível ódio, não aceitando o título de combatente máximo da revolução, que lhe foi dado pelo povo. Indignados, covardemente arquitetam um plano com o fim de eliminá-lo. Armados de fuzil e rifle, partem para a empreitada sem um motivo plausível senão o despeito. Armam o grande golpe.

No meio deles havia diferentes facções, sendo que a principal, por ser a mais sanguinária, era a de Zé Pinheiro e seu irmão Sinhozinho. Possuídos de ódio, já desentendidos com Quintino, por não se dobrar às suas vontades, arquitetaram o odiento e audacioso plano: tirá-lo de circulação. Numa crueza sem limites, mas própria de bandidos, o ataque foi brutal, além de covarde, pois Quintino estava só e recolhido à sua casa, com seus familiares. Inconformados e indignados com sua nomeação, fecharam o Juazeiro (jargão policial) por um cerrado tiroteio que teve a duração de 23 horas, quando virou uma praça de guerra. Antes, já haviam invadido a Coletoria estadual, depredando-a, numa explícita ameaça a Quintino, porque o seu titular, Francisco Morato, era seu cunhado. Pernambucano de Pajeú das Flores, segundo a crônica local, Quintino Feitosa era um homem de fibra, destemido o bastante para não se intimidar ante as hordas sanguinolentas, conhecidas por sua crueldade, como Zé Pinheiro. Amigo e compadre do Padre Cícero, que tinha por ele, uma consideração especial. Já ameaçado de morte, Quintino não tomou nenhuma precaução, senão refugiar-se em sua casa, não por covardia, segundo os que escreveram sobre o trágico acontecimento, mas para evitar um novo embate e mais luta, já que o Juazeiro mal se recompunha da malfadada guerra, que teve um epílogo sangrento.

Recluso e sozinho, emparedado, reagia ao ataque covarde e brutal de grandes cangaceiros, à frente Zé Pinheiro, ele, que foi o autor material da morte do inditoso Capitão Jota da Penha. Acompanhado de seu irmão Sinhozinho, vai à casa de Quintino, que morava nas Malvas (um dos pontos estratégicos da revolução, que impediu a entrada da tropa militar). Lá chegando, procuraram intimidá-lo com ameaças. Quintino não queria briga, exige que se retirem dali, da sua casa, do lugar onde morava. Mas inútil, não lhe deram ouvidos. Em fração de horas, as ruas do Juazeiro contavam com mais de 600 homens em armas. Para o jornalista Francisco Fernandes do Nascimento, que reviveu o dramático acontecimento em 1955, através da Revista A Cigarra (Rio), o número de cangaceiros chegou a 1000. Foi um verdadeiro dia de São Bartolomeu, escreveu o jornalista. O escritor Antônio Xavier (op. cit.), referindo-se ao episódio escreveu: “As almas bem formadas, os homens de bem da cidade, sem ter  para quem apelar, eram constrangidos a ver, impotentes, o assassinato bárbaro, frio e premeditado de um herói”.

O bando criminoso, já no terreiro da casa de Quintino, quando ele ainda tentou com eles dialogar, mas inútil. Sinhozinho não aceita o diálogo e dá o primeiro tiro, seguido por muitos outros, tentando alvejá-lo. Quintino defendeu-se da tentativa, mas na ligeireza de um felino, Sinhozinho outra vez faz pontaria certeira pela única janela aberta, outra vez perdendo o tiro. Aí então houve o revide: com a mesma ligeireza do felino, Quintino sacou do seu rifle, e fez o que qualquer um faria, acertando em cheio, atingindo Sinhozinho, que ali mesmo cai. O bando avança. Deitam por terra as portas e adentram para o interior da casa. Nesse momento, Zé Pinheiro, vendo o irmão agonizando, não se contém, o que seria inimaginável pensar-se. Transtornado, saca do seu poderoso rifle e detona toda a carga sobre Quintino, em presença dos seus familiares, que lhe imploravam não o fizesse. Tombava ali o Herói das Malvas.

Seguindo-se então tiros e mais tiros, todos ao mesmo tempo, atirados a esmo, conforme depoimento de Amália Xavier (idem), que escreveu: as balas cruzavam os céus do Juazeiro, chegando a atingir a calçada da residência de meus pais, e por um triz não fui vítima, pois naquele momento lá brincava com um dos meus irmãos mais novos”. Nesse instante doloroso, chegava ao local o Padre Cícero, que encontra as duas vítimas já mortas; nada mais tendo a fazer, senão o que mandava sua condição de sacerdote, dá-lhes a absolvição, e imerso em dor e choque consola a esposa de Quintino, Dona Petronília, que em desespero e inconformada debulhava-se em lágrimas. Desnorteado com o brutal acontecimento, tentando transmitir calma, o Padre Cícero implora (é a palavra exata) que os bandos se retirem do local, em nome de Deus. Foi atendido, mas logo que retirou-se de lá, eles voltaram. Zé Pinheiro, fervente de ódio pela perda do irmão, vocifera, grunhe, ladra, xinga, ameaça tudo e todos, e uma atmosfera diabólica dele tomou conta, e dizia: quem não é por mim é contra mim.

Naquele trágico momento, feharam-se todas as portas das casas, quando então ele tomou conta do lugar. Só ele era o dono, empunhando o rifle, subia e descia ruas e vielas, falando coisas desconexas, transtornado, ameaçando quem ousasse intervir. Todo o Juazeiro estava recluso em suas casas, aguardando mais desfechos, e somente o Padre Cícero enfrentava a ira e as balas dos cangaceiros. Dr. Floro se encontrava em Fortaleza, e ao ser informado por telegrama do horror voltou ao Juazeiro, mas era tarde, muito tarde. Naquele momento, periclitou a autoridade moral do Padre Cícero, e suas lições de perdão e amor não surtiram efeitos para as hordas desenfreadas, de mentes obnubiladas num turbilhão de ódios, que não aceitavam render-se ao imperativo da ordem e da lei, enquanto ele arriscava sua própria vida, em meio ao tiroteio.

Considerado por todos um monstro cruel, Zé Pinheiro prova que realmente o era. Retornando ao local do macabro acontecimento, manda um dos seus comparsas comprar uma garrafa de aguardente, adentra a residência de Quintino, retira-o da cama para onde seus familiares o tinham levado. Sem um mínimo de compaixão e respeito, conduz o cadáver até o terreiro, senta-se sobre o seu abdome e corta-lhe o lábio superior, mergulhando-o na aguardente, sorvendo a estranha bebida ao som de estridentes gargalhadas. Mas foi contido por alguém do bando, que o retirou de cima do cadáver, dizendo-lhe respeitasse o morto, que na verdade era um homem valente, de bem, que nem satanás seria capaz de um ato daquele. As vítimas foram sepultadas em clima de medo e silêncio, silêncio apenas quebrado pelo toque pungente e triste do sino da Igreja de Nossa Senhora das Dores, que com certeza também chorava.

A repercussão do episódio foi imensa nos círculos políticos da capital, com a imprensa a atacar brutalmente o Padre Cícero e o Dr. Floro. O Presidente Benjamim Barroso, em telegramas urgentes, pede-lhe explicação para tamanho desastre, e ordena prender os bandidos, mas, de acordo com o que escreveu Xavier de Oliveira, ninguém foi preso, muito menos Zé Pinheiro, que continuou na sua casinha de taipa nos arredores do Juazeiro, pitando seu cachimbo, onde dias depois o encontrei para uma entrevista”. Nessa sequência de acontecimentos desagradáveis, até a própria natureza encarregava-se de enviar os seus, com a chegada da terrível seca de 15, considerada pelos historiadores como a maior do século XX, igualando-se à trerrificante seca de 1877, pelo flagelo que provocou, físico e material. O estrago que ela produziu foi incalculável, com a extinção de quase todo o rebanho, bovino e caprino, a mortandade de mais de mil pessoas esse o número, registrado em cartório. Foi quando houve a debandada geral do braço humano para o Acre, ainda no auge da borracha, de mais de 75 mil pessoas. O Estado paralisou-se: as exportações de algodão e peles para o exterior foram canceladas, acarretando prejuízos incalculáveis (Raimundo Girão, em História das Secas). Para se ter uma ideia do que foi o tenebroso momento vivido pelo Ceará, só o teor desse telegrama do Padre Cícero para o Secretário da Agricultura da época define o momento:

Dr Graco Cardoso Rio:

Pelo amor de Deus, acuda-nos, povo morrendo de fome. Agora mesmo, sepultaram oito. Socorros tirados toda parte nada chegam aqui. Por Deus me entenda, ajude-me a salvar vidas. Promessas fizeram de trabalho inviável. Esperanças não servem mais. Saudações. Pe. Cícero.

Duplamente amargurado, ele vê o descaso político, e se aflige, pede socorro, em tom dramático, quando testemunhava in-loco a mortandade de pessoas e de animais, sem recursos para salvá-los, sem ter para quem apelar. O poder público, a quem compete, sempre omisso, ou quando muito, fazia promessas irrealizáveis, conforme citado no telegrama acima. Seu humanismo não teve similar em terras do Nordeste, ele foi ímpar. O sertanejo conformista, sofrido e desiludido de tudo e de todos, transformou-o no porta-voz das suas reivindicações, dos seus sofrimentos, das suas desilusões.

Mas a grande seca de 1915, não seria a última a enfrentar, veio a terrificante, de 1918-19, acompanhada da gripe espanhola, chamada de “Bailarina” ou influenza, sequela da Grande Guerra de 1918. Democrática, ela fez muitas vítimas, em todo o Cariri. Não escolhia posição social, ricos e pobres foram afetados pelo medonho mal. Outra vez lá está o Padre Cícero na trincheira, pedindo socorro aos poderes públicos. Dessa vez, foi ouvido. Pois foi a partir daí que tiveram início as frentes de serviço no Juazeiro, sob a chancela de Epitácio Pessoa e com a supervisão de Floro Bartolomeu, que não admitia fosse o dinheiro público saqueado. Esse detalhe da sua vida política é um fato, atestado por todos. Jamais se locupletou com verbas públicas. Depois do muito que foi dito sobre ele, verdadeiro ou não, redimiram-no com esse detalhe, a de não se apropriar do dinheiro do povo. Foram coerentes. Esta não seria a última seca que o Padre Cícero veria. Veio a de 1932. Dois anos depois, falecia o grande humanista.

A seca, que os políticos nordestinos dizem insolúvel, só tende a piorar a cada ano, pois até o seu outrora rico solo, hoje desertifica-se. As queimadas a causa do fenômeno, acrescida dos agro-tóxicos. O problema é insolúvel? A falta de precisão dos governantes, isto sim é insolúvel, pela insensibilidade para com o nordestino de modo geral, que depende da água para sobreviver. Em jogo estão os interesses de muitos, sobrepondo-se ao que deveria ser prioridade a seca, com suas graves consequências. O sertanejo fica à mercê de antídotos passageiros, que são as frentes de serviço, num assistencialismo barato e ultrapassado. Hoje, elas já não mais existem, e sim as chamadas Bolsas de Auxílio, criadas pelo governo federal com diversos nomes.

A seca da minha terra é rotulada de “Indústria da Seca”, sabiamente batizada pela imprensa. Problema detectado desde os primórdios da colonização do Estado, quando foi registrado pelo Jesuíta Fernão Cardim, no ano de 1587, até hoje sem solução. Os estudos recentes mostram a dura realidade. O Nordeste está inserido no Semi-árido, e o Ceará detém cerca de 92/100 de sua área embutida nesse contexto, o que se torna alarmante pela escassez da água. Chegamos ao século XXI, quando o avanço tecnológico é imenso. O grave problema continua irresolvido, pois para a classe dos políticos detentores do poder é um caso insolúvel, quando sabemos ser a irrigação o caminho certo para resolvê-lo, pela transposição das águas do São Francisco, tão próximo dos estados castigados pela seca. Basta constatarmos a maravilha da irrigação, nas cidades geminadas de Petrolina e Juazeiro da Bahia, com uma fruticultura totalmente irrigada. Seu imenso e fértil pomar, de primeira qualidade, pela excelência de suas frutas exportadas para o exterior, como: melão, manga, uva, e outros comestíveis, como o aspargo e tantas outras, fez do Vale do São Francisco uma referência brasileira em alimentos de primeira qualidade. Por isso, Petrolina é chamada de A Califórnia Brasileira. É evidente e plausível: com a irrigação, o fluxo migratório tornar-se-á irrisório. Faltam apenas vontade e amor para resolver o conflito secular.

Nada mais restando ao nordestino, só há duas alternativas: ficar e morrer de fome, ou partir e sofrer. Os grandes centros viraram depósitos desses mártires da seca, que vão viver ao Deus-dará, sem nehuma esperança, e tudo faz crer que ainda viveremos por muito tempo a angustiosa situação, porque, quando surge um interessado em resolver o problema, é barrado automaticamente por forças políticas contrárias, caso do ex-Governador do Ceará, Ciro Gomes, o único até hoje na história do Estado a dar vida ao projeto da irrigação, que embora pequena, é bem verdade, muito ajudou, levando ao povo muito pobre o precioso líquido a água, problema maior e mais grave do nosso Estado. Apesar de modesta, essa sua atuação o dignificou, tornando-o num estadista.

As ONGs que proliferam pelos quatro cantos do País, uma já se posicionou contra a transposição das águas do São Francisco para os estados altamente castigados pela seca, e isto com o apoio de políticos mineiros, baianos e de Sergipe, que barram a transposição das águas do São Francisco para a parte mais afetada pelo fenômeno. A atitude dessas pessoas, se posicionando contra a transposição, é de uma crueldade inominável, por deixar o ser humano relegado à condição secundária, isto é: morrer de fome e sede, em detrimento da natureza, ou de vantajens próprias. Um absurdo! Portanto, ao que tudo indica, a transposição das águas do São Francisco para os estados castigados pela terrível e contínua seca não passa mesmo de um projeto quimérico. Assim estaremos fadados a caminhar ad infinitum, porque, quando não é um dos partidos políticos que se levanta, aliás, e a bem da verdade tanto de direita, como de esquerda, ambos reacionários, juntando-se ainda, o grande poder do latifúndio, com seus interesses. Enquanto isso, continua a imigração, a invasão de propriedades, os massacres também, de lado a lado, pela indiferença para com o problema. Canudos e o Caldeirão (Crato) são o retrato vivo desse descaso secular. Portanto, o Professor Josué de Castro continua atualíssimo, no seu brado de cobrança.

Siglas foram criadas com o intuito de amenizar o problema, quando rios de dinheiro também foram queimados, sumiam do mapa das secas, parando nos bolsos dos mais espertos, e isso é uma constatação veraz. Por exemplo, em 1958, no alegre Governo de JK, a coisa chegou a um ponto tão grave, que a imprensa verberou em alto e bom som contra o sumiço do dinheiro, que chegou a bilhões, isso mesmo, bilhões de cruzeiros, nascendo grandes fortunas. A única coisa foi terem terminado o açude do Orós, que já se arrastava desde 1904. É mesmo de pasmar e envergonhar. As siglas IFOCS, hoje DNOCS, DNER, a própria SUDENE, SUDAM, e tantas outras, foram criadas para grandes fins. Não foram, o tempo encarregou-se de mostrar a inutilidade delas.

Recuei a longínquos anos, outras vezes avancei um pouco, como no caso do ex-Governador Ciro Gomes, andei pelas praias dos excluídos, que de tanto esperarem chuva e melhoria de vida, não conseguem sensibilizar a quem detém poderes, e assim eles caminham pelos tempos afora, resistindo e morrendo, morrendo e resistindo, na expressão do imortal José Américo de Almeida, em A Bagaceira (1930).

Retomo à narrativa histórica do Padre Cícero e de seu Juazeiro. Findo o tormentoso ano de 1915, chegou 1916, e com ele, um pouco de alívio, pois veio acompanhado de providenciais chuvas, fazendo a alegria do sertanejo. Apesar de todas essas sequelas, o Juazeiro reagia, e se desenvolvia. Nesse ano, foi inaugurada uma das mais notáveis obras sociais do Padre Cícero, um ponto a mais de referência: o Orfanato Jesus Maria José, que abrigava órfãs, recebendo educação básica e também o do ensino profissionalizante, trabalhos manuais de grande utilidade, no dia a dia das pessoas. Professoras competentes esmeravam-se, tornando-se assim um símbolo do Juazeiro, tanto quanto sua estátua e a Igreja-Matriz de Nossa Senhora das Dores.

Nesse ano também seria criada e instalada a Diocese do Cariri, sediada no Crato. Para criação da Diocese do Cariri, muito valeram os esforços do Padre Cícero, na sua estada em Roma, que desejava vê-la sediada na terra que ele adotou como sua, o Juazeiro. A prova está nessa carta endereçada ao Dr. Leandro Bezerra de Menezes, publicada no Jornal O Fluminense de Niterói, no ano de 1908, cuja transcrição é a que se segue:

Creio não haver mais dúvida estar criada a Diocese do Cariri. Deus o quer, e o venerando amigo foi o principal encarregado da Providência para essa grande obra na Igreja de Deus. Quando estive em Roma (1898), apresentei este pedido a Sua Santidade Leão XIII, e aqui mandei publicar nos Jornais a necessidade dessa Diocese, nesses centros de diferentes estados do Nordeste, que limitam-se com o Cariri.

O Joaseiro é o ponto principal para onde converge gente de todas as partes, desde Alagoas ao Maranhão, o ponto desejado de todos, próprio para uma grande cadeira de ensino, de civilização e de fé, entre populações que se estão barbarizando ainda mais do que eram. Deus por sua bondade multiplique os preciosos anos ao seu fiel servo, que veja no humilde torrão de seus antepassados a sede de um Bispado (aqui) na capela de Nossa Senhora das Dores.”

Seu amigo. Pe. Cicero Romão Batista.”

A carta, estampada no O Fluminense de Niterói, mandada publicar pelo Dr. Leandro Bezerra de Menezes, atesta que o Padre Cícero foi o precursor da ideia da criação do Bispado do Cariri, desde sua estada em Roma. Seus esforços foram incalculáveis, para todos apelou, desde o Comendador e ex-Presidente do Ceará, Nogueira Accioly, ao próprio Dr. Floro, e até mesmo à Baronesa da Ibiapaba, quando dela solicitou a importância de 150 contos de réis para formar o Patrimônio exigido por Roma. Ja idoso, ainda aventurou-se a uma viagem ao Rio de navio (1908), pondo todo o seu patrimônio à disposição, inclusive as Minas do Coxá e um grande terreno para a construção do Seminário. Tudo foi debalde, seu encontro no Rio com o Núncio Apostólico foi mais uma decepção. A cúpula do clero, como o Bispo Arcoverde, não mediu esforços para suplantar o ideal do Padre Cícero.

Injúrias, difamações voltaram à tona, referentes ao movimento religioso do Juazeiro, que Dom Joaquim, sem medir as consequências do seu gesto, propalava entre os presentes ao encontro, com a presença ilustre do enviado de Roma. Os dois altos representantes do Episcopado brasileiro não mediram esforços para suplantar o ideal acalentado por tantos anos pelo Padre Cícero, de sediar a Diocese no Juazeiro. E foram vitoriosos, aliás, duplamente, pois além de sediarem-na no Crato, foi nomeado o maior desafeto do Padre Cícero, Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva. Um inimigo feroz teria o Padre Cícero dali para frente, de acordo com os documentos episcopais ainda hoje existentes. Para se ter uma ideia do que foi o encontro no Rio, trechos de uma carta do Bispo Joaquim para o Padre Quintino Rodrigues, já a essa altura Monsenhor, diz tudo. Eis o que disse:

“Mas dir-lhe-ei uma vez por todas, ainda que o Padre Cícero arranjasse um patrimônio de mil contos de réis, eu jamais concorreria para a criação da diocese no Juazeiro, que é habitado por explorados e exploradores”.  (Do livro do sociólogo Ralph Della Cave, Mistério em Joaseiro).

O escritor diz ainda que o Padre Macedo Costa, presente à reunião no Mosteiro de São Bento (Rio), disse que dificilmente o Padre Cícero seria vitorioso, pois muito pesavam as injúrias e difamações contra ele, insinuadas pelo Bispo do Ceará, Dom Joaquim, passadas à alta cúpula do clero ali presente, tornando mais difícil sua pretensão. Meses depois, seria oficializada a criação da Diocese, quando de fato Monsenhor Quintino foi investido nas funções de Primeiro Bispo do Cariri, tomando posse numa festa grandiosa e solene, com a presença de muitos representantes da hierarquia. A partir daí, ele assumiria o bastão da perseguição contra o Padre Cícero, recebido das mãos de Dom Joaquim José Vieira, e que será assunto dos próximos capítulos.

 

****

 

CAPÍTULO 17

JOSÉ JOAQUIM DE MARIA LOBO, FUNDADOR DA LEGIÃO DA CRUZ

 

 

José de Maria Lobo, personagem curiosa, que ficou na penumbra por muitos autores da História do Juazeiro. Uns talvez por esquecimento, outros por o considerarem menor, quando na realidade ele foi figura de indicutível força e influência no movimento religioso do Juazeiro. Tornou-se célebre por ter sido o fundador da Legião da Cruz. Portador de uma habilidade de fazer inveja, se fez amigo do Bispo de Niterói, Dom João Esberardo, cuja amizade deu-lhe ampla liberdade para que fundasse a entidade. Àquela época, o Padre Cícero, vivia a pior fase de sua vida religiosa, completamente desacreditado perante o episcopado brasileiro. Intuitivo e sagaz, tornou-se José Lobo um grande amigo do Bispo de Niterói, numa antítese a José Marrocos, que se indispôs com boa parte do episcopado, principalmete com o Bispo Joaquim. O Bispo considerava o Lobo, como o chamava, sagaz e astucioso.

Conquistando a amizade de Dom João Esberardo, era recebido atenciosamente no Palácio Episcopal de Niterói, conseguindo assim, com o apoio do mesmo, fundar a Legião da Cruz no Juazeiro, já existente em outras Dioceseses, e reconhecida pelos bispos. Só que Dom Joaquim, ao tomar conhecimento da criação da Liga no Juazeiro, ficou irritado por não ter sido consultado, e não mediu esforços a dar por terra, como de fato deu. A habilidade de José Lobo, procurando bem longe apoio para sua causa, constitui de fato uma proeza a mais no seu currículo de facetas religiosas no Juazeiro. Vejamos: possuidor inegavelmente de uma grande astúcia, porque astúcia, tanto em religião como em política, é fator de fundamental importância, José Lobo foi, realmente, um fenômeno de inventividade, quase suplantando o teólogo José Marrocos na arte de fazer proselitismo. A associação chegou a um número espetacular para a época (anos de 1892-97), de mais de cinco mil associados, segundo o próprio Bispo Joaquim, que pagavam a importância mensal de 1$200 réis por cabeça. Por não ter sido consultado, protestou, fazendo grande oposição e declarando a Associação esdrúxula, bem como seu fundador. Nascia  mais um conflito entre o clero e o Padre Cícero, e desse conflito, Dom Joaquim terminou por lançar uma Portaria, excomungando a Associação e seu fundador, José Maria Lobo.

Na sua 4º e última Carta Pastoral, o Bispo faz alusão ao Sr. Lobo e sua Associação, chamando-a de enganosa, referindo-se a ela como mais um ponto de fanatismo, inculcando na massa ignara (era assim que o Bispo sempre se referia aos seguidores do Padre Cícero) a santidade da beata Maria de Araújo e do Padre Cícero, com seus falsos milagres. Para ele, um verdadeiro esbulho a arrecadação do alto numerário, arrancado da pobre massa campesina, quando ela, iludida, acreditava na santidade dos dois. Dom Joaquim, na sua 4°e última Carta Pastoral, classificou a Associação de anárquica, falsa, e escreveu:

“Pretendia-se outrossim, por essa forma, aparentar em Roma, com a oferta de soma considerável, fervoroso zelo pelo bem-estar da Cadeira de São Pedro, no intuito de atrair-se a atenção do Santo Ofício em favor dos pretensos milagres. Para esse fim, lá se foi três vezes à Cidade Eterna o fundador da nova Liga. Imagine-se o quanto de dinheiro não foi necessário arrancar-se, com este e outros pretextos, a falsa fé ao pobre povo iludido, para fazer face às avultadas despesas de tais viagens, e ao tratamento condigno de sócio beneficente e correspondente perante a Santa Sé, tendo-se o câmbio a 8, 7, e menos.

O texto aqui transcrito foi extraído da Carta Pastoral nº 4, e retrata o que pensava o Bispo Joaquim não só a respeito da Liga da Legião da Cruz, quando fazia insinuações, claras e objetivas, de que a soma de dinheiro arrecadado, o Presidente da tal Associação tivesse repassado ao Sacro Colégio, na finalidade de dobrar os Cardeais inquisidores. Com essa insinuação, Dom Joaquim não só extrapolou mais uma vez, como deu lugar a várias interpretações sobre o Sacro Colégio, contrariando o que escreveram muitos autores da Qustão Religiosa do Juazeiro, de ter o Bispo levado o caso com parcimônia até o fim. O referido aqui deixa explícito que a prudência dos primeiros tempos, quando os fatos começaram a ser investigados, deixou evidentemente de existir, e que de fato ele levou às últimas conseqncias, porque um radical consumado, senão um cruel. Suas decisões eram ácidas e exorbitantes. Na sua concepção e do clero cearense, a extorsão às massas campesinas tinha uma única finalidade: dobrar o Sacro Colégio, pois o processo religioso estava em pauta (1897), sendo estudado e julgado. Criava-se mais uma cisão entre o clero e o Padre Cícero, na esteira dos acontecimentos que a cada dia surgiam no Juazeiro, envolvendo padres e leigos. Era mesmo uma guerra de opiniões e tendências as mais diversificadas. Os fatos provavam o desespero que pairava nos dois lados. Com tantos pressupostos, o Bispo não teve dúvida: excomungou a citada organização e seu fundador.

José de Maria Lobo por três vezes foi à Roma, sendo que da última vez foi recebido por Leão XIII, tendo-lhe entregue uma quantia generosa de 6$800 réis. Em audiência particular, lhe fez oferta de um rosário todo em ouro maciço, tal qual dias depois faria o Padre Cícero. Na sua volta ao Juazeiro, trouxe cinco mil cruzes que, de acordo com ele, haviam sido bentas pelo Papa, e quem fosse o portador de uma delas teria garantida a salvação. Essas cruzes caracterizavam nada mais, nada menos, que as antigas indulgências romanas, contra as quais Lutero se insurgiu, dando lugar ao seu rompimento com o clero romano, daí advindo a Reforma criada por ele.

Os fatos deixam claro que a oposição sistemática do Bispo a esse fato e a outros similares tinha uma raiz: a de nunca ser consultado e, segundo ele, eram fatos criados à sua revelia, com seu total desconhecimento. O fundador da Legião da Cruz era de forte personalidade, pois se assim não o fosse teria desistido de fundá-la, e pior, além de não consultar o Bispo da Diocese, deixou-o totalmente à margem das negociações. Numa ação inusitada para a época, foi três vezes a Roma, e na última fez pessoalmente a entrega à Sua Santidade da importância acima aludida. O Bispo, ressentido, partiu para o ataque, já com a rede de intriga feita pelos párocos do interior, a grande maioria contra os fatos do Juazeiro.

No capítulo anterior, que poderia até ter o título de Triste História Cliceriana, vimos Monsenhor Santiago a denunciar o seu colega de batina, o Padre Clicério Lobo, numa confusão em nome do clero, contra o clero, para o clero. Em seguida, Dom Joaquim fundava a Legião da Cruz em Fortaleza, e dela fazia parte a alta sociedade da capital. Altos financistas do comércio local, exportadores de algodão e pele, e pessoas cultas, como o historiador Dr. Guilherme Studart, que foi seu presidente por longos anos, e que mais tarde o mesmo Dom Joaquim, antes de deixar a Diocese do Ceará, conseguiu para ele, por intermédio da Santa Sé, o título de barão. Tanto quanto a constestação dos milagres de Maria de Araújo, o  Bispo contestava a Legião da Cruz.

A arrecadação do numerário por José Lobo como Presidente da Associação nada mais era do que um prolongamento da arrecadação do óbulo de São Pedro, criada pelo Vaticano, um hábito que já existia desde os tempos judaicos, em moedas aos sacerdotes. O Bispo, nos seus escritos, inseria uma linguagem teórica e teológica, dizendo, entre outras coisas:

A Igreja em sua sabedoria tomou, desde os primitivos tempos do Cristianismo, todas as cautelas, em ordem a prevenir tudo que possa iludir os fiéis de boa-fé, e provocar um culto errôneo. Os bispos, e só eles, têm o direito de criar coisas referentes ao culto, e se alguém insistir, errados estarão, e merecem toda reprovação”.

E invocava o Concílio Tridentino, na sess. 25, de Invocat, Venerat. et Real Santorum, quando decretou que não se devem admitir novos milagres, nem receber novas relíquias, sem as conhecer e aprovar o Bispo da Diocese. Portanto, só o bispo diocesano é, pois, a autoridade competente, salvo sempre os direitos do Supremo Chefe da Igreja, o Papa”.

 

**** 

 

CAPÍTULO 18

DOM QUINTINO, O SUCEDÂNEO DE DOM JOAQUIM JOSÉ VIEIRA

 

             

                                     “Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas,

                                      e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes

                                      as noventa e nove, indo procurar a que se extraviou?”.

(Mateus 18.12.)

 

Realmente, como já escrito, prevaleceu o poder de Dom Joaquim José Vieira perante o clero conservador: foi criada e instalada a Diocese do Cariri, com sede no Crato. Era o ano de 1916, e no fim desse mesmo ano Dom Quintino saiu em visita às paróquias de sua Diocese, como era de praxe àquele tempo.

Anualmente eram feitas essas visitas, que também eram conhecidas por “desobriga” e consistiam em oito dias de missões, com pregações ao ar livre, quando se realizavam batizados, crismas e até casamentos, para quem ainda não tinha recebido a consagração dos sacerdotes. A Igreja abominava as uniões ilícitas, não importando até mesmo o casamento civil, que para o clero da época, não passava de simples concubinato. Nessa altura, entravam em cena frades aqui radicados por força das Ordens religiosas de vários países da Europa, sediadas no Brasil inteiro. Os bispos os requisitavam para auxiliarem-nos em missão diocesana. Aí tinham lugar os sermões, baseados em princípios teológico-morais e apocalípticos, carregados de impropérios, que aterrorizavam o vulgo, com ameaças do fogo do inferno para aqueles que desobedecessem os preceitos da Igreja Romana. Com vozes tonitruantes, que ecoavam a léguas de distância, conseguiam, na maioria das vezes, a chamada conversão de muitos empedernidos, com o casamento na Igreja. O exemplo mais patente desses sermões carregados de impropérios e vazados no Apocalipse foi do frade italiano Frei Damião, que viveu toda sua vida no Recife, no Convento da Penha, e lá faleceu há poucos anos atrás. Da tribuna, ele assustou meio mundo pela crueza das suas afirmativas.

Dom Quintino, deliberadamente, escolheu como ponto final da sua caminhada religiosa o Juazeiro, que continuava sob o interdito do clero. Inteirado da visita episcopal, o Padre Cícero transbordou de contentamento, diz a escritora Amália Xavier (op. cit.), alimentando a ilusão de uma reaproximação com o clero e da sua volta ao seio da Igreja, o que mais queria em sua vida. Tratou então de organizar seu povo para uma recepção condizente com o acontecimento, para festejar o novo bispo e a seleta comitiva episcopal, constituída de ilustres padres, pelo saber teológico e moral. Uma festa à altura, comenta em seu livro Azarias Sobreira, que escreveu:

Movimento espiritual grandioso, com milhares de pessoas a se confessar, a comungar, sequiosos que estavam da prática desses atos de fé. Os sermões eram ouvidos no mais tocante  silêncio, podendo se ouvir a respiração ofegante da massa compacta, alinhada na Praça da Igreja Matriz (op.cit.).

O último dia da visita chegou ao seu término. Guardado, porém, a sete chaves estava um segredo só desvendado à última noite, como gran-finale do evento. Ainda hoje, os estudiosos da história religiosa do Juazeiro se perguntam: será que a Comitiva Episcopal tinha conhecimento do segredo? Ou o bispo prepotente era o único detentor dele? Talvez, alguém próximo a ele soubesse. Não é demais pensar-se que o próprio Azarias Sobreira, que gozava da confiança de Dom Quintino, tivesse conhecimento do assunto fatídico daquela noite sinistra, mas que guardou fidedignamente o segredo, quem sabe assustado com o desfecho que desse incidente pudesse advir, pela multidão comprimida no espaço da Praça da Matriz.

No seu último dia de permanência na cidade, Dom Quintino envia ao Padre Cícero um Ofício com vários itens, solicitando-lhe que lhe desse respostas precisas e convincentes sobre recebimentos de doações à Padroeira, em bens e dinheiro, que, como já acentuado, tornou-se para o clero o calcanhar-de-Aquiles, desde a era Joaquiniana. Abordava ainda o assunto das medalhas que tinham sua efígie, consideradas sacrílegas pelos bispos, e por que o Padre Cícero não se manifestava contra o uso das mesmas. Entretanto, o tema central do Ofício residia num item doloroso, que reabria cicatrizes as quais deixaram sequelas grandiosas — o da “Hóstia Ensanguentada” das comunhões de Maria de Araújo, que o clero abominava. O Bispo exigia, naquela noite sombria, que o Padre Cícero fizesse uma retratação pública perante a massa, do alto da tribuna ali fincada, dizendo que tudo tinha sido um grande engano, não passando de uma burla. O cálice era amargo demais, como amargo foram outros que ele bebeu até a última gota. Este, porém, foi um dos episódios mais tristes e cruéis da vida acidentada do Padre Cícero. Está explícito no gesto do Bispo Quintino o desprezo que a hierarquia lhe votava. Ele, padre católico por convicção, e que jamais e apesar de tudo, nunca levantou a voz contra a Igreja, e nunca pensou em apostatar.

Do livro O Patriarca do Juazeiro, de Azarias Sobreira (op.cit.), tomei de empréstimo o texto, que ora transcrevo:

“Em 1916, Dom Quintino me encarregou de assisti-lo, a ele, Padre Cícero, na redação das respostas aos itens formulados por Sua Excia. Como foi que ele se portou? Enquanto se tratava de outro gênero de assuntos, tudo ia correndo bem, sem tropeços. Mal entrou em pauta a questão do Sangue, o Padre Cícero começou a suar e empalidecer. A pena, em lugar de escrever, permanecia indecisa, parecendo furar o papel. De repente, virando-se para mim, num tom angustiado, perguntou: Menino, como é que posso dizer que reprovo aquilo que vi com meus próprios olhos? Entretanto, eu quero satisfazer a Dom Quintino. Olha aqui o que ele está me perguntando?'. E lia para mim o texto que tinha diante dos olhos, e que lhe causava tamanha consternação. Procurando se desvencilhar daquele embaraço, com a voz tropêga pela emoção, disse: vá dizendo o que você acha que devo dizer, e eu irei escrevendo, como se minha mão fosse uma máquina’.

E prossegue o autor:

Jamais consegui arredar-me da seguinte conclusão: o Padre Cícero, após vinte anos daqueles fatos e da suspensão de suas ordens, continuava firme, acreditando que no Juazeiro, efetivamente, tinha havido algo de sobrenatural, de miraculoso. Mas sua agonia não se restringia à resposta por escrito, ele teria que lê-la do alto da tribuna, perante a incomputável multidão ali postada”.

Está aí, neste fato, evidenciado que Dom Quintino continuaria a linha inquisitorial de Dom Joaquim José Vieira, que jamais deixou de enfatizar essa proposta: a do Padre Cícero se desdizer de público. E foi nessa noite sinistra que veio a concretizar-se a ordem de 25 anos atrás, numa suprema humilhação para ele, e todo o Juazeiro. Ele, o homem respeitável e de todos querido, o hospedeiro inigualável, a cujas expensas estava hospedada a Comitiva Episcopal. Era noite. Embaraçado e humilhado intelectual e moralmente, depois de ler o que exigira o bispo insensível, retirou-se do local, sempre acompanhado pelo povo. Aparentando calma, dizem as crônicas, porém não introspectivamente, pois no dia subsequente teve febre e escarrou sangue. Era o princípio das hemoptises que lhe acometeriam dali em diante, sempre que lhe chegavam as Portarias do bispo impiedoso, e foram inúmeras.

O episódio chocou, causando impacto entre os padres da Comitiva, pela delicadeza da situação. O gesto firme de Dom Quintino denotava que cumpriria à risca a linha traçada pelo Vaticano, tão contrária à posição do Padre Cícero, que residia na crença arraigada no milagre da hóstia ensanguentada, segundo a observação do Padre Azarias Sobreira. Com esse gesto de menosprezo e desdém, o Bispo, orgulhoso da posição alçada, conquistaria mais uma vez prestígio perante seus superiores hierárquicos, embora o fato o tenha desumanizado, tornando-o pequeno demais, em flagrante contraste com o pensar e agir do Padre Cícero. Realmente, eram dois mundos diferentes: o de Dom Quintino, aristocrático e hermeticamente fechado; e o do Padre Cícero, o mundo do povo simples, humilde, e nisso está a explicação da massa se curvar ante sua pessoa.

O fato poderia ter resultado numa tragédia de grandes proporções, já que o Juazeiro era um caldeirão fervente de crença no milagre e de devotado amor ao Padre Cícero, que Dom Quintino, naquela noite crucial, tinha conseguido atingir. O ato arbitrário excitou os brios do Dr. Floro, e desolação e indignação em outros. Dr. Floro partiu para o ataque ao clero, e acusou o Bispo de autoritário, arrogante, desumano, lembrando que daquela forma iria ele trazer muitas confusões ao Juazeiro, e mui especialmente ao Padre Cícero. Ainda em 1923, no seu antológico discurso na Câmara Alta, referiu-se ao fato, defendendo-o de tantas acusações. E pressentindo o que poderia vir daí para frente, tomou a iniciativa de censurar toda a correspondência dirigida ao Padre Cícero partida da Diocese, quer fossem Cartas ou Ofícios para comparecer ao Palácio Episcopal. Chegadas, ele se antecipava e comparecia em nome dele, quando alegava seu estado de saúde, já deveras abalado.

As exigências exaradas naquele Ofício teriam que ser impreterivelmente cumpridas, e como o Padre Cícero se recusou a cumpri-las literalmente, como no caso das doações e de receber em sua casa os romeiros e visitantes, o Bispo retirou a faculdade que lhe dera, de celebrar missa nos arredores do Juazeiro, quando fazia o percurso em seu carro-de-boi Manhoso e Bargado, que tinha às rédeas o alagoano José Pereira da Silva, lembrando que este mesmo José Pereira era o fabricante dos seus sapatos macios, semelhantes a sapatos de lã, por serem confortáveis. Desta forma, ele cumpria sua missão evangelizadora de bom grado, apesar dos seus 73 anos de idade. Sentimental, dizia: evitar os que me procuram é insensatez, uma falta de cordialidade” – o que sempre foi, um cordial e afetivo.

Sofrido, certo dia não mais suportando tanta humilhação, retrucou com veemência o que seus adversários espalhavam sobre ele, dizendo, num discurso comovente aos romeiros que lhe ouviam, o que lhe ia na alma:

Vocês, que vêm de muito longe arrostando toda a série de intempéries dos sertões do Piauí, do Maranhão, de Pernambuco, das praias de Alagoas, e do Rio Grande do Norte, dos ínvios chapadões de Goiás e Bahia, fiquem certos de que jamais os esquecerei, e que a Mãe de Deus recompensará a todos, e nunca deixem de visitar o Juazeiro de Nossa Senhora das Dores, mesmo depois da minha morte. Ela os recompensará”.

Ainda de acordo com analistas do dramático episódio de se desdizer em público do que ele acreditava ser verdadeiro, Dom Quintino reforça o cerco das perseguições, e acata a decisão de Roma de excomunhão, pedida por um alto membro do episcopado brasileiro, que o responsabilizava pelos acontecimentos nefastos da revolução do Juazeiro.  No seu Testamento, ele defendeu-se das acusações, e escreveu:

Não fiz revolução, nela não tomei parte, nem para ela concorri; não tive, nem tenho, a menor responsabilidade nos acontecimentos dela decorrentes”.

Como já foi dito, o Dr. Floro censurava toda sua correspondência, e determinado dia deparou-se com o que já previa: um Ofício da Diocese, contendo a excomunhão partida do Vaticano. De posse do documento, ele solicita uma audiência ao Bispo Quintino, no que foi atendido. Recebido em Palácio, fez sentir que, se o Padre Cícero tomasse conhecimento daquela medida da Santa Sé, não resistiria ao impacto da notícia, e seria vítima de colapso cardíaco, dado o seu estado de saúde muitíssimo abalado. Mas Dom Quintino reage, e diz: “A sentença será cumprida, e a cumprirei, custe o que custar, até mesmo em prejuízo da minha própria vida”. Dr. Floro, sempre argumentando, diz: o autor intelectual e moral de todo o movimento subversivo sou eu, o Padre não responde por nada. A essa altura, já com mais de duas horas de um diálogo exaltado, o Bispo perguntou-lhe, enfático: “Dr. Floro, responda-me só isto: se o Padre Cícero não consentisse, pois ele é tudo lá no Juazeiro, o senhor teria feito a revolução?”. Resposta : “Continuo a dizer a V. Excia, o responsável sou eu, e a História um dia dirá. Reagindo aos argumentos do Dr. Floro, o Bispo insistia em cumprir a ordem vinda do Vaticano: a excomunhão. Com os ânimos bastante alterados em face da prolongada discussão, o Secretário da Diocese tomou a iniciativa de dar por finda a conferência, que já se arrastava por quase 3 horas, num clima tenso.

Diante da interferência do secretário do Bispo, o clima tornou-se mais ameno, e ponderando sobre a reação que poderia advir daquela sentença da parte de todo o Juazeiro, pelo devotamento que imperava ao Padre Cícero, aliás como até aqui, classificado pelo clero como fanatismo, o Bispo então pediu de volta o documento, que a essa altura o Dr. Floro já o tinha em mãos. Dom Quintino então, mais calmo, disse-lhe que iria se comunicar urgente com o Vaticano, o que fez, segundo o escritor Otacílio Anselmo (op. cit.), que registra às páginas 410 do seu livro:

“Essa pena foi comutada em outra sanção eclesiástica, pois o bispo apelou para Roma, argumentando o estado de saúde do Padre Cícero, e a consequente reação dos fanáticos. A Santa Sé ponderou, e comutou a pena canônica, podendo ele confessar e comungar more laicorum, isto é, como se fosse leigo, e não sacerdote”.

De acordo com o historiador Padre Antônio Gomes e intelectuais da região do Cariri, o Padre Cícero morreu ignorando todo esse episódio. Dr. Floro encarregou-se de poupá-lo de tão grande constrangimento e tristeza. Sepultado o episódio ficaria, porque encerrado nos escaninhos da Cúria Diocesana do Crato, quando à época não se tinha acesso algum. Depois de sua morte é que vários escritores trouxeram à tona, tendo como destaque o Dr. Irineu Pinheiro (op. cit), Padre Azarias Sobreira e Otacílio Anselmo (idem, idem).

As perseguições mescladas de ódio e as draconianas medidas de Dom Quintino quase suplantam as do Bispo Dom Joaquim, mormente porque Dom Quintino recebia o apoio incondicional de boa parte da população cratense. Eleito para a Diocese, seu primeiro passo foi um gesto político, com a criação do Banco do Cariri. Conservador, era consultado pelos coronéis da política do Crato. Inteligente, preparado, também fez seus adeptos e evidente proselitismo. Criou a Instituição das Freiras de Santa Tereza do Menino Jesus e o Colégio Diocesano, celeiro de intelectuais cearenses.

O desenvolvimento que deu à cidade do Crato é inegável. Não sobreviveu ao Padre Cícero, falecendo anos antes. Para os seus funerais, que tiveram grande pompa, o Padre Cícero não foi convidado, nem sequer o participaram do luto da Diocese. Está claro, nesse pormenor, o quanto o desprezavam. Tornar-se-ia enfadonho listar o número incalculável de perseguições, de injustiças movidas pelo ódio, reflexo da oposição sistemática ao Padre Cícero. Ele mesmo reconhecia o fato, e deu conhecimento através de uma carta de Roma para seu grande amigo Secundo Chaves de Melo. E lembrar que tudo isso era feito em nome da religião católica romana é chocante, e porque não dizer, decepcionante. Era uma sequência ininterrupta de conflitos, como foi o caso do já citado Padre Alexandrino de Alencar, desencorajando as beatas depoentes, desencadeando efeitos psicológicos, afetando o subconsciente, provocando desânimo. E aí o que se viu foram elas se desdizerem publicamente do que afirmaram, como também a reação do Vaticano pesou para a ala dos padres adeptos do milagre, à frente, o Padre Quintino e o médico Inácio de Souza Dias, quando, numa carta, nem esclarece o fato, como também não nega.

O clima de perseguições ininterruptas do clero fez os repentistas do cordel manifestarem-se em versos de sextilhas, louvando-o. Leandro Gomes de Barros, o primeiro a projetá-lo na literatura de cordel. Eis o que disse:

                          É um pastor exemplar

                           O Padre do Juazeiro

   Disse-me um velho romeiro

   E não é interesseiro

   Tudo que faz é de graça

   Não aprecia dinheiro.

   Há uns quinze dias passados

   Disse-me um velho romeiro

   Que está suspenso de ordens

   Por não ser interesseiro

   Os Padres detestam ele

   Por não gostar de dinheiro

   Diz ao pobre não se aflija

   Porque vive na pobreza

   Lázaro morreu mendigando

   Mas no céu achou riqueza

   Riqueza lá é perpétua

   Tudo é com muita grandeza.

   Está suspenso de ordens

   Não faz um batizado

   Não casa mais nem confessa

   Está quase inutilizado

   Porém com toda justiça

   Não diz nada do Bispado.

 

Esses bardos sertanejos, projetando-o na literatura de cordel, falando dos seus sofrimentos, despertavam na massa mais exacerbação religiosa e consequentemente mais admiração ao Padre Cícero. Ele se defendia, sempre dentro da ótica do perdão, da reconciliação, acompanhado da sua aura de grandeza moral. E a todos que o fizeram tanto mal, morreu perdoando. Nesses momentos extremos de sua vida, uma só frase repetia: Ser Deus o único juiz, entre ele e os bispos, na momentosa questão. Aceitando pacientemente todos esses reveses de sua sina, era convicto de que todos esses padecimentos eram de âmbito divino, daí sua resignação religiosa.

A tênue esperança de se reintegrar ao seio do clero morreu naquela noite funesta, convencido de que não tinha concorrido para uma burla, e muito menos para o holocausto, onde dezenas de pessoas perderam a vida, outros ficaram mutilados. A tudo ele reagia dentro de uma imponderável calma, e continuva a lutar por sua reintegração ao sacerdócio, conforme atestam suas cartas endereçadas ao salesiano Padre Pedro Rotta, seu admirador e grande amigo, que lamentava o desatino do clero brasileiro referente à sua pessoa. Uma perseguição constante, ilimitada. Apesar de sua luta com o clero, o Padre Cícero sempre manteve uma relação fraterna e cordial com a Ordem dos Salesianos, tanto que os fez herdeiros universais de toda sua fortuna. Outro pormenor que chama a atenção na sua conduta religiosa era sobre os judeus: ele se afligia com a situação dos mesmos, quando eram tão execrados, e através da imprensa clamava contra tamanha insensatez.

Amigo e confidente, benevolente e caridoso, o salesiano Pedro Rotta reconhecia no Padre Cícero um verdadeiro servo de Deus, e tinha convicção de ser ele um sacerdote para o bem da humanidade. Sabemos que, depois de ordenado, quis partir para regiões isoladas da África para levar a palavra das Escrituras a povos ignorantes do Cristianismo, e só não o fez porque o jornalista João Brígido, grande amigo da família e seu ex-tutor, dissuadiu-o da ideia. Aí ele voltou-se de corpo e alma para o sertanejo do Nordeste, transformando-se num verdadeiro pai. 

As cartas endereçadas ao Padre Pedro Rotta definem em tom dramático o sentimento de estar afastado da Igreja, suspenso de todas suas ordens e até do direito de abençoar seus fiéis. Por um triz quase não se consuma a ordem do clero, quando impunha que deixasse de recebê-los em sua casa. Aí houve resistência de sua parte, e a consciência do povo nordestino não se abateu ante as imposições romanas, como pretendia o clero. O Padre Rotta foi para o Padre Cícero um grande amigo e confidente. Sua saída do Brasil deixou nele um vácuo profundo, sentindo-se só e desprezado pela hierarquia, mas sempre alimentando a utópica ilusão de reaver suas ordens, cujo sonho se esvaía antes de tomar consistência, pois grande era a correlação de forças opostas, e o seu pedido de socorro era vox clamantis in desertis, e o sermão do evangelista Mateus, epígrafe deste capítulo, não teve efeito, foi mesmo para o limbo.

A visita apostólica para a Santa Sé do beneditino Dom Bento Lopez (1925) também constava de um encontro com o Padre Cícero, que teria lugar no Palácio Episcopal do Crato, quando ele pretendia reinvidicar sua volta ao clero. O encontro não aconteceu. Segundo o Padre Manoel Macedo (op. cit.), na época, num duelo pela imprensa com o Dr. Floro, responsabilizou-o por ter impedido que o Padre Cícero se encontrasse com o representante da Santa Sé, alegando que ele estivera enfermo até poucos dias antes da chegada do representante do Vaticano. A conclusão, para muitos no Juazeiro, era a de que o Dr. Floro, já tão cioso das constantes humilhações sofridas pelo Padre Cícero, quis apenas preservá-lo de mais uma decepção. Sabia que aquele encontro em nada adiantaria, trazendo mais frustrações a seu grande amigo e protetor. O não comparecimento deu lugar a interpretações diversas no clero.

O episódio constrangedor e vexatório imposto por Dom Quintino naquela noite foi uma verdadeira execração pública, sem dúvida alguma, concretizando-se assim a proposta exigida por Dom Joaquim (consumatus est) há vinte e cinco anos atrás. Foi um desfecho perfeito para o clero, que sempre desejou vê-lo. Inclementes, ininterruptas e impiedosas, as perseguições continuaram pelos tempos afora, quando ele teve que recorrer ao expediente da humilhação, suplicando ao Bispo Quintino permissão para apadrinhar um filho do seu amigo alagoano, Coronel Assis Chita Fina, no que foi preterido pelo implacável Bispo.

Esta foi uma das mais dolorosas etapas da história trágico-religiosa do Padre Cícero, que Otacílio Anselmo (op. cit.) assim resumiu: Eis que o Padre Cícero dali em diante começava a sentir o peso da autoridade diocesana nos seus domínios”.

 

****

 

CAPÍTULO I9

FLORO BARTOLOMEU: UMA LIDERANÇA NACIONAL

 

                                              O que há de certo é que

                                                            no sertão é onde está o

                        patrimônio moral do país.

                      Floro Bartolomeu

 

Médico diplomado pela antiga Faculdade de Medicina da Bahia, soteropolitano como são chamados os nascidos em Salvador –, Floro Bartolomeu era filho legítimo do comerciante Vírgilio Bartolomeu da Costa e de Carolina Costa. Nasceu aos 17 de agosto de 1876. Ao chegar ao Juazeiro em 1908, contava 32 anos de idade. Fotografia da época de sua chegada ao Juazeiro mostra o visual de um homem moreno claro, cabelos pretos cortados rentes, bigode espesso, olhos negros e expressivos, denotando inteligência e rápido raciocínio, tendo como característica inesquecível sua voz anasalada. Trajava com requinte e discreta elegância. De pouca estatura, o conjunto em si passava um quê de atraente e sedutor, talvez pela polidez de suas maneiras, ou pela conversa cativante e fluente.

O escritor Ralph Della Cave, estudando-o, disse: impecável na lógica, na militância política, na retórica” (op. cit.). Para a maioria dos habitantes do Juazeiro que tão bem o acolhera, ele era um cordial. Para a pequena casta dos descendentes das famílias tradicionais, ou seja, os verdadeiros donos das antigas terras, um intruso, e procuravam falsear sua imagem, pretendendo anulá-lo, quando o chamavam de forasteiro, aventureiro que, à sombra do Padre Cícero, procurava fazer carreira política. Em meio aos que nunca o admitiram, estavam figuras do porte do Padre Manoel Correia de Macedo, (depois Monsenhor), um dos descendentes diretos dos antigos proprietários do sítio Joaseiro. Anos depois, o mesmo Padre Macedo se voltou abertamente contra sua ingerência na política local, desencadeando uma polêmica através da imprensa, que redundou numa guerra de insultos, com grande repercussão no seio do clero e na política do Estado. Padre Macedo era culto, com estudos em São Paulo, se transferindo depois para Roma, lá permanecendo até doutorar-se pela Gregoriana. Todo esse longo período de estudos aqui e no estrangeiro foi financiado pela Arquidiocese do Rio, na gestão do Cardeal Leme, que por ele nutria carinho e admiração, e o via como um padre promissor para a Igreja, o que foi realmente. Assumiu várias posições de relevo dentro do clero, fundador de Associações Pias, além de formador de opinião. Dominando vários idiomas, com uma retórica impecável, foi considerado por intelectuais como o Vieira do século XX.

Aliando retórica ao carisma de que era portador, empolgava multidões. Foi o maior orador sacro à época, no país, além de brilhante conferencista. Sua palavra eletrizante conquistava multidões. Os registros confirmam o brilho da sua pujante atuação nas grandes jornadas de fé pelos congressos que realizou Brasil afora, quando convidado por agremiações não só religiosas, mas também civis, para pregações litúrgicas, por ocasiões da Páscoa. Apesar de culto e de ocupar posição de relevo dentro do clero, como eminente, tudo empenhou para que fosse nomeado Vigário de sua terra natal, o Juazeiro. Nesse detalhe resta a pergunta: sendo ele um Padre altamente erudito, promissor, com todas as qualidades acima enumeradas, além de jovem, bonito e extremamente elegante, nos seus quase 1,80m de altura. Como dizia, seu empenho em voltar ao Juazeiro para assumir sua freguesia, vivendo metade da sua vida em São Paulo e Roma, o que o fez retornar à cidade-natal, quando sacrificou a própria saúde, escreveu Azarias Sobreira (ibidem). Não que o lugar não tivesse estrutura para ganhar tão bela aquisição, mas pelo caldeirão fervente que já se tornara a essa altura, com o Dr. Floro dando ordens, terminando por redundar numa disputa, quando os dois, deputado e vigário, se desentenderam publicamente, contaminando todo o Juazeiro, terminando com o Padre Macedo se retirando de lá e do convívio de sua família. Estudiosos da Questão religiosa do Juazeiro, analisando a nomeação do Padre Macedo para Vigário do Juazeiro, entendem ter sido uma atuação do alto clero, para que ele conseguisse suprimir o fanatismo reinante, que continuava exacerbado. Criticava abertamente a situação a que sua terra natal tinha chegado com um fanatismo avassalador, não obstante ser filho de um dos grandes amigos do Padre Cícero, que o tinha como um Deus na terra, engrossando as fileiras dos seus adeptos. Este era Pelúsio Correia de Macedo, o mago dos sinos e relógios de Igrejas.

Ao assumir a freguesia, Padre Macedinho, como era carinhosamente chamado por seus conterrâneos, primou em manter distância do Dr. Floro, que a essa altura, já dominava o cenário político do Juazeiro, pormenor que fazia questão de deixar evidente. A ogeriza explícita demonstrada pelo vigário ao médico baiano consistia no que ele achava insuportável: o extrapolar limites, segundo a versão que dava para manter distância do mesmo, e que só foi se acentuando até chegar ao limite de uma guerra aberta entre os dois. Sentindo-se incomodado com a ingerência do Dr. Floro nos negócios pertinentes ao dia-a-dia dos seus conterrâneos, que ele, Floro, passou a dominar com mão de ferro, e ainda pela influência malévola que exercia sobre o Padre Cícero que, no seu ponto de vista, submetia-se aos seus caprichos, quando realmente tornou-se árbitro da sua vontade. Dessa antipatia compartilhava o médico e escritor filho da terra, Dr. Antônio Xavier, autor do livro Beatos e Cangaceiros, também motivo de discórdia com o Dr. Floro, que classificou o livro de apócrifo, não condizente com a realidade do Juazeiro e ofensivo aos beatos. Da Tribuna da Câmara, ele rechaçou o livro de Xavier de Oliveira, interrompido por apartes de seus pares, quando também fez crítica ao acadêmico Afrânio Peixoto, que pela imprensa manifestara-se a favor do livro. Segundo o notável escritor, o livro atestava uma realidade insofismável. Anos depois, o Dr. Antônio Xavier seria deputado federal pelo Juazeiro, todavia sem o brilho e a competência política do seu adversário. Sua irmã, a escritora Amália Xavier, autora de trabalhos educacionais sobre o Juazeiro, sendo ela também uma grande educadora, aliás, tão citada aqui, porque autora do livro O Padre Cícero Que Eu Conheci, foi imparcial, analisando-o, dando a César o que é de César.

Mesmo com toda essa oposição por parte de uma parcela de nativos, Dr. Floro nunca fez desse pormenor algo de invencível. Ao contrário, imbuído de espírito público, numa vocação autêntica para a política, sem fazer oposição a ninguém, pelo menos em tese, partiu para a destruição da sistemática oposição à sua pessoa, pela invencibilidade, com seu poder de resolução e persistência. Foi suficientemente inteligente, e pairou acima de todos eles, o que seria inevitável, pois ao seu lado, desde o início, o apoio total do Padre Cícero, e assim ele desempenhou sua missão política, com reais serviços prestados ao Juazeiro, ao Ceará e ao País. Inteligente, construiu amizades no meio seleto do Cariri. À massa, ele dispensava solicitudes, no atendimento médico a qualquer hora, raramente cobrando pelos seus serviços, abrindo desta forma caminho às suas pretensões políticas, que, diga-se, não eram tão rasteiras, quando realmente atingiu o zênite da política, sob o patrocínio do Padre Cícero, projetando-se nacionalmente, e projetando o Juazeiro, que, como já assinalado, vivia tão somente do seu passado religioso.

Cordial e sedutor, como atestam os que o conheceram de perto, despertava simpatia; fez admiradores, depois transformados em adeptos fiéis, daí foi um pulo para galgar o poder. Foi vereador, deputado estadual e depois deputado federal, quando realmente fez do Juazeiro seu feudo político, trazendo-o fechado em suas mãos. Entre tantos que dele me falaram, está o depoimento valioso da citada Albuína Figueiredo, que acompanhou de perto sua jornada política. Filha de político (seu pai, José Euletério Figueiredo, substituiu o Padre Cícero na intendência do Município, quando ele se candidatou a Deputado Federal), testemunha dos fatos do Juazeiro, deles ela falava com veemência, e descrevia-os minuciosamente, prendendo o ouvinte não só pela clareza com que detalhava, mas pelo modo de expressá-los, dando um tom de dramaticidade ao relato. A impressão que se tinha era a de que o ocorrido tivesse acontecido em intervalo de dias, e não de distantes anos, tamanha era sua retentiva em fixar o episódio. Sem se dar conta de que era uma grande memorialista, e que seus relatos merecessem o respeito da posteridade. Eis porque deles aqui me utilizo para traçar o perfil do homem multiforme Floro Bartolomeu da Costa.

Segundo a autora dos relatos ora analisados, ele trouxe modernidade e evolução ao Juazeiro, e explica porquê: pelo fino das suas festas (era um festeiro inigualável, e realizou-as muitas). Distinto no trato e elegante no trajar, as festas por ele idealizadas tinham o cunho da elegância. Assim foi a da criação do município, aqui já descrita, bem como sofisticadas também foram as duas recepções que fez aos dois chefes do Estado, João Tomé de Sabóia e Silva, e Moreira da Rocha. Mas nenhuma festividade foi mais importante que a da inauguração da estátua do Padre Cícero, por ele idealizada, que, grandiosa para o tamanho do lugar, teve grande repercussão, tudo feito com muita pompa. Fundou um jornal, Gazeta do Juazeiro. Apreciava os festejos populares, Santo Antônio e São João. Trouxe a luz de acetileno ao Juazeiro e calçou várias ruas, alargando-as e ajardinando praças. Mas o que contou, acima dessas muitas realizações, foi a nova fase que deu à política local, imprimindo-lhe uma nova feição, invertendo papéis, passando do trabuco para a dialética fluente e convincente. Para Albuína Figueiredo, esse passo foi decisivo e importante para o Juazeiro. Embora os descontentes com sua presença no Juazeiro, e que nunca o aceitaram, com o passar do tempo, tornaram-se em adversários ferrenhos, e foram muitos.

A ele foi atribuída a série de fuzilamentos na antiga rodagem Crato-Juazeiro. Passar-se a paternidade somente ao Dr. Floro do cometimento dos atos desastrosos, é de difícil interpretação, porque o Estado tinha sua parcela de cumplicidade. Esses fatos coincidiram justamente com o período agudo do Presidente Benjamim Barroso, que fez escola e deixou amargas lembranças, quando, com mão de-ferro, pretendeu exterminar o banditismo, seguindo-se o governo Moreira da Rocha (Moreirinha), de triste memória. Foi por esse tempo que o Dr. Floro extrapolou, tornando-se o dono do lugar, superando até mesmo o Padre Cícero, apesar das afirmativas do Padre Manoel Macedo, que escreveu, no seu polêmico livro, Juazeiro em Foco, que o Padre Cícero jamais perdera a supremacia do lugar que fizera, embora o Dr. Floro passasse ao público a imagem de quem mandava mesmo no Juazeiro era ele. E fim. Nesse tocante, temos o depoimento da escritora Amália Xavier, que acompanhou parte dessa história, e ademais, filha de um dos grandes amigos do Padre Cícero, segundo ela, José Xavier de Oliveira, inimigo figadal do Dr. Floro: “Certo dia alguém perguntou ao Padre Cícero algo, no tocante à administração da Prefeitura, sua resposta foi: menino, a respeito do Juazeiro, eu nada mais sei, tudo está a cargo do Dr. Floro, só ele, pode lhe responder’” (Amália Xavier, op.cit.). Portanto, são fatos verossímeis. Mas o intrigante em todos esses fatos é que nenhum cidadão do Juazeiro desmentiu os fuzilamentos como sendo da inteira responsabilidade do Dr. Floro. Ao contrário, ao cabo dos anos, só foi se intensificando mais e mais a convicção que tinham a esse respeito, que terminou por lhe darem a paternidade dos hediondos fuzilamentos.

O Cariri tornou-se um caos, com os bandos de cangaceiros a extrapolarem, cometendo os maiores desatinos, roubos, furtos, homicídios. A sociedade exigia paz e ordem, e representantes da Bancada do Ceará na Câmara questionaram que ele, como representante do Cariri, impusesse ordem, já que a mesma não existia no Juazeiro, pois transformado num caos. Foi então que, premido pela cobrança, não vacilou, e reconhecendo que de fato existia um Estado ilegal, dentro de um Estado que devia ser legal, de acordo com o Presidente do Estado, resolveu dar cabo da situação, partindo para o extermínio, segundo as crônicas locais. Mandando prender bandidos, os mesmos sumiam para sempre, e davam-lhe a responsabilidade pelo desaparecimento. Ele retrucava, em artigos de jornal e nos seus discursos na Câmara, que os entregava à justiça para que fosse feita justiça.

Sempre se declarando um cultor da lei, o fato é que rechaçou o banditismo, limpando o Juazeiro de tais males, em pouco tempo. Segundo observações de Azarias Sobreira e Amália Xavier (idem), podia-se andar livremente pelas ruas do Juazeiro, e quiçá pelas estradas do Cariri, sem ser importunado, quando não morto. Para os que o odiavam, diziam ter havido um verdadeiro extermínio no Juazeiro. Sempre se defendendo através do seu jornal Gazeta do Juazeiro, incriminava o governo, quando questionado, e dizia que acima dele estava a lei, portanto, não poderia usar de tais meios, para cometer tais delitos. Ele ou o governo do Estado, o responsável pelos fuzilamentos na célebre rodagem? Mesmo diante do macabro, para a maioria dos habitantes do Cariri, a medida foi benéfica. Só assim desapareceram ciminosos de alta periculosidade e ladrões irrecuperáveis, apesar do extremo do ato.

Qualquer que seja a explicação, os fatos são controvertidos. Dr. Floro parecia estar seguro da sua superioridade, apesar de ter ficado grandemente perturbado com as denúncias de uma parcela dos habitantes do Juazeiro. O Padre Cícero Coutinho, filho da terra, dele tinha um retrato que, se não era de um puro, também não era de um desalmado, muito menos a de um excêntrico, afora pequenas ressalvas de menor menção. De suma importância são os testemunhos de Joaquim Arrais da Cruz (o Quinco), do jornalista cratense João Lindemberg de Aquino, do escritor e conferencista de nomeada, José de Figueiredo Filho, meu saudoso amigo, do escritor e médico Dr. Irineu Pinheiro, e complementando a ordem hierárquica desses personagens, o depoimento fidelíssimo do Revmº Padre Antônio Gomes de Araújo, de quem guardo recordações perenes, pois a ele devo parte dos testemunhos, hoje transformados nesse livro, embora com ressalvas, porque sempre discordei de certos pontos de vista do eminente historiador a propósito dos fatos religiosos do Juazeiro. À memória do grande mestre, minha eterna admiração. As lições de história (assim considero) que me transmitiu sobre os fatos religiosos do Juazeiro, guardei-as, como se fossem ouro ou diamantes lapidados, anotando-as com carinho e hoje as insiro nessa obra, que julgo imparcial. Padre Gomes, apesar de avesso à História religiosa do Juazeiro, pormenor de todos sabido, entretanto, ao Dr. Floro ele não poupava elogios, dizendo ter sido benéfica sua presença no lugar, porque só assim lhe daria outra vida, execrando o fanatismo religioso exarcebado, como por exemplo: o extermínio da chamada Corte Celeste e do Boi Mansinho, que representou um marco com um mínimo de civilização para o lugar, por isso o considerava o Civilizador do Juazeiro”.

Ele fez adeptos e também inimigos ferozes, mas inteligentemente desprezou a antagônica ogeriza dos nativos, fazendo-se de desentendido, superando até certo ponto, e isto no firme propósito de um único objetivo: o de tornar-se senhor do Juazeiro, como realmente foi. Era de uma fidelidade extrema ao seu benfeitor, o Padre Cícero. Observando sua atuação política no Juazeiro, disse o Padre Gomes: ele cometeu erros sim, mas quem não os comete? Foi de um dinamismo a toda prova, quando projetou o Juazeiro nacionalmente, pois até sua chegada ali, o lugar vivia unicamente do seu passado religioso. Dentro da concepção criada entre os que não o viam com bons olhos, tentando depreciá-lo, mas sem conseguir obstar seus méritos de liderança e sedução, é sepultar a história do Juazeiro, quando por longos 20 anos, ele foi o dono do lugar. Virou um líder, chegando realmente às culminâncias do poder, claro, com as bênçãos do Padre Cícero. Sua dialética e persuasão evidentemente o ajudaram a construir sua carreira política, porque elas são qualidades imprescindíveis no tocante à política, e ele esbanjava esses predicados. Tinha-os de sobra. Foram justamente esses requisitos que o fizeram conquistar o cenário nacional, a admiração e a confiança dos dois Presidentes da República, Marechal Hermes, em 1913-14, e Artur Bernardes, em 1926, onde a interferência do Padre Cícero foi quase nenhuma.

A prova de sua liderança está em que, depois de sua morte, o Juazeiro passou ao ostracismo político, e o Padre Cícero não conseguiu fazer do Dr. Juvêncio Santana deputado federal, quando os antigos aliados impugnaram sua chapa. Considerado por muitos um modernista, não era isento de posições conservadoras e tendenciosas, também não era um moderado, já ficou esclarecido, nem poderia sê-lo, diante do caos que tornou-se o Juazeiro, para muitos, um lugar fora da lei, com tantas etnias e facções de bandos irrecuperáveis, porque, na realidade, não existe bandido moderado e recuperável. Portanto, a ele caberia impor uma ordem. Sempre pertenceu ao Partido Conservador, ou seja: do famoso Senador Pinheiro Machado e do ex-Presidente do Ceará, Comendador Dr. Antônio Acioly (PRC - Partido Republicano Conservador, no Ceará havia mais o acréscimo de um “C” que traduzido é: Partido Republicano Conservador Cearense). Apesar da ideia preconcebida contra sua pessoa, onde prevaleceu a lógica do não ser da terra, de aventureiro, alienígena e outros epítetos que lhe davam, ele amava o Juazeiro e seu povo, deixando ver que essas mesquinharias não o incomodavam. Conquistou amigos e fez inimigos o bastante para tramarem sua morte, mostrada em detalhe no final desse perfil. Teve momentos de serenidade e também de ódio.

À medida em que dispensava cortesias, também mandava prender e expunha ao vexame, por exemplo, no caso do beato José Lourenço e seu boi Mansinho, que os fanáticos prestavam culto à maneira do Boi Ápis, pois o tinham como um boi santo, que fazia milagres. Mandou prender o beato Lourenço, em seguida abate Mansinho em plena Praça Pública, quando sua carne é vendida e distribuída aos presentes à triste cena – embora muitos beatos dela não comessem, afirma Amália Xavier (op. cit.). O boi Mansinho pertencia ao Padre Cícero, que o tinha recebido de presente do industrial Delmiro Gouveia, quando garrote de excelente raça, grande reprodutor. Ao beato Lourenço foi confiada sua guarda, para que desse um tratamento à altura, daí o seu amor pelo animal, que os beatos, na sua crença, exagerada pela beleza do espécime, transformaram-no em boi santo, fazedor de milagres.

Com mão-de-ferro, Floro destroçou a trupe de beatos que se proclamavam santos e diziam pertencer à Corte Celeste, vivendo nas imediações do Horto, alguns, em promiscuidade. Isto, para ele, envergonhava o Juazeiro e seu povo. Aos amigos do alheio, não deu tréguas, e limpou o lugar da triste mancha, embora seus desafetos tenham levado o caso a excessos de crueldade de sua parte. Foi vereador, deputado estadual e deputado federal por duas vezes. Seus discursos na Câmara revestiam-se de um tom nacionalista, defendendo o País quanto à ingerência estrangeira. Fez apologia das riquezas minerais do Cariri, chamando  atenção para o fato; defendeu o Juazeiro da pecha de lugar bandido, e mostrou a realidade da vida da cidade, com seu desenvolvimento, também com sua pobreza, porém uma pobreza decente, onde o que prevalecia mesmo era o trabalho honesto que dignifica o homem.

Numa retórica fluente, espelhando seu perfil de homem-forte, num estilo próprio que fez época, defendeu com grande ênfase, num discurso de seis horas, aplaudido e aparteado simultaneamente, as acusações injuriosas do deputado paulista, Paulo Morais e Barros, que indo ao Juazeiro em visita relâmpago na Comissão Rondon de inspecção às obras no Nordeste, ao voltar, traçou um perfil desabonador do Juazeiro e da administração Padre Cícero. Com dados não condizentes com a verdade, o deputado paulista levou de roldão tudo e todos, não escapando ninguém. O Nordeste, ele retratou como um lugar opaco, desinteressante. Às figuras ligadas ao Padre Cícero, fez comentários ácidos e críticos, caso do Conde Adolfo, quando pôs em julgamento a sua tão apregoada linhagem de nobreza que o francês dizia ter, por herança de família. Em suma: foi um arraso. Moraes e Barros expôs as feridas de um Nordeste esquecido pelos poderes públicos. Os dados apresentados por ele, na Câmara, extrapolaram os fatos. Não foi um discurso da realidade do Ceará e especialmente do Juazeiro, mas uma crítica mordaz e desonesta, com subsídio falso, que na certa alguém contrário ao Juazeiro e ao Padre Cícero lhe passou. Dados destorcidos da realidade, afirmou Floro Bartolomeu no seu discurso, na Câmara, respondendo aos ataques do deputado, desmentindo-o.

O discurso de Floro, que teve a duração de seis horas, porque bastante aparteado, foi convertido em livro, com o título de Joazeiro do Padre Cícero, editado pela Imprensa Nacional, e teve grande repercussão, porque largamente divulgado. Com esse discurso, o Padre Cícero subiu mais um degrau na admiração nacional. Dr. Floro deu a entender que toda essa somatória de inverdades, exposta na conferência nos dois maiores centros do país, Rio e São Paulo, e depois convertida em livro, tinha partido de uma única pessoa: o Bispo Dom Quintino, depois de uma visita da Comissão Rondon à sede da Diocese do Crato, quando este dispensou ao deputado exageradas mesuras. O contraditório, no episódio, é que o deputado Moraes e Barros, além de ter sido recebido hospitaleiramente pelo Padre Cícero, ainda foi hóspede do Dr. Floro, cuja casa estava vazia, pela ausência do mesmo, que se encontrava no Rio, o que em nada impediu que suas domésticas o tratassem respeitosamente, servindo-o com finas iguarias. Portanto, não havia questão pessoal alguma para tamanho desatino. Apenas um ponto de vista: denegrir a imagem do Padre Cícero, nada mais.

Usando de uma mesquinhez sem tamanho, mal-educadamente, o deputado paulista rompe a barreira da sociabilidade e da ética, e traça um retrato cruel, não só do Juazeiro e seus habitantes, mas de todo o Cariri, numa crítica irônica, mordaz, degradante e altamente deselegante, depois de ter sido recebido com cordialidade. Como se não bastasse o seu comentário na Câmara, dando conta da sua missão, Moraes e Barros faz duas conferências nas Associações Comerciais do Rio e de São Paulo, e lança uma monografia: Impressões sobre o Nordeste. Dr. Floro, indignado com tantas injúrias, da Tribuna da Câmara, num longo discurso, defendeu seu benfeitor e grande amigo. Em meio a tanta indignação, trouxe à baila um passado de perseguições, movidas pelo clero contra o Padre Cícero e seu povo, ao ponto de muitos membros da Câmara, entre estes o gaúcho Simões Lopes, sugerirem que a Santa Sé deveria tomar conhecimento de tamanhos absurdos e abusos (Joazeiro do Padre Cícero, op.cit.).

O deputado Moraes e Barros esqueceu que visitava uma região devastada pelas secas contínuas e, evidentemente desprezada pelos poderes públicos há séculos. O perfil que traçou do Juazeiro e seu povo lembra o do professor e pedagogo Lourenço Filho, que também em visita relâmpago ao Padre Cícero dali saiu traçando o dantesco, e tudo por não ter ele concordado com a tese que lhe levara, da nova reforma para o ensino primário. O Padre Cícero, lendo de afogadilho, discordou do novo método, citando vultos da História do Brasil que tinham chegado ao ponto alto da literatura, todos pelo velho método de ensino. Foi o suficiente para, poucos meses depois, Lourenço Filho, se sentindo decepcionado, lançar um livro de críticas mordazes e desumanas contra ele e sua gente, rebaixando o Juazeiro ao nível de “hospício enorme, antro e feira”, e interpretando-o sociologicamente como megalômano, caso explícito de patologia.

O livro de Lourenço Filho, que tem o título de Joazeiro do Padre Cícero, foi muito divulgado e lido por intelectuais de todo o País. Três edições se sucederam. Para a época, um alto percentual. Os dois visitantes, escritor e deputado, desprezaram a realidade da terra pobre e esquecida pelos poderes públicos. Exigir deles entenderem o drama nordestino, impossível, pois somente os que lá nasceram e vivem entendem perfeitamente o que é o horror das estiagens prolongadas, a grande tragédia humana, que para compreendê-la é preciso com ela conviver. Ambos desconheciam esse lado pobre da vida, agiram à maneira do conto poético de Baudelaire, “Os Olhos dos Pobres”, que retrata uma família em farrapos, na antiga Paris de 1864, onde o drama universal de classes ficou retratado (Spleen de Paris, 1864). À semelhança do conto francês, nada difere da posição dos dois paulistas, sendo que o conto baudelariano, uma ficção; aqui, uma realidade insofismável da posição dos dois paulistas, ao se defrontarem com o povo pobre do sertão. O conto de Baudelaire quis mostrar ao mundo o aparthaid que grassava não só em Paris, onde tem lugar o conto, mas no mundo. A Família em Farrapos, transformada em poesia por sua pena brilhante, é de um lírico comovente. Vejamos:

A Família em Farrapos vivia por trás de antigos e centenários prédios, até pouco tempo desconhecida do outro lado, isto é: do mundo burguês, que só tomou deles conhecimento após a demolição inteira de grandes quarteirões, por ordem do Barão de Hausman, o arquiteto das belezas parisienses, que mandou derrubá-los para abertura e alargamento das grandes avenidas que se abriam. O trânsito teria que fluir livremente, jardins floridos e majestosas alamedas, eis tudo que a burguesia exigia do grande arquiteto francês, e o poeta descreveu eloquentemente a entrada dessa família num desses lugares chics de Paris, e claro, a eles proibido. Eis o trecho dessa imorredoura página da história universal:

Deslumbrados ante a magnificência das luzes ofuscantes dos majestosos cafés, com seu piso em pedra de carrara, impressionados com a grandeza dos seus lustres e espelhos a ofuscar a visão, eles lá entram, para ver de perto a suntuosidade do famoso recinto. Naquele momento, lá se encontrava uma moça aristocrática e seu namorado; ao vê-los, ela solicita ao amado que os faça sair, para ela, um acinte a presença daquela gente miserável no recinto luxuoso do café, e diz: não consinto que o meu enlevo seja perturbado por essa gente maltrapilha, insignificante. O namorado tenta contornar a situação, debalde, porém. Ela chama o garçom e pede que ele solicite do gerente a saída daquelas crianças de olhos esbugalhados, retirando-os do recinto, o que foi feito. E na profusão das luzes e das largas avenidas que se abriam, eles retomam a direção de onde tinham saído, dos esconderijos dos velhos prédios já agora inexistentes. Na certa, mais tarde voltariam ao café, às alamedas, às calçadas, porque  seus destinos é sempre a volta, não têm para onde ir. Os amantes baudelarianos e a Família em Farrapos, ao se defrontarem, passaram a ser vistos em todo o mundo como símbolo de la vie parisiense (transcrito do magnífico livro de Marshal Berman, Tudo que é Solido Desmancha no Ar. Editora Companhia das Letras, 1994).

Essa comparação aqui feita entre o conto baudelariano e os dois homens paulistas – deputado e escritor – mostra, em toda plenitude, o desprezo dos poderosos para com os pobres. Os dois, representantes da plutocracia paulista: o professor Lourenço Filho, na época, considerado o papa da intelectualidade brasileira; o deputado Moraes e Barros, representante das finanças paulistas. Ambos semelhantes à moça aristocrática do poema baudeleriano: visível desprezo pelos humildes, deixando clara a distinção entre os povos, a qual será eterna, porque sem solução. Exemplo vivo de aparthaid explícito aqui no Brasil é a capital da República, Brasília, que nem sequer procuraram disfarçar. Ao construí-la o Presidente JK, o chamado Presidente dos “cinquenta anos em cinco”, titulo que lhe deram seus admiradores, construiu Brasília de modo segmentar. A estrutura da cidade, idealizada pelos arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, afasta as pessoas, num recolhimento pastoral.

Brasília não foi feita para pobres: ela é antidemocrática. Foi construída especialmente para abrigar uma casta, a da nobreza política e militar, por ser a Capital da República. Note-se a barreira das gramas entre uma quadra e outra, como também a largura das suas ruas sem esquinas, portanto desertas, nada de aproximação, nada de povo, resultando o que eles na certa desejavam – ausência total de miseráveis na cidade do século e do Presidente JK, que talvez pensasse eternizar-se no poder. Nascido numa das regiões mais pobres e miseráveis do país, o Vale do Jequitionha, como observou Chico Julião em Até Quarta Isabela, JK esqueceu os pobres. Entretanto, foram esses pobres nordestinos que, tangidos pelas secas (mas capazes pelo trabalho), para lá migraram, e concorreram com sua-mão-de-obra na monumental construção. Não receberam louros nem honrarias, mas sim um estrambótico designativo, até hoje prevalecente, de “Candangos.

Os construtores de Brasília, exaltados e louvados, imprimiram à cidade que também, dizem, nascida de um sonho de Dom Bosco, um tom de tristeza e opacidade visível, com a grande carga de asfalto das suas construções monumentais dando-lhe um tom sombrio. Ela não tem a alegria e o charme de outras metrópoles brasileiras, tudo lá é envolto em solidão, em densas brumas e mistérios políticos, que vindo à tona, faz corar a todos, envergonhando o país. Uma só coisa lá se salva: o seu por-de-sol, poético e deslumbrante. Tenho que aqui registrar que de 20 anos para cá, a coisa lá mudou, com festivais de música e cinema. No entanto, para muitos, ela continua horrenda. Os anos passaram-se e, para tristeza da nobreza militar e política, lá chegaram os miseráveis que hoje vivem em volta dos suntuosos edifícios, uma gente sem rosto, sem vida, sem expressão alguma. Pisoteados, indesejados, excluídos, quando não mortos barbaramente, como foi o índio Galdino, pelos filhos dos magnatas pertencentes à casta dominante de Brasília (Abril de 1997).

Saí um pouco do assunto-tema deste perfil, que é Floro Bartolomeu, enveredando para outros assuntos. “Fora do contexto da obra”, pensarão alguns, no entanto não o é, porque eles, os miseráveis, os excluídos, também fazem parte dela. Volto ao Dr. Floro. Seu discurso virou livro e percorreu o país, ganhando a admiração de intelectuais que se solidarizaram com o Padre Cícero, como Gilberto Amado, Gustavo Barroso, Leonardo Mota, João Brígido, e muitos outros. Da Câmara, ele recebe total apoio de destacados próceres, à frente o Senador Epitácio Pessoa, Flores da Cunha, Cunha Bueno (líder da Maioria), Ramalho Ortigão, Ascendino Cunha, Nabuco Gouveia, Gonçalves Maia, Agra Silva, Tavares Cavalcanti, Moreira da Rocha (este depois Presidente do Ceará, e seu grande amigo), citando aqui apenas os que constituíam o núcleo intelectual da Câmara existente àquele tempo, e de posições políticas diferenciadas, o que prova mais uma vez a fascinação que o Padre Cícero exercia, a quem o conhecesse ou não. Livro escrito e distribuído, Dr. Floro retorna ao Juazeiro para encontrar o Padre Cícero acabrunhado pela morte de sua irmã Angélica Romana, falecida há pouco menos de um mês. Entretanto, a chegada do amigo fez com que retomasse o ânimo e a alegria, pelo retorno do seu porta-voz; prepara-lhe uma recepção improvisada, pelo imprevisto da chegada. Para fazer o discurso de saudação de boas-vindas, ele convoca o intelectual Padre Manoel Macedo, que depois escreveria no seu livro Joazeiro em Foco (op. cit.) o seguinte:

“Estava no confessionário da Matriz quando se me apresentou o Emídio, porteiro da casa do Padre Cícero, com um cartão do mesmo, onde me solicitava fazer um discurso de saudação ao Dr. Floro, que havia retornado de surpresa ao Joazeiro. Apesar da ogeriza que sentia pelo homenageado, não me recusei, era o pedido do velho e bondoso Padre que tinha povoado meus sonhos de jovem”.

O que isto custou ao padre aristocrata, descendente dos fundadores do Juazeiro e filho de um dos mais fiéis e devotados amigos do Padre Cícero, é dificil de se traduzir. O elegante e culto sacerdote não via o Dr. Floro com olhos de amigo, mas, atendendo à solicitação do Padre Cícero, fez a saudação. Pouco tempo depois, divergência e aversão se tornariam públicas no Natal de 1924, pois entre os dois desencadeou-se uma polêmica pela imprensa que fez tremer as pedras do Juazeiro, com ressonância além das fronteiras paroquiais. O estopim para a acirrada polêmica proveio tão-somente de uma Circular da Diocese do Crato, na qual o Bispo Quintino proibia os jogos de roleta, aliás, muito comuns em festas como Natal, Ano Novo e festas regionais das Padroeiras, especialmente. Esses jogos tornaram-se parte integrante dos festejos, como um entretenimento popular, lembrando que eles tinham a aprovação tácita dos delegados locais, todos da polícia. A respeito desse entretenimento, considerado por muitos como inofensivo, o próprio Floro faz referência no seu citado livro, traçando um roteiro interessante do que representava esse tipo de diversão muito comum no interior, por ocasião de festejos regionais. Para muitos, era a ocasião de fazer uma fezinha, escreveu.

O Vigário Macedo, obedecendo incondicionalmente às ordens do Bispo, decretou que não seriam realizados os festejos de Natal e Ano Novo, caso os jogos não fossem suspensos. Com essa medida, desencadeou-se uma luta entre ele e o Dr. Floro através da imprensa e da tribuna da Igreja. O delegado já havia vendido por oito contos de réis ao contraventor, inclusive com o aval do Dr. Floro, portanto era um fato consumado. Padre Macedo publica uma circular, quando mais uma vez reiterava o que já havia dito: não celebraria a Missa do Galo, se insistissem na realização dos jogos, ferindo os brios do Dr. Floro, que já havia dado seu aval. Como não era do seu feitio voltar atrás em nada, ele assegura através da imprensa a realização dos mesmos. Era o trunfo que o Padre Macedo precisava para detonar a campanha aberta contra ele, chamando-o de ambicioso e centralizador político que tinha conseguido, graças ao aval do Padre Cícero, tornar-se senhor do Joazeiro. Irredutível, Padre Macedo não aceita o esquema que apologistas e donos do jogo traçaram, dos mesmos serem realizados não mais em praça pública, mas sim num salão previamente destinado para isso. Estava contornada, entre aspas, a situação, o que não agradou ao Vigário Macedo, que insistia na sua não realização, sob hipótese alguma. E por não concordar, partiu para o ataque, aliás, já vinha fazendo da tribuna da Igreja um verdadeiro libelo, quando ressuscitou os assassinatos e crimes de tortura na cadeia do Juazeiro, bem como as execuções na estrada velha do Crato, que, segundo ele, tinham a chancela do Dr. Floro, num abuso de poder incomparável. Foi de fato um tremendo golpe. A crise chegou ao extremo. Desaparecia naquele momento a alma aristocrata do Padre Macedo.

O episódio tomou uma conotação tão grave que o Juazeiro, dantes unido, fragmentou-se, formando duas alas — Floristas e Macedistas —, uma decisão já premeditada há algum tempo. O motivo fica claramente evidenciado: a carreira política do Dr. Floro, numa terra que não era a sua, é inegável. Abalado com o violento incidente entre duas pessoas de sua estima, o Padre Cícero tentou contornar a situação. Reconhecidamente um conciliador, chama o Padre Macedo à sua casa para uma conversa particular, e lhe pede paz. Sua tristeza por ver o Juazeiro fragmentado era evidente. Apresentou então uma solução de calma na difícil conjuntura para o bem de todos dali. Afirmou, durante sua conferência particular com o citado sacerdote, que dali em diante esses jogos jamais ali se realizariam. Só que isto seria impossível, tudo estava acertado, não podendo mais voltar atrás.

No seu citado livro Joazeiro em Foco, ele comenta:

O Padre Cícero, tentando me convencer a dar por encerrado o episódio, dada a repercursão que ultrapassou os muros do Joazeiro. Surpreendi-me, pois desde que ali chegou ele sempre foi contra jogos, por mais inocentes que fossem, até mesmo o de baralho em casas de família. Impressionado com sua mudança, que considerei radical, ele aí reagiu, denotando mágoa pelo meu comentário. Em seguida disse: já nos entendemos o suficiente’. E num gesto de humildade pediu-me perdão, caso me tivesse magoado, e deu por encerrado o encontro.

Prosseguindo, diz:

O Padre Cícero é do rol daqueles que machucam, mas não dão aos outros o direito de suscetibilidades, mas infelizmente, ele já havia perdido o rumo do direcionamento, e tudo que partisse do Dr. Floro era por ele acatado, pois dele fizera seu alter-ego, sem todavia  abrir mão da supremacia”.

Nesse detalhe está implícita a tentativa do Padre Cícero de encerrar o episódio, quando acenou com paz e conciliação. Tudo foi em vão, pois na noite seguinte, véspera do Natal, Padre Macedo, aproveitando a ocasião da grande massa presente à missa, sobe ao altar e profere um sermão carregado de emoção e, ao mesmo tempo, de violência. Do alto da tribuna, que já vinha sendo palco dos seus contundentes discursos, ele apelou, despedindo-se dos seus conterrâneos, dizendo que deixava sua terra natal, e quem o botava para fora eram os dois homens, Floro Bartolomeu e o Padre Cícero Romão Batista.

O sermão calou no ânimo das pessoas ali presentes. Parafraseando o grande vate, Gonçalves Dias, disse: “não permita Deus que morra, sem que volte para cá”. Fez as malas e partiu rumo à Fortaleza, onde já o aguardava o alto clero, que o acolheu, e de lá, com o apoio da imprensa, ele detona suas flechas envenenadas contra o Dr. Floro. Este se defende das denúncias através do seu jornal Gazeta do Juazeiro, quando, em títulos como “Um Padre Ordinário e outros do mesmo jaez, responsabilizava o clero pelo incidente. E entra com uma ação no Tribunal do Estado contra calúnias e danos morais contra o Padre Macedo. Mas era tarde, demasiado tarde. O ato de coragem do Padre Manoel Macedo só tinha similar nos também corajosos atos do ofendido Floro Bartolomeu.

Antes desse incidente, esses comentários a respeito da sua pessoa eram feitos no maior sigilo, nos recintos das salas de jantar. O Padre Macedo inverte os papéis, e consegue o que nenhum outro conseguiria — jogar a opinião pública contra o deputado da sua terra. E incitado por uma boa parcela de pessoas que gostariam de sepultar sua voz, a insidiosa campanha de descrédito contra ele tomou corpo, quando construíram uma imagem deformada da sua personalidade, atribuindo-lhe horrendos crimes no Juazeiro. Daí o nascimento das duas alas, Floristas e Macedistas. A opinião pública dividiu-se, fragmentou-se o Juazeiro – fato espantoso, pois a união sempre foi sua força primordial. Teve início abertamente a campanha de oposição à sua pessoa por parte dos nativos, especialmente mesclada de difamações: o retrato que dele traçavam era de uma figura demoníaca, as insinuações dos crimes pesou.

A despeito de nebulosas, as acusações, entretanto, ganhavam credibilidade em grande parte da população não só do Juazeiro, mas também do Estado, em face da voz denunciante ser da mais alta estirpe, justificando assim, portanto, o crédito que passava. A lista de adesões ao Padre Macedo cresce. Dela, faziam parte figuras públicas do lugar, como o farmacêutico prático, José Geraldo da Cruz, afilhado de batismo do Padre Cícero, Benjamim Abraão, sírio-libanês, um dos seus últimos secretários e ex-morador de sua casa, o patriarca da família Xavier de Oliveira, José Xavierum caso surpreendente, pois segundo diz sua filha, a escritora Amália Xavier, ele era da extrema confiança do Padre Cícero, o romeiro pernambucano, Miguel Jordão, que chegou ao Juazeiro atraído pelos Milagres e, para espanto geral, José Terto e sua mulher Petronília. Este, como não podemos esquecer, foi uma das principais figuras da revolução, ao lado do Dr. Floro, e muitos, muitos outros de menor prestígio.

Como ficaria sua carreira política a partir daí, após tantas denúncias? Sendo que o agente transformador disso tudo era um nome de peso, que jamais o aceitou na sua terra? Incomodado com a atuação política do médico baiano, e, naturalmente, também subestimado com a sua presença onipotente, pois sempre repetia nos seus escritos “Até quando, Dr. Floro, abusarás da nossa paciência?”. Sempre procurando se defender do libelo acusatório dos assassinatos, em verdadeiras execuções, que também pairava sobre o governo. Era o período agudo do governo policial de Moreira da Rocha, o Moreinha, por ter deslanchado uma repressão sangrenta ao banditismo reinante no Ceará. Apesar das suas defesas, dos seus artigos quilométricos, estava o Dr. Floro na realidade cercado por inimigos rancorosos, e sua imagem de líder vai aos poucos se dissolvendo, como nuvens no céu. Fisicamente vai se exaurindo paulatinamente, e sua saúde se agravou, segundo o médico Irineu Pinheiro (op. cit.), depois do episódio violento contra sua pessoa, deslanchada pelo Padre Manoel Macedo. Dr. Floro era portador de osteíte aguda, que o matou prematuramente, apenas dois anos depois da acirrada polêmica. Para se ter uma ideia do que ocorreu nesse período e quanto o episódio lhe fez tanto mal, abalando-o física e moralmente, eis o que disse o escritor Otacílio Anselmo, no livro Mito e Realidade (op. cit.):

“Certa noite, chegando de Campos Sales, onde era Coletor Federal, José Fausto Guimarães, passando em frente à casa do Dr. Floro, viu luzes acesas. Estranhando o adiantado da hora, pois já passava da meia-noite, acercou-se da janela para ver o que acontecia. Vendo-o de pena em punho, perguntou-lhe entre surpreso e curioso: Dr. Floro, já é muito tarde, e continua escrevendo?’. Sua resposta: ‘Estou rebatendo um artigo daquele padre, filho-de-uma égua”.

E foi a partir daí que o Dr. Floro dá uma guinada de 180 graus: da sua proverbial e decantada cordialidade, torna-se áspero, explode pela menor coisa, irrita-se, destrata. Numa palavra, perdeu o brilho cativante de outrora, e o verniz da popularidade se esvai. Agora ele opera pela força, a força do poder político. É desnecessário falar das implicações políticas que o fato gerou, e não só a ele, mas por extensão ao Padre Cícero, pois inseparáveis. Sua presença era evidente a cada ação do mesmo.

Tentando minimizar o episódio, porque dele também saiu arranhado perante o Estado, o Presidente Moreira da Rocha ensaiou uma visita ao Juazeiro, e convocou todo o seu secretariado, a imprensa, e o Prefeito da capital, cinegrafistas e deputados, e em trem especial partiu para o Juazeiro, onde foi altamente recepcionado e festivamente recebido, inclusive sua grande comitiva de mais de 50 pessoas. Banquete de 200 talheres, discursos e foguetórios, banda de música, como mandava o figurino Florista da alegria baiana, do despojamento, do ser festeiro. E o ágape farto, requintado, saído do crivo da governanta emérita, beata Mocinha, e a presença maciça de todos os prefeitos do Vale deram um tom de conciliação, embora superficial. Estava assim maquiado o recém-findo episódio de atrito deprimente, que só percalços trouxe. Esta foi a última visita de Chefe de Estado que o Dr. Floro anfitrionariaem pouco mais de um ano, deixaria de existir. A acirrada e desgastante polêmica passou à história juazeirense, não se perdendo nos labirintos do esquecimento, porque o autor dela encarregou-se de perpetuá-la em livro, sob o título de Juazeiro em Foco (ano de 1927).

Na esteira desses acontecimentos veio à tona um escândalo de grande efeito difamatório para o Padre Cícero. Trata-se do Caso Hermelinda Correia de Macedo”, prima do Padre Macedo, e que, segundo a opinião pública do Juazeiro, teria sido influenciada pelo mesmo. O caso foi tão grave que ganhou a imprensa, indo parar depois em Juízo, quando Dona Hermelinda, pessoa de posição social elevada e também de posses, assegura ter sido lesada pelo Padre Cícero, que havia se apoderado indevidamente do Sítio Paul, de sua propriedade, depois dela ter feito uma dádiva às Obras das Vocações Sacerdotais. Com isso, o Clero do Crato arremeteu e exigiu a volta da propriedade, mas inútil: o sítio ficou mesmo com o Padre Cícero, que argumentou e apresentou documentos comprobatórios da compra que fizera. Segundo seu advogado, Raimundo Gomes de Matos, em artigo no jornal A Região da Diocese do Crato (ano de 1925):

“Muitos álibis ela apresenta, reinvindicando sua propriedade, dentre estes, e mais importante para ela, o Padre Cícero ter feito de Floro Bartolomeu seu herdeiro universal, quando diz que, surpresa e amargurada, foi informada do caso, não querendo, em absoluto, que sua propriedade, herança de seus pais, fosse parar nas mãos de quem não gosto”.

Aí então só lhe restou exigir do Padre Cícero a volta do seu Sítio Paul, que como vimos terminou numa nova encrenca no Juazeiro, de âmbito estadual.

Voltando ao Dr. Floro, ele resiste à tempestade, não se deixando abater, e segue para o Rio. E quando pensavam que o haviam destroçado politicamente, surpreendentemente lá surge ele, cheio de poderes, pois o Presidente da República, Artur Bernardes, o nomeia como Chefe do Batalhão Patriótico, vendo nele um nacionalista e patriota, um intrépido para combater a Coluna Prestes, que descia do Mato Grosso em direção ao Norte e Nordeste do país. Dinheiro, armas e poderes. Desembarcado em Fortaleza, o arsenal que trouxera consigo poucos dias depois segue de trem para o Juazeiro, quando ele, em vagão especial, por força da sua posição de Comandante de um Batalhão, já havia seguido antes. Lá chegando, arrebanhou milhares de homens e formou o Batalhão Patriótico. Chegava assim ao ápice do prestígio e da glória nacional, consolidando o seu papel de revolucionário. Sua estrela brilha, ele transcende o precário do cotidiano, pois nomeado com todos os poderes Comandante-Chefe pelo Presidente da República, função até então inerente às Forças Armadas. Formado o Batalhão, e uniformizado de azul (era esta a cor), ele segue em direção ao oeste do Estado para a cidade de Campos Sales, por ser fronteira de dois estados, Piauí e Pernambuco, e naturalmente, pelos seus cálculos, a Coluna Prestes, invariavelmente teria que por ali passar. Dias depois, chegava para reunir-se a ele o XI RI de São João Del Rei (MG), sob o comando do Major Polidoro.

A Coluna Prestes, que deixava Teresina, teria que passar em território cearense, mas seus integrantes foram prudentes ao extremo, e se embrenham Piauí afora: de Jaicós, eles tomam a direção de Pio IX, passando próximo à fronteira de Campos Sales, onde estava aquartelado o Batalhão, que chamarei de Florista. Há discrepâncias de alguns autores a respeito desse itinerário da Coluna Prestes. Até mesmo o próprio secretário da Coluna, Lourenço Moreira Lima, não esclareceu tão bem esse pormenor, de fundamental importância para a História. Aqui, prefiro ficar com o depoimento de meu pai, Delmiro Moreira Arrais, que a tudo assistiu de muito perto. Primeiro, por ser vizinho do Quartel General, residência oficial do Dr. Floro; segundo, porque a essa mesma casa ele tinha acesso, o que explicarei adiante. Meu pai não deixou a pequena cidade, a exemplo de muitos moradores que se refugiaram em suas fazendas ou sítios. Poucos os que lá ficaram logo que o Batalhão Patriótico fincou sua base. Dentre esses poucos, estava a família de meu pai, constituída de minha mãe e três filhos menores, sendo que o mais velho deles contava apenas oito anos de idade. Os apontamentos escritos por meu pai, e que os vi muitas vezes, traçam o seguinte roteiro: a Coluna Prestes passou próximo à nossa cidade, enveredando por uma estrada vicinal ao lado do cemitério local, quando abriu fogo contra o Batalhão Patriótico, informada que estava da sua presença ali. Houve revide por parte do Batalhão Patriótico, seguindo-se um tiroteio que durou meia hora, estando os do Batalhão Patriótico acampados no lugar que batizaram de “Trincheiras”, próximo de onde passou a Coluna. (Mais tarde esse pequeno sítio pertenceu ao pai das minhas filhas, e quando o vendeu fiquei triste, pois gostava de ir até lá para contemplar os Valados, ainda abertos 1968).

Esse tiroteio esteve sob o comando do Major Polidoro. Tudo leva a crer que o susto da Coluna Prestes foi inevitável, porque às pressas seguiu em direção à cidade de Pio IX. A fuzilaria, que durou por mais algum tempo, assombrou os poucos moradores de Campos Sales que lá ficaram. Muitos passaram mal, sendo socorridos pelos médicos do Batalhão Patriótico, mas não houve vítimas. Essa é a fonte de informação, para a autora, mais precisa, pois contada por um homem destemeroso, de caráter ilibado, que não se amedrontou, lá permanecendo. Meu pai, que era de índole calma e sensato por excelência, dando por terra o que disse o escritor Otacílio Anselmo (op. cit.): “Floro, acuado e acovardado em Campos Sales, já bastante enfermo, não deu um tiro sequer.” É o escrever com parcialidade, sem falar das tendendências comunistas de tantos outros que escreveram sobre o assunto, mudando a História, o que, na visão do escritor argentino, José Luís Borges: “modificar o passado é criar duas histórias universais”.

Quanto a meu pai ter acesso à casa do Dr. Floro, deu-se pelo seguinte fato: sabedores que ele era um bom aplicador de injeções, foi convidado a prestar essa ajuda, e aqui é bom frisar, não que estivesse o Dr. Floro à mercê de incompetentes, ou que falhassem na sua tarefa absolutamente, acompanhado de dois médicos competentes, e enfermeiros não menos. Mas, como dizia meu pai, a correria era tão grande, o tumulto tão intensivo, uma verdadeira Babilônia. Quando lhe sobrevinham as dores lancinantes causadas pela osteíte, deixando-o irritado e agressivo, alteava a voz, chegando a ser ouvida das casas vizinhas à sua. Nessas horas tristes da sua vida, ficava indomável e destratava mesmo, atestava meu pai que, por pura fatalidade, fez parte desse corpo de prestadores de serviço voluntário. Foi também como Mestre-de-obras que fez remodelações no recinto da casa que ficou servindo de Quartel-General e, ao mesmo tempo, de residência ao Dr. Floro (quero frisar que esses pequenos serviços internos de pedreiro eram muito bem remunerados, e que meu pai sempre resistiu recebê-los). Outro pormenor também deve aqui ser citado: por ter saído a maior parte dos moradores da cidade, e principalmente os donos de açougues, houve falta de carne. Tomando conhecimento, Dr. Floro mandou que abastecesse a população, já que, para eles, o abastecimento era contínuo. Assim, os que lá ficaram foram abastecidos pela cozinha Florista. Levando em conta que havia crianças e idosos a depender do artigo carne.

Esses pequenos detalhes fizeram meu pai aproximar-se daquele poderoso homem que, no momento, detinha enorme poder, conferido pelo Presidente da República. Da parte do Dr. Floro, nasceria uma consideração espontânea ao modesto homem de obras, que ele chamava de Mestre. Acostumou-se ao aplicador de injeções, e àquela determinada hora de ser aplicada, lá estava meu pai, cumprindo a tarefa que julgava gratificante: o aproximar-se de um homem ao qual estava entregue uma grande missão, qual fosse, a de rechaçar ideologias vesgas, que nem mesmo os que a estavam espalhando Brasil afora estavam dela convictos, como mostrou a História. Ainda assim, meu pai teve ocasião de, em muito pouco tempo, como sempre dizia, avaliar o seu caráter, suas atitudes tão comentadas pelos delitos aos quais lhe davam a paternidade, como vimos atrás. No caldeirão tão sugestivo, pela infinidade de cabeças pensantes, havia um parente próximo de minha mãe, com o qual o casal mantinha boas relações até acho que foi esse um dos motivos que fez meu pai ter acesso àquela residência-militar. Era Pedro Silvino de Alencar, vítima dos acessos de neurastenia do biografado, que demitiu-o do Comando do Batalhão. O motivo do desentendimento: Dr. Floro divergiu de um itinerário, traçado por Pedro Silvino, quando, irascível, aos brados, contava meu pai, destituiu-o do comando. Há registros também de uma divergência entre ele e o Major Polidoro que, apesar de não ter sido um atrito, tudo leva a crer ter sido não mais que um conflito de personalidades e poderes, razão por que o Batalhão Patriótico foi desmembrado.

Os médicos ali sempre presentes tentavam conter a irritabilidade que tomava conta do intrépido homem, já a essa altura altamente fragilizado pela doença óssea que o contaminou e o levou à morte. Passadas as crises, era um outro homem, polido, educado, de fino trato, que era difícil de entender-se o que dele se dizia, acentuava meu pai, se referindo às execuções de bandidos perigosos no Juazeiro. Achava mesmo incompatível toda essa triste história, se fôssemos levar em conta o seu porte fino, a sua convivência com o Padre Cícero, um pacifista, e até pelo seu lado sentimental. Ele, ouvindo da sua casa meu pai tocar violão, pois o fazia muito bem, lá chegava o seu ordenança, de nome João Fernandes, com um cartão, ou mesmo com um pedido verbal para que meu pai solasse algumas valsas, dizendo o ordenança:          o Dr. sente-se bem ao ouvi-lo tocar, parece até um milagre, alivia suas dores, deixando-o calmo”. Minha mãe acompanhava meu pai, cantando com sua voz afinada e melódica ela cantava muito bem, com alma, dando um toque de divinal ao momento. Dessa forma, essa família simples e despretenciosa presenteava com tão pouco aquele homem cheio de poderes, que, já em estado terminal, mas no cumprimento do dever para com a pátria, sentia-se aliviado das suas dores, pelo toque musical dos dedos ágeis de meu pai e do cantar bonito de minha mãe, pela sublimidade que a música empresta, enlevando-nos, e elevando até ao paroxismo do êxtase. Pela sensatez de meu pai, caráter reto, incapaz de um exagero, é que aqui torno público esses fatos. Antes de partir deste mundo, confidenciou-me desejar ardentemente que um dia escrevesse algo sobre o poderoso homem que, por um acaso do destino, ele conheceu de perto, embora tão rápido, mas que deixou nele uma impressão duradoura da sua sinceridade e intrepidez, que o tempo, na sua velocidade avassaladora, não foi capaz de diluir, muito menos apagar da sua retina. Cumprindo o seu pedido, aí esse modesto perfil do que era Floro Bartolomeu da Costa.

No dia em que deixou a pequena cidade de Campos Sales, de clima magnífico, pelo ar puro que recebe da altaneira Serra do Araripe, e até mesmo pelo vento que sopra e uiva com veemência, dando um tom de poesia, Dr. Floro, gravemente enfermo, dirije-se a meu pai, presente ao seu embarque, bem como outros moradores, e dele recebe um efusivo e fraternal abraço de despedida. Os dois médicos, Otaviano da Costa (baiano) e José Paracampos (fluminense), também tornaram-se conhecidos de meu pai e hóspedes, como diziam, de um ficus-benjamim, que tinha em frente à sua casa, e que eles, em momentos de folga e de calor abrasivo, ali sentavam-se a conversar, refrescando-se da fornalha do sertão com o vento a soprar forte, talvez desejando que tudo aquilo passasse. A pequena Campos Sales ganhou outra feição: era o exército de Floro, com milhares de homens, e o 15 RI de São João Del Rei, com rapazes elegantes, fazendo a alegria das moças da minha cidade. Aqui, portanto, o relato de meu pai e suas anotações à caneta-tinteiro, numa letra de manuscrito que muitas vezes lia e relia para mim. Esse relato é uma modesta evocação in-memoriam a meu pai, meu verdadeiro amigo, e um admirador incondicional do multiforme homem que era Floro Bartolomeu da Costa.

Retorno ao itinerário da Coluna Prestes, chegando a Pio IX (PI), onde os habitantes do lugar foram vítimas das mais cruéis atrocidades, e o chefe Júlio Simões e a família Arrais de Alencar, fundadores do lugar, foram coagidos. Entre outras coisas, tiveram o desprazer e o desconforto de presenciarem seus bens, como animais de montaria, serem mortos e esquartejados em plena via pública. Bois de corte foram mortos para o consumo da cozinha ambulante que conduziam consigo. Paióis repletos de alimentos foram destruídos, derramados, saqueados. Fotografias dos antepassados foram retiradas da sala de visitas e rasgadas a punhal. Os fios do telégrafo, cortados, deixando a cidade sem comunicação. Danos materiais e afetivos chocaram a população, despertando o senso de indignação e de revolta, mas, silenciosos e prudentemente, só lhes restou engolir a humilhação e a arbitrariedade, quando nenhuma resistência houve à entrada deles no lugar. O Vigário da Freguesia ficou sob coação, e ainda teve que acompanhá-los até a saída do lugar, debaixo de ofensas e iniquidades, quando tomaram a direção dos Inhamuns.

Ao passarem no lugar São Domingos, hoje Quixariú, berço da família Andrade Arrais, novos percalços. O medo tomou conta dos ingênuos habitantes, molestados impiedosamente, pois a um pobre velho fizeram-no acompanhar para lhes ensinar as veredas que os levassem ao caminho dos Inhamuns. Note-se que não enfrentavam o batalhão do governo, sempre margeando os rios e por estradas vicinais. Prestes não queria o confronto direto com o Exército de Floro Bartolomeu no Cariri, o chamado Batalhão da Legalidade. Entre o coice de um animal e outro, e aos impropérios, já chegados à divisa dos Inhamuns, para onde se dirigiam em direção à grande fazenda dos Távoras, o pobre homem foi deixado num lugar deserto e de difícil acesso, e detalhe: amarrado. Na sua busca, depois de dois dias de intensa caçada e sofrimento dos seus familiares, o encontram em estado de desânimo e sem nenhuma resistência, quase morto. Retornam com ele para a Vila de São Domingos. Segundo seus parentes, esse senhor ficou traumatizado pelo resto dos seus dias, seguindo-se poucos anos depois sua morte repentina.

Desta forma, a Coluna Prestes ia espalhando o terror contra indefesos sertanejos, que não entendiam o porquê de eles ali estarem, muito menos da violência de que eram vítimas. Embora ainda hoje existam adeptos embevecidos, que o louvam incessantemente, tanto quanto o foi à época, quando, num tributo exagerado, exaltavam-no em versos como estes: “cantando, sorrindo, purificando a Pátria”, sendo que o que prevalecia de fato era o despotismo e a anarquia, deixando marcas em quem foi vítima de tão iníquos distúrbios da “gloriosa Coluna Prestes” e de seu mito maior, o chamado “Cavaleiro da Esperança” por adeptos apaixonados, que até hoje teimam em glorificá-lo, quando nada de positivo deixou Luís Carlos Prestes — que a História já deu o seu veredicto.

À medida em que ia ganhando mais poderes do Presidente da República, Artur Bernardes, que aliás governou quase todo o tempo em estado de sítio, o Dr. Floro, na visão de muitos autores, extrapolou, quando convocou Lampião, através de um emissário, que o encontrou num dos seus famosos esconderijos, para integrar o Batalhão. A convocação do bandoleiro partiu do seu Quartel-General em Campos Sales, por meio de um cartão com o timbre oficial do Batalhão, e não, como muitos supõem, ter sido o Padre Cícero o autor do convite, num verdadeiro equívoco, simplesmente, ao que tudo indica, pela presença de Lampião no Juazeiro. Mas por que Lampião não seguiu direto para onde estava estacionado o Batalhão? São pontos controversos até hoje. Assim, a cidade de Campos Sales foi poupada da sua indigesta presença. O fato é que, fazendo a caminhada até o Juazeiro, trouxe constrangimentos ao Padre Cícero. Magistratura, imprensa, clero e a polícia, todos se sentiram ofendidos com a presença aberrante de Lampião, que naquela ocasião estava sendo procurado pela polícia de seis estados. Padre Cícero estendeu-lhe a mão, foi ao seu encontro, no sobrado do poeta popular João Mendes de Oliveira, onde estava hospedado. A conversa foi reservada e rápida, havendo várias versões desse encontro. Todavia, é voz corrente que aconselhou-o a deixar o cangaço e retirar-se para Goiás ou Mato Grosso, na época um fim de mundo, e lá começar outra vida, o que jamais aceitou.

Diferentemente dos seus antecessores Antônio Silvino (1906) e Sebastião Pereira (Sinhô, neto do Barão do Pajéu 1916, que formou seu bando para vingar a morte de um irmão), Luís Padre era seu primo, e fez parte do bando, tendo início assim a luta que durou quase meio século, entre Pereiras e Carvalhos, quando foram eliminados quase todos os Carvalhos (1916-1922). A conselho do Padre Cícero, os dois primos se retiraram para Minas Gerais, quando foram de fato substituídos por Lampião (extraído da Enciclopédia Brasileira). Ao contrário destes, Lampião jamais aceitou deixar sua terra natal. Num certo tempo, um setor da imprensa ávida de sensacionalismo levantou a hipótese de que ele estava vivo e residindo em Goiás, mas tudo não passou de especulações com o fito de aguçar o imaginário popular, criando lendas. São as imaginações férteis de que tanto falava o escritor cubano Alejo Carpentier nos seus escritos, referindo-se ao poder de imaginação e criação do fictício do latino-americano, pródigo em dar vida a fatos inverossímeis.

Do encontro entre o Padre Cícero e o celerado nada transpirou para o público, a não ser a promessa de jamais tocar no Ceará, juramento que cumpriu à risca. O cearense foi poupado das suas barbaridades, diferentemente de outros Estados do Nordeste, onde fez grandes estragos, principalmente na Paraíba, que prometia tirar do mapa (ditado usado à época). A chegada de Lampião ao Juazeiro, como não podia deixar de ser, causou alvoroço, todos queriam vê-lo em carne e osso. Seria mesmo uma verdade aquilo tudo, ou seria apenas ilusão de ótica? Caravanas das cidades vizinhas para lá afluíram, para constatar o ineditismo do fato. A cidade ficou repleta de curiosos, fazendo lembrar os tempos do Milagre. Vê-lo ao vivo excedia o limite do pensamento, pois para muitos Lampião era uma figura lendária, quase fantasmagórica, ora aqui, ora ali, sem residência fixa, senão a da caatinga, que tão bem conhecia nos seus mínimos detalhes, daí resistir ao cerco policial de seis estados. Mas como conceber-se tanto drible para não ser preso? Estrategista ele o era, mas impossível que sempre levasse a melhor.

As Secretarias de Polícia dos estados davam conta do cerco pertinente a ele, tudo porém não passava em parte de um blefe. De acordo com depoimentos e artigos de jornais da época, as volantes andavam no seu encalço sempre à paisana, e nunca a uma distância superior a quatro léguas. Como prendê-lo dessa forma? Os locais que o abrigavam pertenciam em grande parte aos senhores do latifúndio, que tinham em Lampião um grande camarada para qualquer emergência. Daí sua longevidade no cangaço: com a grande proteção que lhe davam os ricos fazendeiros, fato constatado e sem contestação. O fato das propinas feitas a Comandantes de Batalhão, que operavam na sua captura, é mais que real, tanto que vários oficiais chegaram a responder a inquéritos, sendo que os principais deles, segundo o próprio Lampião, eram o Major Teófanes, da polícia pernambucana, e o Major Figueiredo, da polícia da Paraíba.

Portanto, conhecedor da corrupção no meio policial, tornava-se difícil sua captura, pela duas proteções, latifúndio versus corrupção policial, peso mais que suficiente para sua longevidade no cangaço. Admitindo-se também, inegavelmente, seu conhecimento de grande estrategista. Quanto à sua valentia, o que dizem os estudiosos da sua pérformance? Para uns, valente; para outros covarde e cruel, até aqui sem substituto. Mas no meio policial a maioria o detestava, e não se dobrava a ele e seu bando. O Sargento José Antônio do Nascimento, por exemplo, era um desses, quando tentou por todos os meios barrar sua entrada no Juazeiro. Em represália, Lampião escreveu-lhe desafiadora carta, muito divulgada pela imprensa.

Evidenciando sua estada na cidade, sabendo de que todos gostariam de vê-lo nem que fosse à distância, ele chegou à sacada do sobrado do poeta João Mendes e acenou à multidão ali postada, e fez mais: num gesto de filantropia, distribuiu mais de um conto de réis, em moedas e notas de cinquenta mil réis, escreveu o médico Otacílio Macedo, que o entrevistou. A construção pormenorizada dessa entrevista, talvez a mais correta e transparente que se fez sobre Lampião, até hoje. Descrevendo seu perfil físico e as características da sua pérformance nada fica a  dever aos grandes repórteres desse começo de século. O médico-repórter começa por dizer que Lampião era um dandi deturpado, referindo-se ao seu vestuário, que constava do seguinte:

“Na ocasião ele trajava calça de brim cáqui, camisa de xadrez com colarinho alto, lenço vermelho ao pescoço, abotoado por um reluzente broche cravejado de pedras preciosas, brilhantes e esmeraldas. Nos dedos, anéis de safiras e rubis e, pendente do pescoço, um grosso cordão de ouro, com um crucifixo também em ouro maciço, e em cada um dos braços da cruz uma pedra preciosa, que parecia ser rubi. Usava óculos com armação em ouro e tartaruga, e complementando a exótica indumentária, um largo cinturão de couro, fechado por uma fivela dourada que também julguei ser de ouro. Dado o calor abrasante do Nordeste, não usava sapatos, mas alpercatas de couro cru, muito usadas entre os nordestinos, sem exceção de condição social. O seu perfil físico era de um homem com uma acentuada envergadura. Andando, deixava bem à mostra o pormenor, detalhe que atribuí ser devido aos pesados bornais e cartucheiras que consigo carregava, trazendo-lhe talvez problema na coluna. Dolicócefalo, uma extensa leucemia no olho direito empanava um pouco a diretriz de sua visão quando mirava, não atrapalhando em nada, pois como sabemos tinha excelente pontaria. Seus cabelos eram pretos e lisos, acentuando assim o parentesco da raça indígena misturada ao caboclo sertanejo. O corte do cabelo era em estilo americano, em voga na época. Sua voz era pausada, extremamente desconfiado, deixava entrever sua descendência nativa. Seu olhar oblíquo dava a impressão de querer abarcar de uma só vez todo o cenário ao seu redor. Mesmo com a fama de impiedoso, despertava admiração. Um pormenor chamou-me a atenção: Lampião respeitava o interlocutor. Olhando para mim, perguntou-me: quanto vai me pagar pela entrevista? Em seguida, com um sorriso brejeiro, mandou que seus homens se perfilassem, o que fizeram instantaneamente, e aí foram feitas as fotos, pelo sírio-libanez Benjamim Abraão. E são essas fotos que até hoje, estampadas em livros e jornais, correm mundo.

Entre pasmos e incrédulos, Juazeiro via o maior bandoleiro de todos os tempos em seu território, manso, cordato. Atendendo ao chamado do médico Floro Bartolomeu, ali ele estava garantido a qualquer tentativa de represália por parte das autoridades. Por exemplo: o da sua prisão, pois o Padre Cícero não consentiria, e isto afirmou para a imprensa quando questionado, por deixar que ele lá chegasse, numa afronta às autoridades constituídas. Sua resposta foi a de que nem era juiz nem delegado para mandar prender ninguém, e Lampião lá estava a chamado do seu grande amigo Dr. Floro, portanto, seria uma traição mandar prendê-lo. Para muitos autores, o vulgo o via como protetor de uma parcela espezinhada da sociedade, um porta-voz das suas reivindicações; para outros, no entanto, não passava de um monstro sem alma, desprovido do menor sentimento cristão, que não poupava suas vítimas das mais cruéis atrocidades. Apesar do constrangimento que sua chegada trouxe, o Padre Cícero teve que tolerá-lo durante 12 horas na sua cidade. E paralelo a esse constrangimento, teve que enfrentar os setores da sociedade ressabiados com a presença do cangaceiro. Ao chegar ao Juazeiro, o Batalhão Patriótico estava praticamente desmoronado, dado o estado de saúde do Dr. Floro ter se agravado, e ele ter seguido para o Rio.

O Batalhão ficou assim dividido: uma parte seguiu para a Paraíba, outra para Fortaleza, sob o comando do General Polidoro. Com a presença constrangedora de Lampião e seu bando, os juazeirenses encontraram um meio de se desvencilharem do famoso bandoleiro, numa habilidade incrível. O engenheiro-agrônomo Pedro Uchôa, da Secretaria de Agricultura do Ceará, lotado no Juazeiro, astuciosa e sorrateiramente arquiteta uma patente de Capitão para ele, depois de já tê-lo uniformizado e ao seu bando com a farda do Batalhão Patriótico e ter recebido pesados armamentos, armas privativas das Forças Armadas. A fim de não decepcioná-lo, e evidentemente temendo uma reação contrária do celerado, engendra uma patente de Capitão e, numa folha de papel almaço, foi exarado o documento apócrifo e folclórico. Foi a partir daí que ele passou a ser chamado de Capitão Virgulino Ferreira. Dia seguinte, deixava o Juazeiro e tomava a direção do norte do Estado, onde foi esbarrar em Mossoró, e foi aí, como já citado, que seu bando foi rechaçado, tendo como epílogo a morte de Jararaca.

Os repentistas do cordel celebraram o inacreditável acontecimento, momento que jamais imaginaram vê-lo. A presença viva em carne e osso do maior bandoleiro do sertão, hospedado e com garantias na casa do também repentista, o poeta popular João Mendes de Oliveira. Em estrofes de sétima, eis uma pequena amostra do que foi cantado:

                        Assim a quatro de março

                        Num dia de quinta-feira,

                        Chegou aqui na cidade

                        A famosa cabroeira

                        Desse bravo Lampião

                       Que vinha com seu irmão

                       De nome Antônio Ferreira.

                       Daí da Fazenda Nova

                       De Juazeiro arrabalde

                       Lampião fez uma carta

                       Pedindo a autoridade

                       Se ela lhe permitia

                       Ele e sua companhia

                      Acamparem na cidade”

José Bernardo completava a narração:

                  "Eu porém lhe perguntei

                  Se lhe deram permissão.

                  Só sei que às nove da noite

                  Entrou o Batalhão

                  E na casa hospitaleira

                 De João Mendes de Oliveira

                 Hospedou-se Lampião."

Mas não só foi a chegada de Lampião ao Juazeiro que despertou polêmica. Controversa também é a carta que o Padre Cícero enviou ao líder da Coluna Prestes, e que tem a data de 20 de fevereiro de 1926. O secretário da Coluna, Lourenço Moreira Lima, classificou-a de ingênua, e diz que o Padre Cícero fazia um aceno para que a Coluna depusesse as armas e seguisse para o Juazeiro, onde seria bem recebida. Essa carta fez surgir na imprensa a hipótese de que ele via com simpatia o movimento revolucionário comunista. Nada mais irreal do que essa interpretação; primeiro, por ser ele de índole conservadora, tão conservadora, que não podemos esquecer ter sido acusado de monarquista, portanto, jamais iria apoiar movimentos contrários às suas posições nacionalistas (sem ser um chauvenista), é fato inconteste. Segundo: por ser amigo de Artur Bernardes, que acabara de nomear o seu grande amigo e porta-voz na Câmara, Dr. Floro Bartolomeu, para combater os revoltosos. A interpretação é de todo insustentável. O que ele, Padre Cícero, desejava era tão somente paz — Paz—que sempre pregou, e por ser um pacifista e um nacionalista, não admitia o nascimento de novas doutrinas políticas, fossem aqui implantadas, pois não demorou muito, e Luís Carlos Prestes fez sua profissão de fé ao comunismo.

Voltando ao Dr. Floro, sua passagem pelo Juazeiro foi breve e emocionante. Pela última vez ele pisava o solo juazeirense. Também pela última vez abraçava seu inovidável amigo e benfeitor, o Padre Cícero. O encontro foi pontilhado de emoção, e Floro tinha convicção do seu próximo fim, como assegura o médico Irineu Pinheiro, seu colega e grande amigo. Dali ele segue para Fortaleza, de automóvel, em marcha lenta, onde aguardaria o navio que o levaria ao Rio. Acolhido na Escola de Aprendizes e Marinheiros, embora bastante doente, ele concede entrevistas, e sustém as prerrogativas de Chefe-revolucionário. Esse fato é da mais alta relevância, pois sublinha sua importância perante o Presidente da República, com o qual mantinha contato diário, através de sua assessoria. Embarcando dias depois para o Rio, por onde passa concede entrevistas que os jornais da antiga capital reproduziam. Mas seu estado de saúde cada vez mais se agrava. Ao desembarcar no Rio, concede entrevista. Já em sua casa, no Catete, recebe um representante do Presidente Artur Bernardes com votos de boas vindas e de pronto restabelecimento.

Ainda presta conta da sua missão ao Estado Maior do Exército, sendo este o seu último ato político na Capital da República. Seu estado de saúde se agrava, e de enfermo passa a agonizante. Poucos dias lhe restavam. Sua casa enche-se de personalidades as mais diversas, políticos de variadas agremiações partidárias, médicos, enfermeiros, todos na luta pela sobrevivência do homem que, já muito doente, prestou à nação um grande ato de patriotismo: impedir que a temida Coluna Prestes penetrasse no seu Cariri. O Cariri, que adotou como sua segunda terra, tanto o amou que empenhou sua própria vida, quando da revolução de 1914, e também na grande confusão com os donos da terra, à frente o Padre Manoel Macedo e seus adeptos. Apesar de citadino, com anos de vivência na Capital da República, ele amava mesmo era o sertão, e isso ele perpetuou no seu livro, que tomei de empréstimo para a epígrafe que abre esse modesto perfil.

Estando à beira da morte, seus antagonistas não o perdoaram. A parcela da população constituída de nativos que lhe eram hostis nunca o admitiu no Juazeiro, fato de todos conhecido. Arquitetam o seu assassinato, já estando ele no Rio e gravemente enfermo. Naquele momento, não mais estava ali o homem intrépido portador de um inegável carisma, nem tampouco o fino cavalheiro que tão bem sabia receber. Retórica, persuasão, tudo estava paralisado. Simplesmente repousava ali uma sombra do bravo homem que fora outrora. Mesmo assim, os que nunca o aceitaram no Juazeiro concertaram um plano para sua eliminação. Vejamos o que escreveu Xavier de Oliveira (op.cit.), seu inimigo, em livro onde retrata o Juazeiro da época, o exército e o sertão, e descreve a chegada ao Rio do homem contratado para eliminá-lo. Vejamos.

“Certa manhã, fui surpreendido aqui no Rio pela chegada inesperada de Miguel Jordão, que me procurou em minha casa; pernambucano, romeiro do Padre Cícero, magnicida frustro, tendo sido uma das vítimas do caudilho, após ter sido preso e levado uma surra na cadeia do Juazeiro, de cujo episódio jamais esqueceu. Destilando ódio, reunido a outros, concertaram a trama do seu assassinato. Procurando-me, expôs o plano, dizendo ter recebido dinheiro para as despesas de viagem e permanência aqui, além da arma, com a qual concretizaria o crime. Diante da sua fria exposição, horrorizei-me, e tentei convencê-lo a não executar o crime, mesmo porque era de um absurdo sem limite. Tentando dissuadi-lo da sinistra e louca pretensão, disse-lhe: 'Floro é um homem liquidado, não durará mais 30 dias, deixemo-lo morrer em paz'. Reprovando por todos os meios esse absurdo, com o qual não me associei, consegui que desistisse, empregando-lhe na Prefeitura do Rio, e por aqui ficou até ser aposentado”.  

Essa passagem mostra evidentemente o ódio brutal de uma parcela da sociedade do Juazeiro contra o Dr. Floro. Mas o interessante no episódio é que o escritor procurou se isentar da participação no projeto ignóbil do assassinato do Dr. Floro. Entretanto, na lista citada pelo escritor de Mito e Realidade, aparece o nome do patriarca da família, José Xavier de Oliveira, pai do Dr. Antônio Xavier de Oliveira, inimigo confesso do Dr. Floro. Como se conceber fossem amigos incondicionais do Padre Cícero, e romeiros do “Bem”, na expressão do literato Alencar Peixoto antes de se indispor com todos eles, inclusive com o Padre Cícero, a quem difamou? Como advogado do Padre Cícero, ele fez a demarcação das minas do Coxá, junto ao engenheiro de Minas, Conde Adolfo van den Brulle, o que lhe valeu mais inimizade. No jornal O Rebate, do Juazeiro de 1909-10, em artigo primoroso de uma página, ele dá em detalhe a extensão delas e fala de herdeiros, onde cita a poderosa família Alves Teixeira de Aurora, que se diziam herdeiros únicos, mas havia outros, entre esses o Padre Cícero, como vimos atrás. Eis porque a luta com mortes que chegou a um século.

Voltando ao episódio da sua eliminação pelos que se diziam amigos do Padre Cícero, e de romeiros do Bem, na expressão do Padre Alencar Peixoto. Na lista citada pelo escritor Otacílio Anselmo e Silva, eram muitos, inclusive o patriarca da família Xavier de Oliveira José Xavier, pai do escritor ora citado. A índole de Floro Bartolomeu, com tendência ao mando, era um fato; tornando-se político, chegou ao auge. O homem a quem o Padre Cícero entregou o destino do Juazeiro, e que ardentemente lutou, enfrentando as mais diversas reações para elevar o Juazeiro e seu povo a nível nacional, confirmando por esta forma o que diziam Rodolfo Teófilo e Gustavo Barroso, observando a índole do sertanejo: a vingança. Vingar-se, desde que fossem vítimas de ofensas ou assassinatos. Quando lhes surgia uma oportunidade, na maior frieza vingavam-se de verdade, fazendo justiça com as próprias mãos. E assim o faziam por não confiar na Justiça, comprometida com os governantes que estivessem no poder.

Não há registros de que o Padre Cícero tenha tido conhecimento do escabroso e iníquo plano do assassinato do seu maior amigo e representante político, já em estado terminal. Católico, Floro Bartolomeu confessou-se, recebeu a comunhão e a extremunção, e a 8 de março de 1926, às cinco horas da tarde, exala o seu último suspiro, numa modesta casa da Rua do Catete, de nº 89. Chegava assim ao fim o tão controvertido e multifacetado homem Floro Bartolomeu da Costa. Anunciado seu falecimento, logo sua casa ficou repleta de autoridades civis e militares, o Presidente da República se fez representar nos funerais, e envia uma coroa de flores, lamenta a morte do homem, a quem tinha dado todos os poderes para impedir que a Coluna Prestes se espalhasse pelo país, disseminando ideias vesgas e incompreensíveis. Será que Prestes amava o povo? Será que tinha consciência do que era o Comunismo, travestido de Socialismo?

A Bancada do Nordeste se fez presente, e presta suas últimas homenagens àquele que tanto fez pela terra, sem ser exatamente um cearense. Mas que, em colaboração com o Senador Epitácio Pessoa, muito fez pela criação de verbas federais para construção de estradas de rodagens, açudes e melhoria da linha ferroviária, vital na vida do nordestino. Nos seus discursos repletos de nacionalismo criticava os governantes estaduais, que deixavam o nordestino migrar para o sul do País, onde nada lhes era oferecido, senão humilhação. E advogava a causa dizendo que constituía um grande erro da parte dos governantes deixarem-nos migrar. Para ele, deveria era se criar trabalho e meios propícios a que eles ali permanecessem, e não deixá-los sair para viverem ao Deus dará (extraído do livro Juazeiro do Padre Cícero).

Seu corpo foi conduzido à Câmara, onde foi velado, e seu caixão coberto com as bandeiras do Brasil e do Ceará. Recebendo as honras de praxe, foi transportado em um carro de combate para o cemitério de São João Batista, onde está sepultado. Uma guarda de honra formada pelas duas armas dá o toque final aos funerais, com toque de corneta e salva de 21 tiros, enquanto o Presidente Artur Bernardes outorgava-lhe o título pós-mortem de General-de-Brigada do Exército Brasileiro. Depois, novos tributos lhe seriam endereçados em nome da nação. Um jazigo em mármore e, encravado nele, o seu busto. Na base lê-se a seguinte inscrição:

DR. FLORO BARTOLOMEU DA COSTA, GENERAL HONORÁRIO DO EXÉRCITO BRASILEIRO, A HOMENAGEM DA NAÇÃO

Não se pode omitir ter sido ele o arquiteto político do Juazeiro. De uma fidelidade incontestável ao Padre Cícero, embora não subserviente. Dono de ideias próprias, as garantia, e varonilmente. Defensor ardente do Juazeiro, subiu várias vezes à tribuna da Câmara para defender da pecha de ser um reduto de bandoleiros. Autores antigos e uma parcela da opinião pública entendem que seu papel político no Juazeiro foi mais positivo que negativo. Como já assinalado, ajudou na concretização de um grande sonho, que era o da emancipação política. Pouco tempo depois, fez uma revolução, desapeando do poder o Presidente do Estado, quando Juazeiro tomou posição de destaque político no cenário nacional. Imprimiu vitalidade ao lugar, com a fundação do seu jornal Gazeta do Juazeiro, e colaborava para a educação com dinheiro próprio. Anfitrionou dois Presidentes do Estado, quando dispendia uma boa parcela do seu próprio bolso, escreveu Amália Xavier (idem). A recepção teria que ser de fino gosto, um requinte, como ele, um requintado, conforme já escrito. Sua casa era ponto de reunião não só de política, como literária e de música. O Cordel, ele apreciava, era leitor assíduo de Aristóteles e possuía uma boa biblioteca.

Enfim deu vida ao Juazeiro, construiu a cadeia pública, abriu ruas, pavimentou-as, fez jardins floridos, com dinheiro público, por ocasião da grande seca de 1918-19. Calcou o banditismo reinante, até mesmo com crueldade, mas teria que ser feito, destroçando em pessoa parte do fanatismo reinante ao Boi Mansinho e santos. Abriu poucas mas boas escolas de alfabetização, embora esse pormenor seja contestado pelo Senador Fernandes Távora (perfeitamente compreensível, óbvio). Mas o que mais chamou a atenção entre tantas realizações foi a consecução da estátua do Padre Cícero, esculpida no Rio, que custou 100 contos de réis35, de cujo numerário saiu a maior parte do seu bolso. Apesar da maneira viril de agir, era um sensível. Esse acontecimento foi um dos maiores momentos da história social do Juazeiro. Com a presença da Banda de Música de Aprendizes e Marinheiros, sob a regência do maestro Tenente-Capitão Augusto Bitencourt. Momento de suprema glória para o Padre Cícero, homenageado em vida, e perpetuado no bronze para sempre.

Enfim, por ter habilidade e enxergar longe, foi que o Padre Cícero confiou-lhe a direção da sua terra, fazendo dele o seu porta-voz. As homenagens no Juazeiro à sua memória existem: foi imortalizado numa das ruas centrais do Juazeiro, que tem o nome de Avenida Dr. Floro. Aliás, para os citados escritores Otacílio Anselmo e Azarias Sobreira (ibidem), descrevendo o sentimento do povo juazeirense, por ocasião do seu falecimento, foi de total indiferença, e ambos escreveram: “A notícia de sua morte não comoveu o Juazeiro, nenhuma lágrima foi ali derramada, parecendo haver um total  desprezo pelo morto”. Já outros insistem em que o Juazeiro comoveu-se após o recebimento da notícia, tanto que trataram de lhe imortalizar com nome de rua. Na visão dos dois autores, o Dr. Floro não gozava realmente do prestígio de todo o povo juazeirense, daí a indiferença demonstrada pelo seu desaparecimento. Registrando o fato, o faço porque também faz parte da história do Juazeiro e do homem que na realidade foi o arquiteto da política local, levando o Juazeiro ao cenário da política nacional.

 

****

 

CAPÍTULO 20

A BEATA MOCINHA

 

Joana Tertuliana de Jesus — era este o seu verdadeiro nome de batismo — chegou ao Juazeiro muito antes dos milagres, acompanhada de sua mãe de criação, professora Dona Naninha, que procedia de Jaguaribe Riacho do Sangue, segundo os informes de Azarias Sobreira (op. cit.). Lá elas chegaram em 1876, atraídas pelas virtudes do capelão da localidade, de quem já corria a fama de virtuoso, pelas reformas que conseguira realizar não só no mundo profano da dançarina Belmira que, convertida, passou a ser motivo de crença para todos dali. Espalhando-se a fama de operador de milagres, um sacerdote de apenas 28 anos de idade, quando à época era conhecido um clero em boa parte dissoluto. Muitos eram pais de família, vivendo em  concubinato, sem prestar conta a seus superiores. O sertanejo, um crente de tudo, deixou-se levar pela regeneração da mundana Francisca Belmira e pelas consagradas virtudes do capelão, virtudes peregrinas que o fizeram ser elevado à grandeza de um santo.

Na companhia de sua mãe de criação, Dona Naninha, ela chegou ao pequeno e obscuro Joaseiro - ainda com essa grafia. Dona Naninha era professora primária. Abriu, em colaboração com o Padre Cícero, uma escola, que recebia a orientação pedagógica do sacerdote, com o seu método de não vacilar, se preciso fosse, nas palmatoadas, depõe Amália Xavier (op. cit.). Mas essa senhora não ficaria por muito tempo ali, retornando à sua terra natal, o vale do Riacho do Sangue, de tantas e ferozes lutas, daí a origem do seu nome. Joana Tertuliana não regressaria com ela, ficaria para sempre no Juazeiro, em companhia dos familiares do Padre Cícero, e se destacaria pelos seus dotes de inteligência e critério, no rol de beatas formado em torno do sacerdote. Ocupando lugar de relevo no microcosmo agitado do Juazeiro a partir do ano de 1889, o ano do Milagre, ela foi de fato poderosa, a primeira na hierarquia no rol das beatas.

Depois da chegada do Dr. Floro ao Juazeiro (1908), ela passou a compartilhar com ele algumas  atribuições. É bom aqui deixar registrado que entre os dois sempre houve um entrosamento perfeito, não consta em nenhuma passagem de toda essa longa história um atrito, por menor que fosse. Ocupou por toda sua vida as funções de governanta da casa do Padre Cícero e de tesoureira da soma incalculável de dinheiro que lá entrava, diariamente. De estatura acima da média cearense, tinha um físico atlético, era alva, tinha olhos castanhos claros e cabelos pretos e lisos. Não era bonita, como outras beatas que se destacaram pela beleza, como Hermínia Marques de Gouveia e a dócil beata Jerônima Pinheiro de Menezes, a Giluca, que delas falarei adiante. Sua fisionomia beirava ao rígido; não se dobrando a injunções, era realmente talhada para o cargo que ocupou, de governanta e administradora de todos os bens do Padre Cícero. Teve livre arbítrio de tudo resolver, tudo passava pelo seu crivo, desde a criadagem até os visitantes mais ilustres. Hospedou três Governadores de Estado, e também a Banda de Música de Aprendizes e Marinheiros de Fortaleza, por ocasião da inauguração da estátua do Padre Cícero, composta por mais de 50 Músicos.

Deputados, jornalistas, cientistas da febre amarela, que visitaram o Juazeiro, engenheiros ingleses e norte-americanos, os padres cultos da primeira Comissão de Inquérito. A todos ela envolvia pelo tratamento educado, e também pelo requinte primoroso da sua farta e elegante mesa. Sem a sua senha, impossível ver o Padre Cícero, o sonho estava sepultado. Frustrou muita gente, dizem os analistas do assunto, quando chegou a barrar com mão de ferro os que insistiam em penetrar no recinto daquele tabernáculo, se não tivesse seu aval. Fotografia dele, idem. Por tudo isso, ela foi perfeita, decididamente talhada para o cargo que ocupou por espaço de 54 longos anos. Não dispunha de tempo para repouso. Além da sua agenda, ainda tinha que atender ao grito insistente dos miseráveis em frente a um dos portões da residência do Padre Cícero, que solicitavam pela comida diária, e que de acordo com fontes idôneas do Juazeiro, chegavam a quase 100 refeições (Amália Xavier, idem).

As poucas vezes em que saía à rua, era interceptada pela multidão, embargando-lhe o direito de ir e vir, pois os pedidos eram inusitados. Assim, preferia retornar à casa. Foi rica e famosa, virou estrela de primeira grandeza, como são hoje os artistas da televisão, do esporte, os astros da música, do cinema e da grande literatura mundial. Circunspecção, compostura e naturalidade emolduravam a sua personalidade forte. Altamente equilibrada, agia mais pelo racional que pela emoção. Um detalhe chamava a atenção de todos, por se destacar das demais beatas: chamava o Padre Cícero pelo seu nome de batismo, e não de Padrinho como tantas outras. Este, por sua vez, a chamava de Joana. Foi amiga de todos os padres que frequentavam a casa do Padre Cícero, sem exceção. No mar de confusões do Juazeiro, delas sairia imune. Sua posição foi sempre a da neutralidade. O Bispo Quintino a tinha em grande apreço, e elogiava sua personalidade forte e irrepreensível (Azarias Sonbreira, idem).

No Juazeiro, ela foi tudo, como já acentuado. Sua tarefa à frente da casa do Padre Cícero não era fácil, sobre seus ombros pesavam tarefas difíceis, quase inconciliáveis. Como governanta, tinha a missão de administrar tudo que fizesse parte dos rendimentos não só da Igreja, sob sua supervisão, mas principalmente das ofertas feitas ao Padre Cícero, que se constituíam de casas no Juazeiro, Crato, sítios, roçados, gado, engenho e muito mais, até mesmo em outros Estados, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte. Com seus dotes de grande administradora, conseguiu valorizar e fazer crescer o patrimônio do Padre Cícero, que foi às alturas. O próprio testamenteiro se surpreendeu ao listar os bens.

Contava com uma boa rede de funcionários, prestimosos todos ou quase todos, agregados da casa do Padre Cícero, que tinham capacidade para executar a missão que a Beata e governanta lhes destinasse. Cada um tinha sua missão, como: coletar a safra de legumes e ordenar o  plantio para a safra seguinte, isto é, dependendo das chuvas, consertar e manter cercas, roçados, abrir cisternas, etc. Tinha também os arrendatários. Aqui lembrarei o pai da escritora Amália Xavier, que muito prosperou fazendo independência financeira, segundo a memória coletiva do Juazeiro. Por ocasião do aperto financeiro para captação de dinheiro para pagamento da operação do Padre Cícero, realizada lá mesmo no Juazeiro, o senhor Xavier de Oliveira apresentou-se como comprador de uma das suas propriedades, recebendo do Padre Cícero uma sutil ironia, quando lhe perguntou, entre surpreso e admirado, como conseguira amealhar tanto dinheiro para candidatar-se à compra de um bem daquela estatura. Ele lhe deu uma resposta que não se sabe se o convenceu. O fato é que, dias depois, o imóvel foi a leilão e José Xavier de Oliveira o arrematou pelo valor estipulado pelo Padre Cícero. E aquela casa que outrora lhe pertencera e a seus familiares, com anos de vivência lá, tornou-se residência da família Xavier de Oliveira, até os dias atuais. A própria escritora fala dessa passagem no seu livro O Padre Cícero Que Eu Conheci. Todavia, é obvio, omitiu a ironia.

Mas árduo mesmo era o manter a harmonia entre os agregados da casa, que também eram chamados de familiares do Padre Cícero, e que se compunham de um pequeno exército de mais de 25 pessoas, todos sob sua supervisão. Sempre atenta a todos os detalhes, e ai de quem não a obedecesse. Agia como se fosse um senhor feudal, com mão de ferro, não consentindo que a ordem por ela estabelecida fosse quebrada. Mesmo assim, escreveu o citado Azarias Sobreira, houve um caso de envenenamento de uma das moradoras lá residentes, tendo a suspeita recaído sobre o sírio-libanês Benjamim Abraão, um dos últimos secretários do Padre Cícero, e também residente na casa, e tido como um filho querido para ele, que abalado e triste não aceitou a hipótese do envenenamento lançada sobre Benjamin. Para ele, as evidências não eram  suficientes para que a afirmação se  sustentasse. Sua tese era de que Benjamim Abraão tinha sido criado sob a égide dos frades da Terra Santa, portanto incapaz de cometer tal desatino. Mas a Beata Mocinha, que agia no real, isenta de emoção, exigiu que ele se retirasse de imediato do teto que o abrigara por anos seguidos, afim de não comprometer a dignidade da casa, evitando assim maiores escândalos. E ele se foi, para nunca mais voltar.

Por tudo isso, a Beata Mocinha foi ímpar. O espírito de liderança saltava aos olhos de quem chegava ao Juazeiro, e foi justo por esse espírito de liderança que ela conseguiu manter-se em evidência durante 54 anos à frente da casa do Padre Cícero, que também era sua. Dormindo apenas seis horas por dia, alimentava-se precariamente, por não dispor de tempo para uma refeição condigna. Várias vezes, estando à mesa, ouvia gritos aflitos, como acima citado, com batidas no portão. Eram de miseráveis implorando que a refeição não tinha chegado. Imediatamente deixava de lado sua refeição para socorrer aqueles que gritavam pelo alimento, e eram centenas deles. Assim foi a Beata Mocinha: mulher especial, digna de admiração. Mesmo com toda essa avalancha, conseguiu viver até os oitenta anos, e morreu lúcida.

Já fiz sentir que não dispunha de beleza, em compensação tinha o dom de dirigir com segurança e clareza aquele mundo confuso da casa do padre Cícero; por isso ela tornou-se personagem histórica.

Era secretária do Padre Cícero, tesoureira, sócia da empresa de luz, diretora de várias Associações Pias. Fundadora de instituições de caridade, depositária dos donativos ofertados ao Padre Cícero e à Padroeira, e responsável direta pela remessa de dinheiro para a Terra Santa, para frades mendincantes, guardiões do Santo Sepulcro, em Jerusalém. Nessa parafernália de remessas de dinheiro para o estrangeiro, quando discutia sobre câmbio, importou da Bélgica coroas de filigranas em ouro maciço e pedras preciosas, para a Padroeira Nossa Senhora das Dores, que segundo notícias, foi parar mais tarde na Diocese do Crato.

O Padre Azarias Sobreira, em seu livro (op.cit) a compara à Madre Pasqualina, governanta do imortal Papa Pio XII. Assim foi ela, portadora de um espírito forte e de um tirocínio invejável, capaz de suplantar muitos mestres da Economia de hoje. Virou mito, pela música de Luís Gonzaga, que a imortalizou no Baião "Minha Santa Beata Mocinha". Sobreviveu ao Padre Cícero, e foi a única beata presente à sua morte, à exceção da beata Josefa Maria do Espírito Santo, quando ouviu dele as palavras “No céu, rogarei por vocês todos”. Faleceu aos 80 anos de idade, está sepultada num jazigo especialmente destinado para abrigar os restos mortais dos que fizeram parte da família do Padre Cícero.

 

****

 

CAPÍTULO 21

O OCASO POLÍTICO DO PADRE CÍCERO APÓS A MORTE DE FLORO BARTOLOMEU

 

 

Dirigindo o município há quase l5 anos, quando se tornou um autocrata, somente se afastando do cargo por motivo do falecimento do seu grande amigo e mentor político, para candidatar-se à vaga por ele deixada de Deputado Federal. O fato, como não podia deixar de ser, encontrou resistência por parte de outros, que também almejavam a cadeira. Nunca um lugar de Deputado foi tão disputado como a vaga deixada por Floro Bartolomeu, escreveu Edmar Morel (op. cit.).

Como outros tantos fatos do Juazeiro, sua pretensão levantou polêmica e restrições, e críticas lhe foram endereçadas pela imprensa pelos que disputavam a vaga, como o jornalista Matos Ibiapina, que sem um motivo plausível que justificasse suas críticas, centrou-as tomando por base sua idade, já bastante avançada. Até aí, tudo compreensível, mas o jornalista, que era culto, poliglota e tradutor (foi ele um dos primeiros aqui no Brasil a traduzir do alemão para o português a obra de Hitler, Mein Kampf, Minha Luta), centrou-se no tema do seu contato com o vulgo, e dirigiu-lhe pesadas críticas. Para o jornalista Ibiapina, o contato com a massa analfabeta e supersticiosa terminou por fazer dele um homem de conhecimentos abaixo do razoável, portanto, incapaz de assumir uma cadeira no parlamento. E dizia nos seus artigos: “Além da sua provecta idade, o que já seria um grande embaraço, o fundamental mesmo é a sua incapacidade intelectual para representar o povo cearense, e até mesmo a memória de Floro Bartolomeu. Também como agravante fazia menção à sua condição de demiurgo, desgastada por anos de convívio diário com a ralé fanática, incapaz de raciocinar.” A crítica cheia de desdém espelhava o sentimento de inveja dos seus eternos detratores. Não dispondo de tempo para ler, pela afluência de centena de pessoas que diariamente recebia, tornou-se difícil para ele o contato com os livros. Mas era assinante de jornais do Sul, inclusive os da Capital. Portanto, não vivia tão alheio aos acontecimentos do País e do mundo, quando magistralmente alternava o convívio de pessoas cultas que o visitavam com a pobreza inculta que o procurava.

Nessa época (1927) no Juazeiro já existiam dezenas de médicos, advogados, engenheiros. Se fôssemos fazer um levantamento do período, ver-se-ia que o Juazeiro da época em nada diferia das grandes cidades de então. Por mais que seus detratores omitam a obra beneficente do Padre Cícero, a que mais sobressaiu, no Juazeiro, foi a educacional, como aqui já bastante enfatizada. Para ele, era ponto precípuo e isto é tão cristalino, como cristalina são as águas das nascentes do Cariri. Se não existia um ensino superior à época, mas o básico sempre existiu e com ótimos resultados, pelo ensino das suas escolas elementares, a maioria particulares e pagas do seu próprio bolso (Amália Xavier, ibidem). Antes dessa época, ou seja, no ano de 1922-23, sempre lembrando a época, o Juazeiro já possuía quatro escolas públicas, duas do município, outras duas do Estado, e várias outras particulares, para uma população fixada em 35.000 habitantes, é o que escreveu Floro Bartomeu (op. cit.). Sob o crivo do Padre Cícero, que as inspeccionava semanalmente como se fosse um prefeito de disciplina, e se achava prudente, é o que diz a crônica, aplicava sua conhecida pedagogia, que era a do ralhar com veemência, doesse a quem doesse.

À época dessa crítica (1927), o Juazeiro dispunha de uma elite intelectual com médicos, bacharéis em Direito, os padres Macedo — quatro irmãos, sendo que o Padre Manoel Macedo era doutorado pela Gregoriana de Roma, e, como já atrás citado, um dos maiores oradores sacros do País. Havia os moradores distintos vindos de outras partes, como o bacharel Dr. Manoel Diniz, paraibano, que fundou um colégio particular, o engenheiro de minas, Conde Adolfo Van den Brulle, os Vitorinos, militares e médicos, o escritor filho da terra e também médico, Dr. Antônio Xavier, e até mesmo o mascate, o sírio-libanês Benjamim Abraão, que trouxe modernidade ao Juazeiro pela venda de artigos importados, como tecidos, perfumes, louças finas, e pela arte da fotografia — tinha tendência a cineasta. Lembro que Benjamim Abraão foi o primeiro a fotografar Lampião e seu bando. Depois faria as tomadas para um filme sobre sua vida, quando foi morto pelo bando. As centenas de juazeirenses que passaram pelo Colégio Diocesano do Crato, um referencial. Toda essa plêiade de homens inteligentes e cultos formavam a elite local, acrescente-se ainda os visitantes ilustres que lá iam e que, embora flutuantes, não deixavam de trazer, na pior das hipóteses, um certo grau de civilização e influência cultural de suas terras.

Já nos idos de 1891, o erudito professor José Marrocos espalhava o brilho da sua cultura, transformando o Juazeiro provinciano em pólo das artes, com Semanas Santas dramatizadas com figurantes ao vivo, representando os personagens bíblicos, usando vestimentas apropriadas, importadas do estrangeiro. Até nesse pormenor, o Juazeiro foi o pioneiro no Brasil a ter esse gênero de arte, hoje muito bem representado em  Fazenda Nova (Caruaru).

Criticado por certos intelectuais pelo convívio com a massa simplória, segundo eles. Não entenderam certos homens de letras que isto fazia parte da missão a que o Padre Cícero se propôs: lutar pelo marginalizado, dando-lhes cidadania. E isto ele cumpriu literalmente, até mesmo em detrimento de sua vida religiosa, razão do seu viver, e em prejuízo da sua própria saúde, pois tornou-se um homem sem horário para nada absolutamente, nem mesmo para suas parcas e modestas refeições e até para dormir. Jamais deixou de receber alguém, desde o graduado até o mais humilde, todos para ele eram iguais. E é nesse detalhe que reside a nobreza desse homem inesquecível, tornado num monumento de grandeza. Exaustiva foi mesmo sua maratona em prol do seu povo, que apesar de ser um homem de boa saúde, terminou por comprometê-la, vindo a se submeter a intervenções cirúrgicas aí mesmo, no seu Juazeiro. Sem esquecer das hemoptises que lhe vieram, provocadas pelos dissabores que o clero lhe infligia, estas de tal ordem, que é difícil se precisar como pode reagir e chegar à veneranda idade de noventa anos e seis meses.

Pondo por terra o pensamento iníquo dos seus eternos detratores gratuitos, três empreendimentos falam por si só, e que devem ser aqui analisados. O primeiro grande esforço dispendido por ele foi para a criação da Diocese do Cariri, que sonhava vê-la sediada no Juazeiro, com a instalação de um Seminário para a educação dos jovens, isto no distante ano de 1898, quando da sua estada em Roma. Os dois outros, a criação do Orfanato Jesus Maria José, já comentado, hoje transformado em dispensário e abrigo para velhos, que esteve algum tempo sob a égide da Diocese do Crato, dirigida pelas Filhas de Santa Tereza. O terceiro, a fundação da Associação dos Empregados do Comércio em 1926, com a precípua finalidade da educação dos empregados e de seus descendentes. Um grande avanço para a época.

Por último, deixou todo o seu patrimônio para a Ordem dos Salesianos, para que lá fundassem um Colégio, com a finalidade de que todos estudassem. Impossível imaginar-se como homens de letras e da imprensa ignorassem fatos dessa ordem. Mas a verdade é que, na proporção em que era tão endeusado, tão amado, tão idolatrado, também era criticado. Volto a falar da sua candidatura a deputado federal. Dela não arredou pé e, sem competidor, foi eleito. Não assumindo porém a cadeira, terminou por perdê-la. Seria mesmo o Padre Cícero um indecifrável, uma personalidade complexa? Lourenço Filho, analisando-o, assim o define: “Vê-lo e ouvi-lo é uma aula de indagações; difícil é captar-lhe o pensamento e o que realmente deseja”. E incisivo e contundente, acrescenta: megalômano, por se achar amigo de Reis e Imperadores, dizendo ter concorrido para o término da Segunda Grande Guerra, por ter enviado ao Czar da Rússia e ao Imperador da Áustria-Hungria, Francisco José, telegramas em prol da pacificação do mundo. E conclui dizendo: olhando-se no seu rosto anguloso, de fartas orelhas, vê-se que, por trás do seu sorriso enigmático, esconde-se uma personalidade oculta, firme e indecifrável”.

Por discordar de uma proposta de reforma do ensino elementar e da sugestão da criação de um Grupo Escolar no Juazeiro, deu motivo a que o professor Lourenço se sentisse subestimado, indignado com a decepção de ter sido contrariado na sua proposta. Como titular da Secretaria de Educação e Saúde do Ceará, não teve dúvida, partiu para o ataque e, contundente, desenhou uma imagem do Padre Cícero de tosco e prepotente.

No seu livro, O Juazeiro do Padre Cícero, traçou um abominável perfil do Juazeiro, comparando a um antro, feira, oficina e hospício enorme. O Padre Cícero, ele o chama de megalômano, interesseiro, figura desconexa, enigmático, que ocultava atrás de si uma personalidade controvertida, portador de uma vaidade exagerada, sempre citando os telegramas aqui referidos. O livro teve grande receptividade, mormente no meio intelectual, e foi reeditado três vezes. Para o grande filósofo Nietzsche, as grandes personalidades são mesmo assim: insondáveis, difíceis, incompreensíveis, enigmáticas, relembrando Alcibíades, César, o Grande, e Da Vinci. Segundo o grande filósofo, homens predestinados a vencer, a seduzir, a não serem esquecidos (Além do Bem e do Mal). O Padre Cícero foi um desses, por seu humanismo, por sua bondade, pelo incomparável azul do seu olhar profundo que a todos fascinava, e até nos pequenos discursos que fazia para a massa, que o ouvia num comovente e respeitoso silêncio.

Efetivamente, com a morte do Dr. Floro, seu ocaso político é um fato incontestável, ele definha politicamente, mas sempre atento à situação do País. Patriota exacerbado, tomou partido contra a venda ilegal de terras no Pará, adquiridas pelo americano Henry Ford, e recorre contra o esbulho numa carta emocionada para a Câmara e Senado, pedindo providências. A carta enviada ao Senador Epitácio Pessoa define tudo que sentia, por ver nosso patrimônio entregue de bandeja a Ford Motor Company - uma vastíssima extensão de terras feitas pelo Governador Dionísio Bentes, e o Prefeito da Capital, Crespo de Castro, uma dilapidação do patrimônio brasileiro, que ele não admitia.

Só e corajosamente, levantou-se, denunciando a transação escandalosa do Governador do Pará. A transação da venda ilegal se deu nos seguintes termos: Henry Ford obteve do Governador Dionísio Bentes e do Prefeito de Belém a concessão de um milhão de hectares, simplesmente comprometendo-se com o seguinte plano: nos dois primeiros anos, plantaria 400 seringueiras; no terceiro ano, outras 400, e mais 400, no quarto ano. Aí a transação do jogo altamente espúrio do Yankee e dos brasileiros paraenses, que tudo lhes facultou em troca de tão pouco. A negociata escandalosa previa o seguinte acordo: isenção de impostos ao Estado e ao Município do Pará por espaço de 50 anos, ficando ainda o americano com o direito exclusivo da navegação em todo o Tapajós e Amazonas, além de utilizar as quedas d’água, construir estradas de ferro, telégrafo, rádio-emissoras, instalar bancos e fábricas, formar sua própria polícia e desapropriar terras vizinhas. Uma imoralidade, devastação do patrimônio nacional.

A reação dos poderes constituídos ao ato generoso do Governo do Pará foi quase nenhuma. Senado e Câmara praticamente omitiram-se, norma vigente da política brasileira, até hoje. Poucos os que se levantam contra a entrega do patrimônio público. Os escândalos mais ou menos desse porte já se tornaram rotina em todos os setores da sociedade. Os que o praticam, ficam isentos de responderem judicialmente, é fato concreto, enquanto a população pobre, que é maioria, se sente prejudicada e sofre as conseqncias do escândalo, quando tudo lhes é negado, saúde, educação e segurança, principalmente, quando devia ser prioridade em qualquer governo. Os escândalos financeiros vêm em série, tantos que listá-los é dispensável. Para que? Virou nesse ano de 2006 uma epidemia. É só olhar os jornais e lá estão eles, como manchetes de primeira página. A indignação do Padre Cícero em 1918 pela terras retalhadas lá no Pará, dadas de presente aos Yankes, passou à história. E rememorar é um dever, para que não se apague da memória o que impera há muitos anos.

A transação das terras do Pará feitas pelo governo paraense foi a seguinte. O Governador Dionísio Bentes recebeu a importância de 600 contos de réis, e o Prefeito Crespo de Castro, 150 contos, pelo presente ao yankee do patrimônio nacional, entregue em bandeja de prata. A única voz a se levantar de fato contra o esbulho foi a do Padre Cícero, num grito de rebeldia e tristeza, arrebatando corações e despertando encanto e lágrimas, como o telegrafista Pedro Gondim, que chorou copiosamente ao transmitir o telegrama do Padre Cícero para o Senador Epitácio Pessoa, comenta Edmar Morel (op. cit.), de quem extraí essas notas.

Já não mais tendo o seu representante, porta-voz do seu pensar na política brasileira, nacionalista ferrenho, que sempre deplorou a partilha entre os estrangeiros. Floro Bartolomeu teria erguido seu verbo altissonante em defesa do patrimônio nacional dilapidado, esfrangalhado pela falta de moralidade ética e política que até hoje continua. Estes são os verdadeiros inimigos da Nação, pois só uma preocupação os assiste: o seu próprio Eu. As exceções são raras. O Padre Cícero, ferido no seu patriotismo, levantou-se só e corajosamente, na expressão do mesmo Morel. E nacionalista sem ser um chauvenista, manifestou-se contundente para as duas Casas do Congresso, através dessa carta:

Posto que no declínio da existência, vencendo a última etapa que a Providência aprouve limitar para os meus dias terrenos, sou levado, não só como brasileiro, mas também como político que veio do Império para o regime republicano, ao qual tenho servido sem desfalecimento, e ainda principalmente como sacerdote católico que deseja uma pátria forte e unida, a protestar com veemência contra a indébita concessão de terras brasileiras, sob capciosos fundamentos, porém virtualmente lesivos aos interesses patrióticos, constituindo um atentado criminoso à integridade territorial do nosso Brasil. Ontem, era a cessão da grande faixa de terra à Bolívia, no Amazonas, território incorporado ao País graças ao civismo do cearense e à alta visão diplomática de Rio Branco; hoje, é a concessão de cem mil quilômetros quadrados, feita à Companhia da Estrada de Ferro Norte-Mato Grosso a um sindicato americano, isto com a aquiescência da nossa Chancelaria, e à revelia do Congresso Nacional. E finalmente a vasta extensão ainda no Amazonas, de terras vendidas ao capitalista americano Henrry Ford. Até aos japoneses se pretende vender ou fazer concessões de terras brasileiras! Sangra-me o coração — pois nele ainda sinto a chama do patriotismo, e comigo está a maioria dos brasileiros — ver o plano inclinado a que estão arrastando o Brasil na vertigem da insânia. Parafraseando Clemenceau, acho que o Brasil também tem filhos que não permitem sejam postos em leilão e retalhem suas terras. Seria medida de alto alcance se o Congresso Nacional, ainda este ano, votasse uma lei vedando concessões desta natureza, porque fatores desta ordem, desagregando a nação, fomentam o espírito de revolta, dando lugar à guerra civil, único meio, triste aliás, para as grandes reivindicações. Salvemos a nossa cara terra, salvemos o nosso Brasil!

Saudações - Padre Cícero Romão Batista.

O telegrama e a carta tiveram repercussão nas duas Casas do Congresso, e uma torrente de telegramas de apoio chegou ao Juazeiro. Mas o malfeito estava selado. Diz ainda Morel (op.cit.) que o que mais o empolgava nessa época era a luta de Sandino, o herói da Nicarágua, contra a política imperialista dos Estados Unidos, e o mal que ela traria economicamente a toda humanidade. Entretanto, hoje assistimos estarrecidos que nem a visão de estadista de Sandino, nem as previsões pessimistas do Padre Cícero, numa explícita premonição, foram suficientes para debelar o grande mal, e aí ele está em toda sua plenitude, afligindo toda a humanidade. Sandino tornou-se para ele um verdadeiro herói, e o estudo da sua personalidade passa a ser sua leitura predileta, disse  Morel (op.cit.). Revoltado com os desmandos políticos no País, como esse do Pará, que despertava sua indignação, patenteando-a através da imprensa, com artigos que mandava publicar na imprensa do Crato e no jornal O Nordeste, de Fortaleza. Sua revolta não tem limites. Preocupava-o também a infiltração comunista na massa trabalhadora e reprovava. A confissão comunista de Luís Carlos Prestes é guardada, sem nenhum comentário, mantendo vivo o interesse pela encíclica Rerum Novarum, do grande Leão XIII, considerado por ele o luminar da Igreja dos últimos séculos. Sobre ela faz comentários públicos, e através do jornal O Nordeste manda republicá-la. Duzentos recortes de todos os jornais do País, foi o encontrado por Edmar Morel (op.cit.) no seu álbum particular. A escandalosa concessão Ford, publicada pela imprensa, era assinalada à tinta vermelha.

Nesse mesmo ano de 1927, foi acometido de uma enfermidade, um tumor na nuca, lhe valendo uma operação. Por exigir cuidados especiais, os médicos do Cariri tomam precauções devidas, e convidam para operá-lo o renomado cirurgião de Belo Horizonte, Dr. Licínio Santos. Cauteloso, informado pelos médicos locais de que seria um desastre se o Padre Cícero viesse a falecer durante a operação, dado o fanatismo do povo, o que na certa traria consequências desagradáveis, o médico então, através da imprensa do Crato, pela voz do jornal Gazeta do Cariri, disse o que se segue:

“Havia na residência do Padre Cícero mais de 200 pessoas. Dirigi-me então a elas e expliquei-lhes que se o Padre não fosse operado sua morte seria um fato inevitável, dado o adiantado da enfermidade, ao passo que, tentando a operação, acreditava salvá-lo. Todos me ouviram em silêncio, concordando inclusive ele, inteirado que estava de tudo”.

O cauteloso médico mineiramente tomou mais uma precaução: a de informar o público postado em frente à sua casa. E da sacada do sobrado usou das mesmas palavras que foram ditas à família, amigos e auxiliares. Todos concordaram. “Parti para a operação, com a participação de colegas do Cariri, convicto do sucesso. Dois dias depois, através da imprensa, Dr. Licíinio Santos dava uma entrevista sobre a cirurgia, dizendo ter sido um êxito. Mas houve um pormenor, que reflete o estado de incerteza e tristeza em que vivia o Padre Cícero com o desaparecimento do Dr. Floro. O pormenor foi confidenciado pelo médico aos seus colegas do Cariri. Segundo ele, o Padre Cícero, já de todo recuperado e denotando satisfação pelo êxito da operação, perguntou-me: quanto lhe devo? Ao que lhe respondi: nada. Ele então com um olhar grave e circunspecto disse: Vou fazê-lo deputado federal, em substituição ao Dr. Floro”. Nesse pequeno detalhe fica claro que a miragem do poder o seduzia. Sua Era de Ouro havia passado, nessa proposta fica expressa a desilusão que dele tomava conta. Tinha pressa para substituir o Dr. Floro, quando via o seu Juazeiro amargar o ocaso político em escala nacional e  local, com o lançamento da candidatura a prefeito do seu maior antagonista, o já citado Major João Bezerra. Entretanto, ele ainda reage, e faz do Coronel Alfeu Aboim seu candidato, eleito com expressiva maioria.

A essa época, era Juiz de Direito do Juazeiro o Dr. Joaquim Juvêncio Santana, seu afilhado de crisma, no qual ele encontraria alento, cuja amizade continuou até seus últimos dias, pois o mesmo passou a residir em casa colada à sua, para melhor lhe dar  assistência, oferecendo-lhe o apoio de que necessitava já no último quartel de sua vida, comenta Amália Xavier (op. cit.). Efetivamente, o Dr. Juvêncio seria definitivamente uma espécie de substituto do homem-forte Floro Bartolomeu, embora não tivesse a força de suas ações, nem seu poder de articulação e liderança. Era sim, um homem inteligente, educado e cordial, o homem da etiqueta e do requinte palaciano, mas no plano da determinação política e da eloquência não se parecia em nada com o seu antecessor. Mesmo assim, consegue manter o Juazeiro em evidência no cenário estadual, e o Padre Cícero faz dele Secretário de Interior e Justiça, posição-chave no Governo. Vale aqui lembrar que em 1929 saiu candidato a Deputado Federal, não tendo conseguido se eleger, o que realmente confirma o declínio político do Padre Cícero em esfera nacional, embora depois Juvêncio fosse eleito Deputado Estadual.

 

 

****

 

CAPÍTULO 22

 

ÚLTIMOS PASSOS DO PADRE CICERO NA POLÍTICA BRASILEIRA E SEU MANIFESTO AOS NORDESTINOS

 

Antes de falar sobre sua Proclamação, um breve comentário para uma nota do clero do Crato, pelo exotismo e pelo intempestivo, cuja nota partiu da Secretaria do bispado, no jornal Gazeta do Cariri, contestando uma nota anterior do mesmo jornal. Mesquinha e incoerente, é no mínimo imponderável. Mas como era praxe do clero polemizar tudo que se referisse ao Padre Cícero, sublinho para que se tenha uma ideia do que realmente foi a grande pressão sobre ele.

Naquele ano de 1929 chegou à cidade do Crato o Exmº Primaz da Bahia, Dom Augusto Álvaro da Silva, acompanhado do Arcebispo de Fortaleza, Dom Manoel Lopes, e de grande comitiva, constituída de padres e monsenhores. A visita, que não era de caráter religioso, segundo a mesma Diocese, mas sentimental, porque exclusivamente dedicada ao venerando Monsenhor Sóter de Alencar, grande amigo do primaz, quando Dom Augusto foi Bispo de Floresta (PE). A nota do jornal na qual destaca-se a ilustre visita é a seguinte:

“Partindo de Fortaleza em trem antes de chegar ao Crato, o vagão especial que conduzia o Exmo Cardeal passou pelo Juazeiro, e lá na Estação estava aguardando-o o Padre Cícero, que foi cumprimentado efusivamente por ele, e pela comitiva  que o acompanhava. Um defeito na locomotiva fez um atraso de meia hora, enquanto cordialmente o Padre Cícero palestrava com o Primaz e sua Comitiva, numa troca de gentilezas. Dom Augusto, que não conhecia o Cariri, encantou-se com a região, e teve do Juazeiro, apesar dos poucos instantes que lá demorara, boa impressão, tão boa, que no dia seguinte voltaria para melhor conhecer a Meca Caririense, quando foi recepcionado pelo Padre Cícero”.

Essas poucas linhas foram suficientes para que o Secretário do bispado, Monsenhor Francisco de Assis Feitosa, reagisse à nota, numa reação de extrema direita, num tom de desprezo e hostilidade ao Padre Cícero, quando nega veementemente que o Cardeal o tenha visitado, e muito menos tenha sido por ele recepcionado em sua residência. Eis o que disse o Secretário do bispado sobre a controvertida visita do Cardeal ao Juazeiro:

“Quanto à excursão ao Juazeiro, Suas Excias foram tão-somente visitar a Meca Caririense, sem se preocupar com o Patriarca. Tanto assim, que nem foram à casa dele. O Padre Cícero acompanhou-os até aqui em caráter particular, e aqui chegando não houve longa conferência sobre a volta do velho sacerdote ao grêmio Católico-Romano. Eis o que há de real nesse episódio. Quanto à atitude do povo em todo o percurso dessa visita, o que sobre ela se disser além, é boato, é falso, é mentira. Que Suas Excias viessem até aqui tratar do caso do Juazeiro e seu condutor, ainda se compreende. Mas ir até lá, em visita ao Padre Cícero, é o que está fora de toda compreensão, sendo ele como é um insubordinado, um insubmisso, um recalcitrante. Isso ainda importaria em um quase rebaixamento de autoridade, a que não estão sujeitos os chefes da Igreja, sob pena de caírem de sua dignidade.”

A nota de cunho fascista mostra em toda plenitude os cristais do clero, e define sua mentalidade, numa prova irrefutável de que jamais levantaram uma palha pela volta do Padre Cícero ao seio da Igreja. A essa nota ele não responde, o silêncio tornou-se uma constante em toda sua vida, vale dizer por 50 anos batidos. E assim foi a história religiosa do Juazeiro, correndo em simetria, quando tudo parecia ter chegado ao fim, novamente tudo recomeçava, numa construção ciclíca, como se fosse uma sinfonia. O clero parecia não mais discernir entre a mentira e a verdade, entre o bem e o mal. Já denotando sinais de cansaço físico, ainda dá uma demonstração de amor ao nordestino, impulsionado pelo seu bem-estar, e lança um Manifesto em apoio político à candidatura para a Presidência da República do Dr. Júlio Prestes-Vital Soares Brasil.

A Proclamação, que tem a data de 7 de Setembro de 1929, assinala seu último ato político em escala nacional, quando alertava o povo nordestino a apoiar o candidato oficial Júlio Prestes, que dizia ser o continuador do Presidente Washington Luís, pelas obras que este fizera no Nordeste, na construção de estradas de rodagem e ferrovias, de significativa melhoria na vida do povo tão sofrido. Imbuído de fervor e idealismo, escreveu seu manifesto, amplamente difundido em todo o Nordeste. Transcrevo ipsis-literis o que disse:

“Atendendo aos superiores interesses do Brasil e de acordo com a orientação do meu eminente amigo Presidente Matos Peixoto, resolvi dar inteiro apoio à candidatura dos preclaros estadistas Doutor Júlio Prestes-Vital Soares. O nome do ilustre Dr. Júlio Prestes é não só uma garantia da continuação do Governo fecundo e de paz do benemérito Washington Luís, como também merece a simpatia de todos que o conhecem, e o que tem sido a ação administrativa do Presidente de São Paulo, que sempre afirmou serem as obras do Nordeste um problema nacional.

Como patriota, tenho sempre me batido pela liberdade constitucional do voto, que reputo um direito de todo cidadão. Meus amigos têm o dever de me acompanhar nessa minha atitude de verdadeiro cidadão, e espero que todos o farão. Recomendo portanto, a todos os meus amigos, os nomes dos meus candidatos, Doutores Júlio Prestes-Vital Soares Brasil.”

A campanha tem início, começando no Ceará pelo Juazeiro. O Presidente Matos Peixoto (aliás, eminente jurista), com grande comitiva de jornalistas, cinegrafistas, deputados, secretários de Estado, prefeito da capital, segue para o Juazeiro, em trem especial. Era a terceira vez que o Padre Cícero anfitrionava Chefe de Estado. Discursos no melhor estilo, ruas engalanadas saudando o Presidente, com faixas de apoio à candidatura paulista, banda de música, tudo fazia lembrar a Era Floro. E em meio a tantas festas, o tradicional banquete, regado à champagne, para duzentos convidados. Entre o tilintar de finos copos e talheres, o primoroso e requintado ágape, sob o crivo da famosa beata Mocinha. O Padre Cícero faz a saudação à ilustre comitiva, quando, num tom queixoso e comovido, disse:

“Muito nos alegra e conforta a honrosa visita de V. Excia. Alegra, porque V. Excia. observará pessoalmente que o Juazeiro não é o que se diz lá fora — um antro de banditismo, ou coisa semelhante — e sim um núcleo de população ordeira e trabalhadora. Conforta porque, pondo à margem os comentários desautorizados dos impenitentes inimigos desta terra, V. Excia. dá o eloquente testemunho de que lhe merecemos alguma consideração. Assim é que V. Excia., dando destacado relevo ao nosso Estado, tomou a dianteira na escolha do candidato à sucessão presidencial da República, e o seu clarividente descortino, nessa momentosa questão, está comprovado inquestionavelmente, com a adesão que mereceu o candidato de sua preferência, o eminente Dr. Júlio Prestes, de maioria absoluta da Nação”.

Seu discurso sensibilizou o historiador e poeta Leonardo Mota, que, encantado, teceu ao Padre Cícero os mais honrosos elogios. Apesar do avanço da candidatura oficial, a todo vapor movimentava-se também no Ceará a já fundada Aliança Liberal, a cargo do jornalista Raimundo do Monte Arrais, com a colaboração do Dr. César Cals, Joaquim Pimenta, Dr. José de Borba Vasconcelos, Carvalho Lima, Coronel Alfeu Aboim e Venefrido Arrais, estes dois últimos com base no Juazeiro. O fato criou um atrito. A Câmara municipal do Juazeiro exigiu que o prefeito Alfeu Aboim renunciasse ao cargo, eleito como vimos sob os auspícios do Padre Cícero. Para o povo, o prefeito era um traidor, por ter aderido à Aliança Liberal, e partem para a execração pública, difamando-o e vaiando-o em praça pública. Segundo alguns remanescentes daquela época, informação passada a autora no ano de l977, a administração Alfeu Aboim foi uma das mais profícuas do Juazeiro.

O candidato Júlio Prestes vence as eleições de 1º de março de 1930, com expressiva maioria, embora contestado pela oposição, que dizia ter sido o maior blefe que o País assistira, porque usaram dos mesmos métodos do passado: atas falsas, coação e suborno. A essa altura, o País estava praticamente conflagrado. Minas, rompida com São Paulo, por ter sido preterido o candidato mineiro, Antônio Carlos de Andrada, à sucessão presidencial. Partiam-se aí os laços políticos dos dois estados que dominavam há 35 anos, num acordo indecente entre mineiros e paulistas, daí o slogan de “Café com Leite. Rompido o acordo, nasceu a Aliança Liberal, que contava com o apoio do Rio Grande do Sul, de parte de Minas Gerais, do Ceará, e da pequena Paraíba, pela voz do seu Presidente, Dr. João Pessoa, assassinado na mesma época, não por motivo político, convém aqui registrar.

Com o repúdio à candidatura mineira de Antônio Carlos de Andrada, muitos pensaram estar sepultada a hegemonia de poder dos dois estados, mas não foi bem assim. Os fatos presentes estão aí a provar, mineiros e paulistas se revezando na Presidência da Nação. Seria ingenuidade pensar-se que a política café com leite tivesse sido sepultada. Puro engano, ela continua tão ativa como no passado, apenas um tênue véu a disfarça, aliás, como tudo em Minas. A última eleição presidencial de 2002, que teve Lula como candidato, mostra que nada mudou. Além de ser escolhido por São Paulo onde reside há 50 anos, e ser o candidato do PT, seu partido de origem e originário de São Paulo, foi apoiado pelo empresariado moderno, alguns hoje elevados ao cargo de Ministro. Mas o detalhe mais importante dessa eleição está em que Minas, como no passado, mostrou toda sua força, força que já vem desde o Império, quando concorria com alta soma de dinheiro, é fato verossímil. Nesse ano de 2002, o velho acordo dos velhos tempos da velha República, saiu de lá o Vice de Lula, um nome desconhecido da maioria dos brasileiros, José Gomes Alencar, cuja candidatura teve o beneplácito apoio do Governador em exercício, Itamar Franco. Portanto, nada mudou com relação à política do passado, não houve evolução.

O prejuízo que a política café com leite deu ao Nordeste foi imenso, quando as prioridades foram deixadas de lado, como no caso das secas, que durante esse longo período não foi construído nenhum açude, exceto alguns já em andamento. É bom acentuar aqui que o assistencialismo popular de todos os tempos, e que até hoje continua com a enganação do Cartão Bolsa Família, é apenas um antídoto, o que o nordestino reivindica é a irrigação para salvar a população ante o flagelo da falta dágua, para evitar o êxodo. Vivendo na esperança de que o projeto quimérico da transposição do rio São Francisco se realize. Um projeto já vindo desde o Império, vez por outra vai parar na Imprensa, dando a entender que está em curso a prossecussão de sua transposição. Depois tudo volta ao esquecimento, e o sofrimento do nordestino continua pelos tempos afora. Pergunta-se, até quando?

No momento atual, ano de 2005-2006, forças políticas poderosas do Nordeste levantaram-se contra o projeto da transposição, caso que registro, porque impressionante. O porta-voz da reivindicação dos contrários à transposição, um bispo. Pensando talvez comover o Presidente Lula com uma greve de fome. É de pasmar! Choca e entristece a posição desses políticos carreiristas. Esquecem, ao que parece, das longas estiagens com a falta dágua e o terremoto das secas que tudo devasta, dando lugar ao êxodo, quando seguem em direção aos grandes centros, inchando as grandes cidades e lhes trazendo penosos sofrimentos. Mas falava da política mineira. A ela volto, para confirmar que a aliança política que causou danos, e que até hoje continua entre os dois estados, é a verdade suprema. Um fato curioso me chamou a atenção nos doze anos em que vivi em Belo Horizonte.

A filosofia tornada em ideologia, ou teologia? A do mineiro ser ímpar na arte de fazer política, um virtuoso por assim dizer, deixando transparecer segurança, superioridade e pose. Fato visceralmente sedimentado na alma do seu povo. Esta presunção deve ter nascido do orgulho da Inconfidência Mineira, movimento de caráter estritamente ouro-pretano e ao circuito das cidades históricas, não conseguindo ultrapassar limites além das suas montanhas. Apesar do nobre escritor Valdemar Barbosa, com o qual muito conversei a esse respeito, assegurar, na sua História de Minas, o contrário, ou seja, que o movimento de Ouro Preto teve apoio de outras Províncias, jamais encontrei algo do que disse o escritor. O que estava em jogo ali não era um projeto nacional, mas sim a Província de Minas Gerais. Desgostosos com a saída do ouro para a Corte Portuguesa, e isso eles não mais aceitavam, levantaram-se no intuito de barrar, fazendo proselitismo com o povo, que se sentia lesado.

Vejamos o que escreveu Antonio Risério no seu magnífico livro Uma História da Cidade da Bahia. Citando vários autores sobre o arremedo da Inconfidência Mineira, o escritor diz: “A Inconfidência Mineira foi um movimento elitista, onde o que estava em jogo era a sangria do cofre mineiro, e não um projeto de Nação. E cita vários estudiosos do movimento com a mesma opinião. Lembra citando o Patriarca do Movimento, Tomaz Gonzaga, e  também Claúdio Manoel da Costa, este como defensor intransigente do expurgo radical, da limpeza de Quilombos em Minas Gerais, para ele uma mancha. Já Gonzaga se coloca entre os que depositam índios e negros no último escalão da humanidade. Gonzaga não só aceitava a escravidão como coisa natural, mas também as desumanas punições corporais. Quanto à Tiradentes, escreve o autor: sentindo o cerco se fechar, resolveu fugir, depois da prisão do seu escravo, um mulato, que ele acabara de vender, ficando tranquilo como se nada tivesse acontecido. Ainda o citado escritor: Não se encontra no acervo documental referente à Conjura  o mais leve indício de que ele reprovasse a escravidão. Tiradentes mercadejara um homem, e tinha a consciência tranquila” (op.cit.).

A propósito de Tiradentes, disse o escritor Valdemar Barbosa: “Tiradentes era o único pobre em meio à elite dos inconfidentes. Quase nada possuía, senão um título de alferes, e exercia a função de arranca-dente. Daí o apelido de Tiradentes”. Ingênuo, tudo leva a crer, sacrificou-se no lugar dos demais. Foi enforcado e decapitado na cidade do Rio de Janeiro, tendo grande visibilidade. Por isso foi transformado em símbolo nacional. Que o mineiro é na verdade cioso do seu saber político, é fato incontestável e conhecido do mundo político. Eles são tão ciosos desse pormenor que nem disfarçam, e isto a autora presenciou in-loco, como simples e obscura observadora dos costumes e rituais da terra, por longos doze anos. Lá não existe intriga violenta com mortes por ocasião da campanha política, é um fato. A notícia que se tem de rixas gravíssimas, violência com perda de poder, e até mortes, foi na antiga Barbacena, entre os Andradas e os Bias Fortes. Hoje, parece que tudo amainou. Antes das eleições, eles divergem, passada a eleição ou mesmo nos últimos intantes que a antecede, eles fazem o chamado acordo da coalizão, e nisto são impecáveis. Eis aí a boa receita para a paz política. Nesse pormenor, é inegável dizer-se que eles diferem do resto do país, e seu símbolo maior foi o ex-Presidente Tancredo Neves, falecido poucas horas antes de assumir a Presidência da República, quando passou efetivamente à História, chamado também com justiça de O Homem da Conciliação, e também da Incógnita. Mais é impossível. O que existe de fato é que são enigmáticos, insondáveis, difícil ao forasteiro decifrá-los. Retraídos, herméticos, cautelosos, de poucas palavras, não deixando vislumbrar a ninguém o que lhe vai na alma. Gilberto Freire, ao analisá-los, escreveu: o mineiro com seus retraimentos, suas contradições, suas refrações, que lembram nichos e criptas cavadas dentro de um homem, é um dos mistérios da psicologia regional brasileira (Problemas Brasileiros de Antropologia, pag. 87).

Retorno ao que vinha descrevendo da política café com leite, período da história política do Brasil que o marcou pela espúria aliança, quando o resto do País era marginalizado pela força do latifúndio, ora na mão dos mineiros, ora na dos cafeicultores de São Paulo, com reais prejuízos para o Nordeste, que se via preterido nas suas reinvindicações mais urgentes, como a das secas, num servilismo de dá pena, que durou 35 anos, e que resistiu até ser criada a Aliança Liberal. Muitos anos antes, o Norte, como era chamada a Bancada do Nordeste na Câmara, criou um bloco denominado “Bloco do Norte” para que fossem ouvidos. Inútil. Tudo continuou como dantes, no quartel de Abrantes. Prevaleceu mesmo o poder do latifúndio, e a “força da grana” paulista, na feliz expressão do poeta-cantor Caetano Veloso, na sua antológica música “Sampa”. Porque ganha eleição quem dispõe de dinheiro, fato incontestável.

Mas como tudo muda, mutatis mutandis, hoje temos um fenômeno surgido em fins da década de 70-80, e que atualmente lidera o rank nacional, ocupando grande espaço na política do país. São as chamadas Igrejas Evangélicas, destacando-se na vida política, em todos os seus setores: Câmara, Senado, Assembleias Estaduais, Prefeituras, Câmara de Vereadores. Elas atingiram um papel tão alto na política, que impossível menospre-las. O fenômeno teve início em Minas Gerais, precisamente na cidade de Belo Horizonte, quando elegeram o Pastor Mário de Oliveira, da Igreja Quadrangular, Deputado Federal, daí em diante só foi crescendo e hoje é uma explosão de Evangélicos ocupando relevantes cargos no cenário nacional. Sem nenhuma ideologia, o que os move é o poder para comandar o povo crente dos seus milagres. Um fenômeno transformado em realidade. Aqui no Rio, o Governador Antony Garotinho e sua Vice, Benedita da Silva (que já foi Ministra do atual Presidente Lula no ano de 2003). Sucedeu-lhe sua mulher, Rosinha Mateus, na direção do Estado, contando nessa falange evangélica, o Vice de Lula, José Alencar, apoiado pelo Sr. Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus. Esse mesmo Vice Presidente da República fundou, juntamente com o bispo Marcelo Crivela, da mesma Igreja Universal, um Partido Nacional, denominado PRB, fundado há poucos meses, e assim caminhamos pelos tempos afora.

Retomo a história do candidato Júlio Prestes. Eleito, foi em seguida contestado, seguindo-se então a luta, já a essa altura com a adesão de Getúlio Vargas, depois de muitas hesitações, diz o professor Hélgio Trindade, em Perfis Parlamentares. É lançada a candidatura Vargas, que teve como companheiro de chapa o Presidente da Paraíba, Dr. João Pessoa, com o apoio incondicional dos Tenentes, ou seja, aqueles de 1926. Na época, a Paraíba vivia uma luta interna sob o comando do caudilho José Pereira Lima, contra o Governo João Pessoa. José Pereira Lima, arrogante e de motu-próprio, decreta sua cidade de Princesa Isabel como Território Livre da Paraíba. A luta tomava proporções gigantescas, agravando-se com o episódio do assassinato do Presidente João Pessoa que, sem nenhuma conotação política, foi decisivo para o agravamento da crise.

Numa tarde do Recife, enquanto lanchava acompanhado do político pernambucano Dr. Agamenon de Godoy Magalhães na Confeitaria Glória, um recanto aristocrático da capital pernambucana, de repente ali irrompe, de arma em punho, o Dr. João Dantas, apontando para o Presidente que, desarmado e surpreso, não esboçou nenhuma reação. O tiro foi à queima roupa, uma execução. Tombava ali o ex-Ministro e Presidente da Paraíba, João Pessoa, que passou à história como uma vítima da política, quando a verdadeira causa do crime foi passional, como atestam documentos da época, embora a imprensa tenha dado ao fato conotação política, o que não procede.

Tem início então a revolução de 30, sob a chefia de Getúlio Vargas e do tenentismo. As forças do Exército descem para a Paraíba, a fim de debelar o foco insurreto sob a inspiração do caudilho José Pereira. Antes dos fatos se agravarem, o Padre Cícero tenta intervir, com um apelo pela paz, através de um telegrama a João Pessoa. Este, ao que tudo indica, interpretou que ele lhe havia sugerido uma rendição ante o caudilho, quando o contrário. O Padre Cícero só queria ver o conflito terminado e a paz voltar ao Estado. Escaldado com a revolução de 13-14 no Juazeiro, ele se afligia diante da carnificina que tomou conta da Paraíba. O Presidente João Pessoa, esprimido pelas diatribes de José Pereira Lima, e diante do momento crítico deu-lhe a seguinte resposta:

“Asseguro a Vossa Revma que o movimento subversivo que hora infelicita o estado da Paraíba não partiu do Governo, mas de elementos contrários à ordem, à paz, à quietude do Estado, no que tenho me empenhado seriamente a fim de ver restabelecida a ordem no nosso Estado. Saudações. João Pessoa, Presidente da Paraíba.

Com o desfecho do seu falecimento de maneira trágica, o qual não estava associado à guerra na Paraíba, ao ser comunicado da triste ocorrência, envia um telegrama de pêsames. As forças revolucionárias já haviam chegado para sufocar o movimento instalado por José Pereira, que antes tinha solicitado ajuda ao Padre Cícero, que lhe respondeu por telegrama, dizendo: “o meu povo não tomará armas nesta luta entre irmãos”. O Major João Leal e o Tenente Juarez Távora, considerando-o um conciliador, solicitam-lhe intermediar entre eles, tenentes, e o Presidente do Ceará, Matos Peixoto, para que este  renunciasse ao governo, para evitar derramamento de sangue, e o sacrifício do brioso Coronel Facó. Esse era o teor do telegrama de Juarez Távora, como chefe do estado-maior das forças armadas na Paraíba. Mas o Presidente Peixoto, ignorando as advertências, permanece à frente do governo. Poucas horas depois, outro telegrama chegava ao Juazeiro, insistindo que o Padre Cícero demovesse o Presidente e o convencesse a afastar-se do governo, e acrescentavam: Caso o Presidente Peixoto não renuncie, invadiremos a Capital para depô-lo, prendendo-o.

As forças federais já ocupavam toda a Paraíba e desciam para o Ceará, e aí o Padre Cícero vê com tristeza o seu Juazeiro ser invadido por um contingente do Exército; e foi nessa ocasião, como já tão enfatizado aqui, que o clero violou o túmulo de Maria de Araújo. Prevendo o pior, Matos Peixoto deixa o governo, não sem antes informar ao Padre Cícero, que transmite a informação ao Tenente Juarez Távora, dizendo não ser mais necessário sua intervençâo no caso. Com a fuga precipitada do Presidente Matos Peixoto, encerrava-se definitivamente a ERA Padre Cícero, politicamente falando.

Assumindo o governo do Ceará, o Senador Fernandes Távora, integrante da Aliança Liberal, comunica-lhe o fato por telegrama, dizendo: Assumi hoje a Presidência do Estado, espero contar com sua boa vontade no sentido de inaugurar uma nova era de paz e de justiça no nosso querido Ceará. Saudações, Fernandes Távora- Presidente do Estado.”

O contingente do Exército, que já estava estacionado no Juazeiro, dá início à apreensão de armas em toda a cidade, não escapando nem mesmo sua fábrica de descaroçar algodão, que tinha Pelúsio Macedo como administrador, comenta Otacílio Anselmo, que fazia parte do citado contingente. E complementa o escritor: o Padre Cícero foi poupado de maiores dissabores, como por exemplo, o da sua prisão, praxe que fazia parte do novo esquema revolucionário — a prisão dos chefes oligárquicos. Muitos já tinham caído: os Dantas Barreto em Pernambuco, os Maltas em Alagoas, os Nery no Pará”. Segundo ainda o mesmo escritor, a prisão do Padre Cícero não se consumou porque o comando do Batalhão estava sob as ordens do Tenente Ari Hugo Brígido Correia, um descendente direto do jornalista João Brígido, que foi seu tutor quando seminarista. O Tenente Ari Brígido Correia foi à sua casa com ordem de prendê-lo,  mas o Padre Cícero terminou por reverter a ação do oficial com o seu magnetismo pessoal, em longa e amistosa palestra, cujo tema era o conhecimento genealógico da família do oficial, que o próprio ignorava. Seduzido pelo seu carisma, e impressionado, o Tenente Ari desiste da prisão, conforme diz o escritor, que anos depois em palestra com ele, quando já era General, disse-o ter desistido daquela prisão, não por comiseração à sua idade bastante avançada, mas pelo fascínio que ele lhe despertara, com sua pérformance convincente e sedutora (Mito e Realidade, op.cit.) Fascinado, como ele mesmo declarou, não cumpriu as ordens dos seus superiores.

Mas entre tantos casos, que podemos chamar de transfiguração hipnótica, que transcendiam a ordem natural das coisas, houve um, entre dezenas, simplesmente impressionante, que o mesmo escritor acima citado comenta no seu livro (op.cit.), deixado à posteridade pelo escritor Paulo Elpídio de Menezes, da cidade do Crato, autor de O Crato do meu Tempo, dentre outros. O escritor Paulo Elpídio, numa narrativa poética, descreve um momento vivido por ele, da chegada de um contingente policial à fazenda do seu tio Aristides, nos anos de 1899-1900, no auge da peregrinação para a chamada Meca Juazeirense. Eis o seu relato:

“Encontrava-me na casa de fazenda do meu tio Aristides, nas imediações da hoje cidade de Porteiras, próxima ao Juazeiro. Era por volta das dez horas da manhã, estávamos sentados no alpendre da Casa Grande, conversando, quando de repente, ouvimos trotes de animais e em seguida um som estridente de corneta ecoou por toda várzea, quando avistamos um batalhão de homens descendo ladeira abaixo. Um dos presentes falou: é tropa do governo. Meu tio não se alterou, apenas perguntou a um dos seus serviçais: houve alguma coisa por aqui que eu não esteja sabendo? Resposta: não senhor. Em segundos estava o pátio da casa coalhado de animais, com eles já descendo das montarias. Eram de dez a doze soldados, tendo à sua frente o garboso oficial Raimundo Guilherme, da PM do Ceará, que demonstrando fidalguia cumprimenta a todos ali presentes. Ao aproximar-se do velho Aristides, abraça-o afetuosamente. Meu tio convida-o a entrar para a sala de visitas, onde já estava armada uma rede branca, de brancas varandas, que chegavam a tocar o chão de lustrosos ladrilhos. (Era praxe dos proprietários abastados, ao receber alguém em suas casas, oferecer-lhes uma rede para descanso). Meu tio, apontando-lhe a rede, perguntou-lhe: o que o trouxe a estas bandas com todo esse contingente de policiais? Resposta: Aristides, estou aqui em missão oficial. Não falou quem o autorizou. Estou passando para o Juazeiro para dar um ponto final naquela loucura, que já ultrapassou os limites. O oficial tinha o movimento religioso do Juazeiro como simplesmente um excesso de fanatismo que corra todos, trazendo confusão, briga com o clero e tudo mais. Portanto, era imprescindível terminar com tudo aquilo antes que fosse tarde. Vi no rosto de meu tio uma expressão de desapontamento, de preocupação. Mas nada disse. Em seguida fomos convidados a tomar assento à grande mesa, um farto almoço com pratos diversos já estava servido. Após almoçarmos, voltamos à sala de  visitas, quando tomamos assento nas cadeiras de balanço e espriguiçadeiras  para a sesta do meio-dia, complementada pelo café.

O oficial toma assento na branca rede e no balanço cadenciado dela, com o rebenque a tocar o chão, volta ao assunto que o trazia àquelas bandas, ou melhor ao Juazeiro. Chega a tarde, o jantar foi servido, a conversa sempre girando em torno da sua missão.  Às nove horas recolhemo-nos, não sem antes ouvirmos a reza do terço; era praxe à época dos moradores de sítios e fazendas a reza do terço. Em seguida, nova mesa de coalhada, queijo coalho e café. Deitamo-nos. Às cinco horas da manhã fomos acordados pelo som estridente da corneta, anunciando a partida. Lá se vai Raimundo Guilherme e seus comandados rumo ao Juazeiro. A preocupação de meu tio Aristides era visível, e chegou a dizer: meu Deus, o que irá ali acontecer? Religioso, implorava a proteção divina. Passados sete dias exatamente, lá estava de volta o oficial e seu comboio de soldados. Adentrando a sala, vai abraçando meu tio. Abalado com o que presenciara, estas foram suas palavras, as quais nunca esqueci: — Aristides, aquilo ali é mesmo um Milagre. Corria a notícia de que o oficial havia se convertido, depois de ter sido ouvido em confissão pelo Padre Cícero.”

O que dizer de tudo isso? Estudando o Padre Cícero durante 20 anos, a conclusão é a de que ele realmente possuía uma força estranha, superior, que muitos tinham como hipnótica. Para o escritor Aldenor Benevides, o Padre Cícero era clarividente e intuitivo, tinha visão hiperfísica. Tinha a chamada vidência do tempo, aquela em que o vidente vê cenas representando fatos por ocorrer ou já ocorridos em outros tempos. O fato é que ele foi realmente uma incógnita, conforme disse Azarias Sobreira (op.cit.).

Volto à Revolução ou eleição de Júlio Prestes. O Presidente Whashington Luís insiste pela posse do Presidente eleito Júlio Prestes, e nisso acreditou o Padre Cícero. Convicto da sua lealdade ao candidato eleito, envia-lhe uma longa carta. Em tom de pesar, diz ao Presidente eleito que fora traído, com referência à candidatura para deputado federal do Dr. Juvêncio Santana. Dando conta dos seus serviços prestados à Nação, ele evoca o recém passado pleito, cientificando-o de o Ceará ter sufragado seu nome, quando o Cariri deu-lhe a expressiva votação de 3.275 votos.

Reiterando seu apoio ao Catete, pedia-lhe não esquecer o Nordeste, pois o seu único objetivo em vida eram as populações pobres desse pedaço de chão esquecido, que o viam como um protetor incansável, sem desfalecimentos. Daí colocarem-se sempre ao meu lado, em todos os momentos, em quaisquer circunstâncias. E fazia uma observação: lembrando que sempre tivera um representante dos seus interesses na Câmara Federal, quando evocava o falecido Floro, hoje substituído pelo seu afihado Juvêncio Santana, que apresentado a deputado federal, fora preterido por injunções políticas, às quais havia cedido para evitar desgastes na política do Estado, num sentimento de concórdia, de coerência à causa nacional pela qual sempre havia batalhado. Dizia ainda ter suportado esse golpe que muito o havia magoado e pedia, caso assumisse de fato a Presidência, atendesse ao seu pedido, dando-lhe um lugar de destaque no cenário da política nacional.

Segundo Edmar Morel (op. cit.), de quem extraí este texto, essa carta não teve resposta e marcou de fato o ocaso político do Padre Cícero. Era mesmo o fim de uma Era. Reduzido ao ostracismo político e religioso, ele era apenas uma sombra do que fora no passado. Entretanto, uma coisa ainda persiste: a adoração de milhares de romeiros que continuavam a visitá-lo ininterruptamente. Apesar do enfado que o cercava, ele mantém sua correspondência em dia, quando lá chegavam diariamente centenas de cartas, de todos os quadrantes do Nordeste. Nenhuma ficava sem resposta. A todas respondia, passando esperanças, dando consolo a quem precisava. Ingênuas, podiam ser classificadas de terra-a-terra. Era o grito dos desesperados, dos abandonados, que tinham nele um protetor zeloso, um pai sempre solícito a lhes defender, um raio de sol a iluminar suas vidas. Por isso a definição de Gustavo Barroso atrás citada, de que ele foi o maior centralizador de energia em todo o hinterland brasileiro.  E o primeiro ex-reitor da Universidade do Ceará, Martins Filho, complementa: “O Padre Cícero foi na realidade o Consolador das gentes abandonadas dos sertões que sempre tiveram fome e sede de justiça” (O Ceará, p. 306. 2ª Edição, 1945). Amava os pássaros, e a natureza foi por ele defendida; não consentia que machados cruéis a devastassem. Evocando novamente o Caldeirão (Crato), ordenou ao beato José Lourenço que ao chegar ali preservasse por todos os meios uma grande árvore, que segundo a história teria servido de abrigo para os dois Jesuítas que lá viveram e morreram, fugidos da perseguição pombalina, no ano de 1759 em Portugal. Que assinalasse o local com uma cruz, para que as gerações vindouras deles não os esquecessem. A ordem foi cumprida literalmente.

O cantarolar dos pássaros trazia paz ao seu espírito, perturbado por aflições enormes; ouvi-los, uma das suas predileções, lembra o escritor Azarias Sobreira (op.cit.) Possuía-os bastante, presenteavam-nos seus romeiros de Alagoas e Pernambuco, em gaiolas, verdadeiras obras-primas da rica fauna de que dispõe o Nordeste, numa mistura de linhagem e canto, em verdadeira sinfonia, enchendo a casa com seus trinados, enfileirados em ricas gaiolas que corriam paralelo em toda a extensão dos alpendres da  sua última residência à Rua São José (informações transmitidas a mim no ano de 1975). O Dr. Irineu Pinheiro, que o acompanhou por anos a fio, assegura: ele era de alta sensibilidade, um sentimental, na mais alta expressão do termo, e ilustrando o que dizia, dá à estampa o seguinte episódio:

“Um dia cheguei de surpresa à sua casa e o encontrei num grande estado de depressão, mergulhado numa infinita contrariedade. Procurei saber a causa para tamanha tristeza. Os de casa me informaram que ele tinha repreendido severamente uma das suas afilhadas, que lá moravam. Certo de que a tinha magoado, estava inconsolável, e denotava um profundo arrependimento. Procurei dissuadi-lo dessa interpretação, retirando-o desse estado de contrariedade e culpa em que se dizia encontrar. Ao seu lado também estava o seu afilhado, Dr. Juvêncio Santana, que procurava consolá-lo, dizendo que, como condutor de um povo, a ele competia castigar ou premiar”. E encerra o médico, dizendo: “ali me deixei ficar pelo resto da tarde, até vê-lo aliviado”.

Tão ingênua quanto as cartas que recebia era a sua farmacopéia, mais conhecida por mezinhas do Padre Cícero, verdadeiros antídotos para seus adeptos, com históricos de cura para determinados males, e que se constituía de chás de canela do mato, folhas de abacate para os rins, de laranja para acalmar, de casca de umburana para sarar inflamações e curar gripes, de jatobá para anemia, folhas de jalapa, óleo de rícino como purgante para crianças com vermes, etc., etc. Era, ao que tudo indica, um discípulo de Thomaz Crochrane, o divulgador da fitoterapia entre nós.

Efetivamente, seu poder de decisão vai declinando em definitivo, e assim chegaria ao ano de 1932, exaurido fisicamente e atormentado por uma catarata que já o vinha fazendo sofrer há tempos. Nesse ano, ele perde uma das suas grandes amizades: morreu o Conde Adolfo, seu compadre, casado com Maria Custódia, filha adotiva da beata Mocinha. Moça de bem, criada nos moldes cicerianos, educada e bondosa, diz Amália Xavier (op. cit.). Conde Adolfo deixou descendência, até hoje existente. O engenheiro de Minas que chegou ao Juazeiro no ano de 1908, acompanhado do Dr. Floro, dele muito se diferenciava. Apolítico, preferiu ficar à testa dos seus negócios e também dos do Padre Cícero, administrando seus bens. Cidadão pacato, finamente educado e cordato, dizem os que com ele privaram, atestando por essa forma a sua tão apregoada linhagem de nobreza. Foi sepultado no cemitério da Igreja do Socorro, no jazigo do místico José Marrocos, numa deferência especial do Padre Cícero ao seu nobre amigo francês, Conde Adolfo van den Brulle.

E assim paulatinamente iam desaparecendo aqueles homens de outrora, que o ajudaram na construção de um lugar, de uma história: Monsenhor Monteiro, Coronel Secundo, José Maria Lobo, Pedro Lobo, Padre Joaquim Sóter de Alencar, José Marrocos, Floro Bartolomeu, e tantos outros. A morte, essa ingrata e traiçoeira, ia chegando, e de mansinho levava um a um, seus mais fiéis e dedicados amigos, deixando-lhe apenas a lembrança de uma Era, a princípio de calmaria religiosa, daquela religiosidade bucólica de paz, de fraternidade, mas que dentro em pouco transformou-se num religioso agitado, como agitado foi também a sua Era política. Seus aparecimentos em público vão rareando cada vez mais. Uma das últimas vezes em que foi visto, foi por ocasião da inauguração do Campo de Aviação da cidade do Crato, mas seu abatimento físico era tão visível que chegava a emocionar os que antes o tinham conhecido. Era o câncer que já o consumia lentamente. Apesar disso, ainda fala à Imprensa sobre o evento, e se diz contente com mais esse progresso para a região do Cariri.

Mas um outro acontecimento tolda-lhe a já quase nenhuma alegria. Este, além de rude, decepcionante, cujo passado a História relembra: a ingratidão do seu afilhado de batismo, José Geraldo da Cruz.  Prefeito do Juazeiro pela Aliança Liberal, ou seja, na ditadura Vargas, esqueceu ter sido criado à sombra do Padre Cícero e dele só ter recebido amizade e afeto, mas ainda ferido pelas humilhações de que foi vítima por parte do Dr. Floro, as quais nunca esquecera, e a História confirma. Usando de seus poderes, não hesitou em enviar um Ofício ao Padre Cícero, no qual solicitava que mandasse buscar sua fotografia, que ornava um dos salões principais da Prefeitura do Juazeiro, lembrando a sua Era de Intendente, quando fora escolhido democraticamente pelo povo.

O prazo para a retirada seria de 30 dias, findo o qual, não sendo procurado pelo dono, seria encaminhado para o Arquivo Público em Fortaleza. Ao receber a notificação, nenhum comentário, como já dito, tornou-se uma praxe na sua vida o silêncio. Entretanto, remete ao Prefeito uma carta, registrada em cartório, na qual demonstrava evidente o seu amor-próprio ferido. E prontamente manda um dos seus colaboradores, de nome José Edwiges, buscar a fotografia, e coloca-a na sua sala de visitas, entre os retratos de sua mãe e irmã. Acresce que não esqueceu de solicitar ao seu afilhado uma nota por escrito do episódio, para que a História não esquecesse. Transcrevo ipsis-literis o que continha a citada carta.

“Juazeiro, 27/9/1932.

“Ilmº Sr. José Geraldo da Cruz.

“Acuso em meu poder a vossa carta, datada de hoje, na qual me comunicais que o Decreto de nº 751, de 9 do corrente, proíbe a aposição de retratos de pessoas vivas nas repartições públicas do Estado, e me convida a mandar buscar o meu, oferecido à nossa Prefeitura como lembrança da criação do nosso Município, a qual, acredito, a História não poderá obscurecer o contingente de minha contribuição. Em resposta, comunico-vos que autorizei o Sr. José Edwiges a receber o aludido retrato, e peço-vos mandar lavrar da entrega um termo, no competente livro dessa repartição, a fim de que fique perpetuada a ocorrência, que julgo de suma importância para a futura História de nossa terra. Sem outro assunto, subscrevo-me.

“Atenciosamente. Padre Cícero Romão Batista.

1934, o Padre Cícero assiste à transformação na política, com a nova Constituição, ele, que já vinha do Regime Imperial. Seu estado de saúde cada dia mais declina, merecendo de todos de casa cuidados especiais, principalmente no tocante à alimentação, que se já era modesta, tornava-se naquele momento muito mais, consistindo apenas num pouco de arroz cozido no leite, galinha assada na grelha, à tarde, no jantar, uma simples canja de galinha, outras vezes, mingau de maizena acompanhado de suco de frutas, especialmente de laranja lima, limonada. É sabido que não tomava a água do Juazeiro, por ser muito salobra, substituindo pela água de coco. Não tomava café, preferia chás, afirma Edmar Morel (op.cit.), informações prestadas ao escritor por uma das suas últimas serviçais, a beata Tereza de Jesus, a Terezinha do Padre, como era mais conhecida.

Segundo seu biógrafo Azarias Sobreira (ibidem), “Na sua mocidade foi um fumante compulsivo. Criticado por colegas de batina, deixou o uso do tabaco para sempre, após uma advertência de um colega, quando ele fazia ao mesmo uma censura por este ser um etílico”. Nesse pormenor, fica patenteado o sentimento de inflexibilidade nos seus atos. A catarata,  que já o atormentava há anos, progride assustadoramente, já não mais lê, e ouve em silêncio a leitura diária dos jornais, feita por seus auxiliares. Com dificuldade apõe sua assinatura em papéis redigidos por seus secretários. Efetivamente aproximava-se  do fim. Os de casa não têm mais dúvidas quanto ao seu desenlace. Seus médicos assistentes e a família Juvêncio Santana tudo empenham para que seus sofrimentos fossem minorados. Para o público, com raras exceções, era sabido o seu grave estado de saúde. Seus males cada dia mais se vão acentuando, ora uma leve indisposição, ora uma má digestão, e assim ele transpõe o ano de 1933, quando chegaria 1934, e completaria a veneranda idade de 90 anos.

Poucos o vêem: entrada mesmo em sua casa, além dos seus médicos, estava restrita ao Revmº Monsenhor Sóter de Alencar e ao Padre Juvenal Colares Maia, que logo que seu estado de saúde piorou para lá mudou-se, e foi um dos presentes à sua última agonia. Juvenal Colares era muito pobre e não gozava de boa saúde, por isso foi durante muito tempo auxiliado financeiramente pelo Padre Cícero.

****

 

CAPÍTULO 23

FIM DE UMA ERA 

                                 

No ano de l934, o Padre Cícero, estava totalmente cego. A catarata, que há muitos anos o vinha atormentando, progredira o suficiente para que o cristalino do olho direito sofresse uma atrofia irreversível, constatada pelo médico Dr. Isaac Salasar, catedrático da Faculdade de Medicina do Recife, que veio até o Juazeiro para operá-lo. Aquele olhar, parte integrante da sua personalidade, pela expressividade e pela profundeza do seu azul, que a todos fascinava, estava completamente extinto. A operação realizou-se no dia 20 de junho, sem êxito. O cristalino estava extinto, afirmou o médico Isaac Salazar em entrevista à Gazeta do Cariri. Ao retirar-lhe a venda, ele ainda conseguiu ler o cabeçalho dos jornais, e só.

A operação custou 20 contos de réis, quantia que ele não dispunha na ocasião, quando teve que tomar 15 contos emprestados ao maior comerciante do Juazeiro, o senhor Fenelon Pita, cujo empréstimo teve o aval da Beata Mocinha, e sofreu um atraso de 15 dias, em face da ausência do comerciante, que se encontrava em viagem. Esse empréstimo é curioso por dois motivos: primeiro, considerando-se a soma de dinheiro que lá entrava diariamente. Não falo das esmolas à Padroeira, esse era intocável, mas sim dos presentes em dinheiro que lhe faziam pessoas de posse. O segundo, mais impressionante ainda, aliás, o suficiente para merecer de todos os seus biógrafos alusão ao fato, isto por ter sido sua governanta, a beata Mocinha, a fiadora. Perguntaram-se os que sobre ele escreveram o que se deduzir dessa passagem, desse pormenor: a falta, no cofre do Padre Cícero, dessa insignificante quantia? Incompreensível! E para não alongar o assunto com referências a autores que escreveram sobre o episódio, cito o jornal Gazeta do Cariri, na edição de junho desse mesmo ano (Crato):

“O Padre Cícero recebia diariamente muitas dádivas dos seus romeiros, tanto em bens materiais como em dinheiro vivo. Está constatado que, só em fins de 1933/34, tenha sido endereçado a ele, de diversas localidades do Nordeste, a importância de 300 contos de réis, quantia significativa para a época. Entretanto, não teve 20 contos de réis para saldar uma pequena dívida, socorrendo-se de um empréstimo, do qual foi fiadora a beata Mocinha, a secretária e tesoureira de todo o numerário que ali entrava. E conclui a nota: “Causou estranheza e surpresa a todos, mormente por ter sido sua governanta e tesoureira a fiadora”.

Tendo que relembrar o episódio, fica claro que o Padre Cícero não foi, em tempo algum, um preocupado com dinheiro, como afirmavam seus detratores. É inegável que muito recebeu, mas muito doou a entidades filantrópicas, como por exemplo, no Rio, para os franciscanos de Cascadura, os salesianos de Niterói, e até mesmo para o estrangeiro, para a Terra Santa. Sem uma definição exata do que acontecia com as finanças, por não tocar em dinheiro, fato de todos sabido, ficando essa parte a cargo da beata Mocinha, e de outros, com os quais ela mantinha negócios, para a época bastante altos. Padre Cícero então passou por essa grande humilhação, a do irrisório empréstimo, para saldar uma pequena dívida. Mais um mistério, na confusa história da sua vida. Para o escritor Edmar Morel (op. cit.), foi humilhante essa passagem, um homem da sua estatura ter que submeter-se a essa inversão de meios, para saldar um pequeno compromisso financeiro.

Em 24 de março deste mesmo ano de 1934, pouco antes de ser operado, ele havia completado seu nonagésimo aniversário, e como não podia deixar de ser, surpresas lhe foram feitas;. Há pouco, tinha sido a mudança de casa para uma mais confortável, à Rua São José, onde veio a falecer. A outra, por ocasião da data magna, uma missa com Te Deum e um banquete que em nada lembrava o fausto de outrora, pois ao invés de altos políticos, jornalistas, escritores, e outros da mais elevada projeção sentados à grande mesa com capacidade para 40 pessoas, naquele dia encontravam-se sentados ali seus verdadeiros amigos. A família Juvêncio Santana, o médico e escritor Irineu Pinheiro, o Padre Juvenal Colares Maia e o venerável Monsenhor Vicente Sother de Alencar (irmão do também venerável Joaquim Sother de Alencar). O Juiz Plácido Castelo e seus serviçais, considerados por ele como da família. Homenageado com uma chuva de pétalas de rosas derramando-se sobre sua cabeça já completamente branca, que na expressão de Edmar Morel (op. cit.) mais se assemelhava a um floco de algodão do Seridó. Abraçado efusivamente pelo Dr. Juvêncio Santana, à queima-roupa lhe pergunta como se sentia naquele momento, à queima-roupa também foi sua resposta, na mais absoluta clareza: gostaria de chegar aos 100, ainda tenho muito o que fazer pelo meu povo”. A resposta provocou risos nos presentes, e ao contrário do que escreveram certos autores, ele, animado, enceta conversa variada, sem esquecer da data prodígio, quando festejava seus 90 anos de idade.

Em grande alegria, como foi sempre o seu habitual, apesar de tantas opressões que anuviaram a maior parte do seu viver, ele ouviu os cânticos em sua homenagem, e recebe os cumprimentos efusivos dos que ali se encontravam, e os jornais falam da data. Os presentes comovem-se com a lucidez de suas respostas, embora exista uma outra versão, de que ele, em meio à recepção, tenha falado coisas desconexas, sendo contornado de imediato pelo Dr. Juvêncio Santana.

A vontade de viver sempre mais para fazer o bem, pois achava que tinha feito muito pouco, ainda o dominava, no limite extremo da sua avançada idade, numa afirrmação constante de luta, de reforma, de progresso, que muitos não entenderam. Por isso, ele faz jus ao título de benemérito de um povo, co-precurssor da cidadania, quando paupérrimo ao ali chegar, nada possuindo materialmente, além da vontade de realizar uma obra meritória, vontade essa que leva o homem a grandes ousadias. E foi essa temeridade, da transformação de alguns marginalizados em cidadãos da lei, com autonomia para se impor, que lhe valeu contundentes críticas, deformadas injúrias. Pagou caro pelo ideal. Esse homem de fé e de bem, extraordinário por suas atitudes para com o pobre, naquele momento ainda falava de longevidade, pensando em sonhos não convertidos em realidade. Envelhecido, fragilizado, transformado numa imagem pálida e desfigurada, já marchando para a sepultura, ainda sonhava com realizações.

Daquele dia em diante seu estado de saúde declina, sofrendo dos rins e intestinos, inspira cuidados. Seus médicos tomam precauções, e redobram as atenções para com ele. Se antes já se alimentava muito pouco, daí em diante era o mínimo. Somente alimentos líquidos e tenros, como uma canja rala, ou mingaus. Ele vai perdendo o ânimo, e seu abatimento físico é visível. Entre seus seguidores, isto é, a grande massa, a preocupação vai se generalizando, e eles vêem com desolação o próximo desenlace, embora não acreditassem que um dia ele partisse para sempre. Sofrendo de uma grande insônia, às vezes entre cochilando e acordado, ainda tem ânimo de acompanhar a reza do rosário, feita por Maria das Malvas, uma das fâmulas de sua casa, que cuidava da sua alimentação nos últimos tempos, dos seus banhos mornos em bacia de ágata, e das suas bem passadas roupas. Assim a serva fiel trocava o dia pela noite, só conseguindo dormir poucas horas. Era mesmo uma abnegada.

Mas à medida que vão passando os dias, ele vai definhando cada vez mais. Cada dia era precioso aos olhos dos seus romeiros, que mais e mais se recusavam a aceitar que ele morresse. Muitos o tinham como um santo descido dos céus, por isso impossível desaparecer. Apoiados nessa ilusão, ali vão chegando e estacionando em frente à casa do seu guia, esperando que um grande milagre ocorresse, qual fosse, o do seu aparecimento à janela, e dali, como fazia há 50 anos, desse a sua costumeira bênção, acompanhada dos preciosos conselhos. Nada disso, porém, acontece, senão a chegada de mais três médicos: Drs. Pio Sampaio (Barbalha), Elísio Figueiredo (Crato), e Mozart Alencar, este do Juazeiro. A ilusão de um restabelecimento vai aos poucos se esvaindo do seio da massa, que não consegue esconder a grande decepção, quando o sonho dava lugar a uma cruel realidade — piorava o Padre Cícero. Os médicos ali presentes, em número de cinco, não têm mais ilusão, seu desenlace seria questão de horas. Dores ininterruptas, grandiosas, sobrevinham-lhe a cada minuto. Os médicos resolvem aplicar morfina para que suavizassem as dores. Era o câncer que o matava lentamente. Passado o efeito da droga, ele, um pouco mais aliviado, olhando para o Dr. Mozart, pergunta-lhe:

— Você ainda tem esperanças, Mozart?

O médico responde com uma afirmativa de cabeça, procurando quem sabe naquele gesto esconder sua dor. Lá fora, a agonia ia crescendo a cada minuto, quando, entre rezas e choro, a massa se movimentava, e no recinto de sua residência, padres, médicos, amigos, os de casa, se perguntavam: como transmitir a notícia àquela gente fidelíssima de 62 anos, que ali se encontrava, ávida por notícias, esperando evidentemente a de uma melhora? Encorajada pelo Padre Juvenal Colares Maia, que mudou-se  para sua casa logo que ele piorou, e pelo seu último secretário, Severino Alves, a beata Mocinha foi a porta-voz daquele triste momento. Denotando calma, como era sua praxe, falou à multidão estacionada, dando remotas esperanças de melhoras. Mas logo em seguida cai por terra para eles a grande ilusão, chegava Monsenhor Pedro Esmeraldo, acompanhado do sacristão, para administrar os últimos sacramentos de hora de morte, a extrema-unção. Não queriam crer no que estavam vendo, agonizava o Padre Cícero. E entre rezas e choro, chegou a noite, mais uma noite de perspectivas e ilusões, entremeada pelo desfiar dos rosários. Vem a madrugada, uma madrugada fria, de vento frio e rasteiro, como sói serem as madrugadas do Vale do Cariri. Essa, porém, foi a mais fria de todas da sua história. Lentamente morria o Padre Cícero.

Os médicos não mais insistiam na aplicação dos remédios, tudo estava perdido, a realidade da morte sobrepunha-se à ciência. Suavizado um pouco mais das dores pelo efeito da morfina, apresentou, segundo consta, um pequeno reflexo de lucidez, olhando todos ao seu redor. Foi então nessa ocasião que o Dr. Elísio Figueiredo, percebendo o momento, altamente emocionado, solicita do Padre Juvenal Colares, também presente aquele momento, pedisse ao Padre Cícero que abençoasse todo seu povo, os presentes e também os ausentes. Ele, num impulso próprio das grandes almas, tenta, e consegue. Ergue-se do leito, e apoiando-se nos travesseiros que o cercavam, traçou cruzes no ar em direção de todo o Juazeiro, e balbucia algo numa voz imperceptível que a memória guardou.“No céu rogarei a Deus por vocês todos”. Fecha os olhos e santamente expira nos braços de Severino Alves, que empunhava uma vela, ao lado da suave beata Josefa Maria do Espírito Santo. Chegava ao fim o Grande Homem de Deus, e também ali terminava a guerra de uma facção. Eram 6 horas e 45 minutos do dia 20 de julho de 1934. Obscureceu-se o céu do Juazeiro.

A notícia correu célere. Monsenhor Esmeraldo celebra missa pelo grande morto, e transmite a notícia. A massa, inconformada, corre em direção à sua casa, à Rua São José, e na correria eles se atrapalham, caem, levantam-se, atropelam quem tenta se interpor entre eles, finalmente, lá chegam para constatar a triste e cruel realidade. Morreu o Padre Cícero. A tristeza deles se apodera, choram, rezam, lamentam-se. Em poucas horas, uma grande multidão tomava conta das ruas, já agora quilométricas, que de acordo com a polícia foi de 80 mil pessoas. Uma multidão impressionante para o tamanho do lugar e as condições da época. Lá eles chegaram de caminhão, a cavalo, de carroças, automóveis, de trem, a pé, não importava o meio de transporte, queriam era chegar ao Juazeiro para prestar sua última homenagem àquele que, durante 62 anos, só pregou o bem e a paz, e deles foi um verdadeiro amigo.

O telégrafo ficou congestionado, tal a quantidade de mensagens de condolências de todo o País. Os telégrafos do Crato e Barbalha e a Rádio da Polícia colaboram na transmissão de mensagens. À tarde, aviões do Exército sobrevoam a cidade, passando em rasantes por sobre sua casa - era a homenagem que lhe fazia seu afilhado de batismo, Coronel-aviador José Macedo, que veio dar-lhe o último adeus, homenageando-o com coroas de flores também em nome da Aviação.

Instantaneamente, como num passe de mágica, toda a cidade parou, cobrindo-se de luto. As residências, ricas ou pobres, ostentavam em suas fachadas uma tarja preta em sinal de pesar, expressando sua dor. Homens, mulheres, e até menores, usavam distintivos pretos nos braços. As mulheres vestiram-se de preto, costume esse que permanece todos os dias 20 de cada mês, lembrando sua morte. Dão início à preparação dos funerais, e paramentado como se fosse celebrar, o esquife é colocado num caixão de cedro puro, confeccionado na marcenaria de propriedade de Antônio Pereira. Suas mãos entrelaçadas ostentavam o que foi todo o símbolo de sua vida, o rosário, e sobre seu peito, o crucifixo.

Para que o povo dele se despedisse, foi improvisado um catafalco, onde colocaram o caixão, numa das janelas de sua casa. Ao avistar o esquife, a multidão avança e houve tumulto, sendo contido pela Guarda de Honra ali presente. Todos, ao um só tempo, queriam aproximar-se, foi preciso calma e pulso forte para conter a massa. Alguém sugeriu ao Prefeito Tenente Porfírio de Lima convocar um reforço da polícia, para evitar transtornos maiores, com o povo inconsolável. A essa proposta reagiu o Prefeito dizendo: “o Padre era do povo, e continua sendo do povo, todos terão o direito de vê-lo pela última vez”. Formou-se uma fila, e em silêncio desfilavam pausadamente ante os restos mortais do seu protetor, chegando aos mais de oitenta mil, segundo a Polícia Militar.

Movidos pela dor da perda, as lágrimas expressavam seus sentimentos, o sentimento da orfandade que o povo ingênuo e bom do sertão sentia naquele instante. Desaparecera o grande líder que deles cuidou com amor e caridade, num verdadeiro espírito de abnegação, por longos 62 anos, quando sacrificou sua saúde, e até mesmo sua própria vida em defesa da comunidade que fizera, como naquele sábado sangrento de 1914. No Padre Cícero, o espírito de solidariedade em bem da coletividade alcançou sua forma mais nobre. Com seu desaparecimento, eles se consideravam orfãos. Desolados, mostrando-se inconformados ante o quadro da morte, que muitos não queriam acreditar que ele um dia viesse a morrer, pois o tinham como imortal. E atropelando-se, esgueirando-se para ver o seu ídolo pela última vez, como escreveu o caixeiro-viajante Lourival Marques, presente ao momento. Para Edmar Morel (op. cit.), é o melhor relato fúnebre de que se tem notícia até hoje, e diz: talvez nenhum articulista de Londres ou de Nova York o tivesse feito melhor. Enquanto isso, o seu antigo secretário Benjamim Abraão reaparece e, máquina filmadora em punho, registra o melancólico fato do sepultamento do seu grande protetor.

Ao se aproximarem do esquife, o tocavam com terços, rosários, galhos de árvores, chapéus de palha, para guardarem como relíquia. O venerando Monsenhor Sóter de Alencar, lá presente durante toda a cerimônia fúnebre, representando a Diocese do Crato, dizia: "podem tocar, ele era mesmo um santo". Oito missas foram celebradas, a Bandeira Nacional estava a meio pau. Em todo o Cariri, o Prefeito decretou luto oficial por três dias, no que foi acompanhado por todos os prefeitos do Vale.

Os sinos incessantemente batem em dobre de finados, pausado e triste. Chorava um povo. Por fim, 24 horas depois, sai o grande cortejo fúnebre em direção à Igreja de Nossa Senhora das Dores, para a encomendação do corpo. O féretro é conduzido pelas mãos simples de gente do povo, que se revezavam na nobre tarefa. A comoção é geral. À frente do cortejo, nove padres, inclusive o Vigário do Juazeiro, o já citado Monsenhor Pedro Esmeraldo. Uniformizados, os legionários ladeavam as autoridades convidadas à cerimônia, representantes do governo do Ceará e Estados vizinhos. As Associações dos Vicentinos, com destaque para a Associação do Coração de Jesus por ele fundada há quase meio século, se faziam presentes, como também as Associações de classe, com suas bandeiras envoltas em crepe preto, simbolizando luto. Lentamente caminham, e chegam à Igreja Matriz, onde é celebrada a missa de corpo presente. Em seguida cantam o memento, sob a regência do maestro Pelúsio Correia de Macedo, seu grande amigo, que mesmo carregado de extrema emoção conduz a orquestra. Depois desses rituais, segue o préstito em direção à Igreja do Pérpetuo Socorro, onde seria sepultado, sempre em marcha lenta e ao som das marchas fúnebres.

O Padre Juvenal Colares e o citado Monsenhor Sóter são os mais emocionados, e choram. Enfim, depois de uma vagarosa marcha, chegam à pequena igreja. A grande e compacta multidão ouve em silêncio os discursos de despedidas, destacando-se o do jovem Odílio Figueiredo, que, carregado de emoção, traça um panegírico de toda sua trajetória como fundador do Juazeiro, encerrando assim as homenagens póstumas. Finalmente, quando o sino da igrejinha anuncia 12 horas, desce à sepultura o corpo do grande humanista sem par na História do Brasil. Em cova rasa, lá está sepultado, ao lado de sua mãe e irmã, como era do seu desejo, expresso em testamento. A multidão rompeu em prantos, houve gritos, lágrimas, tumulto, com o saldo de duas mortes e vários feridos.

Uma simples e despretensiosa lápide assinala o local, que é visitado por milhares de pessoas diariamente, em pagamento de promessas à sua alma, ou por simples visita de homenagens. Juazeiro e o Nordeste gostariam de vê-lo canonizado, em face das inúmeras graças alcançadas. O Vaticano silencia ante os pedidos. Praza aos céus que um dia não muito distante o Papa lhe conceda a honra dos altares, se é que a canonização pelo Vaticano é a prova cabal da santificação. Para muitos, ele era um santo, e continua sendo, por sua humanidade, pela humildade ao suportar resignadamente os exaustivos sofrimentos transformados em grandes martírios, e pelo infinito número de graças recebidas e provadas por aqueles que as recebem. Seus ensinamentos de fé sobrevivem à força do tempo, que tudo transforma, e às vezes até acaba — Mutatis-Mutandis, notadamente os sentimentos. A veneração a ele, no entanto, continua pelos tempos afora, fenômeno único no País. Iniciou sua vida com o povo, viveu com o povo, morreu cercado pelo povo.

A casa onde faleceu à Rua São José, nº 242, transmite um ar de mistério, de misticismo, de força no sobrenatural, que a todos impregna. Dominado pela Igreja, prestou a ela seu preito de obediência e silêncio, embora firmemente acreditando no Milagre da Hóstia Ensanguentada. No seu livro, Edmar Morel (op. cit.) diz: “os ídolos têm a fragilidade da porcelana, mas existem astros que brilham eternamente. O Padre Cícero é um destes. Passados 64 anos de sua morte, ele permanece na lembrança de todos, confirmando o que disse Guimarães Rosa: Os grandes homens não morrem, permanecem para sempre”. Assim esse homem inesquecível que foi o Padre Cícero, esse anjo, na expressão do austero bispo Dom Luís Antônio dos Santos, quando em visita ao Cariri, nos idos de 1873, empolgado por suas virtudes que já despertavam admiração pelo seu modo simples de ser, e principalmente pela grande virtude de que era portador, a humildade. O austero bispo, num ímpeto de admiração e orgulho do seu padre, disse: “Desta mesma massa é que se fazem os santos”.

Por suas excelsas virtudes, pelo amor ao seu povo, pelos seus ensinamentos, que sobreviveram ao tempo, ele continuará para sempre perpetuado no seu Juazeiro, e será ad aeternitatem.

 

****

 

 

CAPÍTULO 24

OBSERVAÇÕES FINAIS SOBRE O JUAZEIRO E SUA ÉPOCA

                  

Como já aqui tão ressaltado, um detalhe chamava a atenção de todos que visitavam o Juazeiro no decorrer dos fatos aqui mencionados, que são parte integrante dessa fantástica história de fé, amor, controvérsias, processos eclesiásticos, suspensões de ordem, excomunhão, óbitos. O grandioso elenco de beatos e beatas, já aqui tão enfatizado, despertava atenção de todos que lá chegavam, pelo excêntrico que alguns aparentavam, com suas vestes extravagantes, outros ainda pela performance da sua personalidade, onde o mistério tinha predominância — caso das três principais beatas: Maria de Araújo, pelo milagre; Hermínia Marques de Gouveia, uma mística, que tinha visões (sua história no Juazeiro é curiosa, porque há passagens líricas e comoventes, que merecem ser registradas); Giluca Bezerra, pela ternura e bondade. Sem elas, talvez, o tom do glamour e do mistério não tivesse existido, um mistério transformado em enigma até hoje indecifrável. Por isso, a história de fé no milagre da hóstia ensanguentada é o principal motivo de estudo, nas suas mais diversas concepções, porque rica de interpretações.

A participação dos beatos, em toda essa trajetória, é fato real e integrante da história religiosa do Juazeiro, que o escritor Antônio Xavier assim definiu. Para ele, os beatos eram portadores de delírios, que, numa progressão geométrica, chegavam à paranoia total, sobrevindo daí o exacerbado fanatismo religioso que os levava definitivamente à loucura. Dr. Antônio Xavier era natural do Juazeiro e com eles convivia, observando-os, porque médico. Depois de muito estudá-los lançou o livro Beatos e Cangaceiros, onde argumenta que a grande maioria dos beatos era portadora de esquizofrenia, levava vida anômala e praticava, até sem se dar conta, de uma religião proveniente do delírio místico ao qual associavam hipocrisia, banditismo e vagabundagem. 

O livro, tal qual o de Alencar Peixoto, suscitou polêmica. Escritores manifestaram-se, dentre eles, Afrânio Peixoto, à época no auge entre a intelectualidade brasileira. Seu comentário pela imprensa carioca foi o de admitir a realidade contida no livro do Dr. Xavier, também seu colega de profissão. Dr. Floro, indignado com o livro, vai à Tribuna da Câmara. À época, era deputado federal (1923), e desafia os dois escritores, principalmente Xavier de Oliveira. E veemente, lança uma saraivada de críticas ao escritor de Beatos e Cangaceiros, chamando-o de hipócrita, dizendo admirar sua coragem, manchando e enxovalhando a honra dos beatos, quando na realidade toda sua família no Juazeiro era de procedência de romeiros que lá tinham chegado, atraídos pelos milagres. E da mesma Tribuna ele faz um histórico sobre beatos, desde seu aparecimento na Europa em remotas eras, comparando-os aos anacoretas do princípio do Cristianismo (ano de 1923). Já indisposto com o patriarca da família, José Xavier, por motivos políticos no Juazeiro, o livro despertou mais o ódio do Dr. Floro, causando mais confusão. Veio daí a grande intriga entre a família Xavier de Oliveira e o Dr. Floro, que segundo Otacílio Anselmo (idem), foram participantes da frustrada e não concretizada eliminação do Dr. Floro. Era a História do Juazeiro, de lances incríveis.

Os beatos chamavam a atenção pela singularidade dos seus trajes, ou ainda pelo exotismo que os caracacterizavam, caso do beato José da Cruz, ou simplesmente beato da Cruz, como era mais conhecido. Inofensivo sob todos os aspectos, carregava às costas uma cruz de madeira coberta por fitas de variadas cores, conduzindo também consigo um pequeno carneirinho. Figura visivelvemente frágil, evidenciado pelo corpo emagrecido pelos jejuns e pela dura vida que levava. Muito perseguido pelos que dele zombavam acintosamente, e até mesmo pela polícia arbitrária da época. Foi vítima de grande espancamento, conforme assinala Floro Bartolomeu no seu livro Joazeiro do Padre Cícero (op. cit.). Depois de muito ser maltratado e espancado até perder os sentidos, foi socorrido pelo Padre Maranhão, da cidade de Milagres (CE). Padre Cícero, tomando conhecimento, mandou buscá-lo, e lhe impôs uma condição: jamais sair do Juazeiro. O beato José da Cruz, um errante, ora aqui, ora ali, depois dessa ordem fixou-se definitivamente no Juazeiro, e aí viveu até seus últimos dias.

Digno de menção é também o beato Manoel Cego que, de esmolas, construiu a capela de São Miguel, ainda hoje existente, nos arredores do Juazeiro. Em contraposição ao beato José da Cruz, puro e casto, inofensivo, na expressão de Floro Bartolomeu, tendo com ele convivido, havia um Elias Gilli, ou Elias Italiano, espertalhão, fazedor de filhos - dizem muitos escritores, deixou grande descendência. Beato Francelino, figura de destaque, tido como homem de bem, depôs na Segunda Comissão de Inquérito, e para ele, se houve farsa, foi justo nessa segunda acareação, feita sob a égide do ódio, da contestação e da tendência a dar por terra toda a história do milagre.

Merece mais uma vez fazer referência aqui, pela importância que teve na conturbada história do Juazeiro, a cândida beata Josefa Maria do Espírito Santo, vulgo Bichinha, de quem já falei noutro capítulo. Foi ela que, por muitos e muitos anos, guardou consigo os famosos paninhos ensanguentados das comunhões ditas miraculosas de Maria de Araújo. Prevendo sua morte, ou por descarrego de consciência, achou digno e justo entregá-los à autoridade diocesana, temendo, quem sabe, fossem parar em mãos adversas. Crente fervorosa do milagre, na certa temia uma profanação do que considerava um bem sacrossanto, lembrando com certeza o destino que tiveram os restos mortais de Maria de Araújo. Tudo não passou de uma ilusão da beata. O Bispo Dom Francisco de Assis Pires cumpriu rigorosamente, como já citado noutro capítulo, a ordem de Roma de 55 anos antes, que era a de incinerá-los para que nada subsistisse da grandiosa história de fé e devoção, de inegável valor historiográfico, que o clero ignorou e tudo fez para que passasse ao limbo, onde os fatos essenciais estão destinados a permanecer no esquecimento. Reduzidos a pó, as cinzas foram sepultadas à sombra de uma frondosa mangueira, no pátio interno do Seminário São José da cidade do Crato, evidenciando assim o grande poder de silêncio imposto por Roma. A beata Josefa Maria do Espírito Santo, a única, à exceção da fiel assessora beata Mocinha, a estar presente à morte do Padre Cícero, ajudando-o nos seus últimos instantes, o que lhe confere grande importância.

Beata Jael da Franca Cabral figura mais uma vez aqui, pela firmeza da sua concepção no milagre e por suas profecias. Seus depoimentos eram, na maioria, vazados no latim. Chamada de teóloga por alguns escritores, dado seu conhecimento das escrituras sagradas, que discutia com profundidade e conhecimento dos textos. No rol das beatas também figura a beata Giluca, Gerônima Bezerra Monteiro, este seu verdadeiro nome. De cor acentuadamente branca, tinha cabelos loiros e olhos profundamente verdes, era meiga e dócil. De ascendência aristocrática, porque descendente em linha direta dos fundadores do Crato e Juazeiro, os reais donos de glebas de terra no Cariri, os tradicionais Bezerra e Pinheiros. Ela também fazia parte integrante da trupe de beatas, residentes da casa do Padre Cícero. Era tão amada por ele e por seus familiares, que no seu Testamento fez doação a ela de um sítio e uma casa.

As irmãs do canto, beatas Maria e Isabel da Luz, têm seu merecido destaque, quando elegantemente, ao som magistral do harmonium, enchiam o Juazeiro com seu canto solene e harmonioso, dando um toque celestial aos rituais da humilde capelinha de Nossa Senhora das Dores, elevando os fiéis às alturas, dado o poder oculto da música, na expressão de David Tame, no seu livro O Poder Oculto da Música. Embevecidos, tinham a impressão de estarem se deslocando para o céu. Era o ápice do esplendor. As duas irmãs foram regentes do coro por muitos anos da capela, depois Igreja-Matriz de Nossa Senhora das Dores. Como já escrito, Isabel da Luz muito colaborou para o engrandecimento do Juazeiro, lapidando cérebros pelo ofício da instrução.

Beata Tereza de Jesus, a ex-escrava do Padre Cícero, alforriada por seu pai, Joaquim Romão Batista, merece um lugar nesse elenco, por sua infinita humildade e lealdade. Por fim, a beata Mocinha, pelo destacado e relevante papel que desempenhou durante 54 anos à frente da casa do Padre Cícero, conduzindo-a com mão-de-ferro. Era a gerente administrativa das finanças da casa e da Igreja, o que permitia levar ao grande público a imagem de uma mulher excepcional, inteligente e capaz. Além de desempenhar um relevante papel social, quando tudo naquele mundo teria que levar o seu sinete. Menos fanática que as demais beatas, agia racionalmente.

Mas uma se destacaria, impreterivelmente, no rol imenso da beataria, por sua bondade e simplicidade, que também são virtudes, segundo Floro Bartolomeu, numa referência à linda Beata Hermínia Marques de Gouveia, acrescentando ser ela uma pessoa de bem, como escreveu (op. cit.). Dr. Floro parece ter recorrido a Sócrates, que definia o Bem pela prática das virtudes. Daí, ela ter sido elevada à categoria de virtuosa não só por ele, mas por outras pessoas que com ela conviviam. Tentarei aqui traçar um ligeiro perfil dessa personagem que se sobressaiu, entre tantas outras beatas, e que tanto chamou a atenção dos que chegavam ao ainda Joazeiro, e também da autora, depois de ouvir sua história. História que pretendo descrever, porque considero um episódio digno de menção, dada a gravidade do caso, que a tornou numa figura emblemática, e para mim excepcional.

A tradição oral deixou à posteridade o seguinte perfil: portadora de rara beleza, traços finos, voz suave e olhar de santa. Este o retrato traçado pelos que a conheceram, até mesmo por Alencar Peixoto, que a caluniou. À época de sua chegada ao antigo Joazeiro, contava apenas 20 ou 22 anos de idade, segundo vários autores. Mística, impôs-se ao meio, destacando-se dentre as demais beatas, numa ação preponderantemente exercida por sua religiosidade. Além de virtudes, sua beleza angelical despertava a atenção de quem a via, como foi o caso do próprio Dr. Floro quando lá chegou em 1908. Hermínia Gouveia foi citada por vários autores, não só por sua rara beleza e devoção ao milagre, mas também porque foi vítima de calúnias, envolvendo o nome do Padre Cícero, por seu desafeto, o citado Padre Alencar Peixoto que, rompido com ele politicamente, escreveu ser ela também a chave de ligação no suposto caso das hóstias ensanguentadas, recebidas por Maria de Araújo. Apropriando-se de um momento confuso, vivenciando in-loco todo o cotidiano da casa que o abrigava, de fértil imaginação literária, convenhamos, e com intenção explícita de menosprezar a história religiosa do Juazeiro, foi cruel nos seus ataques, como esse aqui transcrito (Mito e Realidade). Apesar do seu destempero, é nele que vamos encontrar extenso relato sobre personagens da época de 1908 a 1911, quando deixou o Juazeiro. Apesar de exagerados, seus relatos são caricaturas que adquirem vida. Eis um desses que passou à História. Destemido, a ele pouco importava a crueldade das suas afirmativas ou invencionices, e escreveu o que se segue:

“Certo dia, uma das moradoras da casa do Padre Cícero disse-me ter presenciado uma acalorada discussão entre ele (Padre Cícero) e a beata Hermínia, também moradora em sua casa. A discussão consistiu, segundo a informante, em que ela teria ameaçado o Padre Cícero de levar ao Vigário Quintino Rodrigues tudo o que sabia, e que silenciou, sobre o propalado milagre da hóstia ensanguentada’, para que este fizesse ciente ao Bispo Dom Joaquim que tudo não passava de uma burla. Ao tentar sair para se dirigir ao Crato, foi barrada pelo porteiro e segurança da casa. Mas, conseguindo se desvencilhar, saiu, tomando o caminho do Crato. Cientificado de que ela havia saído, o Padre Cícero manda ao seu encalço Antônio Grande, seu empregado e de sua inteira confiança. A ordem era fazê-la voltar. O emissário saiu a toda perna (expressão de Alencar Peixoto), encontrando-a já nas imediações do Crato, conseguindo trazê-la. Ao chegar de volta à casa, o Padre Cícero teve com ela uma longa conferência, que durou quase quatro horas. A partir daí, ela passou a exercer enorme domínio sobre ele, chamando a atenção de todos, dando o que falar.”

Para Alencar Peixoto, Hermínia Marques de Gouveia era também a chave que encerrava muita coisa, ela sabia demais”, segundo dizia. Daí, sua suspeita. E acrescenta: o que me chamou atenção nessa história é que a beata era personagem de destaque dentre outras, naquela casa, prestando reverências ao Padre Cícero, a quem tinha como Deus. E diz: Hermínia Gouveia não era beata, isto é: não recebeu véu e nem fez votos, à exemplo da imensa falange de beatas do Padre Cícero, algumas vindas da Casa de Caridade do Crato e Barbalha, remanescentes do Padre Ibiapina, o Apóstolo do Nordeste. Abeatou-se por conta própria. O fato é que ela dominou o cenário religioso do Juazeiro, exercendo preponderância absoluta. Hermínia Marques de Gouveia chamava a atenção, despertando a admiração de todos do Juazeiro, idem da autora, depois de conhecer sua história, para mim personagem de romance, por sua crença exacerbada no milagre e pelas calúnias atiradas contra ela, que resignada e passiva, não protestou. 

Sua fidelidade ao milagre era impressionante: o que levou essa jovem de 22 anos a tudo abandonar para se dedicar inteiramente ao movimento messiânico do Juazeiro? Acreditando piamente no milagre da hóstia ensanguentada, tendo a beata Maria de Araújo como uma predestinada, e o Padre Cícero como um Ser superior, ela se transfigura, convertendo-se. Sob o efeito do milagre, talvez pensasse ter alcançado a felicidade eterna e ali estivesse a salvo de todos os males. Vivendo o momento mágico do sobrenatural, muda inteiramente sua vida, ao ponto de romper os laços matrimoniais, segurança de vida àquela época. Penso aqui: o que terá padecido Hermínia Gouveia, num meio conservador e moralista, onde a perpetuidade do casamento, por ser indissolúvel, teria que ser eterno? Mas ela rompeu essa tradição, levando às últimas consequências, quando publicamente rejeitou o marido. Por isso, foi censurada e julgada por muitos como adúltera, especialmente por Alencar Peixoto e o clero, que não vacilava em acatar todo horror que se dissese sobre o Padre Cícero e o Juazeiro. Mas se pergunta: em que se baseava o Padre Alencar Peixoto para fazer tamanha acusação e conceituá-la como adúltera, por ter se separado do marido? O escritor e político foi insensível à conversão da beata Hermínia e à sua beleza de santa, repito.

Dr. Floro, como médico, e a conhecendo de perto, dizia ela carregar consigo duas grandes virtudes: pureza e bondade, virtudes estas que Rosseau louvava à imagem da mulher pura e angelical. Para Floro, ela tinha essas virtudes, principalmente a pureza, que na sua visão era traduzida pela fuga ao amor carnal, como provava a separação do marido, por ela rejeitado. Por isso, foi elevada à categoria de virtuosa. Entretanto, para os estudiosos da História Religiosa do Juazeiro, o Dr. Floro fez dela um mito, mito de pureza e castidade, que não existia. Dentre estes, o Padre Gomes, o maior estudioso e intérprete do Milagre da hóstia ensanguentada, que dizia ele ter criado essa lenda de “santidade” da beata. Embora não fosse um fanático, esse seu endeusamento a ela tinha uma só finalidade: dar mais ênfase ao milagre da magia, do mistério, da enganação, esse seu ponto de vista. Já para o literato Alencar Peixoto, o mito da mulher casta e pura não se sustentava, porque ela mantinha com ele, Dr. Floro, algo além de uma amizade cordial. Essa suposição gerou um terrível conflito no clero, após sua morte. Porque o vigário do Crato, Padre Quintino, e o Bispo Dom Joaquim se opuseram a que ela fosse sepultada no corpo da Igreja do Pérpetuo Socorro por ela construída, como queria o Padre Cícero. Daí um novo conflito se estabeleceu entre o Vigário Quintino, o Bispo e o Padre Cícero.

Devotada totalmente ao movimento religioso do Juazeiro, abandonou o marido simplório, um pobre homem do povo, e quem descreve muito bem o ocorrido é o sensato Padre Azarias Sobreira. Vejamos o que escreveu: “Hermínia Gouveia chegou ao Juazeiro na fase aguda dos milagres, no ano de 1889-90, procedente da cidade de Jardim (CE), com apenas 20 ou 22 anos de idade. Atraída pelo fenômeno religioso e pela santidade de Maria de Araújo, e pelo próprio Padre Cícero, a quem julgava como um Ser Superior. Integralmente dedicada à vida religiosa do Juazeiro, o que lhe valeu a separação do marido João Canário, este o seu nome”, disse o escritor. E conclui a observação, dizendo:

“O marido tentou reavê-la pela força a voltar para ele, não conseguindo. Separada dele, sem recursos, e por ser uma adventícia, encontrou dificuldades para achar nova moradia, só encontrando abrigo na família do Padre Cícero, o apoio de que necessitava, isto é: a de um teto para abrigar-se. Lá ela passou a morar, juntamente com sua mãe e sua irmã Angélica, e vários agregados, inclusive o seu caluniador, o Padre Alencar Peixoto, que desfrutava da hospitalidade dos donos daquela casa, sem nada lhe cobrar. Sem um motivo plausível, senão o baseado em suposição, confundindo sua devoção ao milagre, fruto de sua crença religiosa que via em Maria de Araújo, uma ‘santa, pelo milagre da transfiguração da hóstia em sangue”.  

Não há explicação plausível para o caso Hermínia Gouveia, senão sua crença e veneração ao milagre da hóstia ensanguentada. Este o principal motivo que a fez tomar um outro rumo em sua vida, quando rejeitou o marido, levando-o publicamente ao ridículo. Não conseguindo que ela voltasse para ele, abalado e humilhado retirou-se do Juazeiro, e dele não se teve mais notícias senão a de que morreu pobre e esquecido na sua terra natal, a pequena cidadezinha de Jardim (CE),  diz a tradição oral. Por sua ardente fé no milagre da hóstia ensanguentada, a jovem beata Hermínia Gouveia se transfigura, e passam a vê-la como virtuosa, tornando-se uma figura emblemática. O amor e a veneração ao Padre Cícero foram o caminho por ela escolhido, que talvez pensasse ser o caminho do Bem. Quem sabe, acreditasse no perdão divino pelo desenlace do seu casamento, o que, aos olhos da gente conservadora e moralista da época, soava como transgressão ao princípio canônico e indissolúvel do matrimônio.

É dificil descrever o comportamento e o que pensava essa jovem beata, que chegou ao Joazeiro antigo encantada sob o efeito da magia de um milagre, pensando talvez encontrar ali a felicidade plena, imaginando estivesse a salvo de todos os males, como já acentuei. Será que havia nela uma consciência pelo papel desempenhado como crente fervorosa do milagre, ou seria nada mais que a caracterização de uma loucura, loucura essa que a levou ao extremo de tudo abandonar: casa, marido, família (não tinha filhos), para viver a sublimidade do momento mágico do Juazeiro, para ela uma felicidade eterna. A aura de satisfação de ali estar procurando ser útil à causa que ela tanto acreditava, e na certa defendia, era um sonho de um céu que alcançara. Entendeu que, pela graça e pela fé, a mente triunfa. Foi a fundadora da Igreja do Perpétuo Socorro, hoje transformada em santuário e ponto de romaria, por lá estarem sepultados o Padre Cícero, sua mãe e irmã, a beata Maria de Araújo (em sepultura ignorada), José Marrocos, a beata Mocinha, e ela própria.

Mas não só foi ela a ser caluniada. Anos depois, a vítima seria a angelical e terna beata Giluca Bezerra, de olhos verdes e penetrantes. Aqui abro um parêntese para falar desse assunto delicado, mas que faz parte integrante da história cheia de percalços que foi a história do Padre Cícero. A dimensão que ocupam figuras de elevada estatura na História tende a que nada delas se omita, mesmo porque a História, segundo Paul Veyne, “é um conto, uma narração de acontecimentos, verdadeiros ou não, enfim uma descrição do que é específico, isto é, compreensível nos acontecimentos humanos.  Embora seja o assunto de extrema delicadeza, o Padre Azarias Sobreira, respeitável personalidade, como disse Austregésilo de Athayde,  trouxe à público essa página da história do Juazeiro. Leiamos sua versão dos fatos, citada em O Patriarca do Juazeiro. Conterrâneo e afilhado de batismo do Padre Cícero, e também seu confessor por muitos anos. Eis o que disse:

“Certa vez de passagem pelo Juazeiro, um sacerdote que se dizia amigo do Padre Cícero dirige-se à sua casa para uma rápida visita de cortesia. Em lá chegando, não o encontrou como de costume, na sala de recepção onde recebia os visitantes, quando foi informado por sua irmã Dona Angélica, a santa’, como era conhecida, pelos seus dotes de bondade e ternura, que o Padre Cícero encontrava-se em uma conferência particular com uma de suas beatas, Geronima Bezerra, a Giluca. Dona Angélica fez ver ao visitante que ele não demoraria, pois já fazia algum tempo que lá se encontrava, portanto,  convinha aguardá-lo. Passados alguns instantes e impaciente com a demora, o visitante já apresentava suas despedidas, quando de repente abre-se a porta da sala de conferências e lá aparece o Padre Cícero. Logo atrás dele estava Giluca, que não podendo ocultar a surpresa do visitante, desequilibrou-se, quase caindo. Segundo o informante do texto ora transcrito, a beata transformou-se, e com as faces acentuadamente coradas, bastante embaraçada, tropeçou, sendo amparada pela incômoda visita. Foi o suficiente para que o mesmo desse a conotação bem ao seu modo, e comentasse o episódio dizendo-se decepcionado, pois na sua concepção vira algo de estranho no fato.

Diz ainda o autor do texto que o tal sacerdote lançou dúvidas sobre a castidade sacerdotal do Padre Cícero, bem como da beata. O motivo: o simples fato de Giluca ter-se apresentado além das faces muito coradas, totalmente desconcertada” (op.cit.). Geronima Bezerra, ou Giluca, como era vulgarmente conhecida, talvez fosse tímida, tanto que, ao ver o sacerdote visitante, embaraçada e corada como se algo lhe tivesse acontecido. Essa é uma das predisposições dos tímidos, segundo o estudioso do assunto, Hartemberg, autor de um livro célebre sobre o assunto, citado por Medeiros e Albuquerque em Hipnotismo, que, resume-se no seguinte: “Há, de fato, pessoas que a todo propósito e principalmente sem propósito algum, coram de um modo intenso, desde que se encontrem em presença de outros. Parece sempre que acabaram de ser surpreendidas na prática de algum crime”.

A beata Giluca, além da timidez, parece que anteviu com precisão o que daquela fatalidade de uma visita inesperada e inoportuna surgiria. E o comentário malicioso veio, pois no cérebro doente do representante do clero, ele viu o ocorrido por outro ângulo, qual fosse, o da falsidade, no simples intuito de ferir susceptibilidades, atingindo diretamente a honorabilidade do Padre Cícero. Era do conhecimento de todos o voto de castidade que fizera aos doze anos de idade, inspirado em São Francisco de Salles. Atestado por ele, perante o Bispo Dom Joaquim, com a mão direita sobre o livro dos Evangelhos, no Palácio Episcopal, quando depôs sobre o fato milagroso do Juazeiro. Declarando-se um casto, tornaria o fato público através do seu testamento. Apesar de não ser mandamento divino, mas simples lei eclesiástica, ele cumpriu à risca o juramento que fizera. Os que conviveram com ele mais de perto, o testemunho é de que, nesse tocante, ele foi insuperável. Entre estes, está o citado Padre Azarias Sobreira (ibidem), que disse: “Nesse particular, ele atingiu os píncaros do heroísmo, pois via passar diariamente diante de si dezenas de pessoas do sexo feminino, e para todas ele tinha um mesmo olhar — o da circunspecção”.

Retornando à personagem Hermínia Gouveia, ela não poderia passar despercebida, porque mística e bela. Tomo aqui de empréstimo o que escreveu Marshall Berman no seu belo livro, Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar: “O misticismo tem o tom do lirismo e da beleza”. E ela realmente era bela como uma santa.

Eis tudo que restou da sua história. Foi a responsável pela fundação da Igreja do Perpétuo Socorro, promessa que fizera, segundo ela, à santa pelo restabelecimento de uma moléstia grave, que vitimou o Padre Cícero no ano de 1906. Mesmo morrendo com fama de virtuosa, ainda provocou um terremoto, porque o vigário do Crato, o tão mencionado Padre Quintino, e o Bispo Joaquim opuseram-se formalmente a que ela fosse sepultada na citada Igreja, dizendo ser uma profanação, pelo que se dizia a seu respeito. Aí uma execração pública não mais a ela, mas ao Padre Cícero, que a tinha na conta de uma pessoa de bem. Além de atirar-lhe as mais desastradas calúnias, baseado, ao que tudo indica, nos escritos de Alencar Peixoto, como comenta Floro Bartolomeu no seu citado livro. Aos olhos do clero, a construção da Igreja era mais um ponto de apoio ao fanatismo reinante no Juazeiro, e embarga a obra. Mesmo assim, com todo esse levante, houve resistência do Dr. Floro, que, num rompante de indignação, ignorou a ordem do Bispo, dando ordens de sepultá-la no solo sagrado do cemitério anexo à pequena igrejinha. E lá repousa para sempre entre os familiares do Padre Cícero aquela que despertou admiração e amizade entre seus coevos. Mas o gesto temerário do Dr. Floro fez aflorar a indignação do vigário Padre Quintino, que teve o apoio do Bispo para embargar a obra, tal qual fizeram com a frustrada construção da Igreja do Horto. Floro Bartolomeu, no seu livro às páginas 102, escreveu:

“Depois de ter sido embargada a construção pelo Bispo, a beata Hermínia procurou-me, dizendo-se triste e decepcionada, e suplicou-me que intercedesse perante o vigário do Crato, Padre Quintino, o término da construção da Igreja, já a essa altura interditada. Portadora, ao que deixava entrever, de forte premonição, disse esperar sua morte para breves dias, e desejava ser sepultada no solo da Igreja que construíra. Seu pedido impressionou-me, então resolvi não mais consultar o clero, porque via em tudo isso pura perseguição ao Padre Cícero. Deterrminei o prosseguimento da obra, e quando faltava pôr a última fileira de telhas na cobertura, eis que subitamente morre a beata Hermínia Marques de Gouveia (Joazeiro do Padre Cícero, op.cit.).

A propósito das premonições da beata Hermínia, eis o que escreveu Amália Xavier (op.cit.):

“Dizem que ela tinha visões e escrevia tudo a mandado do seu diretor espiritual, o Padre Cícero. Poucos dias antes de morrer, queimou alguns papéis e mandou enterrar outros, no que desagradou o Padre Cícero, que os fez desenterrar. Encontrados, estavam ilegíveis, por ter chovido noites seguidas sobre eles, nada foi aproveitado”.

A beata Hermínia Gouveia pertencia a uma das famílias tradicionais de Jardim, era prima da Madre Ana Couto, Primeira Superiora das Filhas de Santa Tereza do Crato. Altamente equilibrada, governou por muitos anos aquela casa, e era estimada por todo o Vale do Cariri.

O testamento do Padre Cícero: é sabido que foram dois testamentos por ele feitos. O primeiro, escrito do seu próprio punho no ano de 1922, o segundo, em 1923. No primeiro, ele deixava todos os seus bens para a Congregação dos Frades Trapistas e Premonstratenses. Sediados em São Paulo, apesar de já em declínio, foram eles os escolhidos por ele para fundar e dirigir um Colégio no Juazeiro para a educação do seu povo. Depois mudou de opinião, e preferiu a ordem dos Salesianos. De acordo com alguns autores, o ponto de vista do Dr. Floro Bartolomeu pesou na sua decisão, por achar que a Congregação Trapista estava em declínio e sem vínculo algum com o Brasil. Os Salesianos então foram sua escolha, a quem contemplou com toda sua fortuna, conforme declaração expressa nesse novo testamento de 1923, quando assegura se encontrar em plena lucidez das suas faculdades mentais, declarada no início do testamento. Esse segundo testamento foi escrito pela pena brilhante do jornalista e advogado Raimundo do Monte Arrais. Nele, ele dá nova direção a seus bens e aos bens da Padroeira Nossa Senhora das Dores, deixando a maior parte para a Congregação dos Salesianos. Seu testamento constou de 31 sítios, vários terrenos agricultáveis, cinco fazendas de gado e benfeitorias, três sobrados, 17 prédios, quatro quarteirões de casas, casas no Crato e sítios no Rio Grande do Norte e Pernambuco e  uma mina de cobre (Coxá).     

Num rasgo de generosidade, contemplou a criadagem de sua casa e algumas beatas com sítios e casas no Juazeiro, caso da beata Giluca, já citada atrás. Retirando também, por ordem expressa do Dr. Floro, a doação que no primeiro testamento teria feito para o Arcebispado e o Seminário Arquidiocesano de Fortaleza, o Bispado e o Seminário do Crato, a Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza e a Casa de Caridade do Crato, lembrando: aquela que serviu de palco para a montruosa crueldade à beata Maria de Araújo. Por fim, a Santa Sé, na pessoa do Papa reinante.

O Padre Cícero era mesmo uma pessoa extraordinária e, sobretudo, um homem do Bem. Não guardava mágoa nem rancor, como está expresso nessa primeira doação feita a essas entidades que tanto o perseguiram. Dr. Floro, como seu representante político, achou extremamente chocante a doação milionária a quem só o tinha perseguido de maneira cruel, e sugeriu a anulação do testamento, e que outro fosse feito. Finalmente, no segundo testamento, o que realmente prevaleceu foi ele ter legado aos Salesianos toda sua fortuna, fazendo-os seu herdeiro universal. Sua única exigência: fundar no Juazeiro um Colégio para a educação do seu povo. Eis aí o grande legado que deixou para seu povo: Educação, e para todos, sem acepção de cor ou posição social. Volto a dizer: o Padre Cícero sempre esteve à frente do seu tempo. Nessa doação milionária aos Salesianos, o que exigiu ele? Simplesmente que fundassem um Colégio para a educação dos jovens, por confiar nas possibilidades do ser humano, porque um otimista. Rogava que terminassem a Igreja do Horto, seu sonho, um sonho irrealizável, que o clero jamais consentiu fosse tornado em realidade.

Depois de muitas contradições e especulações, sem o apoio total do clero do Crato, escreveu Edmar Morel (op. cit.), os padres salesianos lá chegaram, e não foram banais as divergências, motivando de ambos os lados muitas mágoas, como já escrito noutra parte desta obra. Todavia lá estão eles, há mais de meio século cumprindo fielmente a obra máxima do fundador da Congregação, o imortal Dom Bosco, no seu estilo único no mundo da pedagogia. Mas um pormenor continua sem resposta até hoje, e se pergunta: porque os Salesianos, seus verdadeiros herdeiros, não deram cumprimento à obra máxima do Padre Cícero, que era o término da construção da Igreja do Horto? A resposta parece ser a seguinte: pela indiferença com que foram recebidos pelo clero do Crato, como atestam as declarações do Revmo Padre Davino, já citadas, é de crer-se que foram barrados mais uma vez por quem tinha forças e poder para fazê-lo.

A Igreja que seria construída era em pagamento de uma promessa feita por ele, no ano de 1889, para que cessasse a estiagem que castigava o Cariri, uma seca que perdurou por mais de dois anos. A construção dessa Igreja era seu sonho. Embargada em 1890 pelo Bispo Joaquim, ele nunca deixou de alimentar o sonho de vê-la construída, é o que se deduz pela maquete que trouxera de Roma e que até hoje existe, exposta em museus do Juazeiro como relíquia. A Igreja do Horto, se construída, seria um dos grandes templos do Nordeste, pelo arrojado da sua construção barroca, com 20 torres e 16 portas laterais, incluindo janelas. Além da grandeza arquitetônica da sua construção, a visão panorâmica da Serra do Horto, impressionantemente bela. A realidade é que jamais o clero se interessou por essa construção, ao contrário, como escreveu Amália Xavier (op. cit.): “Mãos criminosas e iconoclatas destruíram o que lá ainda restava como lembrança de um passado. A escritora não cita nomes, de quem sacrificou “a velha Timbaúba centenária de recordações perenes para dar lugar a uma torre retransmissora de TV”. Também não faz referência à derrubada dos alicerces à picareta que lá existiam até a decáda de 46. Segundo o escritor Edmar Morel, a ordem foi dos Salesianos, fazendo uma veemente crítica, por serem eles herdeiros do Padre Cícero. Embora achando estranho, termina por dizer: eles devem ter obedecido ordens do clero do Crato, na pessoa do Bispo.

Mas nos anos 70 foi construída a grande estátua na colina do Horto, uma homenagem do povo do Juazeiro e do Nordeste ao seu benfeitor e líder incomparável. Ela tem a altura de 25 metros e pesa 500 toneladas. Foi um dia de memorável regozijo para seu povo, o qual tive a felicidade de assistir, guardando eterna recordação.    

O Padre Cícero, em toda sua vida, só assumiu duas Paróquias: a primeira, depois de ordenado em 1871, conforme já assinalado; a segunda, em São Pedro do Crato, hoje Caririaçu. Mas foi tão rápida sua passagem pelas duas, que muito dos seus biógrafos nem escreveram sobre o fato. Dessa última, têm-se ciência, além dos registros paroquiais, também através de uma carta do Bispo Dom Joaquim, lamentando que ele tivesse de deixar a freguesia por motivo de saúde, no ano de 1886. A carta, de teor canônico, leva grande importância, não só pelo brilho literário, mas pelo tratamento ainda fraternal que lhe dava, quando menciona suas virtudes, aliás, como o fizera em 1884, na inauguração da nova Capela do Juazeiro, por ele construída. Numa retórica emocionada, disse:A virtude do Padre Cícero enche todo o Vale do Cariri”. Bons tempos aqueles, quando o Bispo não escondia a admiração que devotava ao seu pupilo, e o tinha na conta de um virtuoso, um reformador, um verdadeiro servo da Igreja. Depois, foi tudo que aqui está escrito, que ficará como um registro histórico, do que foi o ódio de uma classe contra a mesma classe.

Inegável é dizer-se que o Padre Cícero se pensou historicamente. Seu testamento, bem como outros documentos aqui registrados, deixa claro. Às vezes, em uma simples carta, ele fazia questão de que seu pensamento passasse à posteridade, como foi o caso de uma dessas, enviada ao então vigário do Crato, o tão mencionado Padre Antônio Alexandrino de Alencar, nos idos de 1897. No auge da crise religiosa, o citado vigário insistia para que o Padre Cícero deixasse o Juazeiro em breve tempo, para o bem do bispado do Ceará, ao mesmo tempo em que o intimava a comparecer a uma conferência no Crato, para ouvir dele, pessoalmente, essas recomendações passadas pelo Bispo Joaquim. Bastante traumatizado e humilhado por anos a fio, viu que o encontro de nada adiantava, senão receber cáusticas e costumeiras reprovações. Decidiu não comparecer ao chamado do Vigário, preferindo registrar para a posteridade através de uma carta, para ele uma forma de dizer ao povo os sofrimentos de que foi vítima ao longo de 45 anos batidos. E começou a carta com as palavras latinas. Verba volanti et escripta manent, que em vernáculo, é: as palavras voam, a escrita fica, escreveu Irineu Pinheiro (op.cit.).

Analisando a atuação do Padre Antônio Alexandrino de Alencar, como Vigário do Crato, a quem era subordinada a capela da povoação do Juazeiro, durante a fase do processo canônico, veremos que ele apenas foi um instrumento que o bispo cruel usou para submeter o Padre Cícero e a beata Maria de Araújo a provações que transcendem o limite do inimaginável. Os Vigários de freguesias tinham que se submeter a essas imposições, sob pena de excomunhão. Talvez dissesse Dostoiewiski: o Grande Inquisidor da grave e explosiva Questão Religiosa do Juazeiro foi de fato o Bispo do Ceará, Dom Joaquim José Vieira.

Em 1923, quando o Juazeiro já era Paróquia, portanto, não dependente do Crato, o Padre Alexandrino, elevado a Monsenhor e nomeado para reger a freguesia de Picos (PI), foi ao Juazeiro despedir-se dos seus antigos paroquianos. Recordações da memória histórica registram a seguinte passagem, que chegou até aqui: o Padre Alexandrino, num gesto de arrependimento, embora tardiamente, diga-se, do altar da Igreja de Nossa Senhora das Dores, em lágrimas pede ao povo que o escutava desculpas pelos excessos cometidos durante e depois do processo canônico do Juazeiro, dando a entender que assim procedera porque a tanto fora obrigado por seu superior hierárquico, deixando clara sua posição de subserviência ao alto clero. Essa passagem é comentada por vários escritores, que os registros históricos confirmam, embora tenha sido de imediato contestada por seu sobrinho, o jornalista Loiola de Alencar, que saiu a campo em longo artigo, desmentindo o episódio. Lê-se em Floro Bartolomeu (op.cit.), Azarias Sobreira, (ibidem) e Irineu Pinheiro (idem). Fica aqui registrado mais uma vez, e apesar do desmentido de Loiola de Alencar, a autora prefere ficar com os autores acima mencionados.

O Padre Cícero morreu acreditando na sua reabilitação, senão pela Igreja militante, pela Igreja triunfante, e evocava Joana D'Arc, queimada viva pela Inquisição como feiticeira, e que depois foi reconhecida por essa mesma Igreja, que a elevou à honra dos altares. Sua inabalável confiança na Divina Providência o levava ao extremo. Não era dado ao ressentimento, para ele o perdão estava acima das perseguições, das calúnias, das mesquinharias. Um dia, perguntaram-lhe o que achava dos cáusticos e desprezíveis artigos do Padre Dubois à sua pessoa, como esse:

 

                                            MÍSTICO

                  Eclesiasticamente o Padre Cícero é um perjuro

                  dos seus votos de obediência, teimoso, obstinado

                  que jamais se quis sujeitar às decisões da Igreja,

                  porque se julga infalível contra os votos dos seus superiores.

                                                             Padre Dubois.

Sua resposta foi:

Seus artigos não me incomodam, eles dão a dimensão do tamanho da sua mente mesquinha, mas uma coisa fica clara. Seu comportamento o apequena com reflexos para todo o clero. Essas coisas não mais me atingem, já estou com o couro grosso de tantas bordoadas, os de bom senso saberão me julgar.

Sempre recorrendo ao princípio emanado do Novo Testamento de que só Deus é o único Juiz da fé humana.

Nos seus sermões carregados de fé e piedade, dizia que um novo tempo se aproximava para expiação dos pecados, e isto causava mais polêmica entre ele e o clero, sob a égide de Dom Joaquim, um seguidor do Tomismo, que só admitia três transcendentais, “unidade, bondade e verdade”, e nega uma segunda redenção. Para os tomistas, o sofrimento de Cristo foi, é e será para sempre único, divergindo dessa forma dos crentes dos milagres do Juazeiro, que pregavam que o sangue ali aparecido prenunciava uma Nova Era, e que o fim do mundo se aproximava. Versados nas Escrituras Sagradas, referiam-se ao Apocalipse, e que era chegada a hora para conversão dos pecadores, evocando as profecias.

Como vimos, os esforços do Bispo foram infrutíferos para suplantar a crença no sobrenatural, no caso da transformação da hóstia em sangue. Aí ele recorreu ao extremo dos extremos, como assinalado, e lutou contra, até seus últimos momentos à frente da Diocese do Ceará.

Das curas milagrosas do Padre Cícero, escreveu Manoel Diniz em seu Mistério do Joaseiro (op.cit.):

“Devo dizer que fui testemunha de algumas dessas curas. Dezenas de pessoas lá chegavam diariamente à procura de alívio para seus males, quando ele lhes prescrevia chás, purgantes e até sangrias. Ao deparar-se com os doentes, uns em estrados, outros trazidos em redes por braços hercúleos, muitos acometidos de paralisia. Ao encará-los, traçava-lhes o sinal da cruz, tocando-lhes a parte afetada, e no gesto de suas mãos, ao traçar o sinal da cruz, ordenava que se levantasse, o que conseguia. Nos acometidos de loucura, era o mesmo ritual, com uma diferença: nestes, ele tocava-os com o rosário, pondo-lhes a mão sobre a cabeça, aí então mandava que desatassem as cordas que os prendiam e o que se via era eles caírem em prantos (Manoel Diniz, op.cit.).

Quem sabe, além da fé, que muitos pensam tudo alcançar, a atmosfera mística e religiosa do Juazeiro e a aura de carisma que carregava consigo não o ajudassem a realizar as curas, os chamados Milagres, e foram dezenas deles, continuando até aqui, quando encerro essa modesta biografia.

Assim foi o Padre Cícero, o homem que seus seguidores julgavam um enviado de Deus, que passou a vida a fazer o bem, e mesmo assim foi criticado pelos que não quiseram compreender sua grande obra. Criticaram-no até mesmo no seu modo de se expressar, quando sabemos que seus ouvintes eram de maioria analfabeta. Ora, se ele, ao chegar à insignificante povoação, constituída por uma gente rústica, a maioria de iletrados, tivesse usado de uma retórica imponente, na certa teria atrapalhado seu apostolado, paralisando sua ação, que era justo a da transformação daquela gente submissa e subjugada em cidadãos capazes, como o fez. E foi por entender a clareza do seu linguajar perceptível que ele despertava admiração e deslumbramento naqueles que o ouviam, realizando assim o seu ideal, que era o de amparar seu povo, dando-lhes cidadania. Começava no Juazeiro o advento de uma NOVA ERA.

Encerrando sua história que, reconheço, não está aqui descrita totalmente, pelo muito que foi e fez, tomo de empréstimo as palavras de Guimarães Rosa, de que: “certos homens não morrem, ficam encantados”. O Padre Cícero é um desses, está encantado no seu Juazeiro até hoje, despertando a admiração e o respeito dos que o visitam, e trabalhando em espírito pelo bem da humanidade, e esse encantamento constatei em três anos que lá morei.

 

****

    

NOTAS

 

1 A data desse diálogo foi 5 e 6 de agosto, dia consagrado à Transfiguração.

2 A concepção do Bispo Dom Joaquim, formulando estas teses, inegavelmente iria parar nas teses em que se baseava o eminente professor de psicologia, Grasset, de Montpellier, Paris, que tinha a mesma concepção da Escola de Nancy: sugestibilidade, nada mais, e ainda classificava de pretenatural, isto é milagres de terceira ordem. Numa palavra: diabólico.

3 Segundo o Bispo Dom Joaquim, esse folheto foi largamente distribuído na cidade de Roma, quando lá se encontrava o Padre Cícero, no ano de 1897.

4 O Juazeiro dista 10 Km da cidade do Crato.

5 Único médico a depor duas vezes. Isto porque o Bispo Dom Joaquim, já de antemão, contrariando o seu testemunho anterior, retrucava sua afirmativa do sobrenatural.

6 Terras alencarinas: uma homenagem à família Alencar, pela participação nos fatos históricos nacionais, notadamente nas revoluções de 1817 e 1824, onde destacou-se a figura de Bárbara de Alencar, a "Heroína", e seus filhos, José Martiniano de Alencar e Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, o Mártir da Confederação do Equador.

7 A Bula, criada por Inocêncio VIII no ano de 1484, abominava fatos que representassem o contrário da teologia romana.

8 As beatas pertenciam à Casa de Caridade do Crato, e outras pertenciam a Casa de Caridade de Barbalha.

9 Ainda hoje existe a maquete da igreja, trazida de Roma pelo Padre Cícero, em estilo barroco, seguindo a linha das igrejas de estilo colonial do Nordeste. A igreja, se construída, seria sua obra máxima, síntese do seu pensamento.

10 O Concílio de Constança condenou João Huss em 1512. Por suas doutrinas antirromanas, foi queimado vivo, e suas cinzas foram jogadas no Reno.

11 Chamado de Caldeirão dos Jesuítas, porque lá viveram por vários anos, até a morte, dois Jesuítas fugidos da perseguição do Marquês de Pombal.

12 José Lourenço, o Beato, deixou o Cariri, retornando à sua terra de origem, a Paraíba, onde morreu aos 70 anos de idade.

13 A infalibilidade do Papa foi proclamada no Concílio do Vaticano em 1870 e tornada dogma de fé pela Igreja Católica, que estabeleceu ser o Papa infalível por uma assistência especial de Deus. Só ele era digno deste privilégio. O ato criou polêmica entre católicos da Suíça e da Alemanha à época (Extraído de Lello Universal, p. 1290).

14 Segundo o Dr. Floro, as minas do Coxá mediam 3.600 braças de comprimento e 2.400 de largura, o que equivale a 9 e 6 km, respectivamente.

15 A reportagem referida é do jornalista Moraes Né, e foi publicada em página seleta do jornal de maior circulação do Ceará, O Povo, de Fortaleza, edição de março de 1960. A moeda circulante à época era o cruzeiro.

16 Sandálias de couro, tipicamente nordestina, muito usada pela população em geral.

17 Saídas da cidade do Crato.

18 As admoestações do Padre Cícero refletem suas ideias de paz, condena explicitamente a violência, abomina a ingestão de álcool, e dá ordens para deixarem a cidade livre, para quem quisesse se retirar.

19 Dona Federalina Augusto, a líder feminina dos sertões daquele tempo, mulher forte e irresistível nas lutas políticas de Lavras da Mangabeira, destacou-se pelo papel que exerceu, de líder que não se dobrava a injuções políticas.

20 Nesse mesmo dia, o Coronel Antônio Luís foi reempossado na Intendência do Crato.

21 Filemon e José Magalhães, este conhecido por Zequinha das contendas.

22 O Marechal Hermes era Grão-Mestre da Maçonaria, por isso recebeu o repúdio da Igreja.

23 O Coronel Franco Rabelo teve o mesmo destino que seu sogro, o General Clarimundo de Queiroz, que também foi deposto do governo do Ceará, nos idos de 1900, quando os Acciolis acenderam ao poder.

24 Para os estudiosos de forças ocultas, era somente telepatia.

25 Venceslau Braz, à época presidente da República.

26 João Tomé, Presidente do Ceará.

27 Jornal Unitário, 17/07/1915.

28 Registre-se também que seu solo é produtivo, um dos mais ricos do mundo.

29 O açude Acarape foi iniciado nos idos de 1900.

30 Dr. Leandro Bezerra de Menezes era filho do Crato e descendente direto do Brigadeiro Leandro Bezerra de Menezes. Foi Senador do Império por Alagoas, conceituadissímo no Rio e em Niteroi, onde foi Juiz por décadas. Deixou um nome impoluto, e até hoje lá existem seus descendentes. Morreu aos 85 anos de idade.

31 José Maria Lobo era sócio correspondente da Santa Sé, um cargo extraordinário, de grande valor à época. Pertencia à Guarda Nacional e era advogado rábula. Diz a história que morreu pobre e esquecido; raramente seu nome figura nos acontecimentos religiosos do Juazeiro, a maioria dos escritores desprezam-no, quando na verdade ele foi, depois de Marrocos, o maior divulgador do Milagre.

32 Guilherme Studart presidiu o Conselho Central por 42 anos seguidos. Era bisneto do Capitão Domingos Gonçalves Martins, pioneiro naquelas terras.

33 Criador do remédio Bálsamo da Vida, de efeito magnífico, ainda existente, hoje sob o controle dos seus descendentes. Era também proprietário do jornalzinho O Ideal, que fez época no Juazeiro daquele tempo, e foi fechado pelo Dr. Floro, seguida de coações psicológicas, segundo ele dizia,  que levaram sua mulher à loucura.

34 O escritor Azarias Sobreira (op. cit.), também dá conta de que, nos dias tumultuosos, o autor do livro João Pergunta, Newton Craveiro, cheio de ódio, estava a redigir um artigo na sala de redação do Jornal Gazeta do Juazeiro, de propriedade, do Dr. Floro, e no auge da raiva foi fulminado por um colapso cardíaco.eu escultor foi um dos maiores do Rio à época, Laurindo Ramos.

36 O Joazeiro do Padre Cícero, O Patriarca do Juazeiro, A Revolução de 1914.

 

 

BIBLIOGRAFIA 

ALBUQUERQUE, e Medeiros. Hipnotismo.

ANSELMO, Otacílio e Silva. Mito e Realidade.

BARBOSA, Valdemar. História de Minas.

BARROSO, Gustavo FILHO e Martins. O Ceará 2ª Edição.

BARTOLOMEU, Floro da Costa. Juazeiro do Padre Cícero.

BETTO, Frei. Mística e Espiritualidade.

BOSSI, Alfredo. Diáletica da Colonização.

BRIGÍDO, João. Ceará: Homens e Fatos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões.

DELLA CAVE, Ralph Mistério em Joazeiro.

DINIZ, Manoel. Mistério do Joazeiro.

FILHO, Lourenço Manoel. O Joazeiro do Padre Cícero.

FREIRE, Gilberto. Problemas Brasileiros de Antropologia.

FRIEDRICH, Willhem Nietzch. Além do Bem e do Mal.

GOMES, Antônio Padre. Origens do Cariri.

LE GOOF, Jacques. História e Memória.

LINS DE ALBUQUERQUE, Ulisses. Um Sertanejo e o Sertão.

MACEDO, Nertã. O Padre e a Beata.

MOREL, Edmar. Padre Cícero, o Santo do Juazeiro.

NOBRE, Luciana. Dona Bárbara.

NOGARE, Della. Humanismo e anti-Humanismo.

PINHEIRO, Irineu. A Revolução de 1914 no Juazeiro. 

PINHEIRO, Irineu. Efemérides do Cariri.

QUINDERÉ, Monsenhor. História Eclesiástica do Ceará.

RISÉRIO, Antônio. Uma História da Cidade da Bahia.

SOBREIRA, Azarias. O Patriarca do Juazeiro.

TEÓFILO, Rodolfo. A Sedição do Juazeiro 1914.

THÉRBEGE, Pedro. História da Província do Ceará.

WHITE, Ellen. O Grande Conflito.

XAVIER, Amália. O Padre Cícero Que Eu Conheci.

XAVIER, Antônio de Oliveira. Beatos e Cangaceiros.

JORNAIS E REVISTAS:   

A República (1892)

Diário de Pernambuco (1891)

Jornal  da Aparecida (São Paulo)

Jornal do Comércio do (Rio 1891)

O Fluminense. (1900)   

O Rebate (Juazeiro1909)

O Nordeste (Fortaleza)

Unitário (Fortaleza)      

Gazeta do Joazeiro (Joazeiro 1925)

Jornal da Diocese do Crato (Crato 1926)

Sul do Ceará (Crato 1909)

Era Nova (Recife 1891)

Gazeta do Cariri (Crato)

Folheto da Cidade de Água Branca (PB 1891)

Tipografia Cratense (1890)

Arquivos: Padre Gomes (Crato)

Seminário da Prainha (Fortaleza)

Arquivos do Estado do Ceará

Revistas Itaytera (Crato)  

Cigarra (Rio)

O Cruzeiro (Rio)

Holanda, Joaquim (Crônica da Guerra de 1913-14)    

A Região (Diocese do Crato)        

Comentários